janeiro 2006 Archives

Navegando, econtrei esse texto no flog do DJ Tamempi. Está tudo tão bem explicado que foi mais fácil pedir pra reproduzir. Tamempi cedeu, na buena, para o URBe.
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Danger Mouse - "The mouse and the mask"
Dois dos mais respeitados artistas de hip hop da atualidade se juntaram para produzir
"Danger Doom - The mouse and the mask". O rato e o mascarado, juntos num disco que tem todo um contexto... maluco, claro. Uma grande parceria que deu certo.
Danger Mouse ficou conhecido por fazer uma mistura inusitada. Ele pegou as acapellas do "The black album", do Jay-Z e juntou com bases feitas utilizando os instrumentais do "White album", um dos discos mais importantes dos Beatles. A mistura tornou-se um sucesso e Danger Mouse começou a ser chamado para produzir diversos artistas. Foi um dos produtores do mais recente álbum do Gorillaz, "Demon dayz", e lançou seu primeiro álbum, " Danger Mouse & Jemini - Ghetto Pop Life", considerado pela crítica como uma ótima estréia.
MF Doom começou num grupo chamado KMD, formado junto com seu irmão, DJ Subroc, atendendo pelo nome de Zev Love X. Lançaram um disco em 1993, porém, tragicamente, neste mesmo ano Subroc morreu num desastre de carro, aos 20 anos. Zev Love X desapareceria do mundo do hip hop, voltando anos depois com uma nova identidade: MF Doom.
Inspirado no vilão da Marvel, Dr. Doom (conhecido no Brasil como Dr. Destino). Criado por Stan Lee em 1962, o personagem usa uma máscara de metal, pois seu rosto ficou desfigurado após um fracassado experimento que lhe ajudaria a se comunicar com seu irmão morto. Tal como Dr. Doom, o rapper também usa uma máscara de metal, de onde tirou seu prefixo "MF" (Metal Face) e tem um parceiro de rimas chamado MF Grimm (outro vilão da Marvel), só que esse "MF" significa "Mad Flows".
MF Doom re-estreou 1999, com "Operation Doomsday". Depois começou a série "Special herbs", só com instrumentais produzidos por ele. Além desse personagem, criou outros alter egos, como Viktor Vaughn e King Geerodah, ambos com discos lançados. Sem falar no seu projeto com o lisérgico produtor Madlib, o MadVillain.
Nesse disco, Doom e Mouse, se inspiram no "Adult swim" (uma faixa especial para adultos do canal Cartoon Network, exibido no Brasil). O álbum possui vozes e samples de diversos desenhos dessa programação. São 14 faixas seguindo o clima de história em quadrinhos. Participam também grandes artistas da cena underground americana, como Talib Kweli, Cee-Lo e Ghostface Killah, do Wu-Tang Clan.
Bom demais. Um dos melhores e mais criativos discos de 2005. Se você gosta de um rap nada convencional, nada comercial, nada lúcido você vai gostar desse disco.

Ilustração: Acme
Matéria sobre a Iky'x tape Vol. 1, 2004/2005, que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).
As 28 músicas estão estão pra jogo, de "Ralge daopacha", com Chapadão cantando em TTK, dialeto originado no Catete (Tetecá, em que as sílabas das palavras são pronunciadas de trás pra frente) à "Cobra cega", cantada por Gil.
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O hip hop carioca está bem na fita
Bruno Natal especial para o Rio Fanzine
Gravar uma mixtape é a forma mais prática de divulgação para um DJ. As fitinhas são praticamente uma instituição no universo hip hop. Com o passar dos anos, não foi só a mídia que mudou — hoje, lógico, são distribuídas em CD ou MP3 — o conceito também se transformou.
Se antes continham uma seleção musical mixada pelo DJ que assinasse a fita, atualmente as mixtapes têm sido utilizadas para expor trabalhos inéditos, funcionando como uma coletânea de novos talentos.
A “Iky’x tape vol. 1, 2004/2005”, lançada no final de 2005 pelo produtor e MC Iky Castilho, é assim. Com uma parte gráfica bem cuidada, traz pepitas quase perdidas do Campo de Concentração, mistura de estúdio e casa onde o MC Aori, o DJ Babão (Inumanos) e Iky moraram juntos.
As 28 músicas são inéditas e foram produzidas por Iky, que usou programações feitas em MPC e samples de Originais do Samba e Egberto Gismonti:
— Produzi 23 bases, algumas em parceria com Mahal (filho de Luiz Melodia), Mr. Brake e Babão, mais duas do francês Damian Seth e dois instrumentais gringos.
A lista de participações é um verdadeiro “quem é quem” do hip hop carioca. Estão lá desde nomes conhecidos, como Aori e o DJ Babão, Shawlin e Tapechu (Quinto Andar), Kamau (Instituto), Max B.O. e Marechal, a rappers em ascensão, como Jovem Cerebral, Funk, Menor do Chapa, Chapadão, Bacon, Gil e Papo Reto. Todos sempre presentes na Batalha do Real ou na Liga dos MCs, eventos organizados pela rapaziada da Brutal Crew.
— Escolhi os MCs pela galera que costumava ir lá em casa e tentei fazer uma representação de várias áreas. O Chapadão é do Irajá, o Menor é do Turano, o Jovem Cerebral é da Mineira, o B.O. é de São Paulo. Lembrei do cara exatamente com a batida — fala Iky.
A mixtape é só o começo. Este ano ainda devem vir os discos solos de Shawlin, Marechal e outro projeto de Iky, o VR Swings. Enquanto isso, Aori participa do novo disco de D2:
— Gravamos um som irado — conta ele. — O Marechal tá junto nessa. Ainda não sei o nome oficial da música, mas ela fala do meu bairro, a Lapa, da nossa história. Está muito legal.
Enquanto nada disso acontece, a melhor maneira de conferir o som dessa rapaziada é ao vivo. Na semana que vem, a Liga dos MCs invade o Sérgio Porto, encerrando a programação do Humaitá pra Peixe.
— Vão ser os melhores colocados da Liga no ano passado, incluindo o campeão, MC Beleza. Vai ser bem diferente, porque geralmente nas batalhas os MCs não cantam, só disputam rimas. Nesse a galera vai cantar — explica Aori.
O negócio é cantar junto.

