abril 2004 Archives

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Se esse ano o sucesso do Skol Beats dependesse do nível da organização, com certeza teria sido um fracasso. Além de faltar água (problema recorrente em todas as edições do evento) e cerveja, o público ainda teve que enfrentar filas de até 2 horas pra entrar por conta da revista rigorosa da polícia, que não impediu ninguém de entrar com o produto que fosse.

Apesar da campanha "som redondo", um abaixo assinado online que pedia melhor qualidade e mais potência, o som era baixo em todas as tendas e no palco, estando talvez um pouco melhor na Movement. Pra completar, mantiveram a tendência de a cada ano aumentar a quantidade de ingressos vendidos, elevando para 50 mil (dados da assessoria de imprensa) o número de pessoas no sambódromo. Não coube. Era difícil encontrar espaço para dançar nas tendas e quase impossível assistir os djs um pouco mais de perto.

Lembre-se, tudo isso podia ter sido seu por apenas R$55. Existem duas soluções para o ano que vem: ou o festival volta para o Autódromo -- de onde, aliás, nunca deveria ter saído -- ou diminuem o número de entradas. Se os produtores da festa estão pensando que o nome está consolidado e que isso basta, é bom pensar de novo. Do jeito que está não pode ficar.

Só a música salva

Felizmente, as grandes atrações do festival não são as cervejas quentes, as garrafas d'água ou as yabadabadu girls circulando pelo sambódromo na tentativa de justificar o tema proposto esse ano (Flinstones? Sinceramente, não pesquei). O que faz o Skol Beats imperdível, ano após ano, ainda é a música.

Mesmo nesse aspecto, o evento começou morno, é verdade. Logo na entrada, uma surpresa desagradável: o dj Sasha cancelou sua apresentação alegando "motivos pessoais". Isso matou a programação de muita gente, já que ele iria tocar durante três horas. O jeito foi arranjar um tapa buraco e continuar dançando.

O hypado Beni Benassi bem que tentou mostrar que seu som é mais do que a chicletuda "Satisfaction". Não é. O dj mandou versões de "The way she moves" (Neptunes) e "Satisfaction" (a do Rolling Stones), mas seu set foi baseado mesmo no seu único hit, num remix extendido que parecia não acabar mais.

Ainda pior do que se podia imaginar, o show do Fisherspooner não passou de um telão interessante e dançarinas toscas no palco, emoldurados por uma chuva de papel picado. Tiveram algumas músicas muito parecidas com "Emerge", o sucesso do grupo, cada uma com um elemento da original, mas nenhuma tão boa quanto. O vocalista, que afirmou "ter muitos fãs por aqui", deve ter se surpreendido quando, no meio de "Emerge", teve que parar pra dizer "vocês vão ter que fazer muito mais se que quiserem ouvir essa música".

Até que enfim

Depois dessas chatices, o Skol Beats finalmente começou. E parece que até os organizadores sabiam disso. Antes do Basement Jaxx entrar no palco, houve uma queima de fogos, parecendo anunciar "agora é pra valer". A dupla inglesa, formada por Felix Burton e Simon Ratcliffe, se apresentou com uma banda completinha, no que talvez tenha sido o melhor live pa de todas as edições do evento, pelo menos no mesmo nível do Groove Armada em 2002.

A apresentação começou com um sambinha eletrônico "pra gringo ver" e uma mulata sambando sozinha no palco. Cheio de referências orientais -- na sonoridade e no telão, mostrando dançarinas indianas -- o house rock ou rock house do Jaxx, na falta de uma definição melhor, sacudiu todo mundo. Destaque para "Where's you head at", "Kish Kash", "Red Alert" e "Good Luck". Até a péssima "Romeo" funcionou no show.

Mais para o final, rolou um remix de "Seven Nation Army" (White Stripes) com um sample de "Get ya dub on" (Switch) ordenando: "Get your club on!". Matador. Simplesmente não deu pra sair antes do final e por isso o Roni Size ficou para uma outra vez.

