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abril 17, 2008

O Espaço da Imaginação

Entrevistinha (hehe) que eu fiz com o Marcello Dantas, o cara que inventou o Museu da Língua Portuguesa, pra Audi Magazine.

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O criador do Museu da Língua Portuguesa Marcello Dantas fala sobre o papel da tecnologia em nossas vidas e como o Brasil pode usá-la para se estabelecer relevância global no século vinte e um

Entre o laptop e o smartphone, Marcello Dantas prefere o papel e a caneta para acompanhá-lo durante a entrevista. Ele está sob um agradável caramanchão na parte posterior de sua arejada casa nos Jardins, em São Paulo, ele rabisca à medida em que desenvolve conceitos e racionaliza abstrações, tudo para trazer suas idéias para o papel, mas é um caminho de duas mãos, pois logo ele está sendo específico e enumerando exemplos, gesticulando amplamente para dar dimensões ao que está escrito no papel. É disso que ele entende: transformar conceitos em espaços.

Foi assim que começou a mexer com vídeo experimental nos anos 80, numa época em que "fazer vídeo" convergia vanguarda artística e status social (áreas habitadas atualmente pela toy art, pelo grafitti, pela internet e pelo DJ). Contemporâneo da geração Olhar Eletrônico (produtora que lançou nomes como Marcelo Tas e Fernando Meirelles), ele logo abandonou o vídeo por sua limitação espacial - a tela pedia para ir além. Passou a experimentar as artes plásticas num sentido mais amplo e, quando menos percebeu, curava museus. Seu trabalho mais popular e aplaudido é o Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em São Paulo no ano passado, em que convida as pessoas a "entrarem" na língua, atravessando páginas, palavras e fonemas em instalações que compõem uma grande obra de arte - o próprio museu.

Por isso, em vez de falar dos trunfos e feitos de Dantas no passado - eles estão todos fichados em seu site pessoal www.magnetoscopio.com.br -, melhor deixa-lo divagar sobre o museu como a nova catedral, o papel da tecnologia na história da humanidade e a oportunidade que o Brasil tem no novo desenho geopolítico do século 21. Um cachorro passa por debaixo da mesa, um gato pula sobre a cadeira para acompanhar o papo e Marcello segue rabiscando esquemas para traduzir uma versão imersiva de um universo em expansão, o da imaginação.

Antes de começarmos a falar sobre arte e tecnologia, queria que você começasse fazendo uma separação conceitual entre tecnologia e eletrônica. São duas coisas bem…
Bem diferentes. Tecnologia é uma coisa umbilical na história da humanidade e entender essa história da tecnologia é entender, por exemplo, do nascimento do fogo ou os primeiros usos das tintas nas paredes para gravuras rupestres e pinturas rupestres. Tecnologia é anterior ao próprio conceito de história. É a história da evolução do homem.
Obviamente que a face mais visível da palavra "tecnologia" são as últimas tecnologias, o high-tech. O high-tech é o ponto da vulnerabilidade da tecnologia. É a hora em que a tecnologia ainda não está pronta, por isso que ela é assunto. Depois que a tecnologia fica pronta, ela se torna invisível. Você pára de pensar nela. Essa é a boa tecnologia.
A tecnologia que funciona é aquela em que você não pensa. Cadeira é uma puta tecnologia que resolveu mil coisas no mundo e você não pensa nela. Você está sentado em cima dela, mas não pensa.
Por outro lado, tem uma questão nisso, que é por isso que me interesso tanto pela tecnologia, é que eu acho que o homem perde tecnologias através da história. A gente vai abandonando tecnologias e perde potenciais criativos associados a coisas que a gente não sabe mais como fazer porque a gente muda o padrão tecnológico para um outro padrão e você não sabe mais como resolver. Hoje, por exemplo, todo o universo das máquinas analógicas, que há tão pouco tempo – quinze, vinte anos atrás – eram absolutamente correntes, a gente já não sabe mais como resolver, como construir, como reinventar. Bom, separando isso, quer dizer, a tecnologia visível versus a invisível – a visível, aquela que não funciona o que está na beira, está trepidando, quase funcionando, e a invisível, aquela que é muito boa. Também vamos falar de arte então, para complementar essa coisa, já que você relacionou as duas palavras.
Arte é uma tecnologia. Através dos tempos, se você for olhar da Vinci, Michelangelo, lá atrás, a invenção da perspectiva, os grandes artistas eram os artistas que estavam inovando exatamente nesses territórios. Fazer um domo, como é que pinta isso aqui de uma maneira tal … A própria questão de como a imagem se comporta, as cores – o artista tem a coisa do domínio da técnica. E para mim não existe arte tecnológica. Existe boa e má arte.
O maior problema é que toda má arte que não sabe como se intitular, ela se protege sob um guarda-chuva de se chamar de tecnológica. E aí você começa a ver uma porrada de coisas que são má arte em qualquer mídia e colocando esse label para se proteger… “É que eu estou lidando com a borda da tecnologia.” Por isso que não funciona, é feio, é ruim, não envolve. É uma desculpa. Quando você vê boa arte, tecnológica ou não, ela te encanta. Esse é o papel dela: te envolver, te chamar a atenção, te ligar para algum outro lado.

Fazendo um paralelo com isso que você falou, a boa arte também é invisível, não é?
Sim. O melhor truque da boa arte é a invisibilidade. Acabei de curar a exposição de Anish Kapoor. Uma das melhores obras na exposição, na minha opinião, é uma obra que você não consegue vê-la. Ela desaparece na tua frente. Quando você está de frente para ela, ela não existe. É uma parede branca. Quando você vai virando de costas, ela se revela com a sua protuberância, com todo seu charme e aí se torna poderosa. Então, tentar definir as coisas como, sabe, isso é tecnológico, não vale para mim. Ou você me ganha pelo que a coisa é ou não me ganha.
Complementando uma coisa que você falou, sobre a diferença entre tecnológico e eletrônico. Existe uma coisa que mudou no mundo nos últimos tempos, que é a era digital. A era digital é um remapeador de relações sociais, de trabalho, humanas... Tudo. Tudo foi enfiado dentro desse liquidificador e passou a ter outros valores, pesos, medidas. Outras coisas foram esquecidas, outras foram levantadas. Essa, que é uma transformação de comportamento, é uma transformação de mobilidade, é uma transformação de comunicabilidade – tudo isso – e…

Principalmente de hierarquia também, né?
Tudo é colocado… O grande poder da tecnologia é uma oportunidade de reorganização de valores, ponto. Ela, o tempo todo, diz: “Opa! Status quo desafiado! Xeque! Reposicione-se!” O status quo tem que se reposicionar. Às vezes fica igual, às vezes fica diferente.

No sentido que você falou que a arte também é tecnologia, então, quando o artista questiona, ele não está simplesmente questionando com valores estéticos ou artísticos, mas também tecnológicos.
Sim. A tecnologia é um grande motivador para a arte. Por outro lado tem o: “como é que eu vou conseguir fazer uma coisa legal com isso e ao mesmo tempo não ser vítima disso? Não ser dominado por isso?” Esse é o twist. Esses dias eu ouvi uma frase muito boa: “My work gets better the more I take myself out of it” (“meu trabalho melhora à medida em que eu me retiro dele”). Vai contra toda uma filosofia de uma arte autobiográfica das pessoas. Na verdade, tem toda uma tendência na arte contemporânea de ser profundamente assim: “É o meu diário, é a minha vida, minhas vísceras!”. Me lembrei de uma frase de Bill Viola. Ele é um mestre nisso até, nessa relação de arte e tecnologia: “It’s not what I want the work to be. Artistry is listening to what the work wants to be”. (“Não é o que eu quero que a obra seja. Arte é ouvir o que a obra quer ser”)
O digital realmente mudou foram as dinâmicas de jogo da sociedade. A sociedade sempre é um jogo e ela coloca outras questões completamente diferentes. Você vê: um trabalho como esse negócio da caveira de Damien Hirst, que foi vendida por 100 milhões de dólares, a caveira não tem a menor importância, nem os diamantes. O que está aqui é um jogo. É um jogo que aquela caveira passa a simbolizar dentro da sociedade como um todo. Passou a ser uma coisa muito mais de natureza política do que qualquer outra coisa.
Então você vai lá e cria. “Tá bom, eu vou fazer um negócio que só de diamante tem 30 milhões de libras aqui dentro. Vamos ver quem vai botar o pau na mesa”. E você gera e agrega um valor. E, na realidade, houve toda uma inquietação em torno disso que você iria ter um artista vivo produzindo uma obra que vale mais que o Van Gogh mais caro. O Van Gogh mais caro acho que custou 87 milhões de dólares. Esse chegaria a 100, sendo que tudo que está fazendo é uma puta de uma picaretagem.

Ele está jogando na cara das pessoas.
E as pessoas assinam o cheque. Se articularam, compraram pedaços do negócio. Acho isso quite impressive para revelar um pouco da loucura da gente… Ao mesmo tempo é muito legal quando você vê o que é o jogo.

Pois é. E nessa mudança do jogo que a gente está passando, voltando aí ao tema que você falou, da invisibilidade, tem outra questão que é crucial nessa época que a gente está vivendo que é a questão da transparência. Quanto mais claro você é nos seus objetivos, nas suas metas, melhor você se comunica e melhor você consegue viver nesse novo jogo.
É muito bom você usar esse paralelo. Muito bom isso entre transparência e invisibilidade porque, de certa forma, a transparência é uma invisibilidade para transformar as coisas invisíveis em visíveis. Elas estão completamente ligadas, ou seja…

O rei está nu.
O rei está nu, mas “o rei está nu” é uma frase de awareness, não é uma frase de, assim: “eu sei que o rei está nu; não estou vendo o rei nu”. A transparência é um processo de tirar a cobertura, deixar visível, e a invisibilidade é aquilo que está invisível, mas é palpável. Invisibilidade não é ausência. É presença invisível. Quando você pensa em tecnologia, você pensa em coisas. Eu estava folheando esta revista de carros: boa parte das melhores e mais inovadoras tecnologias dos carros são completamente invisíveis. Quando realmente as pessoas viram um airbag explodir na sua cara, um freio com ABS? Onde é que está isso no carro? É um software em algum lugar, um sensor em um outro lugar, um não-sei-o-quê e tudo mais, mas você acredita. Controle de tração… Um monte de coisas que as pessoas agregam, que são coisas que dizem respeito ao behavior, às vezes fundamental – segurança, dirigibilidade tudo mais –, mas que não são palpáveis.
E, por outro lado, eles podem funcionar apenas como adereço e aí o carro é a roupa do rei. Você não está comprando um carro com freio ABS, com tração tal… Simplesmente, você está comprando uma segurança que essas coisas teoricamente trazem, como a história do próprio airbag. Você não quer ver o airbag explodindo na sua frente e você acha que, na hora que você precisar, ele vai explodir.

E, provavelmente, em boa parte dos carros o airbag nunca precisou ser usado.
Pois é. E se, por acaso, não explodir? Você comprou um carro, pagou pelo airbag e rolou o acidente e não explodiu. Valeu pagar isso? Puxando um pouco mais e saindo um pouco do papo só de consumidor e falando dessa relação de arte e cultura e tecnologia e tal, como é que eu posso falar isso? Essa coisa da transparência – tipo, isso está acontecendo a nível de governos, a nível de…

As instituições estão se mostrando cada vez as verdadeiras intenções das…
Sim, governanças corporativas.

