março 2004 Archives

A entrevista que fiz com o jornalista Pedro Dória, publicada aqui no URBe, pulou para o saite Observatório da Imprensa.

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Se Pedro Doria não tivesse trocado seu curso de Engenharia na UFRJ pelo de Comunicação, a imprensa teria perdido um ótimo jornalista. Com passagens pela Rede Globo e pelo jornal o Dia, aos 29 anos, Pedro assina uma coluna no No Mínimo.

Suas análises da política internacional, sempre na mosca (algo difícil nos tempos atuais), são uma das melhores fontes para entender o que se passa pelo mundo.

Nessa conversa com o URBe, Pedro explica seu modo de trabalhar, fala sobre escrever entre bambas e ainda avalia os possíveis resultados da eleição dos EUA.

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Como você começou a escrever na No Mínimo?

A NoMínimo nasceu de um grupo de jornalistas que trabalhava na NO., um site bem maior que fechou por conta da crise das

ponto-com. Lá, eu era editor de Internacional e assinava uma coluna diária, misto do que hoje são o Weblog e a minha coluna.

É muita responsabilidade estar no meio dessa turma toda?

Sou o caçula, faço 30 este ano. Olha, não tem universidade que ensine o que eu aprendo todo dia lá. Clichê, não é? Pois é, só que no caso é isso. É nas sutilezas que o processo acontece. Alguém mexe no seu texto, inclui uma vírgula e faz toda a diferença. E é mais que isso. São as conversas: uma troca de idéias constante, quando você para pra ver, não é numa ou noutra idéia que você está aprendendo: é na maneira que o raciocinio se organiza, ali onde as dúvidas surgem, na sacada que você não teve e alguém com várias décadas de experiência mais que você têm. É na maneira que voce vê as pessoas discutindo idéias e depois vê o texto delas pronto, escrito numa elegância, numa organização. Só então você percebe como o raciocínio se formou e como o trabalho final ficou. Esses caras eram meus ídolos quando pensei em ser jornalista. Vale cada segundo.

O que vc lê diariamente, quais são suas referências?

Sou mau leitor de jornal, passo os olhos na Folha e no Globo, principalmente na parte de internacional -- para saber o que eles destacaram, consideraram importante, o que estão noticiando. Têm sempre aquelas figuras que, não importa sobre o que estão escrevendo, gosto de ler. Elio Gaspari, Clovis Rossi, isso para não falar da turma do site.

Não dirijo, em geral vou de ônibus para a redação, o que acaba tomando uns 40 minutos de ida e de volta. Gasto esse tempo com livros, principalmente, não-ficção, história contemporânea, escrita por jornalistas ou historiadores. Pode ser coisa muito específica -- agora, estou lendo um chamado ‘The Bill Clinton Story’, de um veterano jornalista chamado John Hohenberg, que presidiu muitos anos o prêmio Pulitzer, e que conta a história da eleição presidencial de 1992, nos EUA.

Quando o dinheiro permite, gosto de ler algumas revistas também, principalmente The Economist, The New Yorker, Atlantic Monthly, Wired, para citar as mais usuais.

Quais são seus sites obrigatórios, aqueles que você não deixa de ler nenhum dia? Você lê sites e blogs pessoais, que não sejam de grandes veículos de comunicação?

Meu guia é minha Startpage. Ela está sempre aberta; não leio tudo ali todo dia, claro que não; nem a metade. Às vezes clico ao léu, às vezes vou à cata de algum jornal de um país específico. Mas claro que isso é limitado pelas línguas que você fala -- meu francês é ruim, então acabo evitando os franceses. É limitador, principalmente neste caso, porque muito do escrito sobre o Oriente Médio de bom é em francês. Gosto um bocado do Blue Bus.

Leio muitos blogs, em alguns dou uma olhada quase diária: Daily Kos, Scripting News, Metafilter, Eros Blog, Romenesko’s Media News, InternETC... o critério é informação ou bom texto. Nos dois você lucra.

Acontece um fato grande, importante. Como você faz, da análise dos fatos até publicar o texto?

