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maio 12, 2007

O Papa do Pancadão

Duas com o Marlboro.

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22 de janeiro de 2003

Electro é funk de butique, diz DJ Marlboro

"É muita hipocrisia", desabafa o lendário DJ Marlboro. Pai do funk carioca, Fernando Luís Mattos da Matta, 39, se refere ao sucesso da passagem da DJ e cantora francesa Miss Kittin pelo Brasil. "Aconteceu o mesmo com a lambada, que teve de ser sucesso lá fora para ser reconhecida por aqui. Quem sabe o funk não tem a mesma trajetória?"
Passado, o gênero já tem. Criado em 1989, começou como os muitos filhotes da disco (hip hop, dancehall, house, tecno), em torno do quatro por quatro eletrônico e gritalhão executado pela dupla MC e DJ, que, no Rio de Janeiro, ganharam ares manhosos e gaiatos, típicos do comportamento da metrópole praiana.

Desde então o funk carioca não pára de se espalhar e ganhar território. Dos populares bailões ao "Planeta Xuxa", passando pelos gráficos e viscerais Proibidões até o estouro de Kelly Key, suas dimensões apenas aumentam. Miss Kittin, sob esta lógica, é apenas mais um passo do gênero: "Esse funk disfarçado, de butique -com as mesmas batidas quebradas e os mesmos BPM do funk- é apenas uma maneira que alguns DJs encontram para dizer que não tocam funk".

Aproveitando vácuos artísticos para mostrar sua cara, o funk carioca nasceu do fascínio de Marlboro por um brinquedo novo: a bateria eletrônica. E a história desta descoberta entra para os autos da psicologia popular ao lado de "Yesterday", dos Beatles, e "Satisfaction", dos Rolling Stones, como músicas compostas durante o sono. O DJ conta que a primeira vez que viu o instrumento foi nas mãos do antropólogo Hermano Vianna. "Mas ninguém sabia mexer", conta, lembrando do entusiasmo que mal o deixou dormir naquele dia.

"No sonho, aprendi a mexer e programei", diz. "No dia seguinte, liguei para ele logo de manhã e pedi para apertar os botões do jeito que eu havia sonhado e deu certo. Aí ele me deu a bateria. Foi um dos melhores presentes que eu ganhei na minha vida, pois como disseram, "é como se fosse dado um rifle a um chefe indígena"."

Lançando a coletânea "As Melhores do DJ Marlboro", o DJ se coloca como papa da eletrônica: "O funk é eletrônico antes de existir essa denominação. Quem define o que é eletrônico e o que não é?", briga, enfatizando o papel do DJ no mercado. "É ele quem descobre, produz e executa, todo o esquema da indústria fonográfica completo numa só pessoa."

Montado em seu próprio império (a produtora Big Mix), Marlboro é orgulhoso de seus números: "Entre CDs próprios, artistas que lancei, coletâneas internacionais e remixes produzidos, pode colocar que eu lancei mais de 200 CDs. Isso em vendas ultrapassa a marca de 4 milhões de discos, certamente". Toca em três festas, além de passar por outras 12 ("dou uma passadinha e sorteio uns brindes"), agitando o que estima ser uma pequena multidão de 12 mil pessoas por fim de semana. Fora uma coluna semanal no jornal "O Dia", um portal na internet (www.bigmix.com.br), os 350 mil ouvintes por minuto em seu programa de rádio e a segunda audiência da TV Bandeirantes carioca.

Mesmo assim, Marlboro acha que o funk carioca ainda não se estabeleceu.
"Acho que só seremos realmente reconhecidos quando resolverem fazer um funkódromo, quando as escolas fizerem concursos de funk para incentivar a garotada a escrever e expor suas idéias. Quando o funk for visto como instrumento de pesquisa para a sociedade descobrir o que essa galera pensa e a partir daí criar oportunidade e perspectiva de vida aos jovens, que sempre manifestaram essas reivindicações por meio da música -como um dia foi a MPB, a bossa nova, a jovem guarda e a tropicália. Hoje é o funk."

AS MELHORES DO DJ MARLBORO
Artista: DJ Marlboro
Gravadora: BMG
Quanto: R$ 18, em média

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5 de junho de 2004

DJ Marlboro conduz o funk carioca à Europa

DJ Marlboro entra em seu escritório no bairro Lins de Vasconcelos, nas redondezas do Méier, zona norte do Rio, e a primeira coisa que faz é correr em direção à sala onde está seu computador para baixar mais de 800 e-mails --em 15 contas de correio eletrônico diferentes. "É que ontem não deu tempo para baixar", desculpa-se, sem tirar os olhos do monitor, alternando do programa de e-mail para o de navegação da internet, no qual responde mensagens em um de seus quatro fotologs que atualiza pessoalmente.

Patrono do gênero popularmente conhecido como funk carioca, Marlboro é um dos principais DJs do Brasil e seu talento finalmente ganha reconhecimento internacional, mesmo ainda sendo tratado com o desprezo típico que o brasileiro médio dedica a artistas que se comunicam com classes sociais mais baixas. O DJ carioca é uma das atrações do festival SónarClub, que aconteceria ontem no clube Ocean, em Londres. O evento é uma versão de bolso do festival espanhol Sónar, cuja edição 2004 começa no próximo dia 17, em Barcelona, onde DJ carioca também bate cartão.

Ele ainda volta ao Brasil antes de retornar à Europa para a apresentação no Sónar, quando, ao lado do coletivo Instituto e do DJ Nego Moçambique, compõe o painel Eletronika Brazil, no espaço SónarPub. Após os brasileiros, o mesmo palco recebe nomes como a dupla belga 2 Many DJ's e o coletivo garage So Solid Crew.

E Barcelona é só o ponto de partida de sua primeira turnê européia, que ainda conta com datas em Paris (dias 22 e 23), Londres (dia 24), Liubliana (capital da Eslovênia, dia 25) e Zagreb (capital da Croácia, dia 26). A moral de Marlboro, principal porta-voz do funk carioca, ainda cresce com o lançamento de quatro coletâneas de suas produções na Europa.

Mas ele ainda é o mesmo sujeito que, há 24 anos, atravessava todo o Rio de Janeiro a pé ou de bicicleta, carregando os vinis na mochila, para discotecar. A humildade do DJ é estranhamente proporcional ao nível de controle que ele exerce em todo o império de entretenimento que criou, o Big Mix, cujo slogan ("É Big Mix, ô mané!") é reverberado por milhares de cariocas diariamente, seja em intervenções de ouvintes em seu programa de rádio diário ou em adesivos espalhados por todos os lados da cidade maravilhosa.

É ele mesmo quem tira as fotos em todos os bailes que toca (mais de 20 por fim de semana) e descarrega em seus fotologs (como o www.fotolog.net/bailefunk). Ele ainda supervisiona todos os mixes feitos por sua equipe, responde pessoalmente aos e-mails e às mensagens que são enviadas via ICQ, discute com detratores do funk e dirige o próprio carro todo o dia rumo à rádio, no centro.

Viciado em trabalho, ele não pára um minuto e está constantemente ao celular, alternando papos com velhos amigos e conversas sobre promoção de eventos. Vê-lo revezar entre a locução ao vivo do programa "Big Mix" e o papo com o MC Serginho (o da "Égüinha Pocotó") ao telefone é desesperador e inspirador --ao mesmo tempo em que parece que vai se atrapalhar e pôr tudo a perder, pode-se perceber o senso de ritmo e a presença de espírito que o tornam um grande DJ.

"O negócio é fazer o povo dançar. Não tem dessas de Billboard, de ver na revista de moda a música que tá tocando lá fora...", explica. "Se o pessoal dançou, deixa; se não, joga fora. Não importa se é sucesso no exterior."

Sentado em seu estúdio, teoriza sobre a fagocitagem do funk carioca em relação aos outros gêneros de música, comparando com a mestiçagem e mistura de culturas característica do Brasil: "O funk absorve tudo, seja folclore brasileiro ou música gringa. É o gênero com menos preconceito em relação aos outros gêneros e, talvez por isso mesmo, seja o que mais preconceito sofre", explica. "E, se você for ver bem, é a mesma coisa do Brasil, que também absorve tudo e sofre preconceitos por não ter preconceito."

"Mas eu queria mesmo era ouvir o funk com os ouvidos do gringo", lamenta, lembrando das excursões recentes que fez aos EUA --desde que se apresentou pela primeira vez em Nova York, em junho do ano passado, ele já voltou outras duas vezes ao país.

"Não sei inglês até hoje e gosto de música em inglês independentemente do que ela diz, sem saber do que ela está falando. Não sei se o estrangeiro também ouve assim, então vou tentando, devagar, colocando alguma coisa instrumental, outras músicas mais silábicas, umas com uns baixões..."

Assistindo lentamente ao crescimento do gênero no exterior (ele interrompe a entrevista várias vezes para falar de reportagem do "Fantástico" sobre o estouro do funk na Grécia ou de um amigo que avisou que ouviu funks em um clube em Portugal), Marlboro orgulha-se de colher em vida os frutos que semeou: "Eu achava que só iam me reconhecer quando eu estivesse velhinho, quando você não pode fazer mais nada, e aí vem o pessoal e homenageia, como aconteceu com o Cartola".

8 Bit

Vou despejar uma seqüência de matérias velhas que publiquei na Folha, quando colaborava lá.

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10 de março de 2004

Documentário lançado nos EUA relata ascensão e declínio da Atari

"TUM! TUM! TUM!" Vez ou outra, um ruído bate-estaca tomava conta do escritório da Atari, no vale do Silício, na Califórnia. Os visitantes estranhavam o barulho, mas os funcionários da empresa não ligavam: era apenas o programador Tod Frye, um dos pais de "PacMan", andando pelas paredes (!!). Essa é apenas uma das histórias bizarras que um dos protagonistas da era de ouro da companhia, o programador Howard Scott Warshaw, reuniu no DVD "Once Upon Atari", que acaba de ser lançado nos EUA e pode ser comprado através do site www.onceuponatari.com.

"Depois de ter passado por aquilo, eu sabia que algum dia essa história tinha de ser contada", lembra o designer de jogos vertido em documentarista. Warshaw reuniu amigos programadores numa sessão de memória para resgatar os dias de glória da empresa, que fez os jogos eletrônicos se tornarem populares e viáveis no mercado --além de entrar para a história como fenômeno cultural. "Eu esperei até quando pensei ser tarde demais para ser processado", brinca o diretor, que deu início às gravações em 1999.

Até hoje um número considerável de pessoas ainda são fascinadas por jogos antigos. Para o diretor, "o foco [das pessoas] está apenas no jogo! Hoje passam tanto tempo fazendo clipes cinematográficos e desenvolvendo técnicas de gráfico que o jogo em si se torna uma segunda preocupação".

Nas entrevistas, mais do que histórias engraçadas e inacreditáveis, todos os ex-funcionários da empresa se referem com nostalgia ao período em que trabalharam lá. "Eu tinha 23 anos e tinha completa autonomia criativa para o que eu fazia", recorda Simon Fulop, o criador de "Missile Command". "Era minha versão da América corporativa", lembra Carla Meninsky. "Todos os outros empregos que eu tive depois foram incrivelmente chatos."

Também pudera: a divisão de games tinha pouco do que nos referimos como "local de trabalho". A rotina da Atari era o que menos lembrava uma rotina.
Em um dia, todos estavam debruçados em números e códigos tentando fazer vários personagens de um jogo se moverem de forma independente, no outro, Steven Spielberg visitava os escritórios. O cheiro de maconha começava às 9h, atrapalhando as reuniões de negócios.

"Eu sou realmente um dos pais dos jogos eletrônicos e o único programador da Atari cujos jogos venderam mais de milhões de cópias --até o 'E.T.'!", orgulha-se o diretor, brincando, em referência ao jogo que é considerado o pior da história. "O sentimento de ser um fundador e agente fundamental em algo que se tornou um fenômeno cultural é simplesmente incrível."

Mas o DVD explica que não foi a desorganização e a arruaça de seus programadores que levaram a Atari à falência. "As pessoas ficam muito esquisitas quando muito dinheiro começa a aparecer", lembra um dos entrevistados. Gerentes comerciais davam sermões nos programadores que agiam como estrelas, por saber que era por causa deles que a empresa era lucrativa. Boa parte da zorra incitada pelos funcionários era uma reação à visão estreita dos departamentos de marketing.

Outra parte era pura loucura mesmo. Como quando Frye descobriu que podia andar nas paredes. Colocou um pé em uma parede de um corredor e o outro na outra. Quando percebeu, estava se equilibrando com mãos e pés, sem tocá-los no chão. O bate-estaca citado no início do texto não é nada senão o barulho que o programador fazia ao "caminhar" pelas paredes dos corredores da empresa --a quase dois metros do chão. Não foi por menos que, quando enfiou a testa no dispositivo antiincêndio instalado no teto e a equipe do pronto-socorro perguntou o que havia ocorrido, ninguém acreditou na história.

Decisões erradas e brigas selaram queda da Atari

Um dos extras do DVD "Once Upon Atari" traz Nolan Bushnell, fundador da Atari, em uma entrevista sobre o mercado de games. "Eu não sou o pai do videogame, [Steve] Russell e os caras que fizeram o 'SpaceWar' em 1962 é que são. O meu feito foi conseguir vendê-los. Eu os transformei em uma indústria", diz, sem modéstia.

Mais do que fabricar jogos clássicos ou ser o ícone central da primeira era de ouro dos videogames, a Atari pode se vangloriar por ter colocado a lógica eletrônica dentro da vida das pessoas. Foi a primeira vez que um equipamento eletrônico se tornou um ícone cultural em larga escala.

"A Atari fez história na eletrônica ao colocar computadores nas casas das pessoas", emenda o diretor Scott Warshaw. "Os computadores pessoais até estavam vendendo, mas não muito rapidamente, e ninguém sabia o que fazer com um deles. A Atari mostrou ao mundo como você pode se divertir com um computador em casa. Ela curou os medos com relação a isso e elevou o número de vendas de milhares para milhões! Eles mudaram o mundo como o conhecemos."

Após tatear o mercado com o jogo de tiro "Computer Space", que fracassou, Bushnell e seu sócio Ted Dabney deixaram uma versão rudimentar do tênis bidimensional "Pong", que funcionava à base de moedas, em um bar de San Francisco. No dia seguinte, quando checaram a máquina e viram que ela estava lotada de moedas, concluíram que "Pong" havia sido jogado durante toda a noite. Foi quando os dois perceberam que, melhor do que vender a idéia para alguém, o ideal era abrir seu próprio negócio.

No início de 1973, "Pong" era uma febre em todos os EUA e inaugurava o conceito de arcade eletrônico, aos poucos invadindo as casas de fliperama.

Quase 10 mil máquinas foram fabricadas e vendidas. Mas o grande salto da empresa aconteceu com o "Pong" doméstico, que foi lançado em 1975 e rendeu números gigantes: 150 mil consoles vendidos, US$ 40 milhões em vendas, US$ 3 milhões de lucro no primeiro ano. No ano seguinte, Bushnell vendeu a empresa para o conglomerado Warner, que impôs um novo presidente, o executivo mão-de-ferro Ray Kassar.

A era eletrônica começa para valer nos anos 80, quando a IBM lança o computador pessoal, e os videogames se tornam massivos.

A Atari lança vários hits, como "PacMan", "Defender" e "Asteroids", ao mesmo tempo em que a rixa entre o setor de programação e o departamento comercial explode. A queda acontece em 83, quando a empresa faz diversas opções erradas de mercado, a mais célebre sendo o jogo "E.T.", um dos maiores fracassos da história do videogame, que foi eleito pela imprensa especializada como o pior jogo da história.

O fiasco foi tamanho que a empresa enterrou mais de 5 milhões de cartuchos em um deserto no Novo México, pois as crianças não o queriam nem de graça.
A partir daí, a Atari desanda. Passa das mãos da Warner para vários empresários e, aos poucos, definha com diferentes tentativas de volta ao mercado (o portátil Lynx, o console Jaguar), sem nunca conseguir repetir o sucesso original.

fevereiro 9, 2007

Bardo duplo

Resenhinha que saiu na Folha de hoje, sobre o primeiro DVD do Van Morrison, mas que a edição no jornal fez parecer que os músicos do primeiro CD tocam mal. Enfim...

Live at Montreux 1980/1974Van Morrison
Gravadora: ST2; Quanto:R$ 50, em média
Cotação: ***
O clichê da contracapa ("este DVD registra Van Morrison em sua melhor forma") é mentira, pois isso só aconteceu uma vez na biografia do irlandês, no clássico "Astral Weeks", de 1968. A partir dali, o ex-Them seguiu uma carreira sempre irregular, entre o brilhante e o desapontador. Mas a voz de Morrison é um instrumento – e mesmo que seu músico esteja mal (como no disco de 74, em plena crise pós-casamento que gerou o disco-jam – e depois engavetado – "Mechanical Bliss"), ela ainda soa intacta. É claro que é bem melhor ouvi-la plena (como no show de 80), e é esta voz, limpa, suave e forte, que garante que o primeiro DVD do velho Van seja bem acima da média.
POR QUE ASSISTIR: O disco de 1980 (que chama a responsa do DVD duplo) traz Morrison mais à vontade e inspirado. O de 74 o apresenta em fase crítica, por vezes inseguro e discreto, e a banda aparece mais – o que pode ser bom, se você for músico.

fevereiro 3, 2007

Kdickeano

Mais uma sobre o Scanner Darkly, desta vez sobre o livro, que saiu na Folha hoje...

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Lançamentos agitam o legado do escritor

A lenta consolidação do nome de Philip K. Dick no imaginário popular chega aos 25 anos neste 2007, quando aniversariam tanto a morte do escritor norte-americano (que morreu dia 2 de março de 1982) quanto a estréia de “Blade Runner” (25 de junho daquele ano), o primeiro de seus livros a virar filme. Desde então, o escritor de ficção científica - contemporâneo de bastiões do gênero como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, que tiveram seus dias de glória ainda em vida - passou não só apenas a ser mais conhecido e reconhecido, como lentamente o material de seus romances diz muito mais a respeito dos nossos dias do que as colônias interplanetárias e os robôs de Asimov e Clarke.

Veja este “O Homem Duplo”, que acaba de ser lançado pela primeira vez no Brasil (só existia uma edição em português, na clássica coleção lusa Argonauta - o título da versão 2006/07 segue o desta primeira edição; o original "A Scanner Darkly" contém referências à Bíblia - em especial ao capítulo 13 da Primeira Epístola aos Coríntios e o amplo significado da palavra "scanner" nos anos 70). Sem nos atermos aos maneirismos futuristas do livro, a saga do policial que tem de se infiltrar no submundo das drogas e torna-se um viciado, confundindo sua obsessão por manter-se chapado com a de descobrir as subdivisões do narcotráfico foi escrita em 1977 mas é rotina trinta anos depois - ainda mais se trocarmos “droga” por qualquer outra atividade que venha ser considerada ilegal para o estado. A esquizofrenia de uma sociedade fragmentada é uma das principais profecias concretizadas por K. Dick, que inverte o totalitarismo de George Orwell em uma visão mais multifacetada (nem por isso menos agressiva) de possíveis ditaduras do futuro

Como em seus grandes livros, o escritor usa o futuro como metáfora para explorar a natureza do ser humano e a narrativa ficcional serve como veículo para a filosofia. Escrito em duas semanas mas reescrito por seis anos, “O Homem Duplo” mistura referências autobiográficas na história, principalmente no que diz respeito ao uso de drogas - Philip é famoso por ter frito o próprio cérebro com anfentamina durante os anos 60, quando escrevia livros às dúzias.

A mesma Rocco que lança “O Homem Duplo” promete uma nova edição o livro para “Blade Runner - O Caçador de Andróides” (lançado como “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, em 1968) para o próximo mês de abril, quando a editora Aleph, que lançou no ano passado a obra-prima “O Homem do Castelo Alto” (de 1964), publica a primeira edição em português para o livro-enigma “Valis” (de 1981). A Aleph ainda promete para o segundo semestre “Ubik” (de 1969) e “Os Três Estigmas de Palmer Eldritch” (de 1965).

Nos EUA, acaba de sair o livro póstumo “Voices from the Street”, há dois filmes em produção sobre sua biografia (um com Bill Pullman vivendo o escritor e a outra com Paul Giamatti no papel) e o reconhecimento oficial do governo finalmente aconteceu quando a Library of America (a Biblioteca Nacional deles) anunciou que irá publicar “Blade Runner”, “Castelo Alto” e “Ubik” em sua coleção. Fora a edição definitiva do filme de Ridley Scott, que chega às telas no meio do ano. Nada mal para um escritor frila obcecado, paranóico e chapado que, alucinando, viu o nosso futuro.

O HOMEM DUPLO
Cotação: ****
Editora: Rocco (308 páginas)
Preço: R$ 38,50

janeiro 29, 2007

Bounce that

Entrevistinha que eu fiz com o Gregg "Girl Talk" que saiu na Folha de hoje...