E quando a gente vai para a arte, a gente encontra o artista usando a arte como um escudo para as pessoas não entrarem na obra dele. E aí o cara tem todo um discurso pronto ao redor do “Você não entendeu”. O cidadão entra num museu, e se não entende aquilo, é por não ter condições intelectuais...
Aí entrou na minha especialidade. O museu é hoje a catedral dos nossos tempos. Ele é a coisa que todas as pessoas confluem para ali porque é o lugar onde a sociedade constrói um museu simbolicamente.

Achei que fosse o shopping.
O shopping tem uma diferença enorme, pois eles lutam entre si. O museu converge, o shopping separa. Tem shopping de rico e shopping de pobre. O museu tem uma coisa, principalmente no Brasil, que é bastante diagonal na sociedade. Primeiro, 50% do público é criança. Se você fosse fazer um museu só para gente rica – e existem alguns assim - mas a média de visitações seria baixa. Se você quer fazer o museu ser mass medium, você tem que falar com todo mundo, todo o espectro da sociedade. Então você pega o Museu da Língua Portuguesa que eu fiz é uma coisa que é visitada por classe E, D, C, B e A. E AAA. Porque ele é essa catedral ecumênica da sociedade. Aqui recebemos a todos. E você aceita isso. Você, sendo classe AA, ainda aceita a idéia de que num museu, tudo bem. No seu shopping, não. No seu clube, não. No seu restaurante, não, mas num museu, tudo bem. Eu posso me encontrar com as outras classes ali. Por isso que eu digo que ali é a catedral do nosso tempo. É um lugar onde todos vamos rezar por uma coisa em comum que a gente entende que aquilo ali não é multiplicável. Não posso ter um lá e outro cá. Tem que ser aquele; vai ter que ser daquele jeito.
Pensar um novo museu esbarra em várias questões, uma delas é a questão de que não foram construídos acervos e talvez a nossa sociedade, a nossa cultura contemporânea, não precise e nem possa ser contada através de acervos. Ela precisa ser contada através de processos, sistemas, coisas mais vivas porque, quando você fala de uma coisa como a língua, qual é o acervo? É um monte de livros? Será que é isso que é a língua? Não é. Língua é muito mais do que literatura. Literatura é apenas uma faceta da língua. A língua é um aspecto de relacionamento social gigantesco. A língua é a grande herança de uma sociedade. A língua é uma coisa que a mãe dá para o filho emprestado, para que ele dê para seu outro filho. Essa é a mágica da língua. Você pode não ensinar nada para seu filho, mas você o ensina a falar. Isso é um instrumento fundamental. E ele quer falar porque ele quer falar com você. Então essa é a troca e é uma coisa superbacana.
Mas quando você fala dessa leitura, quer dizer, você precisa gerar processos. Processos são situações dinâmicas imersivas que você precise botar a pessoa dentro de uma coisa outra, inteira. A tecnologia é uma grande amiga para isso. Ela é isso. Ela contém dentro dela movimento, dinâmica, vida. A segunda camada depois de processos é que existe um hábito – isso não é só da arte, isso é de toda a cultura acadêmica, ou cultura erudita – de cifrar, cifrar tudo para não soe acessível. Então por que você escreve F. Schubert e não Franz Schubert? Por que você escreve Die Walküre e não As Valquírias? Por que você não aproxima? Por que você não conta a história daquilo? As pessoas presumem que todo mundo sabe tudo, o que é uma balela.
O sistema educacional global completamente negligencia a formação cultural. O sistema educacional é voltado para atender meia dúzia de coisas que visam sempre uma porra de um vestibular, um acesso a uma faculdade. Mas formação cultural é uma coisa muito pouco elaborada dentro da escola. E qual é a escola que realmente ensina Mozart? Qual é a escola que realmente ensina quem foram os grandes mestres da pintura? Não é feito isso de verdade. É porque não tem professor preparado para isso. Começa por aí. E não é curricular etc.
O papel de quem faz museus hoje é pegar essa pessoa pela mão e, com todo carinho, não ficar explicando quem foi Beltrano, Sicrano, mas entrar direto do que é o código, aquilo que tem que pegar na pele, aquilo que tem que ter esse valor. Essa é a diferença eu acho no que eu vejo no papel do museu. Muita gente vê o museu um lugar para você guardar um monte de coisas. Então tem um monte de coisas que foram importantes um dia, vamos guardar lá no museu – “coisa de museu”. Esse é o pior sentido da palavra “museu” para mim. “Museu”, para mim, é “templo de musas”. Essa é a verdadeira definição da palavra: templo das musas. E, como tal, é o lugar onde a gente vai buscar o quê? O que é uma musa? Musa é inspiração. É algo que te ilumine, que você saia de lá, “Putz! Fiquei com vontade de fazer alguma outra coisa da minha vida”. A vida precisa fazer mais sentido do que comer, pagar, receber. Sabe, ela precisa trazer alguma outra transcendência.

Mais uma vez a alusão à catedral.
Ou seja, “Me dá, pelo amor de Deus, alguma transcendência!”.

E aí, na hora em que o cara chega no museu e o museu não dá isso?
Isso é missa em latim, entendeu? Exatamente o mesmo fenômeno que aconteceu com a Igreja…

Opressor.
O cara fica lá: “Blá-blá-blá”. Ninguém entende porra nenhuma.

Mas todo mundo respeita…
Respeita porque tem que respeitar, né? Porque, pelo amor de Deus, quem sou eu? E acha lindo e não sei o quê, mas na real não tocou ninguém. Aquelas palavras passaram direto pela cabeça. Eu quero falar com o menino de rua, com o drogado, com a alta sociedade, com todo mundo. Se 50% das pessoas que visitam museu são crianças, eu tenho uma outra certeza que na outra metade aqui, tem crianças dentro dos 50% dessas outras pessoas também.

O lado lúdico.
Existe um elemento lúdico que comunica com todo mundo. E a outra coisa é dar à pessoa autonomia. Você se entrega a uma experiência e você é explorador desse espaço. Isso é, acho que é a linguagem que eu defendo todos os dias.

O Brasil tem uma característica que eu entendo como um privilégio – não só o Brasil, mas vários outros países em desenvolvimento – nessa época, nessa transição do industrial para o eletrônico, que é o fato de não ser um país com a matriz escrita sólida na formação. Grosseiramente, a gente pode estar falando que a gente vai pular a era escrita, saindo da era oral para a era eletrônica. Eu queria que você falasse um pouco disso: se você concorda com isso…
A primeira coisa aqui é o seguinte. quando a gente fala do conceito de alfabetização, o Brasil tem um paradoxo muito interessante. Eu não sei quais os índices oficiais, mas devemos pensar em outra alfabetização, a alfabetização em mídia, que é a capacidade de você decodificar mídia. Isso não é nativo do ser humano. Isso é uma coisa desenvolvida. A primeira vez em que você vê uma imagem, você tem um nível de aceitação. Tem aquela história clássica dos russos, que eles achavam que quando viam uma cena de uma mão – um detalhe, um close-up – achavam que aquela mão tinha sido amputada. As pessoas tinham esse tipo de questão com o imaginário, mas era possível se desenvolver uma cultura audiovisual para entender e decupá-la.
A alfabetização em mídia é uma coisa que o Brasil está lá no topo da pirâmide. O brasileiro tem uma cultura audiovisual e tem uma unidade lingüística e uma unidade de interpretação audiovisual como poucos lugares do mundo. Então, de fato, a gente tem uma deficiência que é a alfabetização formal, e a gente tem uma compensação, que é uma enorme capacidade de entender mídia. Isso se revela como uma oportunidade de linguagem, não como uma deficiência. Ou seja, se é essa a língua que eu tenho que falar para poder me comunicar, vamos usá-la. E ela funciona diagonalmente na sociedade. Não é que exista, no topo da pirâmide social brasileira, exista alguma restrição à linguagem audiovisual. É a mesma questão. Ela ocorre de norte a sul, leste a oeste, integra o país. De certa forma, somos um país da cultura televisiva. Isso, sim, está no imaginário de tudo mundo. Entra de uma forma muito especial. Não vamos tirar mérito disso. Ao contrário, vamos usar isso a nosso favor.
Agora, muitas vezes dizem: “Ah! Marcello vai fazer uma Disneylândia”. Desde que você me permita inocular nas pessoas uma dose de conteúdo relevante, está ótimo. Eu vou usar a gramática que for mais adequada. Eu sei fazer uma coisa completamente sóbria e sei fazer uma coisa completamente, profundamente lúdica se for necessário. Mas o importante, para mim, é que eu contenha ali dentro uma oportunidade de chegar para você e dizer: “Putz! Aqui tem algo novo para você aprender”. O problema, na realidade, de uma linguagem assim, totalmente eletrônica – totalmente – é quando ela não carrega nenhum conteúdo dentro dela.

Como qualquer problema de qualquer linguagem.
O Domingão do Faustão poderia ser um programa interessantíssimo. Mas como é que você faz para você ser relevante? Porque hoje o mundo é uma relação de sinal-ruído. E o índice de sinal está aqui e o do ruído está aqui (gesticula). Está do lado. E só o que importa da sociedade é a distância entre o sinal e o ruído. Isso aqui é a cognição. Se eu ligar agora uma britadeira aqui do lado, a gente perde completamente a cognição porque eu subi o nível de ruído de tal forma que eu perdi a capacidade de entender aquilo que você está dizendo. Filosoficamente, é a mesma coisa. Ou seja, tem um monte de balela sendo dita para todo lado e meia dúzia de coisas boas. Como é que eu separo esse joio do trigo e como é que você consegue comunicar para o outro que o teu é a coisa boa mesmo? Esse é o desafio.
Assim, uma coisa curiosa: esses dias fiz uma grande exposição para a RBS sobre a história da comunicação. Foi um puta sucesso. E a primeira coisa que eu falei para eles – e eles demoraram para entender isso – foi: “Vocês têm que se interpretar como um órgão poluidor do meio ambiente”. “Como assim? Poluidor do meio ambiente, nós? Nós fazemos rádio, televisão, não sei o quê…”

Justamente!
É (ri). São profundamente poluidores do meio ambiente – da cabeça das pessoas, dos sons das cidades, das freqüências de rádio… E eu falei: “Bom, nós vamos fazer uma exposição. Tudo bem que a gente vai poluir ainda mais a cabeça das pessoas, mas eu quero colocar uma coisa nessa exposição. Eu quero uma sala de silêncio. Uma puta sala enorme, um chunk grande da exposição que não vai acontecer nada”. Aí falaram: “Não! Mas que coisa estranha! As pessoas vão até lá para fazer o quê? Não sei o quê lá…” “É, é isso mesmo. Vão entrar e vão ter a oportunidade de fazer um pouco de nada.” Que é o quê? É tentar reduzir a produção de ruído para que o sinal possa se tornar relevante. Isso é uma estratégia mesmo. Fale baixo para ser ouvido.

Isso que você falou do brasileiro, da matriz da linguagem brasileira ser a televisão. Não sei se é exatamente isso, mas, enfim, tem outra coisa que é típica do brasileiro em relação ao novo como um todo que é a aceitação.
Ah, total!

Por conta disso, eu digo, toda a fama do Brasil de ser, de receber bem as pessoas como…
Novidadeiro.

