agosto 2004 Archives
Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário "Dub Echoes", escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.
Essa foi a quinta entrada.
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Ingla is a bitch
A principal preocupação antes de viajar pra Inglaterra era arrumar onde ficar. Tudo por aqui é caro demais. Acabei conseguindo ficar uns dias na casa de uns amigos da Chris Magnavita, ex-colega de MTV. Primeiro na casa do Marcelo, o cara que comanda a comunidade brazuca aqui em Londres através do seu restaurante, o Brasil by Kilo, que aos poucos vai se transformando num centro de cultura brasileira. O prédio de seis andares tem locadora de filmes nacionais, comidas típicas, internet cafe, serviço completo. Quando estão na área, Marky e Patife sempre dão as caras. Depois, foi a vez do Joao hospedar a equipe.
Logo no primeiro dia, três entrevistas foram feitas, começando pelo Mad Professor. O dubman deve pintar no Brasil ainda esse ano para promover sua versão psicodélica do disco "Tranquilo", do "Marcelino de Lua", como ele fala. Depois, Kode 9, do coletivo Dubstep, falou sobre as raízes jamaicanas do UK Garage.
Pra fechar, Steve Barrow, um dos chefões da Blood and Fire, principal selo de relançamentos de reggae. Barrow, autor de livros como a bíblia "Rough Guide to Reggae", tambem é conhecido como o maior colecionador de compactos do estilo, guardando cerca de 9 mil bolachas, organizadas em ordem alfabética, em um dos quartos de sua casa.
No dia seguinte, foi a vez de conhecer o responsável pela Congo Natty, gravadora especializada em jungles rastas até não poder mais.Totalmente em harmonia com sua filosofia, o sujeito nos buscou na estação de trem vestindo um uniforme da Etiópia e falou bastante sobre as mensagens rastafaris das suas músicas e de como isso pode ajudar a empurrar os jovens pra bem longe de lixos pop. Durante a entrevista ele ficou só de cueca e camiseta. Surreal.
Os festivais de verão ainda não acabaram, esse final de semana ainda tem Reading Festival, Leeds, Creamfields e Notting Hill Carnival, o que significa dizer que praticamente todos os artistas do mundo estão ou estarão em Londres por esses dias. Foi durante o ensaio para o Reading que o Roots Manuva falou para o documentário. Talvez em nenhum outro som a fusão entre hip hop e dub feita pelo Roots Manuva saia tão bem e o assunto, claro, foi exatamente isso.
Já Howie B, produtor, entre outras coisas, de "Drum and bass stripped to the bone", estrelando os riddim twins Sly & Robbie, falou da cena eletrônica como um todo. À vontade na propria casa, Howie defendeu a repetição da música eletrônica e ainda deu a receita ideal para transformar alguem num fissurado em dub: amarre-o pelado em um sofá, raspe todos os pêlos do seu corpo e depois jogue queijo parmesão em cima. Segundo ele, é batata, o sujeito vira dubhead na hora. O resto do papo gravitou nesse mesmo nível de insanidade, com muitas boas declarações.
Semana corrida, agora é visitar o Audio Bullys e David Katz, outro estudioso do assunto. E esses são só os primeiros dias.
Principal atração da edição inglesa do Creamfields, em Liverpool, o Chemical Brothers não podia ter escolhido melhor música pra abrir o show. Aquecendo pra decolagem, a curta letra de 'Hey Boy, Hey Girl' condensava o que estava pra acontecer. Enquanto Tom Rowlands e Ed Simons, sem falsa modéstia, avisavam aos 'garotos e garotas' que os 'superstar DJs' estavam na área, o público se entregava e respondia, 'Here we go!'
À primeira vista, a quantidade de equipamento no palco parece um exagero. Porém, bastam duas ou três músicas para mostrar o contrário. Observar um sequenciador montado verticalmente, como se fosse um quadro numa parede ou a tela de um painel, é ter certeza de que, na verdade, o duo pilota uma nave. Completamente cercados por teclados, midis e computadores, a dupla lidera uma catarse eletrônica coletiva onde não há espaco para sobras ou firulas.