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Girl Talk redefine idéia de "mashup"

Produtor funde mais de 200 samples em seu álbum "Night Ripper" e deve se apresentar no Brasil ainda neste semestre

A guitarra e o vocal açucarado de "Where's My Mind" dos Pixies, baixos de Dr. Dre, as cordas de "Bittersweet Symphony" do Verve, a base lenta de "Only" do Nine Inch Nails, o violão de Noel Gallagher em "Wonderwall", Jeff Mangun do Neutral Milk Hotel contando "2, 1, 2, 3, 4" e toneladas de vocais de rap, de diferentes origens. Assim é "Night Ripper", um dos melhores discos do ano passado, lançado pelo produtor Gregg Gillis sob o pseudônimo Girl Talk. Sem pedir autorização para usar nenhum dos mais de 200 samples utilizados (e não por acaso
lançado pela gravadora americana Illegal Art), ele leva o conceito de mashup para um novo patamar e está quase confirmado como uma das atrações musicais para a próxima edição do festival Resfest, que acontece em abril. Ele conversou com a Folha por email, na entrevista
abaixo.

Conte a história de "Night Ripper".
Eu amo música pop e eu faço colagens com músicas há uns sete, oito anos. Gosto de recontextualizar elementos familiares em músicas novas e estava querendo fazer um disco divertido, apenas com samples. O som do disco é baseado nas minhas apresentações ao vivo, quando eu misturo na hora um monte de loops e samples tirados de um set pré-determinado.

A atenção que você recebeu após o lançamento do seu trabalho diz mais respeito ao fato de o disco ter sido lançado sem autorizações ou pelas quantidade de músicas conhecidas se encontrarem de forma tão distinta?
Acho que um pouco dos dois. As pessoas sempre gostam da controvérsia, daí a questão do direito autoral. No lado musical, queria fazer um disco que fosse ao mesmo tempo experimental na estrutura e divertido. Acho que as pessoas estão acostumadas a ouvir música remixada como se fosse ou inteiramente experimental ou apenas feita para a pista de dança. O meu disco é acessível o suficiente para que pessoas que não são interessadas em música feita a partir de colagens ou outro padrão de música eletrônica possam simplesmente curtir, mas ao mesmo tempo ainda é estranho e chama atenção por ter a quantidade de samples que tem espremida em um só disco. De qualquer forma, eu gosto de pensar que as pessoas estão interessadas mais na música do que no aspecto conceitual.

O que você acha dos direitos autorais atualmente?
Acho que podemos usar as leis de direito autoral para beneficiar a todos. A cultura do remix está ajudando a música como um todo, mostrando novos artistas para pessoas que nunca os ouviriam de outra forma e deixando-as mais animadas com a música. Muitos usam programas de edição visual, como o Photoshop, para manipular e reciclar a cultura todo dia, apenas como um hobby. Acredito que isso está acontecendo com a música também, com um monte de moleques fazendo seus próprios remixes e os espalhando pelo mundo. À medida em que nós nos movemos nesta direção, acho que as leis devem assumir uma postura que ajude o desenvolvimento artístico tanto quanto proteja a música destes artistas de uma perspectiva financeira.

Você certamente conhece o trabalho de outros famosos editores de som, como Double Dee & Steinski, a dupla KLF, John Oswald e Dangermouse. Você acha que você pertence a uma nova tradição?
O ato de samplear está por aí desde que havia tecnologia para fazer isso, e você pode voltar isso para as primeiríssemas colagens em fita. À medida em que a tecnologia tornou-se mais acessível com os samplers e softwares de edição de som, samplear se tornou uma ferramenta mais usada. Eu gostaria de me encaixar entre os artistas que você citou, mas samplear vai muito além do underground. É uma ferramenta padrão para fazer música pop atualmente. Eu não acho que meu trabalho seja parte de uma nova tradição, apenas que estou usando um instrumento relativamente novo que muitos produtores usam hoje.

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Cultura do "corta e cola" se multiplica na internet

“Se fosse legal, seria divertido?”. Assim Adrian Roberts, uma das metades da dupla A plus D (a outra é sua irmã, Deidre), resume a questão dos direitos autorais em relação ao tema mashup. Subcultura que nasceu do hype ao redor da colagem de duas músicas distintas e que ganhou fama em sua incipiência em 2001 (quando os 2ManyDJs popularizaram-no com o nome de “bastard pop” ou “bootleg”), a cena mashup cresce a cada dia que passa atraindo DJs de diferentes países e movimentando online (e gratuitamente) centenas de músicas criadas a partir de outras.

Um exemplo é o recém-lançado CD “The Best of Bootie 2006”, que não existe fisicamente (por motivos legais) e está disponível para download no site da festa Bootie (http://www.bootieusa.com/bestofbootie2006/), organizada por Adrian e Deidre em San Francisco, mas que aos poucos ultrapassa as fronteiras do próprio país.

O CD virtual conta com colisões agressivas (Led Zeppelin e Beastie Boys, Chemical Brothers e Velvet Underground), sacadas de pista (Kanye West com a versão discoteca para a quinta sinfonia de Beethoven, Gnarls Barkley com Supertramp) e apelo retrô (Eurhythmics com Lady Sovereign, She Wants Revenge com Joy Division). Entre seus autores estão alguns dos protagonistas desta cena internacional mashup, como os franceses DJ Zebra e DJ Moule, os suecos Divide & Kreate, os ingleses Kleptones e Go Home Productions, os australianos Arty Fufkin e Team9, o dinamarquês DJ M.I.F. e os americanos Party Ben, Earworm e os próprios A plus D. Tudo de graça, pronto pra baixar no site.

“Começamos a Bootie em agosto de 2003 e tínhamos que explicar pra todo mundo que conhecíamos o que era mashup”, lembra Adrian. “Hoje, a festa cresceu consideravelmente e é a maior noite de mashup do mundo. Nós temos uma outra casa noturna em Los Angeles, chamada Bootie LA e estamos nos preparando para lançar festas Bootie em Paris, Nova York e Chicago”; comemora.

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Dissecando "Night Ripper"
Três faixas do disco do produtor Gregg Gills

"Bounce That" – O vocal rap de "Kryptonite" (dos Purple Ribbon All-Stars) atravessa toda faixa, que alterna bases do hit disco "Best of My Love" (dos Emotions), de "Daft Punk is Playing in My House" (do LCD Soundsystem), "Cannonball" (das Breeders) e "Connection" (do Elastica), entre outros.

"Overtime" – "1979" dos Smashing Pumpkins funde-se com o electro "Whitehorse" do Laidback sob outro vocal os Three 6 Mafia, até encontrar a base de "Pump Up the Jam" no final.

"Summer Smoke" – A base de "1 Thing" (Amerie) encontra os vocais de"Galang" (M.I.A.) antes de Kanye West (com o hit "Gold Digger") colidir-se com a setentona "Magic" do grupo Pilot.

janeiro 20, 2007

Contra-ataque

Resenhinha que saiu hoje na Ilustrada. Tem entrevista com o autor do livro aqui nesse link.

Livro reconta a história sob a ótica iconoclasta

A expressão “contracultura” nos remete aos anos 60 de passeatas, hippies, drogas, rock sério e sexo livre, tempos de uma transição entre o Technicolor da psicodelia e o vermelho e preto de maio de 68. Esta lembrança desdobra-se mais adiante nos pais e filhos desta geração clássica - antes, os beats, o jazz e o blues, James Joyce e os xamãs; e depois, a cultura rave, clubber, nerd e geek, o hip hop e o ativismo político eletrônico. “Contracultura Através dos Tempos” amplia ainda mais este escopo, e reconta a história da humanidade do ponto de vista da quebra dos valores tradicionais e do espírito inquieto das épocas de mudanças. O livro (assinado pelo nome de batismo - Ken Goffman - do ativista e escritor R.U. Sirius) determina um Prometeu hedonista e um Abraão iconoclasta como pais desta cultura da mudança. No cânone, judaísmo, a Paris do século 19, Thoreau e Whitman, trovadores medievais, taoísmo, zen e sufismo, Sócrates e o Iluminismo, apontam para a acid house, a internet, o ambientalismo e a Nova Esquerda, numa grande árvore genealógica desta história paralela. O prefácio de Timothy Leary é só a cereja.

CONTRACULTURA ATRAVÉS DOS TEMPOS - DO MITO DE PROMETE À CULTURA DIGITAL
Cotação: Quatro estrelas
Autores: Ken Goffman (R.U. Sirius) e Dan Joy
Editora: Ediouro
Quanto: R$ 54,90 (432 págs.)

novembro 25, 2006

VSP

Sabadão na Ilustrada, depois de uma quinta no far east da ZL...

David Lloyd mapeia São Paulo

Convidado para retratar a metrópole na série Cidades Ilustradas, quadrinista visita locais inusitados; "tenho a obrigação de entender a cidade como um todo", diz o ilustrador de "V de Vingança", que participa de evento hoje na Fnac

“Você já reparou que os carros em São Paulo são pintados de preto, branco ou cinza?”, pergunta-me David Lloyd em frente à subprefeitura da Cidade Tiradentes, a região mais leste da Zona Leste de São Paulo. Um dos autores da minissérie “V de Vingança”, o inglês de 56 anos - olhos pequenos, caminhar relaxado - passeia pela cidade até o próximo dia 3, enquanto vai dos lugares mais improváveis de São Paulo aos mais corriqueiros, entre eles uma sessão de autógrafos que acontece hoje na Fnac Pinheiros e um bate-papo na próxima segunda-feira, na Universidade Mackenzie.

O motivo da passagem é que Lloyd será o autor do sétimo volume da coleção Cidades Ilustradas, da editora Casa XXI, que já publicou edições dedicadas ao Rio de Janeiro, Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e as cidades históricas de Minas Gerais, vistas pelos olhos de quadrinhistas nacionais e estrangeiros - entre os últimos, bambas como o francês Jano - autor do rato punk Kebra -, que fez o Rio, e o espanhol Miguelanxo Prado - da graphic novel “Mundo Cão” - que desenhou a capital mineira.

Num calor de quase 40 graus, o desenhista não se abala e fotografa de vez em quando, sem nunca fazer rascunhos ou desenhar nada, só anotações mentais. “Eu sou inglês, meu caro. Nós não nos importamos. Quanto mais difícil, melhor”, ri.

A convite da editora, Lloyd aceitou o desafio de fazer São Paulo. “A única vez que havia vindo ao Brasil foi em 2003, quando vim para o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte e passei pelo Rio, rapidamente. Não conheci São Paulo. Por isso, o convite é uma espécie de desafio. E como é um trabalho também - tenho prazo, salário -, eu tenho a obrigação de entender a cidade como um todo, ir além do turista e do artista. Se fosse um trabalho autoral, eu não teria a necessidade de falar de tudo. Eu podia contar a história de uma pessoa, de um bairro. É como se eu fosse para uma floresta e desenhasse apenas uma folha. Ainda é a floresta, mas não é ela inteira”.

A comparação de São Paulo com uma floresta suscita outras impressões que a cidade passou para o artista. “O Roberto (Ribeiro, editor da Casa XXI) me pediu para fazer o livro em preto e branco, com algumas referências de cor, aqui e ali. Mas, além das cores dos carros, o que me impressionou foi o contraste entre o cinza e o verde”, continua. “O cinza é muito mais presente do que em Londres, Nova York ou outras grandes cidades pelo excesso de concreto que se usa nas obras - e como esse concreto fica à mostra”.

“Já o verde vem em todos os lugares. Tudo bem, São Paulo é uma cidade poluída, mas há verde por toda a parte, muito mais do que em qualquer outro lugar deste porte. E o verde funciona como uma metáfora para as pessoas, que parecem aparecer de todos os lugares. Existem duas regras que parecem explicar a cidade: os pobres só têm aquilo que os ricos deixam eles ter e os pobres tomam à força o que eles querem ter. O equilíbrio entre estas duas forças, que dá origem a estas casas feitas de papelão, embaixo da ponte e a comunidades pobres enormes, dá o tom da cidade”.

Lloyd já passou por pontos óbvios da cidade - como o bairro da Liberdade e o Terraço Itália -, mas também visitou pontos distantes do dia-a-dia do paulistano, como a Cratera da Colônia, no extremo sul da cidade, onde uma comunidade de 20 mil pessoas mora num buraco formado pela queda de um meteoro. “É uma cidade com muitos contrastes, muita variedade de tudo - comida, música -, mas não é isso que faz São Paulo diferente das outras metrópoles. Seria diferente se não tivesse. Há um otimismo recorrente nas pessoas, independente de como elas vivem, e ao mesmo tempo um olhar de resignação. E há um fascínio incrível por carros!”.

Mais que o desenhista de “V de Vingança”, Lloyd foi co-autor da minissérie que virou filme dos irmãos Wachowski - foi dele a sugestão de colocar um bandido contra o estado, de dar um clima cinematográfico à obra e de não usar nem balões de narração, de pensamento ou onomatopéias na história. Ao contrário do outro autor, o venerado Alan Moore, Lloyd não se incomodou com a adaptação para o cinema e manteve seu nome no filme. “A essência da série está ali. A história é outra, afinal de contas, é um filme”, ele dá de ombros. David também aproveita a vinda ao Brasil para negociar o lançamento no país de sua nova série, “Kickback”.

Sessão de autógrafos com David Lloyd
Hoje, às 16h
Local: FNAC Pinheiros (av. Pedroso de Moraes, 858. Pinheiros)

Encontro com David Lloyd
Data: 27 de novembro, segunda-feira, às 20h
Local: Universidade Mackenzie (Rua da Consolação, 930)
Entrada franca

novembro 23, 2006

I look at the world and I notice it's turning

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E na Ilustrada de hoje...

Beatles animam Cirque du Soleil

Produtor George Martin cria "Love", um ótimo mix de samples que é trilha para novo espetáculo da trupe; álbum, que ganha lançamento mundial, repassa a história da banda com colagens sonoras de diferentes músicas

Eis a premissa, prepare-se para erguer as orelhas: nem Paul, nem Ringo, nem Yoko participaram efetivamente do novo produto que leva a chancela oficial dos quatro de Liverpool. O novo disco com o nome do grupo, que chegou às lojas do mundo inteiro esta semana, mais do que uma coletânea é um, er… “medley” gigantesco, em que Sir George Martin e seu filho Giles repassaram a carreira da banda como trilha sonora do novo espetáculo do grupo canadense Cirque du Soleil encenado em Las Vegas. Dá pra ver os olhos dos fãs se arregalarem num silêncio assustado e o sorriso malicioso dos chatos antibeatles crescer. Sabemos o quanto os Beatles podem ser piegas - principalmente, postumamente - e qualquer um está fadado a pisar na lama do fundo do poço.

Desfaçam a expressão - não foi agora. Com “Love”, o mais novo CD do grupo, os Beatles mais uma vez fazem jus à sua fama de topo do pop e acrescentam mais uma cotação máxima à sua estrelada carreira fonográfica. Com pouco mais de uma hora e vinte e seis faixas que reúnem trechos de nada menos que 130 canções do grupo, George Martin deixou de lado obviedades como temas orquestrados, regravações com novos intérpretes e novas composições para fazer uma homenagem à altura do legado do grupo formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr.

É um conceito incrível e mais incrível é a forma como ele funciona. “Love” é uma sinfonia de samples de diferentes fases da carreira do grupo, que entrelaçam canções umas às outras, criando um fluxo coeso de sentimento e informação. É o conceito de mashup que parte de um dos agentes do principal movimento cultural do século vinte, depois desta cultura de colisões musicais já haver flertado com os quatro de Liverpool em inúmeros bootlegs avulsos e discos inteiros, sendo o infame “Grey Album”, do DJ Danger Mouse (vocais do “Black Album” de Jay-Z sobre instrumentais do “White Album” dos Beatles), seu principal exemplar.

O resultado é inacreditável. Com maior ênfase no período posterior a 1966, quando os quatros desistiram de fazer shows ao vivo para dedicarem-se e existirem apenas nos sulcos dos discos do vinil, “Love” é a versão de Martin para o “Anthology”. Em vez de simplesmente revisitar os arquivos da banda ou tratar em estúdio com qualidade superior (o que também acontece neste disco, mas não é o principal atrativo), o produtor de todos as gravações do quarteto - um dos poucos seres vivos a ter o título de “quinto beatle” - resolve interferir no passado, “retocar a Mona Lisa”. Sim, ele opta pela heresia, reinventando músicas do grupo ao fundi-las umas com as outras.

Não podia ter sido mais feliz. Para quem gosta de cultura pop, “Love” é “a” aula sobre Beatles para ser dada aos iniciantes e uma cápsula do tempo sobre a importância do histórica do grupo. A base de “Tomorrow Never Knows” serve de apoio para o vocal de “Within You Without You”, ressaltando a influência indiana na psicodelia. “Strawberry Fields Forever” passa por suas diferentes versões - da demo ao violão à versão final - em um só take, numa clara homenagem ao passo mais ousado do grupo. “For the Benefit of Mr. Kite!” descamba na segunda parte de “I Want You (She's So Heavy)” e o violão de “Blackbird” serve como introdução para “Yesterday”; o solo de “Taxman” entra em “Drive My Car”, o final de “Come Together” se mistura ao de “Dear Prudence”. Exemplos felizes destes transplantes musicais estão por todo o disco.

Já para o fã dos Beatles, o disco é um sonho. Não importa o quão brega (ou não) seja o musical circense, com personagens das canções se juntando à história da banda. Sozinho, a trilha é uma montanha-russa de sensações novíssimas, criadas a partir de velhos sabores. No imenso mashup de pai e filho Martin, os Beatles não só surgem como o principal legado cultural do século passado, mas como visionários sônicos, que abandonaram a performance ao vivo para abraçar as infinitas possibilidades do som gravado - abrindo uma fronteira cuja exploração assistimos até hoje.

outubro 9, 2006

Zoofilia

Essa saiu na Folha de sexta...

Desenho tem bons personagens e trama fraca

Nos anos 70 eram os filmes policiais, nos anos 80 as comédias adolescentes e os filmes de ação, na década de 90 comédias românticas e os filmes sobre a geração X. Agora, em plenos anos 00 o formato trivial de Hollywood para as massas volta a ser o “filme para a família”, graças a popularização da animação em computação gráfica, que começou na metade da década passada. Antes da Pixar entrar na brincadeira com “Toy Story”, os estúdios Disney monopolizavam o mercado e dividiam as possibilidades da animação num maniqueísmo bobo: filmes sérios (como “A Bela e a Fera”, que concorreu ao Oscar de melhor filme) e filmes infantis (como os fenômenos de locadora “A Pequena Sereia” e “Rei Leão”).

“O Bicho Vai Pegar” pertence exatamente a este cânone inaugurado pelo estúdio idealizado por Steve Jobs. Como “Toy Story” e praticamente todos os filmes em CGI que vieram depois dele, o longa de Roger Allers (o diretor de “Rei Leão”) e Jill Culton (o roteirista de “Monstros S/A”) também segue a mesma fórmula: contar uma história simples e com uma conclusão a respeito da tolerância com personagens bem-humorados que miram diferentes faixas etárias com textos e subtextos bem escolhidos e exuberância visual. E, como quase todos as animações depois de “Toy Story” (“Procurando Nemo” e “Os Incríveis” são as honrosas exceções), o filme mais bate na trave do que acerta no gol.

É a história de Boog, dublado originalmente pelo comediante Martin Lawrence, um enorme urso pardo que vive com sua dona em uma pequena cidade à beira de uma floresta daquelas canadenses. Até que um dia sua dona percebe que tem de devolvê-lo a seu habitat natural, mesmo colocando em risco a vida do animal - já que a temporada de caças começa em três dias. No meio do caminho, Boog encontra o cervo Elliot, dublado pelo ator Ashton Kutcher (o Kelso do “That 70's Show”), e os dois têm de encontrar o caminho da cidade antes dos caçadores chegarem à floresta.

E a história não caminha muito mais do que isso. Os personagens, por outro lado, são ótimos - e não só os protagonistas. Os melhores exemplos estão escondidos na floresta - castores engenheiros, um general esquilo, patos franceses, um casal de exploradores e seu cão basset, além do ótimo e caricato caçador Shaw, dublado de forma eficiente por Gary Sinise - chegam a ser melhores até que a dupla protagonista.

Mas, como os policiais dos anos 70, os filmes de galera e de porrada dos 80, os da Meg Ryan e da Wynona Ryder dos 90, “O Bicho Vai Pegar” tem destino e alvo certo, longe das telas do cinema. É na TV - provavelmente nos canais infantis pagos - que o filme pode chamar alguma atenção ou criar seu séquito de fãs. No escuro do cinema, é só uma desculpa pra não tão jovens casais passearem com os filhos e adolescentes farrearem com os amigos.

O BICHO VAI PEGAR
Direção: Roger Alles, Jill Culton e Anthony Stacchi
Produção: EUA, 2006
Quando: em cartaz nos cines Iguatemi Cinemark, Osasco Plaza e circuito

setembro 8, 2006

"My finger on your trigger"

Essa saiu na Folha de hoy:

Let me tell you how it will be...

A redescoberta de Revolver

Embora não tão incensado quanto discos mais emblemáticos como “Sgt. Pepper's” (marco-zero da psicodelia), “Rubber Soul” (manual de boas maneiras do britpop) e “Abbey Road” (o réquiem do grupo), o disco que os Beatles lançaram há 40 anos aos poucos tem seu papel redefinido na história do pop. Antessala da fase estúdio do grupo de Liverpool, “Revolver” é revisitado em duas obras online, que ajudam a traçar o espectro de abrangência do disco ao mesmo tempo em que jogam novas luzes sobre sua influência.

