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maio 12, 2007

O Papa do Pancadão

Duas com o Marlboro.

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22 de janeiro de 2003

Electro é funk de butique, diz DJ Marlboro

"É muita hipocrisia", desabafa o lendário DJ Marlboro. Pai do funk carioca, Fernando Luís Mattos da Matta, 39, se refere ao sucesso da passagem da DJ e cantora francesa Miss Kittin pelo Brasil. "Aconteceu o mesmo com a lambada, que teve de ser sucesso lá fora para ser reconhecida por aqui. Quem sabe o funk não tem a mesma trajetória?"
Passado, o gênero já tem. Criado em 1989, começou como os muitos filhotes da disco (hip hop, dancehall, house, tecno), em torno do quatro por quatro eletrônico e gritalhão executado pela dupla MC e DJ, que, no Rio de Janeiro, ganharam ares manhosos e gaiatos, típicos do comportamento da metrópole praiana.

Desde então o funk carioca não pára de se espalhar e ganhar território. Dos populares bailões ao "Planeta Xuxa", passando pelos gráficos e viscerais Proibidões até o estouro de Kelly Key, suas dimensões apenas aumentam. Miss Kittin, sob esta lógica, é apenas mais um passo do gênero: "Esse funk disfarçado, de butique -com as mesmas batidas quebradas e os mesmos BPM do funk- é apenas uma maneira que alguns DJs encontram para dizer que não tocam funk".

Aproveitando vácuos artísticos para mostrar sua cara, o funk carioca nasceu do fascínio de Marlboro por um brinquedo novo: a bateria eletrônica. E a história desta descoberta entra para os autos da psicologia popular ao lado de "Yesterday", dos Beatles, e "Satisfaction", dos Rolling Stones, como músicas compostas durante o sono. O DJ conta que a primeira vez que viu o instrumento foi nas mãos do antropólogo Hermano Vianna. "Mas ninguém sabia mexer", conta, lembrando do entusiasmo que mal o deixou dormir naquele dia.

"No sonho, aprendi a mexer e programei", diz. "No dia seguinte, liguei para ele logo de manhã e pedi para apertar os botões do jeito que eu havia sonhado e deu certo. Aí ele me deu a bateria. Foi um dos melhores presentes que eu ganhei na minha vida, pois como disseram, "é como se fosse dado um rifle a um chefe indígena"."

Lançando a coletânea "As Melhores do DJ Marlboro", o DJ se coloca como papa da eletrônica: "O funk é eletrônico antes de existir essa denominação. Quem define o que é eletrônico e o que não é?", briga, enfatizando o papel do DJ no mercado. "É ele quem descobre, produz e executa, todo o esquema da indústria fonográfica completo numa só pessoa."

Montado em seu próprio império (a produtora Big Mix), Marlboro é orgulhoso de seus números: "Entre CDs próprios, artistas que lancei, coletâneas internacionais e remixes produzidos, pode colocar que eu lancei mais de 200 CDs. Isso em vendas ultrapassa a marca de 4 milhões de discos, certamente". Toca em três festas, além de passar por outras 12 ("dou uma passadinha e sorteio uns brindes"), agitando o que estima ser uma pequena multidão de 12 mil pessoas por fim de semana. Fora uma coluna semanal no jornal "O Dia", um portal na internet (www.bigmix.com.br), os 350 mil ouvintes por minuto em seu programa de rádio e a segunda audiência da TV Bandeirantes carioca.

Mesmo assim, Marlboro acha que o funk carioca ainda não se estabeleceu.
"Acho que só seremos realmente reconhecidos quando resolverem fazer um funkódromo, quando as escolas fizerem concursos de funk para incentivar a garotada a escrever e expor suas idéias. Quando o funk for visto como instrumento de pesquisa para a sociedade descobrir o que essa galera pensa e a partir daí criar oportunidade e perspectiva de vida aos jovens, que sempre manifestaram essas reivindicações por meio da música -como um dia foi a MPB, a bossa nova, a jovem guarda e a tropicália. Hoje é o funk."

AS MELHORES DO DJ MARLBORO
Artista: DJ Marlboro
Gravadora: BMG
Quanto: R$ 18, em média

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5 de junho de 2004

DJ Marlboro conduz o funk carioca à Europa

DJ Marlboro entra em seu escritório no bairro Lins de Vasconcelos, nas redondezas do Méier, zona norte do Rio, e a primeira coisa que faz é correr em direção à sala onde está seu computador para baixar mais de 800 e-mails --em 15 contas de correio eletrônico diferentes. "É que ontem não deu tempo para baixar", desculpa-se, sem tirar os olhos do monitor, alternando do programa de e-mail para o de navegação da internet, no qual responde mensagens em um de seus quatro fotologs que atualiza pessoalmente.

Patrono do gênero popularmente conhecido como funk carioca, Marlboro é um dos principais DJs do Brasil e seu talento finalmente ganha reconhecimento internacional, mesmo ainda sendo tratado com o desprezo típico que o brasileiro médio dedica a artistas que se comunicam com classes sociais mais baixas. O DJ carioca é uma das atrações do festival SónarClub, que aconteceria ontem no clube Ocean, em Londres. O evento é uma versão de bolso do festival espanhol Sónar, cuja edição 2004 começa no próximo dia 17, em Barcelona, onde DJ carioca também bate cartão.

Ele ainda volta ao Brasil antes de retornar à Europa para a apresentação no Sónar, quando, ao lado do coletivo Instituto e do DJ Nego Moçambique, compõe o painel Eletronika Brazil, no espaço SónarPub. Após os brasileiros, o mesmo palco recebe nomes como a dupla belga 2 Many DJ's e o coletivo garage So Solid Crew.

E Barcelona é só o ponto de partida de sua primeira turnê européia, que ainda conta com datas em Paris (dias 22 e 23), Londres (dia 24), Liubliana (capital da Eslovênia, dia 25) e Zagreb (capital da Croácia, dia 26). A moral de Marlboro, principal porta-voz do funk carioca, ainda cresce com o lançamento de quatro coletâneas de suas produções na Europa.

Mas ele ainda é o mesmo sujeito que, há 24 anos, atravessava todo o Rio de Janeiro a pé ou de bicicleta, carregando os vinis na mochila, para discotecar. A humildade do DJ é estranhamente proporcional ao nível de controle que ele exerce em todo o império de entretenimento que criou, o Big Mix, cujo slogan ("É Big Mix, ô mané!") é reverberado por milhares de cariocas diariamente, seja em intervenções de ouvintes em seu programa de rádio diário ou em adesivos espalhados por todos os lados da cidade maravilhosa.

É ele mesmo quem tira as fotos em todos os bailes que toca (mais de 20 por fim de semana) e descarrega em seus fotologs (como o www.fotolog.net/bailefunk). Ele ainda supervisiona todos os mixes feitos por sua equipe, responde pessoalmente aos e-mails e às mensagens que são enviadas via ICQ, discute com detratores do funk e dirige o próprio carro todo o dia rumo à rádio, no centro.

Viciado em trabalho, ele não pára um minuto e está constantemente ao celular, alternando papos com velhos amigos e conversas sobre promoção de eventos. Vê-lo revezar entre a locução ao vivo do programa "Big Mix" e o papo com o MC Serginho (o da "Égüinha Pocotó") ao telefone é desesperador e inspirador --ao mesmo tempo em que parece que vai se atrapalhar e pôr tudo a perder, pode-se perceber o senso de ritmo e a presença de espírito que o tornam um grande DJ.

"O negócio é fazer o povo dançar. Não tem dessas de Billboard, de ver na revista de moda a música que tá tocando lá fora...", explica. "Se o pessoal dançou, deixa; se não, joga fora. Não importa se é sucesso no exterior."

Sentado em seu estúdio, teoriza sobre a fagocitagem do funk carioca em relação aos outros gêneros de música, comparando com a mestiçagem e mistura de culturas característica do Brasil: "O funk absorve tudo, seja folclore brasileiro ou música gringa. É o gênero com menos preconceito em relação aos outros gêneros e, talvez por isso mesmo, seja o que mais preconceito sofre", explica. "E, se você for ver bem, é a mesma coisa do Brasil, que também absorve tudo e sofre preconceitos por não ter preconceito."

"Mas eu queria mesmo era ouvir o funk com os ouvidos do gringo", lamenta, lembrando das excursões recentes que fez aos EUA --desde que se apresentou pela primeira vez em Nova York, em junho do ano passado, ele já voltou outras duas vezes ao país.

"Não sei inglês até hoje e gosto de música em inglês independentemente do que ela diz, sem saber do que ela está falando. Não sei se o estrangeiro também ouve assim, então vou tentando, devagar, colocando alguma coisa instrumental, outras músicas mais silábicas, umas com uns baixões..."

Assistindo lentamente ao crescimento do gênero no exterior (ele interrompe a entrevista várias vezes para falar de reportagem do "Fantástico" sobre o estouro do funk na Grécia ou de um amigo que avisou que ouviu funks em um clube em Portugal), Marlboro orgulha-se de colher em vida os frutos que semeou: "Eu achava que só iam me reconhecer quando eu estivesse velhinho, quando você não pode fazer mais nada, e aí vem o pessoal e homenageia, como aconteceu com o Cartola".

8 Bit

Vou despejar uma seqüência de matérias velhas que publiquei na Folha, quando colaborava lá.

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10 de março de 2004

Documentário lançado nos EUA relata ascensão e declínio da Atari

"TUM! TUM! TUM!" Vez ou outra, um ruído bate-estaca tomava conta do escritório da Atari, no vale do Silício, na Califórnia. Os visitantes estranhavam o barulho, mas os funcionários da empresa não ligavam: era apenas o programador Tod Frye, um dos pais de "PacMan", andando pelas paredes (!!). Essa é apenas uma das histórias bizarras que um dos protagonistas da era de ouro da companhia, o programador Howard Scott Warshaw, reuniu no DVD "Once Upon Atari", que acaba de ser lançado nos EUA e pode ser comprado através do site www.onceuponatari.com.

"Depois de ter passado por aquilo, eu sabia que algum dia essa história tinha de ser contada", lembra o designer de jogos vertido em documentarista. Warshaw reuniu amigos programadores numa sessão de memória para resgatar os dias de glória da empresa, que fez os jogos eletrônicos se tornarem populares e viáveis no mercado --além de entrar para a história como fenômeno cultural. "Eu esperei até quando pensei ser tarde demais para ser processado", brinca o diretor, que deu início às gravações em 1999.

Até hoje um número considerável de pessoas ainda são fascinadas por jogos antigos. Para o diretor, "o foco [das pessoas] está apenas no jogo! Hoje passam tanto tempo fazendo clipes cinematográficos e desenvolvendo técnicas de gráfico que o jogo em si se torna uma segunda preocupação".

Nas entrevistas, mais do que histórias engraçadas e inacreditáveis, todos os ex-funcionários da empresa se referem com nostalgia ao período em que trabalharam lá. "Eu tinha 23 anos e tinha completa autonomia criativa para o que eu fazia", recorda Simon Fulop, o criador de "Missile Command". "Era minha versão da América corporativa", lembra Carla Meninsky. "Todos os outros empregos que eu tive depois foram incrivelmente chatos."

Também pudera: a divisão de games tinha pouco do que nos referimos como "local de trabalho". A rotina da Atari era o que menos lembrava uma rotina.
Em um dia, todos estavam debruçados em números e códigos tentando fazer vários personagens de um jogo se moverem de forma independente, no outro, Steven Spielberg visitava os escritórios. O cheiro de maconha começava às 9h, atrapalhando as reuniões de negócios.