Artificial
foto: Joca Vidal
O Humaitá pra Peixe vai chegando ao final. Na penúltima noite do evento, Kassin, acompanhado por Berna Ceppas, tocou músicas do seu projeto de música eletrônica feita com Game Boys, o Artificial, e o septeto Binário trocou a praia por um palco de verdade.
Até quem acha que não conhece o Binário, talvez conheça. A banda costuma fazer ensaios abertos no calçadão de Ipanema, aos domingos, atraindo curiosos e admiradores. Com sete integrantes e fazendo um som viajandão, a referência mais óbvia é o Hurtmold. Porém, as semelhanças param por aí. Enquanto o grupo paulista passeia pelo post-rock, calcado em ótimos músicos, a onda do Binário é mais psicodélica, de músicas climáticas, esbarrando no trip hop.
O excesso de instrumentos (são duas baterias, três guitarras, baixo, sintetizador e sampler), no caso do Binário, atrapalha. Tanta gente fazendo improvisações torna a sonoridade caótica demais, mesmo que o intuito seja ser experimental, principalmente no ínicio do show. Mesmo começando confusa, a apresentação já era infinitamente superior a fraca participação do grupo no festival Super Demo Digital, em 2004.
Na segunda metade, melhorou ainda mais. As músicas seguiam uma estrutura mais organizada, ajudando a entender melhor qual é a do som. Foi quando veio uma intrigante versão para "É tarde demais" (pagode do grupo do Raça Negra), irreconhecível, não fosse pelos versos inconfundíveis (Que pena / que pena, amor).
O show é complementado pelas projeções feitas por um dos integrantes, algumas bem interessantes, como o casal feito de palitos de fósforos incandescentes, consumidos pela própria paixão. A parte instrumental, ainda que meio bamba, com algumas sobras aqui e ali, é mesmo o forte do Binário. Dentro do universo que pretendem criar, as letras são expletivas, pouco acrescentam ao resultado final. Em estúdio, onde exageros têm menos espaço e domados por um produtor, o Binário pode render mais.

Kassin
foto: Lucas Bori
Logo depois, foi a vez do Artificial. O começo ensurdecedor, fez muita gente tapar os ouvidos na tentativa de se proteger do ataque de batidas 8 bits que despencou sobre o Espaço Cultural Sergio Porto. Kassin trocou os óculos de armação preta pelo colorido e incorporou seu alter-ego. Se a idéia era espantar os mais frescos, deu errado. A platéia continuou firme e forte, confiando no produtor e aguardando algo a mais.
O formato do show mudou bastante, desde que o projeto começou, ainda sem nome, em shows na Casa da Gávea ou na festa do primeiro aniversário do URBe. Para reproduzir com fidelidade o conteúdo do disco "Free U.S.A.", a dupla adotou um laptop, além do teclado, da mesa de efeitos, do vocoder e dos Game Boys. Em termos de unidade o projeto cresceu, com um diferenciação clara entre uma música e outra, coisa que não acontecia antes.
Entre outras coisas, o complemento instrumental e de programações extra-Game Boy possibilita momentos dançantes. Quem esperou a tormenta sônica da abertura passar, foi recompensado com pancadões funkeados, teclados kraftwerkianos e houses sujos que não fariam feio na pista de uma boate.
Houve outra mudança perceptiva. Kassin, normalmente tímido, seja se apresentando como músico ou como homem de frente do trio mutante +2, estava soltinho na marola. Empunhando o microfone, o produtor cantou, fez gracinhas em falseto, reproduziu a coreografia do clipe caseiro de "I feel like making love" (gravado em sua última viagem em família ao Japão), dançou e disparou aplausos pré-gravados e claques ao final de cada música.
Fica a vontade de ver a sonoridade aplicada a outros estilos, como acontece em "Expresso da Elétrica Avenida", do mais recente disco da Nação Zumbi, "Futura". O baterista Pupillo, acompanhado pelo vídeo game na música, conferiu de perto. Cabe mais. Quem sabe um disco de funk (pra tirar algo de bom desse retrô 80, somado ao hype do gênero no exterior) ou uma produção do Nego Moçambique utilizando o brinquedinho. Os botões são o limite.

OGKE-2005-BLG-390Lb
"A busca por uma segunda Terra é a força condutora por trás de nossa pequisa".
Essas buscas são mesmo um barato. Centenas de cientistas procurando um planeta exatamente igual a Terra para, quem sabe, quando nós terminarmos de destruir esse aqui, nos mudarmos pra lá. Parece muito mais simples, prático e -- quem sabe -- econômico preservar esse em que vivemos. Vai entender.

Katia Dotto e Cecília Spyer
foto: Joca Vidal
A noite dedicada ao rock de saias do Humaitá pra Peixe promoveu o encontro da professora de canto Cecília Spyer e de sua aluna Kátia Dotto. Enquanto Cecília apresentou uma MPB com toques de rock, a aluna Kátia fez o aminho inverso, tocando rock com alguns elementos de MPB, ainda que sua mistura ocorra de maneira mais tímida que a da professora. Em comum, o fato das duas terem incluído “Fora de Si”, de Arnaldo Antunes, no repertório.
A professora abriu a noite com um show monótono. Salvo alguns momentos de forte sintonia entre a cantora e a banda (como na boa "Repara"), as canções de Cecília Spyer são muito parecidas entre si, priorizando sempre os bonitos vocais, mas também tornando-as um pouco cansativas e repetitivas. No fim, pra quem ouvia pela primeira vez, guarda-se pouco do que se escutou. O destaque da banda foi o guitarrista e suas experimentações com pedais, wah-wah e cítaras elétricas.
Em seguida, veio a aluna. Katia Dotto desperdiçou a chance de mostrar suas músicas ao entupir a apresentação de versões. Foram cinco no total, de Queens of the Stone Age à Metallica, intercaladas pelo momento banquinho e violão, que esfriou a pegada do show. Finalista do cocurso "Oi tem peixe na rede", esperava-se mais da artista.
A casa vazia também não ajudou em nada no clima. Se Cecília tivesse aberto para o Cidadão Instigado e Kátia para o Luxúria, teria sido mais equilibrado. E melhor pra todo mundo, público e artistas.

Leitor assíduo e colaborador esporádico, Pedro Seiler é novidadeiro que só. Ele separou umas dicas e mandou por e-mail. Escuta e diz se é pra tocar, pausar ou parar de vez.
Broadcast – Alguns chamam de “um Air mais sujo” . Pode ser que essa definição sirva, mas essa brilhante banda de Birmingham, Inglaterra, realmente é uma mistura de muitas coisas que estão sendo feitas e o resultado é super original. A voz de Trish Keenan é única "Tender Buttons" tem momentos geniais como "Corporeal".
Broken Social Scene – Imagine uma mistura de Belle and Sebastian com Sonic Youth. Pois é, essa banda de muitos integrantes faz um som incrivel que vai do rock fofo até altas distorções e experimentalismo. Destaque para os discos Broken Social Scene e You forgot it in people.
A banda é do Canada e já tem 3 discos lançados.
Mother and the Addicts – Banda indicada por Alex Kapranos, do Franz Ferdinand, em uma entrevista. Eles são de Glasgow e fazem um rock bem peculiar. As duas primerias faixas do seu único disco, "Take the lovers home tonight", são imperdíveis: "They don´t even like you" e a homônima "Take the lovers...".
Wolf Parade – Também do Canada, essa banda de rock n´ roll tem um único disco lançado, Apologies to Queen Mary. Belo trabalho, destaque para a faixa 3, Grounds for divorce.
Animal Collective – Muitas listas de melhores de 2005 colocaram "Feels", do Animal Collective, "Feels", no topo da categoria rock. É um belo disco, denso, pra cima. De NY, esse é o terceiro e melhor trabalho deles.
Shout out louds – Revelação sueca do indie pop rock. Com influencias Weezer, "Howl howl gaff gaff" surpreende. A primeira faixa, "The comeback", gruda no ouvido.
The Editors – Na linha de Joy Division e Interpol, com uma levada um pouco mais dançante, essa banda vem de Birmingham e faz um rock intenso. "The back room", estréia da banda, é inteiro bom. Grata promessa.
The Ponys – Mistura de sujeira, estilo Jesus and Mary Chain, com um vocal inspirado em Robert Smith, do the Cure, a banda de Chicago faz um som interessante. Do último disco, "Celebration castle", as faixas para ouvir são "Shadow box" e "Get back".

