Um suicídio em longo prazo

Um suicídio em longo prazo

Suicidar-se nunca é uma boa idéia. Por pior que seja a situação da pessoa, é melhor seguir do que simplesmente acabar com a própria existência. Porém, se a autopunição é feita lentamente, ganha requintes de idiotice ainda maiores. Pois é isso o que algumas federações de futebol têm feito. Na ânsia de reforçarem suas seleções, naturalizam jogadores sem relação alguma com o país e tiram, no longo prazo, a razão de ser das equipes nacionais.

O fato ganhou repercussão no Brasil por causa do atacante Francileudo Santos (foto), tunisiano do Maranhão, e de Aílton, Dedê e Leandro, todos brasileiros que atuam na Alemanha com convites para se tornarem catarianos mesmo sem nunca ter pisado em Dubai ou outra cidade do país. Aceitaram em princípio, mas ainda não oficializaram a naturalização.

Se fossem apenas esses casos, até dava para ignorar o problema. O fenômeno, porém, é mundial. Na Copa Africana de Nações, Ruanda entrou em campo com o angolano João Elias e os congoleses Nkunzingoma e Makasi. Todos naturalizados especialmente para a competição. Na Copa de 2002, a Polônia tinha em seu time titular o nigeriano Olisadebe.

Não é errada a mudança de nacionalidade, desde que isso tenha motivações pessoais, como um jogador que mora há anos em um país e o adotou como segunda pátria. Ou em descendentes que resolvem defender a seleção de seus pais ou avós. O problema é quando a mudança se dá por motivos financeiros e o processo de naturalização foge dos padrões normalmente adotados por interesse das autoridades do país em questão.

No futuro, o Catar pode contratar a seleção brasileira ou argentina sub-21 e torcer para os jogadores vingarem no profissionalismo. Imaginando que outras federações façam o mesmo (falta de pudor não é problema), o princípio da seleção nacional estaria destruído. França, Brasil, Itália, Alemanha, Inglaterra, Rússia, Espanha, Portugal, Coréia do Sul, Estados Unidos, Marrocos, Arábia Saudita e Austrália estariam representados em uma Copa apenas antes do jogo, no momento da entoação dos hinos nacionais.

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Em campo, isso tudo acabaria. Seriam duas equipes de 11 jogadores de igual número de pátrias-mãe. Muito parecido com os principais campeonatos europeus de hoje. Mas, se é para as competições de seleção se igualarem às de clubes, para que mantê-las? O G-14 (espécie de Clube dos 13 dos grandes da Europa, mas muito mais poderoso, organizado e profissional que seu equivalente brasileiro) está louco para que as equipes nacionais deixem de existir e fazem de tudo para dificultar a liberação de jogadores. “Contratar” atletas para atuar em seleções só dará mais argumentos a entidade.

Ainda bem que a Fifa já percebeu o perigo representado pela naturalização por dinheiro. A dúvida é descobrir que artifício legal a entidade poderia usar. Juridicamente, um país soberano tem todo o direito a conceder cidadania a uma pessoa, independentemente de seus motivos. Como impedir que governos menos sérios passem por cima de procedimentos internos para reforçar suas seleções de futebol em um torneio?

A Fifa poderia criar sua própria regulamentação, levando em conta apenas o país de nascimento. Seria outro absurdo, pois atropelaria a vontade legítima de jogadores que mudaram de pátria na juventude ou durante a carreira e ignoraria as leis de qualquer país. Há a possibilidade de obrigar o jogador a definir sua nacionalidade futebolística assim que se profissionalizasse, mas continuaria batendo de frente com o direito de alguém mudar de idéia com 25 anos e não resolveria nada, pois agentes buscariam talentos em torneios sub-21 para mudar suas nacionalidades. Seria até pior, pois criaria um mercado organizado para isso.

Uma saída é tentar o consenso, como um acordo entre todas as federações para não contratarem jogadores para suas seleções. Seria o ideal se desse para confiar na palavra de dirigente de futebol. Talvez criar uma comissão que julgue as naturalizações e conceda (ou não) o direito de defender uma seleção. Mas esse caminho criaria uma burocracia a mais, continuaria dando espaço a injustiças e, pior, envolveria politicagens internas da Fifa.

Por isso, o suicídio das seleções é eminente. Por ser lento e gradual, todos vêm a morte se anunciando, mas ninguém sabe ainda qual o remédio para o veneno de efeito retardado. Espero que alguém descubra a solução antes que seja tarde.

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Será que Aílton se passa por catariano? *

Vamos a uma retrospectiva rápida, já que jogadores que trocam de nacionalidade nunca foram novidades. Em 1934, a Itália foi campeã mundial utilizando argentinos, uruguaios e um brasileiro, todos descendentes de italianos, alguns com passagens anteriores pelas seleções de seus países de nascimento. Na época, a Fifa permitia que um jogador mudasse de “nacionalidade futebolística”, desde que ficasse afastado de jogos internacionais por um período.

Assim foi até a Copa de 1962. Nessa fase, houve casos muitas vezes esquecidos, como o argentino Di Stefano e o húngaro Puskas na seleção da Espanha e os uruguaios Schiaffino e Ghiggia com as cores da Itália. Ainda assim, todos esses atletas moravam há anos em sua nova pátria e até podiam argumentar que tinham ligações afetivas.

Após o Mundial do Chile, a Fifa determinou que um jogador que atuasse por uma seleção não poderia defender outra nunca mais. Então, apenas os “renegados” por suas equipes nacionais jogavam em outras. Casos como o dos brasileiros naturalizados japoneses Rui Ramos e Wagner Lopes.

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Foi também o caso de muitos jogadores com descendentes de outros países. Na segunda metade dos anos 80 e primeira dos 90, a Irlanda teve sua primeira seleção de relativo sucesso no futebol. A maior parte da equipe era composta por ingleses (como o londrino Paul McGrath, na foto) ou escoceses de famílias irlandesas. A Jamaica também buscou ingleses com origens na ilha caribenha para montar a seleção que foi à Copa de 98. na Turquia terceira colocada no Mundial de 2002, Umit Davala e Ilhan Mansiz são alemães de nascimento.

Até então, era possível justificar as naturalizações. Muitos filhos de imigrantes têm mais ligação com a terra de sua família do que com a própria. Com também são compreensíveis as razões dos “alemães” Asamoah (nascido em Gana) e Klose (Polônia). Ao contrário do que parte da imprensa brasileira divulga, eles não foram naturalizados para reforçar a seleção alemã. Ambos moram na Alemanha desde a adolescência e podem dizer que se consideram mais alemães que ganês ou polonês.

Em janeiro desse ano, a Fifa permitiu que jogadores que atuaram por seleções menores (sub-21, sub-18 etc.) pudessem defender outra nação depois de adultos. Isso fez com que vários ex-juniores da França se transformassem em tunisianos e argelinos. O impedimento que vigorou até 2003 impossibilitou que o goleiro colombiano Navarro Montoya defendesse a seleção argentina. Ele chegou a entrar na Justiça por esse direito, mas nunca obteve essa permissão.