Porque Nedved mereceu a Bola de Ouro 2003

Porque Nedved mereceu a Bola de Ouro 2003

Na primeira partida que Zidane disputou em Turim após sua saída da Juventus, a torcida local estendeu uma grande faixa: “Zidane, noi non ti dimentichiamo. Ma l’amore è ceco”. O trocadilho deixa clara a opinião da torcida bianconera: “Zidane, nós não te esquecemos, mas o amor é tcheco”. Tcheco – palavra que em italiano tem a mesma pronúncia da palavra cego (cieco) – por causa de Pavel Nedved, o melhor jogador do mundo em 2003.

Para deixar tudo bem claro. Como um todo, o melhor jogador do mundo é o antigo amor dos juventinos. Nenhum futebolista tem a categoria, técnica e imponência do francês Zinedine Zidane. Mas, especificamente em 2003, ninguém jogou tanto quanto o meia da Juventus. E foi com base nisso – e não na fama – que a revista France Football deu a Bola de Ouro ao jogador tcheco como o melhor do mundo nesse ano.

Uma mostra da fase esplêndida do meia juventino se deu justamente naquele reencontro de Zidane com os bianconeri. Era, 13 de maio de 2003 e a Juventus recebia o Real Madrid na partida de volta de uma das semifinais da Liga dos Campeões. Na Espanha, os merengues haviam vencido por 2×1 e precisavam apenas de um empate. Foi quando Nedved fez a diferença para os italianos.

O meia armou, concluiu e serviu seus companheiros de ataque. Com um esquema defensivo sob medida montado pelo treinador Marcello Lippi, a Juventus não teve dificuldades para fazer 3×0 (um gol de Nedved) e garantir a classificação. Zidane ainda diminuiu no último minuto e, se Figo não houvesse perdido um pênalti, o Real até teria conseguido uma classificação pelos gols fora de casa. O que seria uma grande injustiça para o melhor jogo dos piemonteses.

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O problema da Juventus foi que, naquela partida, Nedved recebeu um cartão amarelo e foi suspenso da final contra o Milan. Sem a volúpia de seu principal jogador, a vecchia signora se arrastou em campo e coroou um sonolento 0x0 com uma derrota nos pênaltis. Possivelmente, o tcheco foi decisivo pela ausência.

Mas não foi apenas nas finais da Liga dos Campeões que Nedved jogou bem. Exatamente por isso o prêmio da France Football está em mãos mais merecedoras do que o da Fifa, que elegeu Zidane como o melhor do mundo em 2003. O tcheco foi a principal figura da Juventus campeã italiana desse ano, ofuscando seu companheiro Del Piero e simplificando bastante o trabalho da dupla de atacantes Trezeguet e Di Vaio. Além disso, marcou (belos) gols, com chutes potentes e precisos da entrada da área, uma de suas especialidades.

A bem da verdade, o tcheco vem se destacando desde a Eurocopa de 96, disputada na Inglaterra. Ao lado de Poborsky, Nedved conduziu a República Tcheca para um improvável vice-campeonato, passando por seleções como França e Itália. Mas Poborsky acabou tendo mais destaque pelo golaço marcado contra Portugal nas quartas-de-final e ganhou um contrato com o Manchester United. Nedved foi para a Lazio.

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No clube romano, o tcheco também era o principal jogador no meio-campo. Com ele, os celestes foram campeões italianos em 2000, acabando com uma estiagem de títulos de 26 anos. Mas havia outros grandes jogadores na equipe, como Verón, Cláudio López, Crespo e Nesta, o que deixou, injustamente, Nedved como apenas um a mais no milionário elenco laziale.

Assim surge a pergunta: por que é tão difícil darem o devido valor ao jogador, que, afinal, já está com 30 anos e se mantém em alto nível por várias temporadas? É pura questão de exposição na mídia e marketing pessoal. Pavel Nedved é daqueles sujeitos pacatos, que gosta de se isolar com a família. Quando jogava na Lazio, preferiu morar em Olgiata, uma vila a 30 km de Roma, a se expor no turbilhão da capital italiana. Coisa parecida ocorreu após sua transferência para a Juventus. Depois de meses procurando uma casa, o tcheco escolheu a pacata cidade de Mandria. E lá vive isolada e tranqüilamente com sua mulher Ivana e seus filhos Pavel e Ivana (é isso mesmo, seus filhos têm os nomes dos pais).

Com isso, o meia tcheco passa uma imagem fria e pouco carismática, ainda mais se comparados com os estilosos companheiros Buffon, Del Piero e Trezeguet. Isso sem falar em estrelas mundiais como Zidane, Ronaldo e Beckham. Assim, Nedved é esquecido. E não faz muita questão de mudar essa imagem.