Como o Sasha deu o bolo, o negócio foi conferir o Derrick Carter, nome fundamental da house music. Seu set regular só foi atrapalhado pela quantidade de gente que invadiu a tenda para fugir da chuva, o que junto com o som baixo, acabou cortando o clima. O VJ Spetto, que arrebentou no telão da Movement ano passado, não deixou a bola cair. Entre um bombardeio de imagens e outro, lá estavam frases como "os politicos são nossos piores inimigos" e "sexo e canja de galinha podiam ter nos poupado de tanta destruição...". A melhor delas era essa aqui: "Políticos não sabem o que fazem", seguida por "Nem você". Na lata, sem dó.

A confusão era tanta que pouca gente ficou sabendo que o Basement Jaxx estava fazendo um dj set para substituir o Sasha. Por causa disso e da dificuldade de ir de uma tenda para outra -- ainda mais chovendo -- não deu tempo de conferir. Uma pena.

Restava o Scratch Perverts. E eles não decepcionaram. O set começou quente, lotado de colagens. Teve de tudo: "Intergalatic" (Beastie Boys), "Hey ya" (Outkast) e "Firestarter" (Prodigy). De longe, o trio debruçado sobre as pick ups parecia um grupo de cientistas malucos dissecando um corpo numa mesa de operação. Como o hip hop não estava agradando tanto, eles tomaram outro rumo e desceram a porrada com muito db e jungle.

Lá pelas 4 da manhã ainda deu pra escutar um pouco do X Press 2, mas o frio já estava espantando. Segundo relatos, o Darren Emerson arrebentou. Ano que vem tenho que lembrar de levar um casaco.

Eu tenho que ter um blog. Isso mesmo, não é opcional, descobri isso há pouco tempo. Em praticamente todas as conversas profissionais que tive recentemente (com editores, coleguinhas, etc.) ouvi a pergunta, "você tem um blog onde eu possa ler seus textos?". Então aí está.

O URBe vai falar de urbanidades, música e comportamento. Discos, shows, ataques terroristas (a ônibus ou a países árabes), picaretagem política, tudo isso vai aparecer por aqui. E o blog já chega com uma boa notícia: vai desentupir a caixa de e-mail de muita gente. Isso vai acontecer porque o fluxo de informação vai ser invertido. Ao invés de mandar vários e-mails com textos e assuntos que julgo interessante (o que era muito cômodo), quem tiver curiosidade pode vir até aqui. Mas é claro que de vez em quando ainda vou mandar umas mensagens avisando das atualizações.

Pra começar, botei alguns textos antigos que alguns já receberam por e-mail. Assim, quem não leu tem a chance de ler e, quem já leu, pode reler. Terça-feira inauguro o espaço com um texto inédito. Na primeira atualização, cobertura (gonzo?) do Skol Beats.

Até.

17/07/02
Canecão, Rio de Janeiro

Dizer que uma banda está no auge é sempre uma afirmação complicada. Primeiro, porque não dá para dizer que uma banda está em seu ponto mais alto se ela ainda não acabou. Depois, porque nenhuma banda gosta de ouvir que está no auge. Para um artista, admitir que está no auge é aceitar que daquele ponto em diante a carreira vai descer ladeira abaixo.

Mas nem sempre é assim. E com certeza não parece que será assim com o Los Hermanos. Algumas bandas estendem seu auge com muita competência. Ultimamente a tendência é enxergar o auge como um pico, um cume a ser atingido rapidamente. O artista tem que atingir este ápice e dar vez ao próximo super-mega-sucesso-do-verão, numa espécie de pique-pega. Poucas bandas pensam em construir uma carreira. Poucos artistas enxergam o auge como uma chapada, longa e contínua, e não um pico a ser conquistado.

O Los Hermanos pensa assim. Não é à toa que bancou um disco autoral, o excelente "Bloco do eu sozinho", quando a gravadora queria algo mais comercial. E eles estavam certos, o show do Canecão foi a prova disso. O mais impressionante não era o fato do show estar lotado, e sim como todas as músicas - todas mesmo - eram cantadas do começo ao fim por uma platéia alucinada, pulando sem parar. O baterista Barba definiu bem o clima do show quando disse que parecia que estavam "tocando um hit atrás do outro!". Tem sido raro escutar Los Hermanos no rádio ultimamente, portanto, eles não têm tantos hits assim. Mas só por isso mesmo não têm os tais hits, porque para quem escuta o disco a sensação é de escutar um hit atrás do outro. Vendo aquela multidão gritando as letras dos discos junto com a banda fica a pergunta: o que é comercial então?