Pois é. Ele gosta de tudo…
Gosta de novidade. Se você for fazer um paralelo entre o Brasil e a França, a França é um país que tudo aquilo que o cidadão faz tende a ser uma maneira de preservar e de ser conservador. Ele não quer mudar. Ele quer a baguete debaixo do braço. E quem empurra a inovação na França é o governo. É muito louco. Quer dizer, o governo é o grande fomentador da inovação – da nova arquitetura, do novo cinema – porque o francês, ele é, na sua essência, conservador. Ele acha que todo dia que nasce é um dia que você está pior do que o anterior. Essa é a posição default do francês. É lógico que existem exceções, mas esse pessimismo é imbuído nele.
O brasileiro é exatamente o contrário. Ele acorda de manhã, ele acha: “Putz! Como é que vai melhorar?” Eu construí o início da minha vida profissional fora do Brasil e poderia ter continuado lá, mas decidi vir para cá por um motivo muito simples. Porque aqui tem muita coisa a fazer. Vai fazer muita diferença estar aqui versus que no resto do mundo as coisas já estão mais ou menos solidificadas e se firmando. Hoje eu estou trabalhando muito pelo mundo afora até de volta, mas depois de ter tempo de desenvolver uma linguagem aqui que é muito pautada por essa demanda do brasileiro de ver a cosia de uma maneira nova. Isso é muito engraçado.
Fiz a Arte da África há alguns anos – uma exposição que é recorde de público no Brasil: mais de um milhão de pessoas – e os alemães viram aquilo que era um acervo que já tinham há mais de 100 anos lá, exposto e que ninguém dava importância devida, eles me chamaram para ir fazer lá aquilo que a gente tinha feito aqui, porque eles sentiram que o Brasil conseguiu iluminar aquelas coisas, dar uma nova leitura para aquilo que as enobreceu tremendamente. O que é isso? Essa iluminada ansiedade do brasileiro pela descoberta, pelo novo.
Tem uma coisa muito engraçada. Quer dizer, quando você pensa que o Brasil é um país que foi descoberto. A gente usa essa palavra, o “descobrimento” do Brasil, como uma coisa celebratória, positiva e tudo mais, o que eu acho que é mesmo, porque o momento do encontro de culturas e nasce uma nação e tudo mais. A gente passa a ter embutida dentro da nossa cabeça a idéia de que descobrir, ou seja, tirar a cobertura de algo, nesse sentido puro da palavra…

É bom.
É bom. A gente gosta de descobrir, de desembalar, de abrir presente. Esse fenômeno mágico da descoberta é algo que a gente interpreta totalmente diferente.

Queria que você falasse sobre a distância entre o real e o virtual, que parece estar deixando de existir.
A gente cruzou a fronteira do negócio. Acaba com essa merda. não tem lá e cá. É tudo aqui mesmo, entendeu? Mesmo porque, normalmente, as grandes verdades estão dentro das mentiras. A verdadeira verdade está embutida. Qual é a razão daquela mentira? A razão daquela mentira explica a verdade que estava invisível de certa forma. E a mesma coisa vale para o real e o virtual. Quer dizer, aquilo que se espelha no virtual, no fundo, é a verdadeira vocação e essência do real por mais que não seja factual.
As oportunidades desta revolução tecnológica no short run são pequenas por causa disso. Não sei se você se lembra o que Bill Clinton e Al Gore plantaram em 1992, 93, para os EUA, foi um conceito de Information Superhighway, que não era a internet. A internet já existia. Eles não venderam a internet. Eles venderam um outro conceito, de pegar e esclarecer grandes linhas de comunicação de dados. Era uma outra idéia, completamente diferente. Só que veio a internet… “Ah, quem vai pagar essa National Information Infrastructure?” Nunca foi feito esse projeto. Eu acho isso fascinante. Eles são creditados por uma coisa que nunca foi executada porque, simultaneamente, o cara falou: “Que mané esse troço! Porra nenhuma! Vamos habilitando a Internet aqui. Põe um nó aqui, põe um nó ali, põe um nó”. Quando você viu, já estava feito. A auto-estrada da informação que foi pensada nunca foi construída. Ela foi feita por estradas vicinais – um monte delas. Que é a beleza do negócio. E a gente chegou lá do mesmo jeito.

Que é a história do Luís Bonaparte na hora que ele cria as grandes avenidas que a gente conhece hoje. Ele cria avenidas que dão acesso a pontos-chaves de Paris para que o exército conseguisse deslocar com facilidade. Graças à não-existência dessas avenidas foi que a Revolução Francesa aconteceu, porque existia um monte de becos e vielas que só povo conhecia. O exército não sabia agir. Então a Information Superhighway é essa avenida para o exército passar. Só que, tipo…
Só que a guerrilha é muito mais eficaz. É que nem os americanos. Chegaram no Iraque em um mês. Agora quero ver sair de lá (ri)! Estão há cinco anos tentando encontrar o caminho para sair, entendeu? Chega!

Há uma relação entre a criação de tecnologias de ponta e a ficção científica em que um grupo sempre se inspira no outro – ao ponto em que os próprios cientistas estão se tornando artistas e vice-versa.
É verdade, é verdade. Eu acho que o grande desafio hoje não é nem tecnológico. É científico. Porque na ciência pura há uma série de novos conceitos que não dizem respeito a máquinas, e sim a idéias que podem ser modelos sociais, econômicos, genéticos, comportamentais e tudo mais, que te permitem reentender o mundo. O que a genética está fazendo pela a pré-história é impressionante. Há uma possibilidade de você reescrever a história. O problema da história é que a história sempre é dos vencedores. Eu acabei de lidar com isso com a história de Portugal. Em Portugal foram 500 anos de presença islâmica, 500 anos de fé islâmica naquele território. Você abre um livro de história de Portugal, tem três páginas sobre esse período. Ou seja, a história é sempre a história dos vencedores. Mesmo na história da ciência, ela é uma história dos experimentos que dão certo, sendo que a gente tem mais a aprender sobre as coisas que deram errado do que pelo senso comum daquelas que deram certo. Estudar as coisas que deram errado e a história dos perdedores faz a gente entender muito mais sobre o mundo. Mesmo porque os ganhadores são alguns poucos. Então, quando você olha para trás e é capaz de reanalisar o passado sob um ponto de vista do top da ciência, isso te permite redefinir quem você é e a gente entender que tipo de raízes que a gente de fato tem. Recontar a história. E a outra coisa é a ciência como talvez um certo desafio de penetrar dentro do funcionamento da mente humana. Essa talvez seja a última fronteira mesmo. É impressionante o quão pouco a gente sabe sobre isso.

Sobre o cérebro.
Você vê Oliver Sacks, figura fascinante, trabalhando para tentar entender, pela disfunções – isso que eu acho fascinante: todas as disfunções cerebrais –, para poder entender como o troço funciona e como isso não é fisiológico. É uma outra coisa. Essa ciência, toda a neurociência, no fundo, é uma ciência de 30 anos. É muito jovem.

E já se subdividiu em mil áreas…
O que torna a existência interessante é essa máquina aqui. Senão a gente estaria comendo grama. O que torna a coisa é tudo que isso traz junto. E… Por que a gente falou disso?

Estava falando do papel do cientista como artista.
Oliver Sacks, para mim, é o melhor exemplo disso. É um puta artista e um puta cientista. O cara está na fronteira do conhecimento, indo lá na borda, tentando entender como a coisa funciona e interpretando aquilo e dando aquilo para milhões. Outra coisa que eu acho que é fundamental. Isso, sim, é: a ciência, hoje, ela precisa escoar para a sociedade. Ela precisa encontrar uma maneira para se legitimizar se introduzindo de uma maneira simplificada na sociedade como um todo. Pessoas como Carl Sagan, pessoas como Oliver Sacks, pessoas como o Marcelo Gleiser, Richard Dawkins... São as pessoas, hoje, que acho que são as mais fundamentais. São as pessoas que são capazes de – ou Stephen Pinker – ir lá na ponta e traduzir. Não adianta cifrar, voltando àquele assunto que a gente estava falando. Ou seja, o mérito é traduzir. Me dá a complexidade do conceito, me arruma um jeito de contar isso para que minha mãe entenda, para que minha tia entenda.

É, e as pessoas entendem, porque daí, saindo dos cientistas e indo para a ficção, a gente tem Dan Brown, Michael Crichton – uma série de autores, principalmente nos EUA e na Europa, que estão dispostos a apresentar universos complexos, a trazer temas teoricamente eruditos ou científicos demais para um púbico e se tornam best-sellers porque as pessoas estão aptas a receber isso. A complexidade da capacidade de absorção aumentou muito. Eu gosto muito de comparar isso quando a gente fala de televisão, de videogame ou de cinema. Você pega uma pessoa dos anos 70 e mostra algo como Quero Ser John Malkovich ou Matrix ou Lost ou 24 Horas e ela simplesmente não vai acompanhar. Ela não tem capacidade…
De decodificar.

A arquitetura de informação.
Ou arquitetura de entretenimento, arquitetura de narrativa. Acho que isso é básico. Assim, uma das coisas que mais me frustrou em vídeo – eu amei vídeo durante muitos anos e depois eu larguei completamente; eu o uso como tool dentro do que eu faço – era que, uma: a vida não pode se resumir ao que se passa numa tela. A percepção explode. Eu estou neutralizando coisa demais. Tem muita coisa acontecendo. E a outra é a sensação de que a fita, que é uma coisa completamente finita na sua essência, não pode… Ela é fria. Ela não é dinâmica. Você termina um negócio, ele está pronto. Como assim? Está pronto? Nada na vida fica pronto. Comida estraga, carro quebra. Tudo é dinâmico. As coisas não podem estar prontas. E o que Lost, na realidade, faz – e várias outras séries – é expandir para além da tela, usando a tela, mas expandindo para além dela, religando essa tela com aquela tela, com aquela outra e não sei o quê, criando várias janelas para esse outro mundo. E a possibilidade de que a fita nunca está pronta. Ela nunca está decodificada por completa, resolvida.
Essa idéia de que não existe obra acabada também reforça aquela minha teoria sobre o museu não como acervo, mas como processo. Porque, se você é acervo, você pode dizer: “Não. Você precisa tombar isso aqui”. Se você é processo, você não pode tombar isso aqui. É vivo. Agora, pensa bem. pensa na sociedade e pensa na enorme gama de possibilidades narrativas que você tem no momento em que você se livra da cultura material. A língua, a imaginação – isso pode ser objeto de museu. A criatividade, o trabalho, o dinheiro – n coisas que existem dentro da sociedade poderiam ser objetos de experiências coletivas, ecumênicas, para você entendê-las, entender melhor e refletir a sociedade. Basta você se livrar… Porque, por exemplo, um museu sobre o dinheiro pode ser interessantíssimo, mas um museu de numismática é um saco. Você se livra da cultura material e você abre uma janela interpretativa gigante.

março 20, 2008

Gentebonitamania!

Estreamos coluninha no Guia da Semana - e lembrando que sabadão tem festa!

***

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As festas andavam muito chatas em São Paulo. A cidade havia passado por um renascimento noturno inacreditável na virada do século. Quem passou pelos anos 90 pela cidade se restringia a casas que fechavam rapidamente, a três ou quatro estabelecimentos na Vila Madalena (dois deles, a Torre e o Matrix, ainda sobrevivem), o Lov.e e mais uma ou outra. Mas a partir do ano 2000 uma série de novas casas noturnas e festas trouxeram todo rebuliço noturno para a região central da cidade, ativando células de diversão na Augusta e suas transversais, em Higienópolis, na Barra Funda e no centro da cidade. Mas aos poucos a boa fase dava espaço à estagnação.

