setembro 2005 Archives

Cobertura do Nokia Trends 2006, que escrevi para o saite rraurl.com.
-----------
Asian Dub Foundation foi destaque da noite
"Há males que vem para o bem", diz o ditado. Faltando poucos dias para o Nokia Trends 2005, a cantora Roisin Murphy (ex-Moloko) cancelou sua apresentação no evento. O que poderia ter sido um problema e tanto para produção tornou-se no maior trunfo da etapa carioca do NT. Tudo porque a vaga aberta na escalação foi preenchida pelo Asian Dub Foundation. Os ingleses, chamados de última hora, acabaram ofuscando todas as outras atrações presentes no Armazém 5 do Cais do Porto, tomando de assalto os 8 mil presentes (dados da assessoria de imprensa do evento).
Antes do auge da noite, outros nomes também fizeram bonito, como a parceria entre o Apavoramento Sound System e o cantor e compositor Fausto Fawcett (logicamente, Fawcett não estava sozinho e apresentou mais uma de suas loiras). Logo depois, o DJ Zé Gonzalez abriu os trabalhos no palco live, com um set misturando clássicos do hip hop, "Shout" (Tears for Fears), "Hipnotize" (Notorious BIG), "Drop it likes it's hot" (Snoop Dogg), "We will rock you" (Queen) e "Black in black" (AC/DC).
Na platéia, o produtor brasileiro radicado nos EUA, Mario Caldato Jr. — responsável, entre outras coisas, por algumas das mais conhecidas batidas dos Beasties Boys e também por discos de Jack Johnson — assistia o amigo tocar para os poucos presentes.
Às 23h30, com o galpão ainda vazio, o americano Money Mark subiu ao palco. Mais uma das muitas figuras conhecidas como "o quarto Beastie Boy" (Mixmaster Mike e o próprio Mario C são outras), o tecladista Money Mark tocou nos discos "Check your head" e "Ill communication" do trio.
Quem esperava algo próximo do hip hop, entretanto, se surpreendeu. Mark começou tocando teclado Rhodes e gaita sobre uma base programada e depois pegou uma guitarra e continuou acompanhado por outra guitarra, baixo e bateria. O show de rock causou estranhamento num festival supostamente de música eletrônica e não empolgou. Caldato ainda tocou baixo, como convidado em uma música.
Notando o público desanimado, inclusive gritando "toca Raul!", Mark deu a dica: "acho que o Human League está tocando ali ao lado", se referindo ao espaço que transmitia, ao vivo, as atrações da parte paulista do Nokia Trends.
Durante a troca de palco para entrada do Asian Dub Foundation, o carioca Zégon voltou aos toca-discos, dessa vez contando com a boa participação do rapper paulista Xis, em mais uma interação Rio-São Paulo do evento.
Quando o Asian Dub Foundation começou a tocar, por volta de 1h, o Armazém já estava cheio. Não demorou muito para o grupo levantar a platéia, principalmente com o carisma do trio de vocalistas, mas também com a potência do baixo de Dr. Das, pela guitarra alucinada de Chandrasonic e as bases do DJ Pandit G. A mistura de rock, dub, drum and bass e ritmos indianos é irresitível.
Entres os vocalistas, uma novidade em relação a última passagem da banda pelo Brasil: Lord Kimo substituiu Aktavatar. O motivo é simples. Desde a saída de Deedar Zaman, o posto de vocalista é rotativo, sendo sempre exercido por alunos de destaque da ADFED, escola de música mantida pelo Asian Dub em Londres. Nessa nova formação, além de Kimo e Spex, que continuou no posto, o rasta Ghetto Priest juntou-se a eles. Descendente de jamaicanos, o reggaeman passou pelo African Head Charge antes de lançar um disco solo pelo selo O-U-Sound, ambos de responsabilidade de Adrian Sherwood.