Alô, alô, Franz Ferdinand!
Após várias tentativas de festivais endinheirados, como o TIM Fest ou Claro que é Rock, o Franz Ferdinand finalmente vai tocar no Rio de Janeiro -- por incrível que pareça -- no Circo Voador, dia 23 de fevereiro. Com um cenário desses (banda no auge + lugar de médio porte), tem tudo para ser um show histórico, como vários que o Circo já apresentou , inclusive nessa nova fase.
Pra entender como o pequeno Circo Voador venceu a concorrência para trazer um dos shows mais aguardados dos últimos anos, o URBe bateu um papo com Rolinha, produtor da casa.
Primeiro, confirmando a notícia: o Franz Ferdinand toca mesmo no circo?
Toca dia 23 de fevereiro, como te falei, na quinta antes do carnaval. Marcamos pra abrir a casa às 22h e o show mesmo deve começar por volta 23h30, se não houver banda de abertura, o que estamos pleiteando junto à producao brazuca. Eu me sinto até mal em ter que escolher essa banda, porque se eu tivesse uma, acho que daria um rim amarradão pra abrir esse show. Entao só vou me preocupar com esse dilema quando acertarmos os detalhes técnicos com eles e ver a possibilidade de ter um show de abertura. Como nao é um show de rádio ou alugado, espero termos a prioridade para escolher essa banda.
Os ingressos vão custar R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada). Mas [o público] lá no Circo é 80% estudantes. Estamos aceitando toda e qualquer carteirinha para que TODOS possam pagar R$ 50, que se não me engano, é mais barato que o show do Los Hermanos no Canecao, não é?
A lotação do Circopara festas é 3 mil pessoas, para show nós diminuimos para 2.500 pagantes. Os ingressos devem começar a ser vendidos no final da próxima semana. Temos só que acertar um sistema on line para as pessoas de outros estados que vem ao show e depois emendam para o carnaval.
Como o circo conseguiu fechar um dos shows mais disputados do mundo? Festivais brasileiros com patrocínios polpudos já tentaram e não conseguiram.
Cara, posso contar nos dedos de uma mão os shows que valeram a pena todo o trabalho que dá produzir um show no Rio, desde que o Circo abriu de novo. Tirei umas férias antes de pegar pesado no verão e voltei depois do final de ano, determinado a me concentrar em shows mais legais.
Era segunda feira, o primeiro dia de volta ao trampo, e estava apagando o CPM22 da minha pauta, pensado que show que eu queria muito ver esse ano. Sem sacanagem, não deu tempo nem de pensar. A Tônia Shubert, da [produtora] D+3, ligou perguntando se tinha essa data pra fazer "um show de rock 'n' roll que todo mundo vai querer ir". Tinha.
Depois de uns bons dez minutos ela revelou que era o Franz Ferdinand. Como viriam para abrir para o U2, eles sondaram a D+3, que havia os convidado pro Claro que é Rock, para arrumar um show no Rio. Toda banda que vem tocar no no Brasil quer tocar no Rio e acho que os caras já vinham pro Carnaval. Pensei: "fudeu, tenho que fazer esse show de qualquer jeito. Como é que eu vou fazer para pagar esses caras?". Já tava até considerando fazer um frila na praça Paris, mas fiz uma primeira proposta e esperei.
Você sabe como um dia dura quando voce espera a resposta de algo que quer muito, ainda mais nesse calor! Daí, no meio da semana, liga o Renato Byington pra iniciar a negociação. Ele disse que bateu a real pros caras, que ia ser num lugar tradicionalmente rock 'n' roll e que seria como se eles fossem tocar no Astoria [em Londres] ou no Warfield [em São Francisco]. Os caras da produção local disseram pra eles que poderiam fazer esse show no Claro que é Rock, daqui a alguns meses, com um cache beeeem mais polpudo, mas eles quiseram fazer aqui e agora.
Chegamos num acordo bacana e na quinta feira ele deu a boa notícia. Ele [Renato] chegou a ficar apreensivo quanto a data, por ser tão proximo do Carnaval, mas eu realmente acho que a é data perfeita. Os caras podiam tocar até no dia do Juízo Final que ia ser foda!
Porque você acha que eles escolheram o Circo para tocar?
Adoraria acreditar nisso, mas eu duvido que o povo do Franz Ferdinand tenha pedido pra tocar no Circo porque ouviram falar do espaço. Acho que temos o mérito de fazer muita coisa legal e daí virar referência, além de ser uma das poucas casas de porte médio em que uma banda assim pode tocar. Mas deve ter sido indicado por alguém no Brasil mesmo.
Lembro que no show do White Stripes, no Claro Hall, ficava pensando "porque não fizeram esse show no Circo?". Detesto lugar muito grande, a ponto de deixar de ver alguns shows por causa da cabeçada que vai estar lá. Ao contrário de raves, em que quantro mais gente melhor, shows devem ser em lugares médios e confortáveis. Ser no Circo vai ser um acontecimento, porque eles só tocam em lugares grandes atualmente e os ingressos acabam rapido.
O Circo vai aguentar o tranco?
Temos uma estrutura tranquila e azeitada, tá na boa. Não vai ser uma super produção, vai ser um show pra quem gosta da banda. Eles só pediram um backline um pouco distinto, mas já estamos conseguindo achar tudo. Falta o Pedrinho, do Seletores de Frequência, topar alugar a bateria dele. Ele esté com medo que o baterista se empolgue e quebre tudo, mas acho que eles não tem essa tendencia Keith Moon [baterista do The Who], né? Nunca vi a banda ao vivo em um show inteiro.
Começando 2006 assim, e do jeito que bandas gringas têm passado pelo Brasil ultimamente e sempre indo só pra São Paulo, há esperança de vermos mais shows desse porte no Circo?
Isso não depende só da gente, porque se dependesse, é óbvio que todas viriam pra cá. Tem coisas que a gente nem fica sabendo que está no Brasil, é triste. Os produtores tem que procurar a gente. Essa semana ofereceram o Rufio e o Venon. Mas uma banda assim, no auge, querendo fazer o show no Rio e facilitando ao máximo as coisas, como o Franz Ferdinand, quase nunca rola.
Espero que tenhamos um público foda, tanto em quantidade, quanto em qualidade, pra que eles comentem com outras bandas amigas e eles também se animem. Parece que o Kaiser Chiefs, o Kasabian e o Ima Robot estão a fim de vir. Queria fazer um Butthole Surfers, mas acho que só ia ter eu assistindo. É frustrante morar nessa cidade, mas as vezes milagres acontecem.

