O Espaço da Imaginação
Entrevistinha (hehe) que eu fiz com o Marcello Dantas, o cara que inventou o Museu da Língua Portuguesa, pra Audi Magazine.

O criador do Museu da Língua Portuguesa Marcello Dantas fala sobre o papel da tecnologia em nossas vidas e como o Brasil pode usá-la para se estabelecer relevância global no século vinte e um
Entre o laptop e o smartphone, Marcello Dantas prefere o papel e a caneta para acompanhá-lo durante a entrevista. Ele está sob um agradável caramanchão na parte posterior de sua arejada casa nos Jardins, em São Paulo, ele rabisca à medida em que desenvolve conceitos e racionaliza abstrações, tudo para trazer suas idéias para o papel, mas é um caminho de duas mãos, pois logo ele está sendo específico e enumerando exemplos, gesticulando amplamente para dar dimensões ao que está escrito no papel. É disso que ele entende: transformar conceitos em espaços.
Foi assim que começou a mexer com vídeo experimental nos anos 80, numa época em que "fazer vídeo" convergia vanguarda artística e status social (áreas habitadas atualmente pela toy art, pelo grafitti, pela internet e pelo DJ). Contemporâneo da geração Olhar Eletrônico (produtora que lançou nomes como Marcelo Tas e Fernando Meirelles), ele logo abandonou o vídeo por sua limitação espacial - a tela pedia para ir além. Passou a experimentar as artes plásticas num sentido mais amplo e, quando menos percebeu, curava museus. Seu trabalho mais popular e aplaudido é o Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em São Paulo no ano passado, em que convida as pessoas a "entrarem" na língua, atravessando páginas, palavras e fonemas em instalações que compõem uma grande obra de arte - o próprio museu.
Por isso, em vez de falar dos trunfos e feitos de Dantas no passado - eles estão todos fichados em seu site pessoal www.magnetoscopio.com.br -, melhor deixa-lo divagar sobre o museu como a nova catedral, o papel da tecnologia na história da humanidade e a oportunidade que o Brasil tem no novo desenho geopolítico do século 21. Um cachorro passa por debaixo da mesa, um gato pula sobre a cadeira para acompanhar o papo e Marcello segue rabiscando esquemas para traduzir uma versão imersiva de um universo em expansão, o da imaginação.
Antes de começarmos a falar sobre arte e tecnologia, queria que você começasse fazendo uma separação conceitual entre tecnologia e eletrônica. São duas coisas bem…
Bem diferentes. Tecnologia é uma coisa umbilical na história da humanidade e entender essa história da tecnologia é entender, por exemplo, do nascimento do fogo ou os primeiros usos das tintas nas paredes para gravuras rupestres e pinturas rupestres. Tecnologia é anterior ao próprio conceito de história. É a história da evolução do homem.
Obviamente que a face mais visível da palavra "tecnologia" são as últimas tecnologias, o high-tech. O high-tech é o ponto da vulnerabilidade da tecnologia. É a hora em que a tecnologia ainda não está pronta, por isso que ela é assunto. Depois que a tecnologia fica pronta, ela se torna invisível. Você pára de pensar nela. Essa é a boa tecnologia.
A tecnologia que funciona é aquela em que você não pensa. Cadeira é uma puta tecnologia que resolveu mil coisas no mundo e você não pensa nela. Você está sentado em cima dela, mas não pensa.
Por outro lado, tem uma questão nisso, que é por isso que me interesso tanto pela tecnologia, é que eu acho que o homem perde tecnologias através da história. A gente vai abandonando tecnologias e perde potenciais criativos associados a coisas que a gente não sabe mais como fazer porque a gente muda o padrão tecnológico para um outro padrão e você não sabe mais como resolver. Hoje, por exemplo, todo o universo das máquinas analógicas, que há tão pouco tempo – quinze, vinte anos atrás – eram absolutamente correntes, a gente já não sabe mais como resolver, como construir, como reinventar. Bom, separando isso, quer dizer, a tecnologia visível versus a invisível – a visível, aquela que não funciona o que está na beira, está trepidando, quase funcionando, e a invisível, aquela que é muito boa. Também vamos falar de arte então, para complementar essa coisa, já que você relacionou as duas palavras.