Complicado, vamos lá. No início de tudo você recebe a notícia. Explodiram trens em Madri. Alguém liga e avisa, você ouve no rádio, alguém comenta no bar. Nesse momento, ligo para algum amigo, meu pai, que é media junkie, algum colega de redação, para saber o que está acontecendo. Neste meio tempo, já estou a caminho ou da redação ou de casa. Aí, a primeira coisa que faço é ligar a televisão, ou GloboNews ou algum dos canais jornalísticos estrangeiros, CNN, BBC, FoxNews, no caso espanhol, TVE da Espanha. A tv me serve como ruído de fundo, cada nova informação relevante, conforme vai aparecendo, ouço ali.

Análise nao é opiniao, análise é informação cruzada. Para isso, você depende das perguntas que faz. Explodiram trens em Madri, a pergunta começa com foi a Al Qaeda, foi o ETA? Naquele dia, escrevi uma coluna sobre as duas possibilidades quando a tv veiculou que a Al Qaeda tinha assumido o atentado para um jornal árabe de Londres, o al-Quds al-Arabi -- ficou claro que tinha sido a Al Qaeda, porque eles sempre se comunicam através de lá. Depois de um tempo cobrindo isso, você aprende esses macetes.

Tento ficar de olho no que comentaristas que respeito estão dizendo, mas muitas vezes só é possível no dia seguinte. Lendo comentário dos outros você aprende um bocado, principalmente em como, com as mesmas informações que você tinha, chegaram a outras conclusões. O trabalho, basicamente, é este: reunir informação. Enquanto a tv está ligada, você cai na web, monitorando sites como o GoogleNews para filtrar, pelos títulos, tudo o que esta sendo publicado sobre um assunto. Então você cruza informações com buscas pelo Google. O truque está em saber que perguntas você quer respondidas. Não se satisfazer com o que a maior parte das notícias te dão. Você vê, o exército paquistanes estava cercando um sujeito que parecia ser o Ayman al-Zawahiri, lugar-tenente do bin Laden. O noticiário vai te dizer isso: planejou o 11 de setembro, é braço direito de bin Laden, alguns se aprofundam um pouco mais. O que você quer saber?

Bem, o que você quer saber é como fica a al-Qaeda sem esse sujeito. Que tipo de pessoa ele é. E você começa a mergulhar na biografia dele a procura de respostas. No fim, resta seu feeling. A análise serve para ajudar o leitor a entender porque uma coisa é importante, dar uma idéia de o que pode acontecer. Você tem de contar com um leitor inteligente que saiba que você está abrindo uma porta, buscando caminhos, mas que de maneira alguma você é infalível. Você é apenas alguém pago para se preocupar exclusivamente com o que está acontecendo no mundo para ajudar o leitor, concentrando em pouco espaço o que você gastou o dia -- ou a semana, o mês, o ano, a vida... -- apurando.

Você tem feito uma boa cobertura da corrida presidencial nos EUA, contextualizando fatos e explicando muitas das confusões inerentes. Consegue prever o que vem por aí? Descreva brevemente (se é que dá...) os dois cenários possíveis.

É claro que não consigo prever nada -- eu achava que o Howard Dean ia ser o candidato. A velocidade com que ele sumiu foi estonteante. Por outro lado, ele foi importante, tirou dos Democratas o medo de bater no Bush. É mais provável a eleição do Bush do que a do Kerry, mas nao é de forma alguma impossível a eleição do Kerry. Hoje, eu diria, 60/40.

Bush, dois cenários: ele percebe que os neo-conservadores prepararam várias armadilhas pra ele, tudo que prometeram que aconteceria não aconteceu e os demite no dia seguinte à posse; não pode fazer antes porque demonstra fraqueza. Se isso acontecer, ele chama de volta a turma que esteve com seu pai no governo, gente como James Baker. Teremos um governo menos belicista, mais pragmático, tentando remendar o estrago, aproximar-se da Europa para conseguir ajuda no Iraque. Outro cenário: Bush continua neo-conservador. Escolha o seu: Irã, Síria. Acho que vão pra Siria, Irã é complicado demais.

