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abril 17, 2008

O Espaço da Imaginação

Entrevistinha (hehe) que eu fiz com o Marcello Dantas, o cara que inventou o Museu da Língua Portuguesa, pra Audi Magazine.

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O criador do Museu da Língua Portuguesa Marcello Dantas fala sobre o papel da tecnologia em nossas vidas e como o Brasil pode usá-la para se estabelecer relevância global no século vinte e um

Entre o laptop e o smartphone, Marcello Dantas prefere o papel e a caneta para acompanhá-lo durante a entrevista. Ele está sob um agradável caramanchão na parte posterior de sua arejada casa nos Jardins, em São Paulo, ele rabisca à medida em que desenvolve conceitos e racionaliza abstrações, tudo para trazer suas idéias para o papel, mas é um caminho de duas mãos, pois logo ele está sendo específico e enumerando exemplos, gesticulando amplamente para dar dimensões ao que está escrito no papel. É disso que ele entende: transformar conceitos em espaços.

Foi assim que começou a mexer com vídeo experimental nos anos 80, numa época em que "fazer vídeo" convergia vanguarda artística e status social (áreas habitadas atualmente pela toy art, pelo grafitti, pela internet e pelo DJ). Contemporâneo da geração Olhar Eletrônico (produtora que lançou nomes como Marcelo Tas e Fernando Meirelles), ele logo abandonou o vídeo por sua limitação espacial - a tela pedia para ir além. Passou a experimentar as artes plásticas num sentido mais amplo e, quando menos percebeu, curava museus. Seu trabalho mais popular e aplaudido é o Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em São Paulo no ano passado, em que convida as pessoas a "entrarem" na língua, atravessando páginas, palavras e fonemas em instalações que compõem uma grande obra de arte - o próprio museu.

Por isso, em vez de falar dos trunfos e feitos de Dantas no passado - eles estão todos fichados em seu site pessoal www.magnetoscopio.com.br -, melhor deixa-lo divagar sobre o museu como a nova catedral, o papel da tecnologia na história da humanidade e a oportunidade que o Brasil tem no novo desenho geopolítico do século 21. Um cachorro passa por debaixo da mesa, um gato pula sobre a cadeira para acompanhar o papo e Marcello segue rabiscando esquemas para traduzir uma versão imersiva de um universo em expansão, o da imaginação.

Antes de começarmos a falar sobre arte e tecnologia, queria que você começasse fazendo uma separação conceitual entre tecnologia e eletrônica. São duas coisas bem…
Bem diferentes. Tecnologia é uma coisa umbilical na história da humanidade e entender essa história da tecnologia é entender, por exemplo, do nascimento do fogo ou os primeiros usos das tintas nas paredes para gravuras rupestres e pinturas rupestres. Tecnologia é anterior ao próprio conceito de história. É a história da evolução do homem.
Obviamente que a face mais visível da palavra "tecnologia" são as últimas tecnologias, o high-tech. O high-tech é o ponto da vulnerabilidade da tecnologia. É a hora em que a tecnologia ainda não está pronta, por isso que ela é assunto. Depois que a tecnologia fica pronta, ela se torna invisível. Você pára de pensar nela. Essa é a boa tecnologia.
A tecnologia que funciona é aquela em que você não pensa. Cadeira é uma puta tecnologia que resolveu mil coisas no mundo e você não pensa nela. Você está sentado em cima dela, mas não pensa.
Por outro lado, tem uma questão nisso, que é por isso que me interesso tanto pela tecnologia, é que eu acho que o homem perde tecnologias através da história. A gente vai abandonando tecnologias e perde potenciais criativos associados a coisas que a gente não sabe mais como fazer porque a gente muda o padrão tecnológico para um outro padrão e você não sabe mais como resolver. Hoje, por exemplo, todo o universo das máquinas analógicas, que há tão pouco tempo – quinze, vinte anos atrás – eram absolutamente correntes, a gente já não sabe mais como resolver, como construir, como reinventar. Bom, separando isso, quer dizer, a tecnologia visível versus a invisível – a visível, aquela que não funciona o que está na beira, está trepidando, quase funcionando, e a invisível, aquela que é muito boa. Também vamos falar de arte então, para complementar essa coisa, já que você relacionou as duas palavras.
Arte é uma tecnologia. Através dos tempos, se você for olhar da Vinci, Michelangelo, lá atrás, a invenção da perspectiva, os grandes artistas eram os artistas que estavam inovando exatamente nesses territórios. Fazer um domo, como é que pinta isso aqui de uma maneira tal … A própria questão de como a imagem se comporta, as cores – o artista tem a coisa do domínio da técnica. E para mim não existe arte tecnológica. Existe boa e má arte.
O maior problema é que toda má arte que não sabe como se intitular, ela se protege sob um guarda-chuva de se chamar de tecnológica. E aí você começa a ver uma porrada de coisas que são má arte em qualquer mídia e colocando esse label para se proteger… “É que eu estou lidando com a borda da tecnologia.” Por isso que não funciona, é feio, é ruim, não envolve. É uma desculpa. Quando você vê boa arte, tecnológica ou não, ela te encanta. Esse é o papel dela: te envolver, te chamar a atenção, te ligar para algum outro lado.

Fazendo um paralelo com isso que você falou, a boa arte também é invisível, não é?
Sim. O melhor truque da boa arte é a invisibilidade. Acabei de curar a exposição de Anish Kapoor. Uma das melhores obras na exposição, na minha opinião, é uma obra que você não consegue vê-la. Ela desaparece na tua frente. Quando você está de frente para ela, ela não existe. É uma parede branca. Quando você vai virando de costas, ela se revela com a sua protuberância, com todo seu charme e aí se torna poderosa. Então, tentar definir as coisas como, sabe, isso é tecnológico, não vale para mim. Ou você me ganha pelo que a coisa é ou não me ganha.
Complementando uma coisa que você falou, sobre a diferença entre tecnológico e eletrônico. Existe uma coisa que mudou no mundo nos últimos tempos, que é a era digital. A era digital é um remapeador de relações sociais, de trabalho, humanas... Tudo. Tudo foi enfiado dentro desse liquidificador e passou a ter outros valores, pesos, medidas. Outras coisas foram esquecidas, outras foram levantadas. Essa, que é uma transformação de comportamento, é uma transformação de mobilidade, é uma transformação de comunicabilidade – tudo isso – e…

Principalmente de hierarquia também, né?
Tudo é colocado… O grande poder da tecnologia é uma oportunidade de reorganização de valores, ponto. Ela, o tempo todo, diz: “Opa! Status quo desafiado! Xeque! Reposicione-se!” O status quo tem que se reposicionar. Às vezes fica igual, às vezes fica diferente.

No sentido que você falou que a arte também é tecnologia, então, quando o artista questiona, ele não está simplesmente questionando com valores estéticos ou artísticos, mas também tecnológicos.
Sim. A tecnologia é um grande motivador para a arte. Por outro lado tem o: “como é que eu vou conseguir fazer uma coisa legal com isso e ao mesmo tempo não ser vítima disso? Não ser dominado por isso?” Esse é o twist. Esses dias eu ouvi uma frase muito boa: “My work gets better the more I take myself out of it” (“meu trabalho melhora à medida em que eu me retiro dele”). Vai contra toda uma filosofia de uma arte autobiográfica das pessoas. Na verdade, tem toda uma tendência na arte contemporânea de ser profundamente assim: “É o meu diário, é a minha vida, minhas vísceras!”. Me lembrei de uma frase de Bill Viola. Ele é um mestre nisso até, nessa relação de arte e tecnologia: “It’s not what I want the work to be. Artistry is listening to what the work wants to be”. (“Não é o que eu quero que a obra seja. Arte é ouvir o que a obra quer ser”)
O digital realmente mudou foram as dinâmicas de jogo da sociedade. A sociedade sempre é um jogo e ela coloca outras questões completamente diferentes. Você vê: um trabalho como esse negócio da caveira de Damien Hirst, que foi vendida por 100 milhões de dólares, a caveira não tem a menor importância, nem os diamantes. O que está aqui é um jogo. É um jogo que aquela caveira passa a simbolizar dentro da sociedade como um todo. Passou a ser uma coisa muito mais de natureza política do que qualquer outra coisa.
Então você vai lá e cria. “Tá bom, eu vou fazer um negócio que só de diamante tem 30 milhões de libras aqui dentro. Vamos ver quem vai botar o pau na mesa”. E você gera e agrega um valor. E, na realidade, houve toda uma inquietação em torno disso que você iria ter um artista vivo produzindo uma obra que vale mais que o Van Gogh mais caro. O Van Gogh mais caro acho que custou 87 milhões de dólares. Esse chegaria a 100, sendo que tudo que está fazendo é uma puta de uma picaretagem.

Ele está jogando na cara das pessoas.
E as pessoas assinam o cheque. Se articularam, compraram pedaços do negócio. Acho isso quite impressive para revelar um pouco da loucura da gente… Ao mesmo tempo é muito legal quando você vê o que é o jogo.

Pois é. E nessa mudança do jogo que a gente está passando, voltando aí ao tema que você falou, da invisibilidade, tem outra questão que é crucial nessa época que a gente está vivendo que é a questão da transparência. Quanto mais claro você é nos seus objetivos, nas suas metas, melhor você se comunica e melhor você consegue viver nesse novo jogo.
É muito bom você usar esse paralelo. Muito bom isso entre transparência e invisibilidade porque, de certa forma, a transparência é uma invisibilidade para transformar as coisas invisíveis em visíveis. Elas estão completamente ligadas, ou seja…

O rei está nu.
O rei está nu, mas “o rei está nu” é uma frase de awareness, não é uma frase de, assim: “eu sei que o rei está nu; não estou vendo o rei nu”. A transparência é um processo de tirar a cobertura, deixar visível, e a invisibilidade é aquilo que está invisível, mas é palpável. Invisibilidade não é ausência. É presença invisível. Quando você pensa em tecnologia, você pensa em coisas. Eu estava folheando esta revista de carros: boa parte das melhores e mais inovadoras tecnologias dos carros são completamente invisíveis. Quando realmente as pessoas viram um airbag explodir na sua cara, um freio com ABS? Onde é que está isso no carro? É um software em algum lugar, um sensor em um outro lugar, um não-sei-o-quê e tudo mais, mas você acredita. Controle de tração… Um monte de coisas que as pessoas agregam, que são coisas que dizem respeito ao behavior, às vezes fundamental – segurança, dirigibilidade tudo mais –, mas que não são palpáveis.
E, por outro lado, eles podem funcionar apenas como adereço e aí o carro é a roupa do rei. Você não está comprando um carro com freio ABS, com tração tal… Simplesmente, você está comprando uma segurança que essas coisas teoricamente trazem, como a história do próprio airbag. Você não quer ver o airbag explodindo na sua frente e você acha que, na hora que você precisar, ele vai explodir.

E, provavelmente, em boa parte dos carros o airbag nunca precisou ser usado.
Pois é. E se, por acaso, não explodir? Você comprou um carro, pagou pelo airbag e rolou o acidente e não explodiu. Valeu pagar isso? Puxando um pouco mais e saindo um pouco do papo só de consumidor e falando dessa relação de arte e cultura e tecnologia e tal, como é que eu posso falar isso? Essa coisa da transparência – tipo, isso está acontecendo a nível de governos, a nível de…

As instituições estão se mostrando cada vez as verdadeiras intenções das…
Sim, governanças corporativas.

E quando a gente vai para a arte, a gente encontra o artista usando a arte como um escudo para as pessoas não entrarem na obra dele. E aí o cara tem todo um discurso pronto ao redor do “Você não entendeu”. O cidadão entra num museu, e se não entende aquilo, é por não ter condições intelectuais...
Aí entrou na minha especialidade. O museu é hoje a catedral dos nossos tempos. Ele é a coisa que todas as pessoas confluem para ali porque é o lugar onde a sociedade constrói um museu simbolicamente.

Achei que fosse o shopping.
O shopping tem uma diferença enorme, pois eles lutam entre si. O museu converge, o shopping separa. Tem shopping de rico e shopping de pobre. O museu tem uma coisa, principalmente no Brasil, que é bastante diagonal na sociedade. Primeiro, 50% do público é criança. Se você fosse fazer um museu só para gente rica – e existem alguns assim - mas a média de visitações seria baixa. Se você quer fazer o museu ser mass medium, você tem que falar com todo mundo, todo o espectro da sociedade. Então você pega o Museu da Língua Portuguesa que eu fiz é uma coisa que é visitada por classe E, D, C, B e A. E AAA. Porque ele é essa catedral ecumênica da sociedade. Aqui recebemos a todos. E você aceita isso. Você, sendo classe AA, ainda aceita a idéia de que num museu, tudo bem. No seu shopping, não. No seu clube, não. No seu restaurante, não, mas num museu, tudo bem. Eu posso me encontrar com as outras classes ali. Por isso que eu digo que ali é a catedral do nosso tempo. É um lugar onde todos vamos rezar por uma coisa em comum que a gente entende que aquilo ali não é multiplicável. Não posso ter um lá e outro cá. Tem que ser aquele; vai ter que ser daquele jeito.
Pensar um novo museu esbarra em várias questões, uma delas é a questão de que não foram construídos acervos e talvez a nossa sociedade, a nossa cultura contemporânea, não precise e nem possa ser contada através de acervos. Ela precisa ser contada através de processos, sistemas, coisas mais vivas porque, quando você fala de uma coisa como a língua, qual é o acervo? É um monte de livros? Será que é isso que é a língua? Não é. Língua é muito mais do que literatura. Literatura é apenas uma faceta da língua. A língua é um aspecto de relacionamento social gigantesco. A língua é a grande herança de uma sociedade. A língua é uma coisa que a mãe dá para o filho emprestado, para que ele dê para seu outro filho. Essa é a mágica da língua. Você pode não ensinar nada para seu filho, mas você o ensina a falar. Isso é um instrumento fundamental. E ele quer falar porque ele quer falar com você. Então essa é a troca e é uma coisa superbacana.
Mas quando você fala dessa leitura, quer dizer, você precisa gerar processos. Processos são situações dinâmicas imersivas que você precise botar a pessoa dentro de uma coisa outra, inteira. A tecnologia é uma grande amiga para isso. Ela é isso. Ela contém dentro dela movimento, dinâmica, vida. A segunda camada depois de processos é que existe um hábito – isso não é só da arte, isso é de toda a cultura acadêmica, ou cultura erudita – de cifrar, cifrar tudo para não soe acessível. Então por que você escreve F. Schubert e não Franz Schubert? Por que você escreve Die Walküre e não As Valquírias? Por que você não aproxima? Por que você não conta a história daquilo? As pessoas presumem que todo mundo sabe tudo, o que é uma balela.
O sistema educacional global completamente negligencia a formação cultural. O sistema educacional é voltado para atender meia dúzia de coisas que visam sempre uma porra de um vestibular, um acesso a uma faculdade. Mas formação cultural é uma coisa muito pouco elaborada dentro da escola. E qual é a escola que realmente ensina Mozart? Qual é a escola que realmente ensina quem foram os grandes mestres da pintura? Não é feito isso de verdade. É porque não tem professor preparado para isso. Começa por aí. E não é curricular etc.
O papel de quem faz museus hoje é pegar essa pessoa pela mão e, com todo carinho, não ficar explicando quem foi Beltrano, Sicrano, mas entrar direto do que é o código, aquilo que tem que pegar na pele, aquilo que tem que ter esse valor. Essa é a diferença eu acho no que eu vejo no papel do museu. Muita gente vê o museu um lugar para você guardar um monte de coisas. Então tem um monte de coisas que foram importantes um dia, vamos guardar lá no museu – “coisa de museu”. Esse é o pior sentido da palavra “museu” para mim. “Museu”, para mim, é “templo de musas”. Essa é a verdadeira definição da palavra: templo das musas. E, como tal, é o lugar onde a gente vai buscar o quê? O que é uma musa? Musa é inspiração. É algo que te ilumine, que você saia de lá, “Putz! Fiquei com vontade de fazer alguma outra coisa da minha vida”. A vida precisa fazer mais sentido do que comer, pagar, receber. Sabe, ela precisa trazer alguma outra transcendência.

Mais uma vez a alusão à catedral.
Ou seja, “Me dá, pelo amor de Deus, alguma transcendência!”.

E aí, na hora em que o cara chega no museu e o museu não dá isso?
Isso é missa em latim, entendeu? Exatamente o mesmo fenômeno que aconteceu com a Igreja…

Opressor.
O cara fica lá: “Blá-blá-blá”. Ninguém entende porra nenhuma.

Mas todo mundo respeita…
Respeita porque tem que respeitar, né? Porque, pelo amor de Deus, quem sou eu? E acha lindo e não sei o quê, mas na real não tocou ninguém. Aquelas palavras passaram direto pela cabeça. Eu quero falar com o menino de rua, com o drogado, com a alta sociedade, com todo mundo. Se 50% das pessoas que visitam museu são crianças, eu tenho uma outra certeza que na outra metade aqui, tem crianças dentro dos 50% dessas outras pessoas também.

O lado lúdico.
Existe um elemento lúdico que comunica com todo mundo. E a outra coisa é dar à pessoa autonomia. Você se entrega a uma experiência e você é explorador desse espaço. Isso é, acho que é a linguagem que eu defendo todos os dias.

O Brasil tem uma característica que eu entendo como um privilégio – não só o Brasil, mas vários outros países em desenvolvimento – nessa época, nessa transição do industrial para o eletrônico, que é o fato de não ser um país com a matriz escrita sólida na formação. Grosseiramente, a gente pode estar falando que a gente vai pular a era escrita, saindo da era oral para a era eletrônica. Eu queria que você falasse um pouco disso: se você concorda com isso…
A primeira coisa aqui é o seguinte. quando a gente fala do conceito de alfabetização, o Brasil tem um paradoxo muito interessante. Eu não sei quais os índices oficiais, mas devemos pensar em outra alfabetização, a alfabetização em mídia, que é a capacidade de você decodificar mídia. Isso não é nativo do ser humano. Isso é uma coisa desenvolvida. A primeira vez em que você vê uma imagem, você tem um nível de aceitação. Tem aquela história clássica dos russos, que eles achavam que quando viam uma cena de uma mão – um detalhe, um close-up – achavam que aquela mão tinha sido amputada. As pessoas tinham esse tipo de questão com o imaginário, mas era possível se desenvolver uma cultura audiovisual para entender e decupá-la.
A alfabetização em mídia é uma coisa que o Brasil está lá no topo da pirâmide. O brasileiro tem uma cultura audiovisual e tem uma unidade lingüística e uma unidade de interpretação audiovisual como poucos lugares do mundo. Então, de fato, a gente tem uma deficiência que é a alfabetização formal, e a gente tem uma compensação, que é uma enorme capacidade de entender mídia. Isso se revela como uma oportunidade de linguagem, não como uma deficiência. Ou seja, se é essa a língua que eu tenho que falar para poder me comunicar, vamos usá-la. E ela funciona diagonalmente na sociedade. Não é que exista, no topo da pirâmide social brasileira, exista alguma restrição à linguagem audiovisual. É a mesma questão. Ela ocorre de norte a sul, leste a oeste, integra o país. De certa forma, somos um país da cultura televisiva. Isso, sim, está no imaginário de tudo mundo. Entra de uma forma muito especial. Não vamos tirar mérito disso. Ao contrário, vamos usar isso a nosso favor.
Agora, muitas vezes dizem: “Ah! Marcello vai fazer uma Disneylândia”. Desde que você me permita inocular nas pessoas uma dose de conteúdo relevante, está ótimo. Eu vou usar a gramática que for mais adequada. Eu sei fazer uma coisa completamente sóbria e sei fazer uma coisa completamente, profundamente lúdica se for necessário. Mas o importante, para mim, é que eu contenha ali dentro uma oportunidade de chegar para você e dizer: “Putz! Aqui tem algo novo para você aprender”. O problema, na realidade, de uma linguagem assim, totalmente eletrônica – totalmente – é quando ela não carrega nenhum conteúdo dentro dela.

Como qualquer problema de qualquer linguagem.
O Domingão do Faustão poderia ser um programa interessantíssimo. Mas como é que você faz para você ser relevante? Porque hoje o mundo é uma relação de sinal-ruído. E o índice de sinal está aqui e o do ruído está aqui (gesticula). Está do lado. E só o que importa da sociedade é a distância entre o sinal e o ruído. Isso aqui é a cognição. Se eu ligar agora uma britadeira aqui do lado, a gente perde completamente a cognição porque eu subi o nível de ruído de tal forma que eu perdi a capacidade de entender aquilo que você está dizendo. Filosoficamente, é a mesma coisa. Ou seja, tem um monte de balela sendo dita para todo lado e meia dúzia de coisas boas. Como é que eu separo esse joio do trigo e como é que você consegue comunicar para o outro que o teu é a coisa boa mesmo? Esse é o desafio.
Assim, uma coisa curiosa: esses dias fiz uma grande exposição para a RBS sobre a história da comunicação. Foi um puta sucesso. E a primeira coisa que eu falei para eles – e eles demoraram para entender isso – foi: “Vocês têm que se interpretar como um órgão poluidor do meio ambiente”. “Como assim? Poluidor do meio ambiente, nós? Nós fazemos rádio, televisão, não sei o quê…”

Justamente!
É (ri). São profundamente poluidores do meio ambiente – da cabeça das pessoas, dos sons das cidades, das freqüências de rádio… E eu falei: “Bom, nós vamos fazer uma exposição. Tudo bem que a gente vai poluir ainda mais a cabeça das pessoas, mas eu quero colocar uma coisa nessa exposição. Eu quero uma sala de silêncio. Uma puta sala enorme, um chunk grande da exposição que não vai acontecer nada”. Aí falaram: “Não! Mas que coisa estranha! As pessoas vão até lá para fazer o quê? Não sei o quê lá…” “É, é isso mesmo. Vão entrar e vão ter a oportunidade de fazer um pouco de nada.” Que é o quê? É tentar reduzir a produção de ruído para que o sinal possa se tornar relevante. Isso é uma estratégia mesmo. Fale baixo para ser ouvido.

Isso que você falou do brasileiro, da matriz da linguagem brasileira ser a televisão. Não sei se é exatamente isso, mas, enfim, tem outra coisa que é típica do brasileiro em relação ao novo como um todo que é a aceitação.
Ah, total!

Por conta disso, eu digo, toda a fama do Brasil de ser, de receber bem as pessoas como…
Novidadeiro.

Pois é. Ele gosta de tudo…
Gosta de novidade. Se você for fazer um paralelo entre o Brasil e a França, a França é um país que tudo aquilo que o cidadão faz tende a ser uma maneira de preservar e de ser conservador. Ele não quer mudar. Ele quer a baguete debaixo do braço. E quem empurra a inovação na França é o governo. É muito louco. Quer dizer, o governo é o grande fomentador da inovação – da nova arquitetura, do novo cinema – porque o francês, ele é, na sua essência, conservador. Ele acha que todo dia que nasce é um dia que você está pior do que o anterior. Essa é a posição default do francês. É lógico que existem exceções, mas esse pessimismo é imbuído nele.
O brasileiro é exatamente o contrário. Ele acorda de manhã, ele acha: “Putz! Como é que vai melhorar?” Eu construí o início da minha vida profissional fora do Brasil e poderia ter continuado lá, mas decidi vir para cá por um motivo muito simples. Porque aqui tem muita coisa a fazer. Vai fazer muita diferença estar aqui versus que no resto do mundo as coisas já estão mais ou menos solidificadas e se firmando. Hoje eu estou trabalhando muito pelo mundo afora até de volta, mas depois de ter tempo de desenvolver uma linguagem aqui que é muito pautada por essa demanda do brasileiro de ver a cosia de uma maneira nova. Isso é muito engraçado.
Fiz a Arte da África há alguns anos – uma exposição que é recorde de público no Brasil: mais de um milhão de pessoas – e os alemães viram aquilo que era um acervo que já tinham há mais de 100 anos lá, exposto e que ninguém dava importância devida, eles me chamaram para ir fazer lá aquilo que a gente tinha feito aqui, porque eles sentiram que o Brasil conseguiu iluminar aquelas coisas, dar uma nova leitura para aquilo que as enobreceu tremendamente. O que é isso? Essa iluminada ansiedade do brasileiro pela descoberta, pelo novo.
Tem uma coisa muito engraçada. Quer dizer, quando você pensa que o Brasil é um país que foi descoberto. A gente usa essa palavra, o “descobrimento” do Brasil, como uma coisa celebratória, positiva e tudo mais, o que eu acho que é mesmo, porque o momento do encontro de culturas e nasce uma nação e tudo mais. A gente passa a ter embutida dentro da nossa cabeça a idéia de que descobrir, ou seja, tirar a cobertura de algo, nesse sentido puro da palavra…

É bom.
É bom. A gente gosta de descobrir, de desembalar, de abrir presente. Esse fenômeno mágico da descoberta é algo que a gente interpreta totalmente diferente.

Queria que você falasse sobre a distância entre o real e o virtual, que parece estar deixando de existir.
A gente cruzou a fronteira do negócio. Acaba com essa merda. não tem lá e cá. É tudo aqui mesmo, entendeu? Mesmo porque, normalmente, as grandes verdades estão dentro das mentiras. A verdadeira verdade está embutida. Qual é a razão daquela mentira? A razão daquela mentira explica a verdade que estava invisível de certa forma. E a mesma coisa vale para o real e o virtual. Quer dizer, aquilo que se espelha no virtual, no fundo, é a verdadeira vocação e essência do real por mais que não seja factual.
As oportunidades desta revolução tecnológica no short run são pequenas por causa disso. Não sei se você se lembra o que Bill Clinton e Al Gore plantaram em 1992, 93, para os EUA, foi um conceito de Information Superhighway, que não era a internet. A internet já existia. Eles não venderam a internet. Eles venderam um outro conceito, de pegar e esclarecer grandes linhas de comunicação de dados. Era uma outra idéia, completamente diferente. Só que veio a internet… “Ah, quem vai pagar essa National Information Infrastructure?” Nunca foi feito esse projeto. Eu acho isso fascinante. Eles são creditados por uma coisa que nunca foi executada porque, simultaneamente, o cara falou: “Que mané esse troço! Porra nenhuma! Vamos habilitando a Internet aqui. Põe um nó aqui, põe um nó ali, põe um nó”. Quando você viu, já estava feito. A auto-estrada da informação que foi pensada nunca foi construída. Ela foi feita por estradas vicinais – um monte delas. Que é a beleza do negócio. E a gente chegou lá do mesmo jeito.

Que é a história do Luís Bonaparte na hora que ele cria as grandes avenidas que a gente conhece hoje. Ele cria avenidas que dão acesso a pontos-chaves de Paris para que o exército conseguisse deslocar com facilidade. Graças à não-existência dessas avenidas foi que a Revolução Francesa aconteceu, porque existia um monte de becos e vielas que só povo conhecia. O exército não sabia agir. Então a Information Superhighway é essa avenida para o exército passar. Só que, tipo…
Só que a guerrilha é muito mais eficaz. É que nem os americanos. Chegaram no Iraque em um mês. Agora quero ver sair de lá (ri)! Estão há cinco anos tentando encontrar o caminho para sair, entendeu? Chega!

Há uma relação entre a criação de tecnologias de ponta e a ficção científica em que um grupo sempre se inspira no outro – ao ponto em que os próprios cientistas estão se tornando artistas e vice-versa.
É verdade, é verdade. Eu acho que o grande desafio hoje não é nem tecnológico. É científico. Porque na ciência pura há uma série de novos conceitos que não dizem respeito a máquinas, e sim a idéias que podem ser modelos sociais, econômicos, genéticos, comportamentais e tudo mais, que te permitem reentender o mundo. O que a genética está fazendo pela a pré-história é impressionante. Há uma possibilidade de você reescrever a história. O problema da história é que a história sempre é dos vencedores. Eu acabei de lidar com isso com a história de Portugal. Em Portugal foram 500 anos de presença islâmica, 500 anos de fé islâmica naquele território. Você abre um livro de história de Portugal, tem três páginas sobre esse período. Ou seja, a história é sempre a história dos vencedores. Mesmo na história da ciência, ela é uma história dos experimentos que dão certo, sendo que a gente tem mais a aprender sobre as coisas que deram errado do que pelo senso comum daquelas que deram certo. Estudar as coisas que deram errado e a história dos perdedores faz a gente entender muito mais sobre o mundo. Mesmo porque os ganhadores são alguns poucos. Então, quando você olha para trás e é capaz de reanalisar o passado sob um ponto de vista do top da ciência, isso te permite redefinir quem você é e a gente entender que tipo de raízes que a gente de fato tem. Recontar a história. E a outra coisa é a ciência como talvez um certo desafio de penetrar dentro do funcionamento da mente humana. Essa talvez seja a última fronteira mesmo. É impressionante o quão pouco a gente sabe sobre isso.

Sobre o cérebro.
Você vê Oliver Sacks, figura fascinante, trabalhando para tentar entender, pela disfunções – isso que eu acho fascinante: todas as disfunções cerebrais –, para poder entender como o troço funciona e como isso não é fisiológico. É uma outra coisa. Essa ciência, toda a neurociência, no fundo, é uma ciência de 30 anos. É muito jovem.

E já se subdividiu em mil áreas…
O que torna a existência interessante é essa máquina aqui. Senão a gente estaria comendo grama. O que torna a coisa é tudo que isso traz junto. E… Por que a gente falou disso?

Estava falando do papel do cientista como artista.
Oliver Sacks, para mim, é o melhor exemplo disso. É um puta artista e um puta cientista. O cara está na fronteira do conhecimento, indo lá na borda, tentando entender como a coisa funciona e interpretando aquilo e dando aquilo para milhões. Outra coisa que eu acho que é fundamental. Isso, sim, é: a ciência, hoje, ela precisa escoar para a sociedade. Ela precisa encontrar uma maneira para se legitimizar se introduzindo de uma maneira simplificada na sociedade como um todo. Pessoas como Carl Sagan, pessoas como Oliver Sacks, pessoas como o Marcelo Gleiser, Richard Dawkins... São as pessoas, hoje, que acho que são as mais fundamentais. São as pessoas que são capazes de – ou Stephen Pinker – ir lá na ponta e traduzir. Não adianta cifrar, voltando àquele assunto que a gente estava falando. Ou seja, o mérito é traduzir. Me dá a complexidade do conceito, me arruma um jeito de contar isso para que minha mãe entenda, para que minha tia entenda.

É, e as pessoas entendem, porque daí, saindo dos cientistas e indo para a ficção, a gente tem Dan Brown, Michael Crichton – uma série de autores, principalmente nos EUA e na Europa, que estão dispostos a apresentar universos complexos, a trazer temas teoricamente eruditos ou científicos demais para um púbico e se tornam best-sellers porque as pessoas estão aptas a receber isso. A complexidade da capacidade de absorção aumentou muito. Eu gosto muito de comparar isso quando a gente fala de televisão, de videogame ou de cinema. Você pega uma pessoa dos anos 70 e mostra algo como Quero Ser John Malkovich ou Matrix ou Lost ou 24 Horas e ela simplesmente não vai acompanhar. Ela não tem capacidade…
De decodificar.

A arquitetura de informação.
Ou arquitetura de entretenimento, arquitetura de narrativa. Acho que isso é básico. Assim, uma das coisas que mais me frustrou em vídeo – eu amei vídeo durante muitos anos e depois eu larguei completamente; eu o uso como tool dentro do que eu faço – era que, uma: a vida não pode se resumir ao que se passa numa tela. A percepção explode. Eu estou neutralizando coisa demais. Tem muita coisa acontecendo. E a outra é a sensação de que a fita, que é uma coisa completamente finita na sua essência, não pode… Ela é fria. Ela não é dinâmica. Você termina um negócio, ele está pronto. Como assim? Está pronto? Nada na vida fica pronto. Comida estraga, carro quebra. Tudo é dinâmico. As coisas não podem estar prontas. E o que Lost, na realidade, faz – e várias outras séries – é expandir para além da tela, usando a tela, mas expandindo para além dela, religando essa tela com aquela tela, com aquela outra e não sei o quê, criando várias janelas para esse outro mundo. E a possibilidade de que a fita nunca está pronta. Ela nunca está decodificada por completa, resolvida.
Essa idéia de que não existe obra acabada também reforça aquela minha teoria sobre o museu não como acervo, mas como processo. Porque, se você é acervo, você pode dizer: “Não. Você precisa tombar isso aqui”. Se você é processo, você não pode tombar isso aqui. É vivo. Agora, pensa bem. pensa na sociedade e pensa na enorme gama de possibilidades narrativas que você tem no momento em que você se livra da cultura material. A língua, a imaginação – isso pode ser objeto de museu. A criatividade, o trabalho, o dinheiro – n coisas que existem dentro da sociedade poderiam ser objetos de experiências coletivas, ecumênicas, para você entendê-las, entender melhor e refletir a sociedade. Basta você se livrar… Porque, por exemplo, um museu sobre o dinheiro pode ser interessantíssimo, mas um museu de numismática é um saco. Você se livra da cultura material e você abre uma janela interpretativa gigante.

março 20, 2008

Gentebonitamania!

Estreamos coluninha no Guia da Semana - e lembrando que sabadão tem festa!

***

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As festas andavam muito chatas em São Paulo. A cidade havia passado por um renascimento noturno inacreditável na virada do século. Quem passou pelos anos 90 pela cidade se restringia a casas que fechavam rapidamente, a três ou quatro estabelecimentos na Vila Madalena (dois deles, a Torre e o Matrix, ainda sobrevivem), o Lov.e e mais uma ou outra. Mas a partir do ano 2000 uma série de novas casas noturnas e festas trouxeram todo rebuliço noturno para a região central da cidade, ativando células de diversão na Augusta e suas transversais, em Higienópolis, na Barra Funda e no centro da cidade. Mas aos poucos a boa fase dava espaço à estagnação.

Cada lugar tinha uma trilha sonora específica, algumas das principais festas da cidade podiam ser resumidas em uma tribo, um estilo musical ou uma certa faixa etária e os DJs tocavam as mesmas músicas na mesma ordem. Tocavam nada, tocam até hoje. Foi quando, à medida que puxávamos o fio da meada dos mashups, resolvemos fazer nossa própria festa.

E assim a Gente Bonita começou em setembro de 2006, primeiro no Bar Treze, em Higienópolis, depois passando pelo Áudio Delicatessen, Clash, Vegas e Praga, onde estamos desde dezembro do ano passado. A idéia, a princípio, era fazer uma festa só de mashup, esse gênero musical que mistura duas ou mais músicas em uma mesma faixa. Queríamos brincar com o paradoxo de ser uma festa de gênero de algo que pode incluir todos os gêneros, mas percebemos que ouvir mashup durante toda a noite é tarefa para poucos, ao mesmo tempo em que perde-se um dos principais atrativos da modalidade de remix: a surpresa.

Daí expandimos o conceito da festa para toda a história da música feita para dançar. Fazemos uma equação entre as melhores músicas do mundo - os hits, aquelas músicas que todo mundo conhece e sabe cantar - e músicas boas para dançar, independente de serem conhecidas ou não. A idéia é se divertir, não é simplesmente ouvir música. Estamos fazendo uma festa que não achávamos em São Paulo - uma que una diversão, música boa, gente disposta a se esbaldar de dançar e vontade de se pegar. Porque essa é um dos motivos que fazem as pessoas saírem, né? Não precisa nem se pegar de verdade, o importante é ficar aquele climão saudável, deixado qualquer aproximação mais facilitada, qualquer papo furado plausível. O nome da festa não tem Clima de Paquera como subtítulo por outro motivo - ele é fundamental.

Hoje a Gente Bonita já passou por Brasília, duas vezes por Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e Floripa - sempre contagiando o público com essa atmosfera sonora alto astral. Por isso, não espere gênero musical, hits do passado, músicas de outros países. Não espere nada - tudo pode acontecer.

Top 10 - Gente Bonita

"Lucky Boy (Outlines Remix)" - Dj Mehdi
"Merry Making at My Place" - Calvin Harris
"Menina Mulher da Pele Preta" - Jorge Ben
"D.A.N.C.E." - Justice
"Time to Get Away" - LCD Soundsystem
"Gravity´s Rainbow (Soulwax Remix)" - Klaxons
"W.A.Y.U.H."- The Rapture
"Homecoming" - Teenagers
"Sweet Jane" - Velvet Underground
"Walking in the Sun" - Smash Mouth
"Seed 2.0" - Roots
"Lança Perfume" - Rita Lee
"Gimme More" - Britney Spears
"Head On" - Jesus & Mary Chain
"Sending All My Love" - Linear
"L.A. Woman" - Doors
"Rehab" - Amy Winehouse
"Rock With You" - Michael Jackson
"Easy Love" - MSTRKRFT
"Let´s Make Love and Listen Death from Above" - Cansei de Ser Sexy
"Divine" - Sebastien Tellier

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Quem é o colunista: Gente Bonita (Luciano Kalatalo & Alexandre Matias), 33 anos, dupla 100% Brasila, entidade onipresente em qualquer situação de bem estar e a melhor festa itinerante do Brasil.
O que faz: Bon vivantismo em forma de doutrina, excitação sonora on the rocks, especialista em químicas do corpo, divulgador do movimento "músicas boas para dançar" e a uma noite inesquecível.
Top 10 :
Pista cheia
Praia com sol
Taxi
Hype Machine
Gatas ao Redor
Ser Bem Pago para Se Fazer Só o Que Se Gosta
Acordar tarde
Hidromassagem
Se ela dança eu danço
Frutos do mar
Pecado gastronômico: Psy
Melhor lugar do Brasil: O colo da amada.
Fale com ele: gentebonita@gentebonita.org

outubro 10, 2007

"Toda Realidade é Virtual"

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O Mini desenterrou uma entrevista que ele fez em 2002 com o Lama Padma Santem, pra Play, a revista que eu editava... Sente o drama:

Um mestre budista. Sereno, vivendo no meio do mato, em uma casa simples, totalmente desconectado do agitado dia-a-dia mundano. Em busca da paz de espírito através do silêncio e do isolamento. Sério. Silencioso. Impassível. Todos esses clichês se derretem implacavelmente quando entro em uma das salas do Centro de Estudos Budistas Bodisatva e dou de cara com o Lama Padma Samten sentado ao lado de um aluno que o ajuda a fazer a transferência dos arquivos de seu antigo laptop Compaq para o novo Toshiba. Ele me mostra o problema: uma faixa preta atravessa o monitor do Compaq e atrapalha a leitura. O conserto demora cerca de trinta dias e o Lama Samten não pode ficar tanto tempo sem uma de suas principais ferramentas de trabalho. Ele brinca, falando com seu ex-laptop.

"Por que você fez isso comigo? Agora eu tive que te trocar."

Levamos a vida como uma espécie de realidade virtual. Criamos cenários mentais de acordo com nossas experiências e fazemos de tudo para que o mundo ao redor corresponda a esses cenários. Se isso não se verifica, o que ocorre com freqüência, há um choque. Como quando vemos um mestre em meditação – uma arte de cinco mil anos – às voltas com problemas tecnológicos bem atuais. Mas o Lama Padma Samten é assim. Um enigma ambulante, produto de vivências aparentemente tão díspares quanto a física quântica, a ioga e o cooperativismo rural.

Eu disse aparentemente. A vida de Alfredo Aveline, nome de batismo do Lama, é a prova de que a interconectividade é iminente no planeta Terra. A convergência de mídias a que assistimos, a instantaneidade na transmissão dos fatos ao redor do globo, a permanente vigilância a qual estamos sendo submetidos, tudo isso nada mais é do que a manifestação material de processos mentais que ocorrem dentro de nós mesmos. Aos 53 anos, o Lama Samten já percorreu mais caminhos do que podemos imaginar. Caminhos internos e externos. Materiais e mentais. De físico estudioso do processo cognitivo a líder de comunidade alternativa no interior do Rio Grande do Sul, de cientista a religioso, o Lama desafia pessoalmente a lógica que julgamos reger o universo.

De volta ao laptop. As cores parecem saltar do novo monitor, cada pixel envia luz artificial ao rosto do Lama. É a magia da tecnologia invadindo um local, de certa maneira sagrado, que apresenta imagens nas paredes e caixas de livros budistas por todos os cantos. A poucos metros, está a sala de meditação, um espaço amplo e colorido onde o Lama Samten dá seus ensinamentos e conduz retiros. O Centro fica em um sítio em Viamão, cidade vizinha de Porto Alegre. Sãos duas casas onde se distribuem a sala de meditação, os aposentos do Lama, cozinha, banheiros e quartos de outras pessoas que moram lá. Ainda há um terceiro prédio em construção que virá a ser um grande templo, assim que mais recursos chegarem por intermédio de doações, venda de livros ou ensinamentos do Lama.

A zoeira urbana de Porto Alegre dá lugar a uma sinfonia rural de grilos e outros animais. Sons de teclas pressionadas, de um CD-ROM sendo ejetado e murmúrios contra uma instalação malsucedida são mixados à trilha bucólica: é o chill out do novo século. Então, o Lama Samten levanta e deixa seu aluno com a missão de fazer funcionar o Toshiba para me atender numa sala ao lado.

Conversamos, observados por tangkas, pinturas à mão feitas em tecido com imagens de entidades budistas. Acomodamo-nos e começo com a pergunta básica. Lama Samten foi físico antes de lama. O que ligou áreas de conhecimento consideradas tão distantes?

"Desde jovem, eu tinha várias áreas de interesse. Uma era a questão da natureza da realidade e a espiritualidade. Eu praticava ioga desde adolescente, sozinho, sem professor. Também tinha uma espécie de envolvimento com as condições sociais e ambientais. Como eram assuntos que até então não se tocavam, percebi que havia um esgotamento aí. Tudo estava convergindo para um modo de vida diferente. Uma mudança efetiva deveria acontecer. Nessa época saí da universidade, passei dois anos e meio em uma comunidade criada por mim onde a gente testou várias idéias. Idéias ecológicas, idéias de organização social, idéias de sistemas de produção e também junto à espiritualidade e à exploração da questão cognitiva da natureza da realidade".