Arte é uma tecnologia. Através dos tempos, se você for olhar da Vinci, Michelangelo, lá atrás, a invenção da perspectiva, os grandes artistas eram os artistas que estavam inovando exatamente nesses territórios. Fazer um domo, como é que pinta isso aqui de uma maneira tal … A própria questão de como a imagem se comporta, as cores – o artista tem a coisa do domínio da técnica. E para mim não existe arte tecnológica. Existe boa e má arte.
O maior problema é que toda má arte que não sabe como se intitular, ela se protege sob um guarda-chuva de se chamar de tecnológica. E aí você começa a ver uma porrada de coisas que são má arte em qualquer mídia e colocando esse label para se proteger… “É que eu estou lidando com a borda da tecnologia.” Por isso que não funciona, é feio, é ruim, não envolve. É uma desculpa. Quando você vê boa arte, tecnológica ou não, ela te encanta. Esse é o papel dela: te envolver, te chamar a atenção, te ligar para algum outro lado.
Fazendo um paralelo com isso que você falou, a boa arte também é invisível, não é?
Sim. O melhor truque da boa arte é a invisibilidade. Acabei de curar a exposição de Anish Kapoor. Uma das melhores obras na exposição, na minha opinião, é uma obra que você não consegue vê-la. Ela desaparece na tua frente. Quando você está de frente para ela, ela não existe. É uma parede branca. Quando você vai virando de costas, ela se revela com a sua protuberância, com todo seu charme e aí se torna poderosa. Então, tentar definir as coisas como, sabe, isso é tecnológico, não vale para mim. Ou você me ganha pelo que a coisa é ou não me ganha.
Complementando uma coisa que você falou, sobre a diferença entre tecnológico e eletrônico. Existe uma coisa que mudou no mundo nos últimos tempos, que é a era digital. A era digital é um remapeador de relações sociais, de trabalho, humanas... Tudo. Tudo foi enfiado dentro desse liquidificador e passou a ter outros valores, pesos, medidas. Outras coisas foram esquecidas, outras foram levantadas. Essa, que é uma transformação de comportamento, é uma transformação de mobilidade, é uma transformação de comunicabilidade – tudo isso – e…
Principalmente de hierarquia também, né?
Tudo é colocado… O grande poder da tecnologia é uma oportunidade de reorganização de valores, ponto. Ela, o tempo todo, diz: “Opa! Status quo desafiado! Xeque! Reposicione-se!” O status quo tem que se reposicionar. Às vezes fica igual, às vezes fica diferente.
No sentido que você falou que a arte também é tecnologia, então, quando o artista questiona, ele não está simplesmente questionando com valores estéticos ou artísticos, mas também tecnológicos.
Sim. A tecnologia é um grande motivador para a arte. Por outro lado tem o: “como é que eu vou conseguir fazer uma coisa legal com isso e ao mesmo tempo não ser vítima disso? Não ser dominado por isso?” Esse é o twist. Esses dias eu ouvi uma frase muito boa: “My work gets better the more I take myself out of it” (“meu trabalho melhora à medida em que eu me retiro dele”). Vai contra toda uma filosofia de uma arte autobiográfica das pessoas. Na verdade, tem toda uma tendência na arte contemporânea de ser profundamente assim: “É o meu diário, é a minha vida, minhas vísceras!”. Me lembrei de uma frase de Bill Viola. Ele é um mestre nisso até, nessa relação de arte e tecnologia: “It’s not what I want the work to be. Artistry is listening to what the work wants to be”. (“Não é o que eu quero que a obra seja. Arte é ouvir o que a obra quer ser”)
O digital realmente mudou foram as dinâmicas de jogo da sociedade. A sociedade sempre é um jogo e ela coloca outras questões completamente diferentes. Você vê: um trabalho como esse negócio da caveira de Damien Hirst, que foi vendida por 100 milhões de dólares, a caveira não tem a menor importância, nem os diamantes. O que está aqui é um jogo. É um jogo que aquela caveira passa a simbolizar dentro da sociedade como um todo. Passou a ser uma coisa muito mais de natureza política do que qualquer outra coisa.