Kerry vence. Bem, será um governo parecido com o de Bush sem os neo-conservadores, aproxima-se da Europa, tenta remendar relações para conseguir ajuda no Iraque. Mas será diferente de qualquer Bush no sentido de que haverá o retorno do investimento em pesquisa científica, menos religioso em sua visão de mundo. Ambos serão mais protecionistas economicamente. É profundamente difícil imaginar um governo Kerry porque a última vez que este braço do Partido Democrata esteve no poder foi quando o Kennedy era presidente -- vamos ver. Tudo é chute essas alturas... muito cedo para avaliar de fato."

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Matéria sobre a invasão brasileira à MTV americana que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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Pitty recebe um ‘green card’ da MTV

Bruno Natal - Especial para o Rio Fanzine

O NU METAL da cantora Pitty encontrou espaço, quem diria, no mercado mais disputado do mundo: os EUA. O clipe de “Máscara” está em boa rotação na MTV U. A baianinha também aparece com destaque no site do canal (www.mtvu.com), além de estar listada, com link para assistir ao clipe, junto dos principais artistas no site principal da MTV (www.mtv.com).

Equivalente visual das rádios universitárias, o MTV U é um canal distribuído exclusivamente em faculdades americanas. A programação musical é menos comercial que a das irmãs MTV (programas) e MTV 2 (somente clipes) e é recheada de programas direcionados para os estudantes. Atualmente, o canal está presente em 720 universidades, atingindo potencialmente 5,5 milhões de jovens.

Pitty não está sozinha nessa. A MTV internacional solicitou à filial brasileira alguns clipes de rock e hip hop daqui para serem exibidos no programa “Studying abroad” (“Estudando fora”), dedicado a artistas estrangeiros. Foram enviados vários, entre eles Marcelo D2, Sabotage, Los Hermanos, MV Bill, Forgotten Boys, mas além de Pitty, apenas outras duas bandas emplacaram: Nação Zumbi, com “Blunt of Judah”, e os paulistanos do Lava, com “Igloo”.

Os integrantes do Lava, que cantam em inglês, nem acreditaram quando ficaram sabendo.

—- O mais bacana é que o clipe foi todo feito pela Silvana, nossa vocalista — conta a baixista Alê Briganti, que também toca na banda Pin Ups.

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A idade dos integrantes -- o mais velho tem 21, o baterista, 17 -- rendeu o apelido de "Mombojovens". No entanto, a pouca idade não quer dizer nada. Ou melhor, acaba sendo mais um fator positivo no som do Mombojó. Dez anos após o manifesto mangue bit, Pernambuco está definitivamente de volta ao mapa musical brasileiro e a geração pós-Chico Sciense convive com naturalidade com isso. Os elementos já foram devidamente digeridos e reprocessados. Sem perder os laços com o passado, a proposta agora é outra, hora de dar mais um passo à frente.

Nem bem lançou o primeiro disco independente, o Mombojó rapidamente passou de aposta para certeza. Depois de resenhas positivas em alguns grandes jornais e revistas, a banda fechou um contrato de distribuição nacional com a revista do Lobão, a OutraCoisa. Além disso, esse ano volta ao Abril Pró Rock (tocaram na edição de 2002) e participam do Curitiba Pop Festival.

Em entrevista ao URBe, por e-mail, quatro integrantes falaram sobre esses e outros assuntos.

Como foi o início do Mombojó? Parece que vocês eram fãs do Sheik Tosado e que estavam em todos os shows.

Chiquinho (teclado, sampler) -- A coisa começou quando metade do pessoal que hoje é a Mombojó ainda tinha uma outra banda, a Play Damião. Começamos a sacar o que realmente queríamos fazer e com o fim da Play surgiu a Mombojó Ragajá!. Depois assumimos uma nova formação, com algumas mudanças de integrantes, resultando na atual Mombojó, nome que não quer dizer nada, mas hoje pelo menos já soa bonito no ouvido!

Felipe S (vocal) -- A gente conheceu China depois de um show do Sheik Tosado com a Nação Zumbi aqui em Recife. Tínhamos uns 16 anos e China, 19. Mas levou um tempão até a gente se juntar mesmo de alguma forma. A Mombojó começou mesmo num projeto de remanescentes de outras bandas de adolescentes, todos já com experiências frustradas querendo fazer uma história não-rock, mas ao mesmo tempo com peso.

