Um novo campeão na América do Sul

Um novo campeão na América do Sul

Mais um título sul-americano… para o Olímpia. É isso mesmo. Por causa de uma mistura de desdém pela ausência de compatriotas com ressaca pela derrota santista na final da Libertadores há duas semanas, poucos brasileiros resolveram observar o que acontecia no Memorial Coliseum de Los Angeles na noite do último sábado. Bem, foi na maior cidade da Califórnia que o Olímpia do Paraguai bateu o San Lorenzo da Argentina por 2×0 e conquistou sua segunda Recopa Sul-Americana.

O caráter mais festivo que decisivo do torneio tirou boa parte da tensão do jogo. Assim, ambas equipes foram em busca do gol logo de início. Orteman, Benítez e López comandavam as ações paraguaias, enquanto que Frutos e o veterano Acosta eram os argentinos mais perigosos. Mas, com o tempo, o San Lorenzo se encolheu, permitindo o crescimento do Olímpia.

Após pouco mais da metade do primeiro tempo, os paraguaios se adiantaram no placar. López recebeu lançamento de Orteman, passou por Gonzalo Rodríguez e pelo goleiro Saja e só rolou para a meta vazia. O gol obrigou os argentinos a ousarem mais. Mas não houve pressão, já que o Olímpia mantinha o equilíbrio no meio-campo e também criava suas oportunidades.

Algo desordenado, o assédio do San Lorenzo foi mais intenso no segundo tempo. Nesse momento se destacou o experiente goleiro Tavarelli, qua teve papel importante na manutenção da vantagem paraguaia. Quando parecia que os argentinos teriam força para o empate, o Olímpia voltou à carga. Saja salvou os portenhos em chute de Benítez, mas não pôde com o pênalti cometido por Paredes sobre López e cobrado por Enciso.

Recopa 1.jpg

Para o Olímpia, além da conquista de seu sétimo título internacional (o clube já possuía um Mundial, três Libertadores, uma Supercopa e uma Recopa), a Recopa foi importante pelo lado financeiro. Com a vitória, o clube paraguaio ficou com um prêmio de US$ 300 mil. Desse montante deve sair os US$ 5 mil prometidos a cada jogador como gratificação. Pode até parecer pouco, mas devemos considerar que o futebol do Paraguai envolve muito menos dinheiro que o brasileiro.

Quem também tem motivos a mais para celebrar é o treinador uruguaio Luís Cubilla. Considerado velho pelos críticos, ele confirmou a fama de amuleto do alvinegro paraguaio, já que dirigia o clube nas conquistas das Libertadores de 79 e de 90 e na Supercopa de 90. Para os brasileiros, Cubilla é mais conhecido por marcar o gol uruguaio na semifinal contra o Brasil na Copa de 70.

FICHA TÉCNICA
Decisão da Recopa Sul-AmericanaLocal: Memorial Coliseum (Los Angeles-EUA)
Público: cerca de 10 mil
Árbitro: Carlos Eugênio Simon (Brasil)
Auxiliares: José Carlos de Oliveira e Walter José dos Reis (ambos Brasil)
Olímpia: Tavarelli; Isasi, Cáceres, Zelaya e Corbo; Orteman, Enciso, Esteche e Alvarenga; López (Caballero) e Benítez (Palácios). Técnico: Luís Cubilla
San Lorenzo: Saja; Alvarez, Gonzalo Rodríguez, Cláudio Rodríguez e Paredes; Michelini, Herrón, Zurita (Cordone) e Luna; Acosta e Frutos. Técnico: Rubén Insúa
Gols: López (27/1º) e Enciso (23/2º, de pênalti)
Cartões amarelos: Michelini, Herrón, Cláudio Rodríguez e Alvarenga *

Um pouco de história. A idéia de promover uma espécie de tira-teima entre campeões de dois torneios não é nova. Na Europa, os principais países têm suas Supercopas, disputadas, em geral, uma semana antes do início da temporada em um jogo só. No âmbito continental, a Supercopa européia era decidida entre o vencedor da Copa (depois Liga) dos Campeões com a Recopa (ou Copa dos Vencedores de Copas). Com a extinção dessa segunda competição, em 1999, a Supercopa deu uma vaga ao melhor da Copa da Uefa. Na América do Sul, esse confronto só seria possível com a criação de um torneio que coadjuvasse a Libertadores da América.