Nação Zumbi no Circo
foto: divulgação
A avalanche de shows no Rio nesse começo de ano continua. No espaço de uma semana tocaram por aqui Nervoso, Hurtmold (2x), Los Hermanos (3x) e Cidadão Instigado (2x). Na última sexta-feira, foi a vez da Nação Zumbi, com abertura do BNegão e os Seletores de Frequência, no Circo Voador.
O show de lançamento do disco "Futura" no Rio demorou, mas chegou. Originalmente programado para acontecer durante a etapa carioca do Claro que é Rock, em novembro de 2005, a apresentação da Nação Zumbi acabou sendo cancelada, para compensar os atrasos causados por problemas de produção naquele dia.
Abrindo a noite, BNegão e os SF provaram que aquele palco realmente potencializa as apresentações do grupo. No Circo os shows deles sempre estão um nível acima do normal. Substituindo Kalunga no baixo, Bruno Pederneiras, à vontade, estava integrado ao resto da banda.
Apesar da presença de palco de BNegão, é difícil entender as letras (pelo volume do vocal ou pela dicção), principalmente para quem nunca ouviu as músicas antes. Recheadas de mensagens bacanas e boas rimas, a compreensão das letras, sem dúvida, seria um fator positivo para conquistar novos fãs.
É o único detalhe que falta para o show ficar redondinho, porque, de resto, é praticamente irretocável. Embora os balanços, os funks e os dubs se destaquem, o pancadão "Dança do patinho" é responsável pelo momento de maior empolgação.
Era 1h30 da manhã e o público já praticamente implorava -- através de palmas, assovios e gritos -- para Nação Zumbi entrar em cena quando a banda finalmente atendeu aos pedidos. Veio a sequência, violenta, de "Hoje, amanhã e depois", "Na hora de ir", "Meu maracatu pesa uma tonelada", "Memorando", "Macô", anunciando que o repertório do show, lógico, priorizaria músicas do "Futura", com espaço para clássicos de outros discos e da fase Chico Science.
O cenário simples -- composto por dois panos de fundo com desenhos inspirados na capa do disco e algumas luzes fluorescentes, colocadas verticalmente no palco entre os músicos -- passam uma certa frieza, que vai bem com o conceito de "psicodelia em preto e branco" do novo disco.
Olhando para NZ hoje, a impressão é que, se sofreu com a perda de Chico, com o passar do tempo o quarteto central vai se duplicando no palco. Lucio Maia, além da guitarra, opera um laptop, Du Peixe atocha efeitos vocais no Chaos Pad e Pupilo, além da quebradeira usual, dispara as batidas eletrônicas. Só dengue continua "apenas" tocando baixo. Vamos ver até quando.
Antes de tocar "Propaganda", Du Peixe lembrou que esse ano tem eleição e pediu consciência na hora de votar e para o público não dar muito atenção para veículos como "Veja, Globo, Folha ou Estadão", listou. Encerrando a primeira parte do show, "Quando a maré encher" (de Fábio Trummer, do Eddie) contou com a participação de BNegão. No bônus vieram "Futura", "Manguetown" e o encerramento com "Da lama ao caos".
Entre as 18 músicas, não estavam "A cidade", nem "A praieira". Fica pra próxima. Está comprovado que, pela Nação Zumbi, esperar sempre vale a pena.

Cidadão Instigado
foto: Joca Vidal
Já são 14 dias ininterruptos de sol no Rio. Dias lindos, sem nenhuma nuvem no céu e praia (pra quem pode). Uma leseira generalizada toma conta, devido ao calor, reduzindo o ritmo das coisas, como só acontece no verão. Nessas condições, assitir um show no final de tarde exige um esforço extra para vencer a preguiça. Ou pelo menos um bom motivo. Ontem, havia um bom motivo, chamado Cidadão Instigado. Sorte de quem se deu conta disso.
Já havia escurecido lá fora quando Fernando Catatau (voz e guitarra), Regis Damasceno (guitarra, violão), Rian Batista (baixo), Clayton Martim (bateria acústica e eletrônica) e Marcelo Jeneci (teclado) subiram ao palco do Humaitá pra Peixe. O pôr-do-sol, no entanto, aconteceria dentro do Espaço Cultural Sérgio Porto.
A melancolia das canções compostas por Fernando Catatau, somada à riqueza musical e letras de um humor bastante peculiar, criam um paradoxo. Divertem ao mesmo tempo que angustiam, seja pelos temas abordados (solidão, apatia, abandono), seja pelos arranjos, muitas vezes contrapondo as duas coisas, em músicas alegres de letras tristes (ou vice-versa). Trilha para um pôr-do-sol estranhamente depressivo e um tanto absurdo, no escuro de um teatro.
Firmando-se como um dos mais interessantes compositores de sua geração, Catatau está em toda parte. Como guitarrista, tem colaborado com a Nação Zumbi, Los Hermanos, Otto, DJ Dolores, Instituto e o que mais de bom pinta pela frente. O show é baseado nas músicas de seu segundo disco, o ótimo "Cidadão Instigado e o método túfo de experiências", além de algumas do primeiro, "O Ciclo da Dê.Cadência". Porém, em suas apresentações, Catatau não precisa apelar para participações especiais dos amigos famosos ou expedientes do gênero.
A reação do público, abduzido pela viagem caótica proposta pelo quinteto, confirma isso. Em vez do calor, dessa vez a leseira generalizada foi culpa de guitarras ora psicodélicas, ora rasgadas, flutando na nuvem de teclados, linhas de baixo e bateria na condução das bela canções do Cidadão Instigado.
Ao vivo, as músicas ficam ainda mais doidas e a interpretação de Catatau, se contorcendo nos solos e cantando com o coração, contribuem para isso. As música climáticas (algumas chegam a sete minutos), misturam brega, rock, reggae, ritmos nordestinos e programações eletrônicas. Influências que, listadas dessa maneira, parecem impossível funcionarem juntas. Mas funcionam. E como.
A quantidade de artistas presentes refletia a relevância do trabalho do Cidadão Instigado. Estavam lá alguns dos principais nomes da nova música brasileira, essa que anda pra frente sem se prender a tradições, que a mídia teima em chamar de "alternativa" e que ainda está lutando para ser devidamente reconhecida. Estavam lá, entre outros, Kassin, Lucas Santtana, Wado, BNegão e integrantes do Hurtmold e do Los Hermanos. O fino.
Catatau entrou mudo e saiu calado, com uma breve exceção para apresentar os integrantes da banda e agradecer a presença do público, no final do show. Ainda se escutava os aplausos quando Bruno Levinson, organizador do HPP, subiu ao palco para anunciar a próxima atração.
Enquanto isso, minutos após uma apresentação catártica e antológica, Catatau voltou ao palco com a banda, dessa vez para desmontarem eles mesmos os equipamentos, como se fosse um iniciante. Faz sentido. O Cidadão Instigado é feito de paradoxos.