"Eu sou realmente um dos pais dos jogos eletrônicos e o único programador da Atari cujos jogos venderam mais de milhões de cópias --até o 'E.T.'!", orgulha-se o diretor, brincando, em referência ao jogo que é considerado o pior da história. "O sentimento de ser um fundador e agente fundamental em algo que se tornou um fenômeno cultural é simplesmente incrível."

Mas o DVD explica que não foi a desorganização e a arruaça de seus programadores que levaram a Atari à falência. "As pessoas ficam muito esquisitas quando muito dinheiro começa a aparecer", lembra um dos entrevistados. Gerentes comerciais davam sermões nos programadores que agiam como estrelas, por saber que era por causa deles que a empresa era lucrativa. Boa parte da zorra incitada pelos funcionários era uma reação à visão estreita dos departamentos de marketing.

Outra parte era pura loucura mesmo. Como quando Frye descobriu que podia andar nas paredes. Colocou um pé em uma parede de um corredor e o outro na outra. Quando percebeu, estava se equilibrando com mãos e pés, sem tocá-los no chão. O bate-estaca citado no início do texto não é nada senão o barulho que o programador fazia ao "caminhar" pelas paredes dos corredores da empresa --a quase dois metros do chão. Não foi por menos que, quando enfiou a testa no dispositivo antiincêndio instalado no teto e a equipe do pronto-socorro perguntou o que havia ocorrido, ninguém acreditou na história.

Decisões erradas e brigas selaram queda da Atari

Um dos extras do DVD "Once Upon Atari" traz Nolan Bushnell, fundador da Atari, em uma entrevista sobre o mercado de games. "Eu não sou o pai do videogame, [Steve] Russell e os caras que fizeram o 'SpaceWar' em 1962 é que são. O meu feito foi conseguir vendê-los. Eu os transformei em uma indústria", diz, sem modéstia.

Mais do que fabricar jogos clássicos ou ser o ícone central da primeira era de ouro dos videogames, a Atari pode se vangloriar por ter colocado a lógica eletrônica dentro da vida das pessoas. Foi a primeira vez que um equipamento eletrônico se tornou um ícone cultural em larga escala.

"A Atari fez história na eletrônica ao colocar computadores nas casas das pessoas", emenda o diretor Scott Warshaw. "Os computadores pessoais até estavam vendendo, mas não muito rapidamente, e ninguém sabia o que fazer com um deles. A Atari mostrou ao mundo como você pode se divertir com um computador em casa. Ela curou os medos com relação a isso e elevou o número de vendas de milhares para milhões! Eles mudaram o mundo como o conhecemos."

Após tatear o mercado com o jogo de tiro "Computer Space", que fracassou, Bushnell e seu sócio Ted Dabney deixaram uma versão rudimentar do tênis bidimensional "Pong", que funcionava à base de moedas, em um bar de San Francisco. No dia seguinte, quando checaram a máquina e viram que ela estava lotada de moedas, concluíram que "Pong" havia sido jogado durante toda a noite. Foi quando os dois perceberam que, melhor do que vender a idéia para alguém, o ideal era abrir seu próprio negócio.

No início de 1973, "Pong" era uma febre em todos os EUA e inaugurava o conceito de arcade eletrônico, aos poucos invadindo as casas de fliperama.

Quase 10 mil máquinas foram fabricadas e vendidas. Mas o grande salto da empresa aconteceu com o "Pong" doméstico, que foi lançado em 1975 e rendeu números gigantes: 150 mil consoles vendidos, US$ 40 milhões em vendas, US$ 3 milhões de lucro no primeiro ano. No ano seguinte, Bushnell vendeu a empresa para o conglomerado Warner, que impôs um novo presidente, o executivo mão-de-ferro Ray Kassar.

A era eletrônica começa para valer nos anos 80, quando a IBM lança o computador pessoal, e os videogames se tornam massivos.

A Atari lança vários hits, como "PacMan", "Defender" e "Asteroids", ao mesmo tempo em que a rixa entre o setor de programação e o departamento comercial explode. A queda acontece em 83, quando a empresa faz diversas opções erradas de mercado, a mais célebre sendo o jogo "E.T.", um dos maiores fracassos da história do videogame, que foi eleito pela imprensa especializada como o pior jogo da história.

O fiasco foi tamanho que a empresa enterrou mais de 5 milhões de cartuchos em um deserto no Novo México, pois as crianças não o queriam nem de graça.
A partir daí, a Atari desanda. Passa das mãos da Warner para vários empresários e, aos poucos, definha com diferentes tentativas de volta ao mercado (o portátil Lynx, o console Jaguar), sem nunca conseguir repetir o sucesso original.

fevereiro 9, 2007

Bardo duplo

Resenhinha que saiu na Folha de hoje, sobre o primeiro DVD do Van Morrison, mas que a edição no jornal fez parecer que os músicos do primeiro CD tocam mal. Enfim...

Live at Montreux 1980/1974Van Morrison
Gravadora: ST2; Quanto:R$ 50, em média
Cotação: ***
O clichê da contracapa ("este DVD registra Van Morrison em sua melhor forma") é mentira, pois isso só aconteceu uma vez na biografia do irlandês, no clássico "Astral Weeks", de 1968. A partir dali, o ex-Them seguiu uma carreira sempre irregular, entre o brilhante e o desapontador. Mas a voz de Morrison é um instrumento – e mesmo que seu músico esteja mal (como no disco de 74, em plena crise pós-casamento que gerou o disco-jam – e depois engavetado – "Mechanical Bliss"), ela ainda soa intacta. É claro que é bem melhor ouvi-la plena (como no show de 80), e é esta voz, limpa, suave e forte, que garante que o primeiro DVD do velho Van seja bem acima da média.
POR QUE ASSISTIR: O disco de 1980 (que chama a responsa do DVD duplo) traz Morrison mais à vontade e inspirado. O de 74 o apresenta em fase crítica, por vezes inseguro e discreto, e a banda aparece mais – o que pode ser bom, se você for músico.

fevereiro 3, 2007

Kdickeano

Mais uma sobre o Scanner Darkly, desta vez sobre o livro, que saiu na Folha hoje...

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Lançamentos agitam o legado do escritor

A lenta consolidação do nome de Philip K. Dick no imaginário popular chega aos 25 anos neste 2007, quando aniversariam tanto a morte do escritor norte-americano (que morreu dia 2 de março de 1982) quanto a estréia de “Blade Runner” (25 de junho daquele ano), o primeiro de seus livros a virar filme. Desde então, o escritor de ficção científica - contemporâneo de bastiões do gênero como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, que tiveram seus dias de glória ainda em vida - passou não só apenas a ser mais conhecido e reconhecido, como lentamente o material de seus romances diz muito mais a respeito dos nossos dias do que as colônias interplanetárias e os robôs de Asimov e Clarke.

Veja este “O Homem Duplo”, que acaba de ser lançado pela primeira vez no Brasil (só existia uma edição em português, na clássica coleção lusa Argonauta - o título da versão 2006/07 segue o desta primeira edição; o original "A Scanner Darkly" contém referências à Bíblia - em especial ao capítulo 13 da Primeira Epístola aos Coríntios e o amplo significado da palavra "scanner" nos anos 70). Sem nos atermos aos maneirismos futuristas do livro, a saga do policial que tem de se infiltrar no submundo das drogas e torna-se um viciado, confundindo sua obsessão por manter-se chapado com a de descobrir as subdivisões do narcotráfico foi escrita em 1977 mas é rotina trinta anos depois - ainda mais se trocarmos “droga” por qualquer outra atividade que venha ser considerada ilegal para o estado. A esquizofrenia de uma sociedade fragmentada é uma das principais profecias concretizadas por K. Dick, que inverte o totalitarismo de George Orwell em uma visão mais multifacetada (nem por isso menos agressiva) de possíveis ditaduras do futuro

Como em seus grandes livros, o escritor usa o futuro como metáfora para explorar a natureza do ser humano e a narrativa ficcional serve como veículo para a filosofia. Escrito em duas semanas mas reescrito por seis anos, “O Homem Duplo” mistura referências autobiográficas na história, principalmente no que diz respeito ao uso de drogas - Philip é famoso por ter frito o próprio cérebro com anfentamina durante os anos 60, quando escrevia livros às dúzias.

A mesma Rocco que lança “O Homem Duplo” promete uma nova edição o livro para “Blade Runner - O Caçador de Andróides” (lançado como “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, em 1968) para o próximo mês de abril, quando a editora Aleph, que lançou no ano passado a obra-prima “O Homem do Castelo Alto” (de 1964), publica a primeira edição em português para o livro-enigma “Valis” (de 1981). A Aleph ainda promete para o segundo semestre “Ubik” (de 1969) e “Os Três Estigmas de Palmer Eldritch” (de 1965).

Nos EUA, acaba de sair o livro póstumo “Voices from the Street”, há dois filmes em produção sobre sua biografia (um com Bill Pullman vivendo o escritor e a outra com Paul Giamatti no papel) e o reconhecimento oficial do governo finalmente aconteceu quando a Library of America (a Biblioteca Nacional deles) anunciou que irá publicar “Blade Runner”, “Castelo Alto” e “Ubik” em sua coleção. Fora a edição definitiva do filme de Ridley Scott, que chega às telas no meio do ano. Nada mal para um escritor frila obcecado, paranóico e chapado que, alucinando, viu o nosso futuro.

O HOMEM DUPLO
Cotação: ****
Editora: Rocco (308 páginas)
Preço: R$ 38,50

janeiro 29, 2007

Bounce that

Entrevistinha que eu fiz com o Gregg "Girl Talk" que saiu na Folha de hoje...

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Girl Talk redefine idéia de "mashup"

Produtor funde mais de 200 samples em seu álbum "Night Ripper" e deve se apresentar no Brasil ainda neste semestre

A guitarra e o vocal açucarado de "Where's My Mind" dos Pixies, baixos de Dr. Dre, as cordas de "Bittersweet Symphony" do Verve, a base lenta de "Only" do Nine Inch Nails, o violão de Noel Gallagher em "Wonderwall", Jeff Mangun do Neutral Milk Hotel contando "2, 1, 2, 3, 4" e toneladas de vocais de rap, de diferentes origens. Assim é "Night Ripper", um dos melhores discos do ano passado, lançado pelo produtor Gregg Gillis sob o pseudônimo Girl Talk. Sem pedir autorização para usar nenhum dos mais de 200 samples utilizados (e não por acaso
lançado pela gravadora americana Illegal Art), ele leva o conceito de mashup para um novo patamar e está quase confirmado como uma das atrações musicais para a próxima edição do festival Resfest, que acontece em abril. Ele conversou com a Folha por email, na entrevista
abaixo.

Conte a história de "Night Ripper".
Eu amo música pop e eu faço colagens com músicas há uns sete, oito anos. Gosto de recontextualizar elementos familiares em músicas novas e estava querendo fazer um disco divertido, apenas com samples. O som do disco é baseado nas minhas apresentações ao vivo, quando eu misturo na hora um monte de loops e samples tirados de um set pré-determinado.