Então você vai lá e cria. “Tá bom, eu vou fazer um negócio que só de diamante tem 30 milhões de libras aqui dentro. Vamos ver quem vai botar o pau na mesa”. E você gera e agrega um valor. E, na realidade, houve toda uma inquietação em torno disso que você iria ter um artista vivo produzindo uma obra que vale mais que o Van Gogh mais caro. O Van Gogh mais caro acho que custou 87 milhões de dólares. Esse chegaria a 100, sendo que tudo que está fazendo é uma puta de uma picaretagem.
Ele está jogando na cara das pessoas.
E as pessoas assinam o cheque. Se articularam, compraram pedaços do negócio. Acho isso quite impressive para revelar um pouco da loucura da gente… Ao mesmo tempo é muito legal quando você vê o que é o jogo.
Pois é. E nessa mudança do jogo que a gente está passando, voltando aí ao tema que você falou, da invisibilidade, tem outra questão que é crucial nessa época que a gente está vivendo que é a questão da transparência. Quanto mais claro você é nos seus objetivos, nas suas metas, melhor você se comunica e melhor você consegue viver nesse novo jogo.
É muito bom você usar esse paralelo. Muito bom isso entre transparência e invisibilidade porque, de certa forma, a transparência é uma invisibilidade para transformar as coisas invisíveis em visíveis. Elas estão completamente ligadas, ou seja…
O rei está nu.
O rei está nu, mas “o rei está nu” é uma frase de awareness, não é uma frase de, assim: “eu sei que o rei está nu; não estou vendo o rei nu”. A transparência é um processo de tirar a cobertura, deixar visível, e a invisibilidade é aquilo que está invisível, mas é palpável. Invisibilidade não é ausência. É presença invisível. Quando você pensa em tecnologia, você pensa em coisas. Eu estava folheando esta revista de carros: boa parte das melhores e mais inovadoras tecnologias dos carros são completamente invisíveis. Quando realmente as pessoas viram um airbag explodir na sua cara, um freio com ABS? Onde é que está isso no carro? É um software em algum lugar, um sensor em um outro lugar, um não-sei-o-quê e tudo mais, mas você acredita. Controle de tração… Um monte de coisas que as pessoas agregam, que são coisas que dizem respeito ao behavior, às vezes fundamental – segurança, dirigibilidade tudo mais –, mas que não são palpáveis.
E, por outro lado, eles podem funcionar apenas como adereço e aí o carro é a roupa do rei. Você não está comprando um carro com freio ABS, com tração tal… Simplesmente, você está comprando uma segurança que essas coisas teoricamente trazem, como a história do próprio airbag. Você não quer ver o airbag explodindo na sua frente e você acha que, na hora que você precisar, ele vai explodir.
E, provavelmente, em boa parte dos carros o airbag nunca precisou ser usado.
Pois é. E se, por acaso, não explodir? Você comprou um carro, pagou pelo airbag e rolou o acidente e não explodiu. Valeu pagar isso? Puxando um pouco mais e saindo um pouco do papo só de consumidor e falando dessa relação de arte e cultura e tecnologia e tal, como é que eu posso falar isso? Essa coisa da transparência – tipo, isso está acontecendo a nível de governos, a nível de…
As instituições estão se mostrando cada vez as verdadeiras intenções das…
Sim, governanças corporativas.
E quando a gente vai para a arte, a gente encontra o artista usando a arte como um escudo para as pessoas não entrarem na obra dele. E aí o cara tem todo um discurso pronto ao redor do “Você não entendeu”. O cidadão entra num museu, e se não entende aquilo, é por não ter condições intelectuais...
Aí entrou na minha especialidade. O museu é hoje a catedral dos nossos tempos. Ele é a coisa que todas as pessoas confluem para ali porque é o lugar onde a sociedade constrói um museu simbolicamente.
Achei que fosse o shopping.
O shopping tem uma diferença enorme, pois eles lutam entre si. O museu converge, o shopping separa. Tem shopping de rico e shopping de pobre. O museu tem uma coisa, principalmente no Brasil, que é bastante diagonal na sociedade. Primeiro, 50% do público é criança. Se você fosse fazer um museu só para gente rica – e existem alguns assim - mas a média de visitações seria baixa. Se você quer fazer o museu ser mass medium, você tem que falar com todo mundo, todo o espectro da sociedade. Então você pega o Museu da Língua Portuguesa que eu fiz é uma coisa que é visitada por classe E, D, C, B e A. E AAA. Porque ele é essa catedral ecumênica da sociedade. Aqui recebemos a todos. E você aceita isso. Você, sendo classe AA, ainda aceita a idéia de que num museu, tudo bem. No seu shopping, não. No seu clube, não. No seu restaurante, não, mas num museu, tudo bem. Eu posso me encontrar com as outras classes ali. Por isso que eu digo que ali é a catedral do nosso tempo. É um lugar onde todos vamos rezar por uma coisa em comum que a gente entende que aquilo ali não é multiplicável. Não posso ter um lá e outro cá. Tem que ser aquele; vai ter que ser daquele jeito.