Diferente das apresentações ao vivo da maior parte dos grupos de música eletrônica, que geralmente se limitam a utilizar bases pré-programadas e samples ou uma banda na tentativa de transpor para o palco o que fazem no computador, Tom e Ed parecem levar o estúdio inteiro para o palco e fazem tudo ao vivo. Exatamente por isso, tal qual uma banda no sentido mais óbvio do termo, o Chemical Brothers toca suas músicas, nota por nota, bit por bit, podendo assim mudar de direção a qualquer momento, de acordo com a resposta do público. E isso, pode ter certeza, faz toda diferença.
Transitando por todo repertório, de 'Block Rockin' Beats' a 'Golden Path', incluindo Elektrobank', 'Get Yourself High', 'Setting Sun' e a excelente 'Star Guitar', até culminar na auto-explicativa 'The Private Psychedelic Reel', o Chemical Brothers confirma qualquer expectativa.
Ao vivo, as músicas surgem em versões diferentes. Algumas são extendidas, outras vêm e vão ao longo do show e boa parte ganha outras batidas. Em todas, a qualidade da produção da dupla impressiona. Passeando por diversos estilos --do breakbeat ao trance, do house ao pancadão, com direito a robozinhos no telão-- e cuspindo graves estúpidos sobre batidas assassinas, a impressão que se tem é de que o resultado das investidas nesses estilos são algumas das melhores músicas de cada gênero. É tão bom assim.
Chemical Brothers, Plump DJs, Audio Bullys, Scissor Sisters, Deep Dish, FC Kahuna, Sasha, Scratch Perverts, Darren Emerson, Mark Farina, Josh Wink, Jeff Mills, Layo & Bushwacka, Dave Clarke, Rob Da Bank, Medicine 8.
Tudo isso e muito, mas muito mais, amanha, no Creamfields 2004.
Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário "Dub Echoes", escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.
Essa foi a quarta entrada.
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Tentando, 1, 2, 3, tentando, 1, 2, 3...
LOS ANGELES - Se o principal motivo da ida a NY era entrevistar o King Jammy, falar com Hopeton Brown, o Scientist, era a razão para vir até a California. Exatamente como Jammy, Scientist também foi pupilo do King Tubby, o homem-dub. Principal nome do dub na Jamaica dos anos 80, seu trabalho mais conhecido é a série de discos temáticos ("Scientist encounters Pac Man", "Scientist rids the world from the evil curse of the vampires" ou "Scientist meets the Space Invaders") lancada pela gravadora inglesa Greensleeves.
Além do Scientist, havia outros nomes na lista de personagens em Los Angeles. Talvez, o fato dessas pessoas estarem fora da cidade possa ser encarado como sorte. Isso porque, de seis dias, três foram gastos em encontros com Hopeton. Diferente dos americanos ou europeus, os jamaicanos não enxergam entrevistas como oportunidade de divulgar seu trabalho e suas idéias. Para eles, isso é um negócio como outro qualquer. Isso tudo acontecendo e olha que o "Dub Echoes" até agora não tem nenhuma previsão de lançamento comercial.
Depois do primeiro encontro no camarim de um show de uma cantora que Scientist está produzindo, Triniti, em Santa Monica, ainda nos encontramos em outro show, dessa vez em Malibu, e novamente ele não deu a entrevista. Somente no terceiro encontro, num estúdio em North Hollywood (se você conhece LA, já deve ter percebido que a cada hora ele estava em extremos opostos da cidade), finalmente Scientist sentou para falar. Se não fosse a paciência sem limite do Alexandre Bier, que além de hospedar a equipe ainda deu zilhões de caronas, teria sido bem mais difícil ir a tantos lugares.
Estranhamente, no momento que a camera foi ligada a simpatia desapareceu e Hopeton encarnou um alter ego mandão, confuso e algumas vezes evasivo. Visivelmente nervoso, o dubmaster queria controlar tudo: o posicionamento da câmera, o enquadramento e até a forma que as questões deveriam ser apresentadas. Para ilustrar o nível de insanidade, vou tentar reproduzir parte do diálogo travado logo na primeira pergunta.