Fã do Sherwood, do African Head Charge e parceiro do ADF, Marcelo Yuka assistiu tudo bem de perto. E uma das coisas que ele assistiu foi uma falha no sistema de som que fez com que o show tivesse que ser interrompido por alguns minutos. O baixista Dr. Das não conseguia ouvir seu instrumento no retorno. Mesmo após resolvido o problema no palco, a qualidade de som que o público ouvia também não era das melhores. Graves distorcidos e médios e agudos embolados eram a prova de que o PA não deu conta da pressão do ADF. É verdade que o teto de zinco do Armazém também não ajuda. Problema recorrente, talvez se a produção investisse parte do dinheiro que gasta para enfeitar o lugar em algum tipo de tratamento acústico melhorasse um pouco.
O ADF passou por cima dos problemas e continuou avassalador. Em português, dedicaram uma música ao brasileiro Jean Charles de Menezes, "uma vítima da polícia britânica". "Take back the power", "Naxalite", "Fly over", "Fortress Europe" (essa com direito a um rewind ao vivo de fazer inveja a muita banda jamaicana), agradaram bastante.
O estrago foi tão grande que ficou difícil pra quem veio na sequência. Mesmo sendo a dupla Audio Bullys. Enquanto Tom Dinsdale cuidava das bases, Simon Franks, tomando uma cerveja, largou os vocais de "Shot you down", remix de "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)", da Nancy Sinatra, que ficou famosa através da trilha sonora de "Kill Bill", de Quentin Tarantino. A chuva de hits, parecia, iria começar.
As músicas mais conhecidas do Audio Bullys, no entanto, ficaram praticamente de fora do set. Isso porque Simon somente ameaçava cantar músicas como "We don't care" ou "Real life", falando apenas parte do refrão sobre bases tão alteradas em relação as originais que ficaram praticamente irreconhecíveis. A qualidade do sistema de som, mais uma vez, também não cooperou. Uma pena.
Simon deu uma descansada nos vocais e Tom enveredou por batidas mais retas, perdendo a pegada. Quando o vocalista voltou, as coisas melhoraram novamente, com "Break down the doors", faixa de Erick Morillo que conta com a participação dos Bullys e citação a "All Along The Watchtower" (Bob Dylan, eternizada por Jimi Hendrix).
O vocalista, simpático, até tentou se comunicar com a platéia, mas além da língua, a enorme (e inexplicável) distância entre o palco e o público, uns 12 metros, dificultou a interação. O Audio Bullys terminou a apresentação exatamente como começou, tocando "Shot you down", o que de certa maneira resume a impressão geral do set, um pouco repetitivo.
No espaço virtual, com transmissão em tempo real das atrações de São Paulo, o clima era outro. Com as luzes acesas e o som baixo, o lugar virou uma espécie de boate focada na azaração, com as pessoas dando pouca atenção ao que estava tocando. Bom que, ao menos assim, quem de fato queria assistir os shows no palco principal não era obrigado a levar esbarrões da macharada sem camisa ou pisões no pé das dondocas de salto.
Depois do deep house do finlandês Luomo, Simon ainda voltou ao palco fazendo uma participação no bom set do X-Press 2. Mais pesado do que se esperava, o set poderia ter sido um aquecimento para Carl Craig.
Já estava claro e a pista estava cheia aguardando o Detroit Techno de Craig, mas o americano acabou se perdendo entre muitas variações e longas mixagens, desagradando quem esperava batidas mais fortes. A pista foi esvaziando lentamente, até restarem cerca de 500 pessoas para conferir a próxima atração.
Quem ficou até o final do evento, viu o Mau Mau iniciar seu set as 8h da manhã pra uma pista empolgada, porém cansada da maratona que já durava 10 horas. Mesmo assim, o brasileiro só parou quando desligaram o som. E tinha gente querendo mais.
fotos: Carol Mariotto

Lídero do Cidadão Instigado, o cearence Fernando Catatau conversou com o URBe, por e-mail, sobre o novo disco, "Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências".
-------
E aê, o que continua instigando o cidadão?
Os que eu gosto, instrumentos e algumas músicas. Do amor eu não posso falar, então fico calado.
O que aconteceu entre o primeiro disco, "O ciclo da decadência" e esse "Método tufo de experiências"? Quais mudanças significativas?
Eu diria que eu tenho caminhado em paz. Faço o que eu gosto, toco com quem eu quero e gravo os discos da minha maneira. Daí saem essas coisas aí. A gente vai mudando com a vida, né? A música vai junto.