O primeiro deles é “Abracadabra - The Complete Story of the Beatles' Revolver”, escrito pelo funcionário do governo inglês Ray Newman nas horas vagas de seu trabalho oficial. “Escrevi isto por diversão”, conta no prefácio do livro. “Não escrevo sobre música profissionalmente nem sou um jornalista na área. A idéia surgiu depois de algumas perguntas que eu tinha sobre o disco que seus biógrafos sentem-se felizes em passar por cima. De onde Paul McCartney tirou a idéia de 'Eleanor Rigby'? Quem ensinou George Harrison a tocar cítara? E quem deu LSD para John Lennon pela primeira vez?”.

Após uma pesquisa detalhista e aprofundada sobre os meses que antecederam o lançamento do disco de 1966, Newman não esperou editora: diagramou seu livro e o colocou para download gratuito no site http://www.revolverbook.co.uk.

“As pessoas parecem saber tudo que existe sobre 'Sgt. Pepper's', que é meu segundo disco favorito dos Beatles, mas 'Revolver' ganha menos atenção no 'Anthology' (biografia oficial do grupo), por exemplo”, explica o escritor em entrevista, “eu amo este disco e não conseguia encontrar mais informações sobre ele, e era frustrante”.

“Comecei muito casualmente, tentando escrever um ensaio, mas comecei a descobrir questões o quanto mais pesquisava”, continua a explicação. “Minha grande dúvida era saber como quatro jovens que haviam composto 'Love Me Do' quatro anos antes criaram algo tão excitante, esquisito e cool como 'Revolver'”.

Ray divide os novos interesses dos três Beatles da frente em grupos respectivos: Lennon descobre o ácido lisérgico, Paul McCartney se aventura pela alta cultura e movimentos de vanguarda, George Harrison traz a música indiana. Cada um destes universos é compartilhado em grupo, com “Tomorrow Never Knows” sendo um exemplo emblemático do modus operandi beatle da época: a idéia de Lennon era fazer uma música em um único acorde como os músicos indianos que já estavam inseridos na cultura londrina desde o início dos anos 60. McCartney trouxe os efeitos sonoros e loops de fita magnético que causam a estranheza na paisagem da canção, e Ringo Starr criou a batida trôpega e hipnótica que dá a sensação de tontura da música.

Newman conta que a primeira cítara de George - a de “Norwegian Wood”, do disco anterior - era quase decorativa, que Paul havia pensado em usar osciladores de freqüência em vez de um quarteto cordas em “Yesterday” e que John havia se contentado em viver uma vida de casado longe da vida cultural londrina.

Ainda juntos
No processo de pesquisa, Newman ficou pasmo ao descobrir que “Revolver” foi, de fato, o último disco dos Beatles como um grupo. “Foi surpreendente descobrir o quanto Lennon, McCartney e Harrison compartilhavam idéias na época. Eu sempre havia imaginado, por preguiça, que 'Eleanor Rigby' era uma canção de Paul e 'Taxman' era de George mas, na verdade, Paul disse ter sido influenciado pelo interesse de George em música indiana quando compôs 'Eleanor' e 'Taxman' tem letras de Lennon e um solo de guitarra de Paul. Eles ainda eram um grupo na época. E eram amigos!”.

“Sem contar a pura história sensacionalista que é a primeira noite com LSD: coelhinhas da Playboy, tentativas de orgia, perseguições de carro!”, brinca o autor, que já estuda propostas para publicar o livro fora do mundo virtual - por enquanto, só na Inglaterra.

Produtor inglês recria o álbum faixa-a-faixa

Além de “Abracadabra”, outro lançamento online mostra a longevidade de “Revolver” - mas aqui a nostalgia e pesquisa são deixadas para trás. “Revolved”, uma homenagem feita pelo produtor inglês Chris Shaw, busca referências em diferentes épocas para olhar para frente.

O disco - que, como o livro de Newman, só existe na internet - é uma releitura faixa-a-faixa do disco de 1966 à luz da cultura mashup. De cara, a faixa de abertura “Taxman” perde seu baixo e bateria originais para serem substituídos pelo instrumental de “New Pollution” do americano Beck. Mais à frente “I'm Only Sleeping” funde-se com “Glory Box” do Portishead, “For No One” é assombrada por “Close to Me” do Cure e “Tomorrow Never Knows” ganha ares fantásticos com um tema de John Barry para um filme de James Bond. “Revolved” pode ser encontrado no endereço http://revolved.blogspot.com/

“Mashup” é uma enorme subcultura de produtores caseiros que começaram jogando vocais de hip hop e R&B sobre bases de bandas de novo rock - na época, há cerca de cinco anos, chamávamos isso de “bastard pop”. Mas a cultura atingiu um novo patamar quando o DJ Danger Mouse foi revelado para o mercado e público ao colidir o álbum branco dos Beatles com o Black Album do Jay Z. Ao subverter a estética “clássica” de ambos gêneros e ignorar os direitos autorais, o produtor criou uma pequena obra-prima moderna e seguiu para produzir um dos melhores discos do ano passado - “Demon Days”, do Gorillaz - e atinge brilho próprio ao associar-se com o MC Cee-lo no projeto Gnarls Barkley, uma das melhores coisas deste ano.

Assim, vários produtores iniciantes vêm usando desse subterfúgio para chamar atenção para seu trabalho, uns mais felizes que os outros. E só entre os álbuns clássicos, já desvirtuaram o “Pet Sounds” dos Beach Boys (duas vezes, “Bastard Pet Sounds” e “Hippocamp Ruins Pet Sounds”), o “London Calling” do Clash (que virou “London Booted”) ou o “Yoshimi” dos Flaming Lips (“Yoshimi Battles the Hip Hop Robots”). E, pelo andar da carruagem, é só o começo.

setembro 5, 2006

American way-of-life 2

Essa saiu da Folha de sábado.

Crítica cinema: 'A Casa Monstro' remete aos anos 80

Dá pra gastar linhas e linhas para falar de “Casa Monstro” e repetir-se na obviedade. Falar do processo de animação que mistura atuação com computação gráfica, encaixar o filme na linha do tempo desta nova era de ouro da animação, dos atores hollywoodianos que participaram do filme ou do filme ser produzido por Robert Zemmeckis (“Forrest Gump”) e Steven Spielberg. Mas, mais do que isso (tá no release e todo mundo vai falar disso…), o filme que estreou esta semana é um filme de época.

Uma época quase clássica, consolidada no imaginário de uma geração inteira, tão emblemática quanto a Swinging London da década de 60, o American Way of Life dos anos 50, os Roaring 20s americanos ou o Rio de Janeiro da fase clássica da bossa nova. Esta época acontece nos Estados Unidos durante os anos 80, quando o público adolescente invade o mercado de entretenimento como seu principal alvo e consumidor.

“Casa Monstro” é uma história de terror irracional e tradicionar, sem as tentativas de explicar o medo ou as táticas de choque de terror moderno. Aponta para Freddy Krueger e “A Hora do Espanto”, embora mire numa idade mais baixa. Nada de banhos de sangue ou sustos pesados – o ar do filme é leve como “Garotos Perdidos” ou “Goonies”.

E é nestes anos 80 que o filme é localizado. Aquele da porta com três janelas, aqueles coletes com uma letra grande no peito, bonés e crianças andando de BMX. “Super Vicky”, “ET”, “Alf”, “Picardias Estudantis”, “De Volta para o Futuro”, “Porky’s”, todos John Hughes clássicos (“Curtindo a Vida Adoidado”, “Clube dos Cinco”), “Caras e Caretas” – é este o universo de “Casa Monstro”, com “Pong” no videogame, a babysitter que vira gótica (ou seria melhor “dark”?) depois que os pais do garoto saem ou o retrato clássico da festa americana do Dia das Bruxas. Até no fato de Kathleen Turner – um ícone oitentista – dublar o monstro do título há esta referência.

Divertido e fluído, o filme conta a história de um velho que espanta a criançada que se aproxima de uma casa amaldiçoada. De um pressuposto simples, “Casa Monstro” embarca numa montanha russa de emoções light – a entrada na puberdade, o primeiro amor, o amor impossível – e acerta em cheio no clichê de “filme para a família”.

agosto 31, 2006

Bom como eu tenho sido contigo

Essa saiu na Folha de ontem, mesqueci de linkar.

Bob Dylan recria seus "tempos modernos"

Compositor lança seu 32º disco de estúdio e encerra trilogia iniciada em 97

Sonoridade de novo CD do compositor norte-americano oscila entre o country e o rhythm'n'blues e revisita legado do século 20

Nem sempre houveram cidades, carros, asfalto, publicidade, poluição, fábricas, multidões engarrafadas em rotinas vazias de sentido, crises permanentes, neuroses coletivas. É difícil lembrar que a paisagem que nos acostumamos era bem diferente nos últimos cem anos. A mudança que o século vinte proporcionou ao planeta criou um presente contínuo que faz com que nós esqueçamos de onde – a raça humana – viemos.

“Tempos Modernos”, resume Bob Dylan, 65, ao batizar seu 32º disco de estúdio com o mesmo título do clássico filme de Charles Chaplin, lançado em 1936, cinco anos antes do próprio Dylan nascer. O disco é o item de número 50 em sua discografia, entre discos ao vivo, coletâneas e reedições e é o terceiro capítulo de uma trilogia de obras-primas inaugurada com “Time Out of Mind” de 1997 e seguida de “Love & Theft”, cujo lançamento coincidiu exatamente com o dia em que aqueles aviões derrubaram o World Trade Center em Nova York. De propósito (e o que é sem querer em sua biografia?), Dylan se equivale a Chaplin na tentativa de resumir seu século de criação a partir de seu principal legado: a modernidade.

É ela quem arruma o mundo a partir das deformações demográficas criadas pela era industrial. É ela quem organiza o mundo a partir de uma estética prática, casual e confortável, e cria toda uma harmonia a partir do caos inicial. Como se pudesse voltar no tempo, Dylan recria a música contemporânea do meio do século como se fosse possível prever que, graças aos Beatles – que, uma década depois, absorveram a fragmentada música americana dos anos 40 e 50 como uma única manifestação cultural e a explodiu para o resto do planeta – , aquela seria a trilha sonora do século.

Não é exatamente rock’n’roll, pois na contemporaneidade de “Modern Times” (Columbia), o rock ainda não existe. Há apenas uma variedade de ritmos musicais, uns vindo da música country, outros do rhythm’n’blues, que fingem não se freqüentarem ou se parecerem, mas que, como veríamos mais tarde com os Beatles, e como Dylan nos apresenta em seu novo disco, é tudo farinha do mesmo saco.

Toda discografia de Dylan é uma grande tentativa de driblar o tempo, e de simultaneamente usar as próprias referências como molde para qualquer detalhe de seu futuro. Assim, começou calcado em Woody Guthrie, abraçou o rock, começou a cavocar suas origens musicais nas Basement Tapes, voltou-se para o country e daí para o gospel, o pop, o folk, o rhythm’n’blues e o rock de novo. Cercou a base de sua própria música e criou o cânone americano a partir de sua própria música – o próprio bardo americano.

Só que durante os anos 90, essa sua tentativa de contar o presente a partir de seu passado pessoal, esbarrou em alguns discos belos mas mal-resolvidos, como dois de versões de clássicos do início do século (“Good As I Been To You” e “World Gone Wrong”) e seu “MTV Unplugged”. Irregulares, eles pareciam indicar a velhice precoce de um geninho que parecia que nunca iria envelhecer.

Até que ele parou de regravar e voltou a compor, em 1997, ao iniciar este arco de três discos que é aparentemente encerra-se com “Modern Times”. De lá pra cá, retomou firme sua veia autobiógrafa e dispôs-se a contar tudo de novo: a caixa de CDs que trazia o melhor de sua pirataria (“Bootleg Series – Volumes 1-3”, de 1991) foi transformado em um projeto de resgate contínuo destas gravações não-oficiais (a série está no sétimo volume, hoje); Scorsese filmou sua primeira era de ouro (no longo e minucioso documentário “No Direction Home”) e escrevou o primeiro livro de sua autobiografia (“Crônicas – Volume 1”).

E agora, com “Modern Times”, volta a redesenhar seu século a partir de sua qualidade essencial. Para Dylan, modernidade não são publicitários baixando músicas do MySpace para remixar em comerciais de energéticos. “Moderno” foi o rádio, o arranha-céu, o chiclete, o cinema, o disco, o carro, o rock’n’roll, os Estados Unidos ou o táxi que rasga a capa. Hoje, o mundo supera cada um destes aspectos, reinventando o século vinte e um como negação do anterior. Para este, pede Dylan, arrume outro adjetivo, porque o “moderno” é seu.

Faixa a faixa

“Thunder on the Mountain”
Lento rock’n’roll clássico, que ecoa Chuck Berry, Carl Perkins e Jerry Lee Lewis. Dylan assume o piano e enfileira palavras como um pastor em plena missa. O eco da eletricidade seca preenche os vazios do instrumental minimalista, criando um som ao mesmo tempo oco e fantasmagórico, como os discos de Elvis Presley pela Sun Records. Essa sonoridade se repete por todo o álbum, por cortesia do produtor “Jack Frost”, um dos inúmeros pseudônimos do velho Bob.

“Spirit on the Water”
Jazzinho bluesy, a canção é uma baladinha de amor ponteada por uma guitarra econômica e precisa e percussão mínima. Dylan sussurra e anasala a voz ao mesmo tempo, quase querendo soar como um velho rádio.

“Rollin’ and Thumblin’”
Blues terminal, à moda de “If I Had Possession Over the Judgement Day” de Robert Johnson e de seus seguidores de Chicago, a faixa desce a ladeira quase bêbada, com cuidado para não desenvolver velocidade demais – e cair.

“When the Deal Goes Down”
Uma balada country, com slide guitar, arrastada e singela, que nem parece falar do tema que, junto com sexo, percorre o disco: a morte.

“Someday Baby”
Outro rock’n’roll revisitado, suas raízes country e rhythm’n’blues expostas sem vergonha, poderia ser lançada nos anos 40, 70 ou 90 que faria igualmente sentido.

“Working Man’s Blues #2”
A voz áspera faz a sombra pós-11 de setembro pesar na faixa mais política – não sem um toque de doçura – e mais folk do disco – não sem um toque de blues. É onde faz seus comentários mais específicos em todo “Modern Times” – critica o status quo americano, o sistema de classes, o capitalismo e outras invenções modernas. Dylan clássico.

“Beyond the Horizon”
“Além do horizonte, seja primavera ou verão”, canta quase saudoso, “o amor espera para sempre, para um e para todos”. Outra cândida balada folk, que canta o amor de forma quase juvenil.

“Nettie Moore”
Bumbo onipresente e solitário, ele atravessa a faixa marcando o tempo como se esperasse o Juízo Final. Sobre esta marcação, Bob murmura a canção mais árida do disco, único resquício de século dezenove no álbum.

“The Levee’s Gonna Break”
Rock’n’roll grave e mórbido, é um blues que ganha contornos urbanos e menos drásticos com a presença elétrica de duas guitarras insistentes. “Se continuar chovendo, o dique vai quebrar”, avisa, didático e apocalíptico, metafórico e literal.

“Ain’t Talkin’”
O clima que guitarras, piano e rabeca sintonizam no início da canção é tão parente da introdução de “Ballad of a Thin Man” quanto de Nick Cave e Tom Waits. quanto de Nick Cave e Tom Waits. Ritmo marcado por um pandeiro, a faixa cresce devagar, interminável, com o pesar de uma última faixa que parece um testamento.

agosto 27, 2006

Rebatido

Esse saiu nessa Ilustrada de domingo:

Filmes revivem geração beat entre o culto e a redundância

Houve um tempo em que qualquer informação adicional sobre qualquer ícone da cultura alternativa (de onde fosse: da contracultura clássica, do indie rock ou dos quadrinhos para adultos) era tratada como ouro puro, principalmente aqui no Brasil, quando quase sempre consumimos estes nomes em segunda mão. Antes da vinda da internet, imagens em movimento ou trechos de entrevistas de quem fosse já era suficiente para reunir fãs em audiências ritualescas.

Passado recente, este tempo já era. Hoje, arquivos digitalizados e conexões de banda larga garantem o rápido acesso a imagens corriqueiras de nomes consagrados – aparições na TV se espalham pelo YouTube, biografias entopem as bancas de revista, sites despecam aos milhões ao simples clique no Google. Por isso, o lançamento de dois DVDs perdem o seu impacto justamente por seu maior mérito ser a presença eletrônica da santíssima trindade da geração beat: Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs.

O pacote conta com a primeira aparição em DVD do filme “Chappaqua”, de Conrad Rooks (vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza de 1966), e com a dupla de documentários “Kerouac: O Rei dos Beats”, de John Antonelli, e “Burroughs: Poeta do Submundo”, de Klaus Maeck.

“Chappaqua” é um dos inúmeros exemplos do cinema experimental dos anos 60 que ficaram redundantes e presos ao passado com o advento do vídeo digital – literalmente, qualquer criança de hoje realiza filmes como os daquele período (ao menos, em termos técnicos). Por trás da obra, temos o empolgado Conrad Rooks que, filho de um alto executivo da Avon nos EUA, resolve usar o cinema como terapia e contar sua história para o mundo.

Sai-se exatamente na média, colidindo todos os clichês do cinema alternativo da época com delírios enfadonhos e “mutcholocos”. O perfil autobiográfico fala de seu próprio processo de desintoxicação de drogas numa clínica européia e mostra que Rooks estava em dia com a modernidade da época – daí a presença não apenas de Ginsberg (chato, como sempre) e Burroughs (genial, como sempre), como de Ornette Coleman, de Ravi Shankare do grupo Fugs.

Como cinema, “Chappaqua” é quase uma bad trip, fundindo experimentalismo barato com idéias pueris quase à maneira dos Beatles em seu “Magical Mystery Tour”. Mas, como o filme psicodélico dos Fab Four, o de Rooks funciona quase como um documentário de uma época em que não era preciso fazer muito sentido para ser aceito. Bons tempos, de fato.

Já os documentários martelam no prego e no dedo, cada um deles. O de Kerouac é correto e bem realizado, e começa e termina com sua clássica entrevista ao apresentador Steve Allen, quando foi apresentado ao público médio americano. Cuidadoso, John Antonelli entrevista pessoas diretamente envolvidas com o autor e traça um retrato didático do papel de Kerouac na literatura americana e no pop mundial.

Mas o de William Burroughs, por mais triste que possa parecer, é pífio. Gira em torno de uma leitura feita pelo autor em 1991 (acompanhada por urros constrangedores da platéia) e uma entrevista transbordando obviedade por parte do entrevistador, com clipes de “cut-ups” inspirados na técnica inventada por Burroughs.

Opta por ser não-linear e se perde no meio do caminho, com o entrevistador Jürgen Ploog mais interessado em ver o autor repetir suas máximas (“a linguagem é um vírus”, seus conselhos a jovens autores, sua fascinação com armas, seu exílio em Tânger) do que travar alguma tentativa de diálogo com o autor. Uma pena: mesmo com momentos de brilho proporcionado pelas leituras entusiasmadas feitas pelo velho Bill, o documentário não chega nem a cutucar a curiosidade dos leigos ou a fazer os iniciados suspirarem – no máximo, de tédio.

Engraçado é que, entre os extras do filme sobre Kerouac, há um trailer de um documentário sobre Burroughs que não é o filme dirigido por Klaus Maeck. Com abordagem similar ao de Antonelli, parece mais palatável e respeitoso. Afinal, um documentário não precisa ser genial – basta ser correto para já estar no lucro.

CHAPPAQUA: ALMAS ENTORPECIDAS
Distribuição: Magnus Opus (R$ 39)

KEROUAC: O REI DOS BEATS e BURROUGHS: POETA DO SUBMUNDO
Distribuição: Magnus Opus (R$ 78,50)

agosto 16, 2006

Lunático

Essa também saiu na Folha de hoje, mas pelo jeito, só na edição paulistana, porque não tá online. Enfim, segue...

Marcelinho Da Lua mostra seu set hoje no Studio SP

“É quase o final do ciclo”, explica o DJ carioca Marcelinho Da Lua, que discoteca hoje no noite Coleta Seletiva, do coletivo Instituto, no Studio SP. “Só não é o final ainda porque tem essa etapa que começa hoje”, continua. Ele fala do lançamento do terceiro clipe extraído de seu disco de estréia, “Tranqüilo”, lançado em 2004, e de seu próprio site oficial, o www.marcelinhodalua.net. Na verdade, mais uma desculpa para tocar na cidade com seu trabalho solo do que motivos para reaparecer com um show.

“Mesmo porque não é um show, é um set de DJ com um MC”, explica Da Lua, chamando a atenção para a presença do MC Ângelo, único integrante de sua banda a o acompanhar nesta vinda a São Paulo. “A idéia desta noite de quarta é fazer o meu set tradicional, com um pouco de jungle, um pouco de reggae, umas coisas latinas e outras brasileiras”.

Set que é responsável por manter o nome de Da Lua como um dos principais DJs do gênero na atividade: há quase oito anos, ele comanda, ao lado do DJ Yanay e do jornalista Calbuque, a noite Febre, dedicada ao jungle e drum’n’bass e que hoje acontece todas as quintas-feiras na Casa da Matriz, em Botafogo.