- O que é o dub e como isso começou?
- Bom, o dub... (silêncio). Qual foi a pergunta mesmo?
- O que é o dub e como isso começou?
- Não, isso não está bom. Pergunta assim "explique o que é um dub e como surgiu o dub?"
- Ok. Explique o que é um dub e como surgiu o dub?
- Isso é uma opinião pessoal, não uma verdade absoluta e eu não me sinto confortável para falar sobre isso. Próxima pergunta.
Quando acabou, ficou claro que essa tinha sido a entrevista mais difícil que eu já fiz. Depois, analisando melhor o que tinha acontecido, conclui que na verdade essa foi a primeira entrevista verdadeiramente difícil que eu já fiz. Mesmo assim, acredite ou não, o papo rendeu bons depoimentos para o documentário. Agora, a última e mais trabalhosa etapa: 15 dias em Londres para entrevistar mais de 20 pessoas.

Não teve jeito.
Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário "Dub Echoes", escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.
Essa foi a terceira entrada.
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Os ladroes chiques de Washington
NOVA YORK - A busca pelos artistas de hip hop em Nova York fracassou. Quer dizer, fracassar não é bem a palavra, houve um desencontro. Quando os contatos do Grandmaster Flash, Kool Herc, DJ Spooky e Mos Def finalmente apareceram, já era hora de partir para Los Angeles. Nem por isso os dias em NY foram menos produtivos. Além dos jamaicanos Bullwackie e do King Jammy, foi hora de falar com nomes mais recentes do dub e do downtempo.
Após uma viagem de quatro horas até Washington DC, cheguei a sede da Eighteen Street Lounge (ESL), gravadora do Thievery Corporation. O estúdio da dupla fica no segundo andar de uma casa em estilo mal assombrado-chic. Rob Garza e Eric Hilton estavam finalizando o próximo disco do Thievery, que só sai em fevereiro e, pelo pouco que mostraram, promete compensar quem se decepcionou com "The richest man in Babylon".
Por falar em "Richest man...", está para sair um EP com oito remixes dessa música, só cacetada. Voltando ao trabalho novo, o disco trará participações tão inusitadas quanto Perry Farrel e Flaming Lips, alem de Sister Nancy, cantora de reggae que gravou a clássica "Bam bam", favorita entre os djs do gênero no Rio.
Rob (com um visual Che Guevara, de barba, boina e cabelo grande) e Eric fizeram uma das melhores entrevistas até agora. Apesar do tempo curto, deram respostas certeiras e humildes, disseram até que não fazem nada de novo, apenas copiam e juntam referências soltas por aí.
Na mesma noite, de volta a NY, Victor Axelrod, o Ticklah, recebeu a equipe em seu estúdio, o porão da sua casa no Brooklyn. Foi Ticklah quem produziu o excelente "Dub side of the Moon", versão chapada do (adivinha?) "Dark Side of the Moon" do Pink Floyd, e tambem o "Hi Fidelity Dub Session presents Roots Combination".
Totalmente ligado no reggae e dub dos anos 70 e 80, Ticklah não ouve muito os sons atuais. Quando recebeu o bilhete que Eric Hilton (fã do "Dub Side") mandou, perguntou: "Thievery Corporation? Sim, já ouvi falar". Sua entrevista foi bem por esse lado e rendeu bons depoimentos. Pra finalizar, ainda rolou uma dub session exclusiva, devidamente registrada.
Próxima parada, Los Angeles.

Atualmente no Mars Volta, o tecladista Isaiah “Ikey” Owens já tocou no Sublime e no Long Beach Dub All Stars. Nos intervalos ele mantém uma banda, o Free Moral Agents.
Segundo o coleguinha Greg Burk, do LA Weekly, esse era o show para não perder ontem em Los Angeles. Acompanhado por um baterista, um baixista e um casal de vocalistas, Ikey arregaçou seus teclados na apresentação no pequeno Little Temple.
O Free Moral Agents faz um híbrido de funk, hip hop e psicodelia, resultando numa espécie de trip hop alegre com pitadas de dub poetry, vertente que junta poemas e dub.