Você trocou o Selo Instituto pela Slag?
Eu num troquei não. Esse disco é uma parceria da Slag com o Instituto, saiu pelos dois selos, o que tá sendo muito legal. Sou grande amigo dos meninos do Instituto, a gente tá sempre fazendo coisas juntos. Os meninos da Slag estão sendo fora de série, agilizando
um monte de coisas pra gente. Eu não poderia ter nada melhor. Tô muito satisfeito.
Sendo nordestino, e talvez mais habituado ao brega, estilo muito maior no norte do que no sul do país, como você vê a quantidade de bandas atuais declaradamente influenciadas por esse estilo (e conseqüentemente pela Jovem Guarda)? Como é essa influência para você?
Uma coisa que eu sempre falei e que eu gosto muito de ouvir musica triste, musica feliz demais me da agonia, me deixa triste. Normalmente eu busco a felicidade pra minha vida, na música eu prefiro me acabar na tristeza. Roberto Carlos é o que mais me emociona nessa vida não sou tão fã da Jovem Guarda, nem do Rei nessa época. Gosto da fase 70, romântica. Sou muito fã do Fernando Mendes, Marcio Greyck, da maioria das músicas lentas internacionais dos anos 80, Bee Gees... É disso que eu gosto.
Além do brega, o rock progressivo e músicas climáticas parecem outras fortes influências no "Método tufo...".
Passei minha adolescência escutando Pink Floyd, [Jimmy] Hendrix, [Black] Sabath, Iron [Maiden], como todo adolescente rockeiro da minha época. Quando ouvi Santana pela primeira vez, escolhi meu instrumento. Sou, na realidade, um apaixonado por guitarras. Gosto até mais de instrumentos do que da própria música e tento me divertir com eles nas
composições, bagunçando tudo.
Como a música eletrônica e experimentos de estúdio entram nessa equação?
Eu sou um apaixonado por áudio. Passo minha vida atrás de equipamentos antigos.
Tenho um problema muito sério com o mundo digital. Não que eu ache totalmente ruim, acho que hoje existem ótimas ferramentas. Vieram para facilitar nossa vida, mas a qualidade final é sempre um "quase lá". Falta a humanidade, mas não posso dizer que é um mal. Muito pelo contrário. [É] uma salvação pro mercado independente.
A mixagem das faixas foi dividida meio a meio entre Kalil Alie e Buguinha Dub. Qual a intenção disso? Qual critérios você utilizou para decidir quem mixaria o que?
Os dois são grandes amigos meus. Na real, eu já sabia o que ia sair dali. O Buga é mais dub, então eu dei as que tivessem menos a ver com dub e pedi pra ele dar a cara dele. O Kalil é mais rockeiro e taquei as baladas pra que elas soassem da maneira dele. No final eu achei que ficou com uma unidade boa. As vezes me soa como se tivesse sido mixado por uma só pessoa e, mesmo assim, é possível ver a personalidade dos dois lá.
A interpretação das letras do disco está bem teatral, muitas vezes são apenas recitadas ou faladas mesmo. Porque isso?
A música do Cidadão é quase totalmente baseada nas letras. Tento fazer uma trilha sonora para o que eu escrevo. Se a música fala de amor eu procuro dentro do universo musical os acordes que vão chegar mais perto das emoções do coração. Se tem que passar uma tensão, já penso diferente. Com a música a gente pode passear pelo mundo das sensações, o grande lance é saber combinar os elementos certos pra poder passar o que você esta querendo.
O falado é mais porque antes eu não me garantia muito em cantar e hoje, por mais que eu continue não me garantindo muito, já me arrisco mais. O legal é você tentar passar a sua verdade, por mais fuleira que ela seja.
O disco está recheado de participações. É uma necessidade pra poder realizar o disco da maneira que você imaginou ou é mais pra juntar os amigos mesmo?
Todos que participaram nesse disco são grandes amigos com os quais eu tenho bastante afinidade musical. O Thomas Rohrer (sax, violino, rabeca) e a Izaar (vocais) são seres emocionantes, já vieram assim. Os meninos da banda são fodas: Regis Damasceno (Mr.