A atenção que você recebeu após o lançamento do seu trabalho diz mais respeito ao fato de o disco ter sido lançado sem autorizações ou pelas quantidade de músicas conhecidas se encontrarem de forma tão distinta?
Acho que um pouco dos dois. As pessoas sempre gostam da controvérsia, daí a questão do direito autoral. No lado musical, queria fazer um disco que fosse ao mesmo tempo experimental na estrutura e divertido. Acho que as pessoas estão acostumadas a ouvir música remixada como se fosse ou inteiramente experimental ou apenas feita para a pista de dança. O meu disco é acessível o suficiente para que pessoas que não são interessadas em música feita a partir de colagens ou outro padrão de música eletrônica possam simplesmente curtir, mas ao mesmo tempo ainda é estranho e chama atenção por ter a quantidade de samples que tem espremida em um só disco. De qualquer forma, eu gosto de pensar que as pessoas estão interessadas mais na música do que no aspecto conceitual.

O que você acha dos direitos autorais atualmente?
Acho que podemos usar as leis de direito autoral para beneficiar a todos. A cultura do remix está ajudando a música como um todo, mostrando novos artistas para pessoas que nunca os ouviriam de outra forma e deixando-as mais animadas com a música. Muitos usam programas de edição visual, como o Photoshop, para manipular e reciclar a cultura todo dia, apenas como um hobby. Acredito que isso está acontecendo com a música também, com um monte de moleques fazendo seus próprios remixes e os espalhando pelo mundo. À medida em que nós nos movemos nesta direção, acho que as leis devem assumir uma postura que ajude o desenvolvimento artístico tanto quanto proteja a música destes artistas de uma perspectiva financeira.

Você certamente conhece o trabalho de outros famosos editores de som, como Double Dee & Steinski, a dupla KLF, John Oswald e Dangermouse. Você acha que você pertence a uma nova tradição?
O ato de samplear está por aí desde que havia tecnologia para fazer isso, e você pode voltar isso para as primeiríssemas colagens em fita. À medida em que a tecnologia tornou-se mais acessível com os samplers e softwares de edição de som, samplear se tornou uma ferramenta mais usada. Eu gostaria de me encaixar entre os artistas que você citou, mas samplear vai muito além do underground. É uma ferramenta padrão para fazer música pop atualmente. Eu não acho que meu trabalho seja parte de uma nova tradição, apenas que estou usando um instrumento relativamente novo que muitos produtores usam hoje.

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Cultura do "corta e cola" se multiplica na internet

“Se fosse legal, seria divertido?”. Assim Adrian Roberts, uma das metades da dupla A plus D (a outra é sua irmã, Deidre), resume a questão dos direitos autorais em relação ao tema mashup. Subcultura que nasceu do hype ao redor da colagem de duas músicas distintas e que ganhou fama em sua incipiência em 2001 (quando os 2ManyDJs popularizaram-no com o nome de “bastard pop” ou “bootleg”), a cena mashup cresce a cada dia que passa atraindo DJs de diferentes países e movimentando online (e gratuitamente) centenas de músicas criadas a partir de outras.

Um exemplo é o recém-lançado CD “The Best of Bootie 2006”, que não existe fisicamente (por motivos legais) e está disponível para download no site da festa Bootie (http://www.bootieusa.com/bestofbootie2006/), organizada por Adrian e Deidre em San Francisco, mas que aos poucos ultrapassa as fronteiras do próprio país.

O CD virtual conta com colisões agressivas (Led Zeppelin e Beastie Boys, Chemical Brothers e Velvet Underground), sacadas de pista (Kanye West com a versão discoteca para a quinta sinfonia de Beethoven, Gnarls Barkley com Supertramp) e apelo retrô (Eurhythmics com Lady Sovereign, She Wants Revenge com Joy Division). Entre seus autores estão alguns dos protagonistas desta cena internacional mashup, como os franceses DJ Zebra e DJ Moule, os suecos Divide & Kreate, os ingleses Kleptones e Go Home Productions, os australianos Arty Fufkin e Team9, o dinamarquês DJ M.I.F. e os americanos Party Ben, Earworm e os próprios A plus D. Tudo de graça, pronto pra baixar no site.

“Começamos a Bootie em agosto de 2003 e tínhamos que explicar pra todo mundo que conhecíamos o que era mashup”, lembra Adrian. “Hoje, a festa cresceu consideravelmente e é a maior noite de mashup do mundo. Nós temos uma outra casa noturna em Los Angeles, chamada Bootie LA e estamos nos preparando para lançar festas Bootie em Paris, Nova York e Chicago”; comemora.

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Dissecando "Night Ripper"
Três faixas do disco do produtor Gregg Gills

"Bounce That" – O vocal rap de "Kryptonite" (dos Purple Ribbon All-Stars) atravessa toda faixa, que alterna bases do hit disco "Best of My Love" (dos Emotions), de "Daft Punk is Playing in My House" (do LCD Soundsystem), "Cannonball" (das Breeders) e "Connection" (do Elastica), entre outros.

"Overtime" – "1979" dos Smashing Pumpkins funde-se com o electro "Whitehorse" do Laidback sob outro vocal os Three 6 Mafia, até encontrar a base de "Pump Up the Jam" no final.

"Summer Smoke" – A base de "1 Thing" (Amerie) encontra os vocais de"Galang" (M.I.A.) antes de Kanye West (com o hit "Gold Digger") colidir-se com a setentona "Magic" do grupo Pilot.

janeiro 20, 2007

Contra-ataque

Resenhinha que saiu hoje na Ilustrada. Tem entrevista com o autor do livro aqui nesse link.

Livro reconta a história sob a ótica iconoclasta

A expressão “contracultura” nos remete aos anos 60 de passeatas, hippies, drogas, rock sério e sexo livre, tempos de uma transição entre o Technicolor da psicodelia e o vermelho e preto de maio de 68. Esta lembrança desdobra-se mais adiante nos pais e filhos desta geração clássica - antes, os beats, o jazz e o blues, James Joyce e os xamãs; e depois, a cultura rave, clubber, nerd e geek, o hip hop e o ativismo político eletrônico. “Contracultura Através dos Tempos” amplia ainda mais este escopo, e reconta a história da humanidade do ponto de vista da quebra dos valores tradicionais e do espírito inquieto das épocas de mudanças. O livro (assinado pelo nome de batismo - Ken Goffman - do ativista e escritor R.U. Sirius) determina um Prometeu hedonista e um Abraão iconoclasta como pais desta cultura da mudança. No cânone, judaísmo, a Paris do século 19, Thoreau e Whitman, trovadores medievais, taoísmo, zen e sufismo, Sócrates e o Iluminismo, apontam para a acid house, a internet, o ambientalismo e a Nova Esquerda, numa grande árvore genealógica desta história paralela. O prefácio de Timothy Leary é só a cereja.

CONTRACULTURA ATRAVÉS DOS TEMPOS - DO MITO DE PROMETE À CULTURA DIGITAL
Cotação: Quatro estrelas
Autores: Ken Goffman (R.U. Sirius) e Dan Joy
Editora: Ediouro
Quanto: R$ 54,90 (432 págs.)

novembro 25, 2006

VSP

Sabadão na Ilustrada, depois de uma quinta no far east da ZL...

David Lloyd mapeia São Paulo

Convidado para retratar a metrópole na série Cidades Ilustradas, quadrinista visita locais inusitados; "tenho a obrigação de entender a cidade como um todo", diz o ilustrador de "V de Vingança", que participa de evento hoje na Fnac

“Você já reparou que os carros em São Paulo são pintados de preto, branco ou cinza?”, pergunta-me David Lloyd em frente à subprefeitura da Cidade Tiradentes, a região mais leste da Zona Leste de São Paulo. Um dos autores da minissérie “V de Vingança”, o inglês de 56 anos - olhos pequenos, caminhar relaxado - passeia pela cidade até o próximo dia 3, enquanto vai dos lugares mais improváveis de São Paulo aos mais corriqueiros, entre eles uma sessão de autógrafos que acontece hoje na Fnac Pinheiros e um bate-papo na próxima segunda-feira, na Universidade Mackenzie.

O motivo da passagem é que Lloyd será o autor do sétimo volume da coleção Cidades Ilustradas, da editora Casa XXI, que já publicou edições dedicadas ao Rio de Janeiro, Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e as cidades históricas de Minas Gerais, vistas pelos olhos de quadrinhistas nacionais e estrangeiros - entre os últimos, bambas como o francês Jano - autor do rato punk Kebra -, que fez o Rio, e o espanhol Miguelanxo Prado - da graphic novel “Mundo Cão” - que desenhou a capital mineira.

Num calor de quase 40 graus, o desenhista não se abala e fotografa de vez em quando, sem nunca fazer rascunhos ou desenhar nada, só anotações mentais. “Eu sou inglês, meu caro. Nós não nos importamos. Quanto mais difícil, melhor”, ri.

A convite da editora, Lloyd aceitou o desafio de fazer São Paulo. “A única vez que havia vindo ao Brasil foi em 2003, quando vim para o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte e passei pelo Rio, rapidamente. Não conheci São Paulo. Por isso, o convite é uma espécie de desafio. E como é um trabalho também - tenho prazo, salário -, eu tenho a obrigação de entender a cidade como um todo, ir além do turista e do artista. Se fosse um trabalho autoral, eu não teria a necessidade de falar de tudo. Eu podia contar a história de uma pessoa, de um bairro. É como se eu fosse para uma floresta e desenhasse apenas uma folha. Ainda é a floresta, mas não é ela inteira”.

A comparação de São Paulo com uma floresta suscita outras impressões que a cidade passou para o artista. “O Roberto (Ribeiro, editor da Casa XXI) me pediu para fazer o livro em preto e branco, com algumas referências de cor, aqui e ali. Mas, além das cores dos carros, o que me impressionou foi o contraste entre o cinza e o verde”, continua. “O cinza é muito mais presente do que em Londres, Nova York ou outras grandes cidades pelo excesso de concreto que se usa nas obras - e como esse concreto fica à mostra”.

“Já o verde vem em todos os lugares. Tudo bem, São Paulo é uma cidade poluída, mas há verde por toda a parte, muito mais do que em qualquer outro lugar deste porte. E o verde funciona como uma metáfora para as pessoas, que parecem aparecer de todos os lugares. Existem duas regras que parecem explicar a cidade: os pobres só têm aquilo que os ricos deixam eles ter e os pobres tomam à força o que eles querem ter. O equilíbrio entre estas duas forças, que dá origem a estas casas feitas de papelão, embaixo da ponte e a comunidades pobres enormes, dá o tom da cidade”.

Lloyd já passou por pontos óbvios da cidade - como o bairro da Liberdade e o Terraço Itália -, mas também visitou pontos distantes do dia-a-dia do paulistano, como a Cratera da Colônia, no extremo sul da cidade, onde uma comunidade de 20 mil pessoas mora num buraco formado pela queda de um meteoro. “É uma cidade com muitos contrastes, muita variedade de tudo - comida, música -, mas não é isso que faz São Paulo diferente das outras metrópoles. Seria diferente se não tivesse. Há um otimismo recorrente nas pessoas, independente de como elas vivem, e ao mesmo tempo um olhar de resignação. E há um fascínio incrível por carros!”.

Mais que o desenhista de “V de Vingança”, Lloyd foi co-autor da minissérie que virou filme dos irmãos Wachowski - foi dele a sugestão de colocar um bandido contra o estado, de dar um clima cinematográfico à obra e de não usar nem balões de narração, de pensamento ou onomatopéias na história. Ao contrário do outro autor, o venerado Alan Moore, Lloyd não se incomodou com a adaptação para o cinema e manteve seu nome no filme. “A essência da série está ali. A história é outra, afinal de contas, é um filme”, ele dá de ombros. David também aproveita a vinda ao Brasil para negociar o lançamento no país de sua nova série, “Kickback”.