Pensar um novo museu esbarra em várias questões, uma delas é a questão de que não foram construídos acervos e talvez a nossa sociedade, a nossa cultura contemporânea, não precise e nem possa ser contada através de acervos. Ela precisa ser contada através de processos, sistemas, coisas mais vivas porque, quando você fala de uma coisa como a língua, qual é o acervo? É um monte de livros? Será que é isso que é a língua? Não é. Língua é muito mais do que literatura. Literatura é apenas uma faceta da língua. A língua é um aspecto de relacionamento social gigantesco. A língua é a grande herança de uma sociedade. A língua é uma coisa que a mãe dá para o filho emprestado, para que ele dê para seu outro filho. Essa é a mágica da língua. Você pode não ensinar nada para seu filho, mas você o ensina a falar. Isso é um instrumento fundamental. E ele quer falar porque ele quer falar com você. Então essa é a troca e é uma coisa superbacana.
Mas quando você fala dessa leitura, quer dizer, você precisa gerar processos. Processos são situações dinâmicas imersivas que você precise botar a pessoa dentro de uma coisa outra, inteira. A tecnologia é uma grande amiga para isso. Ela é isso. Ela contém dentro dela movimento, dinâmica, vida. A segunda camada depois de processos é que existe um hábito – isso não é só da arte, isso é de toda a cultura acadêmica, ou cultura erudita – de cifrar, cifrar tudo para não soe acessível. Então por que você escreve F. Schubert e não Franz Schubert? Por que você escreve Die Walküre e não As Valquírias? Por que você não aproxima? Por que você não conta a história daquilo? As pessoas presumem que todo mundo sabe tudo, o que é uma balela.
O sistema educacional global completamente negligencia a formação cultural. O sistema educacional é voltado para atender meia dúzia de coisas que visam sempre uma porra de um vestibular, um acesso a uma faculdade. Mas formação cultural é uma coisa muito pouco elaborada dentro da escola. E qual é a escola que realmente ensina Mozart? Qual é a escola que realmente ensina quem foram os grandes mestres da pintura? Não é feito isso de verdade. É porque não tem professor preparado para isso. Começa por aí. E não é curricular etc.
O papel de quem faz museus hoje é pegar essa pessoa pela mão e, com todo carinho, não ficar explicando quem foi Beltrano, Sicrano, mas entrar direto do que é o código, aquilo que tem que pegar na pele, aquilo que tem que ter esse valor. Essa é a diferença eu acho no que eu vejo no papel do museu. Muita gente vê o museu um lugar para você guardar um monte de coisas. Então tem um monte de coisas que foram importantes um dia, vamos guardar lá no museu – “coisa de museu”. Esse é o pior sentido da palavra “museu” para mim. “Museu”, para mim, é “templo de musas”. Essa é a verdadeira definição da palavra: templo das musas. E, como tal, é o lugar onde a gente vai buscar o quê? O que é uma musa? Musa é inspiração. É algo que te ilumine, que você saia de lá, “Putz! Fiquei com vontade de fazer alguma outra coisa da minha vida”. A vida precisa fazer mais sentido do que comer, pagar, receber. Sabe, ela precisa trazer alguma outra transcendência.
Mais uma vez a alusão à catedral.
Ou seja, “Me dá, pelo amor de Deus, alguma transcendência!”.
E aí, na hora em que o cara chega no museu e o museu não dá isso?
Isso é missa em latim, entendeu? Exatamente o mesmo fenômeno que aconteceu com a Igreja…
Opressor.
O cara fica lá: “Blá-blá-blá”. Ninguém entende porra nenhuma.