Spaceman), Rian Batista (Otto, Instituto), Clayton Martin (Vaca de Pelúcia, Detetives) e Mauricio Takara (Hurtmold, M. Takara). Teve também o Marcos Axe e o Andre Male, que tocam com o Otto na percussão. Esses tocam muito. Até fiz ate o Ganja Man (Instituto, Otto) tocar musica romântica! Hahaha! Na realidade, chamei meus amigos pra gente se
divertir, entrar no estúdio e tirar um som. Daí saiu o disco.
Por outro lado você tem tocado bastante com outras bandas, né? (Los Hermanos, Nação Zumbi, Los Sebosos Postizos... quem mais?) Fale um pouco dessas participações, como elas rolam, etc.
Bem, comecei a tocar com outras pessoas em 2000. Até então eu só tinha tocado com meus projetos pessoais. O primeiro foi o Otto, que me chamou pra tocar com ele sem me conhecer direito. Fui lá e tô até hoje. Depois disso várias pessoas me chamaram e eu fui
também. Já toquei com DJ Dolores, Estela Campos, Beto Vilares, Los Sebosos Postizos e também gravei com a Nação Zumbi, Los Hermanos, Zeca Baleiro, Eddie, Bonsucesso [Samba Clube]... Já fiz algumas trilhas também. No mais, é isso.
Imagino que você não deve agüentar mais essa pergunta, mas não tem como fugir: o que é o "método tufo de experiências"?
Tufo, significa você fazer algo sem pensar demais. Duma vez. Quando você quis fazer, já estava pronto. Então o método são essas experiências vomitadas. Deu pra entender?
E que diabos é um "pinto de peitos"?
É um pinto que tem peitos, mas o mais massa é que ele tem o bico preto e o pio dele é escuro. Hahahahahaha!
Queria finalizar com uma coisa que eu acho muito importante. O Cidadão Instigado não é “uma banda de um homem só”, fica até chato pros meninos ouvir isso sempre. Não sei quem falou isso a primeira vez, mas isso não é verdade. A banda sou eu, o Regis Damasceno, o Rian Batista, o Clayton Martim e sempre um convidado, que um dia vai fechar os cinco. Por enquanto tá o Marcelo Jeneci e tá massa.

Banksy atacou novamente, dessa vez no muro construído por Israel ao redor dos territórios palestinos ocupados. E questiona, "quão ilegal é vandalizar um muro se o próprio muro foi considerado ilegal pela Corte Internacional de Justiça?".
Durante os trabalhos, um diálogo interessante entre o grafiteiro e um palestino:
Senhor: Você pinta o muro, você o faz parecer bonito.
Banksy: Obrigado.
Senhor: Nós não queremos que fique bonito, odiamos esse muro, volte pra casa.

Cobertura do Motomix 2005, que escrevi para o saite rraurl.com.
-------
Motomix ou mortomix?
Se São Paulo é o túmulo do samba, o Rio de Janeiro deve ser o da música eletrônica. A frase pode soar ranzinza e um tanto exagerada, sim, mas é impressionante como esse tipo de festa dificilmente rola bem por aqui. Muito disso se deve ao fato de, até hoje, poucos eventos terem sido feitos com a cara do Rio. Geralmente, tentam empurrar um clima que não tem a ver com a cidade, adaptar fórmulas que não se encaixam.
A etapa carioca do Motomix, no Clube Mourisco, não foi diferente. Com pouca divulgação e acreditando que o simples fato de acontecer num clube na beira da praia de Botafogo (o Mourisco, antiga casa da festa Delírio) seria o suficiente não apenas para atrair público, como também garantir o público certo, foi um engano e tanto. O visual da praia não é novidade para carioca nenhum, só isso é muito pouco pra sustentar uma festa. Distribuir convites a granel (até em vôo da ponte-aérea Rio-São Paulo, como contou o DJ Marlboro) também não resolve.
A noite começou cedo, às 22h, com BiD. Graças ao inexplicável hábito carioca de chegar nas festas o mais tarde possível — independente disso fazer com que se perca boa parte das atrações — praticamente ninguém viu o bom show do multi-instrumentista. Uma pena.