Da Lua também é integrante do trio Bossacucanova, que tempera a bossa nova clássica com pitadas digeríveis de música eletrônica, o que tem garantido mais apresentações no exterior do que no Brasil. “Estamos conseguindo equilibrar isso melhor”, continua o DJ, “porque realmente estávamos fazendo mais shows lá fora do que aqui. No ano passado, talvez um pouco antes, conseguimos chegar mais perto do nosso público daqui”.

Foi a conexão Bossacucanova que o aproximou do cantor e compositor Marcos Valle, ícone da MPB for export, com quem toca na quinta e na sexta-feira, em apresentações no Bourbon Street e no Tom Brasil. O show de quinta é apenas para convidados, mas o de sexta é aberto ao público, com ingressos que vão de R$ 30 a R$ 200.

“Conheço o Marcos desde 94 e ele é parceiro do Bossacucanova”, lembra o DJ, “chegamos até a compor juntos, na faixa ‘Queria’ do nosso último disco, além de tocarmos músicas dele”. Além de Da Lua, os shows de Marcos Valle contam com a participação da cantora Roberta Sá, do músico e compositor João Donato, do cantor Ed Motta e do músico Celso Fonseca. A curadoria deste show foi de Nelson Motta.

Mas voltando para a carreira solo de Da Lua, ele já fala em um segundo disco. “Mas comecei agora, vou lançar, se tudo der certo, depois do carnaval do ano que vem”, conta, explicando que já está pensando em parceiros para o CD, a exemplo do primeiro. “Vou repetir um pessoal, como a Mart’nália e o Black Alien, mas quero incluir o BNegão, o Fred Zeroquatro, os caras do Ultramen, o João Donato…”, enumera, “na verdade, o disco ainda tá muito no começo, por isso só pensei em duas coisas: ter mais brasileiros do que gringos como convidados e ter uma atmosfera setentona, aquela sonoridade entre 70 e 74, que é a época que eu mais curto em termos de som. Claro que há excessões, mas aquele som é demais”.

DJ Marcelinho Da Lua na noite “Seleta Coletiva” – Hoje, a partir das 23h, no Studio SP (R. Inácio Pereira da Rocha, 170, Vila Madalena, São Paulo. Tel: (11) 3817 5425). Ingressos: R$ 15,00 (com nome na lista, R$ 10,00 – lista@studiosp.org)

O Homem Duplo

Essa saiu na Folha de hoje...

De volta para o futuro

The two hemisphere in my brain... are competing?

Dirigido por Richard Linklater e com Keanu Reeves, "A Scanner Darkly" é baseado em um insólito conto de Philip K. Dick

Filme estreou no mês passado nos EUA; projeto de uma cinebiografia do escritor americano está em andamento, diz sua filha

O maior atentado terrorista que não aconteceu, uma facção criminosa seqüestra um jornalista para que se veicule em rede nacional um comunicado sobre direitos dos presidiários ou o lento genocídio no Líbano tratado como um assunto corriqueiro em capas de jornal. A realidade atual parece assombrada pelas projeções fatalistas dos livros de Philip K. Dick (1928-1982), cuja influência permanece cada vez mais presente.

E – tudo bem, exagero –também o fato de um filme do diretor de “A Escola do Rock” estrelado por Keanu Reeves, Wynona Ryder, Woody Harrison e Robert Downey Jr. ainda não ter previsão de estreiar nos cinemas brasileiros, cogitado até mesmo para partir direto para o DVD, sem projeções na tela grande.

Este parece ser o triste fim do inacreditável “A Scanner Darkly”, dirigido por Richard Linklater, que estreou no mês passado nos EUA, sem mover ponteiros consideráveis nas bilheterias mas ganhando altas notas da crítica. Baseado num dos livros mais insólitos do autor – “O Homem Duplo”, que só tem versão em português em Portugal – o filme é inteiramente feito usando a técnica da rotoscopia, em que atores são filmados e transformados em animação a partir de seus movimentos originais. Linklater já tinha usado esta técnica em seu pequeno clássico “Waking Life”, uma animação cabeçuda em que ponderava sobre o sentido da vida a partir de diálogos de pessoas diferentes em lugares diferentes.

“Nós nos envolvemos muito para trazer essa história para a tela”, explica Laura Leslie, 36, filha mais velha do escritor. “Eu e minha irmã Isa tivemos acesso ao roteiro original de Ric, mas antes de concordarmos em confiar a história para ele, sentimos que precisávamos conhecê-lo pessoalmente. Como o livro é muito autobiográfico, tínhamos que saber se a sua visão era fiel ao texto”.

“Ficamos muito satisfeitas com o filme”, continua Laura, responsável pelo espólio do escritor. “Isa expressa isso ainda melhor quando ela diz que o livro foi escrito como uma carta de amor do nosso pai aos seus amigos que se perderam com o uso de drogas. Ric o adaptou lindamente. Ele também captou o humor maravilhoso entre os personagens principais no começo do livro”. Este humor é valorizado pelos diálogos entre os personagens de Robert e Woody, que se empolgam em diálogos chapados sobre assuntos diferentes, atores que têm seu próprio envolvimento com drogas – o primeiro foi para a cadeia graças a drogas pesadas, o segundo é um conhecido ativista pró-maconha.

“Scanner Darkly” se passa num futuro bem próximo (daqui a sete anos), quando o governo monitora as ações de todos os cidadãos e usa a dependência em drogas pesadas – em especial, a “substância D”, droga futurista em cápsulas que permeia todo o filme. No meio de tudo isso, temos o personagem de Keanu Reeves – um policial viciado que é posto para vigiar seus próprios amigos – revivendo seu Neo de “Matrix”, trilogia que, apesar de não citar, vinha coberta de referências à obra de Philip K. Dick.

Mas o Neo de K. Dick não sabe se ele é Neo ou Thomas Anderson, não tem certeza de qual realidade em que ele realmente vive (é um amoroso pai de família, um drogado ou um policial?) e mantém uma constante guerra entre os hemisférios direito e esquerdo de seu cérebro.

Pelo filme, alguns dos temas favoritos do escritor, como a fragilidade ao determinarmos o que é real, o estado-policial que controla tudo, o tráfico de drogas como justificativa para a paranóia generalizada, tanto individual quanto institucional. Itens de ficção científica que K. Dick usava para divagar sobre a natureza da existência e da realidade, o propósito da vida, o sentido de tudo. Filosofava fingindo escrever histórias futuristas.

“Certamente há muitos aspectos da vida atual que ele já estava preocupado e escreveu sobre isso no começo dos anos 50”, continua Laura. “O que ele pensou que era paranóia naquela época infelizmente se tornou rotineiro hoje em dia. Eu poderia listar dez coisas que apareceram em seus livros que agora são comuns, como homens-bomba, no conto “Impostor”; a internet, num livro inédito chamado “The Acts of Paul”; espionagem doméstica, que era um tema comum em vários livros, entre outros…”

Além de “A Scanner Darkly”, que deve sair em DVD nos EUA no final deste ano, outros projetos retomam cada vez mais o nome de K. Dick. Além de dois livros saindo no Brasil (“O Homem do Castelo Alto” e “Valis”, veja ao lado), ainda está sendo produzido o filme “Next”, baseado no conto “Golden Man”, com Nicholas Cage, Jessica Biel e Julianne Moore. Adaptado para o cinema pela primeira vez no ano de sua morte (“Blade Runner”), a obra de K. Dick cada vez rende mais adaptações para o cinema, como as recentes “Minority Report” e “O Pagamento”.

“Minha esperança é que estas adaptações façam com que as pessoas descubram o trabalho do meu pai e venham conhecê-lo em livro”, continua Laura; “Encontrei muitas pessoas que falaram para mim que foram apresentadas à obra de Philip K. Dick graças a ‘Blade Runner’”. Ela e a irmã Isa acabaram de constituir a empresa Electric Shepherd (Rebanho Elétrico, em referência ao título original do livro que originou o filme “Blade Runner” que, em inglês, perguntava se os andróides sonham com ovelhas elétricas), dedicada a supervisionar adaptações dos livros de PKD – mas elas não adiantam os títulos com os quais estão trabalhando.

Mas Laura comenta a anunciada cinebio sobre seu pai, com Bill Pullman vivendo o escritor. “Não estamos envolvidas com este projeto, nem ninguém que conheceu ou escreveu sobre o meu pai. Tememos que esta biografia possa focalizar apenas nos componentes sensacionalistas da sua vida”, lamenta.

“Isso fez com que concluíssemos que nós devemos ser a força-motriz por trás de um filme mais compreensivo sobre o nosso pai. Desde o ano passado, estamos trabalhando em uma cinebiografia de nosso pai com cuidade e de forma seletiva, trabalhando com pessoas em Hollywood que reconhecem o trabalho dele e em quem podemos confiar para lidar com as complexidades de sua vida. Acreditamos termos encontrado parceiros sensíveis e cuidadosos em Paul Giamatti (de “Anti-Herói Americano” e “Sideways”) e a na Anonymous Content (produtora de filmes como “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” e “Quero Ser John Malkovitch”)”, revela.

"O Homem do Castelo Alto" e "Valis" chegam às livrarias até o final do ano

Se o filme não chega ao Brasil, o mesmo não pode se dizer sobre os livros. A editora Aleph, responsável pelo relançamento no Brasil de clássicos da ficção científica como “Neuromancer” de William Gibson e “Laranja Mecânica” de Anthony Burguess, lança dois livros de K. Dick ainda este semestre.

O primeiro deles chega às livrarias no começo de setembro e é uma de suas obras-primas. “O Homem do Castelo Alto”, publicado em 1962, se passa no começo dos anos 60 em um mundo em que o Eixo ganhou a Segunda Guerra Mundial e dividiu os Estados Unidos em duas metades: a Costa Leste ficou com a Alemanha e a Costa Oeste com o Japão. Outras conseqüências da vitória nazista garantem o extermínio dos povos africanos, a transformação do Mediterrâneo em lavoura e a colonização espacial.

Mas a maior parte da ação acontece na Los Angeles orientalizada, em que um oficial do exército japonês e um judeu fugitivo têm seus caminhos estranhamente cruzados à medida em que um é fascinado pela memorabilia americana da primeira metade do século e o outro é um falsificador destes itens. Acrescente à história um misterioso escritor – o personagem do título – que lançou um livro clandestino em que fala de um mundo em que os Aliados venceram a Guerra e um matador de aluguel posto em seu encalço, discussões sobre autenticidade e cópia e personagens guiados pelo I-Ching (como era o próprio autor durante a escrita do livro) e, voilá, um clássico.

“Valis”, o segundo livro de K. Dick a chegar nas livrarias este ano, não é propriamente ficção. O livro foi escrito após um surto esquizofrênico (ou uma revelação divina, ele mesmo nunca soube responder) que aconteceu com o escritor no meio dos anos 70, quando ele passou dois meses achando que habitava duas épocas diferentes ao mesmo tempo e parecia ter descoberto o sentido da vida.

Escritor da geração seguinte à época de ouro da ficção científica (de nomes como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov), K. Dick escrevia constantemente e fazia livros para pagar as contas, se submetendo a sessões de escrita que duravam dias e eram abastecidas com comprimidos e bolas para não dormir. Aliado ao fato de ter perdido a irmã gêmea no parto e a casos de esquizofrenia na família, o consumo de drogas o isolou e o tornou paranóico, levando, em última instância, à visão que teve na década de 70.

“Valis” (1978) é um calhamaço que funciona, ao mesmo tempo, como tentativa de explicar o que aconteceu naquele período e de exorcizar fantasmas que o acompanhavam desde então. O livro nunca foi publicado no Brasil, ao contrário de “Castelo Alto”, que foi publicado nos anos 60, mas está fora de catálogo.

Philip K. Dick no cinema
Cinco filmes baseados na obra do autor

“Blade Runner” (1982), de Riddley Scott, com Harrison Ford e Rutger Hauer.
Um exercício de estilo fantasiado de divagação sobre a existência, “Blade Runner” não apenas extinguiu o futuro clean de “2001” como inventou o cyberpunk, como estética.

“O Vingador do Futuro” (1990), de Paul Verhoeven, com Arnold Schwarzegger e Sharon Stone.
Douglas Quaid é um pai de família que sonha em ser um agente secreto salvando Marte da destruição ou é um agente secreto que apagou a própria memória para ser apenas um pai de família?

“Minority Report” (2002), de Steven Spielberg, com Tom Cruise e Max Von Sydow.
E se um policial, cuja missão é prender antecipamente assassinos antes de eles cometerem um crime, cometer um crime? Quem o prende?

“O Pagamento” (2003), de John Woo, com Ben Affleck e Uma Thurman.
Michael Jennings é um engenheiro que desmonta lançamentos da concorrência e os remonta para seu chefe – mas para isso, ele sempre deleta o que fez, para não vender para ninguém. Até que um dia, ele começa a ser perseguido – sem saber porquê.

“A Scanner Darkly” (2006), de Richard Linklater, com Keanu Reeves e Wynona Ryder.
Uma fantasia que se camufla com partes de 4 mil pessoas diferentes (só assistindo!), insetos imaginários, realidades paralelas, drogas sintéticas e um final lindamente phildickeano, com monólogo mea culpa e a poesia da resistência. Espetacular – e isso sem contar o visual.

julho 30, 2006

Milosevic Garage

Essa também saiu na Folha de hoje, no Mais!. Vale ir atrás, o livrinho é istaile...

Ondas rebeldes

"Rádio Guerrilha" narra a Guerra da Bósnia a partir das emissões de uma emissora alternativa

Era 1992 e o tempo fechava sobre a ex-Iugoslávia. Com seu comandante eleito, o ex-comunista Slobodan Milosevic a atiçar velhas rixas étnicas em nome do renascimento quase sagrado de uma Sérvia ancestral, um lento e doloroso Vietnã começava a ser desenhado no mapa do Leste Europeu, recém-ingresso no mundo capitalista após a falência do sistema soviético.

Na contramão dos países que antes formavam a Cortina de Ferro, o antigo império dos Balcãs entrava em uma ditadura arcaica, que fingia não interferir no nacionalismo extremo e no genocídio desenfreado, quando, na verdade, era seu principal incentivador. E sob aquele clima de paranóia, perseguição e proibição que acompanha qualquer guerra, uma pequena rádio jovem resistia bravamente à programação de mídia estatal e à agenda de Milosevic, intercalando relatos e depoimentos da linha de frente do campo de batalha com doses cavalares de Clash, Pixies, Public Enemy e Sonic Youth.

Versão chapa-branca
Até que, um dia, seus ouvintes se deparam com outra rádio, embora atuando sob o mesmo nome. Fora o pop barulhento vindo do exterior e o dedo na ferida de seu noticiário; em seu lugar, canções tradicionais e hinos militaristas se alternavam com versões chapa-branca para os acontecimentos no país.

A conclusão dos ouvintes foi inevitável: censuraram a rádio. E eles passaram a ligar para a emissora, quando eram atendidos por uma telefonista igualmente correta, que apenas dizia que a rádio era a mesma, mas havia mudado um pouco.

Depois de quase um dia inteiro de reclamações, o diretor da rádio, o jornalista Veran Matic, baixou a guarda e revelou que tudo não passava de uma brincadeira baseada nos rumores de que a rádio seria fechada.

Foco de resistência
Voltou a tocar, no dia seguinte, sua programação normal, incluindo os telefonemas dos ouvintes indignados com a mudança editorial de mentira. Só uma coisa mudou: seu slogan passou a ser "não confie em ninguém, nem na gente".

Esse é um dos inúmeros "causos" reunidos no livro "Rádio Guerrilha - Rock e Resistência em Belgrado", do inglês Matthew Collin, que conta a história da emissora B92 -depois, B2-92-, uma brincadeira de estudantes de comunicação que se tornou um dos principais focos de resistência política quando o horror da guerra assolou a velha Iugoslávia.

A rádio foi criada em 1989 como uma espécie de paródia às comemorações do aniversário do antigo líder comunista Tito, morto em 1980, para ter apenas duas semanas de existência. Mas a brincadeira deu gosto e logo a rádio continuaria com duas frentes que se bicavam: a do jornalismo independente e a da rádio rock. A fonte de atrito vinha do jornalismo da emissora, que achava que a rádio tinha uma programação musical extrema, que repelia ouvintes em potencial.

Mas prevaleceu a visão de Veran Matic, estudante de literatura que abandonou a vida acadêmica para dedicar-se ao jornalismo na prática. Ele acabou como uma das principais vozes do programa de rádio dos anos 80 "Ritam Scra", que, ao lado do núcleo de jornalismo Index 202, tornou-se a base da B92.

Com pouco mais de 30 anos, boêmio e afeito ao amadorismo radiofônico por definição, Matic era um crítico de música respeitado que aos poucos se tornou um dos principais líderes de uma geração esmagada pela guerra -embora rejeitasse sempre esse papel.

Conglomerado de mídia
Cabeça da emissora, ele foi o responsável por mantê-la sempre à frente de sua época -tanto de seus detratores quanto de seus fãs- e por transformá-la num pequeno conglomerado de mídia alternativa, com editora, gravadora, emissora de TV e centro cultural.

Era um dos homens de mídia mais respeitados dos Bálcãs, a despeito das tentativas de interromper suas atividades. Ao acompanhar a saga da rádio, Collin, autor do ótimo "Altered State - The Story of Ecstasy Culture and Acid House" (Estado Alterado - A História da Cultura do Ecstasy e da Acid House), aproveita para contar a Guerra da Bósnia de uma forma simples e enxuta, ao mesmo tempo em que descreve a degradação e queda de Belgrado como amostra do que a guerra pode fazer a um país.

Mas tudo isso com um texto leve e bem-humorado -por vezes cínico- que equilibra tão bem as melhores qualidades da rádio: relatos pop disfarçados de jornalismo e jornalismo disfarçado de relato pop.

RÁDIO GUERRILHA - ROCK E RESISTÊNCIA EM BELGRADO
Autor: Matthew Collin
Tradução: Marcelo Orozco
Editora: Barracuda (tel. 0/xx/11/3237-3269)
Quanto: R$ 44 (336 págs.)

Sunday Wonderland

Alice às 13h de um domingo frio como esse me parece um ótimo programa, que acham? Mas se você acordou tarde (normal, ó o frio), vê se pega o Terkel, que é engraçadaço. Essa saiu na Folha de hoje.

Exibição de clássicos Disney encerra festival Anima Mundi

"Você Já Foi à Bahia?", de 1945, é um dos destaques de hoje no Memorial

O último dia do Anima Mundi 2006 será encerrado com a exibição de dois clássicos dos estúdios Disney: “Você Já Foi à Bahia”, de 1945, e “Alice no País das Maravilhas”, de 1951. Os dois filmes são uma amostra do trabalho da animadora Mary Blair, tema das palestras de um dos convidados internacionais do festival, o vencedor do Oscar John Canemaker.

Preferida de Walt Disney, Blair diferia do estilo hiper-realista do estúdio na época, que era influenciado pelo americano Norman Rockwell e pelas ilustrações européias para contos de fada. Ela usava uma paleta de cores quase surreal, de cores vivas e intensas, que são melhor demonstradas em “Você Já Foi à Bahia”, que apresentou o papagaio brasileiro Zé Carioca ao grande público, na adaptação do clássico de Lewis Carroll, além de “Cinderela”, de 1950, e “Peter Pan”, de 1953, e curtas .

Além dos dois filmes da Disney, o festival ainda tem outros dois longas como atrações de seu último dia: o brasileiro “Brichos”, de Paulo Munhoz e Tadao Miaqui, e o hilário musical politicamente incorreto “Terkel in Trouble”, dirigido pelos dinamarqueses Stefan Fjeldmark, Kresten Vestbjerg Andersen e Thorbjørn Christoffersen.

Hoje também acontecem as últimas sessões das mostras de alguns dos convidados desta edição do Anima Mundi, como a produtora brasileira TV Pingüim, os animadores britânicos MacKinnon and Saunders, do israelense Gil Alkabetz e do norte-americano John Canemaker, vencedor do Oscar de animação deste ano.

Anima Mundi, último dia

Alice no País das Maravilhas – Às 13h, na Sala II
Você Já Foi a Bahia – Às 15h, na Sala II
Mostra TV Pingüim – Às 15h, na Sala III
Brichos – Às 16h, na Sala I
Terkel in Trouble – Às 18h, na Sala I
Mostra MacKinnon and Saunders – Às 19h, na Sala II
Mostra Gil Alkabetz – Às 21h, na Sala II
Mostra John Canemaker – Às 22h, na Sala III

Anima Mundi 2006 – Último dia do festival, que acontece no Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade 664. Barra Funda. (11) 3823-4600). Ingressos a R$ 6,00 (Salas I e II) e R$ 3,00 (Sala III).

julho 28, 2006

O bom e velho rock'n'roll

Essas saíram na Ilustrada de hoje.

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Angeli sem crise

"Wood & Stock", filme com seus personagens, é atração no festival Anima Mundi

Angeli talvez seja um dos pais do rock brasileiro. Tudo bem que Roberto Carlos, Rita Lee e Raul Seixas vieram antes, mas para uma geração crescida sob a sombra da ditadura militar - quando ou você cantava as canções de exaltação à pátria ou cantava as canções da resistência, e se ouvisse música estrangeira era tachado de alienado político - foi o cartunista paulistano, que completa 50 anos no próximo dia 31 de agosto, quem melhor traduziu o que era o rock para um país submerso na MPB.