Natureza da realidade. Este é um termo muito citado pelo Lama Samten. É o cerne do budismo vajraiana, uma das linhagens budistas. Enquanto o theravada enfoca a remoção de obstáculos através da superação das dificuldades particulares e o mahaiana busca a libertação através do benefício a outros seres, o vajraiana apóia-se na investigação minuciosa e honesta da mente humana. Não com tomografias computadorizadas, mas baseando-se na premissa de que o observador de uma experiência é sempre parte dela. Uma viagem interna tão radical quanto qualquer jogo de realidade virtual.

"O que aconteceu nessa comunidade, nesse período, foi eu perceber a grande profundidade do pensamento budista e como ele poderia me levar além dos paradigmas usuais da ciência. Resumindo, me dei conta de que o cientista pode até perceber o fato de que a realidade para a qual ele olha é inseparável da realidade que ele tem dentro, porém, está sempre mais preocupado com a realidade que está fora, porque é assim que ele faz sua busca. Vai sempre olhar o que está fora. Quando me deparei com esta questão do dentro-fora, vi que o espaço interno é muito maior do que o externo. Foi nesse momento que fundei o Centro de Estudos Budistas Bodisatva e propus ao Departamento de Filosofia da UFRGS, e mais tarde ao Departamento de Física, a criação de uma disciplina que tratasse desses elementos ligados à cognição, à compreensão do saber, de como nós sabemos, como nós aprendemos e entendemos, mas especialmente de como nós nos enganamos. Tratando dessas questões, de qual é o erro do cientista, porque os cientistas comprovam experimentalmente suas teorias e mesmo assim elas mudam. É espantoso, porque elas são comprovadas experimentalmente mas, mesmo assim, mudam, não perduram".

A entrevista segue assim. Minhas perguntas anotadas são esquecidas perante a eloqüência não-cartesiana do Lama. Cada frase puxa um novo assunto ou uma outra abordagem. É o hipertexto da fala. E a metáfora vem à minha cabeça não como mero recurso literário: as palavras dele parecem realmente abrir novas janelas a cada clique mental.

"Perceba que hoje estamos há 77 anos do surgimento da visão complementar que foi exposta por Niels Bohr na Itália, numa época em que os cientistas mais importantes do mundo cabiam todos em uma única sala. Estavam reunidos ali para resolver como pacificar os fenômenos experimentais com as visões teóricas no que diz respeito à física atômica e à física quântica. A noção complementar do Bohr é uma visão cognitiva filosófica sobre os eventos científicos na qual o observador deixa de ser neutro e passa a ser visto como alguém que interfere de forma muito poderosa na realidade. Isso dito assim pode parecer muito estranho ainda, porque nós temos uma noção de que somos neutros, de que nós apenas olhamos! O fato é que o observador não é neutro porque quando ele olha, tem uma experiência de realidade. Então, a primeira etapa para a compreensão disso é dizer: ´em vez de eu ver a realidade, tenho uma experiência de realidade´. Tem uma diferença muito grande entre nós trabalharmos com a noção de realidade externa e termos uma experiência de realidade externa. Essa transição é muito importante para que possamos compreender a física quântica, a ciência, o aspecto cognitivo e também os aspectos mais sofisticados do budismo. O que nós vemos é inseparável das estruturas de expectativas dentro de nós. O que nós vemos fora espelha a paisagem mental que temos dentro. Num sentido budista, é muito importante notarmos isso porque podemos usar a noção de paisagem mental. Assim, construímos uma paisagem mental através da qual nos relacionamos com o mundo. A própria comunicação entre as pessoas só é possível se elas tiverem partes de suas paisagens mentais em superposição, caso contrário elas não se entendem, mesmo que estejam falando português".

A conexão espiritualidade-ciência levou-me a fazer uma breve pesquisa e esbarrei em informações sobre o Spiritual Robots Symposium, realizado em abril de 2000. Antes que você imagine uma convenção de malucos estilo trekker, devo sublinhar que o evento foi organizado pelo respeitado professor de ciência da cognição Douglas Hofstader – e ele não precisou contar com rapazes de orelhas do Spock para participar. Pôde ter à mão figuras representativas no meio tecnológico e científico como John Holland, inventor dos algoritmos genéticos e pioneiro na área de inteligência artificial. Há possibilidade de surgir, no futuro, uma espiritualidade nos seres de inteligência artificial?

"Se as máquinas chegarem ao ponto de sofrerem como resultado de sua operação mental, certamente. Por outro lado, cuidado. A mente não é um circuito elétrico. A mente no budismo não é o cérebro ou o circuito neural. A mente não tem nem localização espacial, nem existência tangível. Só a mente enlouquece e só ela verdadeiramente manifesta a consciência espiritual ilimitada. Para as máquinas terem vida espiritual é necessário que nelas se manifeste a mente no sentido amplo, que ultrapassa sua arquitetura de silício e metal."

Robôs, com alma, desenvolvendo carma?

"Por enquanto, há apenas muitas projeções. Mas um ponto nodal já foi encontrado. Ele se chama processo cognitivo. O problema é realmente experimentarmos isso. Talvez agora, 77 anos depois de Niels Bohr, estejamos nos preparando para compreender isso e colocar essas noções no nosso cotidiano. Vemos isso já acontecendo no fato de que hoje somos mais tolerantes em relação ao comportamento de pessoas diferentes. Eu me comporto assim, você não precisa fazer como eu, você tem uma vida interessante. Isso é bom. Estamos aprendendo que não existe um padrão. Ainda temos uma herança do passado de achar que deveríamos ter padrões mentais, ser de um certo tipo. Mas hoje nós já acreditamos que eu posso fazer de um certo jeito e aquilo ser bom para mim. Mas a outra pessoa pode fazer de um outro jeito e aquilo ser bom para ela. E tudo bem. E, às vezes, acreditamos que quando a outra pessoa é diferente, olhamos para ela e aquilo enriquece a nossa vida. E nós não precisamos pensar que devemos ser como o outro. Então isso já é socialmente um efeito dessa visão complementar. Niels Bohr usa esta palavra, ‘complementaridade’’".

Sim, você leu certo. Essa espécie de tolerância que há hoje, muito mais do que há 50 anos, não é papo riponga ,mas pura física quântica aplicada ao dia-a-dia. Então me lembro de um outro exemplo: Matrix. Um produto cultural de massa que explorou a noção de realidade relativa. Será que filmes como esse podem despertar o interesse das pessoas no estudo da natureza da realidade?

"Acredito que sim. Observe que o tema da inseparatividade surge ao final quando Neo, após morrer, retorna para derrotar os agentes, mergulhando dentro deles. Essa capacidade é a própria inseparatividade se manifestando. Enquanto ser separado, Neo foi derrotado. Mas na inseparatividade não pôde mais ser alcançado pelos agentes que operam em nível separativo".

Não é segredo para ninguém que a ficção científica dos irmãos Wachovski bebeu galões de antigas doutrinas orientais e de certos aspectos da física moderna. Embora com bem menos brilho heróico ou hype do que o salvador Neo, o Lama Samten também tem por missão ajudar as pessoas a remover o véu que encobre a verdadeira natureza da realidade. Diferente da solução proposta por Morpheus, a saída aqui não é tão fácil quanto tomar uma pílula. Meditações, leituras e retiros são enfatizados no treinamento budista. Mas isso não invalida as novidades tecnológicas como aliadas. A tecnologia pode ajudar na melhoria espiritual dos seres, mas como?

"Esta pergunta é muito complexa, pois qualquer resposta pode ser contestada. A tecnologia pode ajudar, mas nem por isso é indispensável. Assim, sempre que apontarmos algo, virá uma outra forma de pensar e tudo ficará obscuro. Ainda com essa dificuldade, é necessário perceber que a tecnologia faz parte da nossa vida no ponto exato onde estamos. Sendo assim, ao ajustarmos a nossa motivação para acelerarmos o caminho espiritual, entre nossos instrumentos naturais surgirá a tecnologia e também seus desenvolvimentos futuros. Do mesmo modo que no passado, evoluímos de corpos de peixes para bípedes, hoje nossos corpos incluem a tecnologia. Sem a tecnologia a raça humana se reduziria rapidamente a 1% da população atual. Ainda assim, o ponto de estrangulamento agora é a questão de levar os benefícios atuais a todos os que necessitam e não permitir que o desenvolvimento de novos modos de vida venham a destruir o equilíbrio do ambiente".

Algumas pessoas que jogam videogame dizem que entram em certos estados meditativos. O que você pensa disso?

"Quando a pessoa joga, ela se transfere para dentro daquela realidade. Ela está em corpo, fala e mente naquela realidade. Não é um estado meditativo no sentido de calma, de profunidade, de compreensão da natureza da realidade. Mas eventualmente uma outra realidade brota por inteiro e a pessoa se transfere para aquela paisagem."

E isso poderia ser um gancho para observar a natureza da realidade e aprendermos a escapar da nossa realidade virtual?

"Sim. Lá em Salvador nós temos um centro budista que fica no Shopping Aeroclube. Há uma loja de artigos budistas no térreo e em cima uma sala de meditação. Às vezes eu brinco que o verdadeiro templo não está ali, mas ao lado, na loja de jogos eletrônicos, porque ela oferece uma experiência direta: a pessoa está passando pelo shopping. Olha pra dentro da loja. Gera uma aspiração para se transferir para um daqueles mundos particulares - tem alguém ali andando de avião, outro dirigindo um automóvel, outro escalando montanhas, outro defendendo o planeta Terra frente a invasores... daí a pessoa escolhe a realidade. Quando senta, coloca a moeda e aquilo começa a funcionar, ela se transfere em corpo, fala e mente ali pra dentro. Em corpo porque todas as ações do corpo dela dizem respeito ao que ela está vendo na tela. Em fala porque as emoções acompanham aquela paisagem e em mente porque a mente está inteiramente ocupada em olhar todas as nuances das situações e a reagir da maneira mais completa possível. Então quando a pessoa está dentro daquilo, ela não sabe mais que está no shopping. Não sabe se a esposa ficou na porta, se os filhos estão sei lá onde, se o pai está em casa, se amanhã tem prova de matemática. A pessoa se transferiu para uma outra realidade. E assim pode ter uma noção mais clara do que significa estar numa realidade, ter um experiência de realidade. Então quando ela estiver na escola, na prova de matemática, ela também tem que estar assim. Se ela quiser ter sucesso em alguma coisa, vai ter que colocar corpo, fala e mente naquilo. Por que os garotos não aprendem direito matemática? Porque não tem a mente ali, só tem o corpo. Não tem nem a emoção e nem a mente ali. Então, um ambiente como esse pode fornecer essa experiência tão clara. Ela pode treinar, entender a sua vida como um treinamento de colocar junto o corpo coerentemente com as suas emoções, coerentemente com a sua posição de mente."

O que mais a tecnologia pode oferecer a um budista?

"A minha vida, por exemplo, é interessante a partir do uso da tecnologia. Eu estou me dando conta que manter um escritório físico do CEBB pode não ser uma boa idéia. Porque, por exemplo, as transcrições dos meus ensinamentos têm sido feitas na Suíça. Tem uma brasileira naturalizada suíça que é minha aluna. Ela talvez seja a minha aluna mais assídua e vive na Suíça. Ela é aeromoça, vem seguido, então nós estamos constantemente trabalhando. A maior parte dos textos que foram transcritos e estão virando livros ou circulando na sanga para estudo vem dela. Por outro lado, ela está trabalhando com uma pessoa que também transcreve e corrige que está em Curitiba. Eu também utilizo uma pessoa em Porto Alegre que faz a edição final dos textos que serão publicados em São Paulo. As passagens aéreas, as transações bancárias, é tudo feito de qualquer lugar. O meu contador é de Salvador. Por mais que seja antigo, o termo que me vem à mente é aldeia global. Nós estamos vivendo esses tempos tão fantásticos."

O próprio budismo sai ganhando com isso também. Quando os chineses invadiram violentamente o Tibet na década de 50 e começaram um processo tortuoso de destruição da cultura tibetana, não imaginaram que na verdade estavam dando um grande empurrão para que os 84 mil métodos de Buda se espalhassem pelo globo.

"Os ensinamentos estão sendo traduzidos em várias partes do mundo e disponíveis na intenet. Coisa que nunca aconteceu. E nós vamos vendo os comentários, os lamas colocando suas considerações na rede. A divulgação de eventos também ficou muito mais fácil. Mas, por exemplo, eu não uso celular. Eu poderia, mas o celular interrompe a vida da gente."

No número 2 da Play, uma matéria contava que em cientistas criaram o primeiro circuito de silício vivo em Munique. Pergunto ao lama se haverá alguma "facilidade tecnológica" para a meditação com isso.

"Quando ligarem os neurônios a chips, teremos mais hardware. E a iluminação se dá a nível de software. Nossa mente é um software que tem a capacidade da adaptar-se a diferentes hardwares e de auto transformar-se. Agora, como se vê, dispõe também do poder de mudar e expandir o hardware como quiser. Pelos comandos elétricos, o próprio corpo foi sendo criado pelo software-mente, que se desenvolveu junto. A iluminação está ligada a um processo ainda mais básico: é quando o software decide que suas funções de auto-indulgência e auto-satisfação e proteção não são mais o foco. Ele decide 'morrer' enquanto identidade e reintegra-se, abandona-se na confiança à natureza básica e luminosa que o produziu e o sustenta. Somos como que robôs autoconscientes e auto-sustentados que enlouquecem através de seus circuitos de satisfação vazia e de proteção também vazia. A iluminação é o retorno à realidade."

Para alguns, essas idéias todas soam como uma espécie de nova visão mágica do mundo. Antigamente, o que o poderia salvar o homem eram poções ou oferendas para os céus. Hoje, as pessoas estão sempre esperando respostas e soluções das máquinas. A tecnologia pode ser considerada a nova magia?

"A magia é muito mais profunda do que a tecnologia. Eventualmente aceito que as pessoas possam desenvolver apego e expectativas com respeito à tecnologia como, no passado, desenvolveram com respeito a rituais e processos mágicos. Ainda assim é necessário considerar que a magia opera na dimensão da inseparatividade enquanto que a tecnologia opera na separatividade. A magia opera a nível causal sutil, a tecnologia opera a nível causal grosseiro. A meditação budista busca superar a ambos manifestando a liberação dos processos causais pelo repouso da mente em sua natureza e essência ilimitados."

Uma frase do Lama Samtem me vem à mente: "O fluxo do progresso, bem ou mal, representa a ansiedade das pessoas, aquilo que elas pensam que precisam." Então como podemos fazer com que haja progresso tecnológico sem ser produzido por essa ansiedade e sem gerar ainda mais ansiedade?

"Não há efetivamente contradição entre a tecnologia e o progresso espiritual. Aliás, a tecnologia pode ser um excelente aliado ao progresso espiritual, oferecendo melhores condições para os praticantes e permitindo um número muito maior de pessoas acessar os ensinamentos e praticá-los, e prolongando e tornando mais saudável a vida. É apenas uma questão de motivação. Se nossa motivação for trazer benefícios reais a nós e aos outros seres, proteger nossa vida e a dos outros seres e chegar a felicidade e às causas da felicidade, a tecnologia pode nos ajudar, porque não? Por outro lado, adicionalmente, se quisermos chegar a iluminação, tendo esta motivação central, a tecnologia pode também nos auxiliar perifericamente. Eu mesmo acredito que meu notebook tem sido essencial para que eu possa ajudar e manter-me próximo de muitos praticantes."

agosto 2, 2007

Nós e a tecnologia

O Rraurl faz 10 anos e me pediram pra levar uns doces pra festa. Ei-los.

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RRAURL 10 ANOS: Nós e a tecnologia

Em 1997, eu era editor de arte do Diário do Povo, em Campinas, e quando falaram em criar uma versão online para o jornal, me meti no meio do processo. "Natural que quem tinha feito o projeto gráfico novo do jornal também fizesse o projeto gráfico do site", argumentava, mas eu queria mesmo era entender melhor o que era a tal da rede. Me deparei com ela pela primeira vez no ano em que entrei na Unicamp, em 1993, quando fui ler os tais manifestos eletrônicos do Subcomandante Marcos e acompanhar uma lista de discussão dos Beastie Boys. O estranhamento inicial foi dando lugar ao deslumbre que segue até hoje - são pessoas que estão do outro lado do computador, por mais que elas finjam-se sérias ou não.

Daí ao mesmo tempo em que o Camilo começava a colocar o rraurl.com em pé com uns amigos - a própria Gaía eu só fui conhecer de verdade em 2003, quando a chamei para escrever para a Play -, eu estava erguendo a versão web do jornal em que eu trabalhava. A cumplicidade virtual se firmou quando criamos sites de brincadeira, fanzines eletrônicos, com dois bróders: o Camilo juntou-se ao Tomate (Emerson Gasperin, facilitando pros pesquisadores) e fez o site The Bambas e eu me juntei com o Abonico Rycardo Smith (que depois seguiu com a brincadeira com sua revista online Bacana) pra fazer o 1999. A internet facilitava a colaboração e, principalmente, a descoberta de gente interessante e inteligente, e agilizava a velocidade da comunicação que já existia nas ruas, por telefone ou cartas anos antes.

O próprio Camilo eu já conhecia à distância. Lia a Bizz na virada dos 80 pros 90 e lá ele tinha uma coluna sobre dance music. O papo com o sujeito começou ali, embora até então só ele falava - não escrevia carta pra revista nem morava em São Paulo (sou de Brasília, tá me estranhando?). Fui conhece-lo propriamente em 95, quando ele havia acabado de voltar da Inglaterra e discotecava numa festa em Jundiaí em que também tocaria os meus compadres do Burt Reynolds - uma banda que, anos depois, daria origem ao núcleo de festas Colors (pra você ver o tamanho do mundo). O cara ainda usava uma cabeleira hippie e tocava trance, um som que, comentei com o Ricardo Alexandre (outro broder presente naquela noite, que mais tarde pilotaria a última encarnação da Bizz), me soou parente das trilhas sonoras do Globo Repórter, naqueles closes do feto ainda no útero.

UNIVERSOS PARTICULARES
Mas em pouco tempo estávamos construindo cada um seu universo particular na internet, editando um trecho da vida que mais lhe interessava para atrair pessoas que tivessem algo em comum - e aos poucos um colaborando no veículo que o outro editava. Tou citando o Camilo pelo simples motivo de ele ser o editor do Rraurl e ter me chamado pra escrever esse texto. Podia citar dezenas (centenas?) de amigos, colegas e conhecidos que começaram seu pequeno nicho na internet assim que ela se mostrou possível, todos colaborando uns com os outros, todos inspirando uns aos outros.

Você provavelmente fez seu livro, site, banda, festival, programa de rádio, blog, exposição, espetáculo, software, evento nos últimos dez anos ou desfrutou de algumas destas pirações indiividuais que encontraram na rede uma espécie de estímulo para a auto-estima. Se antes o mercado dizia "não" para 10 entre 10 moleques que mandavam cartas pedindo para escrever na Bizz, depois da internet esses caras começaram a se publicar por conta própria. E os mesmos "não" que o mainstream dizia para qualquer delírio pessoal com cara de possibilidade transformava-se em "sim" para quem realmente queria fazer algo.

Eu mesmo comecei experimentando. Em 1997, o Trabalho Sujo já existia há dois anos, mas apenas sua versão em papel. Como estava fazendo o site do jornal, dei um jeito de colocar uma versão online para o Trabalho Sujo. O endereço direto, sem entrar nos frames era algo como www.diariodopovo.com.br/suplemen/trabsujo/index.html. E a reação foi simultânea. Bastou colocar o site na internet pro jornal começar a ser vendido nas bancas da Paulista, no domingo. Haviam pessoas que sabiam que o jornal existia e que a coluna era impressa - e não apenas virtual - num jornal em Campinas e que esse jornal podia ser comprado em algumas bancas da Paulista!

Gente de todos os estados do Brasil, de diferentes faixas etárias e relações com a música. Essas pessoas aos poucos me escreviam - o correio eletrônico desinibia a sisudez que a palavra escrita na caneta parecia carregar - e me indicavam bandas, shows, fanzines, sites. O contato com o leitor tornou-se instantâneo (finja ouvir aqui o "ô-ou" do ICQ) e muitos deles se tornaram meus colaboradores - fora os grandes amigos que criei basicamente devido à internet.

RASTROS VIRTUAIS
E essa é a tal revolução eletrônica que estamos vivendo neste exato momento. É o que nos faz filosofar sobre "a utilidade do Orkut", por exemplo. É como se estivéssemos olhando só para o telefone sem perceber que ele é capaz de fazer uma ligação. Sites, layouts, slogans, marcas e logotipos são apenas fachadas para pessoas que precisam se encontrar. Motivos para isso é o que não faltam. Nossa sociedade se isolou demais fisicamente uns dos outros - cercas elétricas, condomínios, vidro fumê - e é na internet que passamos a viver nossa rede de relacionamentos sociais. Muitos podem fazer cara feia e dizerem-se alheios à rede, mas usam aparelhos de telefone celular ou o sistema financeiro internacional. Cartão de débito, email, SMS - estamos deixando rastros virtuais sobre nossa existência numa enorme rede de contatos instantâneos ("ô-ou", de novo).

Mas acabamos encontrando gente nova no caminho. Não é que a rede tenha substituído a rua. Ela apenas acelerou um processo que até então empacava na distância entre as cidades e países, entre a teoria e a prática, o querer e o fazer. De mínimos contatos como uma troca de cartões, uma compra online, uma ligação pra dizer "estou chegando" ou o adicionar de uma banda em seu MySpace - estamos produzindo conteúdo e indicando o que realmente queremos o tempo todo, sem muitas vezes percebermos isso.

Sim, os computadores estão mais potentes, a rede está mais rápida, as conexões mais instantâneas, os HDs maiores. Sim, o celular tende a diminuir ainda mais e a ficar mais barato. O mesmo vai acontecer com as telas de cristal líquido, as câmeras, os laptops, os portáteis como um todo. Daqui a dez anos consumiremos em suportes que ainda não existem, nas mangas da camisa ou na parte de dentro das lentes de contato, vai saber. Mas tudo isso só facilita as coisas. As tornam mais rápidas, eficazes, precisas. O ponto central ainda é a aproximação das pessoas. Por mais que possamos baixar hoje um filme que só vai estrear nos EUA daqui a um mês ou que o videofone seja uma realidade (ou não é?), isso tudo é acessório perto da grande revolução eletrônica - que não termina na tela, e sim, do outro lado dela.
Vamo lá.

maio 4, 2007

Mequetrefe

Tudo pronto pro Skolba? Se eu fosse você, saía de casa tipo umas cinco da madruga pra pegar o sol nascendo e a apresentação de uma das melhores coisas que acontecem na música hoje, a dupla MSTRKRFT ("mequetrefe", para os iniciados). Eu vou cobrir, então não tenho desses luxos. Mas garanto que é um programão - mesmo porque na hora em que você chegar, os cambistas devem estar rasgando os ingressos que sobraram de raiva e você acha baratinho, baratinho... Abaixo, um textinho que eu escrevi no ano passado pra Void, que o Cardoso edita lá no Rio Grande, sobre os caras e tinha esquecido de por aqui. Faça esse favor a você mesmo.

***

A dupla canadense das consoantes ("Materkraft" pra quem ainda tá colocando as vogais na cabeça) é uma das melhores coisas do ano – senão "a" melhor – e isso num ano com ótimas notícias. Vai aí uma listinha com cinco MP3s que os sujeitos botaram a mão no meio – e deixaram com a cara de 2006.

"Woman (MSTRKRFT Remix)" – Wolfmother

Pegaram a equação Led Zeppelin + Ozzy do grupo australiano, limparam a gordura, meteram umas palminhas, deixaram o baixo segurando tudo e a guitarra, em loop, virou quase discoteca de branco. O vocal deixa como no original (fora uma digitalizadazinha Cher de leve, no refrão), afinal, é pro povo rock reconhecer quando tiver dançando.

"Monster Hospital (MSTRKRFT Remix)" – Metric

Mantrinha no vocal do começo dá cara de black music, mas quando o resto do instrumental entra estamos no mesmo território do New Order – aquele electro limpo e asséptico, de um azedume branco que permite-se à vã melancolia. E o vocal original deixa de ser soul para ser só indie dance. É como se Aretha Franklin se metamorfoseasse em Shirley Manson (ela mesma, um mashup de personalidades) na frente dos seus ouvidos.

"Got Love to Kill (MSTRKRFT Remix)" – Juliette Lewis & the Licks

Lembra de como era Juliette Lewis quando você se apaixonou por ela (vocês também, meninas, nem venham com essa agora)? Sim, ali entre "Cabo do Medo" e "Assassinos por Natureza" ela ainda era uma Jodie Foster versão fêmea, aquele ninfetismo desenfreado misturado com a pura psicose rock'n'roll. Já perdemos as vezes em que ela revisitou essa persona (Strange Days, com essa banda nova), mas o fato de ela não orbitar ao redor dos vinte anos estilhaça um pouco a candura original. Mas nesse remix… Ela parece que acabou de completar 18. Como dizem os Trouques – "Barely Legal". (O vídeo é da versão pura, antes do remix)

"Rock Steady (MSTRKRFT Remix)" – All Saints

Sim, All Saints, aquelas Spice Girls para as meninas que acham que ler TPM ou Marie Claire é um saco e que a Capricho, mesmo menina, ainda fala mais a língua delas. Aí os caras pegam o beat, três frases descoladas de uma música pop apenas normal e o negócio vira ISSO. Marteladas sintéticas de um rolo compressor de magnética pura atordoando as têmporas até o beat anos 80 encaixar com o loop de "look in my eyes-eyes-eyes…" e você ficar pensando nesses olhos que dá pra ficar olhando até o infinito… (Outro vídeo com a música original, o remix tá no linque).

"Sexy Results (MSTRKRFT Edition)" - Death from Above 1979

Hino Gente Bonita, essa é uma música que resume o gênero musical dos mequetrefes - meio techno, meio big beat, meio house, meio electro, mas com uma pegada pop imprescindível por cima de tudo. E o refrão resume o espírito da dupla. Com eles, não tem erro.

"Community Revolution in Progress" – MSTRKRFT
Pesadelo. Uma muralha de som desaba em câmera lenta e, de alguma forma, com ritmo. O vocoder é o feitor nesta senzala de ritmo que se transforma a pista, todos escravos ao groove militarista e incansável dos quase seis minutos que a banda não colocou em seu disco de estréia – The Looks – e só em seu MySpace (não mais, eles tiraram, e essa foi a única que eu não encontrei o vídeo, mas de brinde vai essa aí embaixo).


"Street Justice" - MSTRKRFT
'Another killing on the dance floor!"


"Easy Love" - MSTRKRFT
"Whenever you want me,
Whenever you need me,
If you wanna love me,
Baby I'm easy"

***

E aí, vai ou não vai?

abril 27, 2007

Nona parada - Porto Alegre

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Ponto final, Porto Alegre. E o papo acontece no pequeno Elo Perdido, daqui a meia hora, comigo, com o Ferla, o Edu Santos da Ipanema FM e o DJ Primo. E ainda tem uma jam com uma galera local - Piá, Lika, Nitro D, etc.

Onde: Elo Perdido Rua João Alfredo, 533 – Cidade Baixa. Horário: 20h00

Bora lá? Pra encerrar, vai...

abril 25, 2007

Oitava parada - São Paulo

Tá quase no fim: a penúltima rola hoje aqui na Babilônia, e tem show do Maquinado, a banda do Lucio Maia (da Nação) e discotecagens do Camilo Rocha e do Rodrigo Nuts. Na mesa, eu converso com Lucio, Camilo e Rodrigo. Na faixa, malandragem.

Onde: Clash - Rua Barra Funda, 969 – Barra Funda. Horário: 20h00

Simba!

abril 17, 2007

Sétima parada - Campinas

Hoje o pitstop é aqui do lado, em Campinas, na Sala, a casa nova da Eli do Lov.e, que tá aos poucos ressuscitando a cena eletrônica da cidade. Além dela, o cantor Bruno Morais e o produtor Gui Boratto participam da mesa. E vamo ver se dá tempo de pegar o Lee Perry na volta!

Onde: Sala. Rua Sampaio Ferraz, 581. Horário: 20h00

E São Paulo é na semana que vem, behold!

abril 12, 2007

Sexta parada - Brasília

De volta à terrinha, agora a InfoSession (que vai rolar de novo na Torre, com "aquele" visual...) acontece na minha querida capital federal, com os DJs Quizzik e The Six, e a dupla de produtores Click Box (era pra ser o Gui Boratto, mas rolou uma confusão e ele não pôde vir - em compensação, em Campinas, dia 17, ele vai).

Onde: Torre de Televisão - Salão Panorâmico Horário: 20h00

E teoricamente depois da Session, uma galera vai emendar em outro lugar, esticando a naite até a hora em que ela vira dia. Mas aí é por sua conta e risco...

abril 10, 2007

Quinta parada - Goiânia

Hoje a caravana passa por Goiânia, e na mesa temos o DJ Quizzik, o Fabrício Nobre da Monstro e o DJ Evol. Tá aqui? Vam'lá. É free.

Onde: Centro Cultural Oscar Niemeyer. Go 020 – Goiânia. Horário: 20h00

E, a propósito, não teremos Curitiba, como perguntou o anônimo. Não dessa vez, da próxima...

abril 4, 2007

Quarta parada - Recife

O papo agora é na capital pernambucana - CRANDE Recifa - e BNegão, Fred Zeroquatro, H.D. Mabuse, Guga de Castro, Marcelo Lobato e a cantora Isaar sentam nos sofás do evento. Depois, Fred, Isaar e BNegão emendam uma jam session com o DJ Big e vai saber o que acontece mais tarde...

Onde: Rua Alexandrino Martins Rodrigues, 218. Boa Viagem. Horário: 20h00

Bora?

março 30, 2007

Terceira Parada - Fortaleza

Mais uma InfoSession, desta vez na minha querida capital cearense, terra de um terço da minha infância e adolescência. O papo dessa sexta tem a Karine Alexandrino e, de novo, BNegão e Guga de Castro que emenda sua festa Farra na Casa Alheia em seguida ao evento...

Onde: Endereço: Rua Dragão do Mar, 80 (Centro Cultural Dragão do Mar). Horário: 20h00

Se aprochegue.

janeiro 30, 2007

Cinco Perguntas Simples: Felippe Llerena

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Na verdade, a partir do momento que a música se tornou um bem intangível ela já perdeu o suporte, pois o CD era o "armazenador" de música oficial, e os walkmans da vida, e o CD player era o "reprodutor" de áudio. Na medida que os "reprodutores" e os "armazenadores" se tornaram o mesmo, o suporte físico, tal qual conhecemos, deixar de existir. De certa maneira, música sempre vai precisar de algum hardware para ser reproduzido, ainda que a música em si possa ser transportada por vias eletrônicas, portanto de certa maneira o suporte físico continua existindo na media que necessitamos de um local para armazenar a musica, o que se traduz no HD do computador que tem um player virtual ou o MP3 Player - pois jamais teremos como fugir da armazenagem - portanto o CD ainda será um otimo armazenador de música e ainda deverá ser por muitos anos, mesmo que seja para fazer backup - mas o modelo CD ->fabrica -> loja -> consumidor -este está com os dias contados sim...

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
A música já é consumida hoje atraves de outros meios que não são levados ao consumidor através do CD e sim através do cinema, do videogame, da televisão, pela internet por meios digitais atraves de serviços de venda a la carte – como o iMusica e o iTunes – ou por assinatura via "all you can eat" - este modelo já existe - se deixar de pagar o mês seguinte, as músicas caducam e deixam de ser reproduzidas - mas temos é que fazer os jurídicos, autores, artistas e tecnologistas se falarem mais pragmaticamente para encontrarem um modelo comercial que agrade a todos, pois acredito que música deveria passar a ser considerado que nem sistema de encanamento de água de casa – você paga uma conta mensal e tem água à vontade, quase de graça. Mas se quiser uma Evian, vais pagar mais por isto.
Existem outras suposições e possibilidades, que a música poderá ser paga por algum patrocinador, mas no fim das contas o que vale é a música sob demanda. O perigo é que se a conta não for paga, o artista vai deixar de ter alguém para pagar a inspiração, uma vez que para gerar demanda, ainda necessitamos da oferta e isto é gerado a partir do marketing e nisto as gravadoras ainda detém este know how melhor que ninguém. Direção artística, por mais que artistas dizem que gravadora não serve mais para nada, quem melhor sabe adequar um artista a repertório é quem sempre fez isto no dia-a dia - e se matarmos este modelos, tal qual se desenha hoje, vamos ter que pensar em novas fórmulas de criar demanda de novas obras.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
De passar por todos os barracos e saber o que não queremos e escolher o que queremos a partir do esvaziamento da mídia de massa para mídia individual. O acesso à informação e tecnologia mudou o modelo econômico. O ser humano mudou seu comportamento de acordo com as evoluções tecnológicas, nada do que está acontecendo é novidade, mas o difícil esta sendo assimilar.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Praticamente todos desconhecidos maravilhosos. Não recebemos mais demo tapes pelo correio e sim um link. Também ao mesmo tempo passamos a conhecer um universo de musicas muito ruins devido a facilidade de acesso a gravação e não-dicernimento artístico. A incógnita: como fazer isto gerar receitas?
Outro fator muito interessante é que passei a conhecer melhor artistas de antigamente através destas tecnologias novas também. Acho mais fácil eu vir a me interessar por projetos gravados em outrora do que assimilar as novidades atuais, pois hoje para se criar referência é muito complicado e quando ela se realiza a gente passa batido, sabendo que foi gerada a partir de sonoridades e musicas de outros tempos, porque são referências de vida. Hoje fazer estourar um artista parecer ser muito mais fácil, mas já que a massificação na rádio não fortalece mais do jeito que era antes. Ou seja, antigamente mesmo que a música nao fosse tão boa ela era assimilada e consumida pela carência de vários canais de divulgação e pela maciça quantidade de inserções, mas hoje o que é bom, é bom na hora e isto se propaga rápid. Novamente, mudança de comportamento.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Sim, com a facilidade de acesso a tecnologia e gravação, podemos focar em música ao mesmo tempo em que você vira parceiro do artista. Antigamente isto não existiria, pois todo o custo era somente da gravadora. Sonho mesmo será conseguir usufruir destas tecnologias e fazer a música brasileira bombar no resto do mundo.

Felippe Llerena é fundador do iMúsica.

janeiro 27, 2007

O que você está ouvindo

Materinha pra Simples que tá na banca, sobre os sites Pandora e Last.fm

***
Qual é a música?

Last.fm e Pandora são sites, rádios online, agregadores de conteúdo, comunidades online ou sistemas de recomendação de música? Conheça a nova geração de players da indústria musical

A crise na indústria da música, já deu pra perceber, não é tão generalizada quanto parece. Na verdade, um segmento sofre mais do que outros. São as gravadoras de disco que, depois da digitalização da música nos anos 80, lentamente vem perdendo poder, uma vez que seu principal bem – a capacidade de levar música em discos (seja de vinil ou de plástico) por todo o planeta – tornou-se irrelevante quando a equação “música digital + banda larga” começou a atingir níveis mais populares – e incluir mais gente neste processo.

A derrocada das grandes gravadoras multinacionais tem a ver com a má administração destas empresas nas últimas décadas (quando, em vez de investir em catálogos para o futuro, diretores regionais apostaram em sucessos instantâneos que ninguém quer ouvir dez anos depois), mas está mais ligada à mudança de paradigma básica que veio em decorrência à popularização da web, no começo dos anos 90: de que ninguém mais vai determinar, de forma tão vertical e autoritária quanto antes, o gosto do mercado. Cada vez mais as pessoas se tornam conscientes de seu papel não apenas como consumidor final (o sujeito que fica no fim do funil da indústria, esperando receber coisas) mas também como agente desta mesma indústria da música. E, assim, o papel das gravadoras, de “atravessador musical” – aquele sujeito que diz que música ou artista você deve consumir agora – vem se tornando literalmente irrelevante.

Mas crise na indústria do disco não quer dizer crise na indústria da música – são duas coisas distintas, é bom separar. De um lado, você tem cada vez menos gente disposta a entrar em uma loja e comprar produtos que só podem ser experimentados naquele ambiente (seja no fone de ouvido pendurado na gôndola da megastore ou os 30 segundos na playlist em streaming da loja virtual); do outro, você tem diversos artistas e produtores musicais indo conversar diretamente com seu público, sem esperar que alguém lhes diga como se portar ou o que vestir. Separada da indústria fonográfica, a carreira de um artista ganha uma profundidade inédita e cada fã pode se tornar tão importante quanto um radialista, um crítico musical em um jornal ou um diretor artístico um dia foram.

Logo, estamos dentro de uma outra situação nova – uma vez que o artista não precisa de uma grande gravadora para atingir seu público, as multinacionais deixam de ser os alvos de ataque destes artistas, que preferem atirar para todos os lados – dando MP3s, fazendo shows, colocando clipes no YouTube, criando produtos de merchandising (de camisetas a wallpapers para celular), abrindo faixas para remixarem, vertendo músicas em ringtones ou truetones... Existem um milhão e uma maneiras de se conversar com seu público hoje – e as novas bandas, artistas e DJs estão experimentando todas.

Dentro desta maré alta de nova música, como descobrir algo novo? Entre rankeadores automáticos, novas bíblias do bom gosto e personal ipodders, duas iniciativas – uma inglesa e outra norte-americana – mostram como é possível se entender neste novo cenário musical ao mesmo tempo em que ajudam a explicar que este mais tem a ver com o ouvinte do que com o artista. Ambos são, ao mesmo tempo, rádios online, sites de comunidade e agregadores de conteúdo – e não são nada disso, ao mesmo tempo. Pandora e Last.fm começaram de formas bem diferentes e disputam um lugar neste mercado rankeando gente a partir de artistas e gostos musicais.

Ambos partem do mesmo pressuposto: que, ao mostrar suas preferências musicais online, você abre a possibilidade para encontrar músicas e artistas que nunca havia pensado em conhecer. Num mundo em que cada vez mais gente produz música e mais música do passado sendo disponibilizada o tempo todo, este tipo de guia parece ser a melhor solução pra qualquer um que compre um MP3-player e pergunte-se por onde começar.

“Passei dez anos anteriores tocando em bandas de rock e escrevendo música pra filmes”, explica Tim Westergren, que fundou o Pandora ao lado de Jon Kraft e Will Glaser em janeiro do ano 2000. “Durante essa época passei a me dedicar a descobrir uma forma de ajudar músicos independentes a encontrar sua audiência mais facilmente. Eu tinha a idéia para o genoma baseado em minha própria experiência em tentar entender o gosto das pessoas e recomendar-lhes músicas”.

O genoma a que Westergren se refere é o projeto inicial do Pandora, que, como o próprio Projeto Genoma Humano, tentava rastrear semelhanças e diferenças entre artistas e estilos musicais para facilitar a vida de quem quer se aprofundar em certos nichos – a diferença é que, ao contrário dos engenheiros genéticos, a idéia não era corrigir ou solucionar problemas, mas agilizar o trabalho para fãs de música em geral. “Achei que tava dando certo ha alguns anos, quando finalizamos a primeira versão do genoma e criamos um sistema de recomendações”, continua Tim. “Isso foi muito antes do Pandora ser lançado. Contudo, após alguns meses após o serviço começar a funcionar que eu percebi que poderia se tornar algo realmente importante, que poderia potencialmente mudar o curso da indústria da música”.

O Pandora funciona da seguinte forma: escolha uma música ou artista de sua preferência que, em seguida e como numa rádio, o próprio site toca outras músicas que tenham a ver com a sua primeira escolha. A partir destas músicas, o site vai traçando seu perfil musical, já que você vai dando “sim” ou “não” para cada uma das músicas escolhidas.

Já o Last.fm funciona de outra forma: você instala um plug-in em seu player de MP3s (portátil ou não) e o programa cria um ranking das músicas mais ouvidas por você. Um não, vários: músicas mais tocadas, artistas mais tocados, artistas mais tocados na semana, no mês, no ano, e por aí vai. E, diferente do Pandora, você tem a opção de adicionar “amigos” e pessoas com afinidade musical próxima da sua. Os primeiros você acresce como em programas de rede social, como Orkut ou MySpace; os segundos são indicados pela própria Last.fm a partir dos seus rankings – comparando com o de pessoas que têm gostos parecidos com o seu. A partir deste, o próprio site indica que outras músicas você pode gostar – em alguns casos, até mesmo dando o MP3 para download.

“Fundei a Last.fm em 2002, com Felix Miller e Richard Jones”, conta Martin Stiksel, um dos CEOs do serviço. “Tínhamos uma gravadora onde bandas e artistas sem contrato podiam hospedar sua música e fomos soterrados por música boa, mas tínhamos um problema: ninguém conhecia nenhum daqueles artistas. Por isso, tivemos que desenvolver um sistema que conecta música desconhecida com os ouvidos certos, para promover a música certa para as pessoas certas”.

“Nosso objetivo é te ajudar em sua vida musical”, continua Martin, dando uma piscadela num emoticon, “nós podemos te ajudar a encontrar música nova e interessante, a redescobrir velhos favoritos, entrar em contato com outras pessoas que gostam das mesmas músicas que você, recomendar shows que você deve gostar de ir. Há tanta música e tanta oferta, por isso é importante achar boas recomendações sobre o que é interessante para você”.

O site começou a mostrar-se eficaz no meio de 2003. “Finalmente vimos que nossa forma de recomendar música para as pessoas estava funcionando de fato, era nossa ‘prova de conceito’. Até então, só achávamos que ele ‘poderia’ funcionar”, continua Martin. “O site acertou na veia desde esse início, muitas pessoas perceberam que poderiam mostrar como seu gosto musical era cool e ver o que os seus amigos estão ouvindo”.

Ambos concordam que um dos principais pontos desta decadência da indústria do disco é a falta de contato com o público. “O marketing de música definitivamente deve olhar mais o que as pessoas estão ouvindo de verdade em vez de fazer pesquisas de mercado com pessoas e pranchetas”, explica Martin.

“A melhor música dos últimos anos realmente saiu do underground da música independente e não foi inventado pelas gravadoras num laboratório”, ele continua. “Por isso, sim, o marketing de música deveria ouvir mais os ouvintes e fãs de música”. “Eu concordo com isso”, emenda Tim. “E acho que o interesse também é cada vez maior nas canções, à medida em que ela vêm se tornando cada vez mais a unidade de música através da qual a maior parte das pessoas interage”.