2006 já começa cheio de bons shows. É o Humaitá pra Peixe, um dos principais festivais de novos talentos do Brasil, na área. Esse ano, o URBe tem a honra de apoiar o evento.
O HPP ocupará o Espaço Sergio Porto, dois dias por semana, durante todo mês de janeiro (resvalando em fevereiro). Em primeira mão, a escalação.
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03/01 (terça) - Besouro Zorah / ForFun
04/01 (quarta) - Lasciva Lula / Carbona
10/01 (terça) - Leleo / Céu
11/01 (quarta) - Jonas Sá / Rodrigo Maranhão
17/01 (terça) - Mutreta / Moptop
18/01 (quarta) - Cidadão Instigado / Luxúria
24/01 (terça) - Cecília Spyer / Katia Dotto
25/01 (quarta) - Binário / Artificial (Kassin + Gameboy)
30/01 (terça) - Liga de MCs
01/02 (quarta) - Debate
Quarta tem seleção musical deste que vos escreve, na pista 2 da Casa da Matriz, com os amigos do esquemageral. Vai ter Arctic Monkeys, 8Bit, Mr. Catra e a sensacional "Mama meu ganso", Abba e vai saber o que mais. Aliás, se tiver alguma música muito boa, pode levar o disquinho que eu toco.
Vamos ver se dessa vez bato meu recorde de público e consigo manter alguém além da Carol na pista.

Casa da Matriz
Digitaldubs
quartas de janeiro + convidados
23h
R$ 12, R$ 9 (com filipeta)
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Moptop
foto: Joca Vidal
Entrando em sua terceira semana, o festival Humaitá pra Peixe retomou os trabalhos com o Mutreta e a revelação carioca Moptop. O Espaço Cultural Sérgio Porto estava lotado pra conferir as bandas.
Mostrando um rock com influências de Barão Vermelho, Black Crowes e climas viajante, o Mutreta abriu a noite sem inovar. Apoiado por músicos competentes e muito bem ensaiados, o vocalista Fred Entringer, anfitrião do evento Rock na Varanda e figura conhecida da cena carioca, estava em casa. Até música pra mãe ele dedicou. Entretanto, pelo circuito que vem percorrendo, o Mutreta pode estar mirando na faixa etária errada, um pouco abaixo do público-alvo desse tipo som.
O Moptop veio em seguida e parece ter subido no palco com o pé esquerdo. O volume do som oscilava, a guitarra base berrava, abafando o som da guitarra solo e dificultando a audição do vocal e das letras das músicas. Alheios a tudo isso, o pessoal da mesa de som (da equipe da própria banda) sorria, cantava, dançava e tirava fotos, sem parecer muito preocupados com o bolo sonoro que saía dos alto-falantes e prejudicava bastante a performance do quarteto.
Nervosos com o pandemônio em que ia se transformando sua aguardada apresentação no HPP (tanto por eles, quanto pela platéia), o Moptop parecia travado, ansioso pra resolver o problema. Enquanto a situação não melhorava, o telão bacana, produzido pela rapaziada do 6D Estúdio, chamava atenção e distraia.
O rock dançante, de guitarras sujas, bateria marcada e letras espertas do Moptop, de influências contemporâneas como Strokes, Bloc Party, Kings of Leon e Los Hermanos, preenche um espaço até agora vago no cenário brasileiro. A cada show as referências vão ficando menos explícitas e a banda vai encontrando sua sonoridade. É só dar tempo ao tempo. Falta agora abandonar de vez as letras em inglês (que teimam em ressurgir).
Lá pela quarta música -- talvez por obra divina -- o som deu uma melhorada. Mesmo sem estar no ponto ideal, foi o suficiente pra relaxar a banda e fazer o show crescer. O púlbico veio junto, reagindo melhor as músicas, culminando no hit "O rock acabou", com coro e palmas da platéia. Atendendo aos pedidos, o Moptop voltou para o bis, tocando a raramente executada "Bem melhor".
Foi um show abaixo da média do grupo, mas nem por isso ruim. E ensinou uma lição importante: disposição no palco conta mais do que um som impecável, afinal, o show tem que continuar. A vida independente é mesmo a melhor escola.

O Cocadaboa é mal, muito mal.