O Los Hermanos está no auge. Quanto tempo isso vai durar ninguém sabe, mas é no palco que a banda deixa isso claro. Lá eles transparecem o bom momento que estão passando. A impressão que dá é de que naquela hora, em que estão juntos tocando, as músicas atingem seu significado completo. É muito legal ver os integrantes conversando e rindo durante as partes instrumentais, curtindo mesmo estar ali. Alternando músicas próprias com versões de Adriana Calcanhoto, Arnaldo Antunes e Belchior. Melhor ainda é, quando o show acaba e os integrantes abandonam seus instrumentos um a um, ver todos eles abraçados, dançando e esperando os outros acabarem de tocar.

São poucas as bandas que tem potencial de ficar para história, de se tornar atemporal e continuar sendo ouvida anos depois. Sabe quando você está escutando um Jorge Ben de 74 e teu pai te pergunta "de onde você conhece isso?", ou conta que foi no show desse disco? Pois é, dá para imaginar, daqui uns vinte e poucos anos, quem estava no Canecão contando sobre o antológico show quando escutar o som do "Bloco do eu sozinho" saindo do quarto do filho.

A volta, sem tv

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30/07/02
Ballroom, Rio de Janeiro

O Paralamas do Sucesso está de volta. Há um ano e meio a cena parecia impossível. Depois do grave acidente de ultraleve em fevereiro de 2001, Herbert Vianna beirou a morte. Conseguiu sobreviver, porém as seqüelas foram sérias e ninguém podia afirmar se algum dia ele voltaria a ativa. Tudo indicava o fim de uma das mais expressivas bandas do rock nacional.

Isso até 5 de agosto de 2002, quando o improvável enfim aconteceu. A volta da banda, ao contrário do que pode parecer agora, não foi em nenhuma dessas apresentações ensaiadas "a volta dos Paralamas" que tem pipocado em vários canais de TV ultimamente. Foi num esquema bem informal, meio por acaso mesmo. A essa altura já foram tantos os especiais e participações do trio em shows de outros artistas que praticamente qualquer um pode falar que presenciou a volta do Paralamas. Tá bom, vá lá, esses shows também fazem parte do período de retorno da banda, vão dizer alguns. Acontece que a volta pra valer, a primeirona, foi presenciada por poucos. E pode ter certeza, nenhuma equipe de televisão estava lá. Exatamente por não existir esse registro profissional da apresentação, motivo pelo qual quase ninguém viu imagens desse show, daqui há alguns anos essa confusão só tende a piorar. Então, é bom esclarecer.

A verdade é que não foi novidade a banda tocar junta naquela noite. Esse retorno não foi um passe de mágica, como foi noticiado. Depois do acidente, com a progressiva recuperação de Herbert, o Paralamas gravou inclusive um disco novo, "Longo caminho". Isso significa que eles vêm se encontrando e tocando juntos há um tempo. A volta aos palcos, meio sem querer e divulgada como milagrosa pela mídia em geral, foi na verdade o destaque de um processo longo e gradual. A primeira aparição pública da banda.

Ao contrário de outras bandas que ficam sem vocalista - pelos mais diversos motivos - a preocupação de João Barone e Bi Ribeiro nunca foi a continuação do Paralamas ou do seu ganha-pão, e sim a recuperação do parceiro e amigo. No período pós-acidente, ambos dedicaram-se aos seus projetos paralelos. Barone já tinha o The Silvas, banda de surf music em que toca com o produtor musical e guitarrista, Liminha, e com Nenê, ex-Incríveis, e o baixista Bi Ribeiro fundou, há um ano, o Reggae B. A superbanda, que conta ainda com Gustavo Black Alien, ex-Planet Hemp, o tecladista João Fera, o vocalista Valnei, do Negril, entre outros músicos, toca só clássicos do reggae e do dub, como Linton Kwesi Johnson e Black Uhuru. Essa foi a maneira, quase terapêutica, encontrada para suportar a ausência do amigo na fase de recuperação.