Mas todo mundo respeita…
Respeita porque tem que respeitar, né? Porque, pelo amor de Deus, quem sou eu? E acha lindo e não sei o quê, mas na real não tocou ninguém. Aquelas palavras passaram direto pela cabeça. Eu quero falar com o menino de rua, com o drogado, com a alta sociedade, com todo mundo. Se 50% das pessoas que visitam museu são crianças, eu tenho uma outra certeza que na outra metade aqui, tem crianças dentro dos 50% dessas outras pessoas também.
O lado lúdico.
Existe um elemento lúdico que comunica com todo mundo. E a outra coisa é dar à pessoa autonomia. Você se entrega a uma experiência e você é explorador desse espaço. Isso é, acho que é a linguagem que eu defendo todos os dias.
O Brasil tem uma característica que eu entendo como um privilégio – não só o Brasil, mas vários outros países em desenvolvimento – nessa época, nessa transição do industrial para o eletrônico, que é o fato de não ser um país com a matriz escrita sólida na formação. Grosseiramente, a gente pode estar falando que a gente vai pular a era escrita, saindo da era oral para a era eletrônica. Eu queria que você falasse um pouco disso: se você concorda com isso…
A primeira coisa aqui é o seguinte. quando a gente fala do conceito de alfabetização, o Brasil tem um paradoxo muito interessante. Eu não sei quais os índices oficiais, mas devemos pensar em outra alfabetização, a alfabetização em mídia, que é a capacidade de você decodificar mídia. Isso não é nativo do ser humano. Isso é uma coisa desenvolvida. A primeira vez em que você vê uma imagem, você tem um nível de aceitação. Tem aquela história clássica dos russos, que eles achavam que quando viam uma cena de uma mão – um detalhe, um close-up – achavam que aquela mão tinha sido amputada. As pessoas tinham esse tipo de questão com o imaginário, mas era possível se desenvolver uma cultura audiovisual para entender e decupá-la.
A alfabetização em mídia é uma coisa que o Brasil está lá no topo da pirâmide. O brasileiro tem uma cultura audiovisual e tem uma unidade lingüística e uma unidade de interpretação audiovisual como poucos lugares do mundo. Então, de fato, a gente tem uma deficiência que é a alfabetização formal, e a gente tem uma compensação, que é uma enorme capacidade de entender mídia. Isso se revela como uma oportunidade de linguagem, não como uma deficiência. Ou seja, se é essa a língua que eu tenho que falar para poder me comunicar, vamos usá-la. E ela funciona diagonalmente na sociedade. Não é que exista, no topo da pirâmide social brasileira, exista alguma restrição à linguagem audiovisual. É a mesma questão. Ela ocorre de norte a sul, leste a oeste, integra o país. De certa forma, somos um país da cultura televisiva. Isso, sim, está no imaginário de tudo mundo. Entra de uma forma muito especial. Não vamos tirar mérito disso. Ao contrário, vamos usar isso a nosso favor.
Agora, muitas vezes dizem: “Ah! Marcello vai fazer uma Disneylândia”. Desde que você me permita inocular nas pessoas uma dose de conteúdo relevante, está ótimo. Eu vou usar a gramática que for mais adequada. Eu sei fazer uma coisa completamente sóbria e sei fazer uma coisa completamente, profundamente lúdica se for necessário. Mas o importante, para mim, é que eu contenha ali dentro uma oportunidade de chegar para você e dizer: “Putz! Aqui tem algo novo para você aprender”. O problema, na realidade, de uma linguagem assim, totalmente eletrônica – totalmente – é quando ela não carrega nenhum conteúdo dentro dela.
Como qualquer problema de qualquer linguagem.
O Domingão do Faustão poderia ser um programa interessantíssimo. Mas como é que você faz para você ser relevante? Porque hoje o mundo é uma relação de sinal-ruído. E o índice de sinal está aqui e o do ruído está aqui (gesticula). Está do lado. E só o que importa da sociedade é a distância entre o sinal e o ruído. Isso aqui é a cognição. Se eu ligar agora uma britadeira aqui do lado, a gente perde completamente a cognição porque eu subi o nível de ruído de tal forma que eu perdi a capacidade de entender aquilo que você está dizendo. Filosoficamente, é a mesma coisa. Ou seja, tem um monte de balela sendo dita para todo lado e meia dúzia de coisas boas. Como é que eu separo esse joio do trigo e como é que você consegue comunicar para o outro que o teu é a coisa boa mesmo? Esse é o desafio.