Na sequência veio a Project Band, grupo formado pelos participantes de uma oficina promovida pelo evento. Capitaneados pelo brasileiro Soul Slinger, figura seminal do drum 'n' bass e da música eletrônica verde e amarela, os alunos mostraram um som chapado, com influências de dub e interferências de alguns instrumentos tocados ao vivo, como flauta e bateria. Com tantas pessoas e idéias no palco, naturalmente o som, apesar de bem produzido, ficou devendo coesão. Tudo certo, o resultado de um encontro desses não é mesmo para ser imediato. Interessante é ver o que pode sair dali agora que os pontos se conectaram.
Durante as apresentações, os VJs (mal posicionados a beça, na frente do palco, obstruindo a visão do público) cuidavam da parte visual. Ao invés do tradicional telão atrás do palco — onde havia um painel de luzes bem bacana — a parede lateral do galpão foi utilizada como suporte, com as imagens sendo projetadas em cima de grafites e lambe-lambes de artistas cariocas como Lelo e Raffo.
Acompanhar as projeções, aliás, era uma das únicas opções para passar o tempo enquanto se aguardava as demoradas trocas de palco entre uma atração e outra, já que (tirando umas faixas de reggaetón e dancehall) as vezes não tinha nem música pra preencher o ambiente, só o zum zum zum do bate-papo.
Depois de muito atraso, o rapper MC Solaar subiu ao palco. Acompanhado por uma banda e MCs de apoio, o senegalês radicado em Paris decepcionou os que esperavam um show à altura de seus bem produzidos discos. Com discurso afiado e tendendo ao pop(erô), MC Solaar soou como uma espécie de Gabriel O Pensador da França, com tudo que isso tem de bom e de ruim.
Se o som mal passado e embolado que saía do PA não ajudava, as coreografias constrangedoras (com direito a beijo na boca no final de uma baladinha) e a barreira da língua afundaram a apresentação de vez. Além disso, existe um outro fator: o público de hip hop do Rio, quem sabe diferente de São Paulo, é predominantemente fanfarrão. Não à toa, nomes de qualidade como Quinto Andar ou Inumanos penam pra conquistar espaço. A equação banda ruim + público chocho não podia mesmo acabar bem.
As coisas melhoraram bastante quando o Super Discount 2 começou a tocar. Formado por Ettiene de Crécy e Alex Gopher, o grupo contou com a participação de Alex Kid para sacudir o lugar com sua mistura de electro, house e esbarrões na batida reta do techno. Só a versão breakbeat de "Aero Dynamik", do Kraftwerk, e uma música que convocava insistentemente "sensimilla, marijuana" valeram o set. A apresentação talvez tenha sido um pouco longa demais, fazendo com que o Super Discount perde-se o foco no final. Nada grave, no entanto.
Bem grave foi a entrada da dupla Gil le Gamin e Olivier M, do The Youngsters, que abriram seu set com uma freqüência baixa e continua, acalmando os ânimos antes de iniciar os trabalhos. Artista do selo F-Communications, do Laurent Garnier, o Youngsters atacou de electro com influências de rock e breakbeat utilizando um computador, toca-discos, uma mesa de som, abusando dos scratches e do vocoder. Sem soar retrô e tocando bem pesado, a dupla fez o lugar pegar fogo, literalmente. Um incêndio, rapidamente controlado, perto do curral VIP, encheu o lugar de fumaça e cheiro de queimado.
Ao final da apresentação, as 5h, as luzes foram acesas e o público que ainda estava lá descobriu que os atrasos cobraram seu preço. As atrações anunciadas Alex Kid, Ben Dubphonic e Soul Slinger foram simplesmente canceladas.
Musicalmente, foi um evento de altos e baixos, normal. Já em termos de produção, foi uma noite pra ser enterrada. No túmulo da música eletrônica.
fotos: Carol Mariotto e Bruno Natal

"Teste de resistência:
Um pra trás, dois pra frente, a cena eletrônica do Rio de Janeiro encolhe para se expandir", matéria que escrevi para revista Beatz.