Recopa logo.jpg

Isso ocorreu em 1988, com o surgimento da Supercopa da Libertadores, que reunia todos os campeões da história da Libertadores. Como já havia uma Supercopa, o tira-teima sul-americano recebeu o nome de Recopa (veja o histórico abaixo). Assim, campeão da Libertadores e campeão da Supercopa se enfrentaram todos os anos até 1994. Nessa temporada, o São Paulo ganhou as duas competições, como o Olímpia fizera em 1990. Mas a diferença é que, em 94, havia um terceiro torneio sul-americano, a Copa Conmebol, criada em 1992 como uma cópia mal-feita da Copa da Uefa. Dessa maneira, o Botafogo carioca enfrentou o tricolor paulista.

Mas a Recopa voltou ao normal em 1995. E assim foi até 1998, quando a Supercopa Libertadores foi extinta. Como a Copa Conmebol já estava moribunda (pereceria dois anos depois), não havia mais como seguir com o tira-teima. Aliás, já estava complicado manter o torneio por falta de datas. Na edição de 98, os jogos entre Cruzeiro e River Plate foram, na realidade, válidos pela Copa Mercosul. Como os mineiros eram campeões da Libertadores e os millonarios haviam levado a última Supercopa, o time que vencesse na soma dos resultados ficaria com a Recopa.

A respeito desse período “sabático” da Recopa, é importante lembrar que a Copa Mercosul não serviria como classificatório, pois só reunia clubes de metade dos dez países filiados à Conmebol. Falou-se em um cruzamento preliminar do vencedor da Mercosul com o campeão da Merconorte, mas nunca vingou.

Com a criação da Copa Sul-Americana (embrião da natimorta Copa Pan-Americana) no ano passado, foi possível retomar a Recopa que, com a descontinuidade e a falta de tradição, nunca foi levada muito à sério. Talvez a ida do jogo para os Estados Unidos dê novo fôlego ao tira-tema sul-americano, como os japoneses que ressuscitaram a Copa Intercontinental no final dos anos 70.

Todas as Recopas Sul-Americanas
1989 – Nacional (URU) 1×0/0x0 Racing (ARG)
1990 – Boca Juniors (ARG) 1×0 Nacional (COL)
1991 – Olímpia (PAR)
1992 – Colo Colo (CHI) 0x0 Cruzeiro (BRA), 5×4 nos pênaltis
1993 – São Paulo (BRA) 0x0/0x0 Cruzeiro (BRA), 4×2 nos pênaltis
1994 – São Paulo (BRA) 3×1 Botafogo (BRA)
1995 – Independiente (ARG) 1×0 Vélez Sarsfield (ARG)
1996 – Grêmio (BRA) 4×1 Independiente (ARG)
1997 – Vélez Sarsfield (ARG) 1×1 River Plate (ARG), 4×2 nos pênaltis
1998 – Cruzeiro (BRA) 2×0/3×0 River Plate (ARG)
2003 – Olímpia (PAR) 2×0 San Lorenzo (ARG)
Obs.: Como venceu a Libertadores e a Supercopa de 1990, o Olímpia foi considerado campeão da Recopa automaticamente. *

Ao pé da letra, a Recopa Sul-Americana teve duas edições em 1970 e 1971. Era uma tentativa da Conmebol de criar uma versão da Copa dos Vencedores de Copas. Em 1970 disputaram Atlanta (ARG), Canarias (VEN), Deportivo Municipal (PER), El Nacional (EQU), Libertad (PAR), Mariscal (BOL), Rampla Juniors (URU) e Unión Española (CHI). O Mariscal, de Santa Cruz de la Sierra, foi campeão após bater o El Nacional na final (0x0 em Quito e 2×0 em La Paz). Foi o único titulo continental de um clube boliviano. Em 1971 o torneio não foi concluído. *

A Supercopa também tem uma versão anterior. Em 1968, a taça foi disputada pelos clubes sul-americanos que já haviam vencido a Copa Intercontinental (naquele momento, Santos, Peñarol e Racing). Os brasileiros foram os campeões. No ano seguinte, o Estudiantes se juntou ao trio e o título ficou com o Peñarol.