Na paralela

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Mesmo sabendo que quase ninguém vai querer ler isso, escrevo. Escrevo sem saber porque, por não saber o que fazer. Mais uma vez, totalmente perdido, zonzo com tanta violência

O assunto é chato, eu sei. É muito mais cômodo virar para o lado e fingir que não é com a gente. Mas é com VOCÊ sim.

As tragédias do menino João Roberto e Jean Charles de Menezes, ambos mortos pela polícia, um no Rio, outro em Londres, são paralelas. Paralelas no estrito sendo da palavra, pois, apesar da proximidade dos fatos, nunca irão se encontrar.

Quando cheguei em Londres, há quase um ano, notícias do julgamento pelo assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes estava em todos os jornais. Todos os dias.

Antes mesmo de começar a ler as matérias, o que chamou atenção foi o fato do caso ter uma cobertura infinitamente maior aqui do que no Brasil, onde com o passar de algumas semanas, o caso sumiu do noticiário.

Lendo a imprensa inglesa, o óbvio se fez presente: a preocupação não era exatamente com a morte do brasileiro. Esse era o detalhe. A grande questão era a sequência de falhas da polícia que ocasionou, não apenas a morte de um inocente, mas expôs os ingleses ao perigo desnecessário.

Ainda assim, os policiais foram inocentados. Difícil dizer se o resultado teria sido diferente fosse um inglês a vítima, isso é um outro assunto. O que vale ser observado aqui é como um erro da polícia repercute de maneira diferente nos dois países.

Na cidade onde a preocupação são as gangues de adolescente brigando com facas (facas! Dá vontade de rir, de tão anestesiado com esse tipo de assunto. Quem dera, uma faca...) a chance de algo assim se repetir é pequena. Ao passo que no Rio, é sentar e esperar.

No Brasil, talvez o único conforto que temos em casos do tipo é o tempo de exposição das tragédias na mídia. Pouco depois os acusados são soltos, o assunto desaparece, restando apenas a dor de quem viveu, e continuará vivendo, a desgraça.

Estando aqui, longe de coisas tão absurdas como essa, não dá vontade de voltar. Isso não é vida. A beleza do Rio (também combalida) por si só não vale a pena.

Mesmo porque, cariocas, é hora de descer do pedestal, descalçar o salto alto, tirar a cabeça das nuvens e aceitar: o Rio de Janeiro, com o perdão da palavra, está fodido.

Enquanto os próprios cariocas não aceitarem essa realidade, nada vai mudar. Vai é piorar.

Abaixo, uma carta escrita por uma pessoa que mora em Londres e é relacionada a mais recente vítima da bagunça em que NÓS (não "eles", os "políticos", NÓS mesmos) nos metemos.

--

Londres, 12 de julho de 2008.

Prezados,

Muitos de vocês já sabem que o menino assassinado pela policia do Estado do Rio de Janeiro na ultima semana era neto-postiço de meu pai, através da nova relação que ele mantém desde a morte de minha mãe. Era neto de verdade, pois além da proximidade, o avô materno da criança também já era falecido e, portanto, o avô materno que ele conheceu era meu pai. Trata-se, portanto, de um quase sobrinho meu, e, deixando os quase e os postiços de lado, um membro de minha família.

Podem vocês imaginar a dor que senti esta semana ao saber da tragédia que acometeu a família. Ninguém conseguiu me contar e tive que ir descobrindo aos pouco pelas Internet. João Roberto, meu quase sobrinho, o menino que encantava meu pai, que faria quatro anos daqui a três semanas, se fora num estúpido e bárbaro ato policial. Sempre soubemos do risco dos assaltos, dos tiroteios, dos seqüestros. Mas sermos abatidos como alvos de guerra por policias que deveriam nos proteger extrapola o limite da compreensão. Ter um filho, um sobrinho, nosso melhor e maior projeto de futuro, alvejado por nossas próprias instituições é a expressão máxima da autofagia bárbara em que se transformou a vida do carioca.