“Acho que na década passada assistimos a um declínio – não do fato de as pessoas gostarem menos de música, mas em como elas se sentem conectadas à atual cena musical”, continua Tim. “Acho que isso já começou a mudar e que a música digital está guiando está revigoração”.

“Um dos principais fatores era que a produção musical estava se tornando muito barato e acessível para qualquer um”, Martin segue. “Hoje você pode fazer em seu laptop o que, no passado, só era possível ser feito se você se chamasse ‘Pink Floyd’ ou algo do tipo. Isso propulsionou uma explosão de produção musical caseira e interesse por esta nova música”.

“Além disso, temos o fato que as gravadoras não estão gastando tanto dinheiro em criar novos superastros quanto o que elas gastam em relançar seus catálogos”, continua o CEO da Last.fm. “As gravadoras não estão nem aí para seu público e essa tendência sempre se manteve. Só agora ela está lentamente mudando. As pessoas estão escutando mais música do que nunca e mais música diferente do que nunca. A música nunca foi tão facilmente portátil do que hoje e você pode conseguir música a qualquer hora do dia. Por isso, estamos vivendo na melhor época para fãs de música”.

janeiro 16, 2007

Mashup power

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Coluneta na Trip deste mês...

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1 + 1 = 1!

Mais justaposições que habitavam apenas nosso subconsciente

“Don’t Fight It, Feel It” (Gameover’s Don’t Fight It Steal It Mix) – Primal Scream
Disco dominado por mashupeiros – tá lá o Team9, Fakeid, Go Home –, este Primalscreamremixed.com não existem nem mais no site que o batiza, mas anda flanando pelas redes de P2P do planeta. Consiste um retrabalho (por vezes noisy, outras cyberpunk) faixa-a-faixa no disco mais célebre do Primal Scream e, pra mim, o melhor disco dos anos 90, o Screamadelica. E nessa, Gameover funde uma das melhores faixas do disco com “Deeper Underground”, do Jamiroquai, e não só fica legal, como faz sentido! Neguinho sempre olha pros Warp e big beatters da vida e esquece de ver que até o pop mais tradicional foi diretamente influenciado pelo Primal Scream fase reive.

“Velvet Sugar” – Go Home Productions
Mark Vidler pega o piano martelado com batera e guitarra na introdução de “Waiting for My Man” do Velvet, deixa a voz de John Cale em “The Gift” narrar o comecinho da faixa, antes de deixar os Archies assumirem o vocal com “Sugar, Sugar” (“Aaahnn, honey-honey”, é, aquela da abertura daquela novela das seis que tinha um sujeito apelidado de Papagaio), o assovio de “Where’s Your Head At?” do Basement Jaxx e uns “yeah” tirado de algum disco de soul (ou de hard rock farofa?). Heresia? Total. Mas parece Jesus & Mary Chain, hahahaha…

“Hurts Like Teen Spirit” – DJ Dangerous Orange
A parte lenta do hit maior do Nirvana repetido ad eternum, enquanto entra Johnny Cash, grave, fúnebre, para abrir espaço, no refrão, para os vocais centrais de “Don’t Fear the Reaper”, do Blue Oÿster Cult, e algum beat de “Blue Monday”, do New Order. Uma salada daquelas improváveis, mas que aguçam o paladar auditivo ao colidir universos distintos – e ao mesmo tempo criando uma ambientação que faça sentido para os três grupos, country, hard rock, rock alternativo. Uma pérola.

janeiro 13, 2007

No meio do caminho

Resenha do Gossip que eu fiz pra Void, que o Cardoso tá editando em Poa...

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Standing in the Way of Control - The Gossip (Kill Rock Stars)
Entra no YouTube, digita “Standing” “Way” “Control” e “Gossip” e aperta o search. Um dos primeiros resultados é o clipe da música “Standing in the Way of Control”, cheque a descrição pra saber se é o clipe ou um show da banda Gossip, autora desta pérola. Escolha o clipe. Na hora em que o player embutido aparecer, clique pro pause virar play e espere a barra de carregamento completar, antes de começar a assistir – você não quer ser interrompido num momento desses. Solte e comece a ver um desenho animado toscaço e oitentista, que acompanha a surra de guitarras que abre a música (33 porradas, eu contei). Até que entra um baixo cavalgando o bicho disco music e aparece um baixista magrelo com uma máscara de ninja cobrindo o rosto, sobre um cromaqui igualmente tosco ao fundo. As imagens são péssimas (dentes escovados, um Yellow Submarine com a cara do Popeye, listras, a jarra do Ki-Suco), não há glamour nenhum. É quando entra o resto da banda: um baterista – que suspeito ser o mesmo cara que é o baixista –, um guitarrista metido a dândi (franja, bandana no pescoço, bleiser) e a vocalista, uma gordinha branquela com cara daquelas meninas que, tadinhas, foram muito zoadas do pré até a sétima série, quando elas começaram a andar com as meninas que ficaram gatas como escudo. Mas ela já entra cantando e com um vozeirão de fazer neguinho cair o queixo. Estamos em território punk-funk sim, mas invadindo a discoteca pela porta da frente e com um esquadrão antifake. É, os desenhos são feios, os caras são nerds, a mina é gorda - tudo apresentado sem pós-produção, After Effects ou botox. “Isso é a realidade”, parecem cantar, e completam, em uma única música, a lacuna entre a obra do Franz Ferdinand e “House of Jealous Lovers”, do Rapture. O refrão (essa frase de efeito emblemática – “Vivemos nossas vidas atrapalhando o controle”, mal-traduzindo) é cantado quando a surra de guitarras do início volta, atordoando a pista como um estrobo bate-estaca que deixa o colorido anterior preto e branco. Beth Ditto, a vocalista, se joga com tanta vontade que não nos faz desgrudar os olhos dela – sua voz flutua com a graça de uma diva soul e a fisgada de uma riot grrl. O disco segue o tom, mas a música, acima de tudo, causa sozinha. Uma das melhores do ano (em algum lugar entre “Crazy”, “Take Me Back to Your House”, “I Don’t Feel Like Dancing”, “Get Myself Into It” e “Steady as She Goes”), fácil.

Cult pop

Essa saiu na Simples do mês passado...

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Complexidade pop

Superproduções hollywoodianas provam que dar nó na cabeça do espectador com roteiros sofisticados e edições não-lineares não é privilégio do cinema alternativo e/ou independente. Pop também é feito para pensar.

Imagine um filme com uma edição não-linear em que o protagonista uma hora é uma pessoa e mais tarde é outra, que convive com personagens que passam o tempo todo se drogando e falando sobre teorias da conspiração. Este protagonista é um policial e um fora-da-lei ao mesmo tempo (suas personalidades divididas como um dilema moral), que usa um traje que permite que ele se disfarce usando pedaços de outras pessoas, que mudam constantemente. Não bastasse isso, imagine que a estética deste filme é um desenho animado concebido após cenas reais com atores de verdade e que seja baseado em um livro hermético de um papa da ficção científica.

Este filme existe e chama-se “A Scanner Darkly”, lançado no meio deste ano nos Estados Unidos e dirigido por Richard Linklater, um diretor versátil a ponto de filmar um dos filmes centrais no gênero DR (a dobradinha “Antes do Amanhecer/ Antes do Pôr do Sol” com Julie Delpy e Ethan Hawke, vista como um filme só, compete com “Maridos e Esposas” de Woody Allen e “Closer” de Mike Nichols neste quesito) e alguns dos melhores filmes de rock da história (“Jovens Loucos e Rebeldes”, “Escola do Rock” e “Suburbia”). Baseado no livro de mesmo nome do escritor Philip K. Dick, a descrição de “Scanner” no primeiro parágrafo, por mais densa e confusa que possa parecer, faz sentido, mesmo parecendo impossível ou “infilmável” ao primeiro contato.

Isso porque vivemos uma época em que os filmes tornaram-se mais densos e complexos à medida em que os anos foram passando – sem detrimento para o público. Muito pelo contrário: num mundo bombardeado por informação por todos os lados e cuja complexidade de relacionamento entre essas informações torna cada dia em nossa rotina uma busca sem fim num labirinto de sentido, o cinema que se apresenta desta forma torna-se uma espécie de jogo mental para o espectador, que se submete a tais desafios como uma forma de se divertir.

A lista começa no meio dos anos 80, com filmes independentes americanos repletos de personagens que, quando juntos, parecem revelar um único protagonista – o grupo. De “Faça a Coisa Certa” de Spike Lee a “sexo, mentiras e videotape” de Steven Soderbergh; passando por “Veludo Azul” (e, mais tarde, a série “Twin Peaks”) de David Lynch e “Repo Man” de Alex Cox, os filmes aos poucos vão perdendo seu centro de palco e dividindo a atenção entre coadjuvantes que entram mais no holofote. O diretor Robert Altman se reinventou nesta época, enfileirando filmes populosos como “Short Cuts”, “O Jogador” e “Pret-A-Porter”, estabelecendo um novo padrão para filmes que se tornariam clichês na década seguinte.

“Penso nisso como se fosse um novo tipo de microgênero: um filme que dá nó na nossa cabeça, idealizado especificamente para nos desorientar, para mexer com a gente”, escreve o jornalista norte-americano Steven Johnson em seu livro “Surpreendente!” (Ed. Campus), antes de começar a enumerar. “A lista inclui ‘Quero Ser John Malkovich’, ‘Pulp Fiction’, ‘Los Angeles – Cidade Proibida’, ‘Os Suspeitos’, ‘Amnésia’, ‘Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças’, ‘Corra Lola Corra’, ‘Os 12 Macacos’, ‘Adaptação’, ‘Magnólia’ e ‘Peixe Grande’”, continua, “talvez você deseje acrescentar ‘Matrix’ a esta lista, já que sua genialidade encontra-se astutamente em implantar a estrutura de dar nó na cabeça dentro de um filme de ação excessivamente caro”.

Johnson, autor de livros como “Emergência” (detalhando a semelhança da auto-organização de formigueiros, programas de computador, cidades e o cérebro humano) e “A Cultura da Interface” (sobre como a invenção do mouse criou um ambiente inteiramente novo para a criação), dedica ao cinema um capítulo inteiro de seu livro, que começou como uma pesquisa sobre a facilidade com que as crianças lidavam com situações complexas propostas pelos videogames. “Eu originalmente vendi ‘Surpreendente’ para o meu editor como um ensaio sobre como os jogos eletrônicos estão nos tornando mais espertos. Mas quando eu comecei a escrevê-lo, os EUA estavam no meio de uma polêmica sobre a queda dos níveis da televisão devido à transmissão do mamilo da Janet Jackson durante o Superbowl e eu tinha acabado de assistir com a minha mulher os DVDs de ‘24 Horas’, ‘Alias’ e ‘Six Feet Under’. Alguma coisa entre esses dois fatos me fez parar para pensar que a televisão nunca foi melhor do que hoje! E isso se tornou um argumento para a cultura pop como um todo, não apenas os videogames”.

No livro, ele vai além dos filmes alternativos e/ou independentes citados e pede para que comparemos filmes como “Procurando Nemo” ou “Senhor dos Anéis” com “Bambi” ou “Guerra nas Estrelas”, para percebermos que a complexidade não pertence apenas aos queridinhos da crítica – e também invade o terreno dos arrasa-quarteirões hollywoodianos. Mas Johnson centra o foco na primeira categoria. “Alguns destes filmes desafiam nossas mentes ao criar uma rede espessa de linhas de enredo que se cruzam; alguns são provocantes porque ocultam informações críticas do público; outros desafiam inventando novos esquemas temporais que invertem os relacionamentos tradicionais de causa e efeito; alguns filmes ainda desafiam quando deliberadamente camuflam a linha entre fato e ficção”, continua no livro, antes de ressaltar que, “a propósito, tudo isso faz parte das técnicas clássicas da velha cinematografia de vanguarda”.

“A maior parte destes filmes rendeu mais de 50 milhões de dólares apenas em ingressos de bilheteria e todos eles geraram dinheiros para seus criadores – apesar de sua dependência nos dispositivos de narração, que poderiam tê-los classificados como cinema de arte trinta anos atrás”, finaliza Johnson, mostrando na prática a velha máxima em que o que era novidade no passado torna-se regra no presente.

“Depois que eu parei para prestar atenção neste aspecto da cultura, ele parecia estar onde eu olhava”, continua na entrevista. “E isso tem continuado desde que o livro foi lançado, particularmente com o enorme sucesso de um programa como ‘Lost’, que realmente encarna tudo aquilo que eu escrevi”.

janeiro 12, 2007

Passar o passado

E essa é a coluninha da Simples que tá na banca...

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***

A verdade é que temos medo de assumir a responsabilidade. A maioria das pessoas prefere se refugiar em seu bunker online do que meter a mão na massa e fazer um mínimo. E isso dentro de um contexto coletivo em que o simples ato de criar solitariamente e comunicar esta criação para outros já é motivo para conexões improváveis e infinitas e novas possibilidades.

Mas não. Preferimos nos sentar em frente à tela e fingir que não é com a gente, e esperar que alguma solução venha em voz alta, cores agradáveis, slogan que nos impressione e preço, misturada com tanta notícia fabricada e entretenimento vazio que não conseguimos distinguir uma coisa da outra. Acostumados a pedir comida por telefone ou a apertar os botões do microondas, sequer nos levantamos para atender o interfone ou apagar a luz. Não importa se queimamos calorias em academias de ginástica, em LAN houses ou com uma vida sexual de fôlego atlético – somos cada vez mais preguiçosos e nos acostumamos a isso.

Veja o que está acontecendo com a indústria fonográfica, exemplo favorito. Virada do avesso pelo simples fato de uma série de inovações tecnológicas mexer com suas fundações básicas (que a música não pertence mais ao suporte – o disco), ela não está enfrentando sua principal ameaça de igual para igual. Todos aqueles que poderiam estar virando a mesa deste mercado estão apenas baixando música na internet ou comprando discos piratas, em vez de perceber a principal mudança e ir direto ao centro desta: hoje você não precisa de mais ninguém que te diga o que gostar ou não.

Mais do que isso, cada vez qualquer um pode fazer música. Se o “fazer música” já tinha sido nivelado por baixo pelo encadeamento rítmico entre a criação do rock’n’roll e a invenção do punk rock, o “qualquer um” vai ainda além ao pular da cultura do DJ para a geração laptop, que faz música com o mesmo prazer e afinco que qualquer jogador de videogame – mais do que “fazer sucesso” ou “estourar”, fazer música tem se tornado um desafio pessoal.

No entanto, baixamos gigas de MP3s como se soubéssemos, no fundo, que a farra da música grátis vai acabar e que logo tudo vai voltar a ser como era antes. Não vai. Mesmo que não façamos nada para mudar este cenário além de simplesmente não fazer nada, o mundo em que crescemos, de lojas de discos, astros do rock e pôsteres na parede simplesmente acabou. Consumimos artistas como meras grifes de atitude ou de sofisticação, rótulos que pregamos em nossas personalidades para agraciar nossos egos e exibir para amigos e desconhecidos.

Até quando? Até quando iremos apenas abaixar a cabeça e engolir o que estão nos mandando? Até quando iremos fazer apenas aquilo que esperam que façamos? As ferramentas estão à mão, o público é cada vez maior e mais ansioso (porque o público, na verdade, somos nós) e a insatisfação domina. Até quando vamos fingir que não é com a gente e que um dia, alguma coisa acontecerá e mudará tudo de uma vez – por bem ou por mal? Foi mal gente, mas o apocalipse redentor me parece a desculpa definitiva para não se fazer nada – religiões bem sabem disso, há milênios.

E se a indústria do disco já foi, Hollywood tá indo, a fábrica de celebridades rui em câmera lenta, o mercado de livros e as telecomunicações vem a seguir, seguidos de perto pelos jornais, a mídia como um todo, nossas noções de pedagogia e educação, a função do sexo, da religião, dos exércitos e dos esportes, a segregação entre Arte e Cultura, a execução do processo político e, finalmente, nossos valores econômicos. Um a um, iremos assistir a quedas de pilares que imaginávamos imbatíveis. E você prefere mudar de canal ou clicar num link do lado, para fingir que não irá participar disso tudo.

Porque você vai, querendo ou não. Resta saber se vai levar ou ser levado.

Depois eu falo mais disso.

Cinco Perguntas Simples: Ronaldo Lemos

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Acabou sim. O CD hoje já é uma tecnologia obsoleta. É uma mídia grande, com pouca capacidade de armazenamento. No entanto, ele ainda terá uma sobrevida, especialmente nos países em desenvolvimento, da mesma forma como cassetes e vídeo-cassetes ainda são usados na Índia e na África. Até mesmo as periferias brasileiras já usam o CD não para músicas, mas sim para arquivos de MP3, sem falar no uso de DVD-R. O futuro da distribuição musical é digital, o suporte só fará sentido em casos específicos.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
A tendência é a música se distanciar cada vez mais do conceito de mercadoria e se aproximar da idéia de um serviço. O iTunes hoje faz sucesso vendendo música como mercadoria. Mas o site de música que mais cresce no mundo hoje e já está em segundo lugar, chamado E-Music, já vende música mais como serviço: você paga uma taxa mensal e pode fazer um número específico de downloads. O serviço que todos os consumidores gostariam de ter é pagar uma taxa e poder fazer downloads ilimitados de música.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
A principal vantagem é que nada ainda está definido, novas instituições estão sendo criadas. O mais interessante é que a sociedade tem um papel importante a desempenhar nisso: a mídia colaborativa e a produção coletiva de conteúdo tem pela primeira vez a chance de ocupar o papel principal. É o caso da Wikipedia, que já é referência em inúmeros assuntos pesquisados no Google, obtendo mais destaque que sites da mídia tradicional como o New York Times e outros. Mas nada é fácil: está havendo uma reação violenta a essa transformação e a batalha está se travando no campo do direito. A lei está sendo mudada para preservar os modelos tradicionais de mídia.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
A lista é imensa. A música nunca esteve tão bem, em todas as áreas e sobretudo em termos de música experimental e de vanguarda. Dá para dizer que há uma efervescência em todos os nichos. Sou curador do Tim Festival e o principal problema nos últimos tempos é escolher: há tanta coisa boa e interessante que a cada ano torna-se mais difícil fazer as melhores escolhas. Veja o festival do ano passado: jamais uma banda tão nova quanto o Arcade Fire teria esgotado os ingressos tão rápido se as pessoas não tivessem conhecido a banda pela internet.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
A grande novidade da indústria musical é o fato de que o termo "indústria" está se modificando. Diria que hoje dá para falar ir além da idéia de "indústria" e falar em "comunidades". Essas comunidades, que são totalmente fluidas, constroem ou mantêm nomes novos e antigos independentemente de um planejamento centralizado. Os exemplos são vários: das bandas Arctic Monkeys e Clap Your Hands Say Yeah, que surgiram na Internet, ao Einstuerzende Neubauten, que se mantêm através de um serviço de assinatura oferecido aos fãs através do site. Isso para não falar na emergência da produção cultural das periferias globais, ritmos como tecno-brega, kwaito, reggaeton, cumbia villera, que eu acho a coisa mais importante, chic e interessante que aconteceu desde o tropicalismo.

Ronaldo Lemos é o homem do Creative Commons no Brasil.

dezembro 13, 2006

Cinco Perguntas Simples: Guilherme Barrela

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Não, eu sou daqueles que acham que nunca vai acabar. Claro que o nunca é exagerado, mas até o vinil ainda resiste. Ainda existe muita gente que gosta de encarte, gosta de ter alguma coisa pra segurar. Mas o disco é cada vez mais um objeto de arte, digamos assim, do que eu produto de consumo.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Acredito que o formato digital vai acabar virando o padrão. quem paga é quem sempre pagou, o consumidor. se quiser algo numa qualidade técnica superior, ou mais rápido, ou até como uma forma de consumo consciente, vão pagar. Mas faz tempo que artista não ganha com venda de disco. Existem muitos subprodutos nesse mercado, como os shows, por exemplo.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
Temos à mão tudo o que existe no mundo, tudo o que quisermos. de qualquer época, qualquer lugar, qualquer nicho, grande ou pequeno, comum ou raro, em inúmeras versões. No fim, isso acaba sendo também a principal desvantagem, hoje. o consumidor ainda não está preparado para estar no controle, ainda precisa de um filtro. mas nada que o tempo não possa acostumar.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Posso citar infinitos nomes, até um dia em que vamos poder dizer: todos. Me considero um cara fuçador, mas minha coleção de rock sueco dos anos 60 e 70 não existiria há 10 anos atrás.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Não, acho que falta muito pra realizar sonhos. e o mérito não seria do estado da indústria musical, mas da tecnologia. Nesse caso, dá pra citar algumas coisas que seriam mais difíceis em outras épocas. hoje existem cada vez menos ídolos e estrelas. Tá todo mundo no mesmo nível, eu posso conversar de igual pra igual com um artista que admiro. Posso, inclusive, colaborar com ele, cada um no seu canto. lançar um disco em qualquer parte do mundo, ser grande no Japão e desconhecido aqui, etc.

Guilherme Barrela toca a distribuidora Peligro e é o Blue Afternoon.

novembro 29, 2006

We're all one

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Coluninha da Simples nova, que tá na banca agora...

***

Todos, um só

“Conjuntos com guitarras já eram”, disse um executivo da gravadora Decca ao dispensar ninguém menos que os Beatles. É muito fácil rir disso depois que os Beatles se tornaram um fenômeno, mas como ele poderia prever? Era uma época em que os principais artistas do planeta eram trovadores solitários, vozes ou instrumentistas que imprimiam seu próprio nome de batismo (ou pseudônimo) como marca na capa de um disco, no cartaz de um show, nos créditos do cinema.

Então, qual credibilidade de um grupo com quatro pessoas que preferia esconder seus nomes de verdade atrás de um rótulo que nem é um nome de verdade? Podia ser um trocadilho de besouros com ritmo ou qualquer outro nome, podia ser os Beatles ou qualquer outro grupo. É muito pouco provável que qualquer outro executivo de gravadora achasse aquilo uma grande sacada. Tanto que a gravadora que contratou o grupo mais tarde, a EMI, não foi atrás – foi preciso muita insistência do empresário da banda, Brian Epstein, para que a banda fosse ouvida e concessões tiveram que ser feitas (a mais notável foi a saída de Pete Best para a entrada de Ringo Starr).

O trunfo da visão é todo de Brian. Foi ele quem viu quatro moleques fazendo barulho num porão decadente de uma cidade portuária do norte da Inglaterra e viu algo fora do comum. Não eram as composições, mesmo porque boa parte do repertório deles eram versões de músicas americanas. Não era a aparência, pois eles pareciam – e eram – moleques proletários posando de bad boys do cinema. Não era a técnica nos instrumentos – crua, rústica –, os arranjos – pobres – ou mesmo o carisma com o público – que era inegável.

O que clicou Brian era o fato de que os quatro não se comportavam como quatro pessoas, quatro indivíduos. Mas como uma gangue. Como um grupo, como uma unidade só. Essa talvez tenha sido a grande revolução dos Beatles não seja musical – e sim comportamental. Melhor e mais divertido.

Depois eu falo mais disso.

novembro 23, 2006

Mashing upings

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Coluninha na Trip, pá-pum, se liga...

***

Dois em um

“For Those About to Clown” – DJ Riko
O produtor francês pegou o riff básico de “For Those About to Rock” do AC/DC, uma virada de bateria tocada pelo John Bonham do Led Zeppelin e o vocal emocionado de Smokey Robinson cantando “Tears of a Clown” e fez uma música cool e enxuta, com cara de rock arena dos anos 80 bem feito – e pop até dizer chega.

“Sleeping” – CCC
Uma das pérolas centrais do disco Revolved, em que o produtor inglês Chris Shaw, funde o clássico disco dos Beatles de 1966 com hinos de diferentes épocas da história do pop. Essa joga o vocal de “I’m Only Sleeping” sobre a base trip hop do Portishead em “Glory Box” (por sua vez, tirada de “Ike’s Rap”, de Isaac Hayes), acrescentando cítaras de “Within You Without You” e os animais de “Good Morning, Good Morning”, duas faixas do Sgt. Pepper’s.

“Only Ur Lullaby” – Team9
A base galante e sinuosa do Cure em “Lullaby” funciona como base para os vocais da musa menor R&B Ashanti soltar sua “Only U” – criando, assim, uma música inteiramente nova – densa e suave, doce e amarga, indie e soul na mesma medida. Brilhante.

novembro 14, 2006

Mashup o Culote

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Materinha pra Outracoisa, a revistadolobão, que vem com um CDzinho do Carbona encartado...

Mexidinhas

O mashup, a justaposição de músicas diferentes em um mesmo single, é um fenômeno online, uma subcultura clandestina, uma fonte inesgotável de hits e uma tendência econômica. E está apenas começando

De um lado, o ritmo cru e a putaria clandestina que negros americanos faziam com guitarras elétricas, baixo e bateria. Do outro, a toada pesada e o senso de bebedeira que brancos americanos faziam com banjos, violões e percussão. Moleques entre 20 e 30 anos que tentavam a sorte no incipiente mercado de discos – ganhar dinheiro se divertindo era possível! – e que cantavam sobre sexo, álcool e confusão nos mesmos compassos, tempo e pegada. Eram apenas divididos por barreiras raciais e econômicas, mas um profeta chamado Sam Philips anunciou a chegada do escolhido quando ele descobrisse "um branco com voz de negro". Elvis Presley canalizou ambas subculturas em algo único – rhythm'n'blues com sotaque de caubói, country'n'western com suíngue de negão. Representava duas culturas como se elas fossem uma mesma, ao tocar gêneros diferentes na mesma levada. O veículo para a mudança havia sido tecnológico e técnico – instrumentos fáceis de se tocar, tocados de forma simples.

Cinqüenta anos passados e o universo inaugurado pelo big bang de Elvis segue em franca expansão. Da fusão original que inventou um modismo dançante nos anos 50 nasceu uma imensa e fragmentada árvore genealógica, cujos galhos se entrelaçam quase sempre, mesmo quando crescem em direções opostas. E, apesar de não existir uma consciência de que a história do rock surgiu da justaposição de realidades diferentes, é notável que os grandes momentos desta história aconteceram quando estas colisões cognitivas comandaram o imaginário coletivo.

Os Beatles venderam, primeiro para a Inglaterra, depois para os EUA e finalmente para o mundo, que a colcha de retalhos da música popular americana dos anos 40 e 50 era, na verdade, uma só trilha sonora. A psicodelia diminui as distâncias entre bandas de rock e o ocultismo, as drogas de expansão da consciência e outras experiências místicas. O punk rock surgiu de uma estranha semelhança entre as bandas de garagem americanas e a apatia dos jovens operários ingleses. O reggae começou como uma tentativa de se fazer soul music no Caribe. O indie rock sempre emulou o rock clássico em condições opostas – o anonimato em vez do estrelato, o fracasso em vez do sucesso, a fraqueza em vez do poder. O grunge chocava hard rock farofa com hardcore tosco. O hip hop transformava o MC dos bailes em uma estrela do canto falado e o DJ, que usava trechos de músicas, em um instrumentista pilotando uma vitrola. Em todos estes momentos – todos cruciais para a formação e consolidação do rock e da música pop como trilha sonora de nossos tempos – aconteceram as mesmas duas coisas que ajudaram a criação e popularização do rock'n'roll: técnica e tecnologia se tornando mais acessíveis, baratas e simplificadas, proporcionando a criação de novas músicas e gêneros criativos a partir da simples soma de duas realidades.

Em pleno século 21, isso é nítido. Fãs de música eletrônica começam a entender o bate-estaca do rock – e via electro, um gênero inventado pelo hip hop. Roqueiros skatistas passam a entender o groove negro e fundi-lo com guitarras pesadas. A lógica do dub e do funk africano passa a definir novos subgêneros em áreas diferentes como samba, techno e jazz. Rock, rap, música eletrônica, dance music – tudo é entendido na mesma batida, no mesmo riff, na mesma frase repetida várias vezes.

Até que, em 2001, o inglês Roy Kerr, usou a base de “Hard to Explain” dos Strokes com o vocal de “Genie in a Bottle”, da Christina Aguillera, para lançar-se com o nome de Freelance Hellraiser. A dupla de irmãos belgas David e Stephen Dewaele foi ainda além e juntou pedaços de várias outras músicas em um longo mix que casava gêneros e canções tão diferentes quanto “Push It” do grupo de hip hop Salt’n’Peppa e “No Fun” dos Stooges ou “Dreadlock Holiday” do 10cc com “Independent Woman” das Destiny’s Child em um longo set lançado com o nome de As Heard on Radio Soulwax – Part 2, assumindo profissionalmente um codinome de brincadeira, 2ManyDJs. E embora o uso de pedaços de canções para construir diferentes faixas seja um hábito quase tão velho quanto a história do rock’n’roll (experiências com vitrolas feitas pelo compositor francês Pierre Schaffner datam dos anos 50, a psicodelia inglesa já havia superposto a narração da “invasão marciana” feita por Orson Welles nos anos 30 sobre uma base de rock, o hip hop e a acid house já tinham discos clássicos – Paul’s Boutique dos Beastie Boys e Straight Outta Compton dos NWA de um lado, Into the Dragon do Bomb the Bass e as experiências da dupla Double Dee & Steinski do outro), foi no primeiro ano do novo século que este hábito tornou-se um gênero próprio que cresce cada vez mais: o mashup.

Também conhecido como “bastard pop” ou “bootleg” (ou abreviações como “booty” ou “boot”), o gênero, como mais um sólido degrau na escalada do pop, propõe a fusão de realidades diferentes a partir de facilidades tecnológicas e técnicas. São duas ações simultâneas: programas de edição de áudio de interface cada vez mais simples e de resultados convincentes e profissionais caminham lado a lado com a proliferação de arquivos de áudio de toda espécie através da troca de MP3s online. Assim, um material que antes era disponibilizado apenas para DJs – modalidade que, à medida em que a eletrônica e o hip hop ganharam terreno, tornou-se tão distante do público quanto o decadente popstar – passou para a mão de pessoas com uma boa conexão online, um processador potente e um HD parrudo. É um passo ainda além do “faça-você-mesmo” do punk rock – quem faz música, nesta cena cada vez maior, são as mesmas pessoas que baixam e compartilham música na internet. Ou seja – gente que nem eu e você.

Citar nomes destes artistas é algo improdutivo, pois eles se multiplicam numa velocidade incrível, pelo simples fato de, ao ouvir um mashup, qualquer um comece a cogitar possibilidades de fusões musicais. Uns vêm da colisão de extremos opostos (Eminem com Smiths?), outros de possibilidades lingüísticas (há uma faixa que reúne quatro canções chamadas “Last Night”/“Last Nite”) e trocadilhos infames (“Smells Like Beach” reúne Nirvana e Beach Boys) – e saem das cabeças, mãos e mouses de pessoas chamadas CCC, DJ Zebra, Go Home Productions, DJ BC, Lenlow, Arty Fufkin, DJ Moule, Bobby Martini, C.H.A.O.S. Produtions, Team9, A plus D, Party Ben, DJ Riko – mas é só puxar qualquer um deles pra descobrir uma outra lista de artistas anônimos e igualmente numerosos.

A subcultura mashup se movimenta na internet e em festas – San Francisco, Nova York, Londres e Paris têm suas cenas consolidadas a partir destas baladas – e não se restringe a reciclar flashbacks. Um dos principais desafios destes produtores é capturar o sucesso mais recente e misturá-lo com hits do passado: LCD Soundsystem, o último disco de Madonna, a “Promiscuous” de Nelly Furtado e “Crazy” da dupla Gnarls Barkley são alguns dos favoritos entre estes produtores.

Gnarls Barkley, aliás, é o melhor exemplo do que está acontecendo com esta cultura. O grupo foi fundado pelo DJ Danger Mouse que, há três anos, mashupou o Álbum Branco dos Beatles com os vocais do Black Álbum do rapper Jay-Z, criando o “Grey Álbum”. Depois de ameaçar ser processado pela EMI, detentora dos direitos dos Beatles, o DJ suspendeu as vendas do disco e o download das músicas de seu site, mas teve a solidariedade de mais de uma centena servidores de internet pelo mundo, que, num ato de desobediência civil online, disponibilizaram gratuitamente o álbum em protesto contra a rigidez da EMI. Este protesto aconteceu no dia 24 de fevereiro de 2004, dia que ficou conhecido como “Grey Tuesday” (“Terça-feira Cinza”), em homenagem ao disco.

A repercussão do caso levou Danger Mouse a produzir o disco do ano passado do grupo Gorillaz, sendo responsável direto por duas das melhores músicas de 2005 – “Feel Good Inc.” e “Dare”. Na prática, Damon Albarn, do Blur (mentor dos Gorillaz), chamou Danger Mouse para produzir singles para o grupo de hip hop De La Soul e para o ex-vocalista dos Happy Mondays, Shawn Ryder, estrelas centrais de cada uma destas faixas do Gorillaz, respectivamente (ironicamente lançadas pela EMI). Dos Gorillaz, Danger Mouse produziu o disco Danger Doom ao lado do produtor de rap MF Doom – e usando samples de personagens do Adult Swim, a faixa adulta do Cartoon Network. E depois lançou o grupo Gnarls Barkley, ao lado do rapper Cee-Lo (ex-Goodie Mob), responsável pelo melhor disco do ano até então, St. Elsewhere, além da melhor música do ano, a citada “Crazy” – que também foi a primeira música vendida apenas online a chegar ao topo de uma parada de vendas (no caso, a britânica).

MP3s no topo das paradas, discos e desenhos animados, soul e indie dance, processos e discos de ouro – a história de Danger Mouse é uma interessante fábulas sobre as transformações de nossa época. E quando o Google começa a falar em fazer mashups de sites e a bolsa americana passa a elogiar mashups de empresas (diferentes de meras fusões), mais uma vez vemos a música assumir o papel de carro-chefe das transformações de nossa época.

E isso é só o começo.

novembro 9, 2006

Cinco Perguntas Simples: Cassiano Fagundes

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Não, mas certamente a dependência que se tinha pelo disco na divulgação do artista é menor, e a Internet é a causa óbvia disso. Principalmente para o artista independente, o disco hoje acaba tendo um papel muito mais psicológico do que qualquer outra coisa, supre a necessidade de se ter algo palpável que traduza o esforço da produção musical. Alimenta o ego do artista. Certamente o disco não é dispensável, mas se tornou um dos elementos de um pacote que inclui página na Internet, shows, televisão e outros.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Os bardos celtas não deviam ficar ricos com suas apresentações itinerantes nas cortes da alta idade média, a música era vista como algo sagrado, não um produto (posso estar enganado, mas imagino que era isso mesmo, e se não fosse, devia ser). Acho que a percepção da música como algo sagrado deveria ser resgatada, é uma postura mais ecologicamente correta e positiva. Sou a favor do MP3 gratuito, de uma orgia musical sem precedentes - que aliás já está acontecendo: você já baixa praticamente tudo disponível no mercado fonográfico de graça, se souber procurar. Quem paga a conta? bem, acho que os músicos, sobretudo os independentes, ganham muito pouco com apresentações ao vivo. O ideal seria o artista e a estrutura em volta dele viverem de shows, aparições promocionais e coisas do tipo. Tem muita gente que já disponibiliza 50% de um disco gratuitamente, a outra metade você tem que comprar o CD para ter, ou acabará achando alguém na Internet que disponibilizou essa outra parte gratuitamente - e ilegalmente. Acho que não dá pra parar isso, não dá e não se deve parar isso. Será que o Led Zeppelin fez fortuna com venda de discos? acho que grande parte do dinheiro que arrecadavam vinha dos contratos milionários que Peter Grant, seu empresário, conseguia firmar com casas de shows e produtores nos Estados Unidos.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
Qualquer um que tenha um computador e um bom software de gravação faz seu disco em casa. Isso é uma maravilha. Já gravei muita coisa em casa que ficou melhor do que o que gravei em estúdios profissionais. Essa é uma grande vantagem para o músico, com certeza, porque significa liberdade. E um artista sem liberdade de criação tende para a mediocridade.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
O MySpace é onde descubro as coisas mais legais que tenho escutado. Goldfish é um cantor/violonista punk folk escocês de primeira, gravou seu disco na sala de estar de sua casa, em Glasgow, está completamente fora do mercadão, mas eu o considero um dos compositores mais brilhantes dos últimos anos. Republic of Loose é uma banda irlandesa que deu uma roupagem interessante ao soul, muito legal - também os descobri no Myspace. Outros nomes que estão no Myspace: Daydreamers (França), The Pocket Raindrops (Suécia), Sebastião Estiva (Acre) e até bandas já com gravadoras e mais conhecidas, como Midlake (EUA). O legal do MySpace é que ele te dá a possibilidade de conhecer artistas do mundo todo, muitos com idéias similares às suas.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Meu, não. Sempre fui muito azarado com a indústria. Eu considero meu som super bom, muito melhor do que muita porcaria por aí, mas talvez por eu ser de Curitiba e cantar em Inglês nunca tenham me levado a sério, ao menos no Brasil. O legal da Internet é você não precisar mais depender de industria musical - especialmente a brasileira - para dar seus passos. Estou me armando sozinho, por enquanto. É um caminho difícil, mas dá para se virar. Marcar shows em qualquer lugar do mundo hoje é fácil para qualquer artista brasileiro que queira fazer isso. O problema é quem paga as passagens e todo o resto. Mas é viável. Minha banda, Bad Folks, tocou na Espanha em 2004 sem a ajuda de nenhuma gravadora, tudo com os contatos que fizemos pela Internet.

Cassiano Fagundes é guitarrista e vocalista do Bad Folks

Só se foi quando o dia clareou

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O povo da Bravo me pediu uma sub pra essa matéria de capa deles sobre samba, falando do que tem rolado na noite de São Paulo. Taí embaixo.

Renascença sambista

A vida noturna paulistana torna-se cada vez mais fiel à versão tradicional do ritmo pátrio brasileiro

“Na verdade, essa volta do samba ainda nem começou”, anima-se José Marilton da Cruz, o Chapinha, um dos fundadores do Samba da Vela. A noite, que acontece no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, não é apenas um dos mais tradicionais redutos do samba hoje, como foi um dos primeiros grandes focos para esta renascença sambista que invade a noite paulistana.

Ao redor da vela que mede a passagem de tempo da já tradicional roda de samba – ela acontece desde julho de 2004, sempre às segundas-feiras – reúne-se um público que é genericamente referido como “amantes do samba”. Esta denominação, porém, não se restringe mais a uma faixa etária, uma classe social ou um viés ideológico – todos se misturam no samba. “A faixa de renovação de público por noite é de trinta por cento”, comemora o sambista, “sempre tem gente que nunca veio pra cá, ainda somos uma novidade. Por isso que eu acho que a gente ainda está assistindo a um nascer de uma época de ouro do samba – e não é só em São Paulo ou no Rio de Janeiro e algumas cidades maiores. É no Brasil todo”.

A noite começou num local fundado por Chapinha, o Espaço Cultural Ziriguidum, mas logo deslocou-se para a Casa de Cultura Santo Amaro, devido à massiva presença de adeptos – que chega a quase trezentos toda segunda. “Quando eu, Magno (Sousá), Paqüera (José Alfredo Gonçalvez de Miranda) e Maurílio (de Oliveira Souza) começamos, nossa idéia era fazer uma roda de samba autêntica, mas que abrisse espaço para novos compositores”, segue o nativo cearense que já mora em São Paulo há mais de trinta anos, “e desde o primeiro dia percebemos que havia sido um sucesso. Tinha pouca gente, nem cinqüenta pessoas, mas todo mundo estava feliz, satisfeito com o que estava ouvindo”.

O sucesso atingiu uma escala maior graças à interferência da sambista Beth Carvalho, a quem Chapinha se refere como “grande madrinha e garimpeira do samba”. “Estávamos funcionando há pouco mais de três meses quando ela ouviu falar desta nova roda de samba em São Paulo e veio conferir de perto. Na primeira noite em que ela compareceu, vieram umas sessenta, setenta pessoas. O boca-a-boca foi tanto que, na outra segunda, tinham mais de quatrocentas pessoas que apareceram, achando que veriam a Beth Carvalho. Ela não veio, mas o samba estava lá, e as pessoas continuaram vindo”.

Igualmente modesto, o pequeno Tocador de Bolacha, na Vila Madalena, cedeu à presença da música ao vivo, outra característica fundamental deste ressurgimento do samba no começo do século vinte e um. “Começamos apenas tocando discos”, conta Stella Guerreiro, proprietária do estabelecimento ao lado do marido, o violonista Antônio Mineiro, “mas sempre aparecia alguém com um violão, e aos poucos fomos abrindo para música ao vivo. Mas microfonamos o mínimo possível, não queremos que o som saia alto e priorizamos música instrumental”.

A casa ainda flerta com o jazz e com o choro (outro gênero em franca nova fase, assunto para outra oportunidade), mas o forte são as noites de samba. “Apesar de focarmos num público mais adulto, a presença de jovens é muito forte. E também do lado dos músicos – cada vez há mais gente nova e boa tocando e compondo”. “Neste sentido, concordo que haja uma explosão”, conta Stella, que é cética sobre um renascer sambista na vida noturna de São Paulo. “Sempre houve samba, só tinha que procurar mais”, lembra, antes de concordar que o bairro da Vila Madalena – tradicional reduto boêmio e jovem da cidade – está lentamente se tornando um pólo de noite sambista. “Não é pagode, nem é moda”, ela sublinha, “é samba de raiz, é isto que as pessoas estão procurando”.

Outra casa tradicional do samba na Vila é o Ó do Borogodó, que também alterna suas noites de samba com rodas de choro. “O samba sempre esteve aí. Acontece que só agora ele tem chegado aos bares de uma classe média universitária que, além de freqüentá-los, começa a procurar lugares em que este samba se manifesta de forma mais autêntica”, explica Stefânia Gola, uma das proprietárias do lugar.

“Antes éramos só uma portinha, botávamos as mesas na calçada”, se orgulha, em frente à casa que cresce anualmente tanto como ponto de encontro universitário quanto como foco de resistência do samba tradicional. “Tudo cresceu bem devagar, fomos comprando as coisas aos poucos, à medida em que ficávamos mais conhecidos”, explica a dona, que explica o segredo do sucesso. “Não somos empresários da noite, não estamos atrás da nova onda, nem do que traz público. Somos do samba, acreditamos no samba e fazemos uma noite de samba. Se não der público, não vamos fechar. Mas sempre dá. Porque as pessoas gostam de samba. Gostam do que é bom”.