Sessão de autógrafos com David Lloyd
Hoje, às 16h
Local: FNAC Pinheiros (av. Pedroso de Moraes, 858. Pinheiros)

Encontro com David Lloyd
Data: 27 de novembro, segunda-feira, às 20h
Local: Universidade Mackenzie (Rua da Consolação, 930)
Entrada franca

novembro 23, 2006

I look at the world and I notice it's turning

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E na Ilustrada de hoje...

Beatles animam Cirque du Soleil

Produtor George Martin cria "Love", um ótimo mix de samples que é trilha para novo espetáculo da trupe; álbum, que ganha lançamento mundial, repassa a história da banda com colagens sonoras de diferentes músicas

Eis a premissa, prepare-se para erguer as orelhas: nem Paul, nem Ringo, nem Yoko participaram efetivamente do novo produto que leva a chancela oficial dos quatro de Liverpool. O novo disco com o nome do grupo, que chegou às lojas do mundo inteiro esta semana, mais do que uma coletânea é um, er… “medley” gigantesco, em que Sir George Martin e seu filho Giles repassaram a carreira da banda como trilha sonora do novo espetáculo do grupo canadense Cirque du Soleil encenado em Las Vegas. Dá pra ver os olhos dos fãs se arregalarem num silêncio assustado e o sorriso malicioso dos chatos antibeatles crescer. Sabemos o quanto os Beatles podem ser piegas - principalmente, postumamente - e qualquer um está fadado a pisar na lama do fundo do poço.

Desfaçam a expressão - não foi agora. Com “Love”, o mais novo CD do grupo, os Beatles mais uma vez fazem jus à sua fama de topo do pop e acrescentam mais uma cotação máxima à sua estrelada carreira fonográfica. Com pouco mais de uma hora e vinte e seis faixas que reúnem trechos de nada menos que 130 canções do grupo, George Martin deixou de lado obviedades como temas orquestrados, regravações com novos intérpretes e novas composições para fazer uma homenagem à altura do legado do grupo formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr.

É um conceito incrível e mais incrível é a forma como ele funciona. “Love” é uma sinfonia de samples de diferentes fases da carreira do grupo, que entrelaçam canções umas às outras, criando um fluxo coeso de sentimento e informação. É o conceito de mashup que parte de um dos agentes do principal movimento cultural do século vinte, depois desta cultura de colisões musicais já haver flertado com os quatro de Liverpool em inúmeros bootlegs avulsos e discos inteiros, sendo o infame “Grey Album”, do DJ Danger Mouse (vocais do “Black Album” de Jay-Z sobre instrumentais do “White Album” dos Beatles), seu principal exemplar.

O resultado é inacreditável. Com maior ênfase no período posterior a 1966, quando os quatros desistiram de fazer shows ao vivo para dedicarem-se e existirem apenas nos sulcos dos discos do vinil, “Love” é a versão de Martin para o “Anthology”. Em vez de simplesmente revisitar os arquivos da banda ou tratar em estúdio com qualidade superior (o que também acontece neste disco, mas não é o principal atrativo), o produtor de todos as gravações do quarteto - um dos poucos seres vivos a ter o título de “quinto beatle” - resolve interferir no passado, “retocar a Mona Lisa”. Sim, ele opta pela heresia, reinventando músicas do grupo ao fundi-las umas com as outras.

Não podia ter sido mais feliz. Para quem gosta de cultura pop, “Love” é “a” aula sobre Beatles para ser dada aos iniciantes e uma cápsula do tempo sobre a importância do histórica do grupo. A base de “Tomorrow Never Knows” serve de apoio para o vocal de “Within You Without You”, ressaltando a influência indiana na psicodelia. “Strawberry Fields Forever” passa por suas diferentes versões - da demo ao violão à versão final - em um só take, numa clara homenagem ao passo mais ousado do grupo. “For the Benefit of Mr. Kite!” descamba na segunda parte de “I Want You (She's So Heavy)” e o violão de “Blackbird” serve como introdução para “Yesterday”; o solo de “Taxman” entra em “Drive My Car”, o final de “Come Together” se mistura ao de “Dear Prudence”. Exemplos felizes destes transplantes musicais estão por todo o disco.

Já para o fã dos Beatles, o disco é um sonho. Não importa o quão brega (ou não) seja o musical circense, com personagens das canções se juntando à história da banda. Sozinho, a trilha é uma montanha-russa de sensações novíssimas, criadas a partir de velhos sabores. No imenso mashup de pai e filho Martin, os Beatles não só surgem como o principal legado cultural do século passado, mas como visionários sônicos, que abandonaram a performance ao vivo para abraçar as infinitas possibilidades do som gravado - abrindo uma fronteira cuja exploração assistimos até hoje.

outubro 9, 2006

Zoofilia

Essa saiu na Folha de sexta...

Desenho tem bons personagens e trama fraca

Nos anos 70 eram os filmes policiais, nos anos 80 as comédias adolescentes e os filmes de ação, na década de 90 comédias românticas e os filmes sobre a geração X. Agora, em plenos anos 00 o formato trivial de Hollywood para as massas volta a ser o “filme para a família”, graças a popularização da animação em computação gráfica, que começou na metade da década passada. Antes da Pixar entrar na brincadeira com “Toy Story”, os estúdios Disney monopolizavam o mercado e dividiam as possibilidades da animação num maniqueísmo bobo: filmes sérios (como “A Bela e a Fera”, que concorreu ao Oscar de melhor filme) e filmes infantis (como os fenômenos de locadora “A Pequena Sereia” e “Rei Leão”).

“O Bicho Vai Pegar” pertence exatamente a este cânone inaugurado pelo estúdio idealizado por Steve Jobs. Como “Toy Story” e praticamente todos os filmes em CGI que vieram depois dele, o longa de Roger Allers (o diretor de “Rei Leão”) e Jill Culton (o roteirista de “Monstros S/A”) também segue a mesma fórmula: contar uma história simples e com uma conclusão a respeito da tolerância com personagens bem-humorados que miram diferentes faixas etárias com textos e subtextos bem escolhidos e exuberância visual. E, como quase todos as animações depois de “Toy Story” (“Procurando Nemo” e “Os Incríveis” são as honrosas exceções), o filme mais bate na trave do que acerta no gol.

É a história de Boog, dublado originalmente pelo comediante Martin Lawrence, um enorme urso pardo que vive com sua dona em uma pequena cidade à beira de uma floresta daquelas canadenses. Até que um dia sua dona percebe que tem de devolvê-lo a seu habitat natural, mesmo colocando em risco a vida do animal - já que a temporada de caças começa em três dias. No meio do caminho, Boog encontra o cervo Elliot, dublado pelo ator Ashton Kutcher (o Kelso do “That 70's Show”), e os dois têm de encontrar o caminho da cidade antes dos caçadores chegarem à floresta.

E a história não caminha muito mais do que isso. Os personagens, por outro lado, são ótimos - e não só os protagonistas. Os melhores exemplos estão escondidos na floresta - castores engenheiros, um general esquilo, patos franceses, um casal de exploradores e seu cão basset, além do ótimo e caricato caçador Shaw, dublado de forma eficiente por Gary Sinise - chegam a ser melhores até que a dupla protagonista.

Mas, como os policiais dos anos 70, os filmes de galera e de porrada dos 80, os da Meg Ryan e da Wynona Ryder dos 90, “O Bicho Vai Pegar” tem destino e alvo certo, longe das telas do cinema. É na TV - provavelmente nos canais infantis pagos - que o filme pode chamar alguma atenção ou criar seu séquito de fãs. No escuro do cinema, é só uma desculpa pra não tão jovens casais passearem com os filhos e adolescentes farrearem com os amigos.

O BICHO VAI PEGAR
Direção: Roger Alles, Jill Culton e Anthony Stacchi
Produção: EUA, 2006
Quando: em cartaz nos cines Iguatemi Cinemark, Osasco Plaza e circuito

setembro 8, 2006

"My finger on your trigger"

Essa saiu na Folha de hoy:

Let me tell you how it will be...

A redescoberta de Revolver

Embora não tão incensado quanto discos mais emblemáticos como “Sgt. Pepper's” (marco-zero da psicodelia), “Rubber Soul” (manual de boas maneiras do britpop) e “Abbey Road” (o réquiem do grupo), o disco que os Beatles lançaram há 40 anos aos poucos tem seu papel redefinido na história do pop. Antessala da fase estúdio do grupo de Liverpool, “Revolver” é revisitado em duas obras online, que ajudam a traçar o espectro de abrangência do disco ao mesmo tempo em que jogam novas luzes sobre sua influência.

O primeiro deles é “Abracadabra - The Complete Story of the Beatles' Revolver”, escrito pelo funcionário do governo inglês Ray Newman nas horas vagas de seu trabalho oficial. “Escrevi isto por diversão”, conta no prefácio do livro. “Não escrevo sobre música profissionalmente nem sou um jornalista na área. A idéia surgiu depois de algumas perguntas que eu tinha sobre o disco que seus biógrafos sentem-se felizes em passar por cima. De onde Paul McCartney tirou a idéia de 'Eleanor Rigby'? Quem ensinou George Harrison a tocar cítara? E quem deu LSD para John Lennon pela primeira vez?”.

Após uma pesquisa detalhista e aprofundada sobre os meses que antecederam o lançamento do disco de 1966, Newman não esperou editora: diagramou seu livro e o colocou para download gratuito no site http://www.revolverbook.co.uk.

“As pessoas parecem saber tudo que existe sobre 'Sgt. Pepper's', que é meu segundo disco favorito dos Beatles, mas 'Revolver' ganha menos atenção no 'Anthology' (biografia oficial do grupo), por exemplo”, explica o escritor em entrevista, “eu amo este disco e não conseguia encontrar mais informações sobre ele, e era frustrante”.

“Comecei muito casualmente, tentando escrever um ensaio, mas comecei a descobrir questões o quanto mais pesquisava”, continua a explicação. “Minha grande dúvida era saber como quatro jovens que haviam composto 'Love Me Do' quatro anos antes criaram algo tão excitante, esquisito e cool como 'Revolver'”.

Ray divide os novos interesses dos três Beatles da frente em grupos respectivos: Lennon descobre o ácido lisérgico, Paul McCartney se aventura pela alta cultura e movimentos de vanguarda, George Harrison traz a música indiana. Cada um destes universos é compartilhado em grupo, com “Tomorrow Never Knows” sendo um exemplo emblemático do modus operandi beatle da época: a idéia de Lennon era fazer uma música em um único acorde como os músicos indianos que já estavam inseridos na cultura londrina desde o início dos anos 60. McCartney trouxe os efeitos sonoros e loops de fita magnético que causam a estranheza na paisagem da canção, e Ringo Starr criou a batida trôpega e hipnótica que dá a sensação de tontura da música.

Newman conta que a primeira cítara de George - a de “Norwegian Wood”, do disco anterior - era quase decorativa, que Paul havia pensado em usar osciladores de freqüência em vez de um quarteto cordas em “Yesterday” e que John havia se contentado em viver uma vida de casado longe da vida cultural londrina.