Com os personagens criados nas páginas da extinta revista “Chiclete com Banana”, que editava por conta própria nos anos 80, ele foi criando personagens para traduzir a fauna revelada com a queda da ditadura. Enquanto a Blitz e o rock carioca revelava o prazer de ser jovem depois da abertura política, Angeli descortinava uma São Paulo pós-industrial cheia de defeitos de fabricação em forma de gente. O punk Bob Cuspe, a gótica boêmia Rê Bordosa, o paranormal Rampal e o gay Nanico. Cada figura urbana criada pelo desenhista também encerrava uma tribo quase sempre ligada a um gênero musical, a uma série de hábitos desenhados pela própria história do rock. Sequer precisava citar preferências musicais para saber que o Meiaoito é viúva da MPB e que os Skrotinhos ouvem new wave.

Duas de suas criações saem das páginas do jornal para ganhar outros rumos. A dupla de velhos hippies Wood e Stock estrelam o primeiro longa baseado na obra de Angeli, que será exibido amanhã no Anima Mundi. “Wood & Stock - Sexo, Orégano e Rock'n'Roll”, do gaúcho Otto Guerra, reúne não apenas o núcleo bicho-grilo do título (a esposa Lady Jane, o filho Overall), mas quase todos os personagens criados pelo paulistano.

O outro lançamento são os livros que compilam as histórias do pré-adolescente Ozzy, filho da geração Nirvana que era publicado pela Folhinha durante os anos 90. São quatro volumes ao todo, dois deles saem agora e os outros dois em novembro.

Qual foi o seu envolvimento com o filme “Wood & Stock”?
Bom, eu cedi todo o meu material desde, hm, 84 para o Otto fazer o que quisesse, como referência gráfica e de roteiro. E fiquei meio como consultor. Detalhes, coisas do personagem que eu conheço porque eu os criei: tem uma cena em que o Wood, o Stock e a Rê Bordosa tomam um treco, piram e saem às gargalhadas. Epa: a Rê Bordosa não dá gargalhada. Detalhes assim, mas não interferi tanto. Eles me mandavam trechos e eu via.
Mas eu sou jornalista, eu trabalho num dia e no dia seguinte tá no jornal – e agora, com internet, tá na rua em cinco minutos. Então esse ritmo de cinema pra mim é muito moroso, muito lento, aí chegava algo pra mim, um trecho, e eu lembrava que o filme estava sendo feito (risos).
Depositei toda minha confiança no Otto porque ele é um cara como eu, da minha geração, a gente ouviu as mesmas coisas, tomamos as mesmas coisas, eu conhecia o trabalho dele e foi uma boa. Se eu fizesse o filme, ele seria completamente diferente, porque eu sou virginiano meticuloso e fico completamente obcecado com detalhes. Mesmo no filme pronto, reparo que o dedo mindinho do personagem tá uma nesga fora do lugar que deveria ser o certo. Mas eu já vi o filme umas cinco vezes e sei que é coisa minha, ninguém percebe.

O filme tem o andamento que você imaginava para os personagens?
Sim, acho que ele conseguiu pegar o ritmo dos hippies velhos, lentos, cansados…

É uma boa adaptação de uma história em quadrinhos para a animação?
Eu acho, me senti confortável com ele.

Você já havia cedido personagens para animação em um comercial de cerveja…
Sim, os Skrotinhos. E também usei o Moska, que é um coadjuvante do Luke & Tantra, para umas vinhetas curtas para o Cartoon Network. O trabalho do animador, Daniel Messias, foi muito bom. Já o comercial de cerveja eu tive que bater o pé em uma série de aspectos – era uma empresa (risos) – para fazer do jeito que eu quis. Neste, eu fiz os desenhos e os animadores do comercial, muito bons também, deram movimento. Gostei das duas, têm uma animação fluente, e os Skrotinhos tinham as vozes perfeitas, feitas pelo José Rubens Chachá, que eu recomendei…

E as vozes do longa?
Gostei . A primeira versão da voz do Stock era ainda mais paulistana – “orra, meo” – e eu gostava mais, mas preferiram deixar mais brando, pro filme ficar sem um sotaque específico. E a Rita Lee é perfeita, ela mesmo fala que as tiras da Rê Bordosa são a biografia não-autorizada dela (risos).

Você não acha que a relação em comum entre seus personagens, sejam os velhos Wood e Stock ou o garoto Ozzy, é o fato de eles representarem uma determinada tribo urbana quase sempre ligada ao rock’n’roll?
Com certeza. Mesmo no meu trabalho com charge, eu tenho essa pegada rock, essa pegada punk.

Você também tem consciência de que você apresentou a história do rock para pelo menos duas gerações…
Tenho. Sempre tive. Desde a época da Chiclete com Banana (revista que Angeli editava nos anos 80), eu sabia desse aspecto didático. Mas eu nunca me preocupei com isso. Eu nem acompanho quadrinho, quase nem sou desse ramo (risos). Minha literatura é toda de crítica de comportamento e uma visão política sobre o ser humano, que é muito pouco quadrinho… Talvez o Wolinski, que tem essa coisa de se colocar como personagem, para emitir opiniões.
Mas a Chiclete tinha uma linha editorial séria e eu não queria aviltá-la. Percebia cada vez mais o discurso da revista e chamava colaboradores que tivessem a ver com ele. Eu recebia cartas de pessoas que tinham montado banda porque liam a Chiclete, me mandavam discos independentes. Mesmo cartunistas, um monte de caras que eu gosto até hoje, como o Adão (Iturrusgarai) e o Allan (Sieber) foram na onda da Chiclete, o primeiro desenho do Adão saiu na seção de cartas da revista (risos)!
Mas sou contra esse papo que eu sou um mito, “Angeli, o Herói da Contracultura”. Odeio esse papo de herói…

Você não tem essa preocupação com o leitor nem quando escreve para crianças?
Não. Foi um desafio que eu me propus, porque eu sempre me achei pesado, imagina pra criança. Eu fiz o Ozzy depois de um convite da Folha, na época em que meu filho tinha a idade do Ozzy. Foi quando comecei a absorver informação através dele, sobre internet, da geração Seattle, skate, grunge, essas coisas e o Ozzy se tornou um laboratório de um humor feito para outra geração.

Um humor que acaba evolui no Luke & Tantra.
É. Ali eu tou mais à vontade. Com o Ozzy, eu não posso ir fundo, mas Ozzy, Luke e Tantra são da mesma geração. Eu só os fotografo em momentos diferentes.

Você disse que considera seu humor pesado para crianças, mas a geração Ozzy tem muita informação sobre coisas bem mais pesadas…
É, eu sei. É uma geração que não se assusta com assuntos, pode ser serial killer ou sexo anal, pra eles é tudo normal e tudo meio sem graça. É uma geração sem tabus. Mas só falar disso não dá em nada, tem que ter alguém pra explicar, alguém do lado…E eu não sei se sou esse alguém.

E em relação à música, você baixa música na internet?
Não, nunca. Eu não sei se vem música mesmo (risos). Escuto música no aparelho de som, compro CDs. Já fui mais atuante nesse departamento, mas eu tento me atualizar. E escuto de tudo. No carrossel de CDs do meu som, por exemplo, agora tem um violinista dos anos 20, o disco do Kills e um Jimi Hendrix.

Que mais você tem ouvido de banda nova?
Pouca coisa, tento me atualizar, mas como eu disse, já fui melhor. Gosto do Kills que eu falei, do Franz Ferdinand, do Arctic Monkeys… Eu gosto do Lou Reed, que tem essa coisa de fazer uma música séria e adulta, mas rock mesmo é coisa de moleque, barulhenta, senão não tem graça.

E quais são os próximos projetos?
Eu estou numa história longa meio autobiográfica que vai falar um pouco da minha geração, não só de mim. Falar de coisas que as pessoas quem têm a minha idade possam lembrar, ver o comportamento da minha geração. É meio que o início de um livro de memórias, que eu ainda não batizei. Mas tem lá as primeiras vezes todas, meu primeiro disco…

Qual foi?
O compacto de “Satisfaction” dos Rolling Stones.

E que mais você tem em andamento?
Tem coisas que não são minhas, são baseadas em obras minhas, como o filme da Cristiane Ticerri sobre a Mara Tara, que é uma personagem quase bissexta, saiu em umas três histórias, mas que tem um público feminino muito grande. E como ela é baseada nesses filmes de terror B do tipo “O Médico e o Monstro”, eu acho que ela vai funcionar bem como cinema, em vez de animação. E a Grace Gianoukas, da Terça Insana, pegou minhas coisas para adaptar para o teatro, que deve sair ainda esse ano…

Alguma chance de ver Angeli em Crise no palco?
Comigo? De jeito nenhum! Isso eu não faço! Evito fazer certas coisas, nos anos 80 eu apareci demais, até em tampa de privada! Só sou um desenhista, eu não sei fazer outra coisa, me deixem (risos)…

Lisérgico, filme tem voz de Rita Lee

Rita Lee dubla Rê Bordosa, a voz de Tom Zé cita trechos de letras saídos de um Raul Seixas de alucinação, músicas de Júpiter Maçã e Arnaldo Baptista intercaladas por baseados feitos de orégano. Enquanto desfilam nomes como Rhalah Ricota e Mara Tara, às vezes como figurantes. O filme de Otto Guerra parece uma viagem lisérgica em marcha lenta com a cara enfiada em uma velha edição da “Chiclete com Banana”.

Mais do que um bom filme, “Wood & Stock” é uma senhora homenagem, não apenas aos personagens, mas ao traço de Angeli. Diferentes de adaptações que não fazem jus ao traço do desenhista original (em que o “Fritz the Cat” de Crumb, adaptado por Ralph Bakshi, é o melhor exemplo), o filme parece ter sido feito pessoalmente pelo desenhista - cenários, personagens, tudo. O barulho do rock traduzido como a sujeira visual que tanto caracteriza os anos 80 de Angeli.

Porque os anos 90, representados por Ozzy, são sujos mas não visualmente - e sim de informação. Às vezes os quadrinhos não têm história: são apenas listas e descrições de uma imagem relacionada ao garoto (o quarto, a mochila, um museu particular). Mas, como no filme, a sujeira quase sempre evoca o barulho - e quase dá pra ouvir a distorção da guitarra soando no fundo - tanto do filme quanto dos livros.

WOOD & STOCK: SEXO, ORÉGANO E ROCK'N'ROLL
Direção: Otto Guerra
Quando: sáb., às 21h
Onde: sala 2 do Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, SP, 0/xx/11/3823-4600)
Quanto: R$ 6

OZZY 1: CARAMBA! MAS QUE GAROTO RABUGENTO!
Autor: Angeli
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 24 (56 págs.)

Tá nervosa, 'Santa'?

Outra materinha que saiu na Folha da sexta.

Sieber lança "Santa de Casa", curta-celebração da carioquice

Filme está na programação de hoje do festival Anima Mundi, no Memorial

“Quando eu me mudei pro Rio em 99, fiquei dois meses sem sair do apartamento – sério! –, odiando tudo...”, ri o gaúcho Allan Sieber, cujo curta “Santa de Casa” será exibido hoje, no Anima Mundi (dentro da seção Curtas 6, que acontece às 20h na Sala I do Memorial). “Mas depois fui sacando a cidade e realmente gostando daqui. Tem outro acordo entre as pessoas, bem diferente do Sul. Hoje me sinto mil vezes mais em casa aqui do que em Porto Alegre”.

Tudo isso para concluir que o curta baseado no conto “Santinha Milagrosa”, de Aldir Blanc, é “uma homenagem mesmo à cidade e seus habitantes. Tem coisas hediondas como os governantes e essa miséria epidêmica, mas enfim...”.

Ilustrado ao lado do chargista Léo (seu parceiro de “F.”, a revista de humor que agora é distribuída pela editora Conrad), o curta se passa durante diferentes carnavais cariocas e conta a história de uma promessa feita por uma menina que sempre se cumpre durante a festa momina. Tudo desculpa para desfilar a fauna da Cidade Maravilhosa pelos blocos e bares de desenho animado.

“A idéia era homenagear a geração do Pasquim, caras como Jaguar, Fausto Wolff, Fortuna, Ivan Lessa, Aldir, Millor, caras que realmente quebraram a banca na época deles e o mais importante de tudo – continuam destruindo ainda, gênios absolutos. Esses caras na minha cabeça de gaúcho tapado sempre estiveram atrelados ao Carnaval - blocos, bebedeiras, Banda de Ipanema - , então além de colocá-los como personagem no curta resolvemos caprichar na bizarrice do bloco”, explica Sieber, que publica a tira “Preto no Branco” aos domingos na Folha. “Eu queria que o filme tivesse um clima de cruzamento entre ‘Vai trabalhar Vagabundo’ e ‘A Lira do Delírio’, uma coisa bem anos 70, inclusive nos diálogos, se você for ver não tem as óbvias piadas grosseiras que eu sempre uso, é mais uma tentativa de emular aqule clima e o humor da época”.

julho 26, 2006

Germanimation

Esse saiu na Folha de hoje.

Animações alemãs têm humor e leveza

Um grupo de bichos reúne-se na mesa da cozinha para decidir qual deles deve deixar o apartamento. Um senhor tem sua rotina de varrer folhas caídas quando pessoas começam a cair do céu. Um vizinho incomodado chama a polícia e engata uma série de acontecimentos em cadeia que viram o triunvirato sexo, drogas e dance music do avesso.

“Kein Platz Fur Gerold”, “Fallen” e “Mr. Schwartz. Mr. Hazen & Mr. Horlocker” são amostras diferentes da nova animação alemã, uma mais cética do que a outra, outra mais lírica e a terceira mais escrachada, mas todas as três – além de outras em exibição na 14ª edição do Anima Mundi, que abre hoje suas portas para o público paulistano – mostram que o humor voltou ao país.

“É uma espécie de luz no fim do túnel”, explica uma das organizadoras do evento, Aída Queiroz, “antes a animação deles era mais existencialista, niilista. Os temas continuam densos, eles não perderam essa característica alemã, mas a forma de contar ficou mais leve”.

Tanto que dois destes curtas, “Mr. Schwartz…” e “Bow Tie Duty for Squareheads”, receberam respectivamente, os prêmios de Melhor Primeira Obra segundo o Juri Popular da etapa carioca, ficando em primeiro e terceiro lugar na categoria, respectivamente.

A premiação, que foi revelada ontem, ainda valeu o título de Melhor Curta Metragem para “First Flight” da DreamWorks (que passa na sessão Curtas 12 nesta quinta e sábado), e o de Melhor Animação Brasileira para “Pax” de Paulo Munhoz (que passa na sessão Curtas 4 hoje, às 18h, e sexta, às 15h)

Bow Tie Duty for Squareheads, de Stephan-Flint Müller
Curtas 1: Quinta às 17h (Sala II) e sábado às 12h (Sala I)

My Date from Hell, de Tim Weimann e Tom Bracht
Curtas 2: Hoje às 14h (Sala I) e quinta às 19h (Sala II)

Apple on a Tree, de Astrid Rieger e Zeljko Vidovic
Curtas 3: Hoje às 16h (Sala I) e quinta às 21h (Sala II)

Kein Platz Fur Gerold, de Daniel Nocke
Curtas 15: Quinta às 14h (Sala I) e sexta às 19h (Sala II)

Fallen, de Peter Kaboth
Curtas 11: Quinta às 13h (Sala II) e sábado às 18h (Sala I)

Mr. Schwartz. Mr. Hazen e Mr. Horlocker, de Stefan Mueller
Curtas 17: Quinta às 22h (Sala I) ee sexta às 21h (Sala II)

Anima Mundi 2006 – Abertura para o público hoje, a partir do meio-dia com sessões de hora em hora até as 22h, no Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664. (11) 3823-4600. Barra Funda). Ingressos a R$ 6,00 (Salas I e II) e R$ 3,00 (Sala III – vídeo). O festival acontece até domingo. Maiores informações no www.animamundi.com.br

julho 25, 2006

Master of Puppets

Na Ilustrada de hoje.

Anima Mundi traz mestre de marionetes a São Paulo

A calma e o bom humor de um homem simples escondem e revelam, sutilmente, a presença de um mestre. Mas o epíteto que pode ser usado de forma banal, apenas para sublinhar a grandeza de um convidado internacional, vem em sua forma original. Paciente e didático, Kihachiro Kawamoto, 85, tem a franqueza rude, o ar tranqüilo e o dom de contar histórias que caracterizam um bom professor.

Ele é um dos nomes que a edição 2006 do festival Anima Mundi traz ao Brasil. O evento, que começou no último dia 14 no Rio, chega hoje a São Paulo, em festa para convidados, e abre ao público amanhã. Nesta quarta, também serão exibidos dois longas do japonês: "The Book of the Dead"/"Shisha No Sho" (na sala 2 do Memorial da América Latina, às 15h) e "Winter Days"/"Fuyu No Hi" (na sala 1, às 22h), além do "Papo Animado" com o diretor (na sala 3, às 19h30), quando serão exibidos os curtas "Oni", "Fusha No Sha" e "Kataku".

Kawamoto pode ser encarado como mestre por diferentes pontos de vista. Foi um dos primeiros artistas japoneses a desenvolver um trabalho autoral em animação quadro a quadro e seu trabalho com marionetes é responsável por algumas das melhores representações da essência do ser japonês, resgatando tradições como o teatro nô, bunraku (de bonecos) e kabuki.

No filme "Winter Days", por exemplo, Kawamoto reúne animadores do mundo inteiro para recriar, com imagens, 36 hai-cais do poeta Matsuo Bashô. "Eu comecei trabalhando com bonecos para ilustrar livros escolares e, posteriormente, fazendo animações para comerciais de TV nos anos 50", conta o diretor, "mas, ao conhecer o trabalho do [animador tcheco Jiri] Trnka, um dos pioneiros na animação de bonecos do mundo, parti para fazer este tipo de filme. Como não tinha técnica, escrevi para ele pedindo que me desse aulas".

A resposta do futuro professor levou seis meses, mas chegou. "Ele me escreveu uma carta amável e me convidou para ir para a então Tchecoslováquia".

"Aproveitei que as Olimpíadas no Japão [1964] tinham tornado as viagens de japoneses para o exterior mais fáceis e passei um ano no estúdio de Trnka. Foi ele quem sugeriu que eu tratasse de temas tradicionais japoneses, já que era um grande admirador desses temas."

Dono de um trabalho essencialmente pessoal, Kawamoto acredita firmemente nas características espirituais de seu trabalho, embora não queira pregar nem convencer os outros de sua fonte de fé, o budismo.

A rigidez espartana e o ritmo lento de sua direção contrastam com a forte expressividade de seus bonecos, fabricados por ele. Juntos, contam histórias densas e quase sempre de caráter sobrenatural, que chamam a atenção para a simplicidade do dia-a-dia.

"No Japão antigo, os bonecos eram uma forma de invocar os deuses, pois se acreditava que, como os homens tinham pecado e os bonecos não, eles não teriam tantam dificuldades para esses chamados", explica. Partindo desse princípio, Kawamoto busca o assunto de seus filmes no momento em que esculpe e molda os bonecos. "Ao fazê-los, busco minhas angústias sem que tenha de pensar nelas. E acredito que, ao fazer isso, estou em contato com as angústias de mais pessoas, mas, a princípio, penso apenas em mim. Assim, chego aos personagens, à época, às histórias."

Anima Mundi 2006
Quando: abertura para convidados hoje, às 20h; amanhã, a partir das 12h, para o público
Onde: Memorial da América Latina (av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, SP, tel. 0/xx/11 3823-4600)
Quanto: R$ 6 (salas 1 e 2) e R$ 3 (sala 3 - vídeo)
Site: www.animamundi.com.br

julho 18, 2006

''Noiva-Cadáver'' ressuscita no Brasil

Essa saiu na Folha de hoje.

“As crianças parecem relacionar-se universalmente com animações e fantoches. Talvez seja a visão simplificada e colorida do mundo ou um humor básico, mas há algo especial na animação que acende a imaginação delas”, assim Ian MacKinnon, sócio da MacKinnon & Saunders, uma das principais companhias de animação da Europa, resume o fascínio dos desenhos animados por parte das crianças.

MacKinnon é um dos convidados internacionais da edição 2006 do Anima Mundi e, apesar de conhecido por campanhas publicitárias e programas infantis (como o simpático “Bob o Construtor”), tem seus maiores sucessos comerciais em parceria com o diretor Tim Burton - os marcianos de “Marte Ataca!” e todo o universo de “Noiva Cadáver”, do ano passado.

“Eu e Peter (Saunders, seu sócio) conhecemos Tim Burton em 1995 quando ele nos convidou para criar os marcianos do filme 'Marte Ataca!'. Ele realmente queria que fosse uma homenagem a Harryhausen (Ray Harryhausen, um dos pioneiros da animação stop-motion em filmes como 'Jasão e os Argonautas', de 1963, e 'Fúria de Titãs' de 1981), com personagens de animação stop-motion tradicional. Trabalhamos juntos por oito ou nove meses, contudo houveram algumas dificuldades técnicas e no final foi mais fácil combinar animação com cinema usando computadores”.

“Os bonecos de 'Noiva Cadáver' tendem a forçar os desafios físicos ao limite absoluto, pois os personagens têm pés minúsculos e corpos altos e avantajados”, continua falando de seu trabalho com Burton, “mas a maior dificuldade é manter-se fiel à visão do diretor e fazer jus aos belos desenhos originais”.