------------
Teste de resistência
Um pra trás, dois pra frente, a cena eletrônica do Rio de Janeiro encolhe para se expandir
Por Bruno Natal
A noite carioca é inconstante – quase que literalmente – por natureza. Cidade essencialmente diurna (por todos os motivos óbvios) e com uma certa queda por modismos, a cultura eletrônica sempre teve dificuldades para pegar de vez no Rio.
Após experimentar seu auge na virada dos anos 1990 para os 2000; bons tempos do clube Bunker, de várias raves e pseudo-raves e até de uma edição local do Skol Beats, as coisas esfriaram. A perseguição das autoridades a eventos de música eletrônica – culminando com a proibição das raves – diminuiu as luzes das pistas de dança do Rio. Mas não apagou.
Entre solavancos, a noite carioca parece estar finalmente encontrando seu formato ideal. Clubes menores têm atendido a demanda, oferecendo festas mais bem produzidas e direcionadas. Top DJs voltaram a tocar na cidade e até mesmo festas maiores, como a Delírio – que tem levado grandes nomes internacionais ao Rio nos últimos meses – estão novamente acontecendo. É o renascimento das pistas do Rio.
Ilustra Rio
O recuo, obrigatório, acabou sendo também estratégico. Passado o pico, hoje as festas em clubes como Fosfobox, Dama de Ferro, 00 e Casa da Matriz têm sido mais bacanas do que tempos atrás. Tanto para o público quanto para os DJs. Com estruturas menores, fica mais fácil tomar conta dos “detalhes”, como a qualidade do equipamento de som, coisa rara por esses lados.
O DJ Spark, catarinense radicado no Rio, concorda. “Simplesmente tudo flui melhor, desde o acerto dos produtores com as casas, até o DJ que chega pra tocar e está tudo certinho.” Ele continua: “O Fosfobox é perfeito: som ótimo, DJs melhores ainda e público misturado. Já o Dama arrasa pelos DJs que traz, por misturar as coisas de um jeito próprio e por investir na noite
carioca”.
O produtor Cabbet Araújo, dono do Fosfobox e também do Oz Club, é outro que acredita na mistura. “Com a proibição das raves, houve uma segmentação e agora está havendo uma fusão. Com o rock, por exemplo. As pessoas não estão mais agüentando ouvir música eletrônica a noite toda. Quando se mistura com qualidade a noite rende muito mais.”
Além do cancelamento da edição de março da Delírio, por causa da interdição em cima da hora do Clube Mourisco, lugar onde acontecia a festa – que se mudou agora para o Pão de Açúcar –, a boate Sygno fechou suas portas de vez.
O produtor da Febre, a mais antiga festa de drum’n’bass do Rio de Janeiro, e da noite do Digital Dubs (ambas na Casa da Matriz, onde também acontece a festa de rock Maldita), Joca Vidal aponta um problema recorrente, que acontece também em São Paulo: “As pessoas não querem pagar. É a cultura do VIP, todos querem entrar de graça. Depois, quando as festas não conseguem se sustentar, essas mesmas pessoas reclamam da falta de opções interessantes”.
Feliz com o levante carioca, o DJ Markinhos Mesquita faz algumas ressalvas. “Existe muito elogio e poucas críticas. Para os DJs, nem todas as casas são tão boas como parecem. A visão do público é uma, a do DJ é outra”, explica.
“Os novos clubes ainda têm que mostrar a que vieram, é cedo pra dizer que agora vai. Eu espero que durem, para criar algo que não seja apenas diversão de verão.”
Bem ao jeitão carioca, sempre dando um jeitinho, as coisas vão se acertando. Devagar e sempre, como tem que ser.
Serviço:
Fosfobox
Rua Siqueira Campos 143/loja 22A (subsolo) Copacabana
Tel: (21) 2548-7498
Dama de Ferro
Rua Vinícius de Moraes 288 Ipanema
Tel: (21) 2247 2330
www.damadeferro.com.br
00
Av. Padre Leonel Franca 240 (dentro do Planetário da Gávea) Gávea
Tel: (21) 2540-8041
www.00site.com.br
Casa da Matriz
Rua Henrique de Novaes, 106 Botafogo
Tel: (21) 2266-1014
www.casadamatriz.com.br