“A mídia é quem filtra tudo e só deixa passar o que é ruim”, completa Chapinha. “Porque a qualidade dos cantores, instrumentistas e compositores hoje é tão boa – ou, atrevo-me a dizer, melhor – do que as gerações anteriores. Porque são pessoas novas que já entendem muito o que é o samba. E ainda vão evoluir. E isso não é só em São Paulo, não, isso é no Brasil todo”.

Samba da Vela
Casa de Cultura Santo Amaro
Praça Francisco Lopes Ferreira, 434
Santo Amaro – São Paulo
Telefone: 5522-8897
Segunda a partir das 20 horas

Ó do Borogodó
Rua Horácio Lane, 21
Pinheiros – São Paulo
Telefone: 3814-4087
Todos os dias

Tocador de Bolacha
Rua Patizal, 72
Vila Madalena – São Paulo
Telefone: 3815-7639
De terça a domingo

novembro 1, 2006

Cinco Perguntas Simples: João Marcello Bôscoli

1) O disco (como suporte fisico) acabou?
Não, o disco como suporte físico não acabou. É usado para DVDs, games e - ainda - obras musicais , com os CDs. Ainda vai durar um bom tempo. Porém, isso não quer dizer que outros suportes e técnicas de compressão e encoding não estejam evoluindo dia-a-dia. O presente e o futuro são multiformatos. A revista Wired já fala isso há quase duas décadas.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Gosto de pensar em música como água, saindo por torneiras em todo planeta, com valor acessível, tipo contas de luz, gás e água, cobradas periodicamente ou por uso imediato. Vejo minha conta de celular com um item chamado música, de valor financeiro baixíssimo e valor emocional intangível. Vejo muitas dessas músicas tornando-se obras no mundo real sob múltiplas formas e não mais só sob o cansadíssimo e pouco funcional 'jewell box'. Vejo bilhões de músicas existindo na web, disponíveis para o público, sem polícia e sem processos. Pense na indústria de perfumes, por exemplo. Eles vendem líquido perfumado e, às vezes, colorido. Creio que grande parte da magia e da aura desse negócio venha da imensa variedade de suas embalagens. Imagine essa cultura trazida para o mundo da música, no futuro. Penso em patrocinadores responsáveis socialmente e ecologicamente, pagando as contas de música das pessoas, como fazem há anos com as TVs abertas e a cabo. Há tantas possibilidades..

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
Descentralização de poder. O que era previlégio de algumas corporações, hoje já é dividido por centenas de milhões de pessoas.Compor, produzir, distribuir, vender, apresentar... tudo isso hoje é quase tão acessível quanto um violão. E pode ser feito do seu quarto. É bom ver grandes corporações tendo que se dobrar ao indivíduo e perdendo poder. E ainda por cima fazendo campanhas milionárias para dizer que é contemporâneo e que está gostando desses novos tempos. Hilário.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Hoje em dia posso dizer que já perdi a conta.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Sim, vários. Por exemplo: um player pequeno, com som razoável eu conhecia desde os 8 anos de idade. Agora, um player onde caiba milhares de músicas ao mesmo tempo, tal qual um cassete interminável... ah! isso é demais. E lembrar de uma música, poder ouvir na hora na rede e ainda comprar e receber em casa a obra física ou simplesmente comprar só a faixa?

João Marcello Bôscoli é presidente da gravadora Trama.

outubro 31, 2006

It's ^ 2 U

Simples nova já tá na banca há um cara, mas só agora lembrei de postar a minha coluna aqui...

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É, você

Apesar de aqui ser uma coluna de música e não de tecnologia, e de normalmente a música (depois do sexo, mas isso é outra história) funcionar como boi de piranha pros experimentalismos tecnológicos e lingüísticos de nossa era, vou fazer o caminho inverso. E começar falando de tecnologia para depois voltar para música.

Há algo em plena ebulição na internet atual chamado “Web 2.0”. Apesar de o rótulo parecer estranho – ou pretensioso – pra muita gente, o conceito a gente já tá meio careca de saber, que é quando um site é abastecido pelo conteúdo enviado por seus usuários. Exemplos entopem a rede, da Wikipedia ao Slashdot, mas o programa de humor americano “Colbert Report” funciona como bom exemplo.

Em vez de restringir o acesso das pessoas ao seu programa, os produtores deste incentivam a troca de programas online, a digitalização do show para YouTube, o envio de trechos por email. Em outra palavras, e com aspas inclusas, incentivam a “pirataria” – as aspas servem pra separar a pirataria de verdade desta segunda categoria, que é praticada por 90% das pessoas com acesso à internet e conexão minimamente decente. O programa é tão escrachado em suas intenções, que criou o “Colbert Star Wars Video Challenge” em que, depois de ensinar como se faz um sabre de luz em vídeo, abriu para todos seus fãs a fazerem seus próprios vídeos de Guerra nas Estrelas. A quantidade de vídeos enviados pode ser conferida no site do programa – www.colbert.org - e aumenta progressivamente a cada dia.

(Isso foi tema da minha palestra ao lado do capo do servidor Bad Trip, o compadre Fred Leal, em uma das conferências do Porto Digital, que aconteceu este ano antes do carnaval em Recife. Entre a palestra do Hermano Vianna e do Sílvio Meira, comentamos que o grande barato da Web 2.0 não são suas tiradas de marketing e sim o fato de incluir o consumidor como um dos produtores da cadeia cultural. Além dos exemplos chapa branca [como os do parágrafo acima], sublinhamos o que está sendo feito espontaneamente pelas pessoas, daquele clipe caseiro para “Festa do Apê” do Latino a remixes de trailers, redublagens e paródias)

Volta pra música e lá está meu velho chapa Beck na capa da “Wired”, a “Time” das pessoas que preferem pensar. “O renascimento da música”, escreve a capa rosa, “O rádio é uma merda. As gravadoras são brega. Agora as bandas assumem o controle – e os fãs ganham o que eles querem”. E isso vem acontecendo agora, do nada?

Ainda é inconsciente, mas as pessoas ainda pensam que o mercado é um ser invisível que rege nosso dia-a-dia, enquanto outras pensam que é uma média de gostos que cria um ser impossível, um humano tão mediano que não existe de verdade. Mas, aos poucos, a música (e o sexo, outra história) nos ensina que o mercado somos nós. Quando você diz que não compra discos, porque eles custam 40 reais, isso não é uma atitude isolada. A pirataria e a troca de arquivos online tão aí pra provar isso. E, aos poucos, as pessoas vão percebendo a própria força individual, devagar, movendo o coletivo. Por isso, é hora de se mexer. É, você! Pra depois começar a fazer.

Depois eu falo mais disso.

outubro 1, 2006

Cinco Perguntas Simples: Gabriel Thomaz

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Ainda não, o CD ainda é o "cartão de visita" do artista, ainda marca épocas da vida do artista. Me empolga o fato de cada música voltar a ser o cartão de visita e não cada álbum. Gosto muito em pensar na época que cada artista se concentrava e se preocupava em lançar cada compacto e a carreira seguir assim. A grande maioria dos álbuns tem muita encheção de linguiça...Gostaria muito de ver um artista evoluir música por música...

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Acho que da maneira que o consumidor de música quiser...Comprar CD (ou mesmo vinil), baixar MP3 ou qualquer outro jeito que venham inventar...Eu mesmo continuo adorando comprar discos. No exterior vejo que a venda de downloads já está bem organizada e dando lucro, mas aqui no Brasil não sei muito bem como isso está nem sequer se isto está sendo encaminhado ou planejado. Eu adoraria que as gravadoras disponibilzassem todos os seus arquivos, de todos os gêneros, de todos os tempos, para compra de downloads. Acho que muita gente iria se interessar. E não custa nada...Só lucro.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
A liberdade e a possibilidade de poder consumir de tudo, musicalmente falando. Praticamente tudo que você quer ouvir está disponível em algum lugar, é só querer achar. É lógico que é bem mais fácil pra quem tem um computador...

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Muita coisa, hoje em dia existem milhões de sites dos mais variados tipos de música e de abordagem...Eu curto muito descobrir bandas novas em sites de selos pequenos que existem no mundo todo.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Sim, ver o público de determinadas cidades cantando todas as músicas em shows do Autoramas, mesmo tendo certeza absoluta que nosso CD não chegou nessas cidades...Hoje em dia já nem me preocupo mais com distribuição.

Gabriel Thomaz é vocalista e guitarrista dos Autoramas.

setembro 18, 2006

Cinco Perguntas Simples: Pedro Alexandre Sanches

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Não acabou, e acredito que não acabará, mas isso é opinião de dinossauro - se compro disco de vinil até hoje, como posso acreditar que acabará o CD, ou qualquer outro suporte físico? Agora, tirando a visão de dinossauro, não dá mais para tapar o sol com a peneira: não acabou e pode ser que não acabe, mas nunca foi tão minúsculo, tão encolhido, tão pouco importante. E ainda tem espaço de sobra para encolher mais ainda...

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Incógnita total, né? É claro que tudo indica que vai ser virtual, do modo como for, mas quem pagará a conta? Se tudo ficar grátis, quem vai financiar a produção da música que depois a gente irá consumir gratuitamente? É uma equação que não fecha, eu não tenho a menor idéia de qual será o balanceamento de extinções e criações que vai fundar a música do futuro. Me vem à cabeça umas idéias que o João Marcello Bôscoli divulga, que, se não me engano, têm alguma coisa a ver com o David Bowie: a música distribuída feito água de torneira, luz elétrica, gás encanado - está no ar, você paga um consumo mensal (mas para quem?), essas coisas... Enfim, estou elucubrando. A minha resposta mesmo é a primeira: incógnita total.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
Puxa são várias, inúmeras. Não consigo eleger uma só, mas se puder tirar da cartola só umas poucas que me ocorrem de imediato, eu citaria algumas. A desmonetarização geral de tudo que conhecíamos como "indústria". A ruína progressiva das maracutaias que "construíam" o sucesso "musical" em gravadoras, rádios, TVs, imprensa etc. A gratuidade que a internet está concedendo a música, imagem, texto etc. A perda progressiva, ainda que vagarosa e temerosa, dos indivíduos em expressarem o que pensam sobre o mundo, inclusive na hora de produzir arte e cultura. A liberdade de criação que vem crescendo maravilhosamente em função desses itens anteriores todos.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Ai, Matias, você sabe que eu sou dinossauro, né? Amo os progressos tecnológicos e cibernéticos quase na mesma medida que resisto a eles... Não conheci o Cansei de Ser Sexy pela internet, até hoje ainda não ouvi o Bonde do Rolê, continuo com preguiça de assistir no computador o show de volta dos Mutantes em Londres. Eu vibro com todas essas coisas, mas seria mentiroso se dissesse que descobri algum artista genial pelos meus próprios méritos exploratórios combinados com as ferramentas que ganhamos nesse incrível início de século XXI... Mas eu ainda chego lá!

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Ops, esta é a minha pergunta favorita! Realizou muitos, inúmeros, gigantescos. Ver a música funcionando a pleno vapor mesmo quando o jabá e o caixa 2 e as mamatas e as tramóias da indústria fonográfica vão se desmilinguindo é um sonho realizado. Perceber como a música está cada vez mais inteligente e liberta de convenções paralisadoras e limitadoras (à parte a avalanche de sósias de Los Hermanos que não páram mais de surgir) é um sonho realizado. Ver linhas diretas de diálogo sendo abertas, via internet, entre artistas, produtores, críticos e "eles", os consumidores, os "cidadãos civis", que até há pouco eram mera platéia passiva (e abobalhada, na opinião dos "formadores"), é um grande sonho se realizando pouco a pouco. Testemunhar uma nova leva de pujança e força de músicas criadas nas periferiasq (hip hop, funk carioca, tecnobrega etc.) é um sonho que eu nem sabia que tinha, mas que vai se realizando à medida que eu o descubro. Falo tudo isso a respeito da música, que é o que eu mais gosto de acompanhar como jornalista, mas acho que já começa a valer também para o jornalismo, que é a minha "real" área de atuação. E paro para não ficar comprido demais, porque teria mais uma montanha de sonhos realizados para citar, antes de começar a falar da montanha dos ainda não realizados, hahaha.

Pedro Alexandre Sanches escreve na Carta Capital e é autor dos livros Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba e Como Dois e Dois São Cinco.

setembro 12, 2006

Cinco Perguntas Simples: Lucas Santtana

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Se o vinil até hoje não só resiste como é objeto de culto é dificil dizer que o CD acabará. A questão é que existe o HD que de uma certa forma é uma superação do CD, ou dos CDs. Um iPod, ou similares, é um pequeno HD que transporta muitos CDs e com isso a cultura da faixa prevaleceu. Na verdade ela nunca foi superada pelo disco porque na rádio você escuta uma música de cada vez, na internet vc baixa uma de cada vez, isso sem falar que antigamente só existia o single. Acho que o prazer de ter em mãos e escutar um disco é como ler um livro, tem uma história ali sendo contada e uma vontade de vivenciar aquilo; isso sempre existirá concomitantemente com o recente prazer de descobrir uma faixa e poder baixa-lá de graça.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
De todas as formas como já é hoje. Alguns vão na rede atrás de comprar, outros vão na intenção de baixar gratuitamente. Nos shows as pessoas pagam para assitir. Vão haver rádios como canais de TV a cabo onde você vai pagar para ter direito a tantas músicas por mês e isso será repassado aos autores, como quando toca uma música na rádio ou TV e você recebe por isso, etc.. Difícil ser profeta com tantas mudanças em andamento. Quem souber avisa aí!

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
A digitalização da cultura e a possibilidade de troca e manipulação desses arquivos com outras pessoas no mundo todo e em tempo real.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Porra! Tem espaço aí? Chicago Underground Trio, Cutty Ranks, Dengue Fever, Konono, Mikey Dread, Mogwai, Mugison, Rhythm & Sound, Shy FX & UK Apache, Sub Dub, só lembrando rapidamente…

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Mais que sonhos, me possibilitou conquistas. Hoje tenho meu netlabel www.diginois.com.br, onde opero todo o conteúdo, onde posso disponibilizar minhas músicas para pessoas que moram no interior do mundo e não teriam acesso de outra maneira. Onde posso gerar hipertextos e a possibilidade de minhas músicas serem remixadas e não terem mais um fim no CD. Até coisas simples como dar essa entrevista por e-mail há pouco tempo atrás não era uma prática comum nas redações de uma revista. Redações?...

Lucas Santtana é músico e concentra suas atividades - e seu disco novo, 3 Sessions in a Greenhouse - no site Diginois.

setembro 5, 2006

Cinco Perguntas Simples: Dagoberto Donato

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Não. Ainda há espaço para ele. Acredito que ainda haverá por anos. O que acontece é que, cada vez mais, ele deixa de ter o papel principal e passa a atuar como coadjuvante. O fato é que o CD ainda vende. Não como antes, mas vende. Ainda acredito também na banda que faz um showzão e tem a barraquinha pra vender o CDzinho a um preço amigo depois da apresentação. O que não rola é comprar CD de major a 40 reais enquanto ele tá dando mole de graça na net.

2) Como a música sera consumida no futuro? Quem paga a conta?
Boa pergunta. Me dá uma resposta que eu vendo para uma major. Rachamos os lucros.

3) Qual a principal vantagem desta epoca em q estamos vivendo?
A principal é que você pode ser seu próprio filtro. Lembra quando a gente lia na Bizz sobre aquela banda que lançou um CD fabuloso nos confins do Oaklahoma, juntava dinheirinho pra comprar CD importado e muitas vezes quebrava a cara? Isso não existe mais. Acho lindo como a informação está descentralizada e o acesso à música fácil. Você acha a musiquinha num MP3 blog - nem precisa ler o que o cara escreveu -, site de gravadora ou ouve falar da banda. Escuta uma vez. Gostou? Baixa mais, compra o disco. Não gostou? Já era. Próxima.

4) Que artista voce soh conheceu devido aas facilidades da epoca em q estamos vivendo?
Muitos. Todos os dias. Meu favoritos do último mês: Beirut, Lily Allen, Dead Indians,Simian Mobile Disco, Tokyo Police Club, Plus-Tech Squeeze Box.

5) O estado da industria da música atual jah realizou algum sonho seu que seria impossivel em outra epoca?
Acho que aqui não se trata da indústria, mas da tecnologia. Acho que seria difícil a existência de festivais como os que rolam hoje em dia (Tim, CPF, Coquetel Molotov, etc), com bandas desconhecidas do grande público do país caso não houvesse um pequeno, mas considerável, número de pessoas um pouco mais informadas musicalmente. E muito dessa informação deve-se à tal facilidade de acesso que citei em alguma pergunta anterior. Vi Flaming Lips ao vivo na mesma noite que Sonic Youth. Vi Arcade Fire junto com Wilco. Vi o Damo Suzuki tocando com músicos brasileiros. Vi Four Tet, LCD Soundsystem, Liars e Kid Koala no mesmo festival. Acho o tipo de coisa que seria impossível alguns anos atrás.

Dagoberto Donato é editor da Trama Virtual.

agosto 22, 2006

Cinco Perguntas Simples: Eduardo Ramos

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Não acabou e não vai acabar. Frescura quem fala que vai acabar. Sempre vai ter gente comprando disco, não importa o formato. O mercado vai ficar menor para o suporte físico, mas nunca vai acabar.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Alguém com certeza, porque mesmo com todas as evoluções das técnicas de gravação caseira – hoje dá para fazer um disco muito bom em casa –, ainda existem custos. Afinal o computador que o cara gravou o disco em casa, ele comprou, certo? Para conseguir um som excelente, você geralmente precisa equipamento físico, não apenas plugins e isso custa muito caro... Ou seja, esta pessoa tem que vender sua musica de alguma maneira.
O ponto é que hoje em dia o que realmente dá dinheiro e realmente tem uma otima performance em termos de ganhos são os shows. Então imagino todo mundo voltando aos anos 40/50, quando um disco era uma grande desculpa para colocar a banda na estrada. Artista que não tem um show fácil de levar para a estrada ou não está na estrada é um artista limitado. Já que o circuito de música ao vivo esta muito forte, as empresas estao de olho nisso. Para quem paga um milhão de reais por um festival, em algum momento eles vao pagar – já pagam fora do Brasil - 1 milhão para ter um certo numero de downloads, ou, vamos dizer, gastar 500 mil em um festival e 500 em downloads.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
Fluxo de informação. Qualquer um acessa qualquer informação. Antes era muito complicado. Tinha que ter grana para ler revistas ou livros de fora do Brasil. Hoje tudo está linear.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Putz.... qualquer artista pós-97 eu conheci por causa da internet. Quem escuta rádio? Ainda leio revistas, mas internet é o lance.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Com certeza. Por exemplo poder falar com artistas diretamente. Ou conseguir gravar um disco e distribuir o mesmo sem sair de casa.

Eduardo Ramos é dono da gravadora Slag.

agosto 18, 2006

Cinco Perguntas Simples: Rodrigo Gorky

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Em 1996, quando você ia a uma loja e acabava com sua mesada - em 96 eu tinha 15, vai! -, o disco tinha o 'grande objetivo' de ser escutado a qualquer hora e também por questões afetivas... Dez anos depois e o disco perdeu completamente esse propósito, hoje em dia é muito mais 'item de colecionador' do que uma maneira a mais da banda/artista ser escutado.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Acho que nesse mesmo caminho que estamos trilhando - MP3s à solta, CDs pirata a preço de banana - especialmente aqui no Brasil - o que percebi lá fora é que existe um mercado pra pagar 99c por um mp3... E acho que a autonomia das pessoas pra ouvir a música do jeito que ela quer vai aumentar - você faz o download das partes da música em trilhas separadas (ou compra essas partes, como no u-myx) e monta do jeito que quiser.
Isso quebra bastante aquela barreira entre os artistas e os consumidores e atrás do mp3, é a melhor coisa que apareceu na indústria da música. E quem paga a conta ? Acho que fica pendurada ali no caixa das gravadoras que não conseguem se adaptar a tudo isso...

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
De novo, a palavra é autonomia - você como artista pode conseguir o reconhecimento de um modo extremamente fácil e você como consumidor perde toda a parte burocrática de 10, 20 anos atrás.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Acho que tudo que tenho escutado nos últimos anos tem sido por essas facilidades! A preguiça aliada à facilidade de abrir o soulseek e baixar o disco daquela banda que você viu nos arquivos do seu amigo que só escuta coisa legal é a grande culpada.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Com certeza! Quando que ia imaginar, por exemplo, ter as acapellas da maioria das coisas que gosto? E conseguir ouvir um preview do disco vindo diretamente daquela banda que você gosta? Ouvir o show do Daft Punk no dia seguinte, sem ter estado lá?

O Gorky é DJ do Bonde do Rolê

agosto 15, 2006

Cinco Perguntas Simples: Claudia Assef

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Você diz o CD? Este tá gagá, coitado, acho que é questão de 10, 15 anos pra ele ir desta pra melhor. Porque não vai fazer mais sentido você manter músicas num formato que suporta tão pouca informação quando comparado, por exemplo, um DVD ou mesmo a um pen drive... E pra ouvir, pra transpotar, que ainda é o grande valor dele, aí é que a indústria vai ter que suar a camisa e criar um produto atraente o bastante - o que eu acho difícil, porque competir com a comodidade que é comprar as faixas que quiser, com capinha e tudo, pelo internet, sem tirar a bunda da cadeira... Tá ruim pro CD, viu...
Em compensação, realmente acredito que o vinil passa por mais esta com uma certa tranquilidade. Não é romantismo, não, tô dizendo porque cada vez mais artistas fazem questão de lançar seus trabalhos também em vinil. Em Londres e Berlim, lojas de departamento têm umas puta seções de vinil... E não é só pra DJ, não, tem muita gente que ainda curte ter uma capa legal - e vamos combinar que só aí o CD, coitado, já perde de 10 a 0 -, gostam de manusear o vinil... Outro dado que não me deixa mentir é que nunca quanto nestes anos 00 fabricantes como Numark e Technics investiram tanto em pesquisas pra criar novos features pra velha e boa pick-up...

2) Como a musica sera consumida no futuro? Quem paga a conta?
Se eu soubesse, já tinha vendido a fórmula pra alguma major e tava agora comendo mangabá embaixo de uma sombra lá em Moreré, hehehe. Mas, sério, acho que não nada muito de ficção científica aqui. O que temos hoje é uma evolução muito rápida do que uns dois, três anos atrás parecia coisa de idiota: se dá pra baixar músicas de graça na internet, pra que alguém vai pagar por este serviço, né? Só que o que vemos hoje é que as pessoas querem sim pagar pela 1) comodidade, você não precisa passar três dias e três noites atrás de uma música difícil 2) qualidade inquestionávelmente melhor dos arquivos comprados, muitas vezes até em flac, que é um formato que permite perda de qualidade 3) confiabilidade, vc não quer ouvir uma faixa sem ter certeza que as informações daquele MP3s estão corretas, né...
Eu mesma já baixei uma porrada de discos errados - com nomes trocados ou mal grafados... A venda pela internet é interessante pra quem compra por todas essas razões, é interessante pro artista, porque ele chega mais rapidamdente ainda no seu alvo final, que é o consumidor...
Só não é tão interessante pras gravadoras, né, porque num dá mais pra cobrar o olho da cara que custava um CD, já que não dá pra justificar gastos como distribuição, prensagem, arte final... Mas, olha, acho que até os tubarões mais famintos já se ligaram que é o jeito, é o caminho. Claro que eles terão que se acostumar a andar de Astra e não mais de Mercedez, mas é a vida...
Por outro lado, as gravadoras têm tido cada vez menos que arcar com custos de gravação, já que a tecnologia barata viabilizou a vários artistas entregar seus produtos prontos ou semi-prontos. Portanto, noves fora, as gravadoras ainda saem ganhando sim. Não mais rios de dinheiro, não dá mais pra ter departamento de imprensa com 17 pessoas trabalhando, não dá mais pra pagar pra Sula Miranda morar no Maksoud Plaza... Mas ninguém vai passar fome!!!!

3) Qual a principal vantagem desta epoca em q estamos vivendo?
Eu acho que é baixar a bola das gravadoras, sabe, quem precisa de Rolls Royce é a rainha da Inglaterra... Em segundo lugar, é igualar todo mundo. Tipo, quando eu era adolescente, até conseguia ter o que a molecada ouvia na Inglaterra, porque tinha um pouco de grana e sabia onde ir buscar – afinal morava em SP, então dava pra descolar coisas importadas nas galerias, na 7 de abril... Quando eu viajava pro interior, onde vivia a família do meu pai, a garotada me olhava como se eu fosse um ET: como, afinal, eu podia ter discos tão doidões, um visual que parecia que eu vinha de "Londres", nossssssa, como eles me achavam moderna, e olha que eu comprava tudo aqui em SP mesmo... Imagina um adolescente do Acre nos anos 80???
Porra, a internet deu uma banana pra tudo isso. Hoje, não importa da onde você é, importa a tua essência e a tua vontade de ser. A localidade ficou restrita a coisas menores, como sotaque e alguns traços comuns, mas não mais por falta de acesso a "produtos" culturais.

4) Que artista voce soh conheceu devido aas facilidades da epoca em que estamos vivendo?
Ouvi Cansei de Ser Sexy pela Trama Virtual assim que elas colocaram as músicas lá, já faz um bom tempo. Atualmente, adoro as músicas do Caxabaxa, que eu também só ouvi pela internet. Fora um monte de coisa esquisita das milhares de net labels que tão por aí. Netlabel é tudo de bom! Os caras são mini-selos que realmente não visam nada além de divulgar músicas e artistas que eles adoram. E tudo com a maior qualidade – vai em qualquer netlabel, cê vai que as músicas todas têm mais de 10megas!!! São gigantes, pra manter a qualidade...

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra epoca?
Um HD com 32 gigas de música no meu laptop, fora uns HD externo que já tá chegando em quase 100 gigas, hehehehehe. Me sinto a própria "Hi-Fi" da r. Augusta ambulante.

Claudia Assef é editora da revista Beatz

agosto 14, 2006

Ecoturismo mental

Traduzi esse texto - que tá livre, online - pro livro Futuro Proibido, da Conrad, que saiu tem uns três ou quatro anos. Vou botar esse capítulo aqui mais como um tira-gosto - já que o livro ainda conta com contos do Sterling, Burroughs, do Ballard, do Rucker, do Peter Lamborn Wilson (o Hakim Bey). Aliás, dizem que foi ele quem escreveu esse Visite Port Watson também, mas oficialmente, este texto é de um anônimo. Saca só.

Visite Port Watson!
Anônimo

1- Geografia e Descrição Física

A Ilha de Sonsorol, no Pacífico, um vulcão extinto cercado por recifes de coral, situa-se a 5º acima do Equador e a 132º de longitude, cerca de 650 km ao leste do extremo sudeste das Filipinas e 480 km ao norte do Estreito de Dampier na Nova Guiné. Ela possui aproximadamente 16 quilômetros de diâmetro e uma área de cerca de 145 km².

O clima é típico da região: temperaturas balsâmicas e constantes (28º a 33º o ano todo), eventuais tufões violentos, monções de setembro a fevereiro, brisa do mar ao longo da costa, floresta tropical úmida e abafada nas encostas mais baixas do Monte Sorosol (especialmente densa na parte norte da ilha, exposta aos ventos alísios) - próximo ao cume, o tempo é quase permanentemente nublado, fresco e nebuloso, e a selva se estreita em uma “floresta de nuvem”—musgo, pequenas árvores envoltas por musgos, hepáticas e orquídeas epífitos. Sonsorol possui água fresca em abundância, incluindo cachoeiras nos morros, e até mesmo um pequeno rio, o Garuda.

Vegetação: fartura e variedade típicas das regiões tropicais, incluindo muitas espécies de orquídeas e uma pletora de outras flores e frutas tropicais. Antigamente, copra, taro e cana-de-açúcar e abacaxi eram plantados na região de savana do sudoeste. Agora as plantações foram abandonadas e nunca mais forma cultivadas, com a exceção de alguns pomares de coco reservados para o consumo local (todas as partes da planta são usadas, em culinária, construções, etc.). A fauna nativa é escassa, na sua maior parte limitada a pássaros e insetos (que podem vir a ser irritantes). Porcos, galinhas, cabras e outras espécies européias foram importadas no século XVII. A pesca é espetacular, e oferece tanto a dieta básica, quanto uma boa porção de esporte; os três pequenos atóis de corais que pertencem a Sonsorol proporcionam mergulhos magníficos e são ricos em tipos raros de peixes tropicais (ver Excursões).

De forma quase circular, e sem nenhuma baía ou braço de mar decente, Sonsorol pareceria a princípio estrategicamente inadequada para a sua antiga função de encravamento pirata; contudo, os recifes de coral que cercam a ilha formam uma espécie de lagoa, na qual os navios podem ficar ancorados com bastante segurança, mesmo com mau tempo.

2- Como Chegar Lá

Viajar no Pacífico normalmente consume muito tempo ou muito dinheiro. Sonsorol continua sendo uma das ilhas menos acessíveis em toda a área. Nenhuma linha aérea comercial pousa lá. Navios cargueiros levam cargas para Sonsorol, de Mindanao, Java, Taiwan, Hong Kong e outros portos, mas o único navio que faz escala ali com alguma regularidade é o The Queen of Yap, um navio a vapor enferrujado e sem rota, que navega entre Zamboanga e as Ilhas Caroline aproximadamente uma vez por mês. (Informações e reservas podem ser obtidas com a Ngulu Maritime Co. Ltda, Kalabat, Yap, U.S. Trust Territory do Pacífico.)

Port Watson é hoje o único porto de entrada para Sonsorol, e não existe ali nenhuma Autoridade de Alfândega & Imigração. No entanto, ninguém deve esperar passar despercebido em uma cidade tão pequena. Qualquer um que fique mais de um mês provavelmente será solicitado com educação a requerer residência ou então ir embora (ver Como se Tornar um Morador).

Visitantes na República de Sonsorol (do lado de fora do Encravamento Port Watson) são incentivados a carimbar seu passaporte na Agência dos Correios na Sede do Governo na cidade de Sonsorol (ver) — o carimbo de visto é muito bonito— mas ninguém irá insistir nisso. Nem Port Watson, nem a República possuem polícia, portanto os moradores tendem a ficar atentos para problemas e se responsabilizam a solucioná-los. Visitantes hostis, insultuosos ou estrepitosos costumam apanhar de membros do comitê de vigilância ou da Milícia do Povo, e são banidos no próximo navio de partida. Geralmente, no entanto, os visitantes são bem vindos (“não turistas, mas visitantes”, disse uma vez o Sultão), e os habitantes são amigáveis, até em excesso.

3- História Antes da Independência

Os habitantes “aboriginais”, de ancestrais malaios e polinésios miscigenados, podem não ter chegado antes do século XIV; se eles encontraram e absorveram algum grupo mais antigo, não se sabe. Presume-se que esses povos eram “pagãos” de algum tipo; indícios de sua língua sobrevivem em nomes de lugares, terminologia das artes e ofícios, etc., ainda que o atual dialeto consista em uma mistura perturbadora de linguagem indonésia, sulauês, espanhol, holandês e inglês. (Aparentemente, teatro e poesia interessantes estão hoje sendo compostos no “idioma” sonsoroleano). Tudo o que resta do período “pré-histórico” ou pré-Moro é uma enigmática ruína perto do topo de uma cachoeira na subida do Monte Sonsorol (ver Excursões).

Em meados do século XVII, Sonsorol foi invadida por piratas de Sulu, que se auto denominavam Moros (“Mouros”, isto é, muçulmanos) apesar de suas tripulações incluírem diaques (N. do T.: Povos do interior da ilha de Bornéu, na Malásia) do mar, bugis (N. do T.: Povo marinheiro e comerciante, forma a maior parte da população da ilha de Célebes, na Malásia) das ilhas Célebes, javaneses e outras figuras do leste asiático. Seu almirante semilendário, o sultão Ilanun Moro, estabeleceu-se com alguns de seus seguidores — os quais formaram assim uma “aristocracia” insulana medíocre.

O islamismo foi adaptado de forma bastante branda pelos Moros de Sonsorol: eles ignoravam a rigidez da Lei Divina eles ignoravam e o analfabetismo os mantinha na ignorantes sobre o Alcorão. Como beduínos do mar, a religião servia a eles como uma nova identidade étnica e um pretexto para pilhar suas vítimas “infiéis”.

Tendo Sonsorol como base, eles continuaram sua predação e ficaram razoavelmente ricos — e finalmente adquiriram uma pitada de cultura. No final do século XVIII e começo do XIX o critério dos javaneses prevaleceu e sufis indonésios visitaram a ilha.

Infelizmente nenhum vestígio arquitetural desta “Época de Ouro” sobreviveu à invasão e à conquista pela forças espanholas sob o comando do governador das Filipinas, Narciso Clavería y Zaldua, em 1850. Os sultãos de Sonsorol foram praticamente os últimos dos piratas Moros a serem dominados e os conquistadores impuseram-lhes um regime colonial destrutivo e predatório, incluindo conversão religiosa forçada e completa escravidão.

Em 1867, porém, os espanhóis já haviam perdido o interesse pela ilha , o que não produzia nada além de copra e desgosto. Os governadores holandeses da Indonésia anexaram Sonsorol ao seu império após uma única batalha superficial. Os nativos consideravam os holandeses um avanço em relação os odiados espanhóis, e a princípio apresentaram poucas objeções — na verdade, muitos se converteram para a Igreja Reformada Holandesa.

A influência holandesa ainda é forte em Sonsorol. Quase não há famílias na ilha que não tenham sangue europeu. Palavras holandesas sobrevivem no dialeto. O Antigo Bairro da cidade de Sonsorol (ver) se orgulham das diversas casas modestas, porém agradáveis no estilo “batavo”, com fachadas levantadas e telhados vermelhos. Uma visita à “Catedral” Calvinista e a pequena Sede do Governo também valem a visita.

Neste período a “aristocracia” Moro (aqueles que seguiam sua descendência dos piratas) retrocedeu a seu tipo de islamismo brando. Aos sultões foram conferidos “títulos de cortesia”, mas eles permaneceram sem poder e sem dinheiro. A cultura javanesa moldava as suas atitudes, especialmente as artes da música gamelan (N. do T.: Música folclórica da ilha de Java, essencialmente percussiva, graças à imensa quantidade de instrumentos de percussão, tanto de pele (o tambor que lidera a música, chamado kendang, além do bedug e bonang) quanto de metal (conjuntos de sinos e gongos, como kenong, kempul, gambag e sletem), mas também harmônica, devido à presença de instrumentos de corda (rebab, clempung) e flautas (suling). O gongo, instrumento hoje incorporado à música popular e erudita mundiais, tem sua origem (etmológica, inclusive) na cultura musical gamelan) e da dança, os ensinamentos esotéricos das seitas kebatinans (incluindo artes marciais e bruxaria), e o conceito milenar do “Rei Justo”. Fora desta efervescência —uma estranha mistura de proto-nacionalismo revolucionário e fervor místico —o ressentimento para com os holandeses começou a se inflamar.

Em 1907 (o mesmo ano em que os Países Baixos finalmente conquistaram o norte de Sumatra), o sultão de Sonsorol, Pak Harjanto Abdul Rahman Moro I, encenou um trágico e fútil levante contra as forças coloniais. Diz-se que seus seguidores acreditavam ser magicamente invulneráveis a balas. O sultão e outros conspiradores foram executados, o título abolido, e a ilha afundou em depressão, sonolência, indiferença e obscuridade.

No início da Segunda Guerra Mundial, a população de Sonsorol havia caído para cerca de 2000 pessoas, com administração e guarnições militares holandesas que não passavam de cinqüenta pessoas. Em 1942, os japoneses fizeram uma conquista fácil da ilha, mamdando europeus para campos de prisão em Java, construindo algumas casamatas (ainda existentes), deixaram para trás uma força simbólica e partiram para a invasão da Malásia.

Os novos chefes supremos japoneses comportavam-se de maneira severa, quase sádica — se é que se pode dar crédito às histórias ainda contadas em Sonsorol — e um sentimento antinipônico sobrevive até hoje. Em 1945, um único navio tripulado por forças navais neozelandesas e australianas chegou para liberar a ilha. Os japoneses panejaram uma resistência suicida, e a população nativa, liderada pelo sultão Pak Harjanto III (neto do mártir de 1907) — juntou-se a batalha pela liberdade no dia 20 de julho.

O período pós-guerra encontrou Sonsorol com novos mestres coloniais: um Protetorado Misto sob o comando da Austrália e da Nova Zelândia. Uma queda no preço da copra arruinou os últimos resquícios de economia. A emigração aumentou, e em 1952 a população havia caído para menos de mil. O Protetorado, sobrecarregado pela administração de outras ilhas do Pacífico, ignorou Sonsorol, exceto como uma fonte de mão-de-obra barata.

O sultão, herói da libertação, começou a agitar para a independência. Sincero admirador da democracia ocidental, ele acreditava que a liberdade política iria, de alguma forma, resolver os problemas da ilha. Em 1962 o Protetorado permitiu um plebiscito e a maioria expressiva escolheu independência sob uma Monarquia Constitucional. No dia 17 de agosto daquele ano, o Protetorado Misto retirou-se.

4- História Desde a Independência

Os benefícios esperados da liberdade fracassaram em materializar-se. A emigração foi interrompida. Apenas um auxílio escasso e relutante dos governos do antigo Protetorado evitava que a população ficasse completamente à míngua. Em 1967, o sultão enviou o seu jovem filho e herdeiro, Pak Harjanto Abdul-Rahman IV, para a faculdade nos Estados Unidos, com a vaga esperança de que isso resultasse de alguma forma em uma infusão de ajuda norte-americana. O Príncipe Herdeiro obteve uma bolsa de estudos na Universidade de Berkeley, e se formou em economia.

Na California, o Príncipe se sentiu atraído pelo “Movimento”— direitos civis, anti-guerra, liberdade de expressão, consciência ecológica, Haight-Ashbury (N. do T.: Famosa esquina em San Francisco que tornou-se epicentro da cultura hippie desde 1966), etc. — e logo se viu convencido pela filosofia anarquista libertária. Na faculdade, conheceu Travis B. O’Conner, descendente e herdeiro de uma família do ramo do petróleo de Oklahoma/Texas (não eram super-ricos, mas definitivamente milionários). Eles trancaram a matrícula por um ano e aproveitaram/apreciaram juntos um Wanderjahr (N. do T.: Ano de viagens, em alemão) americano. O Príncipe nunca perdeu o senso de responsabilidade em relação à sua terra-natal: todo o seu pensamento e estudo visavam a salvação do seu povo, ou pelo menos o alívio. O’Conner ficou fascinado com as histórias de Sonsorol, e juntos os jovens amigos maquinavam e sonhavam.

Eles raciocinavam da seguinte forma: quase todas as utopias clássicas — da República de Platão à Fazenda Brook (N. do T.: Fundada nos Estados Unidos pelo casal transcendentalista George e Sophia Ripley, a Fazenda Brook é a comunidade experimental e utópica mais conhecida na história norte-americana. Batizado The Brook Farm Institute of Agriculture and Education, a comunidade existiu entre 1841 e 1847, em West Roxbury, Massachussets) — envolvem um alto grau de abstração. A implementação de idéias abstratas na sociedade requer um correspondente alto nível de controle autoritário. Como resultado, a maioria das utopias em prática se revelaram opressivas e paralisantes — “planejamento social” pareceria uma ofensa por definição contra o “espírito humano”. O’Conner e o sultão desejavam uma utopia anarquista, sem autoridade — e mesmo assim eles perceberam que a utopia é impossível sem a abstração.

A maior e mais opressiva de todas as abstrações modernas é a finança, o negócio bancário, a criação de riqueza a partir do nada, da pura imaginação. Ora, os piratas de antigamente viviam praticamente sem autoridade — até mesmo os seus capitães eram praticamente os primeiros dentro de um grupo de iguais — e eles criaram “utopias” sem lei ou encraves financiados por riquezas roubadas. Os dois jovens amigos decidiram que, uma vez que Sonsorol não poderia nunca produzir nenhuma riqueza de verdade, eles deveriam seguir o procedimento dos piratas — reconhecidamente o caminho dos parasitas e bandidos, e não dos “verdadeiros revolucionários” — e roubar a energia que precisavam para financiar e fundar a sua utopia. O ladrão de banco rouba bancos “porque é ali que está o dinheiro”— mas o banqueiro rouba bancos e até os seus próprios depositantes com total impunidade legal. Os sonhadores da Califórnia decidiram entrar nos negócios bancários.

Em 1979, o velho sultão morreu e o seu filho o sucedeu no trono de uma ilha esquecida e arruinada. De imediato, ele e O’Conner começaram a pôr seu plano em prática. Começaram com a criação de um banco mercantil chamado “A Associação de Poupança e Empréstimos Ilanun Moro” (ironicamente batizado com o nome do pirata fundador da dinastia). O novo sultão então deu andamento a uma série de projetos de lei através da legislação da ilha: ele possibilitou a criação de um encrave de porto livre, Port Watson (a origem do nome nunca foi explicada), que consistia em dez quilômetros quadrados de plantações de copra abandonadas. O Banco, utilizando-se das relações e do capital da família O’Conner, mudou-se para Port Watson e deu início às operações com proteção de regulamentação fiscal: subsidiárias fantasmas, registros livres de impostos, “intermediários” e “gráficos estranhos”, especulação da moeda, atividade secreta intermediária para sociedades chinesas em terra, lavagem de fundos para certos “homens de negócio” chineses transoceânicos , contas numeradas, e assim por diante. Port Watson foi planejado para usufruir de uma liberdade quase total da lei; o banco praticando uma forma nova e invisível de pirataria. Uma vez que, para a sua eficácia, ela depende das comunicações via satélite, ela poderia talvez ser chamada de Pirataria Espacial!

O Banco de Sonsorol possui poucos bens “reais”, poucos que possam ser saqueados — sua riqueza existe em grande parte em memórias de computador. Suas maquinações discretas são toleradas por interesses bancários internacionais; afinal de contas, uma conta “cega” ou algo do tipo mostra-se útil, de tempos em tempos, até mesmo nos círculos financeiros mais respeitáveis. Quase da noite para o dia (1976-1980) Sonsorol se tornou moderadamente próspera.