Marcelo Campello (violão, cavaquinho, escaleta) -- Todo mundo na banda acompanhava os eventos da cena Recife-Olindense desde muito jovem, escutando aquela carga de informações e se identificando. Eddie, CSNZ, Mundo Livre S/A, o próprio Sheik, de certa forma exalavam uma postura que supria nossa "fome" sonora na época.

Marcelo Machado (guitarra) -- A banda começou com a junção de uma galera que tocava desde cedo, uns com apenas 12 anos. Uns já se conheciam há muito tempo, como é meu caso, do Chiquinho, Vicente (o baterista, meu irmão!) e Felipe. Rolou uma coisa que nunca tinha rolado muito nas outras bandas: entrosamento quase total.

O disco tem algumas parcerias com o China. Como surgiu isso?

Marcelo Campello -- Um dia o China ligou pra elogiar o nosso EP (2001), foi massa essa atitude dele de entrar em contato. Aí eu e Felipe marcamos de ir na casa dele, assim mesmo, na cara-dura, não tínhamos muita coisa pra falar, mas uma vontade de se conhecer mais e trocar idéias. Já nesse primeiro dia a identificação foi instantânea, China mostrou um esqueleto de "Adelaide", eu fui botando uns acordes e a música surgiu. Era assim: quem tivesse uma letra ou uma base, botava na roda pra ver no que dava. Foi assim que surgiram as parcerias.

Chiquinho -- Eu pessoalmente não sei como surgiu esse contato, quando dei por mim estávamos eu e China, em minha casa, compondo a trilha sonora de um curta metragem que nunca rolou.

Vocês cresceram no legado de Chico Science e alguns de vocês eram praticamente crianças quando ele morreu. Qual a relação de vocês com a figura do Chico e com o movimento mangue bit?

Marcelo Campello -- Chico Science foi uma coisa meio iluminada aqui em Pernambuco, pouca gente passou indiferente àquela proposta. Eu tinha uns 12 anos e foi importante ver que as coisas podiam ser feitas aqui, ver as pessoas se agregando por dividir pensamentos em comum. Acho genial a metáfora do mangue como biodiversidade cultural, porque evitou a formatação do som. As bandas daqui seguem uma cultura de procurar um som próprio, criar, isso é do caralho.

Felipe S -- Quando Chico era vivo, a Nação fazia uns ensaios no ateliê do meu pai [o artista plástico Maurício Silva], meu contato inicial com a banda foi dessa forma. Da leva de coisas que surgiu nesse tempo por aqui o que mais influenciou diretamente a Mombojó foi o "Samba Esquema Noise" da Mundo Livre S/A, os dois discos da Eddie, "Samba pra Burro" de Otto e os do Nação Zumbi pós-Chico.

Chiquinho -- Acho legal ser visto meio que como a nova geração do mangue, isso é massa, é bom ver que estamos dando continuidade àquilo que agente vê desde guri, estar no meio dos ídolos de infância: Eddie, Mundo Livre e a própria Nação Zumbi.

Como o folclore pernambucano influencia o som de vocês?

Marcelo Campello -- Na verdade, a gente procura diferenciar bem até onde a valorização da cultura popular é sadia e onde começa a afetação. O simples fato de termos nascido aqui nos faz suficientemente pernambucanos e reflete no som de formas muito mais sutis e complexas, não há mais nada a buscar.

Chiquinho -- De alguma forma, acaba influenciando. Cresci ouvindo isso, acompanhando minha mãe pelos carnavais da cidade. Porém, dispenso qualquer preocupação em enfatizar essa mistura de ritmos do folclore pernambucano em nosso som, até porque já tem muita gente fazendo isso e muito bem. Por isso é legal tocar as coisas que sabemos fazer sem forçar a barra do "pernambucanismo". Afinal, pernambuco acaba sendo isso mesmo: diversificado.

O que vocês ouvem e quais são suas referências?

Felipe S -- Ultimamente travei meu cérebro escutando só o "Silver Album", da Astrud Gilberto, a banda que toca com ela nesse disco é fantástica! Os sons mais novos a gente sempre faz circular internamente por todos da banda. O último que teve grande aceitação sem dúvida foi o Stereolab.