Assim, uma coisa curiosa: esses dias fiz uma grande exposição para a RBS sobre a história da comunicação. Foi um puta sucesso. E a primeira coisa que eu falei para eles – e eles demoraram para entender isso – foi: “Vocês têm que se interpretar como um órgão poluidor do meio ambiente”. “Como assim? Poluidor do meio ambiente, nós? Nós fazemos rádio, televisão, não sei o quê…”
Justamente!
É (ri). São profundamente poluidores do meio ambiente – da cabeça das pessoas, dos sons das cidades, das freqüências de rádio… E eu falei: “Bom, nós vamos fazer uma exposição. Tudo bem que a gente vai poluir ainda mais a cabeça das pessoas, mas eu quero colocar uma coisa nessa exposição. Eu quero uma sala de silêncio. Uma puta sala enorme, um chunk grande da exposição que não vai acontecer nada”. Aí falaram: “Não! Mas que coisa estranha! As pessoas vão até lá para fazer o quê? Não sei o quê lá…” “É, é isso mesmo. Vão entrar e vão ter a oportunidade de fazer um pouco de nada.” Que é o quê? É tentar reduzir a produção de ruído para que o sinal possa se tornar relevante. Isso é uma estratégia mesmo. Fale baixo para ser ouvido.
Isso que você falou do brasileiro, da matriz da linguagem brasileira ser a televisão. Não sei se é exatamente isso, mas, enfim, tem outra coisa que é típica do brasileiro em relação ao novo como um todo que é a aceitação.
Ah, total!
Por conta disso, eu digo, toda a fama do Brasil de ser, de receber bem as pessoas como…
Novidadeiro.
Pois é. Ele gosta de tudo…
Gosta de novidade. Se você for fazer um paralelo entre o Brasil e a França, a França é um país que tudo aquilo que o cidadão faz tende a ser uma maneira de preservar e de ser conservador. Ele não quer mudar. Ele quer a baguete debaixo do braço. E quem empurra a inovação na França é o governo. É muito louco. Quer dizer, o governo é o grande fomentador da inovação – da nova arquitetura, do novo cinema – porque o francês, ele é, na sua essência, conservador. Ele acha que todo dia que nasce é um dia que você está pior do que o anterior. Essa é a posição default do francês. É lógico que existem exceções, mas esse pessimismo é imbuído nele.
O brasileiro é exatamente o contrário. Ele acorda de manhã, ele acha: “Putz! Como é que vai melhorar?” Eu construí o início da minha vida profissional fora do Brasil e poderia ter continuado lá, mas decidi vir para cá por um motivo muito simples. Porque aqui tem muita coisa a fazer. Vai fazer muita diferença estar aqui versus que no resto do mundo as coisas já estão mais ou menos solidificadas e se firmando. Hoje eu estou trabalhando muito pelo mundo afora até de volta, mas depois de ter tempo de desenvolver uma linguagem aqui que é muito pautada por essa demanda do brasileiro de ver a cosia de uma maneira nova. Isso é muito engraçado.
Fiz a Arte da África há alguns anos – uma exposição que é recorde de público no Brasil: mais de um milhão de pessoas – e os alemães viram aquilo que era um acervo que já tinham há mais de 100 anos lá, exposto e que ninguém dava importância devida, eles me chamaram para ir fazer lá aquilo que a gente tinha feito aqui, porque eles sentiram que o Brasil conseguiu iluminar aquelas coisas, dar uma nova leitura para aquilo que as enobreceu tremendamente. O que é isso? Essa iluminada ansiedade do brasileiro pela descoberta, pelo novo.
Tem uma coisa muito engraçada. Quer dizer, quando você pensa que o Brasil é um país que foi descoberto. A gente usa essa palavra, o “descobrimento” do Brasil, como uma coisa celebratória, positiva e tudo mais, o que eu acho que é mesmo, porque o momento do encontro de culturas e nasce uma nação e tudo mais. A gente passa a ter embutida dentro da nossa cabeça a idéia de que descobrir, ou seja, tirar a cobertura de algo, nesse sentido puro da palavra…
É bom.
É bom. A gente gosta de descobrir, de desembalar, de abrir presente. Esse fenômeno mágico da descoberta é algo que a gente interpreta totalmente diferente.
