maio 2004 Archives
Obs: os vídeos do show foram acrescentados a essa resenha
quatro anos depois. Originalmente havia fotos.
Primeiro veio o falatório, sempre elogioso. Saiu o disco e todo o burburinho pareceu verdade. Ainda assim, o fato da bolacha ter demorado dois anos pra ficar pronta fez pensar se não era uma banda de estúdio.
Junte a isso uma matéria na MTV com um trecho duvidoso do show no Abril Pró Rock e o hype crescente em torno dos sete rapazes (Marcelo Camelo, BNegão, Gabriel Muzak e até Nelson Motta estavam lá pra conferir) e dá pra entender a importância da apresentação de ontem no Ballroom.
A noite era decisiva pra mostrar qual nome faz jus a banda: o original, Mombojó, ou o apelido maldoso, Mombojovens.
As dúvidas começaram a desaparecer logo na primeira música. Eles entraram rasgando com "Deixe-se acreditar", melhor faixa do disco (sabe-se lá porque não foi a escolhida pro clipe). O coro do público, berrando o refrão ("esse é o reino da alegriaaaa!"), deixou claro: o Mombojó -- pela primeira vez no Rio -- estava em casa.
As músicas da banda são marcadas por quebras de andamento e nuances que poderiam facilmente se perder ao vivo. No entanto, o som bem passado, coisa rara no Ballroom, garantiu a riqueza de detalhes e as incursões psicodélicas características da sonoridade do grupo. Qualquer semelhança entre as "sirenes" disparadas pelo teclado e os ecos e zumbidos nos ouvidos aditivados com loló deve ser mera coincidência.
Interessante ver como caras tão novos (não custa lembrar, o mais velho tem 21) têm tantas referências bacanas e são seguros no palco. Os moleques são umas figuras. Samuel, se contorcia junto com suas linhas de baixo, e o vocalista Felipe S, mostrou boa presença.
Se o nome do disco de estréia, "Nadadenovo", inicialmente sugere falta de novidade, o que se viu ontem foi exatamente o contrário. Não teve nada do que já foi feito, nada de repetido, enfim, nada de novo.
Díficil destacar alguma coisa na apresentação impecável. A versão de "Faaca", ainda melhor do que no disco, foi matadora, assim como "Cabidela", que ganhou uma introdução mais longa, com um solo ressaltando a melódica. As músicas de levada Jovem Guarda também caíram bem e as quatro ou cinco músicas que não fazem parte do disco, uma delas inédita, mantiveram o nível.
A interação com a platéia foi tímida, típica do começo de um relacionamento. Felipe agradeceu a recepção e aproveitou pra avisar que as músicas continuam disponíveis online. Mesmo assim, pediram pro público comprar o disco encartado na revista OutraCoisa, justificando: "a gente pede dinheiro pra vocês pra não ter que pedir pra gravadora".
Perto do final, dando a impressão de que estavam mesmo alheios a tudo que se passava na platéia e concentrados apenas em tocar, o vocalista quis saber: "e aí, foi bom?". Nem precisava perguntar.
O bis -- de verdade, repetindo "Deixe-se acreditar", em vez de salvar uma do repertório pra tocar depois -- teve a participação do "padrinho" China, o que não foi exatamente uma surpresa ou algo inusitado. O ex-Sheik Tosado, do qual o Mombojó era fã, é parceiro em cinco músicas.
Só faltou mesmo o violonista Marcelo Campello. Ele sofreu uma acidente de carro recentemente e não pode acompanhar o grupo na turnê pelo sul e sudeste.
A banda confirmou ao vivo o que ainda permanecia uma dúvida. Um alívio. O show de ontem deve repercutir, de maneira que não será surpresa se, na próxima vez que aportarem por aqui, tocarem num lugar maior.
O recado foi dado em alto e, principalmente, bom som: sem essa de Mombojovens, eles são o Mombojó.

Matéria sobre o primeiro livro do cartunista Allan Sieber que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).
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O produtor cultural Felipe Boclin conferiu o lançamento do disco do Gesta, conta como foi e aproveita pra dar um toque sobre o Movimento Armorial.
Numa noite em que os holofotes estavam virados para a primeira noite do Chivas Jazz Festival, aconteceu, na modesta arena do Sesc Copacabana, uma noite gloriosa. Daquelas que acontecem de repente, no improviso, onde a emoção toma conta do ambiente. Uma daquelas noites que depois de um show você tem certeza que alguma coisa mudou.
Foi na quarta-feira, durante o lançamento do disco do grupo carioca Gesta, filhos do Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna em Pernambuco na década de 70.
O movimento tem manifesto, estética própria e objetivo artístico. Seu objetivo foi o de valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, pretendendo realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da cultura do Brasil. O Auto da Compadecida -- que todo mundo já viu -- foi uma adaptação da peça com o mesmo título de Suassuna, escrita em 1955. A grande característica da música armorial é que ela é imaginária, provoca cenas de um mundo fantasioso e fantátisco.
Ariano Suassuana é um mito, criador de um movimento moderno e contemporâneo ao mesmo tempo que é folclórico e tradicional. Ele está para a cultura como Glauber Rocha para o cinema, Jorge Amado para literatura, Villa-Lobos para os músicos eruditos, Cartola para os compositores populares. Enfim, essas almas que rondam o imaginário de nossas criações.
O Sesc estava completamente lotado quando apareceu na porta de entrada do Teatro, todo de branco, com seus quase 2 metros de altura, Ariano Suassuna. Sim, era como estar diante de um mestre, uma emoção sem palavras. Mais de 200 pessoas que ali estavam levantaram e começaram a bater palmas durante pelo menos 2 minutos. Foi um momento único.
O show foi iniciado pelo próprio, citando parte de sua obra Romance de Minervina com o Pequeno Cantar Acadêmico a Modo de Introdução do Romance da Pedro do Reino, acompanhado pela rabeca. O Gesta, formado por Pedro Pamplona (flautas), João Bina (Marimbau), Fábio Campos (Violão), Edmundo Pereira (Viola Caipira) e Daniel Bitter (Rabeca), apresentou o repertório do disco "A chave de ouro do reino vai não volta".
Mesmo diante de um visível nervosismo dos integrantes, apresentação foi perfeita. No final mais uma surpresa. Durante os agradecimentos, um senhor pegou o microfone e disse: "são esses homens, esses guerreiros da luz, que um dia serão lembrados como aqueles que mudaram o rumo de uma nação que raras são as pessoas que a entendem. Viva a cultura brasileira! Viva o Brasil!". O teatro veio abaixo.
Pode parecer piégas e nacionalista, mas a celebração naquele momento era para a beleza, para a Arte e para toda uma cultura que resiste aos modismos, aos desistereses e a corrupção. Numa época que reina a tecnologia e a indústria do entrenimento, a arte, pura e simples, sem intervenções, continua sendo a única capaz de proporcionar momentos como os de ontem.