Marcelo Campello -- A lista é grande: Air, Stereolab, Tortoise, Man or Astroman, The Pops, Tim Maia, Roberto Carlos, Nação Zumbi, Jorge Ben, Garoto, Tom Jobim, João Gilberto, Rogério Duprat, Stooges, Cartola, Skatalites, Snoop Dogg, Horace Andy, Black Uhuru, Lee Perry...

Chiquinho -- Tenho o costume de ouvir as coisas que são daqui: Dj Dolores, Comadre Fulozinha, Variant, Tonami Dub e Variant TL, um projeto paralelo da Mundo Livre e de uma banda local chamada Songo, os caras tocam um ska roots do caralho.

A exemplo de banda atuais como Los Hermanos, Acabou la Tequila ou Nervoso, a Jovem Guarda é referência para vocês?

Felipe S -- O lance de Roberto Carlos fluiu de forma muito espontânea dentro da Mombojó.

Chiquinho (o tecladista) já tinha alguns vinis e China é vidrado, botava a gente pra escutar coisas o tempo todo. A Jovem Guarda é referência pra todo mundo que morou em subúrbio aqui em Recife, mas eu nunca tive muitas afinidades. Das bandas que você citou, conheço apenas o Los Hermanos, mas as pessoas insistem tanto em dizer que eu me espelho neles que, por nóia, já não escuto faz mais de um ano.

Marcelo Campello -- Roberto Carlos, nos idos de 70, refletia bem o tipo de conflito que muitas pessoas da nossa idade vivem - melancolia, estranheza - por isso a identificação.

Chiquinho -- Viajo muito nos timbres que os caras tiravam na época, em ir atrás daqueles timbres; inclusive, uso um sintetizador que me faz chegar bem perto daquela vibe.

Marcelo Machado -- Eu curto muito o Los Hermanos, é uma banda que se encontrou e faz um som muito na vibe. Em relação a Roberto Carlos, eu acho que ele realmente é o pivô musical e intelectual pra muita gente.

Vocês e o China têm até uma banda cover do Robertão...

Marcelo Campello -- Primeiro a gente fez um projeto muito massa, os Monstros. Tocamos umas duas vezes, uma delas numa festinha de prédio. China mostrou uns vinis do The Pops, Roberto Carlos, essa coisa meio jovem-guarda/surf que a gente viaja. Essa era a onda dos Monstros.

Chiquinho -- Recentemente, fundamos uma nova banda, a Del rey, tocando as pérolas do rei Roberto dos anos 60 e 70. É o jeito que a gente arrumou pra tirar um nas passagens de China por Recife. O negócio é muito divertido, é do caralho tocar as músicas do rei, tem um sentimento inexplicável... É massa, ainda vai dar o que falar!

Como foi o esquema de gravação de "Nadadenovo"?

Felipe S -- O "Nadadenovo" foi realizado da forma mais independente que se possa imaginar, inclusive poucas pessoas escutaram o disco durante o processo de gravação e mixagem, pra evitar aquele clima de "isso tá ruim", "aquilo poderia ser desse outro jeito", etc. Todos queríamos fazer um disco exatamente como desse na nossa telha e muita coisa foi se transformando durante as gravações, sempre mexíamos muito.

Marcelo Machado -- O Nadadenovo foi gravado graças a um projeto para a Lei de Incentivo à Cultura da Prefeitura do Recife que conseguimos aprovar. A primeira tiragem foi de cerca de 2 mil discos. Por enquanto conseguimos negociar a vendagem com algumas lojas de disco do Recife e nós mesmos vendemos em shows da Mombojó.

Quais são os planos para esse disco, vai ter turnê?

Marcelo Machado -- O disco tem sido bem comentado pela imprensa daqui do Recife e do Sul, e por isso estamos organizando algumas viagens para fazer durante o ano. Provavelmente ainda esse semestre estaremos organizando uma mini-turnê pelo sul-sudeste.

Pra finalizar, falem um pouco das músicas, do clima do disco. Enfim, expliquem para quem ainda não conhece.

Felipe S -- Na verdade, acho meio chato dar receita sobre as músicas. Mas já que muita gente busca certeza em tudo, vai aqui uma dica: não tem nadadenovo!