Mas não adianta simplesmente reclamar. Somos cidadãos e não exercemos nossa cidadania. Quando muito, quando acontece uma tragédia dessas, realizamos passeatas e missas de protesto. Mas não nos dedicamos sistematicamente a pensar formas de atrair a atenção para o problema nem de veicular as soluções que vislumbramos. Furtamo-nos de dar opinião, quando somos aqueles na nossa sociedade que mais capacidade tem de dar opiniões qualificadas para a melhorar. Somos todos intelectuais, profissionais liberais, bem formados, com extensa bagagem cultural e não dedicamos tempo a pensar, a formular, a executar ações para melhorar as nossas vidas. A violência está nos matando, mas nós estamos nos matando também ao nos eximirmos da responsabilidade de pensar, de formular estratégias que possam subverter a desordem vigente. Faço aqui o meu mea-culpa. Precisou acontecer indiretamente comigo, num momento em que estou no exterior vivendo uma experiência até então desconhecida de completa despreocupação com a violência, para atentar que esta vida com a qual o carioca se acostumou não é mais possível. Mas aprendi aqui em Londres que o segredo não é só votar melhor, é tomar para si a responsabilidade de resolver. Só isso pode nos levar a políticas e políticos melhores. Temos que transmitir claramente o que queremos, qual sociedade queremos ter e trabalhar por ela.

Nossa cidade é linda, é quente, é aprazível. Tem tantas qualidades que passados dois dias de uma tragédia, nos esquecemos dela, e voltamos a nossa vida normal. Afinal, a violência é ruim, mas o mar, a floresta, etc, compensam. Basta morar na zona sul, longe de favelas, não andar de relógio, não passar no Túnel Rebouças à noite, não andar com a janela do carro aberta, não, não, não. Alienamo-nos achando que restringindo nosso raio geográfico e seguindo um determinado código de conduta estamos a salvo. São muitos os nãos aos quais nos acostumamos e ainda assim continuamos morrendo. Morremos porque aceitamos que a vida não tem valor. Obviamente que não a nossa, mas sabemos que a polícia carioca mata historicamente pobres, bandidos ou não, simplesmente porque acha que a sociedade lhe deu esse direito. E de fato deu, porque eu, que não sou uma estudiosa do assunto, me lembro de livros citando a violência extrema da policia para com os pobres na época de Getúlio Vargas - e nunca assisti nenhuma demanda estruturada para que a polícia mudasse de atitude. Só que a conseqüência dessa violência policial recai diretamente sobre nós. Por que será que os nossos traficantes são os mais bárbaros e abusados do Brasil? Por que tantas balas perdidas? E agora, o pior de tudo, por que crianças mortas? Matar uma criança, de boa família, bem educada, é matar a riqueza de um país. Além do horror do desrespeito a vida humana que a mim particularmente sempre revoltou, há a burrice de ceifar o potencial construtivo de nosso estado. Protestos simplesmente não são demandas estruturadas. Temos capacidade para mais do que isso. Se continuarmos nos omitindo o Rio será apenas um cartão-postal, vazio, sem qualidade de vida.

É por este motivo, que aqui de Londres, causticada por uma enorme dor nas costas e enxaqueca, angustiada por pela primeira vez ter me visto na posição de pensar se vou realmente ter coragem de voltar a morar com minhas filhas nesta cidade, que conclamo a todos os que se identificam com o que foi dito aqui a se reunir, virtual ou fisicamente, para articularmos uma estratégia para demandar uma policia melhor, que minimamente entenda que as sociedades ocidentais construíram um arcabouço legal para garantir que a vida humana seja preservada. Este debate tem que estar nos jornais cariocas todos os dias. Tem que estar na televisão, tem que estar nos nossos cafezinhos. Ninguém vai cuidar de nós se não o fizermos. Este problema é nosso e não do Brasil.

Por favor, os que quiserem contribuir respondam para o e-mail T.Linhares.Juvenal@googlemail.com.

Grande abraço,

Thais Linhares Juvenal

Economista do BNDES, atualmente mestranda na London School of Economics and Political Science – LSE no programa, Environmental Policy and Regulation (Politica Ambiental e Regulação).