Ainda juntos
No processo de pesquisa, Newman ficou pasmo ao descobrir que “Revolver” foi, de fato, o último disco dos Beatles como um grupo. “Foi surpreendente descobrir o quanto Lennon, McCartney e Harrison compartilhavam idéias na época. Eu sempre havia imaginado, por preguiça, que 'Eleanor Rigby' era uma canção de Paul e 'Taxman' era de George mas, na verdade, Paul disse ter sido influenciado pelo interesse de George em música indiana quando compôs 'Eleanor' e 'Taxman' tem letras de Lennon e um solo de guitarra de Paul. Eles ainda eram um grupo na época. E eram amigos!”.

“Sem contar a pura história sensacionalista que é a primeira noite com LSD: coelhinhas da Playboy, tentativas de orgia, perseguições de carro!”, brinca o autor, que já estuda propostas para publicar o livro fora do mundo virtual - por enquanto, só na Inglaterra.

Produtor inglês recria o álbum faixa-a-faixa

Além de “Abracadabra”, outro lançamento online mostra a longevidade de “Revolver” - mas aqui a nostalgia e pesquisa são deixadas para trás. “Revolved”, uma homenagem feita pelo produtor inglês Chris Shaw, busca referências em diferentes épocas para olhar para frente.

O disco - que, como o livro de Newman, só existe na internet - é uma releitura faixa-a-faixa do disco de 1966 à luz da cultura mashup. De cara, a faixa de abertura “Taxman” perde seu baixo e bateria originais para serem substituídos pelo instrumental de “New Pollution” do americano Beck. Mais à frente “I'm Only Sleeping” funde-se com “Glory Box” do Portishead, “For No One” é assombrada por “Close to Me” do Cure e “Tomorrow Never Knows” ganha ares fantásticos com um tema de John Barry para um filme de James Bond. “Revolved” pode ser encontrado no endereço http://revolved.blogspot.com/

“Mashup” é uma enorme subcultura de produtores caseiros que começaram jogando vocais de hip hop e R&B sobre bases de bandas de novo rock - na época, há cerca de cinco anos, chamávamos isso de “bastard pop”. Mas a cultura atingiu um novo patamar quando o DJ Danger Mouse foi revelado para o mercado e público ao colidir o álbum branco dos Beatles com o Black Album do Jay Z. Ao subverter a estética “clássica” de ambos gêneros e ignorar os direitos autorais, o produtor criou uma pequena obra-prima moderna e seguiu para produzir um dos melhores discos do ano passado - “Demon Days”, do Gorillaz - e atinge brilho próprio ao associar-se com o MC Cee-lo no projeto Gnarls Barkley, uma das melhores coisas deste ano.

Assim, vários produtores iniciantes vêm usando desse subterfúgio para chamar atenção para seu trabalho, uns mais felizes que os outros. E só entre os álbuns clássicos, já desvirtuaram o “Pet Sounds” dos Beach Boys (duas vezes, “Bastard Pet Sounds” e “Hippocamp Ruins Pet Sounds”), o “London Calling” do Clash (que virou “London Booted”) ou o “Yoshimi” dos Flaming Lips (“Yoshimi Battles the Hip Hop Robots”). E, pelo andar da carruagem, é só o começo.

setembro 5, 2006

American way-of-life 2

Essa saiu da Folha de sábado.

Crítica cinema: 'A Casa Monstro' remete aos anos 80

Dá pra gastar linhas e linhas para falar de “Casa Monstro” e repetir-se na obviedade. Falar do processo de animação que mistura atuação com computação gráfica, encaixar o filme na linha do tempo desta nova era de ouro da animação, dos atores hollywoodianos que participaram do filme ou do filme ser produzido por Robert Zemmeckis (“Forrest Gump”) e Steven Spielberg. Mas, mais do que isso (tá no release e todo mundo vai falar disso…), o filme que estreou esta semana é um filme de época.

Uma época quase clássica, consolidada no imaginário de uma geração inteira, tão emblemática quanto a Swinging London da década de 60, o American Way of Life dos anos 50, os Roaring 20s americanos ou o Rio de Janeiro da fase clássica da bossa nova. Esta época acontece nos Estados Unidos durante os anos 80, quando o público adolescente invade o mercado de entretenimento como seu principal alvo e consumidor.

“Casa Monstro” é uma história de terror irracional e tradicionar, sem as tentativas de explicar o medo ou as táticas de choque de terror moderno. Aponta para Freddy Krueger e “A Hora do Espanto”, embora mire numa idade mais baixa. Nada de banhos de sangue ou sustos pesados – o ar do filme é leve como “Garotos Perdidos” ou “Goonies”.

E é nestes anos 80 que o filme é localizado. Aquele da porta com três janelas, aqueles coletes com uma letra grande no peito, bonés e crianças andando de BMX. “Super Vicky”, “ET”, “Alf”, “Picardias Estudantis”, “De Volta para o Futuro”, “Porky’s”, todos John Hughes clássicos (“Curtindo a Vida Adoidado”, “Clube dos Cinco”), “Caras e Caretas” – é este o universo de “Casa Monstro”, com “Pong” no videogame, a babysitter que vira gótica (ou seria melhor “dark”?) depois que os pais do garoto saem ou o retrato clássico da festa americana do Dia das Bruxas. Até no fato de Kathleen Turner – um ícone oitentista – dublar o monstro do título há esta referência.

Divertido e fluído, o filme conta a história de um velho que espanta a criançada que se aproxima de uma casa amaldiçoada. De um pressuposto simples, “Casa Monstro” embarca numa montanha russa de emoções light – a entrada na puberdade, o primeiro amor, o amor impossível – e acerta em cheio no clichê de “filme para a família”.

agosto 31, 2006

Bom como eu tenho sido contigo

Essa saiu na Folha de ontem, mesqueci de linkar.

Bob Dylan recria seus "tempos modernos"

Compositor lança seu 32º disco de estúdio e encerra trilogia iniciada em 97

Sonoridade de novo CD do compositor norte-americano oscila entre o country e o rhythm'n'blues e revisita legado do século 20

Nem sempre houveram cidades, carros, asfalto, publicidade, poluição, fábricas, multidões engarrafadas em rotinas vazias de sentido, crises permanentes, neuroses coletivas. É difícil lembrar que a paisagem que nos acostumamos era bem diferente nos últimos cem anos. A mudança que o século vinte proporcionou ao planeta criou um presente contínuo que faz com que nós esqueçamos de onde – a raça humana – viemos.

“Tempos Modernos”, resume Bob Dylan, 65, ao batizar seu 32º disco de estúdio com o mesmo título do clássico filme de Charles Chaplin, lançado em 1936, cinco anos antes do próprio Dylan nascer. O disco é o item de número 50 em sua discografia, entre discos ao vivo, coletâneas e reedições e é o terceiro capítulo de uma trilogia de obras-primas inaugurada com “Time Out of Mind” de 1997 e seguida de “Love & Theft”, cujo lançamento coincidiu exatamente com o dia em que aqueles aviões derrubaram o World Trade Center em Nova York. De propósito (e o que é sem querer em sua biografia?), Dylan se equivale a Chaplin na tentativa de resumir seu século de criação a partir de seu principal legado: a modernidade.

É ela quem arruma o mundo a partir das deformações demográficas criadas pela era industrial. É ela quem organiza o mundo a partir de uma estética prática, casual e confortável, e cria toda uma harmonia a partir do caos inicial. Como se pudesse voltar no tempo, Dylan recria a música contemporânea do meio do século como se fosse possível prever que, graças aos Beatles – que, uma década depois, absorveram a fragmentada música americana dos anos 40 e 50 como uma única manifestação cultural e a explodiu para o resto do planeta – , aquela seria a trilha sonora do século.

Não é exatamente rock’n’roll, pois na contemporaneidade de “Modern Times” (Columbia), o rock ainda não existe. Há apenas uma variedade de ritmos musicais, uns vindo da música country, outros do rhythm’n’blues, que fingem não se freqüentarem ou se parecerem, mas que, como veríamos mais tarde com os Beatles, e como Dylan nos apresenta em seu novo disco, é tudo farinha do mesmo saco.

Toda discografia de Dylan é uma grande tentativa de driblar o tempo, e de simultaneamente usar as próprias referências como molde para qualquer detalhe de seu futuro. Assim, começou calcado em Woody Guthrie, abraçou o rock, começou a cavocar suas origens musicais nas Basement Tapes, voltou-se para o country e daí para o gospel, o pop, o folk, o rhythm’n’blues e o rock de novo. Cercou a base de sua própria música e criou o cânone americano a partir de sua própria música – o próprio bardo americano.

Só que durante os anos 90, essa sua tentativa de contar o presente a partir de seu passado pessoal, esbarrou em alguns discos belos mas mal-resolvidos, como dois de versões de clássicos do início do século (“Good As I Been To You” e “World Gone Wrong”) e seu “MTV Unplugged”. Irregulares, eles pareciam indicar a velhice precoce de um geninho que parecia que nunca iria envelhecer.

Até que ele parou de regravar e voltou a compor, em 1997, ao iniciar este arco de três discos que é aparentemente encerra-se com “Modern Times”. De lá pra cá, retomou firme sua veia autobiógrafa e dispôs-se a contar tudo de novo: a caixa de CDs que trazia o melhor de sua pirataria (“Bootleg Series – Volumes 1-3”, de 1991) foi transformado em um projeto de resgate contínuo destas gravações não-oficiais (a série está no sétimo volume, hoje); Scorsese filmou sua primeira era de ouro (no longo e minucioso documentário “No Direction Home”) e escrevou o primeiro livro de sua autobiografia (“Crônicas – Volume 1”).

E agora, com “Modern Times”, volta a redesenhar seu século a partir de sua qualidade essencial. Para Dylan, modernidade não são publicitários baixando músicas do MySpace para remixar em comerciais de energéticos. “Moderno” foi o rádio, o arranha-céu, o chiclete, o cinema, o disco, o carro, o rock’n’roll, os Estados Unidos ou o táxi que rasga a capa. Hoje, o mundo supera cada um destes aspectos, reinventando o século vinte e um como negação do anterior. Para este, pede Dylan, arrume outro adjetivo, porque o “moderno” é seu.

Faixa a faixa

“Thunder on the Mountain”
Lento rock’n’roll clássico, que ecoa Chuck Berry, Carl Perkins e Jerry Lee Lewis. Dylan assume o piano e enfileira palavras como um pastor em plena missa. O eco da eletricidade seca preenche os vazios do instrumental minimalista, criando um som ao mesmo tempo oco e fantasmagórico, como os discos de Elvis Presley pela Sun Records. Essa sonoridade se repete por todo o álbum, por cortesia do produtor “Jack Frost”, um dos inúmeros pseudônimos do velho Bob.

“Spirit on the Water”
Jazzinho bluesy, a canção é uma baladinha de amor ponteada por uma guitarra econômica e precisa e percussão mínima. Dylan sussurra e anasala a voz ao mesmo tempo, quase querendo soar como um velho rádio.

“Rollin’ and Thumblin’”
Blues terminal, à moda de “If I Had Possession Over the Judgement Day” de Robert Johnson e de seus seguidores de Chicago, a faixa desce a ladeira quase bêbada, com cuidado para não desenvolver velocidade demais – e cair.

“When the Deal Goes Down”
Uma balada country, com slide guitar, arrastada e singela, que nem parece falar do tema que, junto com sexo, percorre o disco: a morte.

“Someday Baby”
Outro rock’n’roll revisitado, suas raízes country e rhythm’n’blues expostas sem vergonha, poderia ser lançada nos anos 40, 70 ou 90 que faria igualmente sentido.