A banda é do Ikey e o destaque do teclado na sonoridade não deixa espaço para dúvidas. Além do Rhodes, Ikey também comanda uma estação midi, soltando samples e efeitos, geralmente filtrados por ecos e delays. Essa mistura resulta num timbre interessante, sugerindo uma guitarra invisível no palco.
Eles tocaram por aproximadamente meia-hora, pouco para determinar até onde o som do Free Moral Agents pode ir. Do pouco que deu pra escutar, pareceu bem bacana.
Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário "Dub Echoes", escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.
Essa foi a segunda entrada.
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Jamaica, de novo
O documentário começou na Jamaica e a impressão é de que, apesar de estar em NY, essa fase ainda não acabou. Primeiro porque por enquanto só falamos com jamaicanos. Depois, porque hoje fomos mesmo pra Jamaica.
A comunidade jamaicana no Queens, subúrbio de NY, é tão grande que uma de suas regiões é chamada de... Jamaica. Tal e qual uma Chinatown, na Kingston nova iorquina tem de tudo que tem na ilha: um centro de cultura jamaicana, comida, estúdios e lojas de discos.
Uma dessas lojas, a VP Records, foi o ponto de encontro com King Jammy. Conhecido como Prince Jammy no início da carreira, o produtor e engenheiro de som foi nada mais, nada menos do que aprendiz do King Tubby, maior nome da arte de transformar o reggae em uma viagem interplanetária.
A entrevista foi tão fria e impessoal quanto foi necessária. Mais preocupado em saber quanto dessa história poderia sobrar pra ele (ah, se ele soubesse...) do que se concentrar na entrevista, Jammy falou por parcos 15 minutos. Cronometrados.
Desde a ida à ilha, ja havia chamado a atenção como a questão de grana é importante na produção musical deles: é difícil separar uma coisa da outra. Muito disso se deve ao fato dos jamaicanos, desde os tempos da colonização inglesa, sentirem-se constantemente explorados.
Não interessa se sua intenção é destacar e divulgar a importância da música deles no que ouvimos hoje em dia. Eles sempre partem do princípio de que você vai ganhar dinheiro e não vai sobrar nada pra eles. O histórico mostra que os jamaicanos não estão muito longe da verdade, ainda assim, cada caso é um caso. Às vezes, pode valer a pena baixar a guarda.
A proxima missão é encontrar com um grande nome do hip hop pra falar da conexao rap/deejay.
Pense na Fundicao Progresso. Agora imagine que antes de ser apenas um descuidado espaco para eventos, ela fosse um museu de arte contemporanea respeitado, onde todos os sabados do verao houvesse uma festa com djs como Mad Professor ou shows de bandas como o Scissor Sisters. Dificil? Pois eh exatamente isso que acontece ha alguns anos no PS1.
Situado no Queens, NY, ao lado de um conjunto de predios que abriga uma das maiores exposicoes de grafite ao ar livre do mundo, o PS1 (www.ps1.org/exhibits/exhibit.php?iExhibitID=7) eh o museu que esta abrigando temporariamente o acervo do MoMA, enquanto dura a reforma da sede da 5a Avenida.
A Warm Up reune musica e arte no patio a ceu aberto do museu. A cada edicao um artista plastico eh convidado a realizar uma instalacao que tambem sirva de cenario para festa. Esse ano o espaco foi desenvolvido pelo nArchitects e eh todo feito de bambu, criando varios espacos dentro da mesma festa. Tem praia artificial, piscinas e ate uma floresta enfumacada. As outras exposicoes -- menos o acervo do MoMA -- tambem podem ser visitadas.
Com o final do verao norte-americano se aproximando, a festa se prepara para a despedida. No ultimo sabado, Tim "Love" Lee fez um set de breaks impecavel, misturando o estilo com varios outros generos, do house ao reggae. O melhor da Warm Up eh que ela comeca bem cedo, as 16h e vai ate as 21h, deixando bastante tempo para outras programacoes.
O lugar nao podia ser mais familia: sexagenarios se misturavam a jovens e aos muitos casais com bebes no colo. Todos juntos na pista, ouvindo o mesmo som e se divertindo. Como tem que ser.