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5 Comments

Duda said:

Por conta das novidades da minha vida, eu tenho pensado muito no país que vamos deixar pros nossos filhos...tenho pensado também se é nesse país que vou querer criar o meu.
Bruno, acho que o futuro da nossa cidade, do nosso país, seria o fim do voto obrigatório. Não é um saída a curto prazo mas, acredito eu, separaria aqueles que votam por obrigação dos que votam por opção. Imagina a quantidade de boçais, idiotas, bandidos corruptos que não se elegeria caso os mais pobres e menos informados não fossem obrigados a votar.
Não estou dizendo que o voto passaria a ser direito de alguns, ele continuaria a ser direito de todos, a única diferença é que ninguém mais seria obrigado a votar. Não sei muito dessas estatísticas mas, assim de cabeça, eu não lembro de nenhum país desenvolvido no mundo onde o voto seja obrigatório. Não entendo como, com todas essas notícias, ninguém levanta essa bandeira.
Não me importa se somente 25 ou 30% dos eleitores iriam dar as caras nas eleições, pelo menos eu saberia que quem fosse votar estaria fazendo por opção e não por obrigação. Pra mim essa obrigação de votar só serve para deixar as coisas como estão, ou piores.
abs
Duda

Vito Carabiniere said:

Acho que as nossas polícias ainda vivem os resquícios da ditadura militar.
Talvez seja o caso de brigarmos por uma polícia unificada e mais humana, a começar pelos seus ícones e bandeiras.
Uma polícia que tem uma caveira e facas como seu estandarte não quer lutar pela vida, e isso fica bem claro desde o início.
Todos sabem que as polícias não andam juntas, são quase facções separadas.
Não sei por onde começar, mas nós, sociedade, temos que lutar por uma polícia a nosso favor, a favor do ser humano.
Taí uma discussão...

Bruno said:

Concordo plenamente, Vito.

Vc viu a notícia do Globo, relatando mais uma assassinato de um inocente pela polícia? (o link está no final).

Agora até mudaram o texto de tão absurdo que estava! Aliás, muito, MUITO anti-ético esse costme de alterar os textos, tão comum no Globo On Line. Publicou, tá publicado. Quer corrigir, escreve outro, ou ao menos deixe as correções visíveis.

Mas falava em como haviam imagens provando que a vítima havia sido retirada do veículo sem o menor cuidado, "como se fosse m bandido".

Eu, provavelmente vc e toda a população do Rio quer mais é encher esse bando de pilantra de porrada. Agora,a polícia não pode fazer isso.

Nós autorizamos essa violência, esperamos até. Agora está se virando contra nós.

Abs,

http://oglobo.globo.com/rio/mat/2008/07/15/beltrame_pm_defendem_acao_de_policiais_que_terminou_em_morte_de_administrador_no_rio-547256122.asp

Duda said:

Esse lance da polícia é foda pq históricamente os primeiro policiais no Brasil eram ex-capitães do mato que haviam perdido suas funções com a abolição da escravatura, ou seja, no DNA da polícia essa marca ainda existe. Acho que isso explica muito o que vivemos atualmente.

Thais Linhares-Juvenal said:

Prezados,

ainda meio abalada com os fatos e pessimista dado a pequena repercussao que minha carta teve junto a maioria dos meus interlocutores, fico feliz que vcs estejam debatendo o assunto. Particularmente, estou cada vez mais convencida de que este debete sobre o papel da policia na violencia do Rio de Janeiro precisa ganhar amplitude.
Alguns artigos sairam na imprensa tratando de aspectos tecnicos da questao: treinamento inadequado, falta de comando, etc. Mas para mim a questao eh sociologica: a elite da sociedade carioca, ou seja, nos mesmos, acostumou-se e tolera a violencia desde que ela nao a atinja diretamnete. Assim confinamo-nos cada vez mais na Zona Sul e restringimos nossa propria liberdade quotidiana (usamos cooperativas de taxis e nao nossos carros, as escolas de nossos filhos tem segurancas, etc)e fingimos estar protegidos. Alem da ilusao de que estamos a salvo, silenciosamente decretamos a pena de morte para aqueles que nao possuem os mesmos recursos que nos. Eh esta a sociedade que queremos?
Continuo lutando e angariando sugestoes para que esse debate siga adiante.
Somos nativos de uma das cidades mais bonitas e mais charmosas do mundo. Temos uma imagem cosmopolita, aberta, sensivel as diferencas. Sempre enaltecemos a praia como simbolo de respeito as diferencas sociais. Nao podemos nos transformar na sociedade que se omite perante as milicias e violencia policial. Pois pior do que a barbarie imposta pelos traficantes eh a nossa sistematica omissao perante o descumprimento da lei por aqueles que a deveriam guardar.

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