Cada lugar tinha uma trilha sonora específica, algumas das principais festas da cidade podiam ser resumidas em uma tribo, um estilo musical ou uma certa faixa etária e os DJs tocavam as mesmas músicas na mesma ordem. Tocavam nada, tocam até hoje. Foi quando, à medida que puxávamos o fio da meada dos mashups, resolvemos fazer nossa própria festa.

E assim a Gente Bonita começou em setembro de 2006, primeiro no Bar Treze, em Higienópolis, depois passando pelo Áudio Delicatessen, Clash, Vegas e Praga, onde estamos desde dezembro do ano passado. A idéia, a princípio, era fazer uma festa só de mashup, esse gênero musical que mistura duas ou mais músicas em uma mesma faixa. Queríamos brincar com o paradoxo de ser uma festa de gênero de algo que pode incluir todos os gêneros, mas percebemos que ouvir mashup durante toda a noite é tarefa para poucos, ao mesmo tempo em que perde-se um dos principais atrativos da modalidade de remix: a surpresa.

Daí expandimos o conceito da festa para toda a história da música feita para dançar. Fazemos uma equação entre as melhores músicas do mundo - os hits, aquelas músicas que todo mundo conhece e sabe cantar - e músicas boas para dançar, independente de serem conhecidas ou não. A idéia é se divertir, não é simplesmente ouvir música. Estamos fazendo uma festa que não achávamos em São Paulo - uma que una diversão, música boa, gente disposta a se esbaldar de dançar e vontade de se pegar. Porque essa é um dos motivos que fazem as pessoas saírem, né? Não precisa nem se pegar de verdade, o importante é ficar aquele climão saudável, deixado qualquer aproximação mais facilitada, qualquer papo furado plausível. O nome da festa não tem Clima de Paquera como subtítulo por outro motivo - ele é fundamental.

Hoje a Gente Bonita já passou por Brasília, duas vezes por Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e Floripa - sempre contagiando o público com essa atmosfera sonora alto astral. Por isso, não espere gênero musical, hits do passado, músicas de outros países. Não espere nada - tudo pode acontecer.

Top 10 - Gente Bonita

"Lucky Boy (Outlines Remix)" - Dj Mehdi
"Merry Making at My Place" - Calvin Harris
"Menina Mulher da Pele Preta" - Jorge Ben
"D.A.N.C.E." - Justice
"Time to Get Away" - LCD Soundsystem
"Gravity´s Rainbow (Soulwax Remix)" - Klaxons
"W.A.Y.U.H."- The Rapture
"Homecoming" - Teenagers
"Sweet Jane" - Velvet Underground
"Walking in the Sun" - Smash Mouth
"Seed 2.0" - Roots
"Lança Perfume" - Rita Lee
"Gimme More" - Britney Spears
"Head On" - Jesus & Mary Chain
"Sending All My Love" - Linear
"L.A. Woman" - Doors
"Rehab" - Amy Winehouse
"Rock With You" - Michael Jackson
"Easy Love" - MSTRKRFT
"Let´s Make Love and Listen Death from Above" - Cansei de Ser Sexy
"Divine" - Sebastien Tellier

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Quem é o colunista: Gente Bonita (Luciano Kalatalo & Alexandre Matias), 33 anos, dupla 100% Brasila, entidade onipresente em qualquer situação de bem estar e a melhor festa itinerante do Brasil.
O que faz: Bon vivantismo em forma de doutrina, excitação sonora on the rocks, especialista em químicas do corpo, divulgador do movimento "músicas boas para dançar" e a uma noite inesquecível.
Top 10 :
Pista cheia
Praia com sol
Taxi
Hype Machine
Gatas ao Redor
Ser Bem Pago para Se Fazer Só o Que Se Gosta
Acordar tarde
Hidromassagem
Se ela dança eu danço
Frutos do mar
Pecado gastronômico: Psy
Melhor lugar do Brasil: O colo da amada.
Fale com ele: gentebonita@gentebonita.org

outubro 10, 2007

"Toda Realidade é Virtual"

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O Mini desenterrou uma entrevista que ele fez em 2002 com o Lama Padma Santem, pra Play, a revista que eu editava... Sente o drama:

Um mestre budista. Sereno, vivendo no meio do mato, em uma casa simples, totalmente desconectado do agitado dia-a-dia mundano. Em busca da paz de espírito através do silêncio e do isolamento. Sério. Silencioso. Impassível. Todos esses clichês se derretem implacavelmente quando entro em uma das salas do Centro de Estudos Budistas Bodisatva e dou de cara com o Lama Padma Samten sentado ao lado de um aluno que o ajuda a fazer a transferência dos arquivos de seu antigo laptop Compaq para o novo Toshiba. Ele me mostra o problema: uma faixa preta atravessa o monitor do Compaq e atrapalha a leitura. O conserto demora cerca de trinta dias e o Lama Samten não pode ficar tanto tempo sem uma de suas principais ferramentas de trabalho. Ele brinca, falando com seu ex-laptop.

"Por que você fez isso comigo? Agora eu tive que te trocar."

Levamos a vida como uma espécie de realidade virtual. Criamos cenários mentais de acordo com nossas experiências e fazemos de tudo para que o mundo ao redor corresponda a esses cenários. Se isso não se verifica, o que ocorre com freqüência, há um choque. Como quando vemos um mestre em meditação – uma arte de cinco mil anos – às voltas com problemas tecnológicos bem atuais. Mas o Lama Padma Samten é assim. Um enigma ambulante, produto de vivências aparentemente tão díspares quanto a física quântica, a ioga e o cooperativismo rural.

Eu disse aparentemente. A vida de Alfredo Aveline, nome de batismo do Lama, é a prova de que a interconectividade é iminente no planeta Terra. A convergência de mídias a que assistimos, a instantaneidade na transmissão dos fatos ao redor do globo, a permanente vigilância a qual estamos sendo submetidos, tudo isso nada mais é do que a manifestação material de processos mentais que ocorrem dentro de nós mesmos. Aos 53 anos, o Lama Samten já percorreu mais caminhos do que podemos imaginar. Caminhos internos e externos. Materiais e mentais. De físico estudioso do processo cognitivo a líder de comunidade alternativa no interior do Rio Grande do Sul, de cientista a religioso, o Lama desafia pessoalmente a lógica que julgamos reger o universo.

De volta ao laptop. As cores parecem saltar do novo monitor, cada pixel envia luz artificial ao rosto do Lama. É a magia da tecnologia invadindo um local, de certa maneira sagrado, que apresenta imagens nas paredes e caixas de livros budistas por todos os cantos. A poucos metros, está a sala de meditação, um espaço amplo e colorido onde o Lama Samten dá seus ensinamentos e conduz retiros. O Centro fica em um sítio em Viamão, cidade vizinha de Porto Alegre. Sãos duas casas onde se distribuem a sala de meditação, os aposentos do Lama, cozinha, banheiros e quartos de outras pessoas que moram lá. Ainda há um terceiro prédio em construção que virá a ser um grande templo, assim que mais recursos chegarem por intermédio de doações, venda de livros ou ensinamentos do Lama.

A zoeira urbana de Porto Alegre dá lugar a uma sinfonia rural de grilos e outros animais. Sons de teclas pressionadas, de um CD-ROM sendo ejetado e murmúrios contra uma instalação malsucedida são mixados à trilha bucólica: é o chill out do novo século. Então, o Lama Samten levanta e deixa seu aluno com a missão de fazer funcionar o Toshiba para me atender numa sala ao lado.

Conversamos, observados por tangkas, pinturas à mão feitas em tecido com imagens de entidades budistas. Acomodamo-nos e começo com a pergunta básica. Lama Samten foi físico antes de lama. O que ligou áreas de conhecimento consideradas tão distantes?

"Desde jovem, eu tinha várias áreas de interesse. Uma era a questão da natureza da realidade e a espiritualidade. Eu praticava ioga desde adolescente, sozinho, sem professor. Também tinha uma espécie de envolvimento com as condições sociais e ambientais. Como eram assuntos que até então não se tocavam, percebi que havia um esgotamento aí. Tudo estava convergindo para um modo de vida diferente. Uma mudança efetiva deveria acontecer. Nessa época saí da universidade, passei dois anos e meio em uma comunidade criada por mim onde a gente testou várias idéias. Idéias ecológicas, idéias de organização social, idéias de sistemas de produção e também junto à espiritualidade e à exploração da questão cognitiva da natureza da realidade".

Natureza da realidade. Este é um termo muito citado pelo Lama Samten. É o cerne do budismo vajraiana, uma das linhagens budistas. Enquanto o theravada enfoca a remoção de obstáculos através da superação das dificuldades particulares e o mahaiana busca a libertação através do benefício a outros seres, o vajraiana apóia-se na investigação minuciosa e honesta da mente humana. Não com tomografias computadorizadas, mas baseando-se na premissa de que o observador de uma experiência é sempre parte dela. Uma viagem interna tão radical quanto qualquer jogo de realidade virtual.

"O que aconteceu nessa comunidade, nesse período, foi eu perceber a grande profundidade do pensamento budista e como ele poderia me levar além dos paradigmas usuais da ciência. Resumindo, me dei conta de que o cientista pode até perceber o fato de que a realidade para a qual ele olha é inseparável da realidade que ele tem dentro, porém, está sempre mais preocupado com a realidade que está fora, porque é assim que ele faz sua busca. Vai sempre olhar o que está fora. Quando me deparei com esta questão do dentro-fora, vi que o espaço interno é muito maior do que o externo. Foi nesse momento que fundei o Centro de Estudos Budistas Bodisatva e propus ao Departamento de Filosofia da UFRGS, e mais tarde ao Departamento de Física, a criação de uma disciplina que tratasse desses elementos ligados à cognição, à compreensão do saber, de como nós sabemos, como nós aprendemos e entendemos, mas especialmente de como nós nos enganamos. Tratando dessas questões, de qual é o erro do cientista, porque os cientistas comprovam experimentalmente suas teorias e mesmo assim elas mudam. É espantoso, porque elas são comprovadas experimentalmente mas, mesmo assim, mudam, não perduram".

A entrevista segue assim. Minhas perguntas anotadas são esquecidas perante a eloqüência não-cartesiana do Lama. Cada frase puxa um novo assunto ou uma outra abordagem. É o hipertexto da fala. E a metáfora vem à minha cabeça não como mero recurso literário: as palavras dele parecem realmente abrir novas janelas a cada clique mental.

