A Parmalat fechou

A Parmalat fechou

Parma incorpora como poucas outras cidades o orgulho típico italiano. Afinal, conta com uma produção especializada em artigos artesanais, quase artísticos, como o queijo parmesão – o mais consumido na Itália – e o presunto cru (conhecido por aqui como presunto Parma). E, por isso, a falência da Parmalat atingiu tão intimamente os parmesãos – não o queijo, mas os habitantes da cidade. E também por isso que a Parma Associazione di Calcio não deve fechar as portas.

Apesar do desenvolvimento grande em setores como a indústria automobilística e o design, a economia italiana é sustentada principalmente por pequenas empresas espalhadas pelo país, com processos industriais extremamente modernos para a produção de bens de qualidade reconhecida. Até os anos 60 do século passado, a Parmalat era mais uma dessas empresas.

Aos poucos, a companhia criada por Calisto Tanzi cresceu com venda de leites de porta em porta. Mas o grande salto da Parmalat se deu com a comercialização de leite dentro de embalagens longa vida. A empresa ficou tão grande – estava com mais de 36 mil funcionários quando foi decretada sua quebra – que virou quase um sinônimo da força gastronômica da região de Parma.

Investindo pesado em marketing, sobretudo nos esportes, a companhia ganhou espaço no mercado mundial, com unidades fabris e todos os continentes (excetuando a Antártida, obviamente). Apostou na Fórmula 1 e, principalmente, no futebol. Além de reerguer o Palmeiras e patrocinar clubes em diversos países, a empresa de laticínios comprou o Parma e fez do provinciano clube uma força nacional, com algum destaque continental.

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O clube gialloblù já apareceu na Série A, na temporada 1990-91, fazendo estragos. Fez sombra ao quarteto líder (Sampdoria, Internazionale, Milan e Juventus) durante todo o campeonato e terminou com uma vaga na Copa da Uefa (naquela época, com só uma vaga por país na Copa dos Campeões e sem a ajuda da Copa Intertoto, esse feito era mais relevante que hoje). Depois, o clube ainda seria vice-campeão italiano (1996-97) e campeão da Supercopa Européia (1993), da Recopa Européia (1992-93), da Copa da Uefa (1994-95 e 1998-99) e da Copa da Itália (1991-92, 1998-99 e 2001-02). A relação entre Parma (a cidade) e a Parmalat estava em seu melhor momento.

Claro, a indústria alimentícia de Parma não se limita à Parmalat, pelo contrário. O que não falta na região são empresas desse setor. Ainda assim, não dá para negar a importância da empresa da família Tanzi na economia e na auto-estima parmesã. Falei isso tudo apenas para mostrar como a falência da Parmalat tem um aspecto simbólico muito grande. E como a sobrevivência do Parma tem um papel dentro disso.

Praticamente todas as ações do clube de futebol, 98% para ser preciso, pertencem à finada empresa. E “apenas” por isso o Parma está ameaçado de perecer. Como boa parte dos clubes europeus, o gialloblù também viu os prejuízos aumentarem nos últimos anos. Porém, a administração do clube já vinha implementando um intensivo e bem-sucedido processo de corte de gastos para se tornar auto-suficiente. Reduziu consideravelmente a quantidade de estrelas no elenco, adotou uma política salarial condizente com o de uma equipe de segundo escalão. Resumindo, o Parma não passa por crise financeira, mas a empresa que detém 98% de suas ações, sim.

Para saldar parte das dívidas, todos os ativos da Parmalat – Parma Associazione di Calcio e atletas incluídos – estão em fase de liquidação. No entanto, a solução não é tão complicada para o clube quanto parece. Se investidores ou demais acionistas pagarem € 50 milhões ao que ainda resta da Parmalat, levam os 98% das ações e o clube se torna uma instituição independente da empresa de laticínios. É o que deseja a torcida. Afinal, a quebra da Parmalat já é traumática o suficiente para os parmesãos e manter o clube de futebol poderia amansar um pouco o espírito dessa pessoas.

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Por enquanto, todos parecem trabalhar para que essa operação seja concretizada. Nessa semana, a diretoria do Parma, liderada pelo (agora ex-) presidente Stefano Tanzi (filho de Calisto) se demitiu. O novo presidente é Enrico Bondi, interventor designado pelo governo para administrar a falência do grupo. Ele nomeou Luca Baraldi (ex-dirigente da Lazio) como gerente administrativo e Umberto Tracanella e Guido Angelini – integrantes da comissão de Bondi – como conselheiros.

Enquanto isso não se efetiva, a torcida teme dois fantasmas. A venda de alguns dos principais jogadores, necessária para a consecução dos € 50 milhões, e a seqüência das investigações da comissão que analisa a quebra da Parmalat. Afinal, não param de aparecer irregularidades fiscais, administrativas e financeiras no grupo. E algumas delas atingem o time de futebol. Nessa quinta foi descoberta uma evasão fiscal de L 640 milhões (no câmbio de 1º de janeiro de 2002, dia em que a lira deixou de ser a moeda oficial da Itália, algo em torno de € 320 mil), proveniente da alteração de valores em compra e venda de jogadores. Mais golpes como esse e, aí sim, a salvação do Parma pode não vir. *

É importante dizer que o Parma, se falir efetivamente e for refundado com nova razão social na Serie C2, não reúne as mesmas condições para se reeguer como tem feito a Fiorentina. A torcida parmesã é muito menor que a viola e os gialloblù não devem contar com uma virada de mesa para apressar o processo de ascensão.