“Working Man’s Blues #2”
A voz áspera faz a sombra pós-11 de setembro pesar na faixa mais política – não sem um toque de doçura – e mais folk do disco – não sem um toque de blues. É onde faz seus comentários mais específicos em todo “Modern Times” – critica o status quo americano, o sistema de classes, o capitalismo e outras invenções modernas. Dylan clássico.

“Beyond the Horizon”
“Além do horizonte, seja primavera ou verão”, canta quase saudoso, “o amor espera para sempre, para um e para todos”. Outra cândida balada folk, que canta o amor de forma quase juvenil.

“Nettie Moore”
Bumbo onipresente e solitário, ele atravessa a faixa marcando o tempo como se esperasse o Juízo Final. Sobre esta marcação, Bob murmura a canção mais árida do disco, único resquício de século dezenove no álbum.

“The Levee’s Gonna Break”
Rock’n’roll grave e mórbido, é um blues que ganha contornos urbanos e menos drásticos com a presença elétrica de duas guitarras insistentes. “Se continuar chovendo, o dique vai quebrar”, avisa, didático e apocalíptico, metafórico e literal.

“Ain’t Talkin’”
O clima que guitarras, piano e rabeca sintonizam no início da canção é tão parente da introdução de “Ballad of a Thin Man” quanto de Nick Cave e Tom Waits. quanto de Nick Cave e Tom Waits. Ritmo marcado por um pandeiro, a faixa cresce devagar, interminável, com o pesar de uma última faixa que parece um testamento.

agosto 27, 2006

Rebatido

Esse saiu nessa Ilustrada de domingo:

Filmes revivem geração beat entre o culto e a redundância

Houve um tempo em que qualquer informação adicional sobre qualquer ícone da cultura alternativa (de onde fosse: da contracultura clássica, do indie rock ou dos quadrinhos para adultos) era tratada como ouro puro, principalmente aqui no Brasil, quando quase sempre consumimos estes nomes em segunda mão. Antes da vinda da internet, imagens em movimento ou trechos de entrevistas de quem fosse já era suficiente para reunir fãs em audiências ritualescas.

Passado recente, este tempo já era. Hoje, arquivos digitalizados e conexões de banda larga garantem o rápido acesso a imagens corriqueiras de nomes consagrados – aparições na TV se espalham pelo YouTube, biografias entopem as bancas de revista, sites despecam aos milhões ao simples clique no Google. Por isso, o lançamento de dois DVDs perdem o seu impacto justamente por seu maior mérito ser a presença eletrônica da santíssima trindade da geração beat: Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs.

O pacote conta com a primeira aparição em DVD do filme “Chappaqua”, de Conrad Rooks (vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza de 1966), e com a dupla de documentários “Kerouac: O Rei dos Beats”, de John Antonelli, e “Burroughs: Poeta do Submundo”, de Klaus Maeck.

“Chappaqua” é um dos inúmeros exemplos do cinema experimental dos anos 60 que ficaram redundantes e presos ao passado com o advento do vídeo digital – literalmente, qualquer criança de hoje realiza filmes como os daquele período (ao menos, em termos técnicos). Por trás da obra, temos o empolgado Conrad Rooks que, filho de um alto executivo da Avon nos EUA, resolve usar o cinema como terapia e contar sua história para o mundo.

Sai-se exatamente na média, colidindo todos os clichês do cinema alternativo da época com delírios enfadonhos e “mutcholocos”. O perfil autobiográfico fala de seu próprio processo de desintoxicação de drogas numa clínica européia e mostra que Rooks estava em dia com a modernidade da época – daí a presença não apenas de Ginsberg (chato, como sempre) e Burroughs (genial, como sempre), como de Ornette Coleman, de Ravi Shankare do grupo Fugs.

Como cinema, “Chappaqua” é quase uma bad trip, fundindo experimentalismo barato com idéias pueris quase à maneira dos Beatles em seu “Magical Mystery Tour”. Mas, como o filme psicodélico dos Fab Four, o de Rooks funciona quase como um documentário de uma época em que não era preciso fazer muito sentido para ser aceito. Bons tempos, de fato.

Já os documentários martelam no prego e no dedo, cada um deles. O de Kerouac é correto e bem realizado, e começa e termina com sua clássica entrevista ao apresentador Steve Allen, quando foi apresentado ao público médio americano. Cuidadoso, John Antonelli entrevista pessoas diretamente envolvidas com o autor e traça um retrato didático do papel de Kerouac na literatura americana e no pop mundial.

Mas o de William Burroughs, por mais triste que possa parecer, é pífio. Gira em torno de uma leitura feita pelo autor em 1991 (acompanhada por urros constrangedores da platéia) e uma entrevista transbordando obviedade por parte do entrevistador, com clipes de “cut-ups” inspirados na técnica inventada por Burroughs.

Opta por ser não-linear e se perde no meio do caminho, com o entrevistador Jürgen Ploog mais interessado em ver o autor repetir suas máximas (“a linguagem é um vírus”, seus conselhos a jovens autores, sua fascinação com armas, seu exílio em Tânger) do que travar alguma tentativa de diálogo com o autor. Uma pena: mesmo com momentos de brilho proporcionado pelas leituras entusiasmadas feitas pelo velho Bill, o documentário não chega nem a cutucar a curiosidade dos leigos ou a fazer os iniciados suspirarem – no máximo, de tédio.

Engraçado é que, entre os extras do filme sobre Kerouac, há um trailer de um documentário sobre Burroughs que não é o filme dirigido por Klaus Maeck. Com abordagem similar ao de Antonelli, parece mais palatável e respeitoso. Afinal, um documentário não precisa ser genial – basta ser correto para já estar no lucro.

CHAPPAQUA: ALMAS ENTORPECIDAS
Distribuição: Magnus Opus (R$ 39)

KEROUAC: O REI DOS BEATS e BURROUGHS: POETA DO SUBMUNDO
Distribuição: Magnus Opus (R$ 78,50)

agosto 16, 2006

Lunático

Essa também saiu na Folha de hoje, mas pelo jeito, só na edição paulistana, porque não tá online. Enfim, segue...

Marcelinho Da Lua mostra seu set hoje no Studio SP

“É quase o final do ciclo”, explica o DJ carioca Marcelinho Da Lua, que discoteca hoje no noite Coleta Seletiva, do coletivo Instituto, no Studio SP. “Só não é o final ainda porque tem essa etapa que começa hoje”, continua. Ele fala do lançamento do terceiro clipe extraído de seu disco de estréia, “Tranqüilo”, lançado em 2004, e de seu próprio site oficial, o www.marcelinhodalua.net. Na verdade, mais uma desculpa para tocar na cidade com seu trabalho solo do que motivos para reaparecer com um show.

“Mesmo porque não é um show, é um set de DJ com um MC”, explica Da Lua, chamando a atenção para a presença do MC Ângelo, único integrante de sua banda a o acompanhar nesta vinda a São Paulo. “A idéia desta noite de quarta é fazer o meu set tradicional, com um pouco de jungle, um pouco de reggae, umas coisas latinas e outras brasileiras”.

Set que é responsável por manter o nome de Da Lua como um dos principais DJs do gênero na atividade: há quase oito anos, ele comanda, ao lado do DJ Yanay e do jornalista Calbuque, a noite Febre, dedicada ao jungle e drum’n’bass e que hoje acontece todas as quintas-feiras na Casa da Matriz, em Botafogo.

Da Lua também é integrante do trio Bossacucanova, que tempera a bossa nova clássica com pitadas digeríveis de música eletrônica, o que tem garantido mais apresentações no exterior do que no Brasil. “Estamos conseguindo equilibrar isso melhor”, continua o DJ, “porque realmente estávamos fazendo mais shows lá fora do que aqui. No ano passado, talvez um pouco antes, conseguimos chegar mais perto do nosso público daqui”.

Foi a conexão Bossacucanova que o aproximou do cantor e compositor Marcos Valle, ícone da MPB for export, com quem toca na quinta e na sexta-feira, em apresentações no Bourbon Street e no Tom Brasil. O show de quinta é apenas para convidados, mas o de sexta é aberto ao público, com ingressos que vão de R$ 30 a R$ 200.

“Conheço o Marcos desde 94 e ele é parceiro do Bossacucanova”, lembra o DJ, “chegamos até a compor juntos, na faixa ‘Queria’ do nosso último disco, além de tocarmos músicas dele”. Além de Da Lua, os shows de Marcos Valle contam com a participação da cantora Roberta Sá, do músico e compositor João Donato, do cantor Ed Motta e do músico Celso Fonseca. A curadoria deste show foi de Nelson Motta.

Mas voltando para a carreira solo de Da Lua, ele já fala em um segundo disco. “Mas comecei agora, vou lançar, se tudo der certo, depois do carnaval do ano que vem”, conta, explicando que já está pensando em parceiros para o CD, a exemplo do primeiro. “Vou repetir um pessoal, como a Mart’nália e o Black Alien, mas quero incluir o BNegão, o Fred Zeroquatro, os caras do Ultramen, o João Donato…”, enumera, “na verdade, o disco ainda tá muito no começo, por isso só pensei em duas coisas: ter mais brasileiros do que gringos como convidados e ter uma atmosfera setentona, aquela sonoridade entre 70 e 74, que é a época que eu mais curto em termos de som. Claro que há excessões, mas aquele som é demais”.

DJ Marcelinho Da Lua na noite “Seleta Coletiva” – Hoje, a partir das 23h, no Studio SP (R. Inácio Pereira da Rocha, 170, Vila Madalena, São Paulo. Tel: (11) 3817 5425). Ingressos: R$ 15,00 (com nome na lista, R$ 10,00 – lista@studiosp.org)

O Homem Duplo

Essa saiu na Folha de hoje...

De volta para o futuro

The two hemisphere in my brain... are competing?

Dirigido por Richard Linklater e com Keanu Reeves, "A Scanner Darkly" é baseado em um insólito conto de Philip K. Dick

Filme estreou no mês passado nos EUA; projeto de uma cinebiografia do escritor americano está em andamento, diz sua filha

O maior atentado terrorista que não aconteceu, uma facção criminosa seqüestra um jornalista para que se veicule em rede nacional um comunicado sobre direitos dos presidiários ou o lento genocídio no Líbano tratado como um assunto corriqueiro em capas de jornal. A realidade atual parece assombrada pelas projeções fatalistas dos livros de Philip K. Dick (1928-1982), cuja influência permanece cada vez mais presente.

E – tudo bem, exagero –também o fato de um filme do diretor de “A Escola do Rock” estrelado por Keanu Reeves, Wynona Ryder, Woody Harrison e Robert Downey Jr. ainda não ter previsão de estreiar nos cinemas brasileiros, cogitado até mesmo para partir direto para o DVD, sem projeções na tela grande.

Este parece ser o triste fim do inacreditável “A Scanner Darkly”, dirigido por Richard Linklater, que estreou no mês passado nos EUA, sem mover ponteiros consideráveis nas bilheterias mas ganhando altas notas da crítica. Baseado num dos livros mais insólitos do autor – “O Homem Duplo”, que só tem versão em português em Portugal – o filme é inteiramente feito usando a técnica da rotoscopia, em que atores são filmados e transformados em animação a partir de seus movimentos originais. Linklater já tinha usado esta técnica em seu pequeno clássico “Waking Life”, uma animação cabeçuda em que ponderava sobre o sentido da vida a partir de diálogos de pessoas diferentes em lugares diferentes.

