janeiro 2005 Archives
Assistir um DJ tocar tal qual um show, ou seja, virado para o palco, é uma das coisas mais monótonas que existem. O visual não muda muito. Quase sempre, o que se vê é um sujeito muito concentrado entre vários discos. Tão concentrado que ele não ouve nem a mesma música que o público, fica com a orelha colada no fone, preocupado com a próxima da fila.
Carisma. Taí uma coisa que poucos artistas da música eletrônica têm. Nego Moçambique tem de sobra. Semana passada, ele mostrou seu novo show no Rio, na Fosfobox. Como era de se esperar, ele continua quilômetros à frente dos outros. A explicação é simples: ao invés de tentar reproduzir a tendência da vez no exterior, com o inevitável atraso que isso acarreta, Nego mistura suas próprias referências, é seu próprio parâmetro. É original, pra resumir em uma palavra.
Suas apresentações não têm toca-discos. Também não têm banda. E não têm fone. O Nego, veja só, ouve a mesma música que a pista. Isso faz diferença. Acompanhado apenas (apenas?) de uma bateria eletrônica e um sampler, Nego vai construindo suas músicas ao vivo, soltando bases pré-gravadas, samples, loopando, adicionando beats e fazendo breaks de acordo com o momento.
Assim, George Clinton desembarca nos anos 2000, o DJ Marlboro viaja para o 3000, Prince empresta umas batidas ("Doves cry"), Dr. Dre dá um alô com seus tecladinhos mafiosos e Barrington Levy avisa, "Here I come!".
Dançando sem parar, Nego leva a pista pra onde quer. É como assistir alguém cantando no banheiro, de frente pro espelho (nem vem dizer que você não faz isso). Dançando como se ninguém estivesse olhando, Nego Moçambique consegue transmitir perfeitamente o que sente em cada música, a onda exata. Como as músicas são dele, não há ninguém melhor pra fazer isso.
Ao público resta seguir, num raro momento em que faz sentido uma pista inteira ficar olhando pro DJ.

Matéria sobre o Creative Commons que escrevi para o Rio Fanzine, do jornal O Globo.
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Música sem polícia à vista
Bruno Natal
Utilizar trechos ou pedaços de músicas de nomes conhecidos para criar outra obra, o famoso ato de samplear, costumar dar galho. Você já deve ter lido notícias escabrosas sobre adolescentes recebendo multas milionárias por baixar músicas na internet ou DJs e produtores sendo processados por utilizar samples sem autorização. No entanto, os dias da polícia da música parecem estar cada vez mais próximos do fim.
De olho no futuro, a Creative Commons, uma organização não-lucrativa, empenha-se na implementação de uma lei de direitos autorais moderna. Algo que não enxergue a troca de MP3 e samples como crime, por exemplo. Não é oba oba. Sai o “todos os direitos reservados”, entra o “alguns direitos reservados”. Alinhados aos novos tempos, pouco a pouco grandes nomes estão aderindo às licenças CC. O ministro Gilberto Gil e os recifenses do Re:Combo e do Mombojó saíram na frente. Lá fora tem muito mais gente.
Recentemente, a “Wired” distribuiu 750 mil cópias de um disco só com faixas sob a licença CC. O “The Wired CD: Rip. Sample. Mash. Share.” contém músicas de Beastie Boys, David Byrne, Zap Mama, My Morning Jacket, Spoon, Gilberto Gil, Dan the Automator, Thievery Corporation, Le Tigre, Paul Westerberg, Chuck D, The Rapture, Cornelius, Danger Mouse & Jemini, DJ Dolores e Matmos. Todas liberadas para serem sampleadas e distribuídas livremente na rede.
Seguindo essa lógica, surgiu o concurso “The fine art of sampling” (“A fina arte de samplear ”). Parceria da Creative Commons e da “Wired”, o concurso desafia produtores de todo o mundo a fazer o melhor que puderem utilizando trechos de qualquer música do disco encartado, disponíveis para baixar no site da revista. Nunca foi tão fácil. A data final para inscrição dos trabalhos é 12 de fevereiro. Corra, uma chance dessas não costuma aparecer sempre. Pelo menos por enquanto.
BRUNO NATAL faz o zine eletrônico URBe e é coisa nossa
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