Queria que você falasse sobre a distância entre o real e o virtual, que parece estar deixando de existir.
A gente cruzou a fronteira do negócio. Acaba com essa merda. não tem lá e cá. É tudo aqui mesmo, entendeu? Mesmo porque, normalmente, as grandes verdades estão dentro das mentiras. A verdadeira verdade está embutida. Qual é a razão daquela mentira? A razão daquela mentira explica a verdade que estava invisível de certa forma. E a mesma coisa vale para o real e o virtual. Quer dizer, aquilo que se espelha no virtual, no fundo, é a verdadeira vocação e essência do real por mais que não seja factual.
As oportunidades desta revolução tecnológica no short run são pequenas por causa disso. Não sei se você se lembra o que Bill Clinton e Al Gore plantaram em 1992, 93, para os EUA, foi um conceito de Information Superhighway, que não era a internet. A internet já existia. Eles não venderam a internet. Eles venderam um outro conceito, de pegar e esclarecer grandes linhas de comunicação de dados. Era uma outra idéia, completamente diferente. Só que veio a internet… “Ah, quem vai pagar essa National Information Infrastructure?” Nunca foi feito esse projeto. Eu acho isso fascinante. Eles são creditados por uma coisa que nunca foi executada porque, simultaneamente, o cara falou: “Que mané esse troço! Porra nenhuma! Vamos habilitando a Internet aqui. Põe um nó aqui, põe um nó ali, põe um nó”. Quando você viu, já estava feito. A auto-estrada da informação que foi pensada nunca foi construída. Ela foi feita por estradas vicinais – um monte delas. Que é a beleza do negócio. E a gente chegou lá do mesmo jeito.
Que é a história do Luís Bonaparte na hora que ele cria as grandes avenidas que a gente conhece hoje. Ele cria avenidas que dão acesso a pontos-chaves de Paris para que o exército conseguisse deslocar com facilidade. Graças à não-existência dessas avenidas foi que a Revolução Francesa aconteceu, porque existia um monte de becos e vielas que só povo conhecia. O exército não sabia agir. Então a Information Superhighway é essa avenida para o exército passar. Só que, tipo…
Só que a guerrilha é muito mais eficaz. É que nem os americanos. Chegaram no Iraque em um mês. Agora quero ver sair de lá (ri)! Estão há cinco anos tentando encontrar o caminho para sair, entendeu? Chega!
Há uma relação entre a criação de tecnologias de ponta e a ficção científica em que um grupo sempre se inspira no outro – ao ponto em que os próprios cientistas estão se tornando artistas e vice-versa.
É verdade, é verdade. Eu acho que o grande desafio hoje não é nem tecnológico. É científico. Porque na ciência pura há uma série de novos conceitos que não dizem respeito a máquinas, e sim a idéias que podem ser modelos sociais, econômicos, genéticos, comportamentais e tudo mais, que te permitem reentender o mundo. O que a genética está fazendo pela a pré-história é impressionante. Há uma possibilidade de você reescrever a história. O problema da história é que a história sempre é dos vencedores. Eu acabei de lidar com isso com a história de Portugal. Em Portugal foram 500 anos de presença islâmica, 500 anos de fé islâmica naquele território. Você abre um livro de história de Portugal, tem três páginas sobre esse período. Ou seja, a história é sempre a história dos vencedores. Mesmo na história da ciência, ela é uma história dos experimentos que dão certo, sendo que a gente tem mais a aprender sobre as coisas que deram errado do que pelo senso comum daquelas que deram certo. Estudar as coisas que deram errado e a história dos perdedores faz a gente entender muito mais sobre o mundo. Mesmo porque os ganhadores são alguns poucos. Então, quando você olha para trás e é capaz de reanalisar o passado sob um ponto de vista do top da ciência, isso te permite redefinir quem você é e a gente entender que tipo de raízes que a gente de fato tem. Recontar a história. E a outra coisa é a ciência como talvez um certo desafio de penetrar dentro do funcionamento da mente humana. Essa talvez seja a última fronteira mesmo. É impressionante o quão pouco a gente sabe sobre isso.
Sobre o cérebro.