“Nós nos envolvemos muito para trazer essa história para a tela”, explica Laura Leslie, 36, filha mais velha do escritor. “Eu e minha irmã Isa tivemos acesso ao roteiro original de Ric, mas antes de concordarmos em confiar a história para ele, sentimos que precisávamos conhecê-lo pessoalmente. Como o livro é muito autobiográfico, tínhamos que saber se a sua visão era fiel ao texto”.

“Ficamos muito satisfeitas com o filme”, continua Laura, responsável pelo espólio do escritor. “Isa expressa isso ainda melhor quando ela diz que o livro foi escrito como uma carta de amor do nosso pai aos seus amigos que se perderam com o uso de drogas. Ric o adaptou lindamente. Ele também captou o humor maravilhoso entre os personagens principais no começo do livro”. Este humor é valorizado pelos diálogos entre os personagens de Robert e Woody, que se empolgam em diálogos chapados sobre assuntos diferentes, atores que têm seu próprio envolvimento com drogas – o primeiro foi para a cadeia graças a drogas pesadas, o segundo é um conhecido ativista pró-maconha.

“Scanner Darkly” se passa num futuro bem próximo (daqui a sete anos), quando o governo monitora as ações de todos os cidadãos e usa a dependência em drogas pesadas – em especial, a “substância D”, droga futurista em cápsulas que permeia todo o filme. No meio de tudo isso, temos o personagem de Keanu Reeves – um policial viciado que é posto para vigiar seus próprios amigos – revivendo seu Neo de “Matrix”, trilogia que, apesar de não citar, vinha coberta de referências à obra de Philip K. Dick.

Mas o Neo de K. Dick não sabe se ele é Neo ou Thomas Anderson, não tem certeza de qual realidade em que ele realmente vive (é um amoroso pai de família, um drogado ou um policial?) e mantém uma constante guerra entre os hemisférios direito e esquerdo de seu cérebro.

Pelo filme, alguns dos temas favoritos do escritor, como a fragilidade ao determinarmos o que é real, o estado-policial que controla tudo, o tráfico de drogas como justificativa para a paranóia generalizada, tanto individual quanto institucional. Itens de ficção científica que K. Dick usava para divagar sobre a natureza da existência e da realidade, o propósito da vida, o sentido de tudo. Filosofava fingindo escrever histórias futuristas.

“Certamente há muitos aspectos da vida atual que ele já estava preocupado e escreveu sobre isso no começo dos anos 50”, continua Laura. “O que ele pensou que era paranóia naquela época infelizmente se tornou rotineiro hoje em dia. Eu poderia listar dez coisas que apareceram em seus livros que agora são comuns, como homens-bomba, no conto “Impostor”; a internet, num livro inédito chamado “The Acts of Paul”; espionagem doméstica, que era um tema comum em vários livros, entre outros…”

Além de “A Scanner Darkly”, que deve sair em DVD nos EUA no final deste ano, outros projetos retomam cada vez mais o nome de K. Dick. Além de dois livros saindo no Brasil (“O Homem do Castelo Alto” e “Valis”, veja ao lado), ainda está sendo produzido o filme “Next”, baseado no conto “Golden Man”, com Nicholas Cage, Jessica Biel e Julianne Moore. Adaptado para o cinema pela primeira vez no ano de sua morte (“Blade Runner”), a obra de K. Dick cada vez rende mais adaptações para o cinema, como as recentes “Minority Report” e “O Pagamento”.

“Minha esperança é que estas adaptações façam com que as pessoas descubram o trabalho do meu pai e venham conhecê-lo em livro”, continua Laura; “Encontrei muitas pessoas que falaram para mim que foram apresentadas à obra de Philip K. Dick graças a ‘Blade Runner’”. Ela e a irmã Isa acabaram de constituir a empresa Electric Shepherd (Rebanho Elétrico, em referência ao título original do livro que originou o filme “Blade Runner” que, em inglês, perguntava se os andróides sonham com ovelhas elétricas), dedicada a supervisionar adaptações dos livros de PKD – mas elas não adiantam os títulos com os quais estão trabalhando.

Mas Laura comenta a anunciada cinebio sobre seu pai, com Bill Pullman vivendo o escritor. “Não estamos envolvidas com este projeto, nem ninguém que conheceu ou escreveu sobre o meu pai. Tememos que esta biografia possa focalizar apenas nos componentes sensacionalistas da sua vida”, lamenta.

“Isso fez com que concluíssemos que nós devemos ser a força-motriz por trás de um filme mais compreensivo sobre o nosso pai. Desde o ano passado, estamos trabalhando em uma cinebiografia de nosso pai com cuidade e de forma seletiva, trabalhando com pessoas em Hollywood que reconhecem o trabalho dele e em quem podemos confiar para lidar com as complexidades de sua vida. Acreditamos termos encontrado parceiros sensíveis e cuidadosos em Paul Giamatti (de “Anti-Herói Americano” e “Sideways”) e a na Anonymous Content (produtora de filmes como “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” e “Quero Ser John Malkovitch”)”, revela.

"O Homem do Castelo Alto" e "Valis" chegam às livrarias até o final do ano

Se o filme não chega ao Brasil, o mesmo não pode se dizer sobre os livros. A editora Aleph, responsável pelo relançamento no Brasil de clássicos da ficção científica como “Neuromancer” de William Gibson e “Laranja Mecânica” de Anthony Burguess, lança dois livros de K. Dick ainda este semestre.

O primeiro deles chega às livrarias no começo de setembro e é uma de suas obras-primas. “O Homem do Castelo Alto”, publicado em 1962, se passa no começo dos anos 60 em um mundo em que o Eixo ganhou a Segunda Guerra Mundial e dividiu os Estados Unidos em duas metades: a Costa Leste ficou com a Alemanha e a Costa Oeste com o Japão. Outras conseqüências da vitória nazista garantem o extermínio dos povos africanos, a transformação do Mediterrâneo em lavoura e a colonização espacial.

Mas a maior parte da ação acontece na Los Angeles orientalizada, em que um oficial do exército japonês e um judeu fugitivo têm seus caminhos estranhamente cruzados à medida em que um é fascinado pela memorabilia americana da primeira metade do século e o outro é um falsificador destes itens. Acrescente à história um misterioso escritor – o personagem do título – que lançou um livro clandestino em que fala de um mundo em que os Aliados venceram a Guerra e um matador de aluguel posto em seu encalço, discussões sobre autenticidade e cópia e personagens guiados pelo I-Ching (como era o próprio autor durante a escrita do livro) e, voilá, um clássico.

“Valis”, o segundo livro de K. Dick a chegar nas livrarias este ano, não é propriamente ficção. O livro foi escrito após um surto esquizofrênico (ou uma revelação divina, ele mesmo nunca soube responder) que aconteceu com o escritor no meio dos anos 70, quando ele passou dois meses achando que habitava duas épocas diferentes ao mesmo tempo e parecia ter descoberto o sentido da vida.

Escritor da geração seguinte à época de ouro da ficção científica (de nomes como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov), K. Dick escrevia constantemente e fazia livros para pagar as contas, se submetendo a sessões de escrita que duravam dias e eram abastecidas com comprimidos e bolas para não dormir. Aliado ao fato de ter perdido a irmã gêmea no parto e a casos de esquizofrenia na família, o consumo de drogas o isolou e o tornou paranóico, levando, em última instância, à visão que teve na década de 70.

“Valis” (1978) é um calhamaço que funciona, ao mesmo tempo, como tentativa de explicar o que aconteceu naquele período e de exorcizar fantasmas que o acompanhavam desde então. O livro nunca foi publicado no Brasil, ao contrário de “Castelo Alto”, que foi publicado nos anos 60, mas está fora de catálogo.

Philip K. Dick no cinema
Cinco filmes baseados na obra do autor

“Blade Runner” (1982), de Riddley Scott, com Harrison Ford e Rutger Hauer.
Um exercício de estilo fantasiado de divagação sobre a existência, “Blade Runner” não apenas extinguiu o futuro clean de “2001” como inventou o cyberpunk, como estética.

“O Vingador do Futuro” (1990), de Paul Verhoeven, com Arnold Schwarzegger e Sharon Stone.
Douglas Quaid é um pai de família que sonha em ser um agente secreto salvando Marte da destruição ou é um agente secreto que apagou a própria memória para ser apenas um pai de família?

“Minority Report” (2002), de Steven Spielberg, com Tom Cruise e Max Von Sydow.
E se um policial, cuja missão é prender antecipamente assassinos antes de eles cometerem um crime, cometer um crime? Quem o prende?

“O Pagamento” (2003), de John Woo, com Ben Affleck e Uma Thurman.
Michael Jennings é um engenheiro que desmonta lançamentos da concorrência e os remonta para seu chefe – mas para isso, ele sempre deleta o que fez, para não vender para ninguém. Até que um dia, ele começa a ser perseguido – sem saber porquê.

“A Scanner Darkly” (2006), de Richard Linklater, com Keanu Reeves e Wynona Ryder.
Uma fantasia que se camufla com partes de 4 mil pessoas diferentes (só assistindo!), insetos imaginários, realidades paralelas, drogas sintéticas e um final lindamente phildickeano, com monólogo mea culpa e a poesia da resistência. Espetacular – e isso sem contar o visual.

julho 30, 2006

Milosevic Garage

Essa também saiu na Folha de hoje, no Mais!. Vale ir atrás, o livrinho é istaile...

Ondas rebeldes

"Rádio Guerrilha" narra a Guerra da Bósnia a partir das emissões de uma emissora alternativa

Era 1992 e o tempo fechava sobre a ex-Iugoslávia. Com seu comandante eleito, o ex-comunista Slobodan Milosevic a atiçar velhas rixas étnicas em nome do renascimento quase sagrado de uma Sérvia ancestral, um lento e doloroso Vietnã começava a ser desenhado no mapa do Leste Europeu, recém-ingresso no mundo capitalista após a falência do sistema soviético.

Na contramão dos países que antes formavam a Cortina de Ferro, o antigo império dos Balcãs entrava em uma ditadura arcaica, que fingia não interferir no nacionalismo extremo e no genocídio desenfreado, quando, na verdade, era seu principal incentivador. E sob aquele clima de paranóia, perseguição e proibição que acompanha qualquer guerra, uma pequena rádio jovem resistia bravamente à programação de mídia estatal e à agenda de Milosevic, intercalando relatos e depoimentos da linha de frente do campo de batalha com doses cavalares de Clash, Pixies, Public Enemy e Sonic Youth.

Versão chapa-branca
Até que, um dia, seus ouvintes se deparam com outra rádio, embora atuando sob o mesmo nome. Fora o pop barulhento vindo do exterior e o dedo na ferida de seu noticiário; em seu lugar, canções tradicionais e hinos militaristas se alternavam com versões chapa-branca para os acontecimentos no país.

A conclusão dos ouvintes foi inevitável: censuraram a rádio. E eles passaram a ligar para a emissora, quando eram atendidos por uma telefonista igualmente correta, que apenas dizia que a rádio era a mesma, mas havia mudado um pouco.

Depois de quase um dia inteiro de reclamações, o diretor da rádio, o jornalista Veran Matic, baixou a guarda e revelou que tudo não passava de uma brincadeira baseada nos rumores de que a rádio seria fechada.

Foco de resistência
Voltou a tocar, no dia seguinte, sua programação normal, incluindo os telefonemas dos ouvintes indignados com a mudança editorial de mentira. Só uma coisa mudou: seu slogan passou a ser "não confie em ninguém, nem na gente".