Todo cidadão de Sonsorol e morador de Port Watson, criança, mulher e homem, tornou-se um acionista eqüitativo no Banco; todos— inclusive o sultão e O’Conner — possuem exatamente uma ação dos lucros. Em 1980, cerca de mil pessoas em Port Watson e 2000 em Sonsorol, recebiam, cada uma, um dividendo anual de cerca de US$ 4.000. Em 1985, a população total chegou a 9000 e o dividendo um pouco mais de US$ 5000 — praticamente uma renda garantida.

Além da criação de Port Watson e do Banco, muito poucas mudanças foram feitas na estrutura legal de Sonsorol, a qual continua sendo (ao menos no papel) uma república de estilo anglo-americano com legislação, exército, polícia, educação compulsória, impostos e assim por diante. Nenhum poder estrangeiro pode acusar a ilha de “anarquia”— e em todo caso, o Governo Trabalhista da Nova Zelândia assinou recentemente um tratado de defesa que oferece proteção e reconhecimento internacional para a república. Na superfície, tudo está normal. A Constituição foi reformada para separar a Igreja Reformada Holandesa do Estado e permitir a liberdade de credo (1976), e em 1979 o sultão abdicou de todas as funções executivas e se reduziu a uma figura cerimonial. Como ele colocou, “eu alcancei o estado do Rei-Sábio taoísta descrito no Chuang Tzu: Eu me sento em meu trono voltado para uma direção propícia — e não faço absolutamente nada!”

Na prática, no entanto, as funções da República caíram quase totalmente em desuso. Nenhum exército ou polícia existe porque ninguém se alista neles. Em vez disso, uma Milícia do Povo voluntária trabalha em emergências (extremamente raras até hoje). Impostos não são coletados, leis morais não são executadas. A legislação não aprova mais nenhuma lei nova (embora se reuna de tempos em tempos para debater projetos e questões filosóficas). As escolas existem, mas a freqüência é voluntária. Ninguém precisa trabalhar, e muitos consideram a sua cota de ação suficiente para sustentar vidas de polinésio dolce far niente. Qualquer pessoa que tenha objeções quanto à “monarquia minarquista” da República pode se mudar para Port Watson, onde não existe absolutamente nenhuma lei.

O “verdadeiro trabalho” de Sonsorol, negócios bancários, pode ser conduzido por um punhado de hackers de computadores e negociantes astutos (apelidados de “Sindonistas”). Contudo, o sultão e O’Conner queriam ver Port Watson se tornar uma comunidade libertária genuína, e estimularam a imigração oferecendo empréstimos sem juros e até mesmo subvenções integrais a pessoas prestativas e solidárias. Diversas organizações coletivistas importantes foram fundadas: o Centro de Energia (ver), uma cooperativa para energia alternativa, tecnologia apropriada e agricultura experimental; e as Academias (ver), voltadas para educação e pesquisa — escolas para crianças, e filosofia “natural” de todos os tipos para estudantes avançados.

Pequenos empresários, a maioria chineses, também foram convidados a abrirem lojas. Enérgicos e econômicos, eles expandiram as suas ações em pequenos negócios e hoje dominam diversos aspectos da vida comercial de Port Watson. Centenas de libertários e anarquistas da Europa e das Américas afluíram para Sonsorol, cada um com algum experimento de vida, culto da Nova Era, comunidade utópica, artesanato, arte ou projeto de estimação. Alguns Sonsorolanos que haviam migrado para a Nova Zelândia nas décadas de 1940 e 1950 voltaram para reivindicar as suas Ações de Cidadãos. A ilha ficou viva — mais uma vez — graças à "pirataria"!

Em Port Watson, todos os negócios e, de fato, todas as relações humanas são executados através de contratos. Não existem órgão de regulamentação para interferir em acordos feitos entre “parceiros em consenso”, seja na cama ou em um negócio bancário. Os contratos podem ser testemunhados por uma empresa de arbitragem independente. Reclamações contra grupos ou indivíduos são julgados por um “Sínodo Aleatório” — um comitê de Acionistas ad hoc escolhido por computador. Este Sínodo não possui nenhum poder de coerção. Na teoria, um “réu” que recusasse as recomendações do Conselho ficaria livre e o queixoso não teria nenhum recurso senão o duelo ou a vingança. Na prática, porém, isso só ocorreu uma ou duas vezes. Pede-se aos novos colonizadores em Port Watson apenas para concordar em viver de acordo com este anti-sistema, para doarem um dia por mês para projetos comunitários (conhecidos como “trabalho de merda”) e para absterem-se de comportamentos coercivos ou opressivos. Este acordo é chamado de “assinar os Artigos”, de acordo com o velho costume entre os bucaneiros e corsários. De fato, a forma de “governo” de Port Watson poderia ser chamada de Pacto de Piratas — ou talvez comunismo laissez-faire — ou anarco-monarquia (uma vez que cada ser humano é considerado um “senhor livre” ou agente soberano).

A terra só é “possuída” quando é ocupada e usada. Uma comunidade típica pode consistir de uma única construção, sem terreno, com três ou quatro membros (talvez até um “núcleo familiar”!); ou uma cooperativa do tamanho de uma fazenda com 12 a 25 membros e várias casas. A independência econômica torna a vida solitária praticável, mas um grupo pode juntar recursos, permitir-se uma moradia melhor e dividir luxos. Quase todas as pessoas pertencem a alguma forma de cooperativa, associação ou irmandade, desde um clube de jantar informal, até comunidades de utopias ideológicas rigorosas (a maioria nas montanhas ou fora da cidade). “Falanstérios” ou grupos de afinidade erótica são bastante comuns, assim como corporações de artesanato e cultos esotéricos (ver Atividades Culturais/Espirituais).

5- Dinheiro (Um Lembrete para o Viajante)

“Sem pilhagem não há pagamento!” e “A cada um de acordo com a recompensa, de cada um de acordo com o seu capricho!” — esses poderiam ser os lemas de Port Watson. Até mesmo a República de Sonsorol não possui moeda própria (embora venda adoráveis selos postais). Para pequenas transações, como pagar uma refeição ou jornal, qualquer moeda serve em teoria, ainda que na prática a libra neozelandesa ou o dólar norte americano sejam preferidos. Transações maiores geralmente são executadas por computador, uma vez que todos os Acionistas têm uma “conta” que pode ser usada. Os visitantes podem achar conveniente depositar parte de seus fundos no Banco, em uma conta “fixa ”ou “móvel”. A primeira é simplesmente um cofre eletrônico. Uma conta “móvel” constitui um investimento real no Banco. Em fevereiro de 1985, tais contas pagavam 7,5% de juros, e em março 12%. Viajantes moderados podem na verdade sair de Sonsorol mais ricos do que quando chegaram!

Os moradores da ilha elaboraram um escambo bem organizado entre eles. Uma organização de artesanato que produz batique (N. do T.: Método indonésio de estamparia de tecidos em que a cera é aplicada no tecido para evitar que algumas partes sejam tingidas, popular no Ocidente nos anos 60 e 70), por exemplo, irá transferir a sua mercadoria para a Cooperativa de Port Watson (chamada “As 5 & 10” por brincalhões locais) em troca de um determinado crédito, medido em uma quantidade quanta abstrata. Os membros da organização podem então usar o seu crédito em relação a qualquer produto da Cooperativa. Tanto a Cooperativa quanto diversos mercadores chineses independentes atuam como agentes de importação e exportação, preenchendo pedidos de mercadorias estrangeiras e artigos de luxo em troca de crédito do Banco ou da Cooperativa. Não há controle de preços e o valor dos produtos locais é determinado por computador, mas importações e mercadorias vendidas fora do sistema da Cooperativa estão sujeitos a intensa negociação, característico das compras em bazares orientais. Visitantes ingênuos foram algumas vezes enganados por watsonianos espertos. Caveat emptor (N. do T.: Do latim "Cuidado, comprador").

Muitos grupos dentro do encrave do porto são ávidos para estabelecer trocas e comunicações com canais alternativos em outros lugares do mundo. Sempre que possível, Sonsorol procura evitar o comércio oficial internacional com todas as suas tarifas, impostos e regulamentações, e, em vez disso, contar com os contatos com comunidades, cooperativas, bolos, grupos e indivíduos artesãos não-comerciais e não-governamentais ao redor do mundo — especialmente aqueles que compartilham a perspectiva libertária-anarquista. Visitantes em Sonsorol são particularmente bem vindos quando oferecem algum contato com o “mundo externo”, tais como “potlatch (N. do T.: Troca de presentes, costume típico dos índios nativos da costa oeste norte-americana)”, escambo, contato cultural, troca de hospitalidade, etc.

Os Acionistas são livres para fazerem o que quer que queiram com os seus dividendos, e para entregarem-se qualquer tipo de negócio que os agrade e que não envolva nenhuma coerção, escravidão de salário ou ganância voraz. No entanto, fora da comunidade da ilha (e da rede crescente de contatos “alternativos” mundiais) essas restrições desaparecem. Como os seus predecessores piratas, os Sonsoroleanos estão “em guerra com o mundo todo” no que diz respeito a aproveitar algumas vantagens comerciais e fiscais. Por causa disso, muitos watsonianos enriqueceram consideravelmente — especialmente os Banqueiros e os comerciantes chineses. Qualquer exibição de riqueza excessiva é considerada de mau gosto, até mesmo “opressiva” — o espicurismo gastronômico e a indulgência estética têm aprovação social, mas diz-se que o “watsoniano típico” é um milionário que vive como um vagabundo de praia, um ermitão taoísta ou um artista, e faz grandes doações a várias causas beneficentes e revolucionárias radicais pelo mundo afora. Os moradores da ilha gostam de citar o dito espirituoso de Emma Goldman sobre a “revolução champanhe” e o comentário de Nietzsche sobre o “aristocracismo radical”. O dinheiro, no final das contas, significa muito pouco aqui (exceto como um jogo). A verdadeira balança de valores é baseada no prazer, na auto-realização e na intensificação da vida.

6- Fazendo Turismo em Port Watson

Port Watson surgiu rápido e tem o ar de uma cidade da corrida para o ouro, apesar de seu langor tropical. Sua arquitetura parece excêntrica, e “planejamento urbano” é considerado palavrão. Todos constróem onde e o que querem, de cabanas de palha a um ferro velho, cúpulas geodésicas ou um quonset, pré-fabricado ou tradicional, de estética personalizada ou funcionalidade feia. A maioria das ruas não é asfaltada, e carros são raros — embora algumas centenas de “bicicletas de graça” (pintadas de branco) (N. do T.: As bicicletas gratuitas pintadas de branco são referência ao grupo anarquista holandês Provos) fiquem paradas para qualquer um que necessite delas.

Diz-se que a população do encrave é de cerca de 2000 pessoas, embora nenhum censo tenha sido feito. Talvez a metade seja de sonsorolanos nativos. A outra metade consiste em pessoas de muitas nacionalidades, a maior porcentagem provavelmente de norte-americanos — e então chineses, australianos e neozelandeses, europeus (britânicos, franceses, alemães, etc.), escandinavos, sul-americanos, alguns filipinos, javaneses e outros do sudeste asiático dispersos; e indivíduos de lugares tão improváveis como Irã, Egito e África do Sul. A maioria dos “colonizadores” vieram trabalhar no Banco ou um dos outros negócios de Port Watson, ainda que um número significativo tenha apenas “passado por acaso e decidido ficar”. Estilos de vida variam da vagabundagem praiana Gaugin ao jet-set internacional (os representantes nômades do Banco), mas a maioria fica em algum lugar entre esses dois extremos.

Importante: o viajante deve ter sempre em mente que Port Watson se diferencia do resto do mundo em um aspecto principal: a falta de qualquer lei. Alguns watsonianos gostam de descrever sua cidade como um cruzamento entre O Coração das Trevas (N. do T.: Clássico de Joseph Conrad, O Coração das Trevas descreve a jornada de um oficial inglês à procura do desertor Comandante Kurtz, que transformara um entreposto comercial no Congo em uma assustadora colônia particular; o livro é a base para o filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola) e a cidade de Tombstone (N. do T.: Cidade do Arizona, nos EUA, que nos anos 1880 se tornou ponto de convergência de mineiros, aventureiros e foras-da-lei, devido a uma rica mina de prata. Conhecida como "a cidade dura demais para morrer", foi personagens do velho oeste americano, como Wyatt Earp, Doc Holiday e John Ringo) — existem especulações sobre duelos e feudos, histórias sobre “pequenas guerras” entre comunidades, etc. — mas na verdade esses incidentes são muito raros, possivelmente até falsos. No entanto, os recém chegados devem ter consciência de que não existe nenhuma autoridade para safar ninguém do perigo ou de dificuldades. Até mesmo os watsonianos assumem a responsabilidade total por ações pessoais. O visitante deve por bem ou por mal seguir o exemplo.

A teoria libertária prediz que tal sistema — ou falta de sistema! — leva a mais paz e harmonia do que a violência e desordem, desde que todos os indivíduos tenham bem-estar e concordem em não coagir ou oprimir outro ser humano. Na prática a teoria parece funcionar — afinal de contas, Port Watson é realmente uma cidade pequena em uma ilha pequena, uma “ecologia social” que reforça a cooperação e até mesmo a conformidade. Por todo o seu ruído anarquista, a maioria dos watsonianos está muito contente para querer causar problemas — mas se um visitante deixa de compreender o “código não escrito” ou a correta educação sossegada, bem poderá sofrer conseqüências desagradáveis.

O cais fervilha de atividades: barcaças retirando a carga de algum navio a vapor sem rota ancorado na lagoa, barcos de pesca chegando e saindo, suas tripulações pechinchando com os representantes da Cooperativa sobre seu presa furta-cor, crianças brincando e nadando, os preguiçosos bebendo café no famoso Cannibal Café. Atrás do cais passa a rua Godown, com esse nome devido à sua fileira de armazéns feios ou “godowns” (N. do T.: Alteração em inglês para a palavra malaia godong, que significa galpão portuário). Aqui também se encontram vários postos marítimos, vendedores e construtores de barcos (paraus, juncos e canoas de regato) — e diversas boates e bares que abrem quando o sol se põe (ver Vida Noturna).

Do outro lado da rua Godown fica a rua China, o lar da comunidade chinesa de Port Watson. Lojas térreas velhas com fachadas de ferro onduladas e placas brilhantes escritas à mão. A única hospedaria da ilha, o Hotel White Flower, e vários restaurantes chineses excelentes (ver Onde Ficar e Comer). Pequenos templos chineses do tipo que são vistos por toda parte no sudeste da Ásia, pilares barrocos de concreto, dragões e fênix pré-fabricados e pintados de forma espalhfatosa retorcendo-se sobre um telhado inclinado, com fumaça de incenso subindo de um altar dourado e carmesim...: O Templo Taoísta da Estrela Polar do Sul. A maioria dos chineses watsonianos são taoístas ou budistas Chán, e o tai chi virou moda por toda a ilha.

Ao longo da praia a oeste da rua China uma área chamada de “A Favela” se expande sobre a areia ensolarada —gêmea dos guetos pós-hippies de “viajantes econômicos” de Goa e Bali. Choupanas de palha e pequenos bangalôs improvisados, algumas lojas de artesanato, casas de chá e restaurantes, uma população de ratos de praia e comedores de lótus (N. do T.: A expressão "comedor de lótus" vem de um conto homônimo (The Lotus Eater) do inglês W. Sommerset Maugham ("o escritor mais bem pago dos anos 1930", como era conhecido), em que seu protagonista, o bancário inglês Thomas Wilson abandona toda sua vida após conhecer Capri, no sul da Itália, dedicado a viver apenas a excitação da natureza do lugar): os pobres por vontade própria de Port Watson. Aqui também se encontra a famosa “Drogaria” da cidade, cuja explicação detalhada seria imprudente, mas você entendeu.

A leste do cais, cerca de quinhentos metros pela estrada que leva à cidade de Sonsorol, fica o fabuloso Centro de Energia, sem dúvida o complexo mais feio da ilha. Seu trabalho pode ser benéfico para o meio ambiente, mas ele parece um trecho da rodovia expressa de Nova Jersey transportado em pedaços para os trópicos e remontado por um louco. Barreiras de torres desajeitadas e moinhos de vento experimentais (como algo saído da Guerra dos Mundos!), barreiras coletoras de luz solar pretas e sinistras, geradores enormes e desajeitados produzindo energia a partir da maré, das ondas e do vento. Fileiras de estufas hidropônicas de plástico montadas às pressas, ateliês e oficinas, ferraria, Garagem & Centro de Bricolagem — tudo planejado como um Conjunto Eretor construído sob o efeito de ácido. Os simpáticos técnicos Nova-Alquimia-da-Terra-Sadia do Coletivo Energético adoram toda essa maquinaria, sujeira, ruído e inventividade. Dizem que o Banco pode pagar as contas, mas talvez não para sempre. Enquanto isso, o Centro de Energia é o coração vivo de Port Watson.

Mas o Banco tem que levar o prêmio da arquitetura mais absurda da ilha. Construído por uma equipe de designers neo-futuristas italianos, ele já está caindo aos pedaços. Mas todos apreciam a sua extravagância e ousadia, então os banqueiros resmungam, mas gastam para mantê-lo de pé e funcionando. Com um formato que parece o cruzamento entre uma pirâmide egípcia e maia, meio amassada, sete andares, todo de vidro refletor preto e aço inoxidável (agora parecendo bastante enferrujado, depois de quatro temporadas de tufão) — o conceito total é tão ultra-pós-moderno que se assemelha à Ópera Cômica (ou Ópera Espacial!)... e ainda assim, suas formas refletem o vulcão extinto que forma a massa da ilha, suas cores refletem a areia preta e a sua ferrugem se harmoniza com o calor tropical... e depois do primeiro choque e da gargalhada, fica-se um pouco sob o seu fascínio! Um BANCO! Caído no meio desta ilha, com o formato do símbolo do Illuminatus numa nota de dólar (só que sem o olho) — pesado, denso e tão luminoso como vítreo.

Do lado de dentro, o Banco é dividido exatamente na metade. Uma metade permanece aberta, um “espaço catedral” sem divisões, uma enorme estufa, palácio de cristal botânico ou arboreto, rouco com pássaros soltos e plantas tropicais — escadarias e rampas levam a galerias e jardins suspensos — tubos de vidro com escadas rolantes dentro (como o aeroporto de Gaulle em Paris) riscam o espaço vasto, dando ao “saguão” uma atmosfera meio Montes Pirineus, meio Buck Rogers (N. do T.: Série de TV de ficção científica dos anos 50) — fontes esguicham no nível do solo ou caem em cascatas — e os watsonianos vêm aqui para piqueniques ou para foderem nas folhagens.

A outra metade do Banco é o Banco Sultão Ilanun Moro propriamente dito, um labirinto de escritórios, salas de computadores, cofres (onde dizem não haver quase nada de valor), alojamento para os banqueiros (que geralmente são hackers libertários e visionários anarco-capitalistas), todo ultra-moderno e com ar condicionado, futurologista e austero. O Banco mantém uma antena parabólica próxima ao pico do Monte Sonsorol, e os computadores têm equipes 24 horas por dia para receber notícias financeiras e políticas. Alguns moradores da ilha que não são membros da Cooperativa do Banco aproveitam, no entanto, para fazerem apostas em jogos financeiros internacionais: especulação e jogatina são esportes populares.

O Banco também funciona como um centro comunitário: uma gráfica, uma clínica médica (chamada, por algum motivo, de “Imortalidade Inc.), um refeitório popular, uma biblioteca de fitas e discos e outras instalações estão abertas ao público.

Entre a rua China e o Banco fica o Bazar, um centro comercial amplo e aberto (quente e empoeirado) cercado de mais lojas de ferro ondulado e lojas-choupanas de palha, além de um grande prédio, não muito diferente de um supermercado ou shopping. Tudo isso junto constitui o grande Centro Cooperativo dos Povos de Port Watson, o mercado de trocas, a butique de importação e exportação, empório de alimentos e bolsa de valores do Encrave. Terças e quintas são “Dias de Feira”, ainda que algumas partes da Cooperativa estejam sempre abertas. Mercadorias de luxo surpreendentes de todos os lugares do mundo (isentas de impostos, é claro) fazem do bazar um desconhecido Paraíso do Comprador; produtos eletrônicos, por exemplo, são mais baratos aqui do que em Hong Kong ou Singapura. A arquitetura do bazar é mal digna de nota, mas no meio do terreno há uma pequena mesquita pré-fabricada com adornos importada em partes do Paquistão via Brunei e montada aqui como O Centro de Estudos Esotéricos Sultão Pak Harjanto I (assim nomeado em homenagem ao mártir de 1907 que trouxe a magia javanesa para Sonsorol). Com todos os minaretes cor-de-rosa, barras verdes, branca e dourada como um bolo de aniversário de criança, com cobertura em alcaçuz de caligrafia árabe, a “Mesquita” é usada como um espaço para performances e salão para meditação pública. Cercada por um pequeno jardim de flores e árvores que dão sombra, é um agradável refúgio do calor e da poeira do bazar.

Outra característica divertida do bazar é O Muro do Grande Caractere (ou “Grande Muralha”), onde avisos, panfletos, poemas, xingamentos, pichações e “slogans com caracteres grandes” são pendurados e pintados — uma espécie de jornal gigante e imóvel. Uma feira de livros (venda, troca e compra) é realizada aqui às terças.

Por um quilômetro ao longo da praia a oeste das Favelas ficam As Academias, um agrupamento de comunidades e cooperativas dedicadas à educação e ao conhecimento, ocupando uma área de plantações de copra abandonadas. Parte da arquitetura é colonial restaurada (não muito interessante). O resto representa uma tentativa de criar um novo “vernáculo” sonsorolano fazendo uso de materiais tradicionais (palmeira, palha, coral) e os confortos da “tecnologia alternativa” proporcionados pelo Centro de Energia. Os prédios aqui têm os nomes de Ferrer (N. do T.: O espanhol Francisco Ferrer (1861-1909) foi uma das primeiras pessoas a questionar o monopólio da educação pela igreja ou pelo estado. Concebeu o conceito das Escolas Livres, a Escola Moderna e a Universidade Popular, que levaram ao sucesso das idéias anarquistas frente aos trabalhadores durante a Semana Trágica, em 11 de julho de 1909 (quando a classe operária se revoltou contra o governo que declarava guerra ao Marrocos). Ferrer foi executado como um dos líderes do levante), Goodman (N. do T.: O norte-americano Paul Goodman (1911-1972) era poeta, escritor e comentarista até que a crise da meia-idade o abalou em plena época de vacas magras, levando-o a explorar outros temas para sobreviver. Foi assim que encontrou o judeu alemão Fritz Perls, com quem escreveu Gestalt Therapy, passando a dedicar-se à crítica social. Assim, publicou seu mais famoso livro, Growing Up Absurd (1960), que questionava a autoridade das instituições e foi mais tarde usado como manifesto contra a Guerra do Vietnã), Freire (N. do T.: O brasileiro Paulo Freire (1921-1997) é um dos grandes pedagogos da história contemporânea e obras como Pedagogia do Oprimido, Vivendo e Aprendendo e A Importância do Ato de Ler são referências internacionais), Neill (N. do T.: O inglês Alexander Sutherland Neill (1883-1973) foi um dos principais críticos do sistema britânico de educação e fundador da escola livre Summerhill School, onde as crianças escolhiam os critérios que queriam ser avaliadas), Illich (N. do T.: O austríaco Ivan Illich (1926-2002) é considerado o pioneiro da Teologia da Libertação e seus grandes feitos incluem o clássico Sociedade Sem Escolas e seu trabalho junto às comunidades latinas nos anos 60 e 70. Fundador do Centro de Documentação mexicano (tido como refúgio para guerrilheiros clandestinos), formulou o conceito da Aliança para o Progresso, através da qual postulava que o nível de desenvolvimento de um país poderia ser medido de acordo com o grau de escolaridade de seu povo), Reich (N. do T.: O austríaco Wilhelm Reich (1897-1957) era sócio de Freud Policlínica Psicoanalítica de Viena, mas logo rompeu com seu professor e com o movimento da psicoanálise. O nazismo o obrigou a deixar a Europa e, instalado em Nova York, passou a desenvolver sua teoria da energia orgone, que, segundo Reich, é um fenômeno universal e é liberado através da atividade sexual. Ele advogava que o acúmulo desta energia era responsável pelas neuroses individuais, movimentos sociais irracionais e desordem neurótica coletiva. Criou um dispositivo chamado Caixa Orgone, para aliviar tal energia, que foi declarado fraude pelo governo americano. Ao continuar suas pesquisas com o aparelho, foi intimado e sentenciado à prisão, onde morreu)... e as teorias educacionais praticadas derivam de seus ensinamentos. A pesquisa científica avançada é limitada, é claro, mas o acesso a computadores e financiamentos mais do que suficientes para certos projetos resultaram em um espírito de descoberta em — por exemplo — estudos de percepção extra-sensorial, matemática e física teóricas, genética e biologia (especialmente o campo de pesquisa morfogenética) e até mesmo um modesto observatório (que recebeu o nome do Príncipe Kropotkin (N. do T.: De ascendência nobre, o russo Peter Alexeyevich Kropotkin (1842-1912) passou a freqüentar a corte do czar Nicolau I ainda menino, quando foi escolhido pelo próprio para ingressar no Corpo dos Panges, se interessando por ciência. Depois de estudar a Sibéria, abraçou a geografia e deixou a corte e a vida militar para tornar-se um dos principais nomes da história anarquista. Fundou o jornal Le Révolté na França e escreveu seus principais livros (A Conquista do Pão, Ajuda Mútua, Memórias de um Revolucionário e Campos, Fábricas e Oficinas) na Inglaterra. Voltou à Rússia com a revolução de 1917, mas desiludido com a ditadura bolchevique, dedicou os últimos anos de sua vida à obra Ética, que ficou inacabada. A essência da pesquisa científica está presente em seus principais textos)).

As crianças ocupam uma posição única em Port Watson. Acionistas desde o nascimento, elas são financeiramente independentes e nenhuma força moral ou legal as prende à sua “família” se elas quiserem viver sozinhas. Tanto nas Academias como em outros lugares do Encrave, comunidades de crianças de estilo polinésio são bem sucedidas sem a “supervisão de adultos”. Elas escolhem os próprios cursos e pagam pelos conhecimentos especializados que desejem — ou então se empregam como aprendizes em algum ofício — ou então não fazem absolutamente nada senão brincar e se divertir. A liberdade sexual entre duas ou mais pessoas quaisquer que a consintam é normal em Port Watson. A infância sofreu uma mutação entre Maioridade em Samoa (N. do T.: Maioridade em Samoa (Coming of Age in Samoa), publicado em 1928, é um dos polêmicos livros da antropóloga norte-americana Margareth Mead e trata das relações entre sexualidade, adolescência e sociedade) e um jogo de utopia computadorizado. Felizes, saudáveis e desinibidos, mais sérios e mais selvagens que os suas equivalentes americanos ou europeus, eles às vezes parecem ter vindo de outro planeta... ainda que, ao mesmo tempo, seja óbvios que sejam os verdadeiros watsonianos.

7- Onde Ficar e Comer

Port Watson se orgulha apenas de uma hospedaria comercial, o White Flower Motel, na rua China, um prédio de dois andares com um pátio dirigido pelo próprio dono, um velho “adepto” do taoísmo, decano do corpo diplomático chinês da comunidade chinesa, o senhor Chang. Quarto simples custa 15 dólares a noite, duplo, 25. Visitantes “econômicos” encontrarão cabanas ou quartos para alugar nas favelas por apenas dois dólares por dia. E se tudo o mais falhar, o Banco mantém diversos quartos de hóspedes disponíveis (para financistas visitantes apenas, na teoria).

A rua China é o lugar para se comer, e Port Watson se qualifica como uma verdadeira “viagem gastronômica”, como dizem os viajantes econômicos. O Yellow Turban Society
(N. do T.: A sociedade dos turbantes amarelos era um grupo de revoltosos sanguinários chineses que, no final da Dinastia Han (150 d.C.), se posicionou como vanguarda da história, disposta a aniquilar o poder vigente de forma violenta e iniciar uma nova era) é especializado na culinária de Pequim e da Mongólia. O Manchu Pretender (N. do T.: Depois de invadir a Manchúria, em 1931, o Japão transforma-a em um estado-fantoche, Manchukuô, e coloca o último imperador chinês, Pu Yi, como líder e testa-de-ferro) na de Cantão e de Hong Kong (o proprietário afirma ser o “príncipe herdeiro perdido” da China!) e o Cinnabar Immortal serve a culinária vegetariana taoísta/budista da mais alta qualidade.

Pequenos bares e restaurantes aparecem e desaparecem na Favela. Dois dos que mais duram são The Crowbar Club, cuja especialidade é frutos do mar, e uma barraca de hambúrguer chamada McBakunin’s! A Drogaria serve café e doces, entre outras coisas.

O Banco mantém uma lanchonete de estilo americano, que é barata e popular, apelidada de The Willie Sultan Bar & Grill (N. do T.: Famoso ladrão de bancos norte-americano, Willie Sultan (1901-1980) fez fama nos anos 30 como assaltante gentleman e mestre dos disfarces. Sua famosa explicação sobre porque assaltava bancos ("porque é ali que está o dinheiro") foi citada neste mesmo texto pouco antes de Pak Harjanto Abdul-Rahman IV e Travis B. O’Conner decidirem-se pelo ramo banqueiro). Os dias de feira no bazar também são dias de banquete, com inúmeros comerciantes vendendo tudo, de bolo de coco caseiro a trufas importadas.

8- Atividades Culturais e Espirituais

Não se passa uma noite em Sonsorol sem uma performance em algum lugar — música (clássica, gamelan e rock fazem sucesso), dança, teatro, poesia, etc. Fique atento ao Muro do Grande Caractere para ver os anúncios. Escultores e artistas exibem seus trabalhos em público, e por toda a ilha se tropeça em surpresas estéticas, obras de artes combinadas com a paisagem ou paisagem enquanto arte, objets trouvés(N. do T.: Objets Trouvés (objetos encontrados, em francês) é o nome de um ramo do surrealismo e do dadaísmo que lida com, obviamente, objetos encontrados como matéria-prima para, principalmente, escultura. Marcel Duchamp e Man Ray são alguns dos principais nomes desta escola) (achado não é roubado) e (em um caso específico) um Godzilla verde de plástico gigante de pé e sozinho na floresta. O Banco faz apresentações de filmes antigos à noite e de programas de TV “pirateados” de satélites. Poucos watsonianos têm televisores (muitos abstêm-se da eletricidade de forma geral), mas gostam de assistir de vez em quando no Banco, rindo nos comerciais. Alguns artistas trabalham em filmes e vídeos, e usam as instalações do Banco — que são de ponta.

Nesta sociedade em que as pessoas sempre têm tempo livre, os livros são considerados uma necessidade, e as publicações locais fazem um sucesso fora de proporção com a população. Esta cidade se orgulha de ter dois jornais semanais (um deles chamado Os Protocolos dos Idosos de Port Watson!), uma publicação mensal sobre arte, uma pletora de panfletos e uma produção pequena, porém estável, de livros (incluindo alguns no dialeto sonsoroleano) publicados por editoras com nomes imaginativos — Chthulu Press (N. do T.: Chthulu é o protagonista (um monstro verde, gigantesco, com cabeça de lula, garras e asas de morcego) do universo de horror do autor H.P. Lovecraft), New Rocking Horse Books, Fourth Eye Books, End of the World News & Stationary — e, é claro, uma Editora Pirata.

A espiritualidade pós-new age prospera no encrave. Cooperativas e comunidades com freqüência são organizadas com base em alguma Rumo ou terapia de vida. Uma lista parcial de tais organizações inclui: Wicca e outras formas de neo-paganismo (inclusive um renascimento tanto artificial do politeísmo sonsoroleano baseado em Castañeda, Lovecraft e Margaret Mead!), várias formas de taoísmo (tradicional e mágico, filosófico e alquímico e anarco-caótico), zen chinês, Igreja dos SubGênios, Templo de Eris, o Illuminati, “Anarquismo Místico”, tantra e ioga, artes marciais chinesas e javanesas, especialmente tai chi e silat, vários círculos e ordens de Cerimonial Magick, inclusive um “Nova Aurora Dourada” e um “O.T.O. (N. do T.: A Ordo Templi Orientis reúne tradições dos Cavaleiros Templários, Iluministas, Rosa-cruzes, Maçons, e os medievais Cristianismo Gnóstico e Escola de Mistério Pagão. A base da ordem é O Livro da Lei, de Aleister Crowley) Reformado”, Igreja do Satã, a Escola Sabbatai Sevi de Judaísmo Mágico, o Si Fan (“uma conspiração devotada à subversão mundial e ao terror poético”), a Igreja Católica Gnóstica, o Templo do Ateísmo Materialista, Igreja do Príapo (N. do T.: Na mitologia greco-romana, Príapo era filho de Afrodite (deusa do amor) e de Dionísio (deus do vinho) e foi deformado ao nascer por Hera, que tinha ciúmes de sua mãe; sendo representado como um indivíduo grotesco e com um pênis gigante), e assim por diante. Uma das linhas espirituais mais populares em Sonsorol, incluindo Port Watson, é a chamada “Caminho Moro”, uma combinação de esoterismo puro enraizado no kebatian javanês, no sufismo, xamanismo, mitologia hindu e islamismo heterodoxo. A “Mesquita” no bazar serve como um centro para grupos como Sumarah, a Escola da Invulnerabilidade, a “Igreja Moura Ortodoxa”, a Academia de Meditação Moura, etc. (ver cidade de Sonsorol pra mais detalhes.) Reuniões, sessões, aulas, etc. são divulgadas na “Grande Muralha”.

9- Vida Noturna & Recreação

Assim como os watsonianos criaram a sua própria “Favela”, eles também têm o seu “bairro da luz vermelha” — não por nenhuma necessidade econômica, mas simplesmente porque apreciam a indolência e a imoralidade. Quando escurece, a rua Godown se transforma em um antro de perversidade e não fecha até o amanhecer. Os viajantes noturnos começam com uma refeição na rua China, seguem para o Cannibal Café para um café, de lá para Euphoria (um cassino), The Johann Most Memorial Dance Hall (N. do T.: "Não é mais a aristocracia e a realeza que o povo pretende destruir... Não; no ataque próximo o objetivo é entregar toda a classe média à aniquilação... Exterminar toda a espécie desprezível! A ciência agora coloca em nossas mãos meios que tornam possível a destruição completa dos brutos de uma maneira perfeitamente quieta e metódica", dizia o anarquista alemão Johann Most (1846-1906), um dos principais teóricos do assunto nos EUA. Lá, ele escreveu o panfleto The Science of Revolutionary Warfare: a manual of instruction in the use and preparation of Nitro-Glycerine, Dynamite, Gun Cotton, Fulminating Mercury, Bombs, Fuses, Poisons, etc, etc. em que saudava o terrorismo) (uma casa de rock), Bishop Sin’s Massage Parlor (a coisa mais parecida com um bordel em Sonsorol), The Unrepentant Faggot (um bar gay), Café Voltairine (um clube lésbico), Eat the Rich! (uma lanchonete noturna) e outras espeluncas de nomes criativos e vida curta. Esses clubes geralmente consistem em nada mais que uma área coberta caindo aos pedaços em um beco entre dois armazéns pintados com cores escuras e talvez ostentando uma placa de neon dadaísta? Visitantes, anotem: você não está exatamente arriscando a vida na rua Godown, mas nunca se sabe (digamos assim) o que há no ponche. Os watsonianos nunca precisam ansiar pela insanidade da vida nas grandes cidades: ela está toda concentrada aqui — sem um único policial para conter a loucura. Como diz uma pichação no banheiro (unissex) do Cannibal Café: “Após a meia-noite o Contrato Social está cancelado! (assinado) O Senhor da Desordem”.

10- Excursão à cidade de Sonsorol

Um velho ônibus escolar, completamente reconstruído em bronze e cromo reluzentes, faz o mesmo percurso de ida e volta pela única estrada asfaltada de Sonsorol, do Bazar em Port Watson à capital da república, a cidade de Sonsorol. (Isto é, ele o faz quando se encontra alguém para dirigi-lo.) A estrada passa pela savana, a área rural mais povoada e cultivada da ilha, especialmente por famílias cristãs sonsoroleanas nativas, que apegam-se às “virtudes” do trabalho pesado.

A vida na república flui em um ritmo mis lento e mais conservador do que no livre encrave. Os nativos mais velhos se apegam as atitudes da Igreja Holandesa Reformada ou então seguem o Caminho Moro com toda a sua sutileza, boas maneiras, elitismo estético e “superstição mágica”. A república não possui uma força policial, mas as pessoas tendem a se adaptar a certos costumes, pelo menos em público, e dentro de um contexto de uma integridade geral, descontraída e ao estilo polinésio. O visitante deve se lembrar de não ofender nenhum sentimento por um comportamento abertamente watsoniano (como foder em público).

A cidade de Sonsorol é até menor e mais sossegada do que Port Watson. O ônibus os deixa em uma rua empoeirada com lojas feias de fachadas de ferro ondulado ao longo da margem do rio. Em um extremo da Rua do Mercado fica o Hospital pequeno, porém ultra-moderno, o único prédio novo da cidade. No outro extremo fica a “Catedral Calvinista”, na verdade uma igreja pequena e de estilo holandês um pouco indistinto construída em 1910 (o pároco é holandês e liberal. Ele prega “Tolstói, Thoreau e Gandhi”!)

A oeste da catedral fica o “Bairro Cristão”, uma área de pequenos bangalôs tropicais/coloniais concentrados ao redor da Sede do Governo, o prédio da antiga administração colonial no estilo batavo “holandês-indonésio”, com uma fachada levantada no estilo de Amsterdã, cor rosa-coral com teto de telhas vermelhas, onde se pode assistir a uma eventual sessão do Legislativo, e ouvir discursos delirantes e prolixos de todos os pontos de vista, do fundamentalismo protestante ao anarco-monarquismo místico. A Agência de Correio, um centro de computadores público e uma velha máquina de impressão manual constituem os únicos Órgãos do Estado, mas a praça em frente à Sede do Governo é sombreada de forma agradável e bastante freqüentada por aqueles que gostam de passear à noite e colocar as fofocas em dia.

Entre a Sede do Governo e o rio fica o Bairro Moro, onde as antigas villas batavas valem um passeio a pé. Os “aristocratas” moros são menos de duzentos, e não usufruem de mais nenhum privilégio fiscal em relação aos outros cidadãos — na verdade, a maioria deles se nega a trabalhar, e vive às custas de seus dividendos do Banco, modestos e avaros. Sua vida se concentra nos arredores do “Palácio” do Sultão, (na verdade, uma villa de doze cômodos), e a Mesquita do Sultão, um kraton (N. do T.: Kraton, o "Palácio do Onipotente, é o famoso e tradicional palácio do sultão de Jacarta, na Indonésia) grande, mas simples de estilo javanês com um pátio coberto, cercada por villas adjacentes, oficinas e jardins.

O Sultão Pak Harjanto Abdul-Rahman Moro IV (nascido em 1945) pode ter renunciado todo poder, mas não todas as atividades. Sua fascinação tanto pela filosofia libertária, como pelo misticismo sonsoroleano tradicional o inspirou a criar diversas instituições culturais e educacionais estreitamente relacionadas, que se concentram ao redor da mesquita. A Corte Gamelan (uma orquestra javanesa de percussão importada no fim do século XIX e extremamente preciosa) encontra os seus músicos na Academia do Palácio das Artes e Ofícios Tradicionais. Ligadas a essas há duas escolas para crianças, uma para meninos e uma para meninas, cada uma com aulas de música, dança, arte e confecção de batique, mas em geral ignoram todo o resto. As crianças sonsoroleanas que queiram uma educação moderna podem freqüentar a “Escola do Governo”, que é mista, ou uma das Academias de Port Watson. Mas aqui, tudo é antiquado, refinado, rebuscado, até um pouco decadente e perverso. Os alunos não se submetem a nenhuma disciplina tradicional, porém: eles são livres para ir e vir como quiserem, contanto que cumpram o seu “contrato” de estudar e realizar todos os concertos públicos semanais (todas as sextas-feiras, começando quando o sol se põe e durando às vezes até o amanhecer), que constituem o ritual central do Caminho Moro.

Junto com a Academia do Palácio e as duas escolas para crianças, a Mesquita também mantém uma oficina de batique, aulas de teatro e dança para amadores e aficionados, uma biblioteca de trabalhos sobre a cultura e a história sonsoroleanas, e sessões regulares de meditação em grupo. Também há aulas de artes marciais. O único jornal de Sonsorol, o mensal Court Gazette, também é publicado aqui e impresso na velha máquina da Sede do Governo.

As matrículas nessas instituições têm o mesmo número de “colonizadores” e “nativos”. Alguns watsonianos se tornaram cidadãos da república para poderem morar e estudar na cidade de Sonsorol. As artes tradicionais e especialmente música são bastante apreciadas, particularmente pela nova geração de filhos de nativos que são descendentes de colonizadores. Talvez elas estejam se rebelando contra o anarquismo de seus pais através dessa paixão pelo gamelan e Ramayana (N. do T.: Um dos mais belos poemas épicos da humanidade, o Ramayana foi escrito pelo sábio Valmiki há dois mil anos e é um dos principais textos do Sul da Ásia. Conta a história do príncipe herdeiro Rama e é cheio de reflexões sobre os aspectos da cultura indiana, sendo influência decisiva na política, religião e arte da Índia moderna), do uso de sarongues, batique e flores no cabelo, da imitação de gestos moros conservadores, e de um culto a pirataria e bruxaria.

Os ocidentais na cidade de Sonsorol ou moram perto da Sede e da Mesquita, ou ao longo da costa no antigo bairro holandês. Na ponta da Praia do Holandês encontra-se o Old Colonial Club, agora ocupado pelos dois únicos restaurantes de verdade de cidade: um dedicado à culinária nativa (The Corsair’s Cave) e outro à elegância da cozinha francesa (Chez Ravachol
(N. do T.: O anarquista francês François Ravachol (1859-1892) era outro que advogava o terrorismo e é conhecido por sua famosa frase, "ninguém é inocente")) — ambos são caros. O Clube também oferece uma sala de jogos com “os únicos fliperamas de toda a Oceania”. Ao longo da praia pra o oeste ficam as antigas villas holandesas, algumas em ruínas, outras habitadas por comunidades de colonizadores artistas, músicos e outros estetas que apreciam a vida tranqüila ou beber com os amigos na Corte.