“Longas saias vitorianas e vestidos de casamento, cabelo esvoaçantes e longos véus são coisas que usualmente você tende a evitar em animação em frames parados”, explica o inglês. “Trabalhar com animadores para superar estas dificuldades era apenas uma das partes do desafio de 'Noiva Cadáver'. O co-diretor do filme, Mike Johnson foi fundamental para que conseguíssemos levar o trabalho que já havíamos feito para outros níveis, porque ele sempre queria que as pequenas cabeças dos bonecos conseguissem mostrar movimentos faciais expressivos em closes bem próximos”.

Ian, que participou ontem do Papo Animado do festival (o que volta a acontecer amanhã), conversando com fãs sobre seu trabalho, apenas passará pela edição carioca do evento, que traz os bonecos de seu filme mais recente para exposição no Brasil, além de outros trabalhos de sua produtora.

“Eu sempre fui fascinado por fantoches desde criança”, lembra o animador. “Eu amava o trabalho que a oficina de Jim Henson (o criador dos “Muppets”) produzia. Quando deixei a escola, tive a sorte de trabalhar brevemente para o produtor de televisão, que fazia programas como os 'Thunderbirds', usando só marionetes. Eu também sempre fui um grande admirador dos filmes de Ray Harryhausen, mas eu nunca pensei que eu poderia aprender a técnica por trás destes filmes”.

“Por isso me entusiasmei quando me encontrei pela primeira vez com Peter Saunders, meu sócio atual, e o mundo da animação com bonecos foi aberto para mim”, conta. “Ele me ensinou as técnicas de filmar bonecos com stop motion e estamos trabalhando juntos há vinte anos, fazendo personagens para programas infantis, comerciais e filmes”.

“O que eu gusto nos filmes em stop-motion é o nível de controle que um animador pode trazer à performance em relação às marionetes e aos fantoches”, explica MacKinnon. “Há uma mágica real para mim no fato de um objeto inanimado, feito de borracha e metal, poder viver através das mãos de um bom animador a ponto de você achar que o personagem é real”.

PAPO ANIMADO COM IAN MACKINNON
Quando: amanhã, às 19h30
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil - rua 1º de Março, 66 - Rio de Janeiro

ANIMA MUNDI
Quando: de 14 a 23 de julho (Rio); de 26 a 30 de julho (São Paulo)
Onde: CCBB, Casa França-Brasil, Centro Cultural Correios e outros (Rio); Memorial da América Latina (SP). Programação e horários estão no site www.animamundi.com.br

julho 16, 2006

O Castelo Animado - Hayao Miyazaki

Essa também tá na Folha de hoje.

Uma inocente garota descobre um universo mágico que irá mudar sua forma de ver o mundo real – poderia ser “Alice no País das Maravilhas”, “Sex and the City” ou “O Mundo de Sofia”, mas é apenas mais uma incursão da mente metadisney de Miyazaki, um filósofo pacifista que decidiu passar suas mensagens criando um novo formato para o conto de fadas. Tradicional, psicodélico e encantador na mesma medida, o anime (como “Princesa Mononoke” e “A Viagem de Chihro” antes dele) mira o formato “família” da forma mais ampla possível, englobando velhos, crianças, animais, plantas, seres mágicos, andróginos e objetos (há um fogo – adorável, aliás – que fala!) num grande e ecológico sentido de “família terrestre”. Fora as paisagens, todas deslumbrantes. Um filme de encher os olhos.

Opinião: ''Simpsons'' não perderam o cinismo

Essa é a resenha pro primeiro episódio da décima-sétima temporada dos Simpsons, que saiu na Folha. Na edição impressa, o Lucio entrevista o Matt Groening.

De vez em quando pinta aquele papo: que Matt Groening quer fazer outros projetos (como se não fizesse), que a equipe de redatores está sem assunto pra escrever (como se isso fosse possível), que os dubladores gringos estão sendo mal pagos (como se não fossem pagar seu preço mais umas temporadas), mas não tem erro. Toda temporada os Simpsons voltam mais pesados, mais cínicos, mais pessimistas em relação à humanidade – mas igualmente amáveis, desfuncionais e otimistas em relação às pessoas como indivíduos.

“O Desafio dos Manatis”, primeiro episódio da 17ª (gasp!) temporada do desenho animado, mostra como os Simpsons nem começaram a chafurdar na lama que assola o planeta – eles apenas testam a temperatura e provocam sempre de forma agressiva sem se aprofundar nas questões que levantam apenas como piadas ilustrativas, de passagem. O desenho de Groening mostra que a TV – e, mais abstratamente, a mídia – se tornou o sexto elemento de uma sitcom familiar; e a TV pós-moderna, com suas centenas de canais a cabo, pay-per-views e 24 horas de canais de compra de qualquer coisa imaginável – de bate-papos eróticos por telefones a tapetes e jóias.

A história-base é simples e você conhece: Homer apronta, Marge sai de casa, se apega a alguma coisa diferente, Homer a convence de voltar de uma forma estúpida. No meio do caminho, esbarramos em um Papai Noel lendo Tom Clancy, bastidores de um filme pornô, playboys que esfolam bichos, um enterro com ar-condicionado, uma mãe psicótica que se vinga do marido com o carro, referências à máfia gay, Mr. Burns e Smithers brincando com água ao som de “Car Wash” e Moe falando que conhece “um cara que transforma cavalos mortos em carne seca e vende para os bares”, enquanto Homer devora um bastão desses. Simpsons nem começou sua verdadeira missão: desnudar a TV. E quando Homer pergunta à Lisa “onde está seu senso de magia e fantasia?”, sabemos que está em qualquer outro canal, basta zapear. Acreditar é que são elas.

julho 13, 2006

Oscar da animação é destaque de festival

Materinha de hoje na Folha.

“É uma nova Era de Ouro da animação”, comemora John Canemaker, um dos convidados estrangeiros do Festival Internacional de Animação, o AnimaMundi 2006, que começa amanhã no Rio de Janeiro e chega a São Paulo no dia 26. O evento chega à sua décima quarta edição com mais de 400 filmes de 40 países diferentes - números que refletem a boa fase da arte que já foi tratada como brincadeira para crianças, e que hoje praticamente domina o mercado de entretenimento, em níveis quase subliminares.

“Há mais oportunidades de emprego, mas meios para distribuição, mais possibilidades imaginativas para a arte do que nunca”, continua o convidado, vencedor de dois Oscars (melhor curta animado deste ano, por “The Moon and the Son”, e o melhor de 1988, “You Don't Have to Die”) e autor de vários livros sobre animação.

“As novas tecnologias borraram a fronteira entre animação e cinema - não poderiam haver filmes como “King Kong”, “Harry Potter”, “Superman Returns”, “Piratas do Caribe”, “Jurassic Park”, etc., sem animadores”, segue, empolgado. “A animação está na TV, na web, em iPods, celulares e videogames”.

Canemaker, autor de livros como “Treasures of Disney Animation Art”, “Felix - The Twisted Tales of the World's Most Famous Cat” e “Tex Avery - The MGM Years”, fará duas apresentações sobre dois nomes da primeira era da animação que já foram temas de livros seus: Mary Blair e Winsor McCay.

Mary Blair era uma das principais animadoras do estúdio Disney em sua fase clássica e foi a responsável pelo design de filmes cruciais para o estabelecimento da imagem do estúdio, como “Você Já Foi à Bahia” (1944), “Cinderela” (1950), “Alice no País das Maravilhas” (1951) e “Peter Pan” (1953), além de criar o passeio “Pequeno Mundo”, na Disneylândia.

“Walt Disney a amava e lhe dava espaço no estúdio”, conta John, “e isso era estranho, porque a estilização de Blair era o oposto polar dos desenhos tipo “ilusão da vida” associados aos filmes animados Disney, inspirados por Norman Rockwell e ilustradores europeus de livros de contos de fada. Seu trabalho é plano e estilizado de uma forma infantil e sofisticada, com uma paleta de cores agressivamente irreal. Ela era mais interessada em brincar com as cores do que com personalidades. Em sua vida pessoal, ela antecipava a mulher profissional moderna. Imitada por muitos, Mary Blair mantém-se inimitável - uma feiticeira deslumbrante do design e da cor”.

Já McCay, é “universalmente reconhecido como o primeiro mestre tanto da tira de quadrinhos quanto do desenho animado”, continua Canemaker. “Apesar de inventados por outros, ambos gêneros foram transformados em arte popular duradoura graças ao gênio inovador de McCay. Ele atribuía seu sucesso a uma 'ânsia absoluta de desenhar o tempo todo'”.

“Sua obra-prima é 'Little Nemo in Slumberland', que foi publicada pela primeira vez pelo jornal 'New York Herald', em 1905”, continua Canemaker. “É simplesmente a tira de quadrinhos mais bonita que existe, uma fantasia de sonho surreal repleta de evocações infantis tanto amáveis quanto grotescas, feito com um impressionante traço art noveau e um colorido sutil ainda que ousado e desenhado com layouts que antecipam técnicas de narrativa cinematográfica”.

“Os dez desenhos de McCay - entre eles 'Little Nemo' (1911), 'How a Mosquito Operates' (1912), 'Gertie the Dinosaur' (1914) - são marcos na história desta arte e eram imbatíveis no movimento fluido e na personalidade dos personagens até que os filmes maduros de Disney aparecessem, duas décadas mais tarde. E Disney foi um dos muitos animadores influenciados por McCay pelo mundo”.

As apresentações sobre Mary Blair acontecem no Rio (dia 20) e em São Paulo (dia 26), mas a de McCay só acontece no Rio (dia 22), sempre às 16h30. Canemaker também participa do Papo Animado, sessão de entrevistas aberta ao público, que acontece nas duas cidades - dia 21 no Rio e dia 27 em São Paulo, ambas às 19h30.

Entre os outros convidados internacionais do evento, estão o japonês Kihachiro Kawamoto, que exibe seus longas “Winter Days” e “The Book of the Dead”, e o inglês Ian Mackinnon, responsável pelas animações em filmes de Tim Burton, como “Marte Ataca” e “A Noiva Cadáver”.

julho 12, 2006

Cena psicodélica perde Syd Barrett

Meu obituário pro cara, saiu hoje na Ilustrada.

Tá certo que o luto à psicodélica estava mais para o escuro da sombra do que para o arco-íris technicolor há quase quarenta anos, mas a morte de Syd Barrett, líder fundador do grupo Pink Floyd e uma das principais personalidades dos anos 60 e da história da música pop, que aconteceu em Cambridgeshire na última sexta-feira, não deixa de ser um choque. Principal protagonista do mito do freak – o porra-louca que, quase sempre, via ácido, viaja e não consegue voltar –, Barrett mantinha-se vivo como a principal testemunha e prova viva do que pode acontecer a um gênio quando ele se entrega às drogas.

Não foi por menos que o baixista e vocalista Roger Waters, um dos líderes da banda após sua saída no fatídico 1968, saudou a volta da formação original do Pink Floyd, que aconteceu em julho do ano passado, no festival londrino Live 8. “É mesmo muito intenso estar aqui com esses três caras depois destes anos todos”, comemorou incrédulo no intervalo entre duas músicas, “mas, na verdade, estamos fazendo isso para todos que não podem estar aqui, e, particularmente, para Syd”. E a banda começou a tocar “Wish You Were Here” (“Gostaria que você estivesse aqui”), de 1975, composta em sua homenagem.

O anúncio de sua morte, provavelmente em decorrência de diabetes, que sofria há anos, aconteceu nesta terça-feira e o grupo logo publicou uma declaração a respeito do ocorrido: “A banda está naturalmente triste ao saber da morte de Syd Barrett. Syd era o farol na formação inicial da banda e deixa um legado que continua a inspirar”. Não deixa de ser irônico o fato de esta ser a primeira vez em que Roger Waters, David Gilmour, Rick Wright e Nick Manson se refererirem como “a banda”, pela primeira em 24 anos.

Capricorniano do dia 6 de janeiro de 1946, Barrett nasceu em Cambridge, onde formou o Pink Floyd, inspirado pela onda de rock de garagem dos anos 60 (resposta à Invasão Britânica dos Beatles e Stones) e pelo rhythm’n’blues original – de onde sacou o nome do grupo que, apesar de inicialmente dizer que viera de um sonho, logo revelou ter saído dos músicos americanos Pink Anderson e Floyd Council. Mas à medida em que começou a se envolver com drogas, ainda na adolescência, começou a derreter aquele rhythm’n’blues em algo mais… lisérgico.

Acompanhado de três estudantes de arquitetura (o tecladista Rick, o baixista Roger e o baterista Nick), começou a interferir radicalmente na estrutura das canções, adicionando elementos orientais, jazzísticos, caóticos – tudo tocado de forma simplista, com técnica limitada e ímpeto juvenil, mas que criava uma atmosfera única, multicolorida e excitante, que melhor traduziu as mudanças comportamentais na capital inglesa que a fez renascer das cicatrizes do pós-guerra. Não é exagero dizer que o Pink Floyd de Syd Barrett foi a força-motriz e o catalisador da Swinging London.

Gravaram seu disco de estréia – o maiúsculo “The Piper at the Gates of Dawn”, de 1967 –ao lado do estúdio em que os Beatles gravavam “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e condensaram a psicodelia londrina melhor que os quatro de Liverpool. Mas a lisergia que inspirava aos poucos passou a corroer, mais do que a criatividade, a sociabilidade de Syd Barrett. E, aos poucos, Syd começou a dar pala em público: não tocava no palco, ficava mudo em apresentações para a TV, tocava músicas diferentes das da banda. Chamaram o colega de faculdade David Gilmour para segurar a onda de Barrett por uns tempos, mas no início de 68, o fundador do grupo foi afastado e substituído oficialmente por Gilmour. Dali, começaria uma nova jornada, a transformação do Pink Floyd de culto underground a um dos maiores nomes da história do rock.

E a consolidação de Syd Barrett como a primeira e emblemática vítima do excesso. Outros – fatais – vieram logo depois (Jim, Jimi, Janis, Jones), mas Syd, vivo, lançando discos de psicodelia dark (“Madcap Laughs” e “Barrett”, do início dos anos 70, e a coletânea “Opel”, de 88) ao mesmo tempo em que a banda renovada cultuava sua loucura rumo ao megaestrelato, em discos como “Dark Side of the Moon” e “Wish You Were Here”, só aumentava a luz de uma carreira rápida, mas brilhante.

A morte de Syd Barrett vem num momento crucial para o Pink Floyd, que acaba de lançar o DVD do disco “P.U.L.S.E.” e, pouco depois do show de retorno da banda no Live 8, relançou seu último disco, “The Final Cut”, em edição de aniversário. Embora não fale oficialmente numa inevitável turnê de retorno, David Gilmour vem excursionando seu novo disco, “On an Island”, com Rick Wright nos teclados, e Roger Waters vem fazendo a sua turnê do disco “Dark Side…”, com a presença ocasional de Manson na bateria. Para o final do ano, eles prometem o lançamento da edição comemorativa de “Wish You Were Here”, que agora deverá incluir tributos póstumos a Barrett.

E o culto a Syd Barrett segue inabalado e talvez cresça, apenas pelo simples fato de hoje ser possível para qualquer mortal assistir – e não apenas ler sobre –as incríveis apresentações ao vivo da primeira encarnação do grupo, além de ver Barrett em diferentes momentos de sua existência – da primeira viagem de cogumelo em 1965 aos programas de TV frustrados pela loucura de Barrett até um mórbido vídeo de Syd passeando na rua nos anos 90. Tá tudo no YouTube (www.youtube.com), é só digitar o nome dele. E viajar.

julho 4, 2006

Americano narra tempo esquecido das casas de ópio

Materinha sobre o "A Última Casa de Ópio" (istaile, vê se arruma) que saiu hoje na Folha.

A milenar arte de se desprender da realidade num luxuoso clube reservado parece ser o delírio mais narcisista da história ou um convite para a completa alienação social, mas nas mãos do escritor norte-americano Nick Tosches se tornaram a melhor metáfora para um tempo humano que passou. Assim é “A Última Casa de Ópio”, curto relato sobre a procura por uma perdida tradição sagrada que funciona como um testamento para um mundo massacrado pelo século vinte.

Enquanto descreve com minúcia a história, a glória, a decadência, os efeitos e o preparo da antiga substância, mostra como o mundo fora das casas de ópio tornou-se voraz porém inofensivo, ao mesmo tempo agressivo e boçal, gigantesco mas pequeno. Tosches passa por yuppies que pagam uma nota preta em uma única cebola, motoqueiros fugindo de metralhadoras, sommeliers que não reconhecem o gosto de esterco no paladar, chineses que comem bexiga de cobra viva, prostitutas tailandesas, enquanto foge feito o diabo da cruz de tentações modernas – heroína, Starbucks e a ânsia modernizadora de um futuro afobado para chegar.

Mais do que uma simples apologia a um hábito lendário que o vazio abarrotado de nossa época tornou tabu, “A Última Casa…” é um libelo individualista com a força juvenil de um Thoureau ou Hakim Bey, mas com sarcasmo e desprezo sábio por tudo aquilo que, apesar de parecer nobre, é supérfluo, placebo – e enfileira a alta cozinha, o culto fresco-intelectual ao vinho, a globalização e o tráfico internacional de drogas como recalques diferentes de um detrator modo de vida pós-industrial que destruiu o sabor de ser humano. Tosches conversou com a Folha sobre este assunto.

A Última Casa de Ópio é, ao mesmo tempo, um romance, uma reportagem e um artigo, com momentos que podem ser verdadeiros ou falsos além de uma narrativa que é pura digressão.
Verdade. Ficção. Lenda. Literatura. Jornalismo. São categorias, marcas. Nós amamos categorias, amamos marcas. Elas nos impedem de termos de perceber por conta própria. Mas no fim das contas, dá no mesmo. No caso de “A Última Casa de Ópio”, direi que tudo é verdade: a verdade da experiência, a verdade do meu coração.

À medida em que você guia o leitor pelo livro, você também descreve a destruição de um velho mundo pelo modo de vida consumista sociedade ocidental. Que outros prazeres foram esquecidos, além do ópio?
Perdemos o maior prazer de todos que é o prazer de sermos nós mesmos. O amor pelo dinheiro, se tornar um rato numa cultura guiada pelo consumo destes tempos, faz de nós fraudes. Quando passando a maior parte de nossas horas acordadas num trabalho, fingindo que gostamos do trabalho, fingindo que gostamos de nosso chefe, fingindo que estamos interessados no nosso trabalho, então o fingimento torna-se um estilo de vida. Nos tornamos o que T.S. Eliot chamava de “homens ocos”. Quase tudo que consumimos, quase tudo que compramos, é placebo. Esses produtos de uma cultura consumista vazia é que são as verdadeiras drogas perigosas. Nossa “guerra contra as drogas” devia ser contra essas coisas.

Vivemos em dias em que até a crítica musical é considerada uma arte.
“Arte” é uma palavra besta. Há muito tempo, homens pintavam imagens en cavernas. Hoje, as chamamos de arte. Para eles, era magia. Agora não temos quase nenhuma magia e tudo é chamado de arte. O pior cantor de música pop é agora um “artista”. De novo, “arte” se torna uma categoria sem significado.

Como as pessoas podem sair da segurança e conforto da vida diária e voltar a gostar do risco?
Tendo a força e a coragem para não ligar pra nada, percebendo que este é o mundo dos aristocratas e não o seu, percebendo que o dom imenso e belo de respirar vivos é tudo que temos.

Você acha que a espiritualidade e drogas de expansão de conhecimento estão conectadas umas às outras ou isso é mais uma bobagem new age?
As drogas não tornam ninguém espiritual. Mas a espiritualidade pode melhorar as coisas. Tudo, das drogas à consciência da brisa no ar. Mas o ópio tem uma certa magia. É uma vergonha podermos comprar toda a heroína que quisermos e ser tão difícil achar ópio. Mais uma vez, isso é culpa de nossa cultuira consumista: ópio vale mais dinheiro quando torna-se heroína. E também, hoje em dia, todo mundo quer o ritmo rápido da vida. Ópio é uma lenta e luxuosas sedução. Eu posso andar vinte minutos de onde moro e comprar armas, heroína, crack. Mas eu não acho ópio de verdade. Eu não posso nem fumar um cigarro no bar. É ridículo.

O livro era uma matéria que cresceu demais ou você teve de cortar páginas para mantê-lo curto?
Escrevi “Última Casa de Ópio” para a “Vanity Fair”. Da forma que eu o escrevi, tornou-se muito extenso para uma matéria numa revista. Tinha 25 mil palavras, 100 páginas. Então tive que cortá-la para o tamanho atual. Isto foi bom, porque a versão longa tinha muitas coisas que poderiam causar problemas para mim. O texto foi publicado na revista em setembro de 2000. E então foi publicado como um pequeno livro na França, depois como um pequeno livro aqui nos EUA e agora, felizmente, no Brasil, onde ainda existe pelo menos uma casa de ópio de verdade.

É mesmo? Você a visitou?
Não, mas tenho amigos de Nova York que são do Brasil.

Como este livro se relaciona com seus livros anteriores?
Todos meus trabalhos estão relacionados. Eles todos são aspectos meus, por bem ou por mal. Mas este pequeno livro sobre ópio é especial para mim. Eu estava tão enojado dos rumos deste mundo quando o escrevi. Foi como um ingresso para a liberdade e eu o escrevi para mim, uma chave que forjei para sair daqui e respirar livre mais uma vez.

