setembro 2004 Archives
Matéria sobre viagem à Inglaterra, para filmar o documentário "Dub Echoes", que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).
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Matéria sobre aapresentação de Clotaire K no Rio que escrevi para o Rio Fanzine Online (O Globo).
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Hip hop do Habibs
Bruno Natal (especial para o Rio Fanzine)
Nem deveria ser necessário dizer, mas nem só de bombas e petróleo vive o Oriente Médio. Seja por culpa do Iraque, do Arafat, do Osama ou do Irã, ultimamente o mundo árabe ocupa horas e horas, páginas e mais páginas dos noticiários pelo pior dos motivos: a guerra. Clotaire K, um francês filho de libaneses e apaixonado pela cultura que herdou dos pais, transformou em missão pessoal mostrar o que há além de tanta desgraça.
A ferramenta escolhida para passar essa mensagem não poderia ser mais certeira. Atração internacional do Hutúz Rap Festival, Clotaire fez do hip hop seu veículo. Trilha sonora da juventude mundial e uma das melhores plataformas para misturas sonoras, é através do rap que o compatriota do MC Solaar vai tentar passar sua mensagem no próximo dia 15, na apresentação na noite de encerramento do evento (MV Bill, Edd Wheeler, Viela e Suspeitos da Mira também tocam).
As muitas visitas ao Líbano e as andanças pelo EUA e Europa resultaram em “Lebanese”, uma boa fusão entre os ritmos e melodias da música árabe com o batidão do hip hop. O disco tem ainda a participação do Asian Dub Foundation e seus temperos indianos, devolvendo a canja de Clotaire no “Community Music” dos ingleses. Se a rapaziada vai entender alguma coisa, é uma outra história.
O que pode complicar é o fato das letras serem quase todas em árabe oufrancês. Tudo certo que muita gente provavelmente também não entenda patavina de inglês, no entanto, pode apostar que o número de pessoas que falem árabe presentes no Armazém 5 deverá ser bem próximo de zero.
Isso não deve ser problema, “música é uma linguagem universal”. Ditado um tanto cafona, é verdade, porém correto. O (bom) som da banda de Clotaire deverá ser suficiente. Ainda mais entre os amantes do hip hop, geralmente fissurados por técnicas de produção, timbres e traquitanas sonoras e para quem as bases são tão importantes quanto as letras. É sentar no tapete voador e embarcar na viagem. Só não esqueça de levar a sua esfiha.
Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário "Dub Echoes", escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.
Essa foi a sexta entrada.
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A capital inglesa é um carnaval
Londres é mesmo a capital da música. Somente em aqui é possível entrevistar, em menos de uma semana, Audio Bullys, Groove Corporation, Asian Dub Foundation, LTJ Bukem, Bigga Bush, Dreadzone, David Katz (autor de "People Funny Boy", biografia oficial do Lee Perry, e tambem de "Solid Foundation"), conferir o Creamfields, o carnaval de Notting Hill e ainda deixar engatilhado bate-papos com pelo menos outros cinco grandes nomes da cena.
Bully é uma gíria inglesa pra encrenqueiro. Numa tradução grosseira, Audio Bullys pode ser entendido como "encrenqueiros do áudio". No entanto, nada pode ser mais distante disso do que chegar na casa de um dos integrantes e receber uma xícara de chá para passar o tempo enquanto ele acaba de passar roupa ou pede licença para atender o telefone. Durante a entrevista que encerrou a semana passada, a dupla mostrou não sacar da história do dub, mas foi enfática em reconhecer a importância do gênero no som que eles produzem.
O final de semana foi pouco produtivo para o documentário por dois motivos. Primeiro porque segunda era feriado (Bank Holyday, um dos mais importantes daqui). Segundo porque estava rolando o Notting Hill Carnival, festança caribenha que dura dois dias e domina a cidade.
Entre muitos trios eletricos de calipso, soca e salsa, os sound systems jamaicanos se destacavam. Apesar da festa originalmente ser de Trinidad e Tobago, pouco a pouco a Jamaica vai tomando conta da situação, espalhando suas equipes de som por pontos estratégicos e colorindo a festa com as cores rasta. É impressionante o número de pessoas com camisetas, casacos, tênis ou acessórios fazendo referência à ilha. Geralmente os sound systems mais disputados são os do Jah Shaka, que esse ano não tocou, e do Aba Shanti I, que quebrou logo no comecinho do set. Restou correr para o Channel One, sem nenhuma relação com o lendário estúdio, para curtir freqüências graves de deixar engasgado. O grande problema é conseguir ir de um ponto ao outro. Com mais de um milhão de pessoas nas ruas, atravessar a massa de gente nao é mole.
Um dia antes do inicio do Carnaval, foi a vez do Creamfields, em Liverpool. Um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo, aterrisando no Brasil no final do ano (só em Sao Paulo), o line up desse ano estava tão caprichado que mesmo os organizadores não se cansavam de alardear que era um dos melhores da história do evento: Plump DJs, Audio Bullys, Scissor Sisters (fraco...), Deep Dish decepcionando com um set reto e sem groove, FC Kahuna, Scratch Perverts, Mark Farina, Josh Wink, Jeff Mills, Layo & Bushwacka, Dave Clarke, estavam todos la.
Numa estratégia pra conseguir espalhar o público de 40 mil pessoas pelo espaóo, as três principais atrações entraram em cena simultaneamente no auge da noite: Darren Emerson, Sasha (o furão do último Skol Beats) e Chemical Brothers destruíram a galera. Sem poder ver os três, fiquei com o Chemical e, mesmo sem ter visto os outros dois, posso afirmar: foi a escolha certa. Tom e Ed fizeram uma apresentação avassaladora, irretocável. Portanto, sendo fã ou não da dupla, é hora de juntar dinheiro pra ir pra São Paulo (de novo?! alô, alô, produtores cariocas!) no final do ano e conferir de perto o que talvez seja o melhor show de música eletrônica da atualidade. Só isso.
Essa semana, até agora, já foram devidamente entrevistados o Dr. Das (baixista do Asian Dub Foundation), Richard Wittingham (cabeça da gravadora Different Drummer), o figuraça LTJ Bukem, Bigga Bush (Rockers Hi-Fi), Dreadzone e ainda teve visita ao estúdio do Groove Corporation, o Elephant House, com direito a dub mix ao vivo e o escambau. A viagem está acabando, mas a lista de entrevistados ainda não. Vem mais por aí.