A primeira vez que Herbert pôde ser visto tocando após o acidente foi numa gravação caseira, feita quando ainda estava internado no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília. Ele tocou "Óculos" para seus companheiros de ala. Depois disso, em junho desse ano, fez uma participação no show do argentino Fito Paez no Canecão. Juntos tocaram "Trac trac". Herbert já tinha participado numa apresentação do Reggae B - junto com Lulu Santos, mas em Barone - semanas antes do reencontro do trio. Ou seja, juntar-se novamente aos companheiros de banda era apenas questão de tempo. Não custa lembrar que o mesmo Paralamas sempre usou o artifício de shows-surpresa e pseudônimos para testar, ao vivo, material de um disco novo.

A oportunidade do Paralamas se apresentar na sua formação original surgiu por acaso, justamente em uma outra apresentação do Reggae B. A banda de Bi fazia uma temporada de um mês no Ballroom, pequena casa de shows em Botafogo, no Rio. O público desses shows era composto, principalmente, por amigos dos integrantes da banda, além de, claro, alguns fãs de reggae. Nada muito grande, um clima bem pessoal. Herbert foi à apresentação em que a banda comemorava um ano. A noite era de festa, e poucos imaginavam o fato histórico que estava por vir. Herbert assistiu ao show sentado em sua cadeira de rodas, conversando com amigos como o ex-Legião Urbana Dado Villa-Lobos. Além deles, como não podia deixar de ser, João Barone também compareceu.

Quando as pessoas perceberam que os três Paralamas estavam presentes, imediatamente começou um burburinho sobre a possibilidade daquilo se transformar no retorno da banda. O clima do show era bom, principalmente durante a participação inspirada de Nando Reis, cantando o hino "Punk reggae party", de Bob Marley. Tudo fluía tão bem que João Barone resolveu dar uma canja. Desse momento em diante o tal burburinho virou expectativa. A expectativa se transformou em realidade quando Herbert foi anunciado. Ele entrou no palco de cadeira de rodas e começou logo atacando com "A novidade". A platéia a essa altura urrava, subia nas mesas e cadeiras, pulava e cantava num delírio coletivo. Sonorizando a histeria, frases como "eu não acredito que eu estou aqui!", "eles voltaram!", e outros bordões emocionados, ecoavam de toda parte. Tinham pessoas que ficavam apenas se olhando, congelados. Nando Reis, que já tinha saído do palco, atravessou a multidão feito uma bala para ver de perto. Durante a apresentação, o ex-titã gritava: "Graças a Deus! Graças a Deus!". No palco, os músicos foram abandonando os instrumentos um a um, até restar apenas o trio tocando. George Israel, do Kid Abelha, trocou seu saxofone por uma câmera de vídeo e registrou tudo. José Fortes, empresário da banda, chorava, acompanhado por boa parte do público.

O show durou aproximadamente 25 minutos. Eles tocaram ainda "All I wanna do" e "Cherry oh baby", dos ingleses do UB40, voltaram ao repertório próprio tocando pela primeira vez em público a nova "Calibre" e encerraram com "Meu erro". Foram tantos hits que parecia que estavam querendo matar as saudades da reação do público. Depois disso o Reggae B tratou de finalizar com classe a noite antológica. Era realidade, os Paralamas do Sucesso estavam de volta. Aliás, estão. E quem estava lá, como eu, pôde comprovar que não mudou muita coisa. O rock agradece.

07/11/02

1h40, madrugada de quarta para quinta-feira. Estava num carro com dois amigos parado no sinal da esquina das ruas Visconde de Albuquerque e Mário Ribeiro, cruzamento do canal do Leblon com a Lagoa-Barra. De repente, uma Cherokee bate na traseira. Saímos para ver o que havia acontecido, o motorista da Cherokee continuou dentro do carro até que o convidamos para sair. A história começa aqui.