Hurtmold
foto: Luciano Valério/divulgação
Nesse final de semana, o Los Hermanos comemorou as 50 mil cópias vendidas do seu disco mais recente, "4", com uma mini-temporada no Canecão. Porém, o número que se destacou foi outro, um pouco menor, mas nem um pouco inferior: o três.
Foi esse o número de shows da temporada e , mostrando que não esqueceram suas origens, foi exatamente esse o número de bandas independentes escolhidas pelos Hermanos para abrir as apresentações: Nervoso e os Calmantes, Hurtmold e Cidadão Instigado. Uma por noite.
Na estréia, com a casa cheia de imprensa e convidados, coube ao ex-Acabou la Tequila/Autoramas/Beach Lizards, Nervoso. Pela penca de referências em comum, sonoridade e temática das letras, Nervoso têm potencial para acertar em cheio os fãs do Los Hermanos, principalmente a parcela insatisfeita com o "4" e saudosos da agitação das turnês do "Bloco do Eu Sozinho" e "Ventura". Por tudo isso, era um show importante.
Apesar do PA novinho do Canecão, o som embolado que se ouvia (problema que persistiu e prejudicou também o show do Los Hermanos) não ajudou. Os Calmantes, talvez apreensivos com a situação, ficaram meio paradões, deixando Nervoso sozinho no palco e dificultando ainda mais as coisas.
Mesmo assim, a garra da banda, calejada do underground, aliada a boas músicas, superou esses problemas e conquistou aqueles de ouvidos atentos e abertos as novidades. Se dos 2 mil presentes, 100 resolverem ir atrás do que ouviram já valeu a pena. A idéia é essa, de pouquinho em pouquinho, conquistar seu espaço.
Na segunda noite, foi a vez dos paulistas do Hurtmold esquentarem o público. Embora o (vá lá) post-rock instrumental, emulando nomes como Fugazi e Tortoise, pudesse representar um risco diante de um público de características messiânicas, afeito a cantar junto e pular o tempo todo, a banda foi muito bem recebida. E chapou o Canecão por preciosos 30 minutos.
Formado, em 1998, por Maurício Takara (bateria, trompete, vibrafone), Fernando Cappi (bateria, guitarra), Mário Cappi (guitarra), Guilherme Granado (teclado, percussão), Rogério Martins (percussão) e Marcos Gerez (baixo), os integrantes do Hurtmold e os do Los Hermanos se conheceram na gravação do instinto programa de televisão Musikaos, em que bandas tocavam ao vivo. O respeito mútuo virou amizade e desembocou no convite para banda fazer esse show de abertura.
No seu terceiro show para um público tão grande (antes disso, abriram dois shows da Nação Zumbi e tocaram no Sónar Barcelona), o sexteto fez bonito, hipnotizando os presentes com músicas repletas de texturas e referências. O Hurtmold é caso raro, daquelas poucas bandas que se saem melhor ao vivo do que em disco.
As percussões crescem, acentuando a latinidade das músicas, os improvisos rolam soltos e o groove explode entre sacudidas de caxixi, noises de guitarra, programações eletrônicas, linhas de baixo, solos de trompete, melodias de vibrafone e quebradeiras na bateria. É uma alegria ver uma banda dessas tocando num lugar com a estrutura e quantidade de público que merece.
No dia seguinte, domingo, o Hurtmold tocou outra vez, na Audio Rebel, em Botafogo. Misto de loja de discos, estúdio de ensaio e local para shows, é um lugar novo e surge como boa opção para shows de pequeno porte. Nem tanto pela qualidade, é verdade, mas pelo clima.
Apesar do cheiro de argamassa das obras e do calor beirando o insuportável (precisa de, no mínimo, mais três ar-condicionados ali), o cafofo onde acontece os shows acaba sendo aconchegante, deixando o público (de até 100 pessoas) bem perto da banda. É o clima perfeito para "shows históricos" (leia-se: quanto menos pessoas, mais histórico).
Dessa vez com 50 minutos de duração (e filmado na íntegra), o do Hurtmold, com certeza, entrou pra essa lista.
Você deve ter recebido por e-mail um jogo promovido pelas lojas de discos Virgin, onde a tarefa é encontrar artistas e bandas codificados numa imagem.
Demorou, mas apareceu a versão brazuca. A Folha de S.Paulo publicou um jogo semelhante com bandas brasileiras. A execução é meio tosca, comparada ao anúncio gringo, mas dá pra se divertir. Pra quem não tiver paciência, as respostas estão soltas.

Projeto paralelo do Falcão (Rappa), a banda Loucomotivos foi formada especialmente para tocar num bloco do carnaval baiano. Sobreviveu à festa e chegou aos palcos do Rio. O trocadilho infame do nome alertava, mas nada preparava para o que viria a seguir.
Com uma excelente banda na mão formada por Liminha (guitarra), João Fera(teclados, Paralmas), DJ Negralha e o baixistaLauro (Rappa), Pedrão (trompete, Seletores de Frequência e Quinto Andar), um lugar bacana (Circo Voador), com boa qualidade de som e principalmente, público, Falcão desperdiçou a chance de fazer um showzão.
Ao contrário de outros projetos similares, como a Orquestra Imperial e o Reggae B, também formados por nomes conhecidos e que fogem das obviedades, aproveitando a credibilidade para apresentar músicas pouco conhecidas do grande público, o Loucomotivos atacou de versões bobas de sucessos radiofônicos da geração 80 (isso não vai acabar nunca?). Sente o drama da 11 primeiras do repertório:
"Nós vamos invadir sua praia" (Ultraje a rigor); "Cinco minutos" (Jorge Ben), salvando o repertório; "Por enquanto" (Legião Urbana); uma medley de "Easy" (Commodores) / "Liberdade pra dentro da cabeça" (Natiruts) / "Você" (Tim Maia) / "Go back" (Titãs) / "Stir it up" (Bob Marley); "Pais e filhos" (Legião), com direito a uma espinafrada no baterista Marcelo Bonfá, por não ter autorizado uma versão do Rappa para música -- graças a Deus; "Ska" (Paralamas) e "Nos barracos da cidade" (Gilberto Gil).
A participação de BNegão deveria ter emprestado alguma dignidade à apresentação, porém o repertório, novamente, não ajudou. "Olhos coloridos" (Sandra de Sá) e "Sossego" (Tim Maia), seguida de "Oye como vá" (música de Tito Puente creditada à Santana, num dos poucos momentos em que algum autor das músicas foi citado no show), serviram de trilha pra ir embora.
Individualmente, as músicas (com algumas poucas excessões) não são ruins, lógico que não. Acontece que são tão exaustivamente tocadas, inclusive nas rádios, até hoje, que já não causam o mesmo impacto. Um evento como esse poderia servir para introduzir outras músicas no circuito.
A temporada prossegue nas quartas de janeiro e na primeira de fevereiro. Passe longe, bem longe.