Além da vida cultural da Sede e da Mesquita, nada mais acontece. Aqueles que querem “agito” vivem em Port Watson — aqueles que preferem a “falta de agito” em Sonsorol — e aqueles que gostam dos dois vão e voltam de um lugar ao outro, de acordo com o humor.

11- Outras Excursões

Do outro lado da Ponte do Garuda, vindo da cidade de Sonsorol, ficam as ruínas do Forte Espanhol, e uma aldeia de pescadores um tanto pitoresca que leva o mesmo nome.

Os três atóis de coral que ficam a alguns quilômetros de Sonsorol podem ser visitados com um barco ou canoa alugados tanto de Port Watson como da cidade de Sonsorol. Ngemelan é habitada apenas em temporadas, mas Ngesaba e Garap têm pequenas comunidades anarquistas (inclusive uma “tribo” de caçadores-coletores e uma colônia de nudismo!). Mergulhar, nadar, pescar e outros prazeres tropicais estão sempre presentes, e muitas pessoas preferem as praias de coral branco à areia vulcânica preta de Sonsorol.

Nos lados norte e noroeste da ilha, algumas aldeias agrícolas e comunidades rurais suportam calor e chuvas muito mais fortes para obterem uma privacidade quase total. O único modo de chegar até lá é de jipe ou a pé. Uma aldeia, New Canaan
(N. do T.: Canaã é a Terra Prometida, na Bíblia), é formada por calvinistas reacionários que odeiam tanto o anarquismo quanto o Caminho Moro, mas nunca recusaram os seus dividendos (não é recomendável ao visitante). Outra, Nyarlathatep, é a sede de um culto de magia negra (também não recomendável).

Na encosta do monte Sonsorol, a norte de Port Watson e dentro da fronteira do encrave ficam as enigmáticas ruínas monolíticas chamadas Nbusala, que calcula-se datar de antes da vinda dos piratas Moros. O mito popular a chama de “O Templo das Nuvens” e a associa com arcaicos mitos e lendas perdidos. Perto dali, a cachoeira mais alta da ilha dá mais encanto à área. A subida pela floresta úmida é exaustiva, mas o local é apreciado pelos artistas, iogues e neo-pagãos, que o consideram um “lugar de força”, o coração vivo da ilha.

12. Como se tornar um morador

Sonsorol não tem turistas e tem alguns visitantes, e alguns destes últimos não conseguem ir embora. Os computadores do Banco estimam que a ilha poderia dobrar a sua população em cinco anos sem diminuir o dividendo médio e sem causar nenhuma superlotação, mas na verdade a taxa de crescimento é muito menor. Como um visitante pode se tornar um morador permanente?

Aqueles que possuem independência financeira podem simplesmente se estabelecer em Port Watson e fazer o que quiserem —desde que concordem em “assinar os Artigos”. Para se tornar um acionista, no entanto, é necessário ser acolhido por uma comunidade ou sociedade já existente, ou então convencer um Sínodo Aleatório de que se pode oferecer habilidades ou serviços valiosos à comunidade. Propostas recentes bem sucedidas partiram de um oceanógrafo de Boston, uma italiana que estudou a arte das marionetes na Indonésia, um jovem extremamente belo de vinte anos de Belize, a tripulação de uma pequena chalupa que chegou com um equipamento de aparelhos eletrônicos vindo da Califórnia, alguns marinheiros malaios que decidiram abandonar os navios e cultivar abacaxi, um poeta irlandês que impressionou o Conselho ao improvisar em terza rima sobre os temas sugeridos por uma platéia, e um menino norte-americano de quatorze anos que fugiu da família em Guam e disse que queria estudar feitiçaria.

Para morar do lado de fora do livre encrave, é necessário, em teoria, tornar-se um cidadão da República de Sonsorol (embora esta “lei” não seja executada de forma muito rigorosa). Todos os cidadãos se tornam Acionistas automaticamente. Documentos são concedidos sem questionamentos a qualquer um que seja aceito em algum clã ou comunidade sonsoroleana, ou que seja contratado de forma específica para trabalhar para o governo (médicos, professores, etc.), ou ainda que seja aceito como aluno pelas Academias na Mesquita do Sultão. Caso contrário, deve-se fazer um requerimento ao Legislativo em vez do Sínodo Aleatório, e nem todos os pedidos são aceitos. Os documentos às vezes são concedidos em troca de um discurso divertido ou eloqüente, mas há rumores de que ligações na Corte podem contar mais do que uma personalidade interessante.

Com a exceção de alguns cristãos antiquados, os sonsoroleanos e os watsonianos vivem no que parece ser uma harmonia perfeita. O casamento entre pessoas dos dois lugares se tornou comum (com freqüência sem benefício de clero ou estado), e a geração mais jovem tem toda a beleza e vitalidade de uma raça nova.

O Caminho de Sonsorol pode ser possível apenas em uma ilha tropical, e alguns argumentam que esta qualidade de utopia libertária não pode ser transplantada para o mundo exterior. Porém, outros acreditam no contrário. Em um editorial (na Court Gazette de 10 de maio de 1985) o próprio Sultão escreveu: “Ninguém que ame a liberdade pode ouvir falar de Sonsorol sem saudades, inveja ou nostalgia de alguma coisa desconhecida, mas profundamente desejada... Sonsorol poderia ser criada em qualquer lugar — nada cria empecilhos a não ser a consciência e o poder inflexível daqueles governantes que se alimentam de consciências falsas como vampiros. Nós convocamos uma rede de Port Watsons a envolverem a Terra: um, dois, muitos, um número infinito de Port Watsons! Deixe que aqueles que nos invejam transmutem a sua frustração em raiva e insurreição, em uma determinação para usufruir da utopia agora, e não em alguma terra do nunca depois da morte ou da Revolução. Nós alcançamos aqueles que têm saudades de nós no “terceiro mundo” dominado pela pobreza, no “segundo mundo” asfixiado pela ideologia e no “ocidente” despedaçado pelas ilusões. E nós sussurramos a milhares de quilômetros de distância para dizermos a eles: 'Não percam a esperança: Port Watson existe dentro de vocês, e vocês podem torná-lo real'."

agosto 12, 2006

Cinco Perguntas Simples: Hermano Vianna

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Acabou sim - e nao há volta.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Qual conta? A das gravadoras? A do leite das crianças dos artistas? Há muitas experiências em andamento, dos pagamentos voluntários do Jamendo as parcerias com os camelôs do tecnobrega. Até agora a saída mais fácil tem sido os shows ao vivo – aí você me pergunta: e os compositores que não tocam ao vivo? Acho que vão ter que combinar com as bandas que tocam suas músicas outras maneiras de ganhar dinheiro. Mas acho que estamos caminhando para um estado no qual o "musicar" e mais importante que o produto final "música". Tiro essa ideia do Gilbert Rouget, um antropólogo que estuda a música dos pigmeus há muito tempo: "O que o grupo tem obviamente em vista é o prazer de produzir a música coletivamente, muito mais que o produto em si mesmo. Em resumo, por mais inseparaveis que sejam, é o musicar que lhes importa, a música como resultado só aparece depois disso”. Por isso gosto do remix, mas por outros motivos. O importante não é o remix em si, mas a atividade de remixar - quanto mais gente remixando ao mesmo tempo mais a brincadeira fica melhor.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
Variedade - todo mundo pode "musicar".

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Muitos - só por causa do Overmundo, que existe há pouquíssimo tempo, já conheci o Umagoma, os Indios Eletronicos, o Stereovitrola, o Retrigger, o coletivo P.U.T.A., o Fungos Funk, o Pandora no Hako, e tanta gente bacana mais que seria difícil chegar na minha mão por outro caminho...

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?

Quando eu li sobre house pela primeira vez em 1987 demorei varios meses para conseguir escutar o que era - ontem li pela primeira vez sobre a nova evolucao do juke, nova dance music de Chicago – já escutei tudo via internet - é uma maravilha, acho que quem nunca viveu sem internet nunca poderá dar o valor devido à nova situacao - para mim ainda parece um sonho.

* Hermano Vianna, antropólogo, é curador do Tim Festival, consultor da Rede Globo e mentor do Overmundo, além de autor de livros básicos como O Mundo Funk Carioca e O Mistério do Samba.

agosto 8, 2006

Cinco Perguntas Simples: De Leve

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Nao, mas está quase acabando. Na verdade, acho que nunca vai acabar. Se o vinil não acabou imagine o CD.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Será - espero eu - uma mpusica mais livre em termos de criação e menos atrelada a interesses somente econômicos de vendas e etc. Se pensarmos bem, o artista premiado é sempre o que mais vende e não o mais interessante. O mais interessante geralmente não está nem com uma gravadora. Quem paga a conta? Não sei, mas alguém vai ter que pagar.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
Que as pessoas podem mostrar sua música pra uma gama infinita de pessoas que ela não tem como controlar e saber e não teria como se não fosse assim.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Muitos. Hoje em dia então, na maioria das vezes eu só conheço algum artista porque algum amigo baixou e me mostrou. Alguns a gente também ouve na rádio quando tem paciência de escutar rádio, mas a maioria é na internet mesmo.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
A indústria meio que continua ainda na mesma, mas o avanço da internet e suas vantagens me fizeram o pouco que sou. Não sei se sem ela eu estaria hoje fazendo o que faço e tendo o reconhecimento que tenho, que apesar de achar que não é muito a gente nunca sabe certamente o quanto, porque é imensurável quando se coloca um disco na rede. É diferente da afirmação da indústria com seus discos de ouro e platina. Eu coloco, 400 baixam, destes 200 gravam Cds e dao de presente que repassam e o círculo continua. Quantos ouviram? Não sei. Muita gente.

De Leve é MC de Niterói e lançou seu Manifesto 171 1/2 este ano.

agosto 2, 2006

Fúria de Titãs

Essa saiu na RockLife, essa revista que mudou de cara agora...

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Quase voltando

Com a apresentação no Live 8 no ano passado, o Pink Floyd voltou a dar sinais de vida. David Gilmour lança seu terceiro disco solo - o primeiro em quase vinte anos - e alimenta as especulações sobre uma última vinda do grupo

“Sem mais desculpas”, dizia o letreiro sobre o palco do Live 8 no Hyde Park londrino, quando, no dia 2 de julho do ano passado, Roger Waters, David Gilmour, Rick Wright e Nick Manson voltaram a repetir ao vivo algumas das músicas que os tornaram um dos nomes mais icônicos da história do século 20. Mesmo sem o carisma pessoal de seus companheiros de panteão, os quatro indivíduos que formam o Pink Floyd (cinco, pois Syd ainda gravita ao redor) vivem uma das mais intrigantes biografias da cultura popular contemporânea, que reúne nada menos que o maior efeito colateral da história do rock, a cara da psicodelia britânica, o início do rock progressivo, extravagâncias de rockstar, nerdismo megalômano, um dos discos mais vendidos de todos os tempos, turnês biliardárias, uma separação traumática e o disco The Wall. Fora o nome, enigmático e simples, que ecoa bicho-grilos e professores de história, solos de guitarra e um imaginário incrível, músicas intermináveis e letras existencialistas.

Foram quatro faixas, “Speak to Me/Breathe” e “Money”, ambas do disco Dark Side of the Moon e cantadas por David Gilmour, seguidas de “Wish You Were Here”, en que Gilmour dividiu os vocais com Roger Waters, e “Confortably Numb”, esta última da megaegotrip chamada The Wall. Pessoalmente, são sujeitos sem a menor vocação para astros pop – e isso é parte crucial em sua mitologia. Mesmo podendo ser considerado uma continuação natural do lado musical dos Beatles (arrendaram o mesmo estúdio e o engenheiro Alan Parsons seguiu nos controles, pense em “I Want You (She’s So Heavy)” e o lado B de Abbey Road regido por Paul McCartney), eles são o avesso carismático do quarteto de Liverpool. Não é nem que sejam feios (quer dizer, Waters furou a fila umas três vezes, antes de nascer), mas não têm o élan pessoal que torna pessoas normais extraordinárias, quando colocadas em certos pedestais com determinados sons e luzes. Waters parece um Odair José novo-rico, berrando as letras feliz por ver o nome da banda que moldou voltar a estar do seu lado. Manson, burocrático até quando mais agressivo, parece um publicitário de meia idade, daqueles que depois de um certo tempo começam a achar que são escritores. Wright lembra um lorde falido, o triste fim de uma dinastia secular – embora seus extratos bancários mostrem uma curva no rumo contrário. E Gilmour, ralos cabelos brancos, olhar quase esvaziado de cansaço, o duro rosto que já foi o posterboy da banda, parece finalmente aliviado por ter de carregar o fardo que lhe perseguia desde a última vez em que os quatro tocaram juntos, no palco do Earls Court, também em Londres, há quase um quarto de século, no dia 17 de junho de 1981. Nem Waters, o maior ególatra da história do rock com capacidade para sê-lo, agüentou a responsa e dividiu o fardo antes de começar “Wish You Were Here”: “É mesmo muito intenso estar aqui com esses três caras depois destes anos todos”, comemorava, ainda incrédulo, “mas, na verdade, estamos fazendo isso para todos que não podem estar aqui, e, particularmente, para Syd”.

Waters evocando Barrett num miniconcerto com imagens do porco da capa de Animals e do vinil de Dark Side com o triângulo preto no rótulo girando nos telões, ao seu lado, Wright e Manson, este, o único integrante de todas as formações do grupo. Mais do que surpreso, Gilmour parecia um profeta assistindo suas previsões se concretizarem, mesmo que esta incluísse o sorriso maquiavélico de Roger, aparentemente o dono da situação. Mas Waters já tinha lançado discos solo, tomado The Wall de vez para si na queda do Muro de Berlim (espetáculo que está saindo agora em DVD) e feito turnês tocando músicas de sua antiga banda, mas sem ter de carregar o peso do nome do grupo. Encerrado em 82 após o triste The Final Cut não contar com o tecladista Rick Wright como um integrante oficial da banda, o grupo voltou à ativa em 1986, quando Gilmour reuniu-se com Manson e Wright para compor um disco de inéditas – A Momentary Lapse of Reason – seguido de uma monstruosa turnê. A volta do grupo sem Roger deu origem a uma série de shows, turnês, discos ao vivo, reedições e novas coletâneas que atualmente continua no relançamento do duplo ao vivo Pulse (aquele, da luzinha piscando sem parar). Antes do lançamento da turnê de retorno dos Rolling Stones em 1989, o Pink Floyd de David Gilmour já estava começando a se tornar um dos maiores monstros do showbusiness mundial – como se já fosse pouco a década de 70 que assistiu uma banda sem rumo se tornar o maior grupo de rock do mundo. E o show no Live 8 deu início à última rodada de boatos sobre o retorno definitivo do grupo. Embora pouco conversado e muito tenha sido especulado sobre esta terceira vinda, oficialmente nada foi anunciado (Gilmour soltou um “Quem sabe?” em entrevista ao site da Billboard em fevereiro deste ano) – embora seja quase inevitável, como capítulo final de uma saga quase fictícia, de tão bem amarrada.

O show de volta, há um ano, liberou David Gilmour para criar tranqüilo. Sem o fardo do nome da banda sobre si, o guitarrista, que completou sessenta anos no último dia 6 de março, não precisava mais recriar a atmosfera épica ou existencialista associada à banda – que saía tão naturalmente de Waters. Assim, partiu para finalizar seu terceiro disco solo, dezoito anos depois do segundo, About Face, de 1984. On an Island, desde o título, parece refletir o momento isolado de alguém que sempre trabalhou em conjunto. Mesmo reunindo-se ao lado de nomes como Phil Manzanera, David Crosby, Jools Holland, Chris Stainton, Robert Wyatt e Graham Nash (além de convocar a mulher, Polly Samson, para ajudá-lo com as letras, que não são seu forte – algo que já havia acontecido no último disco de estúdio do Floyd, The Division Bell de 1994), o disco é um tributo fantástico a uma das guitarras bluesy mais significativas da história do rock inglês – e são os solos, derretendo-se como violinos, gemendo como gaivotas, a peça central do novo álbum. Esqueça todo o resto. E procure o primeiro MP3 que Gilmour lançou no final de 2005 em site oficial – “Island Jam”, excluída do disco –, que talvez seja a magnus opus de um disco quase tímido. E, dizem que já está certo, ele pisa no Brasil no final do ano, com sua Island Tour. Cruzem os dedos.

E faça a figa para o Floyd. Embora incerto, é bem provável que esta turnê se realize. Pois o grupo é conhecido por sua autoconsciência histórica, como os Beatles, Dylan e os Stones, e está o tempo todo dando retoques em sua própria discografia. Além dos DVDs do show de Berlim de The Wall e do disco P.U.L.S.E., o grupo ainda relançou The Final Cut no ano passado e planeja uma edição de 30 anos para Wish You Were Here. Roger Waters já está em sua próprio turnê floydiana, tocando músicas solo e clássicos da banda na primeira parte do show (“Shine on You Crazy Diamond”, “Have a Cigar”, “Set the Controls for the Heart of the Sun”, “Mother”, “Sheep”) e a íntegra do Dark Side of the Moon na segunda – a turnê começou em junho deste ano e segue até julho, quando recomeça entre setembro e outubro nos EUA (Brasil? Waters não soltou seu “Quem sabe?” ainda). Nick Manson assumiu as baquetas em algumas datas e Rick Wright foi convidado para fazer o mesmo, mas declinou.

Enquanto isso, Wright seguiu tocando na banda de Gilmour – chegaram a presentear o público de uma apresentação na Califórnia com uma impensável versão para “Arnold Layne”, o primeiro single do Floyd, ainda da fase de Syd, com Rick nos vocais. E Manson se juntou aos dois nas apresentações de Gilmour no Royal Albert Hall londrino para tocar “Wish You Were Here” e “Confortably Numb” – concerto que deve ser lançado em DVD também no final do ano. Manson, inclusive, é o mais otimista sobre o fim da treta legal entre Waters e Gilmour para dar início ao fim definitivo do Pink Floyd – ao menos, em carne e osso. Veremos.

agosto 1, 2006

Cinco Perguntas Simples: Daniel Ganjaman

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Não acho que o disco tenha acabado e nem que vá acabar tão cedo. Ainda existe muita gente que da importância ao fator físico, de ter o disco com capa, informações e tudo mais. Acho que é um suporte que perdeu muita força, e principalmente, acho que a indústria fonográfica - especialmente as grandes gravadoras – continua instistindo em um formato de trabalho que já está falido a algum tempo. Estamos vivendo um momento de transição brutal e acho tudo isso muito interessante.

2) Como a música sera consumida no futuro? Quem paga a conta?
Essa é a pergunta que não quer calar. Algumas gravadoras já estão trabalhando com participação nos lucros dos shows das bandas contratadas, pelo simples fato de não terem competência o suficiente para recuperar o dinheiro investido na produção e marketing do disco e ainda lucrar com a vendagem. Acho que caminhos alternativos surgirão, dentro desses novos formatos de consumo de música – seja ringtone, download, podcast e oque mais vier a ser inventado.

3) Qual a principal vantagem desta epoca em q estamos vivendo?
Acho que a principal vantagem é a democratização de arquivos e programas ligados a música, que possibilitam o acesso a um vasto material a qualquer pessoa conectada e interessada no assunto – coisa que já foi um desafio enorme a uns 15 anos atrás. Hoje em dia, qualquer moleque com algum talento e alguma vontade pode fazer boa música com qualquer computador barato e ter acesso a praticamente qualquer música - em programas que compartilham arquivos entre usuários. No começo dos anos noventa, se me dissessem que em 15 anos tudo isso aconteceria, eu com certeza não acreditaria.

4) Que artista você só conheceu devido às facilidades da epoca em que estamos vivendo?
Ah, muita coisa. Quando instalei o Soulseek no meu computador, deixei-o ligado por mais de um mês direto. Devo ter feito download de uns 15 Giga de MP3 só nessa primeira leva. Fiquei maluco! Pra quem viveu a realidade de ter que comprar fita cassete gravada pelo dono da loja da galeria do rock, o soulseek é como um sonho.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Não digo a indústria musical em si, mas as facilidades que a tecnologia nos proporciona já me ajudou muito no meu trabalho. Um fato curioso foi durante a mixagem do disco da Mombojó, que não tivemos tempo suficiente para terminar o disco no estúdio da Trama - onde o disco foi gravado e quase todo mixado. Para trabalharmos com mais tranquilidade, resolvi mixar duas músicas em meu estúdio – o estúdio El Rocha - mas a banda não pode estar presente, pois tiveram que voltar para Recife. Usando um programa desses de conversa pelo computador, pudemos mixar as faixas como se eles estivessem presentes. Foi incrível!

* Daniel Ganjaman é um dos integrantes do Instituto. Sua entrevista não entrou na edição final da revista porque ele respondeu depois do fechamento, mas tá valendo.

julho 29, 2006

Cinco Perguntas Simples: Maurício Bussab

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Nao. Quem baixa MP3 hoje ainda é nerd. A tecnologia não chegou aos eletrodomésticos como o rádio do carro. Os tios das pessoas ainda nao sabem usar a tecnologia direito. Talvez sua pergunta seja se o suporte vai acabar. Aí provavelmente também não. Vai virar um produto de nicho mas acabar não vai. O disco é apropriado para algumas situacoes que o arquivo digital não cobre.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
A conta da produção será paga na maioria dos casos pela mesma pessoa ou empresa que ganha dinheiro com o show do artista que pode ser o empresário ou um outro personagem. Em alguns casos será pago por um patrocinador privado ou público: Coca-Cola oferece o novo disco da Madonna, grátis no site cocacola.com). Em alguns casos vai continuar como é hoje: paga pelo proprio ouvinte, diretamente.
Ainda acho que o formato da tecnologia não vai ser este. Este 'momento iTunes' que estamos vivendo é uma bizarrice. Acredito muito mais no formato assinatura que o formato iTunes. E acho que o faroeste da troca irrestrita só acontece porque o fosso entre o establishment e o consumidor continua imenso. Os donos da bola do mercado fonografico AINDA não entenderam que o processo de donwload é diferente do processo de compra de CD. Eu quero baixar MUITA musica. E comprar CD NA CERTEZA. O comportamento é completamente diferente e o povo ainda não entendeu isto.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
Acesso irrestrito e global. É um momento sensacional para a música.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Dificil listar. Hoje é mais comum eu conhecer alguem primeiro online do que
em CD ou ao vivo.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Ouvir e ser ouvido sem barreiras geográficas.

* Maurício Bussab toca no Bojo e é dono da Outros Discos.

julho 27, 2006

Cinco Perguntas Simples: Guilherme Werneck

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Não acredito que o disco tenha acabado, mas a ganância está com os dias contados. Para muitos, eu inclusive, o fetiche pelo objeto disco permanece. Ainda é bom poder ler encartes, letras, ver a ficha técnica, pirar na arte etc. Mas as gravadoras precisam entender melhor o que fazer com o disco, como pensar o seu marketing, e entender que nem toda cópia é pirataria. Hoje, todos os meios digitais têm um grau de confiabilidade bem discutível, e o CD não é exceção. Tenho discos comprados no primeiro momento dos CDs que já estão com mais de 20 anos e praticamente desintegrando. Imagine se eu não tivesse guardado uma cópia digital? Teria de comprá-los de novo, pelos preços extorsivos praticados pela grande indústria. Pensando no Brasil, onde ainda não houve o boom dos tocadores digitais de música e onde a oferta de música digital ainda é ridícula, com poucos títulos e quase todos protegidos de uma maneira bisonha, como o DRM (Digital Rights Management) da Microsoft usado pelo iMúsica (nossa única loja virtual). Para mim, o disco vai durar um tempo mais longo por aqui do que nos países asiáticos (Coréia do Sule Japão), na Europa e nos EUA, onde o mercado digital já começa a amadurecer a fezaer frente ao CD. Todas as pesquisas de vendas do disco físico apontam essa queda. Mas, no Brasil e em outros países pobres, o CD vai existir em profusão, se não para a venda nas lojas e supermercados, na rua, nas banquinhas dos piratas.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
É difícil prever o futuro porque, para além da tendência de mercado, que é mesmo a de a música migrar para um formato digital tipo o MP3, existem também questões jurídicas que podem acelerar ou retardar essa inclinação do mercado. Nos Estados Unidos, por exemplo, o mercado de música digital vendida legalmente online cresceu bastante nos últimos dois anos não porque as pessoas se conscientizaram de que devem pagar os artistas e sim porque houve um cerco de leis. Hoje, copiar uma música protegida por DRM dá cadeia, a RIAA tem ganhado nos tribunais ações contra pessoas físicas que trocam músicas. Isso tem o seu peso. Por outro lado,a reação a esse cerco é bem inteligente. Um caso clássico é a idéia dos Creative Commons, contrato que sobrepõe o padrão do todos os direitos reservados e dá ao artista o poder de decidir como proteger os direitos de sua obra. Nesse caso, se o artista libera a cópia, deixa de ganhar dinheiro por uma lado, mas coloca para fora a sua música e pode ganhar bem com shows e com licenciamento de suas composições para cinema e publicidade, por exemplo. Outro modelo que, na minha opinião, tem mais chance de vingar é o da venda mais aberta de música, sem restrições de uso e de cópia. Vários selos e gravadoras pequenas já estão optando por essa forma de venda, que também tem como um dos principais atrativos os baixos preços. Cito dois exemplos interessantes nesse sentido. Um é o da gravadora virtual Magnatune, que permite que você ouça o disco todo antes de comprar - não só os 30 segundos do chamado "fair use" - e deixa você escolher o quanto pagar pela música. Lembrando que o artista fica com 50% do total pago pelo consumidor. Numa escala maior, o site de venda de músicas eMusic.com, que oferece mais de um milhão de canções de independentes, de gente desconhecida mas também de artistas muito populares, como Miles Davis. Todos os discos que tive vontade mesmo de comprar, encontrei por lá. E o preço é ótimo. Tenho uma assinatura anual, que me dá direito a 90 downloads por mês a um preço de US$ 0,17 por canção. Bem melhor do que comprar música por US$ 0,99, com DRM, no iTunes.
Fora esses dois casos, acredito também que iniciativas como as do TramaVirtual e do MySpace, que dão a possibilidade de o músico colocar canções para serem baixadas de graça da internet vão vingar. Já do ponto de vista de negócios, não dá para ignorar o crescimento absurdo dos ringtones e truetones, coisa que acho que só vai aumentar no futuro, a despeito dos preços. Afinal, hoje pode-se pagar quase R$ 5 por um trecho de uma música, o que é absurdo.
É importante notar que a indústria do disco está em crise - muito por conta de ser uma indústria bastante reacionária e com dificuldades de inovar - mas a indústria da música como um todo, não vê crise. Mesmo nos tempos do walkman, não lembro de ver tanta gente nas ruas com fones de ouvido. Em São Paulo, se compararmos os espaços de show de hoje com os de há 20 anos, o crescimento é brutal. Acho que esses fatores vão fortalecer um futuro em que o ouvinte médio de música vai migrar do gosto massificado promovido pelo esquema de "plantation" das grandes gravadoras, que ainda insistem em colar todos os seus ovos numa mesma cesta, para uma segmentação maior.
Coisas que só rolavam no underground, para iniciados, estão muito mais acessíveis a quem tem um pouco de curiosidade e um computador plugado na web. Antes, era só a TV e o rádio a ditar o que se devia ouvir, hoje, é fácil driblar essa ditadura do gosto e desenvolver um gosto pessoal, com menos imposições externas.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
Acredito que seja essa segmentação que eu citei no fim da última questão, essa oportunidade de ouvir o que quiser. Gosto especialmente de iniciativas como a dos sites Pandora e Last.fm, que ajudam as pessoas a encontrar o que não sabem que existe. Acho que a distância entre artista e seu público também tende a diminuir. É só pensar no MySpace e em blogs de bandas. Acho que hoje nós vivemos um momento propício para que os artistas façam menos pose e mais música interessante.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Um monte de gente. Semana passada mesmo eu conheci uma banda muito legal de funk-reggae dos anos 70 chamada Cymande, que ouvi num podcast brasileiro chamado Octopus Mono Sound. Das coisas novas, Arctic Monkeys, Clap Your Hands Say Yeah, Cee-Lo, Gnarls Barkley, Chihei Hatakeyama, David Thomas Broughton.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
É só abrir o SoulSeek ou o baixar alguma coisa usando Bittorrent que muitos sonhos meus, impossíveis de imaginar em outras épocas, se realizam em pouquíssimos minutos.

Guilherme Werneck é editor-assistente do caderno Link e editor do podcast Discofonia.

Cinco Perguntas Simples

Outra materinha que saiu na Simples, dessa vez com vários depoimentos de diferentes agentes da indústria da música aqui do Brasil. Fiz cinco perguntas pra cada um deles e, na revista (não cabe tudo né?), pincei apenas alguns pra dar uma ilustrada. Aqui, cabe todo mundo, então começo a partir do próximo post e vou alternando até a semana que vem...

O Futuro da Indústria

Livre do CD, a música destrói a indústria do disco para criar uma nova forma de se relacionar com o consumidor – cada vez menos passivo e mais exigente. A pergunta proposta: qual? A resposta coletiva: todas.

Você certamente tem o disco mais vendido dos últimos dois anos em casa – se não tem, é porque acabou e daqui a pouco você vai comprá-lo de novo. Ele não é comercializado por gravadoras, não tem capa, nem artista, nem canções: o CD virgem, à espera de arquivos em áudio que podem vir de graça pela internet, de um player portátil de música digital de um amigo, de um serviço de compra de música online, de outro CD ou até de outros suportes de áudio de outras eras, como a fita cassete ou o disco de vinil.

Essa é basicamente a pequena e crucial mudança da época em que vivemos. A música já não pertence ao suporte armazenador (que conhecemos por disco) e circula por aí, de computador em computador, de iPod para iPod, de CD em CD, e aos poucos vai desmantelando boa parte daquilo que entendemos como indústria fonográfica. Termos como “disco”, “rádio” e “mais vendido” vão caindo em desuso à medida em que outros, como “MP3”, “P2P” e “podcast” vão entrando em nosso vocabulário. E como a rapidez das mudanças desafia a velocidade das formulações de previsão, melhor juntar um grupo de entusiastas das novas tecnologias para tentar responder cinco questões que dão uma pequena geral no estado das coisas. Mais do que músicos, empresários, intelectuais ou executivos, são pessoas fissuradas por música que fazem as mesmas perguntas à medida em que se maravilham com o novo cenário. Alguém tem que puxar o bonde…

julho 22, 2006

A história oral de uma Fortaleza interior

Essa é mais uma que saiu na Simples deste mês.

Hoje ouvimos falar em uma cena do Ceará composta por nomes como Cidadão Instigado, Montage e Karine Alexandrino, mas estes são frutos de uma lenta ebulição cultural que muda radicalmente a paisagem musical por aquelas bandas.