"Perceba que hoje estamos há 77 anos do surgimento da visão complementar que foi exposta por Niels Bohr na Itália, numa época em que os cientistas mais importantes do mundo cabiam todos em uma única sala. Estavam reunidos ali para resolver como pacificar os fenômenos experimentais com as visões teóricas no que diz respeito à física atômica e à física quântica. A noção complementar do Bohr é uma visão cognitiva filosófica sobre os eventos científicos na qual o observador deixa de ser neutro e passa a ser visto como alguém que interfere de forma muito poderosa na realidade. Isso dito assim pode parecer muito estranho ainda, porque nós temos uma noção de que somos neutros, de que nós apenas olhamos! O fato é que o observador não é neutro porque quando ele olha, tem uma experiência de realidade. Então, a primeira etapa para a compreensão disso é dizer: ´em vez de eu ver a realidade, tenho uma experiência de realidade´. Tem uma diferença muito grande entre nós trabalharmos com a noção de realidade externa e termos uma experiência de realidade externa. Essa transição é muito importante para que possamos compreender a física quântica, a ciência, o aspecto cognitivo e também os aspectos mais sofisticados do budismo. O que nós vemos é inseparável das estruturas de expectativas dentro de nós. O que nós vemos fora espelha a paisagem mental que temos dentro. Num sentido budista, é muito importante notarmos isso porque podemos usar a noção de paisagem mental. Assim, construímos uma paisagem mental através da qual nos relacionamos com o mundo. A própria comunicação entre as pessoas só é possível se elas tiverem partes de suas paisagens mentais em superposição, caso contrário elas não se entendem, mesmo que estejam falando português".

A conexão espiritualidade-ciência levou-me a fazer uma breve pesquisa e esbarrei em informações sobre o Spiritual Robots Symposium, realizado em abril de 2000. Antes que você imagine uma convenção de malucos estilo trekker, devo sublinhar que o evento foi organizado pelo respeitado professor de ciência da cognição Douglas Hofstader – e ele não precisou contar com rapazes de orelhas do Spock para participar. Pôde ter à mão figuras representativas no meio tecnológico e científico como John Holland, inventor dos algoritmos genéticos e pioneiro na área de inteligência artificial. Há possibilidade de surgir, no futuro, uma espiritualidade nos seres de inteligência artificial?

"Se as máquinas chegarem ao ponto de sofrerem como resultado de sua operação mental, certamente. Por outro lado, cuidado. A mente não é um circuito elétrico. A mente no budismo não é o cérebro ou o circuito neural. A mente não tem nem localização espacial, nem existência tangível. Só a mente enlouquece e só ela verdadeiramente manifesta a consciência espiritual ilimitada. Para as máquinas terem vida espiritual é necessário que nelas se manifeste a mente no sentido amplo, que ultrapassa sua arquitetura de silício e metal."

Robôs, com alma, desenvolvendo carma?

"Por enquanto, há apenas muitas projeções. Mas um ponto nodal já foi encontrado. Ele se chama processo cognitivo. O problema é realmente experimentarmos isso. Talvez agora, 77 anos depois de Niels Bohr, estejamos nos preparando para compreender isso e colocar essas noções no nosso cotidiano. Vemos isso já acontecendo no fato de que hoje somos mais tolerantes em relação ao comportamento de pessoas diferentes. Eu me comporto assim, você não precisa fazer como eu, você tem uma vida interessante. Isso é bom. Estamos aprendendo que não existe um padrão. Ainda temos uma herança do passado de achar que deveríamos ter padrões mentais, ser de um certo tipo. Mas hoje nós já acreditamos que eu posso fazer de um certo jeito e aquilo ser bom para mim. Mas a outra pessoa pode fazer de um outro jeito e aquilo ser bom para ela. E tudo bem. E, às vezes, acreditamos que quando a outra pessoa é diferente, olhamos para ela e aquilo enriquece a nossa vida. E nós não precisamos pensar que devemos ser como o outro. Então isso já é socialmente um efeito dessa visão complementar. Niels Bohr usa esta palavra, ‘complementaridade’’".

Sim, você leu certo. Essa espécie de tolerância que há hoje, muito mais do que há 50 anos, não é papo riponga ,mas pura física quântica aplicada ao dia-a-dia. Então me lembro de um outro exemplo: Matrix. Um produto cultural de massa que explorou a noção de realidade relativa. Será que filmes como esse podem despertar o interesse das pessoas no estudo da natureza da realidade?

"Acredito que sim. Observe que o tema da inseparatividade surge ao final quando Neo, após morrer, retorna para derrotar os agentes, mergulhando dentro deles. Essa capacidade é a própria inseparatividade se manifestando. Enquanto ser separado, Neo foi derrotado. Mas na inseparatividade não pôde mais ser alcançado pelos agentes que operam em nível separativo".

Não é segredo para ninguém que a ficção científica dos irmãos Wachovski bebeu galões de antigas doutrinas orientais e de certos aspectos da física moderna. Embora com bem menos brilho heróico ou hype do que o salvador Neo, o Lama Samten também tem por missão ajudar as pessoas a remover o véu que encobre a verdadeira natureza da realidade. Diferente da solução proposta por Morpheus, a saída aqui não é tão fácil quanto tomar uma pílula. Meditações, leituras e retiros são enfatizados no treinamento budista. Mas isso não invalida as novidades tecnológicas como aliadas. A tecnologia pode ajudar na melhoria espiritual dos seres, mas como?

"Esta pergunta é muito complexa, pois qualquer resposta pode ser contestada. A tecnologia pode ajudar, mas nem por isso é indispensável. Assim, sempre que apontarmos algo, virá uma outra forma de pensar e tudo ficará obscuro. Ainda com essa dificuldade, é necessário perceber que a tecnologia faz parte da nossa vida no ponto exato onde estamos. Sendo assim, ao ajustarmos a nossa motivação para acelerarmos o caminho espiritual, entre nossos instrumentos naturais surgirá a tecnologia e também seus desenvolvimentos futuros. Do mesmo modo que no passado, evoluímos de corpos de peixes para bípedes, hoje nossos corpos incluem a tecnologia. Sem a tecnologia a raça humana se reduziria rapidamente a 1% da população atual. Ainda assim, o ponto de estrangulamento agora é a questão de levar os benefícios atuais a todos os que necessitam e não permitir que o desenvolvimento de novos modos de vida venham a destruir o equilíbrio do ambiente".

Algumas pessoas que jogam videogame dizem que entram em certos estados meditativos. O que você pensa disso?

"Quando a pessoa joga, ela se transfere para dentro daquela realidade. Ela está em corpo, fala e mente naquela realidade. Não é um estado meditativo no sentido de calma, de profunidade, de compreensão da natureza da realidade. Mas eventualmente uma outra realidade brota por inteiro e a pessoa se transfere para aquela paisagem."

E isso poderia ser um gancho para observar a natureza da realidade e aprendermos a escapar da nossa realidade virtual?

"Sim. Lá em Salvador nós temos um centro budista que fica no Shopping Aeroclube. Há uma loja de artigos budistas no térreo e em cima uma sala de meditação. Às vezes eu brinco que o verdadeiro templo não está ali, mas ao lado, na loja de jogos eletrônicos, porque ela oferece uma experiência direta: a pessoa está passando pelo shopping. Olha pra dentro da loja. Gera uma aspiração para se transferir para um daqueles mundos particulares - tem alguém ali andando de avião, outro dirigindo um automóvel, outro escalando montanhas, outro defendendo o planeta Terra frente a invasores... daí a pessoa escolhe a realidade. Quando senta, coloca a moeda e aquilo começa a funcionar, ela se transfere em corpo, fala e mente ali pra dentro. Em corpo porque todas as ações do corpo dela dizem respeito ao que ela está vendo na tela. Em fala porque as emoções acompanham aquela paisagem e em mente porque a mente está inteiramente ocupada em olhar todas as nuances das situações e a reagir da maneira mais completa possível. Então quando a pessoa está dentro daquilo, ela não sabe mais que está no shopping. Não sabe se a esposa ficou na porta, se os filhos estão sei lá onde, se o pai está em casa, se amanhã tem prova de matemática. A pessoa se transferiu para uma outra realidade. E assim pode ter uma noção mais clara do que significa estar numa realidade, ter um experiência de realidade. Então quando ela estiver na escola, na prova de matemática, ela também tem que estar assim. Se ela quiser ter sucesso em alguma coisa, vai ter que colocar corpo, fala e mente naquilo. Por que os garotos não aprendem direito matemática? Porque não tem a mente ali, só tem o corpo. Não tem nem a emoção e nem a mente ali. Então, um ambiente como esse pode fornecer essa experiência tão clara. Ela pode treinar, entender a sua vida como um treinamento de colocar junto o corpo coerentemente com as suas emoções, coerentemente com a sua posição de mente."

O que mais a tecnologia pode oferecer a um budista?

"A minha vida, por exemplo, é interessante a partir do uso da tecnologia. Eu estou me dando conta que manter um escritório físico do CEBB pode não ser uma boa idéia. Porque, por exemplo, as transcrições dos meus ensinamentos têm sido feitas na Suíça. Tem uma brasileira naturalizada suíça que é minha aluna. Ela talvez seja a minha aluna mais assídua e vive na Suíça. Ela é aeromoça, vem seguido, então nós estamos constantemente trabalhando. A maior parte dos textos que foram transcritos e estão virando livros ou circulando na sanga para estudo vem dela. Por outro lado, ela está trabalhando com uma pessoa que também transcreve e corrige que está em Curitiba. Eu também utilizo uma pessoa em Porto Alegre que faz a edição final dos textos que serão publicados em São Paulo. As passagens aéreas, as transações bancárias, é tudo feito de qualquer lugar. O meu contador é de Salvador. Por mais que seja antigo, o termo que me vem à mente é aldeia global. Nós estamos vivendo esses tempos tão fantásticos."

O próprio budismo sai ganhando com isso também. Quando os chineses invadiram violentamente o Tibet na década de 50 e começaram um processo tortuoso de destruição da cultura tibetana, não imaginaram que na verdade estavam dando um grande empurrão para que os 84 mil métodos de Buda se espalhassem pelo globo.

"Os ensinamentos estão sendo traduzidos em várias partes do mundo e disponíveis na intenet. Coisa que nunca aconteceu. E nós vamos vendo os comentários, os lamas colocando suas considerações na rede. A divulgação de eventos também ficou muito mais fácil. Mas, por exemplo, eu não uso celular. Eu poderia, mas o celular interrompe a vida da gente."

No número 2 da Play, uma matéria contava que em cientistas criaram o primeiro circuito de silício vivo em Munique. Pergunto ao lama se haverá alguma "facilidade tecnológica" para a meditação com isso.

"Quando ligarem os neurônios a chips, teremos mais hardware. E a iluminação se dá a nível de software. Nossa mente é um software que tem a capacidade da adaptar-se a diferentes hardwares e de auto transformar-se. Agora, como se vê, dispõe também do poder de mudar e expandir o hardware como quiser. Pelos comandos elétricos, o próprio corpo foi sendo criado pelo software-mente, que se desenvolveu junto. A iluminação está ligada a um processo ainda mais básico: é quando o software decide que suas funções de auto-indulgência e auto-satisfação e proteção não são mais o foco. Ele decide 'morrer' enquanto identidade e reintegra-se, abandona-se na confiança à natureza básica e luminosa que o produziu e o sustenta. Somos como que robôs autoconscientes e auto-sustentados que enlouquecem através de seus circuitos de satisfação vazia e de proteção também vazia. A iluminação é o retorno à realidade."

Para alguns, essas idéias todas soam como uma espécie de nova visão mágica do mundo. Antigamente, o que o poderia salvar o homem eram poções ou oferendas para os céus. Hoje, as pessoas estão sempre esperando respostas e soluções das máquinas. A tecnologia pode ser considerada a nova magia?