Durante a viagem para os EUA e Inglaterra para fazer o documentário "Dub Echoes", escrevi uma coluna no Globo On Line, espécie de diário de bordo atualizado sempre que possível.
Essa foi a primeira entrada.
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Primeira parada: Nova York
NOVA YORK - Começou a volta ao mundo em busca do eco perdido. Depois de deixar as malas na casa do camarada Paulo Lima, que está hospedando a equipe mais duranga do planeta, que só conta com o apoio da American Airlines, fomos trabalhar imediatamente. Visitamos o estudio do Lloyd Barnes, mais conhecido como Bullwackie.
Dono da gravadora Wackies, e produtor de dubs clássicos dos anos 80, o jamaicano mora nos EUA desde 68 e testemunhou de perto acontecimentos musicais como o nascimento do hip hop.
A entrevista foi bem bacana e o senhor de 60 anos ainda resolveu dar brindes no final. Nada mais nada menos que 37 compactos (uma música de cada lado), sete discos de 10 polegadas (duas de cada lado), dois LPs (seis faixas em cada lado) e 16 CDs. Chicodub era só sorrisos. O mellhor é que foram dois de cada, ou seja, vai ter muito DJ ganhando presente na volta.
Sábado é dia de encontrar a lenda King Jammy na VP Records. Lenda mesmo, porque, apesar de tudo acertado anteriormente, parece que o cara agora quer levar algum pra falar. Veremos...
Hoje começa a segunda e última etapa das gravações do documentário. Com o apoio da American Airlines, passaremos por Nova York, Los Angeles e Londres, a capital mundial do dub.
Na lista de entrevistados, nomes como King Jammy, Scientist, Asian Dub Foundation, Dreadzone, Groove Corporation, Dubstep, Mad Professor, Howie B, Peter Kruder, Ticklah e por aí vai.
Jah guide!

Quem já ouviu Gustavo Black Alien conversando sabe que o rapper não sossega nem quando está de papo. Dedicado à sua arte 100% do tempo, ele rima até quando fala sobre seu dia. Com a cabeça trabalhando nesse ritmo, nada mais natural que Black Alien lançasse um álbum solo.
No entanto, apesar de muito aguardado, esse disco demorou quase dez anos pra nascer. Depois de passar pelo Planet Hemp, de diversas participações em trabalhos dos outros (Raimundos, Herbert Vianna, Marcelinho da Lua, Sabotage), da parceria com Speed, do Reggae B, das canjas em shows de sabe-se lá quantos artistas e sempre cercado de gente, Black Alien finalmente aparece sozinho em "Babylon by Gus Vol. 1 - O ano do macaco".
Para marcar a estréia solo, no disco não há outra voz além da de Gustavo. Isso não o torna de maneira nenhuma monótono. As muitas facetas de Black Alien -- MC, raggaman, cantor -- são mais do que suficientes pra dar conta do recado.
Convidados, só na parte musical, e ainda assim em poucas faixas. Rhossi (programação), o paralama Bi Ribeiro e Pupilo da Nação Zumbi participam em "América 21", o trombonista Bidu Cordeiro em "From Hell do Céu" e o guitarrista Rafael Crespo (Planet Hemp) toca em "U-Informe".
Produzido por Alexandre Basa (Instituto, Mamelo Sound System), "Babylon by Gus..." é um disco à altura das expectativas em torno do seu lançamento. Cada música tem personalidade própria, sem nunca perder o senso de unidade com o resto das faixas. As muitas influências -- escancaradas na lista de agradecimentos repleta de nomes como Eek-A-Mouse, Roots Manuva, Sizzla ou Gangstarr -- transparecem na produção.
Um nome que não está nessa lista, mas bem poderia estar, é o de DJ Shadow; o timbre oriental de "Mr. Niterói" não deixa mentir. O funk carioca e o dancehall dão as caras na letra cheia de sacanagem e na batida de "Perícia da delícia" e o piano à italiana da faixa-título entrega a paixão de Black Alien pelos filmes "Scarface" e o "Selvagem da motocicleta". A matadora "Caminhos do destino", melhor do disco, é tão boa que, dizem, só não foi a primeira música de trabalho porque seria uma escolha óbvia demais.