Céu
foto: Joca Vidal
A segunda semana do Humaitá pra Peixe começou com um problema, causando o atraso no ínicio dos show de Leleo e Céu. A mesa de som queimou faltando uma hora para o evento e teve que ser substítuida as pressas. Nada muito grave, considerando a conhecida pontualidade carioca. A demora serviu para aumentar a ansiedade do público que lotou o Sergio Porto para conferir a paulistana Céu, apontada como revelação da nova MPB.
Às 20h05, Leleo (ex-integrante da Banda Bel) abriu a noite com um show morno. Penando pra acertar o som durante a apresentação (devido ao problema com a mesa), seu "samba-rock progressivo" não decolou. Emulando Jorge Ben, tanto na sonoridade quanto na temática das letras (e tome nome de mulher!), as músicas seguiam a mesma estrutura de verso-refrão -repetição de um tema e/ou frase no final. Talvez a intenção fosse induzir ao transe, porém isso apenas tornou as músicas parecidas demais entre si.
Nem o sucesso, de sua autoria, "Solteiro no Rio de Janeiro", em versão mais lenta, levantou a turma, ainda que o público estivesse prestando atenção durante todo o show. A tarefa não era mesmo das mais fáceis. A maior parte do público estava lá para ver a estréia carioca da Céu.
Quando chegou sua vez de encarar a platéia, a cantora pareceu tímida. Encolhida, se escondendo nas sombras e falando tão baixo entre as músicas que mal se ouvia a moça, Céu demorou um pouco para se soltar. Depois de elogios à cidade, algumas músicas e uns poucos problemas técnicos na primeira metade da apresentação, Céu e banda relaxaram e subiram de produção, como se guardassem propositalmente o melhor para o final.
A bonita voz de Céu sai fácil, tem bom alcance e projeção. Não decepcionou. Pelo contrário, ao vivo, seu timbre não lembra tanto o de Maria Rita, como no disco, o que por si só é uma boa notícia -- duas cantoras, duas vozes diferentes. No quesito inovação musical, infelizmente, o mesmo não aconteceu. A banda, formada por Guilherme Ribeiro (teclados e efeitos), Lucas Martins (baixo e guitarra), Sérgio Machado (bateria), Bruno Buarque (percussão) e pelo DJ Marco é tecnicamente impecável, principalmente a cozinha. No entanto, ousa muito pouco.
Se a proposta é dar um passo a frente na sonoridade MPB, de maneira geral isso não acontece. Os arranjos soam parecidos com o que já foi feito. Tirando os scratches e efeitos eletrônicos, disparados de um laptop pelo tecladista -- alguns um bocado gratuitos -- o som não é diferente, por exemplo, da escola da Bebel Gilberto. Claro, é grooveado, tem nuances de trip-hop e atmosferas viajantes, mas cada virada, cada nota, parece tão precisa e calculada para soar "cool" que perde espontaneidade. O resultado é frio.
Céu não apenas interpreta como também escreve boa parte do seu repertório, abrindo espaço aqui e ali para versões, como "Nanã", do mestre Moacir Santos. Outra versão, de"Concrete jungle", do Bob Marley, foi responsável por um dos melhores momentos do show, seguida de perto por uma levada afro-beat, perto do final, em que a banda, finalmente, se soltou e se permitiu crescer junto com a voz da menina, fazendo uma diferença positiva no clima não apenas da platéia, mas também no palco.
Com os medalhões da MPB passando da casa dos 60, há um desespero para encontrar novos ícones para manter essa tradição musical brasileira. O caminho pode ser o traçado por Maria Rita, que, se não inova, ao menos renova o gênero ao procurar parceiros de sua própria geração (como Marcelo Camelo ou Rodrigo Maranhão). Pode ser também a fusão com a eletrônica. E pode não ser nada disso.
Na tentativa de antecipar a MPB de amanhã, qualquer respiro não rock pode ser considerado a salvação. Uma precipitação -- e pressão -- que não ajuda em nada o processo evolutivo e, principalmente, artístico da nova geração. Não custa lembrar, Caetano, Gil e outros, apesar do sucesso de crítica, não tiveram vendas expressivas até 10, 15 discos depois da estréia. Resta esperar que nomes atuais também tenham essa chance.
No camarim, após o show, Céu recebeu a visita dos colegas famosos (Moska, Mart'nália, Caetano Veloso) e escutou Caetano setenciar que ela "é o futuro". Devagar, não é bem assim. O talento é inegável e a direção escolhida está correta, mas a pressa de chegar pode atrapalhar o percurso. Como dizem por aí: não interessa o destino, o importante é a viagem. A da Céu está apenas começando.

Deve vir resenha do "Guerolito", disco de remixes de"Guero", do Beck depois, assim que der tempo. Por enquanto, confira a programação de Gameboy sinistra da funkadub "Gettochip Malfunction (Hell Yes) [8Bit Remix]". Sério, ouve.

Matéria sobre o Arctic Monkeys que escrevi para o Rio Fanzine, n'O Globo.
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O Ártico está com a macaca
O ano mal começou e a banda de 2006 já despontou. Pode anotar este nome: Arctic Monkeys. A histeria mundial começa oficialmente no dia 30 de janeiro, quando será lançado “Whatever people say I am, that’s what I’m not” (Domino Records), primeiro disco do grupo. Entretanto, o Arctic Monkeys está chamando a atenção desde o início de 2005, através da troca de arquivos de MP3 e do lançamento de dois compactos, esgotados e disputados em sites de leilão, como o eBay.
Nesses tempos pós-Napster, a história já está ficando até manjada: bandinha desconhecida faz shows incendiários, oferece suas músicas na internet e estoura mundo afora. Não faz muito tempo e uma história parecida, guardadas as devidas proporções, aconteceu por aqui, quando os pernambucanos do Mombojó surgiram na cena.
A macacada do Ártico não foge muito desse roteiro. Formado por Alex Turner (guitarra e vocal), Jamie Cook (guitarra), Andy Nicholson (baixo) e Matt Helders (bateria) em Sheffield, Inglaterra, o Arctic Monkeys é mais que um fenômeno da internet. O componente principal, como não poderia deixar de ser, é a música.
Com média de idade de 19 anos, o grupo conquistou os fãs misturando pós-punk, ska, riffs pesados, quebras de andamento, bateria pulsante, baixo estalando e dinâmicas interessantes. Sem falar nas letras espertas, que falam de relacionamentos, noitadas e angústias de maneira tão simples que podem até soar bobas a princípio (e não é sempre assim?).
O rock dançante do Arctic Monkeys soa sujo, diferente, por exemplo, de bandas como o Kaiser Chiefs, para citar a rivalidade que está sendo provocada pela imprensa inglesa, saudosa da disputa Blur x Oasis.
No meio de 2005, por conta própria, o Arctic Monkeys lançou o EP “Five minutes with the Arctic Monkeys” e o CD demo “Beneath the boardwalk”, produzido pela própria banda. As músicas chamaram tanta atenção que garantiram uma apresentação no prestigiado Reading Festival. E o contrato com a Domino.
“I bet you look good on the dance floor”, primeiro compacto lançado depois de assinarem com a gravadora, foi bem além das expectativas mais otimistas. O disco estreou em primeiro lugar na parada inglesa, coisa que Franz Ferdinand e o ultrapop Coldplay até hoje não conseguiram fazer. O compacto já vendeu 150 mil cópias, nada mal para uma banda que começou dando seus discos em shows.
O repertório de “Whatever people say...”, estréia oficial do Arctic Monkeys, é uma seleção das músicas presentes na demo e nos compactos. Algumas mudaram de nome, como o segundo single a ser lançado, “When the sun goes down”, antes conhecida como “Scummy”.
A banda, especialmente o vocalista Alex Turner, parece avessa ao sucesso, gerando comparações com o Nirvana e as complicações de Kurt Cobain. É bom irem se acostumando. Quando o disco sair, a tendência é piorar.