"A magia é muito mais profunda do que a tecnologia. Eventualmente aceito que as pessoas possam desenvolver apego e expectativas com respeito à tecnologia como, no passado, desenvolveram com respeito a rituais e processos mágicos. Ainda assim é necessário considerar que a magia opera na dimensão da inseparatividade enquanto que a tecnologia opera na separatividade. A magia opera a nível causal sutil, a tecnologia opera a nível causal grosseiro. A meditação budista busca superar a ambos manifestando a liberação dos processos causais pelo repouso da mente em sua natureza e essência ilimitados."

Uma frase do Lama Samtem me vem à mente: "O fluxo do progresso, bem ou mal, representa a ansiedade das pessoas, aquilo que elas pensam que precisam." Então como podemos fazer com que haja progresso tecnológico sem ser produzido por essa ansiedade e sem gerar ainda mais ansiedade?

"Não há efetivamente contradição entre a tecnologia e o progresso espiritual. Aliás, a tecnologia pode ser um excelente aliado ao progresso espiritual, oferecendo melhores condições para os praticantes e permitindo um número muito maior de pessoas acessar os ensinamentos e praticá-los, e prolongando e tornando mais saudável a vida. É apenas uma questão de motivação. Se nossa motivação for trazer benefícios reais a nós e aos outros seres, proteger nossa vida e a dos outros seres e chegar a felicidade e às causas da felicidade, a tecnologia pode nos ajudar, porque não? Por outro lado, adicionalmente, se quisermos chegar a iluminação, tendo esta motivação central, a tecnologia pode também nos auxiliar perifericamente. Eu mesmo acredito que meu notebook tem sido essencial para que eu possa ajudar e manter-me próximo de muitos praticantes."

agosto 2, 2007

Nós e a tecnologia

O Rraurl faz 10 anos e me pediram pra levar uns doces pra festa. Ei-los.

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RRAURL 10 ANOS: Nós e a tecnologia

Em 1997, eu era editor de arte do Diário do Povo, em Campinas, e quando falaram em criar uma versão online para o jornal, me meti no meio do processo. "Natural que quem tinha feito o projeto gráfico novo do jornal também fizesse o projeto gráfico do site", argumentava, mas eu queria mesmo era entender melhor o que era a tal da rede. Me deparei com ela pela primeira vez no ano em que entrei na Unicamp, em 1993, quando fui ler os tais manifestos eletrônicos do Subcomandante Marcos e acompanhar uma lista de discussão dos Beastie Boys. O estranhamento inicial foi dando lugar ao deslumbre que segue até hoje - são pessoas que estão do outro lado do computador, por mais que elas finjam-se sérias ou não.

Daí ao mesmo tempo em que o Camilo começava a colocar o rraurl.com em pé com uns amigos - a própria Gaía eu só fui conhecer de verdade em 2003, quando a chamei para escrever para a Play -, eu estava erguendo a versão web do jornal em que eu trabalhava. A cumplicidade virtual se firmou quando criamos sites de brincadeira, fanzines eletrônicos, com dois bróders: o Camilo juntou-se ao Tomate (Emerson Gasperin, facilitando pros pesquisadores) e fez o site The Bambas e eu me juntei com o Abonico Rycardo Smith (que depois seguiu com a brincadeira com sua revista online Bacana) pra fazer o 1999. A internet facilitava a colaboração e, principalmente, a descoberta de gente interessante e inteligente, e agilizava a velocidade da comunicação que já existia nas ruas, por telefone ou cartas anos antes.

O próprio Camilo eu já conhecia à distância. Lia a Bizz na virada dos 80 pros 90 e lá ele tinha uma coluna sobre dance music. O papo com o sujeito começou ali, embora até então só ele falava - não escrevia carta pra revista nem morava em São Paulo (sou de Brasília, tá me estranhando?). Fui conhece-lo propriamente em 95, quando ele havia acabado de voltar da Inglaterra e discotecava numa festa em Jundiaí em que também tocaria os meus compadres do Burt Reynolds - uma banda que, anos depois, daria origem ao núcleo de festas Colors (pra você ver o tamanho do mundo). O cara ainda usava uma cabeleira hippie e tocava trance, um som que, comentei com o Ricardo Alexandre (outro broder presente naquela noite, que mais tarde pilotaria a última encarnação da Bizz), me soou parente das trilhas sonoras do Globo Repórter, naqueles closes do feto ainda no útero.

UNIVERSOS PARTICULARES
Mas em pouco tempo estávamos construindo cada um seu universo particular na internet, editando um trecho da vida que mais lhe interessava para atrair pessoas que tivessem algo em comum - e aos poucos um colaborando no veículo que o outro editava. Tou citando o Camilo pelo simples motivo de ele ser o editor do Rraurl e ter me chamado pra escrever esse texto. Podia citar dezenas (centenas?) de amigos, colegas e conhecidos que começaram seu pequeno nicho na internet assim que ela se mostrou possível, todos colaborando uns com os outros, todos inspirando uns aos outros.

Você provavelmente fez seu livro, site, banda, festival, programa de rádio, blog, exposição, espetáculo, software, evento nos últimos dez anos ou desfrutou de algumas destas pirações indiividuais que encontraram na rede uma espécie de estímulo para a auto-estima. Se antes o mercado dizia "não" para 10 entre 10 moleques que mandavam cartas pedindo para escrever na Bizz, depois da internet esses caras começaram a se publicar por conta própria. E os mesmos "não" que o mainstream dizia para qualquer delírio pessoal com cara de possibilidade transformava-se em "sim" para quem realmente queria fazer algo.

Eu mesmo comecei experimentando. Em 1997, o Trabalho Sujo já existia há dois anos, mas apenas sua versão em papel. Como estava fazendo o site do jornal, dei um jeito de colocar uma versão online para o Trabalho Sujo. O endereço direto, sem entrar nos frames era algo como www.diariodopovo.com.br/suplemen/trabsujo/index.html. E a reação foi simultânea. Bastou colocar o site na internet pro jornal começar a ser vendido nas bancas da Paulista, no domingo. Haviam pessoas que sabiam que o jornal existia e que a coluna era impressa - e não apenas virtual - num jornal em Campinas e que esse jornal podia ser comprado em algumas bancas da Paulista!

Gente de todos os estados do Brasil, de diferentes faixas etárias e relações com a música. Essas pessoas aos poucos me escreviam - o correio eletrônico desinibia a sisudez que a palavra escrita na caneta parecia carregar - e me indicavam bandas, shows, fanzines, sites. O contato com o leitor tornou-se instantâneo (finja ouvir aqui o "ô-ou" do ICQ) e muitos deles se tornaram meus colaboradores - fora os grandes amigos que criei basicamente devido à internet.

RASTROS VIRTUAIS
E essa é a tal revolução eletrônica que estamos vivendo neste exato momento. É o que nos faz filosofar sobre "a utilidade do Orkut", por exemplo. É como se estivéssemos olhando só para o telefone sem perceber que ele é capaz de fazer uma ligação. Sites, layouts, slogans, marcas e logotipos são apenas fachadas para pessoas que precisam se encontrar. Motivos para isso é o que não faltam. Nossa sociedade se isolou demais fisicamente uns dos outros - cercas elétricas, condomínios, vidro fumê - e é na internet que passamos a viver nossa rede de relacionamentos sociais. Muitos podem fazer cara feia e dizerem-se alheios à rede, mas usam aparelhos de telefone celular ou o sistema financeiro internacional. Cartão de débito, email, SMS - estamos deixando rastros virtuais sobre nossa existência numa enorme rede de contatos instantâneos ("ô-ou", de novo).

Mas acabamos encontrando gente nova no caminho. Não é que a rede tenha substituído a rua. Ela apenas acelerou um processo que até então empacava na distância entre as cidades e países, entre a teoria e a prática, o querer e o fazer. De mínimos contatos como uma troca de cartões, uma compra online, uma ligação pra dizer "estou chegando" ou o adicionar de uma banda em seu MySpace - estamos produzindo conteúdo e indicando o que realmente queremos o tempo todo, sem muitas vezes percebermos isso.

Sim, os computadores estão mais potentes, a rede está mais rápida, as conexões mais instantâneas, os HDs maiores. Sim, o celular tende a diminuir ainda mais e a ficar mais barato. O mesmo vai acontecer com as telas de cristal líquido, as câmeras, os laptops, os portáteis como um todo. Daqui a dez anos consumiremos em suportes que ainda não existem, nas mangas da camisa ou na parte de dentro das lentes de contato, vai saber. Mas tudo isso só facilita as coisas. As tornam mais rápidas, eficazes, precisas. O ponto central ainda é a aproximação das pessoas. Por mais que possamos baixar hoje um filme que só vai estrear nos EUA daqui a um mês ou que o videofone seja uma realidade (ou não é?), isso tudo é acessório perto da grande revolução eletrônica - que não termina na tela, e sim, do outro lado dela.
Vamo lá.

maio 4, 2007

Mequetrefe

Tudo pronto pro Skolba? Se eu fosse você, saía de casa tipo umas cinco da madruga pra pegar o sol nascendo e a apresentação de uma das melhores coisas que acontecem na música hoje, a dupla MSTRKRFT ("mequetrefe", para os iniciados). Eu vou cobrir, então não tenho desses luxos. Mas garanto que é um programão - mesmo porque na hora em que você chegar, os cambistas devem estar rasgando os ingressos que sobraram de raiva e você acha baratinho, baratinho... Abaixo, um textinho que eu escrevi no ano passado pra Void, que o Cardoso edita lá no Rio Grande, sobre os caras e tinha esquecido de por aqui. Faça esse favor a você mesmo.

***

A dupla canadense das consoantes ("Materkraft" pra quem ainda tá colocando as vogais na cabeça) é uma das melhores coisas do ano – senão "a" melhor – e isso num ano com ótimas notícias. Vai aí uma listinha com cinco MP3s que os sujeitos botaram a mão no meio – e deixaram com a cara de 2006.

"Woman (MSTRKRFT Remix)" – Wolfmother

Pegaram a equação Led Zeppelin + Ozzy do grupo australiano, limparam a gordura, meteram umas palminhas, deixaram o baixo segurando tudo e a guitarra, em loop, virou quase discoteca de branco. O vocal deixa como no original (fora uma digitalizadazinha Cher de leve, no refrão), afinal, é pro povo rock reconhecer quando tiver dançando.

"Monster Hospital (MSTRKRFT Remix)" – Metric

Mantrinha no vocal do começo dá cara de black music, mas quando o resto do instrumental entra estamos no mesmo território do New Order – aquele electro limpo e asséptico, de um azedume branco que permite-se à vã melancolia. E o vocal original deixa de ser soul para ser só indie dance. É como se Aretha Franklin se metamorfoseasse em Shirley Manson (ela mesma, um mashup de personalidades) na frente dos seus ouvidos.

"Got Love to Kill (MSTRKRFT Remix)" – Juliette Lewis & the Licks

Lembra de como era Juliette Lewis quando você se apaixonou por ela (vocês também, meninas, nem venham com essa agora)? Sim, ali entre "Cabo do Medo" e "Assassinos por Natureza" ela ainda era uma Jodie Foster versão fêmea, aquele ninfetismo desenfreado misturado com a pura psicose rock'n'roll. Já perdemos as vezes em que ela revisitou essa persona (Strange Days, com essa banda nova), mas o fato de ela não orbitar ao redor dos vinte anos estilhaça um pouco a candura original. Mas nesse remix… Ela parece que acabou de completar 18. Como dizem os Trouques – "Barely Legal". (O vídeo é da versão pura, antes do remix)

"Rock Steady (MSTRKRFT Remix)" – All Saints

Sim, All Saints, aquelas Spice Girls para as meninas que acham que ler TPM ou Marie Claire é um saco e que a Capricho, mesmo menina, ainda fala mais a língua delas. Aí os caras pegam o beat, três frases descoladas de uma música pop apenas normal e o negócio vira ISSO. Marteladas sintéticas de um rolo compressor de magnética pura atordoando as têmporas até o beat anos 80 encaixar com o loop de "look in my eyes-eyes-eyes…" e você ficar pensando nesses olhos que dá pra ficar olhando até o infinito… (Outro vídeo com a música original, o remix tá no linque).