Dustan Gallas (Forma Noise, Realejo Quartet): “Eu, Rian, Boca, Fernando, Regis temos praticamente a mesma idade e nos conhecemos de infância e adolescência. Fui vizinho do Rian, e conheci o Catatau gritando do outro prédio, perguntando se eu queria comprar um pedal heavy metal. Fomos vizinhos, tudo aqui pela Varjota onde moro ainda agora. Metidos a tocar desde que nos conhecemos, formamos bandas, e tínhamos até um código que a gente criou que quando um arrumasse um show levava o outro pra abrir.
Fernando Catatau (Cidadão Instigado): “Eu tive minha primeira banda em 1990. Se chamava Companhia Blue e nela tocavam o Jr. Boca, que cantava e tocava guitarra, o Regis Damasceno, que hoje toca guitarra do Cidadão mas que na época tocava baixo, e o Amilton”.
Dustan: “Desde sempre tinha esse negoço de música autoral, não sei porque. Eu e Rian éramos de de uma banda que chamava A Tribo – o Companhia Blue era um Santana Zérramalheado e nós queriamos ser o Red Hot Chilli Peppers. Lançamos uma demo em cassete, uma banda de cada lado. Depois de uns anos, o negocio ficou mais sério e praticamente todos das nossas duas bandas resolveram sair de Fortaleza pra estudar música”.
Thaís Aragão (jornalista, Gerador Music): “Eu era mais nova que eles, fã de uma banda chamada Velouria, que era a guitar band do Régis Damasceno, que também tocava no Companhia Blue e hoje toca com o Fernando no Cidadão Instigado. Nessa época eu fazia zine, porque achava incrível não ter nada escrito sobre as bandas que haviam surgido aqui. Tinha que ter registro, tinha que difundir. Só depois é que formei uma banda com umas amigas, e nós nem sabíamos tocar. Ensaíavamos numa casa vizinha à casa do Régis, e às vezes ouvíamos o ensaio deles e quando não conseguíamos afinar todos os instrumentos, o Régis vinha dar uma força. Nós tínhamos 17, 18 anos”
Catatau: “Nessa época tinham várias bandas em Fortaleza – como Maresia, Velouria... –que com o tempo foram se acabando. Algumas ainda resistentes estão por lá, mas é difícil manter uma banda por tanto tempo sem ter muitos espaços para tocar”.
Ricardo Castro (produtor, Montage): “Essa Nova Duna, que é como a gente tá chamando esse esquema que veio à tona agora, teve ponto de partida no meio dos anos 90, que foi quando todo mundo aí começou a trabalhar de alguma maneira com música. O Catatau, o Boca e o Dustan tinham uma banda que se chamava Companhia Blue. Depois o Dustan se juntou com a Priscila e fizeram o Forma Noise. A Karine era do Intocávei Putz Band, banda muito boa, meio teatral. O Leco teve várias bandas de metal e resolveu ir até a música eletrônica, desde então montou o Mary my Muse, de drum’n’bass, o Influenza, O Quarto das Cinzas e então, o Montage”.
Regis Damasceno (Velouria, Cidadão Instigado): “Apesar das pessoas se conhecerem, não existem vontades comuns, sentido de organização, muito menos um mesmo direcionamento musical. Em Fortaleza, as pessoas e as coisas acontecem de forma caótica e na música é a mesma coisa. Por acaso se encontram, tiram um som, saem fazendo”
Dustan: “Fernando e Boca foram pra São Paulo e depois Rio, e eu e Rian fomos pra Viena. A gente fez lá uma escola americana American Institute of Music. Essa saída coletiva foi 1994. Todos fizeram algum tipo de escola de música. Boca e Rian voltaram pra Fortaleza, algum tempo depois e Fernando e eu demoramos mais. O Fernando ficou entre o Rio e São Paulo e eu depois fui pros States, por mais um ano e Boca foi pra Bahia”.
Catatau: “O Cidadão Instigado comecou a ser idealizado em 1994. Eu morava aqui em São Paulo e comecei a compor minhas musicas de acordo com o que eu estava vivendo na época”.
Thaís: “Nossa banda se chamava Devótchkas, e depois de dois anos tocando mal e em lugares muito ruins, decidimos dar um tempo. E quase acabou. Até que ressurgiu aquele sentimento: tem que registrar, tem que difundir o que fomos ou ainda somos, sei lá. Acho que é o medo de se perder de si. Pois bem: voltamos para gravar um CD. O nome mudou para Alcalina, vendemos 800 camisetas, fizemos rifa, levantamos alguma bilheteria com shows que nós mesmos produzíamos e ganhamos alguns cachês decentes com shows no Centro Cultural Banco do Nordeste. Tínhamos a grana e pensamos em comprar um Macintosh para gravar sozinhos”.
Karine Alexandrino: “Antes do Fernando Catatau fazer seu primeiro CD, eu o conhecia de shows e de uma demo que ele gravou. Eu estava à procura de um produtor que cultivasse as mesmas idéias ou algo parecido. Que entendesse o meu momento: primeiro disco e tal, eu não queria imitar ninguém, tinha o romantismo de procurar fazer algo meu, sincero que tivesse a ver com minhas referências da infância, o que eu ouviae estava com sérios problemas pois absolutamente não havia ninguém por aqui, naquele momento em que eu pudesse confiar pra fazer música, meu disco. Eu levava muito à sério esta história toda”
Laya Lopes (O Quarto das Cinzas): “Eu vi pela primeira vez o Cidadão Instigado quando tinha 15 anos, num campeonato de skate, nunca tinha visto algo parecido, fiquei impressionada. Anos depois já estava cantando com um projeto de música brasileira no Porão do Theatro José de Alencar quando assisti a um show de Karine muito original, todas as pessoas entravam no camarim e a viam dentro do banheiro através do espelho”.
Ricardo: “As pessoas acabaram se conhecendo por se encontrar muito e por terem muitos amigos em comum. Lugares pra fazer show nessa época era ainda mais difícil que hoje. Rolava um circuito universitário bem capenga, que até hoje se arrasta, que tem um monte de banda cover e outro monte de banda imitação”.
Dustan: “Em 97, nos reencontramos todos aqui em Fortaleza. Já cada um fazendo mais coisa. O Fernando já tinha musicas pro Cidadão e tava formando o grupo. Ainda era meu vizinho, e mostrava as musicas pelo telefone, pra cada um de nós... Era engraçado. O Rian tinha virado músico profissional, acompanhando cantor, e o Boca entrou pra Faculdade de musica, aqui. Aí pronto, começamos a tocar juntos de novo. Nesse encontro depois de todo mundo voltar, a gente começou a fazer coisas mais interessantes que se desdobraram no que a gente faz agora”.
Karine: “Então encontrei num jantar o Catatau, não sabia nada da vida dele, mas resolvi confiar. Nós conversamos e eu então entendi naquele momento que era ele, o cara. Ele entendeu que teria que fazer um árduo trabalho de fazer o primeiro disco de uma cantora. A primeira coisa que combinamos naquele momento foi que a gente iria conversar muito, pra que tudo soasse verdadeiramente meu. E dele - como depois ficou claro nossa paixão em comum pela música popular, Roberto Carlos, os teclados toscos que adorávamos e o profundo respeito que tive por ele desde o começo do meu encontro com ele. Sentia que ele era uma cara que iria dar o que falar e tinha uma personalidade forte como a minha e que, assim como eu, iria defender seu trabalho e sua busca por originalidade, custasse o que custasse.
Na mesma época, ele abriu um bar, o famoso Bar do Catatau ou Esquina da Silva, lugar que eu freqüentava diariamente, afinal a gente tinha que se conhecer. Lá a gente ouvia de tudo em vinil e o meu repertorio foi aparecendo à partir dos vinis que a gente ouvia, e que eu reconhecia como músicas que eu já ouvia desde pequena. Depois de porres homéricos, dos quais prefiro não lembrar de alguns”.
Dustan: “A gente circulava no Paredon, na Praia de Iracema toda, na Biruta, no Café da Praia - fiz uma musica pra lá, no disco do Realejo -, e principalmente no bar do Celso, o Celso 90 graus”;
Catatau: “Eu lembro que tinham muitos lugares pequenos em que a gente se apresentava, a maioria na Praia do Futuro, como o Kafuá, onde moravam uns hippies, o Loco Maluco, o Biruta quando ainda era uma barraca pequena e legal, o Igrejinha… A maioria fechou por causa da violência, os que ainda existem são tapados com madeira e paga-se pra entrar. Antes era de graça mesmo”.
Ricardo: “Como em Fortaleza são poucas as pessoas interessadas e com acesso a informações novas, acaba que esse todo mundo das artes de lá são muito poucas pessoas e acabam se esbarrando sempre. Os lugares onde esses encontros aconteciam eram geralmente bares, como o Esquina da Silva, que era do Catatau, o ateliê do artista plástico Marcelo Santiago, chamado Peixe Frito, onde aconteceram alguns shows do Cidadão. Havia uma festa grande de música eletrônica que acontecia uma vez por ano em parceria com um selo holandês chamada Disco Voador, que deu um gás pro tecno e pro trance em Fortaleza. Houve também um lugar chamado Cidadão do Mundo - nome bem ressaca do mangue beat - onde rolaram as primeiras festinhas eletrônicas nos moldes das de hoje em dia”.
Catatau: “Foi uma época muito boa. Fico pensando que se hoje fosse como era naquela época, eu pensaria duas vezes antes de vir morar em São Paulo. Era difícil, mas tinha um grande prazer”.
Dustan: “Nessa mesma época conhecemos a Karine. O Rian tocava com ela antes numa big-band-putaria chamada Intocáveis Putz Band, tinha a foto de um jumento no encarte e manifesto e tudo. Quando ela chamou o Fernando pra produzir o primeiro disco dela, o Fernando me arrastou, pra ajudar. Eu fiz um disco de eletrônica com um duo que eu tinha chamado Forma Noise. Fui tocar no Crato (interior do Ceará) e conheci o Daniel Peixoto, ainda pré-teen. Ele era da trupe que nos levou pra tocar lá. Reencontrei com ele anos depoi ja aqui em Fortaleza”.
Karine: “Voltando ao disco, o Catatau chamou o Dustan pra fazer a parte eletrônica do disco, e aí que ele entrou nesta história. Todos freqüentávamos o bar, este bar é importante nesta história porque todas estas pessoas envolvidas planavam por lá. O Boca tocava com o Catatau numa banda de blues bem antes de eu "nascer", era desta banda que eu o conhecia. Depois, o disco já pronto, ele, o Boca, dirigiu o show de lançamento do Solteira Producta, fez a banda, "canetou" as músicas pro resto da banda – cinco músicos, entre eles o Regis Damasceno, do Cidadão – e me deu uma força enorme. E nesse meio tempo sempre bebíamos e nos encontrávamos frequentemente lá no Bar do Catatau”.
Thaís: “Eu era repórter de informática, ficava super empolgada sobre as tendências sobre as quais eu mesma escrevia e ia tentar ver qual era também. Procuramos quem estivesse vendendo um equipamento assim. Foi quando conhecemos o Dustan. Na hora de fazer o negócio, perguntamos se dava mesmo pra gravar um disco ali. Aí ele nos mostrou algumas coisas que conseguiu fazer naquele mesmo G3: faixas dos primeiros álbuns da Karine Alexandrino e do Realejo Quartet. Piramos! Nós o chamamos para gravar o nosso e, quando ficou pronto, pensei que simplesmente não podíamos ficar como muitas pessoas que conhecíamos: com caixas e caixas de discos debaixo da cama”
Karine: “Dustan acabou finalizando o CD sozinho, por alguns motivos, tipo, o Catatau foi cuidar do disco dele, e o Dustan assumiu. Depois fiz meu segundo CD em parceria com o Dustan, o Querem Acabar Comigo, Roberto. Este sem composições com o Catatau – não tivemos tempo. A novidade agora é que vou fazer meu terceiro CD com o Fernando Catatau, desta vez sem o Dustan, e o Kassin vai entrar nessa”.
Ricardo: “Eu e os outros meninos do Montage começamos a andar com essa galera toda, o Leco incluído, só a partir de 2001, por aí”.
Thaís: “Na época tinha essas distribuidoras que estavam começando a trabalhar só com as chamadas gravadoras independentes. Entrevistei a Stela Campos, que tinha seus CDs distribuídos nesse esquema, e ela disse que rapidinho a distribuidora tinha saído do vermelho. Aí fui ver qual era também. A distribuidora só tratava com pessoas jurídicas. Meu irmão estava fazendo graduação em administração de empresas, se ligava muito em logística. Tinha um monte de disco bacana que provavelmente ficaria debaixo das camas. Sentamos e decidimos abrir uma empresa. O Thales não tinha nem 21 anos, então teve que entrar com um processo de emancipação para poder abrir a Gerador. E então foram lançados os primeiros álbuns da Alcalina, da Karine Alexandrino, do Júnior Boca e do Pádua Pires - que ainda não tinha entrado na história - ele hoje coordena a área de música na Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza, órgão da prefeitura municipal que cuida da cultura e que, ao que parece, pode se desdobrar em uma secretaria”.
Dustan: “Deixa eu entregar logo todo mundo: eu sou do Piauí, o Rian é do Rio Grande do Norte, o Daniel Peixoto é do Rio, o Leco é de Manaus, o Patrick é do Sul (ri), mas Karine é do interior do Ceará e Fernando, Boca e Regis são de Fortaleza”.
Thaís: “A Gerador Music acompanhou grupos como os Argonautas e o Lado 2 Estéreo, trouxe algumas bandas que consideramos interessantes para tocar em Fortaleza, como o Mombojó e o Hurtmold, ganhamos um edital e pudemos fazer uma turnê pelo interior do Ceará com uma banda de Fortaleza, O Quarto das Cinzas. Tivemos uma noite maravilhosa em Tianguá, por exemplo. As pessoas, os artistas da cidade, o clima. Não deveu em nada a noites incríveis que já tive em Fortaleza, Rio ou São Paulo”.
Dustan: “O Cidadão e o Forma Noise começaram a tocar mais fora do Ceará. Toquei em umas 12 cidades pelo Brasil, e na Holanda com o Forma Noise e o Cidadão ia regularmente a São Paulo tocar. Gravamos o segundo disco lá - oficialmente o primeiro ja que o de antes era um EP -, depois de tocar no Abril pro Rock. Quase ao mesmo tempo fizemos o disco da Karine, produzi o disco de uma outra banda que eu tocava aqui, o Realejo Quartet e gravamos esse segundo disco do Cidadão.
Teve disco de hip hop cearense que o Fernando produziu e a gente mixou, bastante coisa. Meio que multirão e depois rolou uma segunda saída geral, Fernando foi pra São Paulo, dessa vez sozinho pra remontar o Cidadão lá, depois seguiram Rian e Regis que são do Cidadão de novo. Eu fui pra Holanda tocar e estudar produção musical. Voltei pra resolver visto de permanência, e enquanto isso fiquei dez meses em Fortaleza. Gravei o segundo da Karine, e o disco do Boca. Seis meses depois o Boca mudou-se pra São Paulo.
Eu mudei pra Fortaleza de volta ano passado. Me casei. Toco numa banda de baile, uns rock e tal, toda semana. Faz um tempo tô na pré-produção do disco seguinte do Realejo, tenho um disco ‘Dustan Gallas’ (ri), que é de violão, porque o Boca insistiu que eu fizesse. Tô trabalhando na trilha de um musical, de um autor daqui, sobre o rio Jaguaribe. Ccolaboro com uma colega de faculdade da Holanda que é francesa mas mora em Amsterdã. A trouxe ano passado e tocamos aqui em Fortaleza, três vezes (www.myspace.com/nincaleece). E tem ainda um que é uma coletãnea de versões nao autorizadas de supermegaclassicos ou não, internacionais e nacionais, mais melancólicos interpretadas somente por não-cantores. É a primeira vez que lido com muita coisa não autoral assim e tá ficando muito muito bom. Quer cantar uma? Cabe todo mundo. Chama-se Eles Cantam Mal. O plano é lançar em agosto, no maior teatro daqui. o José de Alencar, mas sem divulgação, pra não ir muita gente – e celebrar a sensação de fracasso”.
Ricardo: “Em janeiro de 2004, nós quatro trabalhamos juntos num curta-metragem que até hoje é inédito, chamado Lola, que é baseado num conto do Patrick. Eu fui o roteirista, o Patrick e o Daniel, os atores e o Leco foi o diretor de fotografia. Eu já conhecia o Patrick e o Daniel e fiquei amigo do Leco aí. O ano passou, cada um foi pro seu canto. Eu, Leco e Daniel ainda fizemos um programa de TV independente chamado Asterisco que passava na internet. Tinha um tempo que eu sabia que o Patrick tava fazendo umas músicas em casa, meio electro, desde 2001 ele compunha, já com o nome de Montage, mas o material era inédito ao vivo e só existia em uma página no TramaVirtual”
Thaís: “O pessoal do Montage é mais novo que a gente. O Daniel Peixoto viu shows nossos. E assim a energia vai passando, um vai mostrando ao outro que é possível”.
Ricardo: “No fim de 2004, o Leco me mostrou umas músicas novas dele e achei que casava muito com as do Patrick e consegui unir os dois. Marquei uma data pro lançamento do projeto no Noise 3D, a casa mais histórica da cidade nos anos 00, e era pra ser um live p.a. Com uma semana pro show, chamei o Daniel pra fazer intervenções e cantar em umas três músicas, eles nunca ensaiaram juntos e na hora do show, a banda estava pronta. Foi uma coisa louca (ri). O Daniel fez o show inteiro e tudo deu certo”.
Karine: “Conheci o Daniel Peixoto, pulando e cantando uma música minha, Supermercado do Amor e gritando que me adorava. Depois ele passou a estagiar na mesma rede de TV que trabalho, a TV União. Ele chegou até a fazer um papel de assistente do programa durante duas semanas. Ele é uma cara divertido e que leva a história de glamour muito a sério, o que não é o meu caso. E sempre que a gente se encontra rimos muito. Eu rio do glamour, uso e abuso. E só. O Leco, da Montage, já tocou comigo em vários shows fazendo a parte que o Dustan fazia. E a Montage já tocou comigo na Parada Gay daqui, que reuniu 300 mil e foi bacana, apesar do som que fazemos ser bem diferente”.
Ricardo: “O legal do Montage é que foi tudo realmente muito feito na frente de todo mundo. No primeiro show ninguém tinha idéia do que ia ver ali. Eram umas 50 pessoas só, mas o sentimento geral foi de pavor misturado com fascínio. Era todo mundo de boca aberta, até a gente da banda. Antes de acabar esse show, já tínhamos fechado outro, isso foi muito empolgante. No segundo show, já existia a lenda, daí só foi crescendo”.
Dustan: “Nós somos da segunda geração musical daqui depois da Massafeira. O que se seguiu musicalmente na cidade, pelo menos no nosso núcleo, foi um desprendimento e quase negação do que eles tinham feito. Quando a gente era teen e começou a tocar apareceu o rock nacional, a gente queria ser rockers e não tinha uma intenção direta de investigar raízes e cultura cearense”.
Ricardo: “A gente sempre discutiu em Fortaleza que a cidade não tinha identidade própria, que acabavam se apegando a tradições de outros lugares, Recife principalmente. Acho que agora estamos conseguindo de alguma forma dar uma cara pro Ceará e isso já está sendo usado como legado pelas pessoas que continuam em Fortaleza”.
Laya: “Essa nova geração musical reflete isso, faz-se música cosmopolita. Lembro que quando vi o Cidadão Instigado pela primeira vez era mais roots. Eles usavam percussões, coisas meio arranjadas, a sonoridade e as letras me pareciam ter mais influência da cultura cearense, isso está dentro dele ninguém tira. Acho que cabe a cada artista ter sua pesquisa, conhecer a cultura nordestina que é linda e riquíssima”.
Dustan: “Isso é um assunto gigante, conversei muitas e muitas vezes com muita gente por aqui sobre isso. A atual conclusão sobre isso é uma teoria da análise feita sobre o aspecto geral da postura da sociedade cearense dos últimos 20, 30 anos, em tudo que se diz, pensa e faz sobre e com a cidade. A palavra chave é ‘apego’, ou no caso a falta dele. É assim que a gente entende e tenta explicar até pra nós mesmos como a gente fez tanto grupo de jazz, eletrônica, instrumental, experimental, tinha até um de free total, que virou o nome do disco do Cidadão ano passado”.
Catatau: “O maior legado do cearense é a cultura do desapego, sem raízes fortes. Nunca vamos ser iguais ao povo pernambucano, ao carioca, ao bahiano e acho isso uma coisa muito boa”.
Dustan: “Quanto menos associado ao Ceará, mais divertido pra nós. Tem música sobre isso, do Fernando, "não aguento mais ouvir os terráqueos daqui cantando:Je e ri ri coa coa coararaaaa" e a outra, "lá fora tem um lugar que me faz bem e eu vou lá". Tem minha e da Karine, “faça um curso de inglês, pois eu darei o meu jeito de sair daqui". É como se o processo desse grupo fora formado pela intenção exclusiva de não reverenciar nada que fosse da herança musical daqui. Nossos primeiros heróis não eram nem o Fagner nem o Belchior... Tanto que precisou-se, e agora se aprova, fazermos muito tempo a mesma coisa, pra que se entendesse por aqui... - e por aí também, ao que parece, o que a gente propõe. O Cidadão toca a mesma coisa há dez anos,. mas agora de tanto insistir, fez sentido”.
Ricardo: “O que existe de cearense está muito mais no modo como as coisas são feitas do que na música em si. Não entenda como renegação de Belchior, Fagner, Pessoal do Ceará, o escambau. É que as referências são praticamente todas externas, tirando os trabalhos anteriores do Leco e o sotaque. Como cearense, o grande orgulho é meio que assombrar os ouvidos e olhos do resto do Brasil com trabalhos que são muito diferentes entre si e, de uma forma ou de outra, não têm similares em canto nenhum, por enquanto”.
Karine: “Eu sou nômade, corajosa demais e tenho uma fome e uma competitividade própria do ser cearense. Porque aqui é um faroeste, veja bem, sobreviver aqui não é fácil é tarefa pra muito brio. Pra entender isto lembre de Alagoas, é algo parecido. A cidade, a aldeia, a província. Sinto uma ligação enorme com o Fausto Nilo que é também arquiteto, é um cara incrivelmente culto, filho da aldeia, veio do interior. Eles procuravam ter coragem de fazer trabalhos totalmente autorais e fortes esteticamente. Tinha muito arrojo”.
Dustan: “Aqui em Fortaleza não existe o exercício cultural/folclorico de Recife e Salvador, não... Fortaleza é um balneário esculpido nos últimos 20 anos pra se ser essa Miami meia-boca que se tornou. É raro um prédio histórico preservado”.
Ricardo: “Não sei se você conhece Fortaleza, mas a questão da vida noturna pro habitante da cidade é relativamente nova, só no meio dos anos 80 a classe média começou com esse hábito. Antes era o esquema bem puteiro no centro e festas em clubes tipo Rotary”.
Catatau: “Nunca pensei que fosse dizer isso, mas hoje eu acho tenho orgulho de ter nascido em Fortaleza, ter vivido as coisas que vivi lá e de ter saído também. Hoje tirando minha família e meus amigos, não me sinto muito à vontade. Pela violência que é absurda, e por não reconhecer mais tantas coisas da minha infância. Tudo é destruido rapidamente. A arquitetura é horrivel, os portugueses e italianos estão comprando tudo e apostando no turismo sexual e nada muda. Cada vez pior. Além do que, a maioria das pessoas que trabalham com música lá não gosta das coisas que eu faço. Quando eu morava lá sempre ouvia gente dizendo que eu era doido”.
Karine: “Tinha uma turma aqui, que costumo dizer sou filha dela. Esta turma era Augusto Pontes - pai da escritora Natercia Pontes -, Fausto Nilo e Fagner dos primeiros anos. Inteligentes, filósofos, eles partiram pro Rio de Janeiro em meados de 60 e 70 e fizeram uma historia de vida e de arte que me interessa intimamente. Sinto um pouco de Fagner – de antes do tempo dos discos Orós e Ave Noturna – no jeito do Catatau cantar”.
Dustan: “Todos nos dessa galera temos opiniões diferentes hoje em dia sobre o material cearense. Eu sou encantado com o que Fagner, Belchior e Ednardo fizeram no começo das carreiras, eles que são os mais importantes da música original daqui. Junto com Alberto Nepomuceno claro, mas aí é outro assunto... Eles também devem ter tido um processo parecido com o nosso. Mas eles misturavam muito mais. A celebração da cultura cearense junto com a vontade de sair daqui. Resumindo: influência direta não tem. Mas como negar que não se foi influenciado por uma coisa tão próxima da gente crescendo aqui, né... Eu diria que me orgulho muito de tudo que esses caras fizeram no começo. É um material lindo e uma conquista tremenda. O reflexo é esse que eu tentei explicar. É sobre desapego e negação que se desdobra em pesquisar outras coisas sem referência direta daqui. O que é uma coisa boa tambem. não é?”
Thaís: “Há uns anos fiz uma matéria em que o Fernando Catatau e o Rodrigo Amarante, que era moleque em Fortaleza também, falavam de como curtiam Aldo Sena e esses guitarristas paraenses que faziam música instrumental dançante. Eu também me amarrava naquele som, que tocava na estação de rádio AM que o motorista do transporte escolar sintonizava na volta do colégio. Era o tipo de coisa pra gente deixar de lado. Mas não. Quando você cresce e as pessoas começam a se aglutinar, descobre que estava todo mundo de ouvido em pé com as mesmas coisas, na mesma época, mesmo criança. E lá estava o Fernando no show dos Mestres da Guitarrada sexta passada, aqui em Fortaleza. Aquilo foi especial”.
Karine: “Na literatura tem a Natércia Pontes, Virna Teixeira. Tem uma porção de artistas plásticos fazendo um trabalho bacana, como o Yuri Firmeza, o próprio Weaver Lima, que é meu marido. Estilistas como Deoclys Bezerra, Lindebergue Fernandes, Weider Silveiro, que estão inclusive por aí em São Paulo trabalhando e compondo trabalhos interessantes e super autorais”.
Ricardo: “Nas artes plásticas tem Ticiano Monteiro, Waléria Américo, o grupo Transição Listrada, Érica Zíngano. Na fotografia tem Wanessa Malta, Nicolas Gondim e Enrico Rocha. Em moda tem Mark Greiner, Rafael Grangeiro, Silvania de Deus, Ilana Azeneth, Andreza Magalhães…”
Regis: “Em música tem o Macula, Sepia, O Sonso, Fossil, 2fuzz, Et Circensis, Monophone e Altifalante – produzi os dessas últimas duas -, Dago Red – também toquei e produzi -, Balso Snell – putz, esse também…”
Catatau: “Você sabe que o cearense é considerado o judeu brasileiro, né? Tem um monte espalhado por aí, sempre teve”.
Ricardo: “Em cinema é mais difícil falar porque sai muita gente de lá pra trabalhar no mundo todo, principalmente em funções técnicas, e acabam se dando bem nas suas profissões mas sem retorno por lá”.
Dustan: “A regra sobre Fortaleza é a seguinte: é um monte de gente capaz, e competente mas que vive de um mercado fraco e semiexistente, que melhora bem devegar. Aí o que acontece bem tipicamente é que as pessoas saem e fomentam cenas nas divesas áreas em outros lugares. Tem muito fotógrafo bom, muito profissional de cinema, muito músico bom, muito mesmo. O povo da poesia e literatura, artes plásticas melhorando, gente mais nova surgindo. Parece piegas, mas tem mesmo. E todos os legais, nessa onda de cultura moderna mesmo. Sem apego com aqui”.
Karine: “Mas veja bem meu trabalho não tem nada a ver diretamente com eles, mas é uma questão de herança inconsciente, algo que nas letras das músicas destes caras esta contida a história do Fernando e a minha e de todos os nossos amigos. Só me orgulho da minha coragem. Mas o que me leva a te-la a busca-la é foda, porque a província expulsa, não te quer, não te respeita. Só gosto do Ceará na medida em que ele me manda ir embora”.
Regis: “Não existe regionalismo forte, o que pra mim é extremamente positivo, pois tudo que sai de lá sai meio empenado, enviesado - vide Montage, Karine, Cidadão… Nunca tem nada na forma pura, graças a Deus”.
Thaís: “Nunca vou morar em São Paulo. Até porque minha experiência com São Paulo sempre foi muito de igual para igual. Pelo correio ou pela internet, sempre estive em contato trocando idéias com pessoas por motivos que não têm a ver com a cidade onde estamos. Além disso, eu viajava muito a trabalho e pude perceber que as diferenças na estrutura são mínimas. Então decidi que não ia embora para São Paulo, que ia fazer trincheira aqui mesmo. O desafio tem o mesmo tamanho”.
Karine: “Não me meto à imitar bandas inglesas. Não canto em inglês. Acho até uma bobagem. Putz não sou eletro. Faço música e só. Mas acho os paulistas ainda um povo cosmopolita. Eles aceitam as coisas, gostam do pop. A essência do pop é gostar, sem mecanismos retardatários de rotular tudo de levar tudo tão à sério, de ser excludente. Afff... Ser excludente e separar coisas e juntar coisas inseparáveis é tão idiota, tão cafona, tão datado”.
Thaís: “E a história não termina aqui. Talvez este seja apenas o início de uma grande história. Mas quem vai saber?”

julho 16, 2006

St. Elsewhere - Gnarls Barkley

Essa saiu na última Trip.

Podia falar horas sobre a entidade Gnarls Barkley, as fantasias de droog, o fenômeno Danger Mouse, os primeiros formatos ao chegar ao topo do pop, a nostalgia feliz de "Smiley Faces" ou da cover de Violent Femmes, mas, podemos resumir tudo a "Crazy", esse petardo de soul music que marca o início da segunda metade da década como "Hey Ya" havia marcado o da primeira. Enquanto o clima da música do Outkast incendiava pistas de dança como os aviões que explodiram dentro do World Trade Center, o single-bomba da dupla americana transforma a tensão dos dias de hoje em tentativa de explicar o sentido de tudo. O tema da loucura é levado para onde músicas-irmãs (a do Fine Young Cannibals, a do Seal) sequer cogitaram: a percepção da insanidade iminente, marcada por um baixo-pilastras e cordas descendentes das do Play de Moby. Séria, densa, sóbria e sombria, é um hit hip hop que prova que o gênero já se dissolveu na paisagem e um cartão de visitas perfeito para o século 21.

julho 15, 2006

Sou Eu

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Tem duas materinhas minhas nessa edição da Simples que acabou de chegar na banca, mas vou começar postando a coluna de música, que também leva minha signatura. As outras eu posto depois:

Especialização já foi gueto. A pessoa que se enfurnava em um determinado gênero musical tendia a se fechar em certas referências que lhe aproximavam de outros iguais ao mesmo em que se isolava de todas as outras pessoas. Podia ser bancário de dia é gótico de noite, office-boy no expediente e punk fora dele, redator de publicidade que nas horas vagas faz vídeo. Eram os hoje redivivos anos 80. Eram as tribos.

A década seguinte assistiu à queda dos muros que separavam estes grupos. Em algum momento do início dos 90, diferentes híbridos musicais surgiram após a aproximação de gêneros e, por conseqüência, tribos. Punk pop, hippie hop, forrócore, folk rap, funk metal, MPB indie, axé music – a Nova Ordem Mundial, pós-Muro de Berlim, americanizava tudo e ao mesmo tempo linkava tudo a todos. Tribos se fundindo, mistos musicais: assim podemos resumir a história dos anos 90.

Crucial para esta dissolução em massa foi a apropriação da internet pelos consumidores de música, que puxaram e continuam puxando as principais fronteiras da melhor metáfora para a vida offline (que é a vida online). Em rede, começamos a nos expor e nos fuçar, o que tem gerado frutos e filtros úteis para a vida em carne e osso. O processo é lento, mas a imagem está se assumindo como farsa ao mesmo tempo em que a estética sonora ganha o corpo do que antes estava preso ao conteúdo desta. Fazer-se soar é mais eficaz e mais fácil do que fazer-se ver, e a cada novo DJ surgido em festas de aniversário dos amigos, mais uma célula percebe que o que chamamos de realidade é apenas um remix das referências mais frequentes em nosso dia-a-dia.

Hoje, todo mundo é uma tribo. A individualidade egoísta cede aos poucos ao deslumbre egocêntrico que, com o tempo, descambará no hedonismo ególatra. A diferença pode ser risível para a maioria, mas quem vive este processo percebe os ganhos desde sua própria reconstrução de sua realidade. “Sou eu” é um processo de afirmação e poder, que, ainda que autocelebratório e de aparente efemeridade, retoma a evolução da raça humana após pouco mais de um século de estagnação criativa sob os grilhões de uma indústria cultural. Sabemos como a indústria funciona e ela disfarça (mal) sua própria falência. A chave agora é outra e você sabe qual é.

Depois eu falo mais disso.

maio 12, 2006

A nova crítica musical

Essa também saiu na última Simples. Mas é coluna, não é matéria.

Era uma vez um tempo em que as pessoas não sabiam se informar. A era eletrônica tirou o começo-meio-e-fim das coisas e percebemos que informação é produto. Esteja no Jornal Nacional ou no Orkut, é só o final de um processo. Não nos iludimos tanto porque o alerta de Lenin (“para saber os motivos, procure saber quem se beneficia”) transformou-se em equação de reconhecimento do inconsciente coletivo, que percebe o quanto foi enganado.

Assim, vemos a dissolução do crítico de música. O sujeito que, numa penada, lança uma banda ou destrói as vendas de um disco, está com seus dias contados. Não porque está em vias de extinção, mas porque suas prerrogativas básicas tornaram-se requisito mínimo para qualquer pessoa, graças à internet. Um bom dia dedicado à frente do computador pode lhe transformar num especialista em quase tudo – no caso da música, tudo.

Escolha um artista e passeie pelos AllMusic, Wikipedia, Pitchfork e NME da vida, baixe discos, veja fotos, filmes, e sua fachada está pronta. Foi-se o tempo em que poucos semanários ingleses ditavam a moda. O mundo girava em torno de LA, NY e Londres, porque eram as únicas cidades capazes de exportar notícias locais como produto internacional.África, América Latina, Ásia? David Byrne e Peter Gabriel ainda não tinham inventado a world music.

A internet mudou isso. Hoje qualquer um pode produzir conteúdo sem a necessidade de um intermediário para publicar e distribuir. Todas as músicas do mundo estão à mão de qualquer um. E percebeu-se que o crítico musical é apenas um sujeito com mais tempo para dedicar-se ao estudo, à leitura e à apreciação do que uma pessoa comum. Não é uma divindade encarnada (“a Crítica”), nem um guru ou uma diretriz do bom gosto. É só um cara que pode explorar seu gosto pessoal com o respaldo de um veículo de grande alcance.

Mas isso não significa o fim da crítica, pelo contrário. Como a internet é o veículo de maior alcance da história (sem contar o potencial de alcance, ainda maior), todo mundo é um crítico musical cujo gosto e preferência devem ser respeitados e nutridos. Ninguém melhor do que um especialista em algo que você não faz questão de acompanhar para te dizer o que merece atenção. E estamos todos nos especializando.

Depois eu falo mais disso.

maio 1, 2006

Pós-Calypso Now

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Materinha que saiu na Simples que tá na banca...

A bola da vez ou a nova Recife? Com o espetáculo Terruá Pará, que expande os horizontes da cena paraense para o resto do Brasil, Belém se firma como novo pólo de produção cultural brasileiro. Mas por que só agora?

No fim de semana de 17 a 19 de março deste ano, uma espaçonave de madeira pousou no palco do Auditório do Ibirapuera. O cenário (peças de artesanato agigantadas) e uma teatral modéstia roots da maioria de seus artistas, deixada de lado logo que a música começava, redesenhava uma simulação. Da mesma forma que a capa do disco-símbolo Tropicália ou Panis et Circensis, de 1968, lia o Brasil como uma família tradicionalista, esquizofrênica e vanguarda por falta de opção, o espetáculo Terruá Pará, concebido e executado pela Fundação de Telecomunicações do Pará (a TV Cultura local), mostrou a cena paraense como uma banda harmoniosa em que a tradição e a modernidade já não se chocam, como no tropicalismo, mas se interagem como uma tribo hippie, a utopia dos Novos Baianos elevada à escala de uma aldeia, cujas conversas podem se confundir, mas se complementam.

O evento vem consagrar a capital paraense como um novo pólo de produção cultural no país. Desabrochando novamente depois de seus dias de glória no final do século dezenove (quando o látex ainda dava as cartas na economia mundial e Belém era um metrópole imperial, enquanto São Paulo era a décima cidade do Brasil), a cidade vive um feliz cruzamento de boas notícias. Entre sua inclusão no circuito de shows de rock independente à profissionalização da cena, passando por políticas culturais de inclusão, a nutrição de um crescente público local e a revitalização de tradições ancestrais, Belém do Pará surge na pauta cultural brasileira forte o suficiente para cobrar um débito para com a região Norte justamente quando a Amazônia começa a consolidar-se como palco da olítica internacional – sem conseguir, no entanto, livrar-se da pecha de “exotique” que paira sobre as aparelhagens da periferia da cidade e a estética brega, que eleva as cores e exageros do Carnaval a potências impensáveis. Neste sentido, o Terruá é apenas a ponta do iceberg.

No mesmo palco, uma banda formada pelo guitarrista do grupo Cravo Carbono e cultor das guitarradas Pio Lobato, pelo baixista e produtor Calibre (autor do disco de drum’n’bass Brazzonia), o baterista Vovô (também Cravo Carbono, e toca com os Mestres da Guitarrada e o grupo Cuba S/A), o mestre Curica no banjo, o arranjador Luiz Pardal tocando vários instrumentos e o festejado Trio Manari na percussão, recebia estrelas de diferentes grandezas da música do Pará. Do ataque efusivo da Metaleira da Amazônia (tiozinhos soprando instrumentos como se fosse a última vez) à sutileza suingada dos Mestres da Guitarrada (outros tiozinhos costurando a levada caribenha em guitarras sessentistas), das inusitadas Tubas da Amazônia (uma orquestra de graves visitando ritmos da selva) aos bonequinhos sinistros do Boi Veludinho, o vozeirão acústico de Fafá de Belém, o poperô selvagem do Tecno Show e a molecagem de Mestre Laurentino, a escrachada Dona Onete e a surf music do La Pupuña. Era como se a floresta tivesse mandado uma expedição de boas vindas à civilização, puros ritmos, danças e figurino espalhafatosos e um comportamento musical incendiário que acende a velha metáfora sobre a Amazônia – o inferno verde. Com muito menos espetáculo sonoro e visual Malcolm Mc Laren inventou o punk e George Clinton o P-Funk. “Nós viemos em paz”, pareciam dizer todos os músicos, numa apresentação que foi transmitida ao vivo para Belém, coroando um diz-que-diz que há um certo tempo vem apontando a capital do Pará como o lugar para se ficar de olho.

De lá vem as aparelhagens, festas populares em que o tecnobrega surgiu, e que encanta nomes como o DJ Dolores (que batizou seu último álbum com o nome destas festas) e Hermano Vianna. O DJ Iran, primeiro produtor desta cena a ser conhecido nacionalmente, já passou por palcos descolados paulistanos, como o festival Hype, a festa A Lôca e o Milo Garage. As guitarradas, recém-descobertas pelos connaisseurs do eixo Rio-SP (do produtor Carlos Eduardo Miranda ao multitarefas Kassin), terão seus Mestres (a saber, Curica, Vieira e Aldo Sena) se apresentando em plena Copa do Mundo, na Alemanha, e ganharam um forte aliado pop com a aparição do grupo instrumental La Pupuña, que funde o gênero com surf music e já passou por alguns dos festivais de rock mais conhecidos do Brasil. Mestre Laurentino já teve sua música-tema (o blues “Lourinha Americana”) regravada pelo Mundo Livre S/A e a banda Suzana Flag aos pouco se estabelece no cenário de rock independente do país.

E de repente se instaura um clima cultural em que o Pará parece ser o novo Pernambuco. Como a coletânea que lançou o Tropicalismo no final dos anos 60 ou o release-manifesto que Fred Zero Quatro, Chico Science e Renato L escreveram ao lançar o mangue beat no começo dos anos 90, o Terruá Pará é uma carta de intenções que chega em outro momento de entressafra da indústria cultural de sua época. Vários artistas, em conjunto, prontos para matar a sede de novidade do mercado consumidor de cultura, da mesma forma que o fenômeno Calypso invade as ondas do rádio.

Mas olhando do lado de lá, na verdade, o Terruá Pará é a consagração de uma gestão vitoriosa, a de Ney Messias Jr., presidente da Funtelpa. Há três anos, ele assumiu uma retransmissora da rádio e TV Cultura local e mudou as coisas por lá, radicalmente. “Estamos há três anos trabalhando a cena dentro da programação da rádio e da TV, promovendo eventos nas ruas, festivais de música, apoiando produção de shows, CDs e temporadas fora do Estado”, explica Ney, que assumiu o papel de embaixador da cultura paraense. “A grande mudança na TV e Rádio Cultura é que deixamos de ser apenas radiotransmissores e passamos a ser fomentadores culturais. Partimos para elaborar projetos culturais e esses projetos acabaram se transformando em produtos inovadores da nossa grade de programação. Com isso ganhamos em audiência e verbas da iniciativa privada”.

Assim, Ney usou a produção local para atrair parceiros e incentivar a própria cultura do estado – que culminou com o evento apresentado em São Paulo. “Este é um conceito que me persegue há muito tempo”, explica Messias. “‘Terroir’ é um conceito usado na industria vinícola, que determina que existem produtos que só podem ser fabricados numa região única do planeta, que possuem microclimas únicos, gente única, cultura única e por isso geram produtos sem similares. O champagne francês, por exemplo, só pode ser fabricado na região de Champagne, por conta de todos esses detalhes que só existem lá. Criamos um terroir musical,o Terruá Pará. Como só aqui tem carimbó, lundum, banguê, siriá, samba de cacete,etc. Essa é uma sonoridade única no planeta”. Entre os desdobramentos do espetáculo, ele não descarta uma excursão da apresentação por outras cidades do Brasil.

“O Pará é a última novidade sonora do país”, continua Ney. “A grande mídia sempre colocou no ar nossos exageros sonoros, como o brega, o Calypso, que também são bons. Mas essa fixação pelo excesso acabou deixando de lado nossa simplicidade e sofisticação sonora. Foi o que levamos pra Sampa. Agora era o momento de se mostrar para o Brasil e o melhor lugar seria São Paulo, levando 60 artistas na bagagem”, conclui.

“De tempos em tempos os olhares da mídia e, conseqüentemente, do grande público se voltam pra um canto. E Belém é a bola da vez”, explica Martina Mendonça, apresentadora do programa de rádio Protótipo, que abre espaço para a produção local e é um dos responsáveis pela criação de um público na cena local. “Os artistas estão mais profissionais e as coisas só começaram a andar agora, porque de alguns anos pra cá que eles realmente foram incentivados a produzir, criar, inovar”.

Dividindo a apresentação do programa com o produtor Angelo Cavalcante, Martina explica o formato do Protótipo, que é semanal. “A primeira meia hora é pra mostrar demos e produção independente de todo o Brasil – bandas, nos escrevam (protótipo@funtelpa.com.br)! Em seguida, descemos pro outro estúdio onde colocamos uma banda pra fazer quatro ou cinco músicas ao vivo no programa. É muito bacana, o não falta é banda se inscrevendo pra ir fazer essa onda ao vivo. Já tocou ao vivo no Protótipo bandas de fora, como o Nervoso e o Los Pirata, quando estiveram por Belém pra show promovido pela Dançum Se Rasgum Producione”.

A produtora em questão também é responsável pela boa fase da cena local, ao trazer nomes como Wander Wildner, Nervoso e Autoramas para apresentações em Belém, fazendo com que as bandas locais se percebessem próximas de nomes consagrados do cenário independente brasileiro. “Sinceramente, acho que a cena chegou agora ao eixo Rio-SP porque nada mais relevante acontece no Brasil inteiro”, explica Marcelo Damaso, um dos sócios da produtora. “Rio e São Paulo nunca tiveram tanta expressão assim no meio musical, principalmente roqueiro. Tiramos meia dúzia de bandas realmente boas que surgiram no sudeste, o resto veio das margens”.

Ele fala da consolidação do público rock local: “Na verdade, não houve um público criado, e sim uma galera que não tinha para onde ir. O rock sim estava sendo deixado de lado nessa época. Aí que entramos. Neste mesmo primeiro lugar, o Café Taverna, nós chegamos a ficar apenas quatro meses. Depois tivemos que mudar para uma casa maior, com capacidade para 500 pessoas e quatro ambientes - que nós fomos criando. A casa, na verdade, era apenas um lugar para um café, um happy hour. O que aconteceu é que soubemos vender o nosso peixe, tanto que estamos no nosso terceiro ano de atividade. Todas as festas atraem sempre um público diferente, pela mudança de temas. A base é rock'n'roll, mas sempre entram outros elementos de acordo com o tema. Então, esse público reprimido passou a curtir junto com a gente toda essa sacanagem”.

Entre os nomes que formam esta nova cena, lista Marcelo, estão, bandas como “A Euterpia, La Pupuña, Johny Rock Star, Stereoscope, Suzana Flag, Cravo Carbono, Coletivo Rádio Cipó, Madame Saatan, Turbo e Delinqüentes”. Martina emenda: “Há alguns anos, poucos nomes recebiam destaque. Muito músico fazendo trabalho cover e temendo tocar trabalho autoral porque realmente eram poucos os locais – e poucos os ouvidos – habituados a isso. O que até atrasou umas e outras figuras na cena musical paraense. Mas hoje o que eu percebo é uma música popular paraense melhor produzida, sem tanto molde ufanista. Desde o carimbó pau e corda até os grandes nomes”.

Ela tenta dissecar o DNA da música paraense: “Elementos percussivos são marcas registradas. Letras fáceis, melodia dançante... As guitarradas cada vez mais intuitivas e criativas. O Carimbó aliado a uma batida eletrônica. Velhinhos botando a voz pra fora ganhando o devido respeito”. Marcelo aponta outro elemento comum: “O brega. Acima de qualquer coisa. Ser cafona aqui nunca foi problema, tanto para as bandas de metal, como o Sress, como para o pop, como Suzana Flag. Atualmente eu acho que a redescoberta da guitarrada é um momento forte que vai ser lembrado muito lá pra frente”.

“A imprensa fica ávida por uma nova Recife, uma nova Porto Alegre”, continua Marcelo. “Então eles tem que eleger alguém, e Belém entrou por essa diversidade que vai do pop com guitarras distorcidas a alguma inovação como a guitarrada e o tecnobrega”.

“As festas de aparelhagens rendem histórias intermináveis”, começa Martina. “São festas do subúrbio paraense, com muito tecnobrega, caixas de som imensas, potência sonora lá nos ceus e o tempo todo lotada. É o templo do movimento brega. É onde se concentra boa parte da massa, seja bregueira ou não-bregueira – mesmo quem não curte muito o ritmo, acaba indo nem que seja pra conhecer. O DJ rege a festa. É incrível. Ninguém fica parado. Todo mundo dançando, balde de cerveja no pé, na mesa... E a batida tecno predominando nas bases da grande maioria das músicas que tocam. Uma batida pra lá de rápida como base, que tá caindo, sim, no gosto de outro nicho. As pessoas já falam bastante em tecnobrega, a cada dia que passa surgem mais e mais artistas produzindo esse tipo de música e a resposta é sempre a lotação dos shows e as músicas na ponta da língua. Gaby Amarantos e DJ Iran ganham lugar de destaque no tecnobrega. Só acho que o lance de explorar, na maioria das vezes, só o lado pitoresco, exótico da coisa não é um ponto favorável pra difundir o tecnobrega”.

E com razão, afinal musicalmente o tecnobrega ainda engatinha, sendo festejado mais pelo fato de ser música eletrônica feita na selva do que por suas qualidades musicais, ainda incipientes – mesmo comparada a gêneros que erguem a tosqueira como um troféu, como o grime inglês e o funk carioca.

“Eu sei que estamos vivendo um momento de efervescência cultural mesmo”, conclui Marcelo. “O negócio é aproveitar e gozar. O que me incomoda é esse exagero da mídia nacional em cima de Belém. Como te falei, é maldita caça à nova Recife. O problema é que essa ‘descoberta’ pode nem trazer grandes frutos como trouxe a Recife naquela época, já que vivemos um período difícil, com a questão das gravadoras caindo e de estarmos muito deslocados do resto do país. Tudo bem, culturalmente, estamos lindos. Mas e ai, isso vai se manter sem grana?”.

abril 12, 2006

Já é

Aeroporto tinindo, trincando de novo, o Zumbi dos Palmares faz bater os dentes até do visitante mais anticalor que Maceió pode receber – não era o meu caso, mas o frio vinha avassalador. Novinho em Folha, o aeroporto cheira a frigorífico e um ar condicionado power me gela-me os ossos feito filme de terror. Não deixa de ser assustador: tremendo aeroporto, completamente vazio, gelado por dentro e exibindo um sol escaldante do lado de fora. Sinto como se estivesse no aeroporto de Fenda no Tempo do Stephen King ou no shopping de A Madrugada dos Mortos, de George Romero: a qualquer minuto, o desconhecido vai entrar por aquelas portas de vidro e invadir geral.

Mas estamos no Brasil e a nóia com a violência é importada – invadamos nós. Do aeroporto pro calor das Alagoas (que não desce dos trinta, no máximo à noite), atravesso Maceió rumo ao Lagoa das Antas, onde os “gringos” (convidados, imprensa, bandas) ficarão hospedados. “Gringos”, expressão dita com uma ironia atravessada na garganta, são os cariocas e paulistanos que visitam a cidade – representantes do eixo Rio-SP que podem nem serem nascidos no sudeste (Gabriel do Autoramas é de Brasília, Catatau do Cidadão é cearense) mas foram respaldados por cidades que não são as suas. “Gringos”, expressão que carrega todo o escárnio sentido pelos locais: esses sujeitos que têm mais dinheiro que a gente.

Em Maceió, o simples fato de entrar na cidade pelo aeroporto te faz gringo. O ar condicionado lembra à alma que você não é dali, ou, se é, está deixando de ser. O frio como uma zona de transferência, uma doca social entre dois ambientes, um que voa com freqüência e um que admira e inveja esses que voam. Em Alagoas, índices sociais quase no fundo do poço, essa diferença fundamental do Brasil cresce aos olhos, pobreza e miséria de diferentes nuances vêm lembrar à caravana de turistas que, belas praias, belas praias, mas isso aqui é o terceiro mundo.

Maceió é um imenso amontoado de pequenas cidades do interior, como se centenas delas migrassem do agreste para o litoral para não morrer de fome e, quis o destino, sobreviveram melhor unidas, sem fronteiras. Pelas inacreditáveis distâncias percorridas em uma cidade com menos de um milhão de habitantes, é possível ver diversas pracinhas, com casas de fachada portuguesa, árvores frondosas, carrinhos de pipoca. Não há neon nem placas com luzes fluorescentes, as lojas se anunciam pintando letreiros nas paredes, como se ainda fossem os anos 50 ou 60. Pouquíssimos carros (o “engarrafamento” anda a 20 por hora) e muita gente a pé, belíssimas praias sujas pelo descaso. Não há prédios com vinte andares, avenidas caóticas, poluição visual ou sonora nem a vocação para a metrópole. A noite é um imenso barzinho, quase sempre de terra batida ou mesa na calçada.

Cenário mais do que improvável para um festival de música independente? Analisando superficialmente, sim. Afinal, nem Alagoas nem Maceió têm tradição em revelar nomes musicais para o resto do país, como seus estados vizinhos: fora Hermeto Paschoal e Djavan, que raramente são associados a seu estado de origem, pouco se sabe da música que sai daquele estado. Ainda paira sobre Alagoas o fantasma de PC Farias e a sombra de Fernando Collor, embora que, ao mesmo tempo em que estes montavam seu império com sede em Brasília, uma geração de músicos começasse a, lentamente, colocar a cidade no mapa.

O pioneiro foi o grupo Living in the Shit, cujo nome, sintomático, denunciava a falta de perspectiva do cenário local. Era a fagulha necessária para dar ignição à cena. Depois do Living, vieram bandas como Oito, Ball e Santo Samba, cada uma acrescentando um pequeno tijolo na incipiente cena alagoana do final do século vinte. Das fileiras destas bandas saíram nomes que ajudaram a cidade se estabelecer como um pequeno celeiro musical, com atmosfera, tempero e sotaques culturais próprios, longe de estar à margem de Recife ou Salvador.