Marcelo Campello -- O disco tem uma sutileza que eu acho massa, buscamos muito isso, o minimalismo, nada foi jogado, até os momentos caóticos são bem planejados. Uma coisa que caracteriza o disco são as constantes e repentinas mudanças de atmosfera, gostamos muito disso, ainda há muito o que evoluir nesse sentido. Procurar "ver" o som é uma coisa boa.

Marcelo Machado -- Uma característica nossa é inserir nas músicas elementos que fazem a gente ficar na vibe, uma espécie de vibração conjunta que une todos da banda em um som harmônico. Gostamos de fazer música que nos deixe felizes e descansados quando ouvimos, música pra fechar o olho e relaxar.

* na página do grupo dá para baixar o disco inteiro.

A revanche

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foto: Joca Vidal

O inglês Norman Cook, o Fatboy Slim, chegou no Rio mordido. É que na última vez que tocou na cidade, no Free Jazz 2001, o dj fez um set pesadão que não agradou ninguém. Nem a ele mesmo. Na coletiva de imprensa, Fatboy contou que naquela noite "levou uma surra" do dj que tocou mais cedo, o mesmo John Carter que entrou antes dele ontem, na Praia do Flamengo.

Foi o dia de ir a forra. O primeiro evento do Nokia Trends (em setembro eles trazem para São Paulo o mega festival multimídia espanhol, Sónar) começou às 16h30 com o db dos djs Patife e Marky. John Carter entou na sequência e fez um set tão bom quanto o de 2001. Destaque para "Lithium", do Nirvana, em versão um pouco diferente da que o 2 Many DJs tascou no TIM Fest, ano passado.

Às 19h, cerca de 160 mil pessoas se espremiam para assistir o Fatboy Slim. Ele abriu com uma versão de "Garota de Ipanema" e em seguida botou a tal música que fez para o Rio. Recheada de samples de músicas sobre a cidade, como "Rio", do Duran Duran, o vocal repetia "Rio de Janeiro, Rio de Janeiro" insistentemente antes de explodir num break matador. Presentão.

Carismático, o dj se comunicava com a platéia escrevendo mensagens nas capas dos discos que apareciam no telão, como no DVD "Big Beach Boutique II". Foi dessa forma que ele informou que nunca vai tocar "Rio" em outro lugar, mandou um alô para a turma que assistia a tudo de barcos ancorados na praia e disse que queria fazer amor com a platéia depois do show. Até um Elvis, fase Las Vegas, entrou no palco para dançar.

O set de duas horas, bem pop, foi eclético. Teve desde uma versão de "Groove is in the heart" (Dee Lite), citação a "Menino do Rio" (Caetano) e "Born Slippy" (Underworld), a várias ameaças de tocar músicas mais conhecidas, como "Seven Nation Army" (White Stripes) ou "The test" (Chemical Brothers). O dj deu show, esgarçou o mixer.

Dá para dividir o set em três "categorias": os sambinhas eletrônicos (meio mais ou menos, felizmente foram poucos); os 4x4 quadradões, com batidas em linha reta; e, finalmente, a melhor parte, os breaks grooveados, alegres e sacolejantes. Nessa linha, além da música em homenagem ao Rio, Fatboy tocou seu remix para "Quem cagüetou?", música do Tejo (Instituto), com vocais do Black Alien e Speed, que fez parte da trilha sonora do filme "O invasor".

"Quem cagüetou?", um Miami bass / ragga / funk, está estourada na Europa desde o ano passado, quando serviu de trilha para um comercial da Nissan. A música chamou mais atenção do que propaganda, acabou sendo lançada como single e ganhou remixes de grandes nomes da música eletrônica.

O break beat parece ser a bola da vez. A música eletrônica passa por uma crise criativa (conversei sobre isso com o próprio Fatboy, em entrevista que sai na Revista da MTV de abril) e atualmente a mistura de gêneros aparece como solução. O break beat é um estilo perfeito para esse tipo de cruzamento. Isso acontecendo, aqui no Brasil a aposta mais sensata é o Apavoramento Sound System (parece que algúem já fez a aposta). Quem viu o show deles no TIM Fest sabe bem disso.

O momento funk se estendeu com a versão de "Whoomp! There it is", a famosa "Uh, tererê". É impressionante como o ritmo contagia, principalmente aqui no Rio. O público, que já estava dançando bastante, pulou ainda mais ao ouvir o pancadão. Fatboy mostrou que dessa vez pesquisou bastante o que tocar e acertou em cheio. Estrondou.