"Sexy Results (MSTRKRFT Edition)" - Death from Above 1979

Hino Gente Bonita, essa é uma música que resume o gênero musical dos mequetrefes - meio techno, meio big beat, meio house, meio electro, mas com uma pegada pop imprescindível por cima de tudo. E o refrão resume o espírito da dupla. Com eles, não tem erro.

"Community Revolution in Progress" – MSTRKRFT
Pesadelo. Uma muralha de som desaba em câmera lenta e, de alguma forma, com ritmo. O vocoder é o feitor nesta senzala de ritmo que se transforma a pista, todos escravos ao groove militarista e incansável dos quase seis minutos que a banda não colocou em seu disco de estréia – The Looks – e só em seu MySpace (não mais, eles tiraram, e essa foi a única que eu não encontrei o vídeo, mas de brinde vai essa aí embaixo).


"Street Justice" - MSTRKRFT
'Another killing on the dance floor!"


"Easy Love" - MSTRKRFT
"Whenever you want me,
Whenever you need me,
If you wanna love me,
Baby I'm easy"

***

E aí, vai ou não vai?

abril 27, 2007

Nona parada - Porto Alegre

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Ponto final, Porto Alegre. E o papo acontece no pequeno Elo Perdido, daqui a meia hora, comigo, com o Ferla, o Edu Santos da Ipanema FM e o DJ Primo. E ainda tem uma jam com uma galera local - Piá, Lika, Nitro D, etc.

Onde: Elo Perdido Rua João Alfredo, 533 – Cidade Baixa. Horário: 20h00

Bora lá? Pra encerrar, vai...

abril 25, 2007

Oitava parada - São Paulo

Tá quase no fim: a penúltima rola hoje aqui na Babilônia, e tem show do Maquinado, a banda do Lucio Maia (da Nação) e discotecagens do Camilo Rocha e do Rodrigo Nuts. Na mesa, eu converso com Lucio, Camilo e Rodrigo. Na faixa, malandragem.

Onde: Clash - Rua Barra Funda, 969 – Barra Funda. Horário: 20h00

Simba!

abril 17, 2007

Sétima parada - Campinas

Hoje o pitstop é aqui do lado, em Campinas, na Sala, a casa nova da Eli do Lov.e, que tá aos poucos ressuscitando a cena eletrônica da cidade. Além dela, o cantor Bruno Morais e o produtor Gui Boratto participam da mesa. E vamo ver se dá tempo de pegar o Lee Perry na volta!

Onde: Sala. Rua Sampaio Ferraz, 581. Horário: 20h00

E São Paulo é na semana que vem, behold!

abril 12, 2007

Sexta parada - Brasília

De volta à terrinha, agora a InfoSession (que vai rolar de novo na Torre, com "aquele" visual...) acontece na minha querida capital federal, com os DJs Quizzik e The Six, e a dupla de produtores Click Box (era pra ser o Gui Boratto, mas rolou uma confusão e ele não pôde vir - em compensação, em Campinas, dia 17, ele vai).

Onde: Torre de Televisão - Salão Panorâmico Horário: 20h00

E teoricamente depois da Session, uma galera vai emendar em outro lugar, esticando a naite até a hora em que ela vira dia. Mas aí é por sua conta e risco...

abril 10, 2007

Quinta parada - Goiânia

Hoje a caravana passa por Goiânia, e na mesa temos o DJ Quizzik, o Fabrício Nobre da Monstro e o DJ Evol. Tá aqui? Vam'lá. É free.

Onde: Centro Cultural Oscar Niemeyer. Go 020 – Goiânia. Horário: 20h00

E, a propósito, não teremos Curitiba, como perguntou o anônimo. Não dessa vez, da próxima...

abril 4, 2007

Quarta parada - Recife

O papo agora é na capital pernambucana - CRANDE Recifa - e BNegão, Fred Zeroquatro, H.D. Mabuse, Guga de Castro, Marcelo Lobato e a cantora Isaar sentam nos sofás do evento. Depois, Fred, Isaar e BNegão emendam uma jam session com o DJ Big e vai saber o que acontece mais tarde...

Onde: Rua Alexandrino Martins Rodrigues, 218. Boa Viagem. Horário: 20h00

Bora?

março 30, 2007

Terceira Parada - Fortaleza

Mais uma InfoSession, desta vez na minha querida capital cearense, terra de um terço da minha infância e adolescência. O papo dessa sexta tem a Karine Alexandrino e, de novo, BNegão e Guga de Castro que emenda sua festa Farra na Casa Alheia em seguida ao evento...

Onde: Endereço: Rua Dragão do Mar, 80 (Centro Cultural Dragão do Mar). Horário: 20h00

Se aprochegue.

janeiro 30, 2007

Cinco Perguntas Simples: Felippe Llerena

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Na verdade, a partir do momento que a música se tornou um bem intangível ela já perdeu o suporte, pois o CD era o "armazenador" de música oficial, e os walkmans da vida, e o CD player era o "reprodutor" de áudio. Na medida que os "reprodutores" e os "armazenadores" se tornaram o mesmo, o suporte físico, tal qual conhecemos, deixar de existir. De certa maneira, música sempre vai precisar de algum hardware para ser reproduzido, ainda que a música em si possa ser transportada por vias eletrônicas, portanto de certa maneira o suporte físico continua existindo na media que necessitamos de um local para armazenar a musica, o que se traduz no HD do computador que tem um player virtual ou o MP3 Player - pois jamais teremos como fugir da armazenagem - portanto o CD ainda será um otimo armazenador de música e ainda deverá ser por muitos anos, mesmo que seja para fazer backup - mas o modelo CD ->fabrica -> loja -> consumidor -este está com os dias contados sim...

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
A música já é consumida hoje atraves de outros meios que não são levados ao consumidor através do CD e sim através do cinema, do videogame, da televisão, pela internet por meios digitais atraves de serviços de venda a la carte – como o iMusica e o iTunes – ou por assinatura via "all you can eat" - este modelo já existe - se deixar de pagar o mês seguinte, as músicas caducam e deixam de ser reproduzidas - mas temos é que fazer os jurídicos, autores, artistas e tecnologistas se falarem mais pragmaticamente para encontrarem um modelo comercial que agrade a todos, pois acredito que música deveria passar a ser considerado que nem sistema de encanamento de água de casa – você paga uma conta mensal e tem água à vontade, quase de graça. Mas se quiser uma Evian, vais pagar mais por isto.
Existem outras suposições e possibilidades, que a música poderá ser paga por algum patrocinador, mas no fim das contas o que vale é a música sob demanda. O perigo é que se a conta não for paga, o artista vai deixar de ter alguém para pagar a inspiração, uma vez que para gerar demanda, ainda necessitamos da oferta e isto é gerado a partir do marketing e nisto as gravadoras ainda detém este know how melhor que ninguém. Direção artística, por mais que artistas dizem que gravadora não serve mais para nada, quem melhor sabe adequar um artista a repertório é quem sempre fez isto no dia-a dia - e se matarmos este modelos, tal qual se desenha hoje, vamos ter que pensar em novas fórmulas de criar demanda de novas obras.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
De passar por todos os barracos e saber o que não queremos e escolher o que queremos a partir do esvaziamento da mídia de massa para mídia individual. O acesso à informação e tecnologia mudou o modelo econômico. O ser humano mudou seu comportamento de acordo com as evoluções tecnológicas, nada do que está acontecendo é novidade, mas o difícil esta sendo assimilar.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Praticamente todos desconhecidos maravilhosos. Não recebemos mais demo tapes pelo correio e sim um link. Também ao mesmo tempo passamos a conhecer um universo de musicas muito ruins devido a facilidade de acesso a gravação e não-dicernimento artístico. A incógnita: como fazer isto gerar receitas?
Outro fator muito interessante é que passei a conhecer melhor artistas de antigamente através destas tecnologias novas também. Acho mais fácil eu vir a me interessar por projetos gravados em outrora do que assimilar as novidades atuais, pois hoje para se criar referência é muito complicado e quando ela se realiza a gente passa batido, sabendo que foi gerada a partir de sonoridades e musicas de outros tempos, porque são referências de vida. Hoje fazer estourar um artista parecer ser muito mais fácil, mas já que a massificação na rádio não fortalece mais do jeito que era antes. Ou seja, antigamente mesmo que a música nao fosse tão boa ela era assimilada e consumida pela carência de vários canais de divulgação e pela maciça quantidade de inserções, mas hoje o que é bom, é bom na hora e isto se propaga rápid. Novamente, mudança de comportamento.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Sim, com a facilidade de acesso a tecnologia e gravação, podemos focar em música ao mesmo tempo em que você vira parceiro do artista. Antigamente isto não existiria, pois todo o custo era somente da gravadora. Sonho mesmo será conseguir usufruir destas tecnologias e fazer a música brasileira bombar no resto do mundo.

Felippe Llerena é fundador do iMúsica.

janeiro 27, 2007

O que você está ouvindo

Materinha pra Simples que tá na banca, sobre os sites Pandora e Last.fm

***
Qual é a música?

Last.fm e Pandora são sites, rádios online, agregadores de conteúdo, comunidades online ou sistemas de recomendação de música? Conheça a nova geração de players da indústria musical

A crise na indústria da música, já deu pra perceber, não é tão generalizada quanto parece. Na verdade, um segmento sofre mais do que outros. São as gravadoras de disco que, depois da digitalização da música nos anos 80, lentamente vem perdendo poder, uma vez que seu principal bem – a capacidade de levar música em discos (seja de vinil ou de plástico) por todo o planeta – tornou-se irrelevante quando a equação “música digital + banda larga” começou a atingir níveis mais populares – e incluir mais gente neste processo.

A derrocada das grandes gravadoras multinacionais tem a ver com a má administração destas empresas nas últimas décadas (quando, em vez de investir em catálogos para o futuro, diretores regionais apostaram em sucessos instantâneos que ninguém quer ouvir dez anos depois), mas está mais ligada à mudança de paradigma básica que veio em decorrência à popularização da web, no começo dos anos 90: de que ninguém mais vai determinar, de forma tão vertical e autoritária quanto antes, o gosto do mercado. Cada vez mais as pessoas se tornam conscientes de seu papel não apenas como consumidor final (o sujeito que fica no fim do funil da indústria, esperando receber coisas) mas também como agente desta mesma indústria da música. E, assim, o papel das gravadoras, de “atravessador musical” – aquele sujeito que diz que música ou artista você deve consumir agora – vem se tornando literalmente irrelevante.