Se a cidade nada tem de metropolitana, o mesmo não pode ser dito de parte de seus habitantes. Há um pequeno mas expressivo público para cultura independente, mais interessado nas novidades da cidade do que buscando fugas para o aparente tédio local. Gente que, com piercings, dreads, tatuagens, cabelos coloridos e sem preconceitos sonoros, fura só nos anos 00 do novo milênio uma barreira pela qual as principais cidades do Brasil atravessaram entre 1969 e 1996 – do pós-tropicalismo ao pós-mangue beat. Essa chegada tardia de Maceió ao cenário pop brasileiro, no entanto, não deformou os ares locais, como aconteceu em cidades como Curitiba (coesa mas esquizofrênica, segura de si mas sem rumo), Salvador (onde a axé music transformou roqueiros em xiitas), Florianópolis (que só faz quando tá com vontade, os verdadeiros novos baianos) e Belo Horizonte (cuja síndrome de inferioridade sob Rio e SP a faz esquecer que alguns dos nomes-chave do pop Brasil dos 90 [Sepultura, Pato Fu, Skank e, sem julgamento de valor, Jota Quest] vieram de lá). Tanto que os principais nomes da cena local não parecem emular bandas “gringas” – sejam internacionais ou do dito “sul maravilha”. Há um som que é da cidade. Todos os principais nomes da cena pós-Living buscam uma sonoridade que, ao mesmo tempo desalinhe a evolução urbana atrasada de Maceió e mantenha as características de uma pequena vila de pescadores que parece persistir nas metáforas e no clima quase sempre ensolarado – se noturno, ao menos quente – dos luminares da cidade (soando igualmente alagoano, cosmopolita e universal).

Estes são três, não por acaso os melhores shows da primeira edição do Festival de Música Independente, da infame sigla FMI, que aconteceu no último fim de semana de março, na capital de Alagoas. Wado, Mopho e Sonic Jr. Consagraram-se como o tripé fundamental da música da cidade, ao redor das quais orbitam nomes como os locais Xique Baratinho e Marcelo Cabral & Trio Coisa Linda, e novatos equivalentes de estados próximos como o paraibano Jackson Envenenado, o potiguar Experiência Apyus, o pernambucano Negroove e o mestiço Pedra de Raio (das ex-comadre florzinha Telma César, de Alagoas, e Renata Mattar, de São Paulo), todos convocando sonoridades distintas (forró, MPB, rock clássico, choro, funk, samba, música regional, indie rock, reggae) que se mesclam à medida em que cada grupo puxa determinados ingredientes do parêntese acima para compor o seu guisado musical. A música de Alagoas já absorve a tendência ao amálgama musical, pulando a fase da justaposição (funk metal, forró-core, ska com rap, indie com bossa) pela qual todo grande centro pop brasileiro já ultrapassou.

Mas antes dos shows memoráveis do sábado e domingo, a abertura do FMI na sexta, sem querer, teve cara de carta de intenções. Chamou um baiano e um pernambucano contemporâneos dos movimentos musicais que sagraram suas cidades no mapa pop brasileiro – o tropicalista Tom Zé e o mangue beat do Bonsucesso Samba Clube – e dois representantes locais da música alagoana, clássicos senhores, Chau do Pife e Tororó do Rojão. O primeiro, que se fosse metido à besta se apresentaria como Charles do Pífano, é um Louis Armstrong do forró. Conduzindo standards do gênero com a sutileza e a reverência de um mestre, Chau só parava para agradecer a oportunidade de tocar para aquele público e para falar da própria feiúra. O segundo, o forrozeiro classudo Tororó do Rojão, anunciado como uma espécie de ancestral de Genival Lacerda, mas que, na prática, localiza-se entre o sambista Riachão e o pagodeiro Moreira da Silva – um malandro clássico, terno branco e tudo o mais, que aconteceu de nascer nas Alagoas em vez de na Lapa carioca. Juntos, Chau e Tororó em nada parecem remeter à nova geração do pop alagoano, mas essencialmente têm, juntos a mesma qualidade que partece unir a música de Maceió – a reverência e a irreverência simultânea, como se respeitar e rir fossem o mesmo verbo.

Entre os dois, Tom Zé tirou um atraso de toda uma carreira para com a cidade, onde só tinha se apresentado em 1962, cinco anos antes de iniciar sua carreira discográfica, quando ainda era apenas estudante de música na Federal de Salvador. E o fez em grande estilo, executando um pout-pourri não apenas de suas músicas, mas de suas apresentações. Começou passando a íntegra da opereta Segregamulher e Amor, de seu último CD, Estudando o Pagode, que funcionou maravilhosa no cenário de ópera que era o local da noite de abertura, o Teatro Deodoro. Depois reviu seus hits tropicalistas, sua fase pós-David Byrne, seus anos 70, sua faceta de bardo solitário – faltaram apenas os instrumentos de seu bestiário particular, encarnados em disco no ano 2000. Mas o público, maravilhado com a compleição do artista, deixou-se hipnotizar e, mesmo encarando esparsas caretas de esgar quando pegava em assuntos belicosos (lembre-se que seu disco mais recente fala sobre machismo, feminismo, homossexualismo e prostituição infantil – quase sempre sem rodeios), foi guiado para a Utopia de Tom Zé, este plano de palavras e sons para onde somos levados num êxtase em meio ao show do baiano – e quem nunca foi, bom sujeito não é.

Depois, do lado de fora do teatro, o grupo olindense Bonsucesso Samba Clube começou a segunda parte da sexta-feira apresentando pérolas do novo disco, Tem Arte na Barbearia, como “Derrapar”, “Não Posso Pensar em Não Ir”, “Rios, Fios” e “Meu Jornal”, ao lado de notáveis de seu disco de estréia, como “Pensei Se Há” e “O Samba Chegou”. O carisma do vocalista RogerMan é comparável ao dos sambistas de velha guarda (aquele mesmo que Seu Jorge – atração do Coachella – emula com tanto cuidado e mercê), o que sublinha a palavra do meio do nome da banda, que ainda abre espaço para “um cover”, anunciam, ironicamente, antes de tocar o clássico “Volta por Cima” (“Levanta, sacode a poeira…”) do sambista e paleontólogo Paulo Vanzolini. A banda, sutil e detalhista, segue o samba, mas bate do ar da caixa feito bossa nova, tem o grave condutor do reggae roots e a escaleta do dub, além de um backing vocal da era do rádio e um guitarrista rock não-ortodoxo, funcionando quase como tios musicais do Mombojó.

O fato do festival ter começado no Teatro Deodoro dava uma suntuosidade de brinquedo ao evento: com a mesma cara de um teatro de ópera clássico, o pequeno Deodoro é muito menor do que casas de ópera de verdade, dando um ar de miniatura ao simpático teatro. Na entrada do Teatro, uma banda mecânica nos recepcionava – “robôs” musicais como os bonecos do Kraftwerk, a banda Só Bonecos é, na verdade, um enorme sintetizador analógico com engrenagens que disparam instrumentos de verdade, que tocam diferentes ritmos nordestinos ao simples apertar de botões – frevo, forró, maracatu, baião, xote. Uma inacreditável relíquia musical, quase uma invenção do professor Pardal encarnada aos olhos dos passantes. Nos dias seguintes, mesmo com a presença surreal da banda, a coisa mudaria de figura, em termos de ambientação. Sai a ostentação pequena do Teatro, entra a superestrutura montada na Uzina, uma enorme usina transformada em casa noturna, com pé direito de mais de vinte metros de altura e dois palcos para dez shows por dia, um deles com direito a ar condicionado. Foi neste palco que aconteceram as atrações mais deslocadas do festival (o instrumental Duofel, o free jazz de Beto Batera e o trance acústico roots do Projeto Cru), que, independente de suas “propostas”, foram bem recebidos pelo público.

Outros shows-chave do evento aconteceram ali, como os locais Mopho e Sonic Jr. Enquanto a última é, na verdade, apenas o ex-baterista do Living in the Shit Juninho que, depois de diferentes formações, resumiu a própria versão ao live P.A. consigo mesmo, cantando, disparando bases e às vezes assumindo a batera sozinho no palco; o Mopho existe na cabeça do vocalista e guitarrista João Paulo do mesmo jeito que o Pink Floyd foi uma visão de Syd Barrett. Dois grandes shows, o Mopho ganhou pela paixão despertada pelo público, que já compreende este amálgama de Mutantes e Roberto Carlos como patrimônio estadual. Quase sempre frito, o vocalista é observado como um sobrevivente de uma época que não viveu, como se fosse possível resgatar Arnaldo Baptista do pé-na-bunda que Rita Lee lhe deu no fim dos Mutantes, quase uma relíquia histórica. Já Juninho vai pela cintura e conquista todos com o ritmo.

Outro momento mágico do festival foi a apresentação do grupo cearense Cidadão Instigado, o Dark Side of the Moon da rádio AM. Irrepreensível, o grupo gira o momentum musical progressivo e popularesco ao redor de seu líder, Fernando Catatau, que transforma qualquer lapso de holofote deixado pela banda num monumento a seu instrumento, a guitarra. Cada show do Cidadão é melhor do que o anterior, Catatau atingiu a autonomia de vôo em suas composições e a banda está entrosada como se tivessem uma década de existência, pelo menos. Uma apresentação imperdível, um dos grandes shows brasileiros atualmente.

Já no palco quente (e sem ar condicionado, em Maceió, isso quer dizer pelo menos 30 graus), os grandes shows foram os da banda Vibrações Rasta, dos Autoramas e de Wado. A Vibrações é o equivalente alagoano de bandas como Natiruts e Planta & Raiz – uma banda de reggae raiz, e ponto. Uma boa banda de reggae raiz, bom salientar, apesar da afetação marleyista demais do vocalista – que é um verdadeiro fenômeno popular em Maceió. Faz muitos shows, tem público fiel – principalmente na periferia, que é quase toda a cidade – e são até pirateados por camelôs, que é um parâmetro definitivo pro sucesso comercial. Foi o que fez o bom show da banda, boa resposta de público, bom vínculo com a banda, química perfeita.

O Autoramas fez a mesma coisa, mas com a pegada industrial do rock’n’roll e para um público bem menor. Uma das poucas bandas independentes brasileiras que sobrevive de seu trabalho, o trio carioca faz shows como operários do rock. “Só não tocamos em dois estados do Brasil, até agora”, comemora o guitarrista e cantor Gabriel Thomaz, pouco antes de subir no palco e se apresentar em mais um dia de trabalho. Com a mesma energia, garra e eficácia de qualquer show da banda, veneno escorrendo pelo canto da boca como tempero de rock feito pra dançar.

Mas a grande apresentação do festival foi o reencontro de Wado com seu público quase-conterrâneo (Wado, de sobrenome Schlickmann, é catarinense adotado por Maceió). Há dois anos sem se apresentar nas Alagoas, depois de uma temporada carioca que transformou-se num exílio, ele fez uma apresentação nos braços do público, que cantava todas as músicas de seus três discos, deixando o vocal de “Ontem Eu Sambei” para a massa, em transe de felicidade, como toda a banda. Uma pequena e poderosa amostra do poder da música como catalisadora de sentimentos em si mesma, canções como cápsulas de emoção. Semelhantes às do show do Living in the Shit, datado nos anos 90, que trouxeram aos sobreviventes nascido na cidade lembranças de um tempo em que um festival como o FMI não exisitiria nem em sonho na cidade.

O festival chegou ao fim com a certeza de ter entrado para a história de Maceió – nunca havia acontecido um evento desta natureza na cidade, grande ou pequeno. Mapeando a própria cena ao mesmo tempo em que se projeta timidamente, mas sem modéstia, no cenário independente brasileiro, o FMI já é.

março 23, 2006

Indie 25

Não lembro pra quem eu escrevi isso... Acho que foi pra Zero.

Lista complicada, o critério definido para determinar o que é ou o que não é rock independente é curto e grosso: se tem dinheiro de empresa grande, não é indie. Assim, os altos e baixos do rock nacional no mercado de discos dão a tônica da produção independente nos últimos vinte anos. Até o começo dos anos 80, ser independente era uma atitude, um manifesto - como foram os discos da fase Racional de Tim Maia e a idéia original do selo de Luís Carlos Calanca, a Baratos Afins. Mas a explosão do rock na década de 80 praticamente extinguiu a produção indie, tamanha era a demanda das grandes gravadoras - e grupos independentes por definição musical tiveram seus discos lançados por majors. A estréia de Lobão, Cena de Cinema, de 1982, por exemplo é uma demo gravada em vinil. Nos anos 90, a chegada da MTV e o sucesso do Sepultura no exterior impulsionam o faça-você-mesmo e o rock independente vive o nascimento de um mercado que começaria a se organizar nos anos seguintes. O sucesso do plano Real, em 94, determina o futuro deste mercado: se por um lado abre a possibilidade de se adquirir tecnologia graças à paridade com o dólar, por outro exclui o elitismo musical do mercado de discos, voltado apenas para classes populares. Isto aumenta a produção caseira e equipa uma primeira geração de computadores que, graças à internet, passa a se comunicar com mais agilidade e para um público específico. Chegamos ao século 21 com uma produção madura e plural, disposta a conquistar o Brasil e o planeta.

Os 25 discos abaixo são as pedras fundamentais na formação de um mercado independente, tanto do ponto de vista comercial como artístico. Cada um deles marca uma etapa concluída, um novo patamar e uma novidade no complexo jogo do rock brasileiro indie, cada vez menos abaixo e mais ao lado do pop endossado por patrões abonados, mesmo aqueles lançados sob uma chancela "indie" (como o selo Plug da BMG, o Banguela da Warner, a Tinitus que era distribuída pela PolyGram ou o Chaos da Sony). Para facilitar a compreensão e não confundir a história, o foco fica apenas no formato rock, excluindo outros agentes cruciais para a formação do mercado independente (como hip hop, heavy metal, eletrônico e hardcore). Se não, era assunto para páginas e mais páginas...

1) Singin' Alone - Arnaldo Baptista (1982)
Marco zero da produção independente como nós conhecemos, é o primeiro lançamento da Baratos Afins e o alerta "o sonho acabou" para a geração que cresceu à sombra dos Mutantes. Um novo rock estava começando a tomar conta do Brasil (à base do chopp e batata frita) e Arnaldo Baptista chorava as próprias mágoas ao piano, atormentado emocionalmente, com baladas cruas e muito rock'n'roll. Bem distante do sol carioca que começava a bronzear o rádio.

2) 3 Lugares Diferentes - Fellini (1987)
MPB maldita, cool wave, pós-punk, bossa nova, África, cult band, art rock... Conceitos que fervilhavam no underground oitentista se encontraram numa mesma banda. Formada pelos jornalistas Cadão Volpato e Thomas Pappon, o Fellini contava com a participação de Ricardo Salvagni para gravar seu álbum menos enigmático e mais, er, pop. Entre o rock europeu e a melancolia brasileira, eles sintetizavam sentimentos que anos depois seriam traduzidos em um único adjetivo: indie.

3) O Ápice - Vzyadoq Moe (1988)
Na Sorocaba pré-Wry, o clima europeu era mais alemão do que inglês. Culpa do noise dada do Vzyadoq Moe, performáticos orgânicos que partiam pra cima do público. Menores de idade e fartos de punk rock, abraçavam o drone, o cabecismo, o ritmo kraut e o industrial desplugado, especialmente na percussão ferro-velho. O Ápice vale seu título por optar pela independência, enquanto irmãos de sonoridade do grupo (o mineiro Sexo Explícito, os cariocas Black Future e Picassos Falsos) fecharam com a certeza do contrato com grandes patrões.

4) Cascavelettes (1988)
Antes de serem banalizados por um hit na novela Top Model, pelos mimos do superstarismo e muito antes do forróck boca-suja dos Raimundos, os Cascavelettes inauguraram a fase moderna do pop gaúcho, separando os contemporâneos do Liverpool e a geração Rock Grande do Sul como farinha do mesmo saco. Usando o palavrão com motivos rock'n'roll (o rock brasileiro só os usava com motivos punk, ressaca da Censura), o grupo era um misto de Ramones pornográficos com New York Dolls machistas e seu primeiro disco (lançado um ano antes do sucesso de "Nega Bom-Bom'') mostra a disposição para injetar algo mais do que energia no indie nacional. As demos da época, todas batizadas com o nome da banda, mantém o "nível".

5) You - Second Come (1991)
Este é o único disco do selo Rockit!, do guitarrista da Legião Dado Villa-Lobos, que pode ser considerado independente - já que o sucesso underground que fez esgotar a tiragem inicial de 3 mil discos fez crescer o olho da inglesa EMI-Odeon, que abduziu a marca. A estréia do Second Come, influenciada diretamente pelo sussurrado rock inglês pós-Madchester e pelas convulsões noise pré-grunge do underground americano, abre a segunda fase do indie brasileiro que, devido à onipresença do instrumento, começa a ser definido, anglofonamente, de "guitar" (as duas pronúncias são permitidas).

6) Little Quail and the Mad Birds (1992)
Depois de tentar seguir os passos da geração Legião-Plebe-Capital (em vão, culminando na geração do seminal Rock na Rampa, em 1987), o rock de Brasília volta-se para dentro e a capital do Brasil começa a ebulir culturalmente. Disputando cabeça-a-cabeça o título de melhor banda com o Low Dream e o de melhor demo com o Oz (a excelente Trés Bien Mon Ami), o Little Quail ganha por não soar derivativo de ninguém (nem de My Bloody Valentine, nem de Pixies). A fita é uma ótima desculpa para caçar os registros sonoros do rock candango do começo da década, que vão da fase rock do Pravda aos primórdios dos Raimundos, passando pelas excelentes, e esquecidas, Succulent Fly e Sunburst.

7) Killing Chainsaw (1992)
São os piracicabanos do KC que colocam o rock do interior de São Paulo no mapa da década de 90. O LP homônimo, lançado pela loja de discos Zoyd e sampleando o anime Akira na capa, é o ponto inicial de uma geração que deu ao Brasil instituições célebres do underground, como a casa noturna Hitchcock (em Santa Bárbara d'Oeste), o zine Broken Strings, o festival Juntatribo, a rádio Muda e o estúdio Arenna (todos estes em Campinas), além de bandas que iam do punk pop do No Class ao samba-noise do Linguachula e o industrial nerd dos Concreteness. Além de iniciar a fase caipira do indie nacional, o Killing ainda se orgulhava de seu inglês brasileiro, com sotaque "tchu" em vez de "to" e sem brit-frescuras. O rock aqui é ligado na tomada e na distorção, de pai Sonic Youth e mãe J&MC.

8) Rotomusic de Liquidificapum - Pato Fu (1993)
O disco mais esquisito da gravadora mineira Cogumelo (que já contava com esquisitices como o disco sub-Red Hot do DeFalla ou o caos sônico do Holocausto) também é o disco de estréia do Kid Abelha dos anos 90. Estranho, não? Que nada. Estranho é ouvir a versão speed para "Sítio do Picapau Amarelo" ou um hino mosh baptchura cuja citação da Unimed levou o grupo a tocar no comercial do plano de saúde. E que tal o medley esquizofônico que batiza o disco, que cita, sem pudor, os Flintstones, Kiss, baião, funk metal e beats eletrônicos? Muito mais John do que Fernanda Takai, é o disco do trio mineiro que os fãs de Mike Patton mais gostam. Com razão.

9) Scrabby? - Pin Ups (1993)
Lançado pela Devil e produzido por João Gordo, o terceiro (ou segundo, se não contarmos o LP do projeto Gash) disco dos pais do indie 90 é também seu disco mais sombrio e pesado. Fora as referências inglesas, entra o lado mais caótico e, hm, "visceral" da banda. Gravado com sua formação clássica, é uma mistura de Funhouse (dos Stooges) com Berlin (do Bowie). É o ápice das guitarras de Zé Antônio. "Acho que esse foi o disco que mais teve briga no estúdio", lembraria o vocalista Luís Gustavo anos depois", eu nunca vi tanta gente chorando, berrando, a Alê chorando num canto, o Marquinhos no outro".

10) Mod - Relespública (1993)
Curitiba tem a péssima reputação de não produzir registros sonoros à altura das apresentações ao vivo de suas bandas. Discos e fitas funcionam mais como "guias" sobre o que esperar de determinado grupo do que reproduções in vitro de suas performances instantâneas. Da mesma forma, a cidade não possui rock de laboratório, aquele feito para viver em estúdio. Talvez isto explique o paradoxo fundamental da capital do Paraná: quanto mais bandas a cidade produz, menos elas se destacam em nível nacional. O primeiro compacto da Relespública (ainda com o enfant terrible Daniel Fagundes, vocalista, morto aos 16 anos) pertence à primeira safra do indie rock da cidade, custeado pela gravadora Bloody que pertencia ao mesmo JR que é dono do lendário club 92 Degrees. Com três faixas ("Capaz de Tudo", "Preciso Pensar" e "Quem é Que Entende o Mundo?"), o vinil fala mais do rock de Curitiba do que todas compilações lançadas em seu nome.

11) Nunca Mais Vai Passar o Que Eu Quero Ver - Doiseu Mimdoisema (1994)
A influência que a Graforréia Xilarmônica, uma das dissidências dos Cascavelettes, teve sobre o rock gaúcho é muito maior que o séquito de fãs que o grupo preserva até hoje. Graças ao improvável gosto musical de seus líderes, Frank Jorge e Marcelo Birck, despertou-se no pop riograndense o prazer em redescobrir a Jovem Guarda, encravada na memória genética do estado. Esta redescoberta trombou irresistivelmente com os prazeres de uma recém-descoberta paixão gaúcha, o experimentalismo no estúdio em tempos de gravação caseira. Diego Medina fez a fita para um amigo de farra, mas a contagiante "Epilético" pulou do som da sala de estar para as ondas do rádio e virou hit local instantâneo. Medina continuaria suas experiências pop no futuro (Grupo Musical Jerusalém, Video Hits, Senador Medinha), mas sem conseguir reencontrar a ingenuidade da primeira fita, que está para o rock gaúcho atual como Angel Dust, do Faith No More, está para o novo metal.

12) Uh-La-La - Dash (1995)
Antes de provocar suspiros com seu baixo Danelectro a bordo dos Autoramas (e ao lado do ex-Little Quail Gabriel Thomaz), Simone do Vale era a líder de um supergrupo indie carioca. Gritalhona e com jeito de moleque, ela era uma das guitarrista do grupo, ao lado de Diba Valadão (na outra guitarra), Formigão (que depois entrou para o Planet Hemp, no baixo) e Kadu (ex-Second Come, na bateria). O hit "Sexy Lenore" transformou a demo Sex and the College Girl num hit do underground do Rio e fez com que o grupo fosse sondado pela misteriosa gravadora Polvo, que lançou o único CD da banda, pra ninguém. Com a capa desenhada por David Mazzuchelli, o disco passou por uma série de empecilhos que o tornaram item de colecionador. O ano era 1995, as grandes gravadoras tinham dado as costas para o rock, as pequenas perdiam ilusões de vendagens altas e vários picaretas apareceram no meio da história. O disco do Dash é apenas um dos muitos exemplos de uma geração pega com as calças na mão.

13) 100 Km c/ 1 Sapato - Lacertae (1995)
Ao mesmo tempo, o Lacertae, no Sergipe, abria uma em muitas possibilidades. Depois da seca de 1995, o mercado independente passou por uma brusca horizontalização, e sua pluralidade tornava-se sua principal qualidade. Assim, bandas de lugares sem tradição passavam a ganhar espaço no cenário, quebrando o eixo Rio-SP-BH-Brasília-PoA-Recife que já havia quebrado o RJ-SP original no começo da década. A cena começa a fragmentar-se não apenas em lugares diferentes (cidades como Goiânia, Londrina, Salvador, Fortaleza, Florianópolis, Vitória e Maceió reivindicam na marra seu próprio espaço, nos anos seguintes) mas em gêneros improváveis. Se a MTV e o Sepultura criaram um hiato noise/guitar/heavy com bandas cantando em inglês e tentando, sem sorte, o mercado exterior, a fita de estréia do Lacertae é o elo perdido entre o pop dos anos 90 e o experimentalismo dos dias do Vzyadoq Moe. Hendrix, discursos concretos e uma bateria com berimbau também mostravam que o Nordeste estava em plena ebulição artística depois do mangue beat.

14) Carbônicos - The Charts (1996)
Com a fragmentação da cena independente, São Paulo entrou numa onda retrô semelhante à gaúcha, disposta a resgatar valores sessentistas a um pop perdido entre a rádio e o anonimato. Antecipando a onda kitsch que veio com Austin Powers e o box-set do disco Nuggets, a cena paulistana passou por uma estilização visual e sonora que mais tarde seria referida, de forma irônica, como a cena "churly". Os responsáveis pela popularização desta nova fase seria o grupo comandado por Sandro Garcia, que teve seu único disco lançado pela loja Suck My Discs dos jornalistas/músicos Alex Antunes e Celso Pucci (outra ponte dos anos 90 com o cult rock dos 80). Garcia, dono do famoso estúdio Quadrophenia, mais tarde fundaria o Momento 68 com o vocalista da banda gaúcha Lovecraft, Plato Divorack, selando assim a paixão de São Paulo e Porto Alegre pelos anos 60. (Plato aliás é a grande ausência desta lista, talvez por nenhum disco sintetizar toda a complexidade do artista).

15) Learn Alone Or Read The User's Manual - Sleepwalkers (1996)
Aqui vamos ter motivos de sobra para reclamações. Afinal, muitos vão falar dos tempos do baterista Farmácia ou da clássica Sick Brain in Sue's Coffee, gravada um ano antes, quando muitos sequer reconhecerão a presença da banda. O fato é que os Sleepwalkers foram a melhor banda de indie rock, em todos os sentidos, que o Brasil já teve, deixando para trás concorrentes de peso como os goianos Grape Storms, a carioca PELVs e o Grenade de Londrina. A sonoridade lo-fi, o tratamento de guitarras, o senso melódico, os refrões, o apelo pop - as qualidades do grupo catarinense podem encher parágrafos e mais parágrafos. Mas além de sua qualidade, sua importância se dá por tirar o pop catarina da vibração riponga de bandas como Phunky Buddha e Dazaranhas. Depois deles, vieram o Feedback Club (da ex-sleepwalker Sabrina), o Superbug, os Pistoleiros, o Pipodélica e as gravadoras Low Tech e Migué Records, dando força à cena ilhéu de Floripa.

16) Baladas Sangrentas - Wander Wildner (1997)
Luminar do punk brasileiro para as massas dos anos 80, o ex-vocalista dos Replicantes seguiu os passos da primeira safra dos anos 90 (comprada pelas majors) e o moldou para o underground. Como os Raimundos tinham o forró, o Planet Hemp tinha a maconha e o mangue beat, os caranguejos; Wander inventou uma máscara para facilitar sua absorção pelo mercado - e com o rótulo "punk-brega" vendeu-se para uma nova geração ao mesmo tempo em que amadurecia sua personalidade pública. Mas, mais importante, a carreira solo do velho WW era uma prova cabal que o rock independente pouco tem a ver com juventude ou faixa etária.

17) Menorme - Zumbi do Mato (1997)
O Zumbi do Mato é o som que Fausto Fawcett e Arrigo (ou Paulo) Barnabé fariam juntos se tivessem alguma afinidade. Mas, mais do que isso, é o ponto de convergência de diversos aspectos do pop carioca, representados por diversas instituições. Há o humor doentio do Gangrena Gasosa, a explosão cênica de Piu-Piu & Sua Banda, a podreira das primeiras fitas do Pólux, as gravadoras Tamborete (do jason Leonardo Panço) e Qualé Maluco (dos planet hemp B-Negão e Formigão), a repetição do Stellar, o choque de Rogério Skylab e o som metal da segunda vinda do Second Come. Além disso, o grupo continua o legado experimental retomado pelo Lacertae que resultou na safra de vanguarda da virada do século, com nomes como Objeto Amarelo, os Jersssons (São Paulo), Os Legais (SC) e Vermes do Limbo (Londrina).

18) A Sétima Efervescência - Júpiter Maçã (1998)
O disco de estréia do ex-cascavelette Flávio Basso é um passo adiante nos conceitos vendidos pelos Charts e por Wander Wildner. Rock adulto, retrô e psicodélico, A Sétima Efervescência sagrava a maturidade da mesma geração que havia tomado a porta-na-cara das gravadoras depois da efervescência do biênio 93/94 e a independência do formato perseguido pelas gravadoras, sem deixar de soar pop, brasileiro e cantando em português e inglês. É o primeiro blip no radar de um mercado que viria, em menos de um ano, a galinha de ouros do trio sertanejo-axé-pagode começar a dar com os burros n'água.

19) Chora - Los Hermanos (1999)
A segunda fita do quinteto Los Hermanos escancarava um pop estritamente radiofônico que foi forjado longe do universo do mercado fonográfico. O grupo liderado por Marcelo Camelo era a continuação do trabalho de uma geração de bandas cariocas que misturavam ska, funk, reggae e samba (nomes como Los Djangos, Acabou La Tequila e, mais tarde, Pedro Luís & A Parede). Mas o grupo ia além e se alinhava ao ecletismo chique de bandas de sua geração, como 4-Track Valsa, Vibrossensores, Vulgue Tostoi, entre outros. Fora os maneirismos apaixonados (que levaram a banda receber rótulos como romanticore e pop brega), a fita mostrava que as possibilidades cogitadas por Júpiter Maçã poderiam ser exploradas a fundo, tanto artística quanto comercialmente. Mas o mercado, acostumado com seu próprio toque de Midas, comprou a banda e forçou "Anna Júlia" a fazer sucesso, overdosando o público do que poderia se tornar os Paralamas do século 21 (e ainda pode, apesar de tudo).

20) Astromato (1999)
Continuação dos experimentos noise e industrial da época do Waterball (92-95), o Astromato era filho direto do Weed, banda de pop guitarreiro britânico que, brincando com as palavras, passou a compor em português e se deu bem. Sua primeira fita era mais um degrau na escalada que o indie brasileiro dava rumo à sua auto-suficiência artística. Se gaúchos e cariocas ajudavam o rock a perder o jeito de moleque, os campineiros explicavam que algumas qualidades (como sensibilidade e timidez) não pertenciam à adolescência. Além disso, a dupla de guitarras Armando e Pedro tramavam texturas sônicas à moda das bandas inglesas que tanto influenciaram o indie no começo dos anos 90 (e que ainda repercutiam, graças a bandas como os mineiros Vellocet, o carioca Cigarettes e os catarinenses Madeixas). Aos poucos, o ciclo vai se fechando.

21) De Luxe 2000 - Thee Butchers' Orchestra (1999)
Cru e direto, o TBO é a melhor banda de rock'n'roll brasileira na ativa e sua existência se deve à dissidência garageira que rompeu com o indie no meio dos anos 90. Seu núcleo central era o trio da gravadora Ordinary (a produtora Deborah Cassano, seu marido Marco Butcher, ex-Pin Ups, e o guitarrista e produtor Adriano Cintra), que, além dos Butchers' foi responsável pelo lançamento de bandas como Ultrasom (de Adriano), Red Meat, Spots, Grenade, entre outras. Mais do que agitar o underground com duas guitarras e uma bateria, o Butchers' está ligado à fase de ouro do indie anos 90, quando o rock brasileiro começou a conversar com os gringos, sem passar pelos veículos oficiais.

22) It's An Out of Body Experience - Grenade (1999)
O Grenade era o próximo patamar. Fruto dos experimentos lo-fi do ex-Killing Chainsaw Rodrigo Guedes, o grupo nascia em Londrina e logo se tornava um dos maiores nomes do indie nacional. A repercussão se dava graças à sensibilidade de Rodrigo, pai de riffs memoráveis, melodias pop ao extremo e pirações em estúdio. O som ia do rock clássico ao hardcore, passando por folk e indie rock. Lançado no exterior, Out of Body Experience poderia é a conclusão lógica do longo passeio que o rock independente fez durante a década de 90.

23) Brincando de Deus (2000)
O terceiro disco destes baianos deveria ter o título que Experience, do Grenade, levou. Afinal, seria lançado um ano antes e produzido por Dave Friedmann (Flaming Lips, Mercury Rev, Mogwai) caso todo seu equipamento e pré-produções não fossem perdidos num incêndio. O grupo se refez e, ao lado do talentoso produtor e tecladista André T. (responsável pela sonoridade de novos baianos como Rebeca Matta e a banda Crac!), gravou seu álbum definitivo, imbatível. Um disco que poderia ser lançado no mercado exterior sem dificuldades e que, apesar da anglofilia, é essencialmente brasileiro.

24) Peninsula - PELVs (2000)
Completando dez anos de banda e dez anos do selo carioca Midsummer Madness, a PELVs faz um disco igualmente robusto como o do Brincando de Deus, mas cheio de ganchos pop e melódicos. Uma obra-prima do indie nacional, Peninsula soa como todos os independentes querem soar: profissa, autêntico, despreocupado e livre, como se o mercado de discos brasileiro permitisse isto. Se ele não permite, a deixa fica para o indie.

25) O Manifesto da Arte Periférica - Wado (2001)
Além de coroar a recente produção de Maceió (a saber, Varnan, Mopho e Sonic Junior), o disco de estréia do ex-Ball Oswaldo Schlickmann é o auge da produção independente brasileira dos últimos 20 anos. Tem todas as qualidades dos discos citados nesta lista, além de falar em português, compor letras certeiras e experimentar à vontade no estúdio. Se chegamos até aqui com este nível, daqui pra frente é só crescer.

março 22, 2006

O elogio do feio

Além da matéria de capa (U2 e Stones) da Top Magazine de fevereiro, eu também publiquei essa, mais uma sobre o Sou Feia, Mas Tô na Moda - e funk carioca em geral.

A certa altura de Sou Feia, Mas Tou na Moda, filme de estréia da diretora gaúcha radicada no Rio de Janeiro, Denise Garcia, um dos inúmeros entrevistados do documentário sobre o papel e a presença da mulher no funk carioca pergunta-nos onde as "tchutchucas" e "cachorras" do gênero teriam aprendido que o excesso de sensualidade (elogio para uns, eufemismo para outros), presente em letras, gemidos, performances e posturas as levaria ao sucesso. Antes de esperar a resposta ele mesmo enumera: É o Tchan, "vai dançando na boquinha da garrafa" e outros sucessos familiares que tocam no Gugu e no Faustão.

Em outras palavras - se o sexo é aceito como meio de comunicação em diferentes veículos (das novelas da Globo aos trocadilhos de duplo sentido do pagode, passando por comerciais de cerveja, Bruna Surfistinha e as novas carreiras de Alexandre Frota e Rita Cadillac), por que no funk carioca ele incomoda? Por que os gemidos de Tati Quebra-Barraco, Vanessinha Pikachu e Deise Tigrona, os requebros de Lacraia e os sorrisos francos de Claudinho e Buchecha, Márcio e Goró e Mr. Catra são vistos com olhos tortos no mesmo país que venera a mulata, a garota de Ipanema e a loirinha do Big Brother Brasil?

Desde o último grande levante do funk carioca em escala nacional - em pleno Rock in Rio 2001, com o Bonde do Tigrão e a "Egüinha Pocotó" -, o gênero que já tem mais de quinze anos vem passando por uma reavaliação ética e estética. Por um bom tempo renegado à condição de "som de quarto de empregada", o funk do Rio ganha novas platéias, inclusive no exterior, toca em grandes festivais e vem levantando discussões sobre respeito de seu papel e natureza na cultura brasileira. Por que o buraco, no caso, é mais em cima...

Spice Girls
"O preconceito é totalmente social. Se o funk fosse produzido no Rio por garotas brancas de classe média do Leblon, elas seriam as Spice Girls brasileiras, mas como é feito por negras e faveladas, elas são as desbocadas, as ignorantes que não sabem o que estão falando", explica Denise, cujo filme que estreou em janeiro e continua em cartaz é um dos reavaliadores da cena carioca. "Esta discussão sobre a conotação sexual das músicas não faz muito sentido, não numa cidade que se orgulha do carnaval que produz, onde mulheres desfilam literalmente em carne e osso – ou cobertas por purpurinas, está bem – para quem, no planeta, tiver televisão assistir. Então, se quisermos discutir o papel da mulher na sociedade brasileira, temos que colocar, no mínimo, o carnaval na pauta. O carnaval é uma celebração brasileira e o funk também. A diferença entre as mulheres que aparecem nos carros alegóricos do sambódromo e as funkeiras é que as primeiras entram mudas e saem caladas e representam a exuberância das formas femininas. No funk, as mulheres cantam, vestidas, e no geral não exibem as invejáveis formas dos destaques das escolas de samba, mas a conotação sexual está fortemente presente nestas duas formas de expressão da nossa cultura".

"Gostar da música ou não é um direito de todo o cidadão", continua a diretora. "Agora, no caso do funk, a questão é mais cruel: os detratores chegam a dizer que não é música, ou seja, querem desqualificar o movimento descaracterizando-o. Como não é música? O problema é que os favelados não têm acesso aos meios que os desqualificam, os jornais, as TVs, os fóruns, as universidades, os blogs, os sites e portanto ficam sem direito à resposta. E enquanto isso a covardia dos que tem acesso a estes meios corre à solta. Porém, os funkeiros têm seu público fiel, que comparece aos bailes, que consome o produto e que mantêm o funk existindo dentro das comunidades".

"E a exploração de mídia e gravadoras é sempre predatória - esgotar o artista e depois pegar outro. e o funk não tinha suficientes figuras com voz ativa, mobilização, interesse e força necessária para bancá-lo como movimento", continua o jornalista Sílvio Essinger, autor do livro "Batidão" (Ed. Record), que fotografa o nascimento até o início da adolescência do gênero. "O funk também não tinha a defesa cultural que outros gêneros tiveram, como é o caso do axé, que aliás foi uma influência decisiva para a explosão do funk sensual".

"A questão tá na etmologia da palavra preconceito. É o pré-conceito, o conceito que a pessoa tem antes de conhecer", teoriza o pai do gênero, o DJ Marlboro. "O problema do Brasil não é apenas a discriminação e o racismo, e sim o fato de estes acontecerem de forma velada. A mesma pessoa que te cumprimenta e te dá tapinhas nas costas, fala mal de você pelas suas costas só porque você é da favela. O cara nem conhece a favela, mas tem esse pré-conceito que na favela só tem gente fudida, só tem bandido...."

Mutação
"É som de preto, de favelado", cantava a dupla Amylckar e Chocolate nos anos 90, "mas quando toca ninguém fica parado!". A descrição que os dois fazem do funk carioca poderia servir para boa parte dos gêneros populares do século 20. Como o funk, estilos musicais como o samba, o jazz, o forró, o rhythm'n'blues, o rock, o reggae, o hip hop, a axé music e os subgêneros da música eletrônica (drum'n'bass, techno, house) também nasceram em regiões urbanas decadentes produzidos por descendentes da Diáspora Africana, conduzindo tudo de forma não-linear, pelo ritmo.

"O que a gente conhece como funk carioca é uma mutação do Miami bass (vertente do hip hop surgida na Flórida) que começou a surgir no fim dos anos 80 quando as galeras resolveram entoar seus gritos de guerra, bem no estilo torcida organizada, por cima das bases instrumentais ou imitando foneticamente o que ouviam em inglês nas músicas", explica Essinger. "Isso aconteceu naqueles mesmos bailes de subúrbio e periferia que anos antes tocavam o funk de James Brown e seguidores e, na renovação dos balanços, incorporaram o disco funk e depois o rap. O primeiro a fazer um disco de Miami bass em português foi o DJ Marlboro, no LP Funk Brasil (de 1989), inventando MCs. Logo depois apareceram MCs de verdade, como Galo, Neném & Mascote e D'Eddy".

Sílvio continua sublinhando as faixas que moldaram o funk como nós o conhecemos hoje: "Entre as gringas, as de Miami bass que fizeram sucesso nos bailes e serviram de base para os funks foram "Doo Wah Diddy", do 2 Live Crew; "It's Automatic", do Freestyle; "Your Boyfriend", do Boys From The Bottom. Entre as nacionais, os primeiros sucessos foram a "Melô da Mulher Feia" do Abdullah, "Feira de Acari" do MC Batata, "Melô da Funabem" do Grandmaster Raphael e o "Jack Matador" do DJ Mamute, da equipe Pipo's. Essas músicas deram origem ao funk de montagens, base para quase tudo que a gente ouve hoje". "Montagem", na terminologia do morro é aquilo que comumente nos referimos como "remix".

Mundo Funk Carioca
"O Cristóvão Colombo e o Pedro Álvares Cabral do funk chama-se Hermano Vianna", explica Marlboro, falando sobre o antropólogo irmão do paralama Herbert Vianna. "Cristóvão Colombo porque foi ele quem primeiro entendeu que o que acontecia nos bailes era uma manifestação nova e brasileira, quando escreveu o livro "O Mundo Funk Carioca" em 1988", explica o DJ, "e Pedro Álvares Cabral porque foi ele quem me deu o meu primeiro seqüenciador, permitindo que começasse a haver uma cena de funk produzido no Brasil".

"Meu envolvimento era como ouvinte de discos, muito intrigado com o que tinha acontecido à cena desde o fim dos anos 80, o período estudado pelo Hermano", segue Sílvio. "De repente, havia toda uma música nova, com assuntos novos, muito interessante, sendo ignorada como fenômeno cultural pela imprensa formadora de opinião lasse média".

Mas desde que Sílvio começou a pesquisar para seu livro, em 2001, muita coisa tem mudado nesta aceitação do fenômeno. Já saíram duas coletâneas sobre o gênero na Europa (Slum Dunk Presents Funk Carioca, pelo selo inglês Mr. Bongo, e Rio Baile Funk: Favela Booty Beats, pelo selo alemão Essay), Marlboro já se apresentou na Espanha (no renomado festival Sónar, em Barcelona), Inglaterra, EUA (quando tocou no Central Park) e França e representantes do gênero passaram pelos principais festivais do Brasil, do Tim Festival (quando a rapper cingalesa M.I.A. convidou Deise Tigrona para dividir seu palco no Rio) ao Skol Beats (quando o DJ Dolores chamou Mr. Catra para rimar sobre seu set). "A internacionalização tem sido fundamental para as pessoas entenderem que o funk chegou pra ficar", explica o DJ.

Mas Marlboro não tem pressa. "Na verdade, eu acho que isso tá acontecendo muito rápido, porque isso sempre aconteceu, da música que antes era considerada pobre, vulgar e de preto ser descoberta anos depois de seu auge, com uma espécie de refinamento", conta. "Aconteceu com o samba: o Cartola foi preso quando era jovem por ser sambista, imagina, e depois só teve seu valor reconhecido quando ele tava velhinho, com 70 anos. Luiz Gonzaga também, quando ele tava no auge, forró era "música de paraíba", pejorativo mesmo. Acho que graças a essa era de excesso de informação e facilidade de comunicação - internet, celular, TV a cabo - esse reconhecimento tá acontecendo enquanto o funk vive sua grande fase. É uma questão de tempo", sorri.