Bêbado, como era de se esperar de alguém que bate em um carro parado no sinal, o sujeito não conseguia entender nada e perguntava o que acabara de acontecer. Chamamos a polícia, apesar da insistência para "resolvermos isso entre a gente", e ficamos aguardando a chegada da patrulha. Nesse meio tempo o motorista tentou fugir. Ou melhor, fez menção de fugir, já que mal conseguia ficar em pé, e teve que ser contido. Arrancado à força de dentro do carro, o homem exigia respeito, argumentando com frases como "eu estou bêbado, porra!", ou "vocês tem que entender que eu estou doidão!".

A polícia chegou e durante as identificações descobrimos que o bêbado de respeito era Segundo Tenente da Aeronáutica. Não foi carteirada, era simplesmente sua profissão.Como dá para imaginar, a partir daí os policiais ficaram receosos. Toda a burocracia, Brat, BO, foi cumprida, ficou faltando só uma coisa: a multa por dirigir alcoolizado e apreensão do veículo do bêbado. Os dois policiais eram daquele tipo que dificilmente se encontra de madrugada: solícitos, eficientes e educados. O único problema era que estavam lidando com um superior. Um deles explicou que dirigiria o carro do Tenente até em casa e que nós estávamos liberados. Falei da importância daquela multa e de como fazíamos questão de que ela fosse emitida. O acidente foi uma bobeira, mas poderia ter sido algo muito maior, afinal estávamos na esquina da Lagoa-Barra e se não fosse nosso carro para impedir a trajetória, sabe-se lá onde ele ia bater. Ninguém tem nada a ver com sua irresponsabilidade, pior ainda se era um militar. Nós também não tínhamos.

O policial me olhou e sem dizer uma única palavra ficou claro que não podia fazer nada. Não precisa nem pensar muito para perceber que, se decidisse de fato multar o Tenente, teria que arcar com as conseqüências sozinho. Diante da situação grotesca, nojenta mesmo, só nos restou ir embora. Fazer o quê? Insistir numa multa que provavelmente seria revogada e que só traria conseqüências negativas para o policial? Ainda mais porque parecia pelo menos estar, dentro das suas limitações, tentando fazer seu trabalho corretamente. E de impunidade em impunidade construímos o Brasil. Na volta para casa fomos abordados por outro carro da polícia, desta vez com dois policiais que facilmente se encontra de madrugada. A dura, com o requinte de pistolas em punho, mão na cabeça! e todo o resto, não tinha objetivo nenhum. Tanto é que a dupla desistiu de nós quando avistou uma confusão num bar próximo, despedindo-se dizendo que tinham que "ir ali dar umas porradinhas".

Em uma noite vivenciamos os dois lados da mesma história, o nem tão certo e o errado. Aliás, falar em certo tem ficado tão difícil que temos que nos contentar com o quase. Independente das posturas antagônicas, tanto a primeira quanto a segunda dupla de policiais pertencem ao mesmo grupo. Fazem parte de uma moeda de um lado só.

15/01/2003

A questão é a seguinte: virou bacana ser underground. Pero no mucho. Para isso - usando o termo cunhado pelo autor do texto - a mudernidade resolveu suprimir o under do underground, recriar esses ambientes e torná-los mais palatáveis.

Essa onda de churrasco em laje é coisa de quem vê editorial da Vogue francesa em favela e passa a achar bonito a pobreza, como se estivesse tão distante disso tudo quanto, na realidade, se está de Paris.

Assim como essa roda de samba asséptica, em clima fake e platéia idem, se lixando para a música e preocupados com todas outras coisas. E o pior, com cerveja à R$3,50!, que foi o que mais me irritou quando eu fui na primeira, em novembro, e não agüentei ficar mais de 20 minutos.

Esses programas hype, mas que você não frequenta, não incomodam tanto. O problema são os lugares que você normalmente frequenta e que de repente se tornam insuportáveis.