Esse é um dos inúmeros "causos" reunidos no livro "Rádio Guerrilha - Rock e Resistência em Belgrado", do inglês Matthew Collin, que conta a história da emissora B92 -depois, B2-92-, uma brincadeira de estudantes de comunicação que se tornou um dos principais focos de resistência política quando o horror da guerra assolou a velha Iugoslávia.

A rádio foi criada em 1989 como uma espécie de paródia às comemorações do aniversário do antigo líder comunista Tito, morto em 1980, para ter apenas duas semanas de existência. Mas a brincadeira deu gosto e logo a rádio continuaria com duas frentes que se bicavam: a do jornalismo independente e a da rádio rock. A fonte de atrito vinha do jornalismo da emissora, que achava que a rádio tinha uma programação musical extrema, que repelia ouvintes em potencial.

Mas prevaleceu a visão de Veran Matic, estudante de literatura que abandonou a vida acadêmica para dedicar-se ao jornalismo na prática. Ele acabou como uma das principais vozes do programa de rádio dos anos 80 "Ritam Scra", que, ao lado do núcleo de jornalismo Index 202, tornou-se a base da B92.

Com pouco mais de 30 anos, boêmio e afeito ao amadorismo radiofônico por definição, Matic era um crítico de música respeitado que aos poucos se tornou um dos principais líderes de uma geração esmagada pela guerra -embora rejeitasse sempre esse papel.

Conglomerado de mídia
Cabeça da emissora, ele foi o responsável por mantê-la sempre à frente de sua época -tanto de seus detratores quanto de seus fãs- e por transformá-la num pequeno conglomerado de mídia alternativa, com editora, gravadora, emissora de TV e centro cultural.

Era um dos homens de mídia mais respeitados dos Bálcãs, a despeito das tentativas de interromper suas atividades. Ao acompanhar a saga da rádio, Collin, autor do ótimo "Altered State - The Story of Ecstasy Culture and Acid House" (Estado Alterado - A História da Cultura do Ecstasy e da Acid House), aproveita para contar a Guerra da Bósnia de uma forma simples e enxuta, ao mesmo tempo em que descreve a degradação e queda de Belgrado como amostra do que a guerra pode fazer a um país.

Mas tudo isso com um texto leve e bem-humorado -por vezes cínico- que equilibra tão bem as melhores qualidades da rádio: relatos pop disfarçados de jornalismo e jornalismo disfarçado de relato pop.

RÁDIO GUERRILHA - ROCK E RESISTÊNCIA EM BELGRADO
Autor: Matthew Collin
Tradução: Marcelo Orozco
Editora: Barracuda (tel. 0/xx/11/3237-3269)
Quanto: R$ 44 (336 págs.)

Sunday Wonderland

Alice às 13h de um domingo frio como esse me parece um ótimo programa, que acham? Mas se você acordou tarde (normal, ó o frio), vê se pega o Terkel, que é engraçadaço. Essa saiu na Folha de hoje.

Exibição de clássicos Disney encerra festival Anima Mundi

"Você Já Foi à Bahia?", de 1945, é um dos destaques de hoje no Memorial

O último dia do Anima Mundi 2006 será encerrado com a exibição de dois clássicos dos estúdios Disney: “Você Já Foi à Bahia”, de 1945, e “Alice no País das Maravilhas”, de 1951. Os dois filmes são uma amostra do trabalho da animadora Mary Blair, tema das palestras de um dos convidados internacionais do festival, o vencedor do Oscar John Canemaker.

Preferida de Walt Disney, Blair diferia do estilo hiper-realista do estúdio na época, que era influenciado pelo americano Norman Rockwell e pelas ilustrações européias para contos de fada. Ela usava uma paleta de cores quase surreal, de cores vivas e intensas, que são melhor demonstradas em “Você Já Foi à Bahia”, que apresentou o papagaio brasileiro Zé Carioca ao grande público, na adaptação do clássico de Lewis Carroll, além de “Cinderela”, de 1950, e “Peter Pan”, de 1953, e curtas .

Além dos dois filmes da Disney, o festival ainda tem outros dois longas como atrações de seu último dia: o brasileiro “Brichos”, de Paulo Munhoz e Tadao Miaqui, e o hilário musical politicamente incorreto “Terkel in Trouble”, dirigido pelos dinamarqueses Stefan Fjeldmark, Kresten Vestbjerg Andersen e Thorbjørn Christoffersen.

Hoje também acontecem as últimas sessões das mostras de alguns dos convidados desta edição do Anima Mundi, como a produtora brasileira TV Pingüim, os animadores britânicos MacKinnon and Saunders, do israelense Gil Alkabetz e do norte-americano John Canemaker, vencedor do Oscar de animação deste ano.

Anima Mundi, último dia

Alice no País das Maravilhas – Às 13h, na Sala II
Você Já Foi a Bahia – Às 15h, na Sala II
Mostra TV Pingüim – Às 15h, na Sala III
Brichos – Às 16h, na Sala I
Terkel in Trouble – Às 18h, na Sala I
Mostra MacKinnon and Saunders – Às 19h, na Sala II
Mostra Gil Alkabetz – Às 21h, na Sala II
Mostra John Canemaker – Às 22h, na Sala III

Anima Mundi 2006 – Último dia do festival, que acontece no Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade 664. Barra Funda. (11) 3823-4600). Ingressos a R$ 6,00 (Salas I e II) e R$ 3,00 (Sala III).

julho 28, 2006

O bom e velho rock'n'roll

Essas saíram na Ilustrada de hoje.

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Angeli sem crise

"Wood & Stock", filme com seus personagens, é atração no festival Anima Mundi

Angeli talvez seja um dos pais do rock brasileiro. Tudo bem que Roberto Carlos, Rita Lee e Raul Seixas vieram antes, mas para uma geração crescida sob a sombra da ditadura militar - quando ou você cantava as canções de exaltação à pátria ou cantava as canções da resistência, e se ouvisse música estrangeira era tachado de alienado político - foi o cartunista paulistano, que completa 50 anos no próximo dia 31 de agosto, quem melhor traduziu o que era o rock para um país submerso na MPB.

Com os personagens criados nas páginas da extinta revista “Chiclete com Banana”, que editava por conta própria nos anos 80, ele foi criando personagens para traduzir a fauna revelada com a queda da ditadura. Enquanto a Blitz e o rock carioca revelava o prazer de ser jovem depois da abertura política, Angeli descortinava uma São Paulo pós-industrial cheia de defeitos de fabricação em forma de gente. O punk Bob Cuspe, a gótica boêmia Rê Bordosa, o paranormal Rampal e o gay Nanico. Cada figura urbana criada pelo desenhista também encerrava uma tribo quase sempre ligada a um gênero musical, a uma série de hábitos desenhados pela própria história do rock. Sequer precisava citar preferências musicais para saber que o Meiaoito é viúva da MPB e que os Skrotinhos ouvem new wave.

Duas de suas criações saem das páginas do jornal para ganhar outros rumos. A dupla de velhos hippies Wood e Stock estrelam o primeiro longa baseado na obra de Angeli, que será exibido amanhã no Anima Mundi. “Wood & Stock - Sexo, Orégano e Rock'n'Roll”, do gaúcho Otto Guerra, reúne não apenas o núcleo bicho-grilo do título (a esposa Lady Jane, o filho Overall), mas quase todos os personagens criados pelo paulistano.

O outro lançamento são os livros que compilam as histórias do pré-adolescente Ozzy, filho da geração Nirvana que era publicado pela Folhinha durante os anos 90. São quatro volumes ao todo, dois deles saem agora e os outros dois em novembro.

Qual foi o seu envolvimento com o filme “Wood & Stock”?
Bom, eu cedi todo o meu material desde, hm, 84 para o Otto fazer o que quisesse, como referência gráfica e de roteiro. E fiquei meio como consultor. Detalhes, coisas do personagem que eu conheço porque eu os criei: tem uma cena em que o Wood, o Stock e a Rê Bordosa tomam um treco, piram e saem às gargalhadas. Epa: a Rê Bordosa não dá gargalhada. Detalhes assim, mas não interferi tanto. Eles me mandavam trechos e eu via.
Mas eu sou jornalista, eu trabalho num dia e no dia seguinte tá no jornal – e agora, com internet, tá na rua em cinco minutos. Então esse ritmo de cinema pra mim é muito moroso, muito lento, aí chegava algo pra mim, um trecho, e eu lembrava que o filme estava sendo feito (risos).
Depositei toda minha confiança no Otto porque ele é um cara como eu, da minha geração, a gente ouviu as mesmas coisas, tomamos as mesmas coisas, eu conhecia o trabalho dele e foi uma boa. Se eu fizesse o filme, ele seria completamente diferente, porque eu sou virginiano meticuloso e fico completamente obcecado com detalhes. Mesmo no filme pronto, reparo que o dedo mindinho do personagem tá uma nesga fora do lugar que deveria ser o certo. Mas eu já vi o filme umas cinco vezes e sei que é coisa minha, ninguém percebe.

O filme tem o andamento que você imaginava para os personagens?
Sim, acho que ele conseguiu pegar o ritmo dos hippies velhos, lentos, cansados…

É uma boa adaptação de uma história em quadrinhos para a animação?
Eu acho, me senti confortável com ele.

Você já havia cedido personagens para animação em um comercial de cerveja…
Sim, os Skrotinhos. E também usei o Moska, que é um coadjuvante do Luke & Tantra, para umas vinhetas curtas para o Cartoon Network. O trabalho do animador, Daniel Messias, foi muito bom. Já o comercial de cerveja eu tive que bater o pé em uma série de aspectos – era uma empresa (risos) – para fazer do jeito que eu quis. Neste, eu fiz os desenhos e os animadores do comercial, muito bons também, deram movimento. Gostei das duas, têm uma animação fluente, e os Skrotinhos tinham as vozes perfeitas, feitas pelo José Rubens Chachá, que eu recomendei…

E as vozes do longa?
Gostei . A primeira versão da voz do Stock era ainda mais paulistana – “orra, meo” – e eu gostava mais, mas preferiram deixar mais brando, pro filme ficar sem um sotaque específico. E a Rita Lee é perfeita, ela mesmo fala que as tiras da Rê Bordosa são a biografia não-autorizada dela (risos).

Você não acha que a relação em comum entre seus personagens, sejam os velhos Wood e Stock ou o garoto Ozzy, é o fato de eles representarem uma determinada tribo urbana quase sempre ligada ao rock’n’roll?
Com certeza. Mesmo no meu trabalho com charge, eu tenho essa pegada rock, essa pegada punk.

Você também tem consciência de que você apresentou a história do rock para pelo menos duas gerações…
Tenho. Sempre tive. Desde a época da Chiclete com Banana (revista que Angeli editava nos anos 80), eu sabia desse aspecto didático. Mas eu nunca me preocupei com isso. Eu nem acompanho quadrinho, quase nem sou desse ramo (risos). Minha literatura é toda de crítica de comportamento e uma visão política sobre o ser humano, que é muito pouco quadrinho… Talvez o Wolinski, que tem essa coisa de se colocar como personagem, para emitir opiniões.
Mas a Chiclete tinha uma linha editorial séria e eu não queria aviltá-la. Percebia cada vez mais o discurso da revista e chamava colaboradores que tivessem a ver com ele. Eu recebia cartas de pessoas que tinham montado banda porque liam a Chiclete, me mandavam discos independentes. Mesmo cartunistas