Na área de imprensa, colada nas caixas, o som estava bom. Mas houve bastante reclamação quanto ao volume, muito baixo segundo quem estava na praia, afastado do palco. Ao invés das laterais, a área vip ocupava o espaço em frente ao palco, criando um faixa que separava os djs da platéia. Nesse ponto as opiniões do público se dividiram. Para uns a festa foi bancada pela Nokia e eles têm o direito de chamar quem quiser, para outros a multidão presente deveria ter a chance de ficar mais perto, afinal a cidade era o cenário da festa.

A noite terminou cedo, às 21h, com uma queima de fogos para emoldurar a lua cheia e um papo de "ano que vem tem mais". Tomara.

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Matéria sobre música feita com Gameboy que escrevi para o Rio Fanzine (O Globo).

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No jogo da música

Bruno Natal ESPECIAL PARA O RIO FANZINE

Transformar um Game Boy em um sintetizador e seqüenciador, fazendo do brinquedo uma fábrica de beats, sons, ruídos e experiências sonoras em 8 bits. Essa era a proposta do duo Monoaural, formado por Berna Ceppas e Kassin, ontem, na apresentação na Casa da Gávea.

Na mesa dos produtores, em vez de toca-discos, samplers e i-books, havia um teclado Micro Korg, dois pedais de delay e dois Game Boys plugados numa mesa de quatro canais. Cada um dos aparelhos estava rodando um cartucho diferente: Berna "jogava" Nanoloop e Kassin "brincava" de Little Sound DJ.

Utilizar o Game Boy para fazer música faz todo o sentido, afinal, todos blips, clics e tóins já estão lá dentro. O cartucho funciona como um jogo normal, mas ao invés de desenharem personagem e obstáculos na tela, exploram as possibilidades sonoras do vídeo game. O Little Sound DJ vem com samples de bateria, como o pancadão 808, favorita dos bailes funk.

A dupla descobriu a novidade, por caminhos diferentes, há mais de um ano. Depois, conversando, descobriram que estavam pesquisando a mesma coisa paralelamente. Apesar de Berna ter utilizado o aparelho ano passado no Rio Sesc Experimental, esse provavelmente foi o primeiro show totalmente feito com Game Boy no Brasil.

A apresentação, improvisada em cima de alguma poucas bases pré-gravadas, começou ensurdecedora. As batidas quebradas predominaram, numa espécie de colisão eletro-Miami bass. Uma das bases esbarrarou no house, enquanto algumas outras poderiam ajudar o funk carioca a dar (mais) um passo a frente ou servir de cama para o hip hop.

O experimentalismo deu lugar ao (nem tão) pop quando Kassin utilizou um vocoder enquanto fazia interferências oitentistas no teclado. Surtiu efeito. Teve um lá que não agüentou e foi dançar na frente da mesa. A pedrada foi a única que não foi feita de véspera. Composta por Kassin durante uma viagem, deve fazer parte de um disco só de Game Boy, "Artificial", a ser lançado ainda este semestre pelo selo da dupla, o Ping Pong.

Os programas utilizados pelo Monoaural foram feitos por alemães, mas antes disso a própria Nintendo já havia produzido um jogo sonoro para o Game Boy. Foi um fracasso. Saiu de linha e hoje é item de colecionador. Os próprios Nanoloop e Little Sound DJ já se tornaram cult. O primeiro foi descontinuado e o segundo teve a produção suspensa, talvez porque estejam trabalhando em uma nova versão. O fato é que seus cartuchos estão custando absurdos 799 euros, dez vezes mais caro do que na época do lançamento.

Na rede dá pra achar emuladores de Game Boy e seus respectivos roms (como são chamadas as cópias digitais dos jogos), inclusive os desses sintetizadores, que rodam em qualquer PC. Pra quem quer tocar no próprio aparelho, o caminho é mais difícil. É necessário adquirir um aparelho como o Emerger, espécie de gravador de cartuchos virgens.

O Micro Music é uma boa fonte para se aprofundar no assunto. Lá dá inclusive para ouvir algumas produções feitas utilizando a traquitana. Gostou? Tenta a sorte.

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