Os pitboys e a pleiboisada em geral, masculina e feminina, são um problema sim. Todos os programas legais do ano passado (Juarez, Orquestra Imperial, Reggae B, etc. Até mesmo o Monobloco, por que não?), que indicavam um verão animado na seqüência, foram destruídos por essa galera que está cagando para o lado cultural e só aparece para encher a cara, chegar em mulher (nas solteiras, nas que estão a fim, nas que estão só querendo ver o show, nas que já estão com alguém...) e tumultuar.

Mas o que me intriga mesmo é outra coisa. Não sei mais se é esse pessoal que aparece onde não devia ou se esses programas cedem e estão buscando esse público. Afinal, ninguém quer ser cultura paralela a vida toda, sobretudo porque não dá dinheiro.

Exemplo: A roda de samba do Juarez, na última vez que eu fui, tinha virado um pagodão. Trocaram a banda, trocaram o repertório, e com isso trocaram também o público. Melhor? Pior? Depende para quem. Antes iam algumas pessoas, escutar bons sambas num clima de paz. Depois das mudanças não é mais possível passar de carro naquela rua, pegar uma cerveja é uma missão ingrata, e o som...

Fico me perguntando por que que esse pessoal que não está muito preocupado com o lado cultural, que só sai de casa para azarar e bater papo - direito deles, claro - não vai a programas que se adequem mais a isso. Festa-show das Oi e Tim da vida, apresentações do iletrado Rogê, etc. A programação é farta.

Porém, existe solução. Quer roda de samba? Vai para Lapa! Quer curtir bateria de carnaval ou blocos? Aparece numa quadra de escola de samba ou no Cordão do Bola Preta! Quer experimentar a cultura dos marginalizados? Ao invés de subir em uma laje da zona sul busque um projeto social numa comunidade carente e vá à confraternização de final de ano numa laje de verdade!

Agora, se quiser ver fusão de bossa nova com música eletrônica, vá assistir o Bossacucanova no Ballroom mesmo! Lá não tem maquiagem.

24/02/2003

Traficantes param o Rio de Janeiro. Não, espera. Essa frase já foi usada ano passado. Apagar, começar de novo. A cidade acordou refém dos bandidos. Não, não, isso também soa repetitivo. Volta tudo. Quer saber? Não precisa de introdução, é impossível escrever qualquer coisa que não pareça redundante. Todo mundo sabe qual é o assunto, não precisa nem dizer. Esta rotina de medo, traficantes desafiando a polícia e todo o resto, o pânico espalhado pela cidade, está se tornando uma equação comum, uma dízima (seria um dízimo?) cada vez mais periódica. Dez divididos por três. 3,3333333333333...

Hoje aconteceu de novo, alguém duvida que vá acontecer outra vez? Os traficantes perderam o respeito pela lei. Quer dizer, perderam de vez, porque nunca tiveram muito mesmo. Vai longe o tempo em que a bandidagem agia somente de noite, protegido pela escuridão. Tanto em setembro de 2002 quanto hoje, está tudo acontecendo à luz do dia. Até agora não ouvi qualquer coisa que pudesse passar a vaga idéia de que a situação será controlada. O prefeito e o Ministro da Justiça acusam Fernandinho Beira-Mar (preso num presídio de segurança máxima!) de ter orquestrado toda a baderna e defendem sua retirada do Rio de Janeiro. Ah, tá. Então eu tenho que acreditar que transferir o cara que comandou uma operação deste tamanho, de dentro de Bangu I, via celular, para um presídio no Acre é a solução para esse caos? E qual exatamente vai ser a diferença, senhores ministro e prefeito, no Acre não há rede de telefonia celular? Não consigo entender de que maneira a "proximidade dos centros urbanos", como definiu César Maia, possa estar relacionada com essa zorra que tomou conta da cidade hoje mais uma vez. Se o cara está preso, independente de onde esteja, ele supostamente está sob a tutela do Estado e portanto anulado para o crime, ora pois.

