Comentaristas de arbitragem

Comentaristas de arbitragem

Muitas emissoras de televisão já incorporaram os comentaristas de arbitragem em seu quadro básico para a cobertura de uma partida de futebol. A receita é bastante simples: é só pegar um ex-árbitro de futebol e colocá-lo nas transmissões futebolísticas para analisar as decisões do apitador que está em campo. Mas isso não é necessariamente sinônimo de um incremento da qualidade da transmissão.

Em princípio, conhecimento das regras não é exclusividade de um árbitro (ou ex-árbitro) de futebol. Qualquer um que acompanhe bastante o esporte e se atualize tem condições de identificar irregularidades em determinadas jogadas. É como um comentarista que não foi jogador. Ainda assim, os ex-árbitros têm a inegável vantagem de possuírem experiência real na função, o que os tornam conhecedores dos macetes dos atletas e dos truques que muitos apitadores fazem para conduzir um jogo. Além disso, sabem como são os bastidores das comissões de arbitragem e o histórico de vários juízes. Ótimo, informação nunca é demais.

O problema é que, por vezes, pegam-se apitadores aposentados sem muitos critérios. Conhecimento das regras, dos bastidores e dos próprios árbitros são importantes. Mas um comentarista também deve possuir a mente aberta para ver as diversas possibilidades de um fato, analisá-las e dar uma opinião embasada. No entanto, nem todos os comentaristas de arbitragem as possuem. A bem da verdade, comentaristas de diversas áreas (esportes em geral, economia, política e artes) desrespeitam esse princípio todo dia. Mas algumas ações específicas tornam o caso dos ex-árbitros muito característico.

Por mais que a carreira no apito já tenha se encerrado, os comentaristas de arbitragem foram criados com a cultura de juízes. Assim, a maioria carrega vícios da época em que vestiam o uniforme preto em campo, como a teimosia. Com o microfone, eles cometem equívocos (muitos deles mais do que perdoáveis) similares aos que cometiam quando estavam com o apito. Normalíssimo, pois futebol é um esporte cujas regras dependem muito de interpretação ou de ângulo de visão. O que não faz sentido é que os comentaristas insistem no erro mesmo depois do replay, discutindo com a imagem. Às vezes é engraçado, às vezes é ridículo.

No entanto, a característica mais marcante dos comentaristas é o indisfarçável corporativismo. Salvo situações indesculpáveis, sempre buscam uma forma de justificar a decisão do árbitro. O pior é que isso fica muito evidente e prejudica a transmissão.

Arbitro

Outro problema (esse muito comum em qualquer função que envolve o futebol) é tratar um jogador como bicho ou criança. Ou como bicho E criança. Será que o árbitro tem realmente de ser um “generalzão”? Impor suas atitudes sempre à força? Creio que um bom condutor precisa, antes de tudo, saber exercer a liderança. E liderar é usar o poder de forma adequada, sem excessos nem falta de medidas punitivas. É ser respeitado, mesmo quando prefere resolver os problemas na conversa. E nem todo árbitro (ou ex) vê dessa forma. Acha que sair distribuindo cartões e broncas é o melhor a se fazer.

Ainda na linha “general”, muitos comentaristas cobram dos juízes atitudes típicas de um comandante de batalhão no meio da guerra. Por exemplo, manter um ar de superioridade quando for admoestar uma atleta. Tudo para não se deixar dominar. É generalizar, como se o juiz que está em campo não pudesse ter a sensibilidade de saber que a partida está tranqüila e que ele pode conduzi-la de forma mais suave, com menos autoritarismo. O curioso é que, ao criticar a postura do árbitro, o comentarista muitas vezes fica com um ar de superioridade. Como se ele, quando na ativa, nunca tivesse cometido seus erros.

Com tantas arestas a se aparar na maioria dos comentaristas de arbitragem, a saída seria extinguir essa função ou repassá-la a um jornalista? Não é bem assim. Até hoje, algumas emissoras resistem a ter um profissional com esse perfil em seu quadro e conseguem fazer transmissões de boa qualidade. Mas não se pode pegar experiências isoladas e tratá-las como verdade absoluta. Ex-árbitros podem acrescentar, e muito, a uma cobertura. O que falta, talvez, seja escolher com mais cuidado os ex-árbitros, contratando apenas os que tiverem perfil mais adequado para opinar no ar. Outra medida que só traria bons resultados é abrir um pouco a cabeça de alguns comentaristas, quebrando um pouco a lógica com a qual pautaram suas carreiras. Alguns, seja por iniciativa própria, seja por orientação de alguém próximo, já melhoraram muito nesse quesito.

De qualquer forma, o telespectador médio parece não se importar muito com isso. Os comentaristas de arbitragem gozam de uma popularidade razoável, ainda mais depois que emplacam algum bordão. O que não é sinal de credibilidade. Se o telespectador achar que uma dividida foi faltosa, comentarista algum o convencerá do contrário. *

Se algum árbitro ou ex-árbitro ler isso, é capaz de soltar uma praga sobre mim e dizer que sou um babaca que fala essas coisas porque nunca esteve lá no campo. Pode ser verdade. Mas é importante considerar que ficar de fora por vezes dá condição de ver a situação em ângulos mais favoráveis. *

Ah, para deixar bem claro, sou contra o uso de vídeos em partidas de futebol. Errar faz parte do jogo, não importa se o árbitro que se omitiu em um lance, o atacante que perdeu um gol feito ou um goleiro que não saiu do gol em um cruzamento. O que não pode é haver má intenção ou falta de preparo (físico e técnico) do trio de arbitragem.