Não deixe os refrões ganchudos te distraírem, as letras e mensagens contudentes merecem igual atenção. Em "U-Informe", par-perfeito para "Tribunal de rua" do Rappa, Black Alien descreve uma dura policial tão torta quanto são, lamentavelmente, corriqueiras.
Segundo o calendário chinês, 2004 é o ano do macaco, ano de sorte para os doidões e para as mentes criativas. Se o Vol. 1 do título for mesmo um indicativo de quem vem mais discos pela frente e os próximos mantiverem o nível desse, todo ano vai ser o ano do macaco.

Quem já ouviu Gustavo Black Alien conversando sabe que o rapper não sossega nem quando está de papo. Dedicado à sua arte 100% do tempo, ele rima até quando fala sobre seu dia. Com a cabeça trabalhando nesse ritmo, nada mais natural que Black Alien lançasse um álbum solo.
No entanto, apesar de muito aguardado, esse disco demorou quase dez anos pra nascer. Depois de passar pelo Planet Hemp, de diversas participações em trabalhos dos outros (Raimundos, Herbert Vianna, Marcelinho da Lua, Sabotage), da parceria com Speed, do Reggae B, das canjas em shows de sabe-se lá quantos artistas e sempre cercado de gente, Black Alien finalmente aparece sozinho em "Babylon by Gus Vol. 1 - O ano do macaco".
Para marcar a estréia solo, no disco não há outra voz além da de Gustavo. Isso não o torna de maneira nenhuma monótono. As muitas facetas de Black Alien -- MC, raggaman, cantor -- são mais do que suficientes pra dar conta do recado.
Convidados, só na parte musical, e ainda assim em poucas faixas. Rhossi (programação), o paralama Bi Ribeiro e Pupilo da Nação Zumbi participam em "América 21", o trombonista Bidu Cordeiro em "From Hell do Céu" e o guitarrista Rafael Crespo (Planet Hemp) toca em "U-Informe".
Produzido por Alexandre Basa (Instituto, Mamelo Sound System), "Babylon by Gus..." é um disco à altura das expectativas em torno do seu lançamento. Cada música tem personalidade própria, sem nunca perder o senso de unidade com o resto das faixas. As muitas influências -- escancaradas na lista de agradecimentos repleta de nomes como Eek-A-Mouse, Roots Manuva, Sizzla ou Gangstarr -- transparecem na produção.
Um nome que não está nessa lista, mas bem poderia estar, é o de DJ Shadow; o timbre oriental de "Mr. Niterói" não deixa mentir. O funk carioca e o dancehall dão as caras na letra cheia de sacanagem e na batida de "Perícia da delícia" e o piano à italiana da faixa-título entrega a paixão de Black Alien pelos filmes "Scarface" e o "Selvagem da motocicleta". A matadora "Caminhos do destino", melhor do disco, é tão boa que, dizem, só não foi a primeira música de trabalho porque seria uma escolha óbvia demais.
Não deixe os refrões ganchudos te distraírem, as letras e mensagens contudentes merecem igual atenção. Em "U-Informe", par-perfeito para "Tribunal de rua" do Rappa, Black Alien descreve uma dura policial tão torta quanto são, lamentavelmente, corriqueiras.
Segundo o calendário chinês, 2004 é o ano do macaco, ano de sorte para os doidões e para as mentes criativas. Se o Vol. 1 do título for mesmo um indicativo de quem vem mais discos pela frente e os próximos mantiverem o nível desse, todo ano vai ser o ano do macaco.
Terceira terça do Sound System Attack e o Ballroom continua vazio. À exemplo do que aconteceu na noite dedicada ao hip hop, os artistas que tanto gostam de citar o dub como referência e o povo que acha bacana dizer que gosta do gênero não deu as caras. Umas 40 pessoas foram conferir o set do Yellow P, o mesmo dj que na última sexta arrastou 500 pessoas para a festa semanal Dub Fuego (ex-Susi in dub), no Juke Joint, em São Paulo.