Lasciva Lula
foto: Joca Vidal
Toda edição do Humaitá pra Peixe, pelo menos um dia é agraciado com um temporal, daqueles de alagar ruas, geralmente espantando parte do público e esfriando um pouco as apresentações. Pois bem, a profecia se cumpriu e quase tudo isso aconteceu ontem no Sergio Porto. Desabou uma água, ruas alagaram e muita gente deixou de ir aos shows do Lasciva Lula e do Carbona.
Só uma coisa não aconteceu: com cerca de metade da lotação (imagina se não tivesse chovido),a platéia continuou quente e o HPP conseguiu atravessar o segundo dia, mesmo entre chuvas e trovoadas.
Quando os cabo-frienses do Lasciva Lula abriram a noite, estava claro que bastante gente resolveu enfrentar a chuva para ouvir boa música. E o Lasciva Lula não decepcionou. O rock básico, tem pegada indie (eles são fãs do Pixies) e ao mesmo tempo pop (várias músicas tem potencial radiofônico), ainda assim sem muita firula. O diferencial são mesmo as quebras de andamento, as paradinhas e as melodias crescentes.
O vocal gritado na medida (em alguns momentos lembrando Beto Bruno, do Cachorro Grande) e as boas letras do vocalista e guitarrista Felipe Schuery , somado as levadas contagiantes tocadas por Jamil Li Causi (baixo e voz), Guga Bruno (guitarra), Marcello Cals (bateria), garantiram a boa apresentação. Com 8 anos de estrada, a banda conta com um público fiel e barulhento, ajudando o Lasciva Lula a se sentir em casa.
Depois de três EPs e sem repetir nenhuma fórmula, o Lasciva Lula se prepara para lançar seu primeiro disco cheio, com 12 músicas. Pra você ver, a banda nem tem disco e já tem um hit, "Casal de velhos".
Os veteranos do Carbona tocaram em seguida. Com sete discos lançados e 250 shows nas costas, a banda é formada por verdadeiros operários do rock. São eles; Henrique Badke (guitarra e vocal), Melvin (baixo) e Pedro (bateria). Apenas o Melvin já tocou no Acabou la Tequila, Leela, Hill Valleys e sabe-se lá quantas outras bandas do underground carioca.
O trio agitou o Sergio Porto com seu punk rock inspirado no Ramones pra um grupo de seguidores tão fiéis quanto os do Lasciva Lula até a direção da casa mandar parar, por conta do horário.
Semana que vem tem mais, tomara que não chova. Mas se chover, deixe a preguiça de lado e não perca. Mesmo enxarcado, o HPP vale a pena. E você não é feito de açucar.

ForFun
foto: Joca Vidal
Na noite de estréia do Humaitá pra Peixe 2006 o Sergio Porto recebeu uma invasão adolescente, no que pode ter sido o dia mais disputado do evento, mesmo sendo o primeiro. O motivo eram as bandas Besouro Zorah e, principalmente, o ForFun. Mais do que a música em si, a ocasião valia para analisar (e tentar entender) esse fenômeno.
Com um disco produzido por Liminha (lançado pelo seu selo, o Supermusic, com distribuição da Universal) e a música "História de verão" estourada no rádio, o ForFun já conta com uma boa estrutura, tanto de equipamentos, quanto de equipe. Some a isso o tempo de estrada e está explicado porque, durante sua apresentação, a empolgação do público beirou o descontrole.
Foi um dia de aula em plenas férias de Janeiro, com direito a desmaios (de calor, não de emoção), invasões de palco e muitas broncas. A turma deu bastante trabalho para equipe de inspetores, quer dizer, seguranças, além de ter exigido diversas intervenções do diretor, opa, produtor do HPP, Bruno Levinson, pedindo para o público maneirar no empurra-empurra, sob a ameaça de suspender a apresentação. Igualzinho a um recreio de colégio.
O show do Besouro Zorah foi um pouco mais calmo, não apenas nos quesitos quantidade e histeria dos fãs, como também na energia da banda no palco. É que o trio ainda está no princípio de um longo caminho, já trilhado pelo ForFun.
Esse caminho é o que mais interessa observar. Em comum, além do hardcore bubble gum e das letras repletas de gírias adolescentes, ambas as bandas construíram seu público e sua cena através da distribuição de músicas na internet, contato ativo com os fãs através de blogs, flogs e do boca-a-boca do circuito de saraus de colégios, quem vem substituindo a falta crônica de lugares pra tocar no Rio.
Enquanto o Dibob – uma das primeiras crias desse circuito no Rio – conquistou seu público sozinho, mas precisou assinar com uma grande gravadora para tocar no rádio e na TV, o ForFun conseguiu a mesma exposição sem fechar contrato com multinacional. Resta saber quando vai surgir uma banda que vai dar o último (e talvez mais importante) passo à frente: depois de conquistar seu público e emplacar músicas no rádio e na TV, dispensar as grandes gravadoras na hora de partir pra luta e disputar espaço no mercado.
Com as mudanças na indústria da música cada vez mais aceleradas e irreversíveis, esse dia não parece longe. As bandas estão fazendo a sua parte e a imprensa começa a entender o seu papel nesse contexto. Falta apenas um dos fatores para fechar a equação: o público exigir (seja das rádios, TVs ou gravadoras), de verdade, espaço para o que quer ouvir e não apenas aceitar as imposições da mídia.
Independente de se gostar ou não dos nomes em questão, isso não é relevante aqui, o fato é que eles estão conseguindo fazer o que muita banda independente bacanuda não conseguiu: se impor no mercado criando seus próprios caminhos.
Uma molecada bem além do underground está consumindo bandas alternativas, coisa que há muito tempo não se via no Rio. Uma nova geração de público está se formando, indo atrás do próprio gosto (ou o dos amigos), sem os vícios impostos pelos esquemas de mídia e voando abaixo do radar das grandes gravadoras. Isso só pode ser bom.
Ainda na correria, o Besouro Zorah mostrou que não está de bobeira e fez o dever de casa. De olho no futuro, aproveitaram a presença maciça do seu público alvo no Sérgio Porto para distribuir, de graça, seu EP, produzido pelo ex-Legião Urbana Dado Villa-Lobos.
No final, como numa saída de colégio particular, havia uma grande fila de carros para buscar os adolescentes. Passava das 22h, hora de ir pra cama e sonhar em ser estrela do rock. Hoje em dia, isso é possível.

O URBe foi considerado o "melhor blog de música (nacional)" de 2005, segundo a votação promovida pela revista Laboratório Pop. O juri era composto por jornalistas e produtores culturais de vários estados.
O resultado foi uma surpresa, e não apenas porque nem sabia que estava concorrendo. Muito obrigado a Laboratório Pop pela indicação e aos que votaram no URBe!
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Após uma pane no servidor do Gardenal.org, que hospeda o URBe e de pouco mais de um mês operando em endereço temporário (www.urbe.blogspot.com), o saite está de volta à sua casa.
Aproveitando as férias forçadas, a parte visual foi reformulada e algumas novidades foram implementadas, como um sistema de busca no saite, um antigo desejo. Pena que, com o problema no servidor, boa parte dos arquivos do URBe foram para o espaço, mas aos poucos os textos estão sendo recolocados.
Faltam alguns detalhes (como organizar a navegação por sessões, restabelecer a lista de links, etc) que devem ser resolvidos ainda hoje pelo bravo Mateus. Não importa. Só estar de volta no endereço oficial (e de cara nova!) é alegria suficiente por agora.
Pra começar o ano com o pé-direito.