Se Nedved não é carismático, o futebol da Juventus também não é para muitos. A equipe piemontesa tem um dos elencos mais fortes do mundo e é favorita a conquistar qualquer campeonato que disputar, até porque é muito bem dirigida. Mas não tem o glamour do Real Madrid ou do Manchester United. Aqui no Brasil essa imagem é ainda pior, pois boa parte da imprensa cismou que futebol italiano é uma retranca contra outra e que o verdadeiro craque não tem espaço. Besteira.

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Se, com a Juventus, Nedved não têm a exposição que merecia, com sua seleção nacional é pior ainda. A República Tcheca tem, desde meados dos anos 90, uma seleção de bom nível. Mas, por alguma fatalidade, acabou ficando de fora das duass últimas Copas, quando a chance de aparecer para o mundo é muito maior. Em nível continental, os tchecos até conseguiram se classificar para as finais, mas não tiveram grandes resultados em 2000.

Agora, é a grande chance de Nedved. A República Tcheca montou uma das melhores seleções da Europa, tanto que entrou como cabeça-de-chave no sorteio de grupos para a Euro 2004. Com a Bola de Ouro, os torcedores do mudo prestarão mais atenção ao futebol do meia da Juventus. E assim perceberão que ele comanda uma das melhores seleções do mundo e é a estrela do clube mais popular da Itália. *

Para deixar mais claro. A France Football levanta uma lista com 50 nomes e consulta diversos jornalistas europeus para escolher o melhor do ano NO CONTINENTE. O resultado final da eleição de 2003 foi esse: 1) Nedved/Juventus, 190 pontos; 2) Henry/Arsenal, 128; 3) Maldini/Milan, 123; 4) Shevchenko/Milan, 67; 5) Zidane/Real Madrid, 64; 6) Van Nistelrooy/Mancheser United, 61; 7) Raul/Real Madrid, 32; 8) Roberto Carlos/Real Madrid, 27; 9) Buffon/Juventus, 19; 10) Beckham/Manchester United e Real Madrid, 17; 11) Ronaldo/Real Madrid, 11; 12) Larsson/Celtic, 6; 13) Deco/Porto, Del Piero/Juventus, Dida/Milan, Makaay/ La Coruña e Bayern Munique, Nesta/Milan, 4; 18) Nihat/Real Sociedad e Totti/Roma, 3; 20) Ballack/Bayern Munique, Ibahimovic/Ajax, 2; 22) Filippo Inzaghi/Milan, Koller/Borussia Dortmund, Mutu/Parma e Chelsea, Ronaldinho Gaúcho/Paris Saint-Germain e Barcelona, Toldo/Internazionale, 1. *

Os vencedores anteriores da Bola de Ouro: 1956 – Stanley Matthews (Inglaterra/Blackpool); 1957 – Di Stéfano (Argentina/Real Madrid); 1958 – Kopa (França/Real Madrid); 1959 – Di Stéfano (Argentina/Real Madrid); 1960 – Suárez (Espanha/Barcelona); 1961 – Sívori (Argentina/Juventus); 1962 – Masopust (Tchecoslováquia/Dukla Praha); 1963 – Yashin (União Soviética/Dynamo Moscou); 1964 – Law (Inglaterra/Manchester United); 1965 – Eusébio (Portugal/Benfica); 1966 – Bobby Charlton (Inglaterra/Manchester United); 1967 – Albert (Hungria/Ferencvaros); 1968 – Best (Irlanda do Norte/Manchester United); 1969 – Rivera (Itália/Milan); 1970 – Gerd Muller (Alemanha Ocidental/Bayern Munique); 1971 – Cruijff (Holanda/Ajax); 1972 – Beckenbauer (Alemanha Ocidental/Bayern Munique); 1973 e 74 – Cruijff (Holanda/Barcelona); 1975 – Blokhin (União Soviética/Dynamo Kiev); 1976 – Beckenbauer (Alemanha Ocidental/Bayern Munique); 1977 – Simonsen (Alemanha Ocidental/Borussia Mönchengladbach); 1978 e 79 – Keegan (Inglaterra/Hamburg); 1980 e 81 – Rummenigge (Alemanha Ocidental/Bayern Munique); 1982 – Rossi (Itália/Juventus); 1983, 84 e 85 – Platini (França/Juventus); 1986 – Belanov (União Soviética/Dynamo Kiev); 1987 – Gullit (Holanda/Milan); 1988 e 89 – Van Basten (Holanda/Milan); 1990 – Matthäus (Alemanha Ocidental/Internazinale); 1991 – Papin (França/Olympique Marseille); 1992 – Van Basten (Holanda/Milan); 1993 – Baggio (Itália/Juventus); 1994 – Stoitchkov (Bulgária/Barcelona); 1995 – Weah (Libéria/Milan); 1996 – Sammer (Alemanha/Borussia Dortmund); 1997 – Ronaldo (Brasil/Internazionale); 1998 – Zidane (França/Juventus); 1999 – Rivaldo (Brasil/Barcelona); 2000 – Figo (Portugal/Real Madrid); 2001 – Owen (Inglaterra/Liverpool); 2002 – Ronaldo (Brasil/Real Madrid).