Você vê Oliver Sacks, figura fascinante, trabalhando para tentar entender, pela disfunções – isso que eu acho fascinante: todas as disfunções cerebrais –, para poder entender como o troço funciona e como isso não é fisiológico. É uma outra coisa. Essa ciência, toda a neurociência, no fundo, é uma ciência de 30 anos. É muito jovem.
E já se subdividiu em mil áreas…
O que torna a existência interessante é essa máquina aqui. Senão a gente estaria comendo grama. O que torna a coisa é tudo que isso traz junto. E… Por que a gente falou disso?
Estava falando do papel do cientista como artista.
Oliver Sacks, para mim, é o melhor exemplo disso. É um puta artista e um puta cientista. O cara está na fronteira do conhecimento, indo lá na borda, tentando entender como a coisa funciona e interpretando aquilo e dando aquilo para milhões. Outra coisa que eu acho que é fundamental. Isso, sim, é: a ciência, hoje, ela precisa escoar para a sociedade. Ela precisa encontrar uma maneira para se legitimizar se introduzindo de uma maneira simplificada na sociedade como um todo. Pessoas como Carl Sagan, pessoas como Oliver Sacks, pessoas como o Marcelo Gleiser, Richard Dawkins... São as pessoas, hoje, que acho que são as mais fundamentais. São as pessoas que são capazes de – ou Stephen Pinker – ir lá na ponta e traduzir. Não adianta cifrar, voltando àquele assunto que a gente estava falando. Ou seja, o mérito é traduzir. Me dá a complexidade do conceito, me arruma um jeito de contar isso para que minha mãe entenda, para que minha tia entenda.
É, e as pessoas entendem, porque daí, saindo dos cientistas e indo para a ficção, a gente tem Dan Brown, Michael Crichton – uma série de autores, principalmente nos EUA e na Europa, que estão dispostos a apresentar universos complexos, a trazer temas teoricamente eruditos ou científicos demais para um púbico e se tornam best-sellers porque as pessoas estão aptas a receber isso. A complexidade da capacidade de absorção aumentou muito. Eu gosto muito de comparar isso quando a gente fala de televisão, de videogame ou de cinema. Você pega uma pessoa dos anos 70 e mostra algo como Quero Ser John Malkovich ou Matrix ou Lost ou 24 Horas e ela simplesmente não vai acompanhar. Ela não tem capacidade…
De decodificar.
A arquitetura de informação.
Ou arquitetura de entretenimento, arquitetura de narrativa. Acho que isso é básico. Assim, uma das coisas que mais me frustrou em vídeo – eu amei vídeo durante muitos anos e depois eu larguei completamente; eu o uso como tool dentro do que eu faço – era que, uma: a vida não pode se resumir ao que se passa numa tela. A percepção explode. Eu estou neutralizando coisa demais. Tem muita coisa acontecendo. E a outra é a sensação de que a fita, que é uma coisa completamente finita na sua essência, não pode… Ela é fria. Ela não é dinâmica. Você termina um negócio, ele está pronto. Como assim? Está pronto? Nada na vida fica pronto. Comida estraga, carro quebra. Tudo é dinâmico. As coisas não podem estar prontas. E o que Lost, na realidade, faz – e várias outras séries – é expandir para além da tela, usando a tela, mas expandindo para além dela, religando essa tela com aquela tela, com aquela outra e não sei o quê, criando várias janelas para esse outro mundo. E a possibilidade de que a fita nunca está pronta. Ela nunca está decodificada por completa, resolvida.
Essa idéia de que não existe obra acabada também reforça aquela minha teoria sobre o museu não como acervo, mas como processo. Porque, se você é acervo, você pode dizer: “Não. Você precisa tombar isso aqui”. Se você é processo, você não pode tombar isso aqui. É vivo. Agora, pensa bem. pensa na sociedade e pensa na enorme gama de possibilidades narrativas que você tem no momento em que você se livra da cultura material. A língua, a imaginação – isso pode ser objeto de museu. A criatividade, o trabalho, o dinheiro – n coisas que existem dentro da sociedade poderiam ser objetos de experiências coletivas, ecumênicas, para você entendê-las, entender melhor e refletir a sociedade. Basta você se livrar… Porque, por exemplo, um museu sobre o dinheiro pode ser interessantíssimo, mas um museu de numismática é um saco. Você se livra da cultura material e você abre uma janela interpretativa gigante.