Claro que o famoso "horário Ballroom" não ajuda. O Digital Dubs, primeira atração da noite, só entrou quase 1 da manhã. Um evento começar uma hora dessas em plena terça-feira não pode estar mesmo querendo atrair muita gente.
Acompanhado pelos MCs Christopher Lover e Massa Rock, Yellow P chapou o público com pedradas do quilate de "Murderer" (Barrington Levy) ou "King Tubby meet Rockers Uptown" (Augustus Pablo). Lover fazia questão de avisar, "é chique". E é mesmo. Os três, mais um baixista, um baterista e um percussionista também fazem parte da banda Rockers Control.
Finalizando a noite, John Woo, do Apavoramento, entrou tirando uma certa onda. Abriu com um sample vocal das antigas falando sobre o Rio e, antes de soltar o primeiro break, ainda fez gracinhas com o scratch. Mais pra frente, o DJ Castro assumiu um terceiro toca-discos.
Terça que vem é a última chance de conferir o evento, com Reggae B, Dubom (banda do Marcelinho da Lua) e Grave!. Antes de terminar seu set, Yellow P deixou um recado pra quem perdeu: "Toda vez que a gente vier ao Rio, podem ter 10, 50 ou 300 pessoas, o bicho vai pegar". Tá avisado.
Ontem havia vários calouros de faculdade espalhados pela cidade. Depois dos belíssimos engarrafamentos, a rapaziada pintada e pedindo esmola pra cerveja é o principal sinal da volta as aulas, um lembrete sutil de que mais da metade do ano ficou pra trás.
O pedido dos estudantes chega a ser irônico, quase um presságio. Se eles soubessem, poupariam as forças pra mendigar depois de formado, vão precisar muito mais. Vai chegar o dia em que o pedágio será no último dia de aula.
O novo documentário de Michael Moore, "Fahrenheit 9/11", não traz muitas novidades sobre a guerra contra o terror ou a invasão do Iraque. Nada que já não tivesse sido levantado nos meios de comunicação minimamente decentes. O grande mérito do filme é documentar muito bem todas essas histórias.
Moore faz questão de dizer que suas opiniões e questionamentos colocados no filme podem até ser contestados, mas não existe erro factual, todos os fatos apresentados foram comprovados. Ao que parece, segundo os relatos do próprio diretor, não falta gente interessada em saber mais sobre tudo isso.
A tempestade de provas provocou um misto de surpresa e indignação em boa parte dos mais de 70 milhões de americanos que assistiram ao filme até agora. Essa reação pode servir para ilustrar o quanto a imprensa local fechou os olhos -- os dela e, consequentemente, os do público -- para o que estava acontecendo. Mostra também o perigoso grau de credibilidade que os meios de massa desfrutam nos EUA. Afinal, essas informações circulam na internet há algum tempo, bastava ir atrás.
Quem pensa que o filme é uma campanha pró-John Kerry está enganado. Não é. Até porque, quando o candidato Democrata ainda não estava definido, Moore já havia declarado sua preferência por Wes Clark. De uma forma ou de outra, como disse a revista Time em sua reportagem de capa sobre Moore, "Fahrenheit 9/11" é a estréia do cinema agindo diretamente como uma arma política. Dependendo do impacto no resultado das eleições presidenciais, o filme poderá ser tido no futuro como um marco equivalente ao que o debate de Nixon vs Kennedy representou para história da tv.
O filme é extremamente bem feito, seja do ponto de vista político ou cinematográfico. Se suas acusações estão devidamente documentadas, o mesmo cuidado aparece na sua estrutura narrativa. Feito para impressionar, o filme emociona ao mesmo tempo que informa. Equilibrando bem os dois lados da questão, exibe, em detalhes chocantes, os dois lados dos horrores da guerra, tanto o sofrimento americano com os atentados quanto o dos iraquianos, invadidos e humilhados.
Ao contrário do que parecia antes de estreiar, "Fahrenheit 9/11" não corre o risco de perder importância após as eleições. Seu significado é maior que esse, o que garante que ele não deve sumir no tempo.