A governadora garantiu que está tudo sob controle. Ela já sabia dos planos dos traficantes desde a meia-noite de domingo e botou todo o efetivo da PM nas ruas. Rosinha fez essa afirmação por volta de uma da tarde. As 14h30 os plantões dos jornais davam conta que mais ônibus acabavam de ser incendiados em Niterói (tá sobrando até para a vizinhança) e que policiais trocavam tiros com bandidos no Méier. Até agora foram incendiados mais de 15 ônibus e nove carros, além do comércio ter baixado as portas em vários lugares. Tudo sob controle, como se pode perceber. Não sei o que me intriga mais: se mesmo com o Governo do Estado sabendo dos planos com antecedência as coisas terem tomado essas proporções ou se, com todo o efetivo na rua, a PM não estar conseguindo dominar a situação.

É inacreditável como a polícia desperdiça seu poder. Por incrível que pareça, a presença ostensiva de policiais ainda inibe crimes. Só que eles só estão nos lugares depois dos crimes. É revoltante passar em frente à cena de um crime e ver o carro da polícia fazendo plantão no dia seguinte. Tem que estar presente o tempo todo, treinada e preparada para patrulhar a cidade. No dia seguinte é tarde demais. Não sou muito familiarizado com os conceitos que determinam o que é e o que não é uma guerra civil. Desconfio que no momento em que todo o efetivo da polícia não consegue controlar um grupo grande de civis armados, sendo necessário buscar auxílio das forças armadas, determine alguma coisa. Pois bem, só está faltando o exército. Preparem-se, a guerra vem aí. E não é no oriente médio.

23/02/03

À primeira vista, 100ml pode não parecer muito. Na verdade, isso depende do que se for beber. Se o objetivo for tomar um porre, uma taça de vinho é pouco. Quando o assunto é larica, meio Toddynho é a mesma coisa que nada. Já pensou chegar no posto e pedir para o frentista: "Põe 100ml aê!"? Não dá para ir muito longe com isso. Agora, se o líquido em questão for um suco, tudo muda de figura. 100ml é coisa pacas.

Além do capricho na preparação e da simpatia do Marcones, 100ml é exatamente o que sempre separou o BB Lanches de qualquer outra loja de sucos. Tá bom, tem também aquele pastel de carne, "kitch", escondendo um quarto de ovo cozido, que merece até prêmio. O BB é o único lugar onde os sucos vêm em imponentes copos de 400ml, ao invés dos tradicionais de 300ml. Tinha até cartaz na parede: "Nossos sucos são servidos em copos de 400ml". Pois é, podem tirar o cartaz. Não porque as outras lojas resolveram correr atrás e servir quantidades mais generosas, mas porque agora no BB Lanches os sucos passaram a ter os malditos 300ml. Com essa decisão da "diretoria" o BB deu um passo arriscado em direção a mediocridade.

Fui no BB esta semana, de madrugada, como de costume, quando tive a surpresa desagradável. Fiquei intrigado e resolvi perguntar para o caixa-e-dono-mas-que-diz-que-não-é-o-dono-e-é-só-caixa o motivo da alteração. Sem explicar muito, ele simplificou dizendo que todos os sucos estavam R$0,50 mais barato.Ora, se um suco de melancia de 400ml que custava R$2,50 agora custa R$2 e vem num copinho de 300ml, os preços na verdade aumentaram. Tiraram 25% do suco e reduziram o preço em 20%. Ou seja, agora custa mais caro para se tomar menos suco!

E a questão nem é o dinheiro. Aumento tem toda hora mesmo, fazer o quê. O negócio era que os tais 100ml eram exatamente a quantidade que davam a sensação de estômago forrado. O novo copo é tão pequeno que dá sede só de olhar. E já estão "oficializados", com o logo da loja e tudo. Parece que vieram para ficar. Era um diferencial da casa que muitos nem percebiam, deixavam passar despercebido entre um gole e outro. O começo do fim foi aquele neon em letras góticas, após a reforma de uns seis anos atrás. Agora tiraram 100ml do meu suco. Oh céus, onde isso vai parar?