É isso o que é o rock’n’roll?
É. O bom rock’n’roll, rock’n’roll de verdade. Há tão pouco, hoje em dia.

A Última Casa de Ópio
Autor: Nick Tosches
Editora: Conrad
Número de páginas: 98
Preço: R$ 25,00

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Por que ler
Mescla a história do ópio (“o remédio de Deus”) com a própria história humana – Adão, Alexandre o Grande, Maquiavel e Homero – ao mesmo tempo em que destrói o neocafonismo elite-branca e passeia pelos submundos asiáticos com uma prosa direta, sem afetações pop.

Raio X
O norte-americano Nick Tosches (1949-) nasceu em Nova Jérsei e é contemporâneo de críticos musicais como Lester Bangs, Richard Meltzner e Greil Marcus, começou resenhando discos e acompanhando astro do rock em revistas como Creem, Rolling Stone e Fusion, mas logo pulou para os livros, especializando-se em biografias. Hoje é colaborador do jornal The New York Times e da revista Vanity Fair.

Bibliografia
Hellfire (1982) – A história de Jerry Lee Lewis, considerada pela revista Rolling Stone como “a melhor biografia de rock já feita”.
Dino – Living High in the Dirty Business of Dreams (1992) – Biografia do ator e cantor Dean Martin.
The Devil and Sonny Liston (2000) – A história do boxeador.
King of the Jews: The Arnold Rothstein Story (2005) – O biografado da vez é o chefão do crime organizado nos anos 20.

junho 27, 2006

Cultura livre encerra evento com pedido de isenção de taxas

Na Folha dessa terça.

Em menos de uma hora depois de ter anunciado as duas declarações que resumiram os trabalhos de três dias de discussão e execução de projetos e iniciativas ligadas à cultura livre do segundo iSummit, encontro que aconteceu durante o fim de semana passado no Rio de Janeiro, o advogado norte-americano Lawrence Lessig, idealizador da grife legal Creative Commons, era arremessado para dentro da piscina na cobertura do hotel que sediou o evento, enquanto os participantes e palestrantes do evento bebericavam taças de uma certa “cerveja de código aberto”, chamada Free Beer.

Foram três dias de apresentações e painéis de discussão a respeito de iniciativas e interesses que dizem respeito a certas crises do conhecimento moderno e a modelos econômicos para superá-las de forma sustentável para o futuro. Representantes de instituições como Access to Knowledge, Open Society Institute, Wikipedia e Google estavam presentes e apresentaram exibições ou assistiram-nas, contribuindo para o debate sobre compartilhamento de conhecimento e propriedade intelectual, que teve momentos de frisson, como nas duas declarações que encerraram o evento.

“The Rio 2006 Declaration on Open Access” (“A Declaração Rio 2006 sobre Acesso Aberto”) inicia um movimento para isentar de taxas e cobranças quaisquer reproduções de obras que tenha caráter acadêmico e “The Rio 2006 Declaration on Digital Rights Management” (“A Declaração Rio 2006 sobre Gestão de Direitos Digitais”) propõe a substituição do atual modelo de indexação de obras digitais pelas licenças Creative Commons. Anunciadas na última sessão do domingo, as declarações tiveram efeito catártico sobre os participantes, mas não foram seus pontos mais intensos.

Estes aconteceram nos dois primeiros dias. O primeiro quando, de surpresa, a Microsoft, empresa-símbolo das causas contrárias dos intelectuais ali reunidos, foi convidada para a cerimônia de abertura para anunciar um plug-in para seu software Word, que embute uma licença Creative Commons em qualquer documento produzido no programa. A presença da empresa e sua estranha parceria com a marca – mais cessão do que invasão territorial – fez com que ativistas presentes sacassem narizes de palhaço e distribuindo para os participantes. O segundo aconteceu quando a Radiobrás, a empresa estatal de radiodifusão, a nunciou que todo seu conteúdo seria disponibilizado através das licenças CC, inclusive para uso comercial de terceiros, e foi saudada com aplausos entusiasmados.

Pelos corredores, um verdadeiro quem é quem da cultura livre, do ministro da cultura Gilberto Gil, que também participou da abertura do evento, ao escritor Cory Doctorow, de Jimmy Wales, criador da enciclopédia editável Wikipedia, ao fundador da Electronic Frontier Foundation, John Perry Barlow.

Ao mesmo tempo, aconteciam palestras sobre ciência aberta, digitalização de conteúdo em domínio público, educação, jornalismo e licenciamento de conhecimento indígena, exibições da comunidade em 3D SecondLife e workshops do grupo brasileiro Estúdio Livre, que maravilhava os estrangeiros ao compor, gravar, editar e remixar músicas usando apenas softwares livres.

O evento terminou com uma festa no Teatro Odisséia com os VJs-ativistas do Media Sana, o rapper BNegão e sua banda Seletores de Freqüência e o músico Lucas Santtana atuando de DJ. Em comum, o fato de disponibilizarem todo seu conteúdo gratuitamente online – a saber, www.mediasana.org, www.bnegao.com.br e www.diginois.com.br.

junho 23, 2006

Capitão Presença se lança à criação coletiva

Materinha na Folha dessa sexta...

Enquanto as luxuosas instalações do Marriott Hotel recebem, em Copacabana, no Rio de Janeiro, a cúpula mundial do conhecimento compartilhado ao redor de sua grife mais reluzente – a marca Creative Commons –, um informal baixo clero deste mesmo setor reúne-se em Ipanema, numa pequena loja de quadrinhos, roupas e assessórios alternativos, para celebrar a entrada no mainstream de seu produto mais bem recebido pelo mercado – o super-herói Capitão Presença.

“As Aventuras do Capitão Presença” (Conrad) não apenas consagra a inspiração coletiva instigada em toda uma geração de cartunistas como oficializa a carreira de Arnaldo Branco, o criador do personagem, que criou-se na internet e aos poucos come pelas beiradas do sistema: tornou-se colaborador fixo da revista “Bizz” e tranpôs a revista independente “F.” para a mesma Conrad que agora o publica em livro.

Natural que este lançamento acontecesse sob o manto de seu personagem mais popular, o herbífumo voador que reacende a questão das drogas no imaginário coletivo brasileiro – em seu caso, especificamente, a maconha. Enquanto nomes que se tornaram referências canábicas tupiniquins, como Gil, D2 ou Gabeira, hoje pigarreiam antes de começar a falar do assunto (sem contar as pára-quedistas Soninha e Luana Piovanni, que, sem querer, levantaram e deram bandeira ao mesmo tempo), o Capitão Presença esfrega na cara a familiaridade não apenas com a maconha, mas com o submundo da droga que o Brasil alimenta e finge não alimentar.

E não apenas do ponto de vista legal, mas também social, medicinal, artístico ou rotineiro. Afinal, não custa lembrar que o único super-poder do personagem é ter maconha na hora em que as pessoas precisam de maconha. Olha como o malandro carioca foi se reinventar…

Não é mero humor feito para quem usa drogas, como o excesso de obviedade parece supor. Este, tal como seus em pares de outras eras (Freak Brothers, Cheech & Chong e Wood & Stock), é só mais um elemento de crítica a este suposto público-alvo.

Isso, claro, sem o mínimo pudor ou formalismo intelectual, no humor sempre amargo de Arnaldo, que logo criou toda uma fauna ao redor do personagem, com nomes que falam por si, como o pidão Super Aba, o cachorro Malhado e o vacilão Mané Bandeira. Não bastasse seu universo, Presença ainda foi lançado para presidente da república neste ano, numa campanha em que o personagem promete “acabar com a seca não apenas no nordeste, mas em todo o Brasil”.

Mas o que une o encontro de Copacabana com o happy hour em Ipanema é o fato do personagem ser, na prática, um exemplo de conhecimento compartilhado e produção coletiva. Criado em duas tiras por Arnaldo, Presença ganhou vôo próprio e passou a ser redesenhado por cartunistas e ilustradores de sua geração que, a despeito (ou justamente por causa) das drogas, passaram a criar o personagem de forma coletiva – e assim Arnaldo publicou o personagem (como todo o livro) na licença Creative Commons. E enquanto no iCommons discute-se generosidade intelectual em palestras e workshops, esta mesma generosidade é celebrada, à brasileira, sem tanta teoria e com mais diversão – e longe, embora menos de um bairro de distância, dos gringos.

AS AVENTURAS DO CAPITÃO PRESENÇA
Editora: Conrad
Quanto: R$ 25 (144 págs)
Lançamento: hoje, às 19h, no La Cucaracha (r. Teixeira de Melo, 31-H, Ipanema, Rio, tel. 0/xx/21/2522-0103)

abril 3, 2006

Música: Obra traz ensaios ácidos de Greil Marcus

Essa é a íntegra da entrevista que saiu publicada em versão editada na Ilustrada de hoje.

“É um encontro cara a cara com todo o terror que a mente consegue juntar; movendo-se rapidamente sem jamais brecar, para que homens e mulheres tenham que vencer o terror em seu próprio passo”, “O horror fornece os limites. Ele dá forma ao medo, dá peso ao riso, desnuda a mistificação e revela o paradoxo”, “É um projeto definido: um ataque à autocensura com as ferramentas mais cruas”. Toda epicidade e tensão das descrições acima parecem referir-se a momentos históricos emblemáticos e realmente os são: é assim que o crítico musical norte-americano Greil Marcus se referiu, à época, à “Gimme Shelter” dos Rolling Stones, ao disco London Calling do Clash e ao grupo nova-iorquino Pussy Galore, respectivamente.

Um dos textos mais respeitados quando o assunto é música popular do século vinte, Marcus é um dos responsáveis pela edificação da importância histórica do rock, que deu-lhe sobrevida para além dos anos 60 e o mantém firme de pé até hoje. Ao lado de nomes como Richard Meltzer, Nik Cohn, Lester Bangs, Robert Christgau, Nick Tosches e Dave Marsch, ele compôs a primeira geração de críticos de rock como observadores da sociedade, dissecando o barulho, a adolescência e ingenuidade de seus agentes como forças-motrizes por trás do inconsciente coletivo.

Uma amostra de sua obra foi reunida na coletânea de ensaios A Última Transmissão (Conrad, 160 páginas, R$ 24,50), em que aprofunda-se em assuntos como uma música de Elvis Costello, duas bandas novas da Inglaterra (Gang of Four e New Order), o novo disco de John Lyndon (o clássico Metal Box, do P.I.L.), de John Cale e da gravadora Rough Trade. Ele deu a entrevista abaixo por email e ainda falou sobre seu livro mais recente, Like a Rolling Stone, dedicado unicamente à canção de mesmo título de Bob Dylan.

Como você se envolveu com a crítica musical? Você imaginava que escrever sobre música tornaria-se uma carreira?
Comecei a escrever sobre música na universidade, para as aulas, em 1965. Em 1968, comecei a escrever para a Rolling Stone, quando eu já dava aulas. Eu achava que suas resenhas eram ruins – pois escreviam apenas sobre as letras e não sobre o som – e achei que eu pudesse fazer melhor. O fundador da revista, Jann Wenner, era um velho amigo meu da faculdade.
Eu não tinha a menor intenção em fazer uma carreira escrevendo sobre música até que eu dei aula em Berkeley por um ano e descobri que eu não sirvo para ser um professor. Eu não tenho paciência com os alunos, e um professor impaciente não é um professor. Por isso, parei de dar aulas. Isso por volta de 1972. Nessa época, eu já havia escrito e editado na Rolling Stones, entre 69 e 70, deixei a revista e fui para a Creem, e era bem ativo como crítico – simplesmente por não haver nada mais interessante do que escrever sobre música – e tudo o mais, já que a música permitia que eu escrevesse sobre qualquer coisa, ao contrário do meio acadêmico. E depois de sair da universidade, não havia outra coisa que eu soubesse fazer.
Comecei a escrever um livro sobre rock’n’roll e cultura americana, que retomava todo o trabalho que eu havia feito em Berkeley nos anos anteriores. Foi publicado em 1975, com o título de “Mystery Train”. Foi um projeto difícil e eu só voltei pro jornalismo cinco anos depois. Desde então, escrevi em vários periódicos, escrevi livros e dei palestras. Comecei a dar aulas novamente em Berkeley e Princeton no ano 2000 – onde continuo a lecionar até hoje. Desde então, aprendi a ser paciente e ouvir os alunos, em vez de dizer-lhes como pensar.

A crítica é necessária ao trabalho do artista?
Não.

Então por que continuamos lendo e escrevendo sobre arte e música? Arte não precisa ser explicada para ser compreendida...
Algumas pessoas podem escrever sobre arte de uma forma que amplia a experiência que já existe originalmente ou a sensibilidade que ela pode trazer. Mas eu também não acho que a arte precisa ser explicada para ser compreendida. Eu sempre acreditei que, no meu caso pelo menos, tudo que estou fazendo é elaborar respostas que qualquer um, quer dizer, os outros, pode ter em relação a certos artefatos ou eventos estéticos. Eu não estou contando nada que eles não saibam, estou apenas retirando a resposta que já está presente ou a capacidade para a resposta que pode ser trazida por este artefato ou evento.

Você acha que a música está perdendo seu valor emocional, à medida em que toneladas de música estão disponíveis a um clique do mouse e enquanto a indústria do disco trata-a apenas como um produto?
Não sei. Outro dia, ouvi “Concrete Jungle” dos Wailers no rádio e foi como se eu nunca a tivesse ouvido, nao parecia com nada que eu já tivesse ouvido. Parecia sobrenatural, com sua força e profundidade. As pessoas continuam fazendo música – formando bandas, escrevendo canções, aprendendo instrumentos – pelos mesmos motivos de sempre: para sentir o que outros sentiram quando eles, os outros, fizeram os sons que fizeram os músicos iniciantes imaginar como deve ter sido a sensação de se sentir tão vivo, quando os outros criaram as músicas que lhes inspiraram.
No novo livro de Dana Spiotta, “Eat the Document”, que se passa em 1998, conhecemos um garoto de 15 anos obsecado pelos Beach Boys e pela música dos anos 60 como um todo. Os detalhes sobre a arte das capas, os créditos, o desenho dos rótulos e as diferenças entre as mixagens provocam mais pensamentos, imaginação e fantasia do que eu jamais tenha visto escrita ou dramatizada. É uma espécie de fábula sobre obsessão adolescente e como espertos e educados os jovens podem ser. Então, para responder, eu duvido.

Você se lembra a primeira vez em que ouviu “Like a Rolling Stone”?
Não me lembro, é estranho, mas é verdade. Eu lembro quando eu ouvi falar sobre a música, quando trabalhava em Washington D.C., no verão de 1965, e um amigo da Califórnia me escreveu perguntando se eu já havia ouvido o novo single do Bob Dylan que ele dizia ser sobre os Rolling Stones.

E como a música virou um livro?
Culpa do Clive Priddle, editor da ForeignAffairs de Nova York, que me ligou e disse que queria que eu escrevesse um livro sobre a canção. Eu disse “não”. Não parecia uma boa idéia. Mas eu não conseguia parar de pensar naquilo. Me encontrava escrevendo notas e até escrevi a introdução em menos de uma ho – para um livro que eu não ia escrever! Tornou-se um desafio. O escrevi muito rapidamente.

Além de Dylan, sempre nos referimos aos Beatles e aos Rolling Stones quando falamos deste acontecimento, o rock nos anos 60. Mas à medida em que os anos passaram, outros artistas surgiram com apelo de público ainda maior – Led Zeppelin, Nirvana, hip hop, Michael Jackson – mas nenhum deles conseguiu equiparar o impacto que Dylan, os Beatles e os Stones tiveram antes. É só devido ao fato de eles terem surgido na era da TV via satélite (como Kennedy, Pelé e Muhammad Ali)?
Não sei se consigo responder e continuar fazendo sentido para o leitor brasileiro. Certamente, aqui nos EUA há uma surpreendente familiaridade com a música feita há 40 ou 50 anos. Na aula em que dou, a maioria dos alunos, com idade entre 20 e 40 anos, consegue associar a canção gospel “Down on Me” dos anos 20 com a versão gravada pela banda de Janis Joplin. Mas é muito mais comum a completa ignorância em relação ao qualquer coisa que tenha mais de cinco anos de idade. Para muitas pessoas, Led Zeppelin é infinitamente superior aos Beatles, Dylan e Stones, mas para a maioria Led Zeppelin sequer existiu e os Beatles, Dylan e os Stones estão perdido nas brumas do passado junto com Al Jolson e Abraham Lincoln.

março 8, 2006

Documentário revê os Rolling Stones jovens

Essa saiu antes do carnaval, mas inda não tinha postado aqui:

Alguém aí ainda agüenta Rolling Stones? Depois da overdose da megacorporação multinacional gerida por Jagger e Richards a que o Brasil foi submetido, voltar a máquina do tempo uns 40 anos e encontrar os atuais CEOs disfarçados de "rock stars" numa festa particular em uma cidade européia talvez seja o antídoto perfeito para anestesiar êxtases superlativos da passagem do grupo.

O documentário "Rolling Like a Stone", que será exibido no Festival É Tudo Verdade (que começa dia 23 de março), em São Paulo, parte de um curto trecho de filme que registrou a passagem do grupo inglês pela cidade de Malmö, na Suécia, para reconstruir o conceito do grupo do outro lado do espelho. Centrado ao redor de uma festa particular da cena de rhythm'n'blues da minúscula cidade escandinava que contou com a presença ilustre de Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones (1942-69), o filme dos diretores suecos Magnus Gertten e Stefan Barg busca alguns dos coadjuvantes daquele dia para mostrar o que acontece com as pedras que deixam de rolar.

Somos atirados no meio de sexagenários saudosos de seus tempos de rock'n'roll, que recordam -uns com dor, outros com candura- dos tempos em que a sociedade poderia ser desafiada (e, quem sabe, o mundo ser mudado) com ruído elétrico, ritmo insistente e cabelos compridos. Integrantes de bandas anônimas (Gonks, Namelosers) e meninas apaixonadas pelo brilho dos ingleses colocam mais uma peça no quebra-cabeças cuja a imagem é a atual cultura pop --uma peça marginal, irrelevante, mas que mostra com precisão o impacto do rock na rotina do planeta.

Sem o áudio (a trilha sonora é composta por faixas das bandas citadas acima, de rock garageiro sem sal), o documentário é musicalmente insípido --mesmo para os fãs de carteirinha dos Stones (sempre em segundo plano, no filme), "Rolling Like a Stone" é, no máximo, curioso. Lento e enfadonho, o filme vale por mostrar de forma crua a triste realidade daqueles que sonham sonhos alheios. Como muitos no show histórico da praia de Copacabana.

fevereiro 4, 2006

Romance: Em "Coma", Alex Garland mistura delírio e realidade

Na Folha de hoje...

Do mesmo jeito que com uma ruptura violenta em um paraíso terrestre Alex Garland atingiu seu grande momento literário, ao amarrar seu novo protagonista em si mesmo, o autor inglês parece caminhar para um beco sem saída. Felizmente, não é artístico. Ao deixar os conflitos exteriores de seus dois primeiros livros fora do horizonte, Garland e o pai, Nicholas, embarcam numa viagem sem volta em "Coma", que acaba de sair no Brasil.

A história é simples e o tema é quase clichê: Carl sai tarde do trabalho e toma uma surra ao se meter numa tentativa de assalto. Acorda em coma. A partir daí, imagina alternar momentos de consciência e vazios de razão e a discussão reverte-se nas diferenças entre sono e despertar, fatos e lembranças, vida e morte.

Garland opta por uma estética enxuta, deixando maneirismos filosóficos e intelectuais de lado para discutir sobre a existência, a natureza da consciência e os limites entre ser e não ser usando exemplos corriqueiros, como a lembrança dos pais, um perfume conhecido, uma loja de livros, uma música antiga (no caso, "Good Golly Miss Molly", de Little Richard). Contado em capítulos curtos, por vezes mínimos, o ritmo do livro choca-se diretamente com o não-ritmo de um coma, o não-movimento contínuo.

Pontuando os capítulos estão 40 xilogravuras feitas pelo pai de Alex, o ilustrador Nicholas Garland, do jornal Daily Telegraph. Escuras, elas são enormes janelas de tinta preta que apontam para o nada e tentam, como Carl, emoldurar alucinações e sonhos para apegar-se à alguma realidade - e saber se o coma, afinal, terminou. A morbidez sóbria das ilustrações, que distorce minimamente o caminho não-linear percorrido, tem um parentesco improvável com os quadrinhos negros do brasileiro Lourenço Mutarelli, este cada vez mais sóbrio e menos mórbido.

Diferente de seu livro de estréia do autor, o aclamado best-seller "A Praia", "Coma" mergulha num abismo em que até as emoções tornam-se incertas e os olhos nunca parecem estar abertos. Garland, que se envolveu com o mesmo trio dos filmes "Trainspotting" e "Cova Rasa" (o diretor Danny Boyle, o roteirista John Hodge e o produtor Andrew McDonald) na adaptação de seu primeiro livro para as telas, em 2000, pegou gosto pelo cinema e colaborou na adaptação de seu segundo livro, "O Teressacto" (dirigido pelo cineasta de Hong Kong Oxide Pang Chun, em 2003), além de criar uma história original para o filme seguinte de Boyle, "Extermínio", de 2002.