Mas crise na indústria do disco não quer dizer crise na indústria da música – são duas coisas distintas, é bom separar. De um lado, você tem cada vez menos gente disposta a entrar em uma loja e comprar produtos que só podem ser experimentados naquele ambiente (seja no fone de ouvido pendurado na gôndola da megastore ou os 30 segundos na playlist em streaming da loja virtual); do outro, você tem diversos artistas e produtores musicais indo conversar diretamente com seu público, sem esperar que alguém lhes diga como se portar ou o que vestir. Separada da indústria fonográfica, a carreira de um artista ganha uma profundidade inédita e cada fã pode se tornar tão importante quanto um radialista, um crítico musical em um jornal ou um diretor artístico um dia foram.

Logo, estamos dentro de uma outra situação nova – uma vez que o artista não precisa de uma grande gravadora para atingir seu público, as multinacionais deixam de ser os alvos de ataque destes artistas, que preferem atirar para todos os lados – dando MP3s, fazendo shows, colocando clipes no YouTube, criando produtos de merchandising (de camisetas a wallpapers para celular), abrindo faixas para remixarem, vertendo músicas em ringtones ou truetones... Existem um milhão e uma maneiras de se conversar com seu público hoje – e as novas bandas, artistas e DJs estão experimentando todas.

Dentro desta maré alta de nova música, como descobrir algo novo? Entre rankeadores automáticos, novas bíblias do bom gosto e personal ipodders, duas iniciativas – uma inglesa e outra norte-americana – mostram como é possível se entender neste novo cenário musical ao mesmo tempo em que ajudam a explicar que este mais tem a ver com o ouvinte do que com o artista. Ambos são, ao mesmo tempo, rádios online, sites de comunidade e agregadores de conteúdo – e não são nada disso, ao mesmo tempo. Pandora e Last.fm começaram de formas bem diferentes e disputam um lugar neste mercado rankeando gente a partir de artistas e gostos musicais.

Ambos partem do mesmo pressuposto: que, ao mostrar suas preferências musicais online, você abre a possibilidade para encontrar músicas e artistas que nunca havia pensado em conhecer. Num mundo em que cada vez mais gente produz música e mais música do passado sendo disponibilizada o tempo todo, este tipo de guia parece ser a melhor solução pra qualquer um que compre um MP3-player e pergunte-se por onde começar.

“Passei dez anos anteriores tocando em bandas de rock e escrevendo música pra filmes”, explica Tim Westergren, que fundou o Pandora ao lado de Jon Kraft e Will Glaser em janeiro do ano 2000. “Durante essa época passei a me dedicar a descobrir uma forma de ajudar músicos independentes a encontrar sua audiência mais facilmente. Eu tinha a idéia para o genoma baseado em minha própria experiência em tentar entender o gosto das pessoas e recomendar-lhes músicas”.

O genoma a que Westergren se refere é o projeto inicial do Pandora, que, como o próprio Projeto Genoma Humano, tentava rastrear semelhanças e diferenças entre artistas e estilos musicais para facilitar a vida de quem quer se aprofundar em certos nichos – a diferença é que, ao contrário dos engenheiros genéticos, a idéia não era corrigir ou solucionar problemas, mas agilizar o trabalho para fãs de música em geral. “Achei que tava dando certo ha alguns anos, quando finalizamos a primeira versão do genoma e criamos um sistema de recomendações”, continua Tim. “Isso foi muito antes do Pandora ser lançado. Contudo, após alguns meses após o serviço começar a funcionar que eu percebi que poderia se tornar algo realmente importante, que poderia potencialmente mudar o curso da indústria da música”.

O Pandora funciona da seguinte forma: escolha uma música ou artista de sua preferência que, em seguida e como numa rádio, o próprio site toca outras músicas que tenham a ver com a sua primeira escolha. A partir destas músicas, o site vai traçando seu perfil musical, já que você vai dando “sim” ou “não” para cada uma das músicas escolhidas.

Já o Last.fm funciona de outra forma: você instala um plug-in em seu player de MP3s (portátil ou não) e o programa cria um ranking das músicas mais ouvidas por você. Um não, vários: músicas mais tocadas, artistas mais tocados, artistas mais tocados na semana, no mês, no ano, e por aí vai. E, diferente do Pandora, você tem a opção de adicionar “amigos” e pessoas com afinidade musical próxima da sua. Os primeiros você acresce como em programas de rede social, como Orkut ou MySpace; os segundos são indicados pela própria Last.fm a partir dos seus rankings – comparando com o de pessoas que têm gostos parecidos com o seu. A partir deste, o próprio site indica que outras músicas você pode gostar – em alguns casos, até mesmo dando o MP3 para download.

“Fundei a Last.fm em 2002, com Felix Miller e Richard Jones”, conta Martin Stiksel, um dos CEOs do serviço. “Tínhamos uma gravadora onde bandas e artistas sem contrato podiam hospedar sua música e fomos soterrados por música boa, mas tínhamos um problema: ninguém conhecia nenhum daqueles artistas. Por isso, tivemos que desenvolver um sistema que conecta música desconhecida com os ouvidos certos, para promover a música certa para as pessoas certas”.

“Nosso objetivo é te ajudar em sua vida musical”, continua Martin, dando uma piscadela num emoticon, “nós podemos te ajudar a encontrar música nova e interessante, a redescobrir velhos favoritos, entrar em contato com outras pessoas que gostam das mesmas músicas que você, recomendar shows que você deve gostar de ir. Há tanta música e tanta oferta, por isso é importante achar boas recomendações sobre o que é interessante para você”.

O site começou a mostrar-se eficaz no meio de 2003. “Finalmente vimos que nossa forma de recomendar música para as pessoas estava funcionando de fato, era nossa ‘prova de conceito’. Até então, só achávamos que ele ‘poderia’ funcionar”, continua Martin. “O site acertou na veia desde esse início, muitas pessoas perceberam que poderiam mostrar como seu gosto musical era cool e ver o que os seus amigos estão ouvindo”.

Ambos concordam que um dos principais pontos desta decadência da indústria do disco é a falta de contato com o público. “O marketing de música definitivamente deve olhar mais o que as pessoas estão ouvindo de verdade em vez de fazer pesquisas de mercado com pessoas e pranchetas”, explica Martin.

“A melhor música dos últimos anos realmente saiu do underground da música independente e não foi inventado pelas gravadoras num laboratório”, ele continua. “Por isso, sim, o marketing de música deveria ouvir mais os ouvintes e fãs de música”. “Eu concordo com isso”, emenda Tim. “E acho que o interesse também é cada vez maior nas canções, à medida em que ela vêm se tornando cada vez mais a unidade de música através da qual a maior parte das pessoas interage”.

“Acho que na década passada assistimos a um declínio – não do fato de as pessoas gostarem menos de música, mas em como elas se sentem conectadas à atual cena musical”, continua Tim. “Acho que isso já começou a mudar e que a música digital está guiando está revigoração”.

“Um dos principais fatores era que a produção musical estava se tornando muito barato e acessível para qualquer um”, Martin segue. “Hoje você pode fazer em seu laptop o que, no passado, só era possível ser feito se você se chamasse ‘Pink Floyd’ ou algo do tipo. Isso propulsionou uma explosão de produção musical caseira e interesse por esta nova música”.

“Além disso, temos o fato que as gravadoras não estão gastando tanto dinheiro em criar novos superastros quanto o que elas gastam em relançar seus catálogos”, continua o CEO da Last.fm. “As gravadoras não estão nem aí para seu público e essa tendência sempre se manteve. Só agora ela está lentamente mudando. As pessoas estão escutando mais música do que nunca e mais música diferente do que nunca. A música nunca foi tão facilmente portátil do que hoje e você pode conseguir música a qualquer hora do dia. Por isso, estamos vivendo na melhor época para fãs de música”.

janeiro 16, 2007

Mashup power

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Coluneta na Trip deste mês...

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1 + 1 = 1!

Mais justaposições que habitavam apenas nosso subconsciente

“Don’t Fight It, Feel It” (Gameover’s Don’t Fight It Steal It Mix) – Primal Scream
Disco dominado por mashupeiros – tá lá o Team9, Fakeid, Go Home –, este Primalscreamremixed.com não existem nem mais no site que o batiza, mas anda flanando pelas redes de P2P do planeta. Consiste um retrabalho (por vezes noisy, outras cyberpunk) faixa-a-faixa no disco mais célebre do Primal Scream e, pra mim, o melhor disco dos anos 90, o Screamadelica. E nessa, Gameover funde uma das melhores faixas do disco com “Deeper Underground”, do Jamiroquai, e não só fica legal, como faz sentido! Neguinho sempre olha pros Warp e big beatters da vida e esquece de ver que até o pop mais tradicional foi diretamente influenciado pelo Primal Scream fase reive.

“Velvet Sugar” – Go Home Productions
Mark Vidler pega o piano martelado com batera e guitarra na introdução de “Waiting for My Man” do Velvet, deixa a voz de John Cale em “The Gift” narrar o comecinho da faixa, antes de deixar os Archies assumirem o vocal com “Sugar, Sugar” (“Aaahnn, honey-honey”, é, aquela da abertura daquela novela das seis que tinha um sujeito apelidado de Papagaio), o assovio de “Where’s Your Head At?” do Basement Jaxx e uns “yeah” tirado de algum disco de soul (ou de hard rock farofa?). Heresia? Total. Mas parece Jesus & Mary Chain, hahahaha…

“Hurts Like Teen Spirit” – DJ Dangerous Orange
A parte lenta do hit maior do Nirvana repetido ad eternum, enquanto entra Johnny Cash, grave, fúnebre, para abrir espaço, no refrão, para os vocais centrais de “Don’t Fear the Reaper”, do Blue Oÿster Cult, e algum beat de “Blue Monday”, do New Order. Uma salada daquelas improváveis, mas que aguçam o paladar auditivo ao colidir universos distintos – e ao mesmo tempo criando uma ambientação que faça sentido para os três grupos, country, hard rock, rock alternativo. Uma pérola.

janeiro 13, 2007

No meio do caminho

Resenha do Gossip que eu fiz pra Void, que o Cardoso tá editando em Poa...

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Standing in the Way of Control - The Gossip (Kill Rock Stars)
Entra no YouTube, digita “Standing” “Way” “Control” e “Gossip” e aperta o search. Um dos primeiros resultados é o clipe da música “Standing in the Way of Control”, cheque a descrição pra saber se é o clipe ou um show da banda Gossip, autora desta pérola. Escolha o clipe. Na hora em que o player embutido aparecer, clique pro pause virar play e espere a barra de carregamento completar, antes de começar a assistir – você não quer ser interrompido num momento desses. Solte e comece a ver um desenho animado toscaço e oitentista, que acompanha a surra de guitarras que abre a música (33 porradas, eu contei). Até que entra um baixo cavalgando o bicho disco music e aparece um baixista magrelo com uma máscara de ninja cobrindo o rosto, sobre um cromaqui igualmente tosco ao fundo. As imagens são péssimas (dentes escovados, um Yellow Submarine com a cara do Popeye, listras, a jarra do Ki-Suco), não há glamour nenhum. É quando entra o resto da banda: um baterista – que suspeito ser o mesmo cara que é o baixista –, um guitarrista metido a dândi (franja, bandana no pescoço, bleiser) e a vocalista, uma gordinha branquela com cara daquelas meninas que, tadinhas, foram muito zoadas do pré até a sétima série, quando elas começaram a andar com as meninas que ficaram gatas como escudo. Mas ela já entra cantando e com um vozeirão de fazer neguinho cair o queixo. Estamos em território punk-