10/04/03

Entendo, e respeito, a função da OAB de fiscalizar o cumprimento das leis no Brasil. Acontece que ultimamente, como quase todo mundo, tenho tido dúvidas sobre quem tem mais direitos nesse país: as pessoas de bem ou as de mal. A verdade é que os dois tipos de pessoa têm os mesmos direitos e obrigações, sendo que quem descumpre mais obrigações começa a ter seus direitos mais restringidos. Isso vale desde direitos básicos, como à vida, até questões mais complicadas, como a privacidade e direito de defesa. Exemplo: todos tem liberdade de ir e vir. Desde que não façam besteira e tenham esse direito restrito a ir da cela para o pátio tomar banho de sol.

Então, porque esse bafafá todo em torno das restrições impostas as visitas dos advogados aos presos em Bangu I? Está mais do que claro que esta é uma situação especial e necessita, portanto, de ações especiais. Longe de mim propor que alguém tenha seus direitos revogados. Esse tempo, graças a Deus, já passou. Mas não é possível que esses bandidos (que, diga-se de passagem, não tem compromisso com lei nenhuma) continuem tendo regalias e aterrorizando a cidade de dentro de presídios supostamente de segurança máxima. Numa inversão total de valores, o direito de se reunir com advogados para sua defesa tem sido usado como forma de ataque.

Policiais, carcereiros e até os próprios bandidos admitem que esse entra e sai de advogados nos presídios tem tido a função de levar e trazer informações e objetos. Ordens e armas. Mandos, desmandos e aparelhos celular. Os doutores podem falar melhor do que eu, mas até onde sei a própria concepção de lei prevê alguma flexibilidade de interpretação em determinadas situações. E essa que o Rio de Janeiro vive é uma determinada situação.

Ao dedicar seu tempo para defender o direito do preso de ter quantos "advogados" quiser - assim com aspas mesmo - ao invés de investigar e impedir o trabalho desses funcionários do tráfico, a OAB fica parecendo uma blitz policial na Zona Sul. A cidade, literalmente, pegando fogo e os PMs atrás de IPVA atrasado em carro de garotão.

Matéria sobre disco tributo ao Faith No More de bandas brasileiras que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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Tributo de fé ao "Fenemê"

Bruno Natal
Especial para o RIO FANZINE

Pode até não parecer, mas Jason (RJ), Lavajato (RJ), Senador Medinha (do Diego Medina, ex-Vídeo Hits, RS) e a baiana Pitty têm algo em comum: a admiração pelo Faith No More, uma das bandas mais influentes dos anos 90. Além deles, outras bandas participam de uma lista de discussão chamada “Bungle Weird” (referência ao Mr. Bungle, outro grupo do vocalista Mike Patton), dedicada ao conjunto. Foi lá que surgiu a idéia de lançar um tributo brasileiro ao quinteto californiano.

Depois que os organizadores decidiram abrir a participação no projeto também para bandas de fora da lista, o interesse foi tanto que o tributo acabou se transformando num disco duplo. Mas, embora o baixista do FNM, Billy Gould, apóie o projeto, os produtores não têm autorização oficial para o lançar o disco comercialmente.

Para evitar problemas com direitos autorais a opção foi distribuir as músicas virtualmente e de graça. Isso é que é amor. Apesar de estar disponível somente online, “Brazilian sabor” obedece ao formato padrão de um CD, com 74 minutos de duração e um encarte disponível para download.

O tributo é uma produção interestadual. Richarley Menescal, de Fortaleza, cuida do design e divide a produção com o Pablo Fernandez, de Florianópolis, enquanto Élcio Cruz, tomou conta da masterização das faixas em São Paulo. A comunicação entre eles é feita, claro, pela internet.

- Mesmo com essa distância e de algumas limitações óbvias, nos comunicamos diariamente e não tem sido complicado tomar a maioria das decisões necessárias - diz Richarley. - De qualquer forma, o “Brazilian sabor” seria um fracasso sem o apoio que tivemos dos músicos envolvidos, eles merecem esse crédito.

Depois de ter o lançamento adiado algumas vezes por problemas técnicos, o tributo finalmente está inteiro disponível no site do projeto (www.underweb.com.br/brsabor). Mantenha a fé.

Entrevista com o diretor de filmes de surfe Taylor Steele que fiz para o Rio Fanzine (O Globo).

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