"Coma", com suas extraordinárias imagens simples, prova-se uma adaptação um pouco mais difícil, com o risco de perder-se momentos cruciais da leitura, como o vento no parapeito de um prédio, a sensação de transparência, um cômodo "sentido" em vez de visto, o mergulho no vazio, a perda da razão. Percorrer estas passagens dão ao curto livro um ritmo tenso e familiar, que torna possível deschavar o livro em menos de uma hora num sofá de megastore - e esquecer, por completo, tudo ao redor.

No entanto, é na modalidade clássica da atividade leitora (sozinho, de noite, em casa, um abajur) que "Coma" mostra-se forte. Num mundo hiperlinkado, de comunicadores móveis e exibicionismo histérico, o objeto livro pede que seu usuário entre em seu coma pessoal e desconecte-se do dito "real" para mergulhar em si mesmo.

***
"Coma"
Autor: Alex Garland
Editora: Rocco
160 páginas
Preço: R$ 24,00

janeiro 29, 2006

Televisão: Lente de Scorsese redimensiona Dylan em documentário

Materinha na Folha de hoje do filme que vai passar amanhã. Vê se não perde, ow.

Imagine se João Gilberto virasse um Chico Buarque tropicalista, como se o herói de uma música "refinada" e "adulta" (bom gosto, não custa lembrar, é subjetivo como aspas), pai de uma cena que não conseguia andar sozinha, virasse-se para as guitarras da Jovem Guarda e um surrealismo de araque, e dissesse que aquilo era o futuro de sua carreira. A comparação pode parecer forçada, mas basta ver a reação dos antigos fãs de Bob Dylan ao sair de seu concerto elétrico em maio de 1966 e compará-lo com o esgar permanente de MPBistas ortodoxos a termos como "rock" ou "pop". Ao canalizar sua veia criativa na força juvenil dos Beatles, Dylan não apenas deixou a insípida e repetitiva cena folk para a história como ampliou seu alcance e importância na segunda metade do século passado.

Não dá nem pra tentar comparações sobre o outro lado da câmera. Enquanto Dylan pode ser descrito como o híbrido mutante do início do texto, melhor evitar achar o que significaria, num parâmetro brasileiro, um dos principais momentos desta carreira ser revisto pela lente cada vez mais classuda de Martin Scorsese. Mais do que a primeira e mais importante parte da história do principal compositor vivo dos EUA pela lente do autor de "Goodfellas", "Taxi Driver" e "Casino", "No Direction Home", que o Telecine Premium exibe amanhã (segunda) às 23h40, é a dança perfeita entre dos mestres da manipulação - e o resultado é um dos melhores documentários, não apenas sobre rock, não apenas sobre música, já feitos.

Dividido em duas partes distintas, o filme do ano passado mostra como o franzino Robert Zimmerman, saiu de uma pequena cidade do interior de Minnesotta para se tornar "Bob Dylan", o messias da geração folk do Village nova-iorquino. A primeira parte vem repleta de vasto material audiovisual inédito sobre o cantor (Scorsese teve acesso aos arquivos pessoais de Bob, pela primeira vez aberto a alguém de fora de seu diminuto círculo pessoal) e o diretor recria geneticamente a persona Dylan, comparando maneirismos de suas influências confessas (Woody Guthrie, Hank Williams, Billie Holliday) com o jogo de cena adotado após ser descoberto pela intelligentsia folk.

Mas é na segunda parte que está o filé mignon, quando o compositor, encurralado com o título de voz de sua geração, puxa um cavalo-de-pau na própria história e abraça o rock'n'roll como estética, ideologia e válvula de escape. Assume as rédeas de sua vida, ciente das responsabilidades e conseqüências, sem rumo, mas livre. "Liberdade é um sinônimo para nada a perder", rezaria um adágio no final daquela década, e Dylan não tinha nada a perder. Como na própria carreira, é a partir de 1964 que o filme decola num crescendo quase abrupto.

Não faltam imagens raras, entrevistas inéditas, apresentações históricas, sobras de filmes da época, em especial da turnê entre 65 e 66, boa parte registrada pelo documentarista para o também clássico "Don't Look Back", de 1968 (cenas coloridas!). Há até o célebre momento em que, numa apresentação com a banda elétrica que se tornaria The Band em Manchester, um espectador chama Dylan de "Judas!" antes de uma rendição agressiva de seu clássico central, "Like a Rolling Stone", de onde saiu o título do documentário.

O crescendo dramático imposto por Scorsese em qualquer um de seus filmes ganha um enredo perfeito e uma coleção de imagens preciosas, que o deixam confortável para recriar os anos 60 norte-americanos usando Dylan como linha-mestra. O resultado, enfileirados a crise dos mísseis em Cuba, o assassinato de Kennedy, a Guerra Fria e a do Vietnã, é mais um dos capítulos da história dos EUA contada por um de seus mais hábeis narradores. "No Direction Home" faz parte do mesmo novo Scorsese que se reinventa como historiador e esteta, e está para os anos 60 como "O Aviador" está para a Segunda Guerra Mundial e "Gangues de Nova York" para a virada do século 18 para o 19.

Mas ao terminar o filme no mítico acidente de moto que tirou Dylan de circulação por oito anos em 66, o diretor suspende a tensão no ar, quase que matando seu personagem. Não precisa ser Dylanólogo para saber que Scorsese pára um pouco antes do território mais fértil e sagrado do compositor, quando ele e a Band viram as costas para o Verão do Amor para gravar sua própria lenda, recontando a história musical dos EUA nas influentes e ainda oficialmente inéditas Basement Tapes. E caso Scorsese venha concluir seus anos 60 fazendo uma segunda parte sobre este período... Er, melhor guardar os superlativos pra quando (e se) isso sair.

No Direction Home
Telecine Premium
Amanhã (segunda) às 23h40. Reprises na quarta às 11h10, dia 16 às 5h, 18 às 2h20 e 22 às 2h.

janeiro 14, 2006

Trainspotting + 10

Resenhinha do Pornô, do Irvine Welsh, na capa da Ilustrada de hoje. Aí embaixo, a íntegra, pré-edição:

Do mesmo jeito que era inevitável que Simon D. Williamson arrumasse um emprego que o mantivesse próximo do sexo, das drogas, dos jogos e da farra de seus anos dourados, também era inevitável que não durasse muito no cargo. E até durou demais, mesmo que mais apresentável e mais experiente que quando deixou sua cidade-natal rumo a Londres, ele ainda era o mesmo Sick Boy que funcionava como o próprio RP de seu bando na pós-adolescência.

Ao lado de Mark Renton, Frank Begbie e Daniel "Spud" Murphy, ele fazia parte do pequeno grupo de junkies sem esperanças que protagonizava "Trainspotting", série de monólogos psicótico-autistas sobre o underground de Edimburgo, Escócia, no final dos anos 80. O livro, lançado originalmente em 1993, colocou o escritor escocês Irvine Welsh no mapa do mundo pop, especialmente após as adaptações para o teatro (encenada em Londres por Harry Gibson em 1995) e para o cinema (dirigida na Inglaterra por Danny Boyle em 1996).

Dez anos depois do golpe que parecia ter desfeito de vez aquela já esfacelada quadrilha, o acaso reúne os quatro novamente no decadente distrito de Leith que antes se referiam como lar. E eles não estão felizes com o reencontro. Apenas o tímido e inofensivo Spud permaneceu nas ruas de sua cidade, e ainda luta para deixar o vício de heroína no passado, como já aconteceu com os outros três.

Depois de anos na prisão, o psicopata Begbie reza para encontrar o filho da puta que lhe enviava revistas gay anonimamente quando estava na cadeia e para não encontrar Renton, a quem culpa sua estada atrás das grades. Sick Boy tem de engolir o orgulho de ser demitido de mais uma casa noturna em Londres agarrando-se no pub de uma tia para retornar à Escócia, que abomina. Renton é praticamente extraditado de volta para a Grã-Bretanha por Sick Boy, que o encontra dono de uma boate em Amsterdã e o ameaça a entrar em seu novo esquema: pornografia.

Assim começa "Pornô", último livro lançado por Welsh, em 2002, que agora ganha edição brasileira. Depois da traição final de "Trainspotting" seus protagonistas (se é que podemos chamá-los assim) voltam a habitar a mesma sociosfera, seus reencontros sendo antecipados no mesmo tipo de monólogos atordoados do livro inicial.

Três deles têm filhos, todos estão sempre se ajeitando no espelho, fingindo não aceitar a velhice que começa a despontar no horizonte. Estão mais reflexivos, mas isso não quer dizer que a quantidade de sexo, drogas e violência diminuiu - pelo contrário, ela continua presa às suas personalidades como particularidades físicas.

Sexo casual, baseados, lugares imundos, garrafas de vinho, muito sangue, linhas de cocaína, estupros, muita cerveja, ameaças de morte e trambiques - o underground continua o mesmo. Mas a lenta realização de que os quarenta anos estão na próxima esquina e um balanço sobre a primeira metade da vida os torna menos impulsivos e sem tanta sede de vida.

Este lado é compensado no personagem de Nicola Fuller-Smith, a estudante de cinema Nikki, dez anos mais nova que o grupo e, portanto, com a idade que seus pares tinham em "Trainspotting". A ela cabe o tesão pela vida e a lenta e deliciosa autodestruição do livro anterior. Manipuladora de homens e pseudo-intelectual, tem uma empáfia sensual típica das meninas que se consideram no controle da situação, provocando combustão com a química ao lado de Sick Boy. Os dois - ególatras, sexcêntricos, arrogantes - formam um casal perfeito, cínico e mau caráter.

Mas toda barra pesada e desilusão é bem diluída no humor peculiar de Welsh, que vai da ultraviolência ao sadismo de desenho animado, de perversões intelectuais a egotrips mirabolantes - se perde em relação a "Trainspotting" em ritmo e energia, "Pornô" ganha em acidez e meticulosa crítica comportamental. Os delírios de Sick Boy sobre empreendedorismo, tanto no mercado de "entretenimento adulto" quanto na "revitalização do centro de Leith" aludem tanto à megalomania neoliberal quanto ao novo-riquismo - e são hilários. A tradução de Daniel Galera e "Mojo" Pellizzari abranda felizmente o inglês tosco de alguns dos personagens - tornando os livros de Welsh difíceis até para quem lê em inglês - em prol do ritmo da leitura.

***
"Pornô"
Editora: Rocco
Páginas:568
Preço : R$ 62,50

janeiro 7, 2006

Literatura: Humor de "Mochileiro" decai no 4º volume

Na Folha de hoje, o SLATFATF:

"Eu amo prazos", disse certa vez o escritor inglês Douglas Adams (1952-2001), "adoro o som apressado que eles fazem quando voam". O barulho deve ter ficado insuportável quando ele escrevia o material do quarto volume da série "O Guia do Mochileiro das Galáxias", "Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes", que chega pela segunda vez às prateleiras do Brasil. Afinal, foi preciso que o editor original de Adams, Sonny Mehta, se trancasse em uma suíte de hotel com o autor para garantir que o livro saísse dentro de seu cronograma em 1984.

"Até Mais..." já havia sido publicado no Brasil com o título de "Até Mais, Valeu o Peixe" em 1988 pela editora Brasiliense, na primeira vez que o clássico de Adams foi vertido para cá - e foi justamente o livro em que a editora original parou de publicar a "trilogia em cinco volumes" idealizada inicialmente como uma série de rádio transmitida pela BBC 4, em Londres.

Com a nova edição, a atual detentora dos direitos da obra, a Sextante, equipara-se à primeira aparição do "Guia do Mochileiro" por aqui, além de prometer a publicação do ainda inédito volume de conclusão da saga de Harvey Dent e Ford Prefect pelos confins do espaço, "Mostly Harmless", para maio de 2006. A editora trabalha com o título provisório de "Praticamente Inofensiva", que é a sucinta descrição do planeta Terra no próprio "Guia do Mochileiro das Galáxias" que acompanha os dois protagonistas da série.

Com um ótimo equilíbrio entre comédia de costumes, surrealismo sci-fi, ácida crítica ao comportamento humano e a todos os níveis de burocracia, "O Guia do Mochileiro das Galáxias" não pode ser resumido em uma frase para ser colocada na contracapa de um livro. Com passagens pela equipe de redatores da série cult inglesa "Doctor Who" e do "Flying Circus" do grupo Monty Python (em que chegou a atuar, em pontas-relâmpago), Adams bolou uma viagem interplanetária em que um típico inglês, Arthur Dent, é salvo da destruição da Terra por um de seus melhores amigos, Ford Prefect, que se revela um alienígena pesquisando sobre o nosso planeta para a publicação mais popular do universo: o "Guia do Mochileiro das Galáxias", um livro eletrônico interativo com a frase "Não Entre em Pânico" escrita em suas costas e que traz respostas para todas as perguntas sobre culturas, costumes e hábitos dos povos siderais.

Viajando pelo espaço e pelas páginas de livros como "O Restaurante no Fim do Universo" e "Vida, Universo e Tudo Mais", os protagonistas encontram máquinas deprimidas, naves inusitadas, raças bizarras e alienígenas egocêntricos que apenas servem de veículo para o humor cáustico e elegante de Adams. Como Philip K. Dick, o autor inglês não quer fazer previsões sobre o futuro ou elocubrar sobre universos alien; ele usa a ficção científica como um gancho para filosofar sobre a natureza humana e divagar sobre a existência. No caso de Douglas, saem a pressa e a paranóia para entrarem jogos de linguagem e sutis ironias, sempre temperados com a característica fleuma do humor inglês - ela mesma ridicularizada diversas vezes no decorrer da série.

Devido justamente à questão dos prazos (e por sua história central ser um romance entre Dent e a paranóica Fenchurch, única terráquea a lembrar-se da destruição original do planeta), "Até Mais..." é o livro mais fraco dos cinco - o que não deixa de lhe dar léguas de vantagens sobre grande parte da atual literatura de humor. A frase que batiza o livro é uma estranha mensagem recebida por algumas pessoas na Terra, para onde Arthur volta, mesmo achando que ela tivesse sido destruída - a pequena diferença diz respeito ao completo desaparecimento dos golfinhos do mar, ligado diretamente à frase do título. Ela também é o tema para a fantástica abertura do filme hollywoodiano baseado na série, lançado este ano, com Martin Freeman (da série "The Office") e o rapper Mos Def nos papéis principais. O filme não foi absorvido pelo público de cinema atual e fracassou nas bilheterias, não havendo projetos para possíveis continuações.

Mas, ao ser publicado no ano que vem, "Mostly Harmless" não esgota o "Guia do Mochileiro das Galáxias" por aqui - ao menos na galáxia de Gutenberg. Ainda há o póstumo "The Salmon of Doubt" ("O Salmão da Dúvida") com contos aleatórios e um começo de livro, inicialmente bolado para outra série de Adams, a do "detetive holístico" Dirk Gently, mas que foi redirecionado para os universos do "Mochileiro". Além do ótimo guia sobre a saga ("Don't Panic: The Official Hitchhikers Guide to the Galaxy Companion"), escrito por Neil Gaiman, autor da série de quadrinhos "Sandman", que esmiuça a saga no mesmo tom ácido e elegante do texto de Adams.

"Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes"
***
Sextante
224 páginas
R$ 19,90

janeiro 5, 2006

Cinema: São Paulo sedia festival do polêmico Cine Falcatrua

Íntegra do texto sobre o Cine Falcatrua que saiu na Folha de hoje. Só que nego viajou na edição e, sem querer, tranformou as aspas do entrevistado em texto meu, no terceiro parágrafo. Normal, acontece...

Imagine um festival de cinema sem pré-seleção. Sem curadoria. Em que todos os filmes inscritos são exibidos, independente de formato, época de produção, duração, tema ou outro tipo de classificação a que possam ser submetidos. Em que ordem e que trechos dos filmes - se a íntegra, se uma cena inteira ou alguns frames - irão ser exibidos, isso depende do humor do projecionista e de sua química com o público daquela sessão. Assim é o festival CortaCurtas, idealizado pelo coletivo capixaba Cine Falcatrua ao lado do instituto Itaú Cultural, que recebe inscrições até o dia 20 de janeiro de 2006, com suas exibições acontecendo entre os dias 21 e 28 de março, em São Paulo.

"Uma das idéias é mostrar que o cinema digital não implica necessariamente na instituição de um controle rígido, como algumas fantasias paranóicas podem levar a pensar - a MGM controlando os cineminhas de Taubaté à distância, lançando propagandas entre as trocas de rolos, como se fossem canais de TV", explica o grupo capixaba que surgiu no campus da Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória.

"E também não significa a misantropia final, onde cada espectador, de posse do seu DVD pirata - ou cópia-doméstica-lançada-simultaneamente -, vai se trancar em casa para ver o filme no seu próprio home theather", continua o grupo, respondendo coletivamente sob o codinome de Gilbertinho, "como qualquer outra tecnologia, por mais ideológica que seja, a sala de cinema pode ser cooptada e utilizada de forma criativa e criadora. Como festival, o CortaCurtas se propõe a promover uma nova forma de consumo audiovisual, definida menos pela vontade dos curadores/ patrocinadores/ realizadores, e mais pela relação momentânea entre projecionista e público. É uma forma de celebrar a sala de cinema enquanto local de diálogo e convívio". Maiores informações podem ser conseguidas pelo site www.itaucultural.org.br ou pelo email cortacurtas@gmail.com.

O improvável festival talvez não fosse impossível sem a transição do analógico para o digital, mas a mudança é crucial para sua realização - como é o próprio Falcatrua. O coletivo começou há dois anos, em janeiro de 2004, como um projeto de extensão de estudantes da UFES, de diferentes cursos (psicologia, comunicação, artes, arquitetura). "Chegaram uns datashows na universidade e a gente resolveu utilizá-los para projetar filmes. Daí, seguimos nessa vontade de fazer e ver cinema", explica Gilbertinho, "o Falcatrua organiza-se de maneira místico-anarco-punk-banda-larga e atua não só exibindo filmes, mas também publicando e pesquisando idéias ligadas a utilização de novas mídias aplicadas ao cinema".

Assim, começaram exibições gratuitas de filmes em locais públicos. Baixados via internet, raridades, lançamentos e curiosidades desfilavam pela tela do cineclube. "As exibições sempre foram gratuitas, mas nunca primamos por um público especifico. Como priorizamos a diversidade tanto dos locais de exibição, quanto do produto audiovisual exibido, acabamos tendo uma diversidade de público constante", explica o grupo, "exibimos esde seriados de TV até curtas metragens em película: tudo encontra seu denominador comum no cineclubismo gambiarra. Sempre utilizamos equipamentos digitais".

O cineclube teve problemas com a lei na metade do ano passado, quando foram notificados por exibirem filmes como "Kill Bill", de Quentin Tarantino, e "Farenheit 11 de Setembro", de Michael Moore, antes de suas estréias oficiais no Brasil. "Culpa da primeira matéria veiculada na Folha", ironizam, "claro que depois também veio uma onda de moções de apoio: o movimento cineclubista nacional e internacional, cineastas, produtores, festivais, jornalistas, intelectuais - enfim, uma galera se manifestou pela continuidade do videoclube, e botou lenha no debate sobre os cruzamentos entre cinema e internet. Foi aí também que muitos realizadores começaram a enviar filmes espontaneamente para o Falcatrua".

Assim, saíram pela esquerda, adotando a transparência e a generosidade intelectual como ferramentas de trabalho. Passaram então a exibir filmes publicados em Creative Commons e copyleft, além de entrar em contato com os próprios realizadores para obter autorização de exibição - tudo mais barato, mais perto do Brasil, longe de Hollywood e dentro da lei. "Freqüentemente, o Falcatrua faz sala para filmes inéditos. São lançamentos nacionais que acontecem no Falcatrua e contam, por vezes, com a presença dos realizadores", como o documentário "Sou Feia Mas Tou na Moda", de Denise Garcia.

"A gente vê no Creative Commons uma forma de conformar o direito constituído à economia inevitável da rede. Por enquanto, é a saída mais viável para quem quer aproveitar determinados potenciais de difusão e criação propiciados pelas novas tecnologias e virar as costas de forma limpa a uma economia que perde cada vez mais o sentido", explica o coletivo. "Daí buscamos difundir as vantagens desse tipo de licenciamento para quem está envolvido com o trabalho realmente criativo - escritores, cineastas, artistas plásticos, músicos, etc. -, como uma forma de compartilhar conhecimento livremente e construir subjetividades coletivamente. Uma forma de aproximar a produção cultural da cultura real".

Dentro desta lógica, o Falcatrua realiza programações que contam apenas com filmes publicados de acordo com este pensamento open source, as Mostras de Conteúdos Livres. "Levamos para exibir quando somos convidados a participar de algum evento. Junto dessas mostras, programamos bate-papos sobre cinema, internet e direito autoral".

Aos poucos, o Falcatrua vai se expandindo - além do CortaCurtas que acontece em São Paulo, eles também participaram da XXV Jornada Internacional de Cineclubes e do festival de mídia tática Digitofagia, que aconteceu na Unicamp em novembro passado. E já se tornou exemplo. "Desde as primeiras sessões ensinamos a quem quiser como montar seu próprio cineminha utilizando eletrodomésticos de última geração, através de cartilhas xerocadas e e-zines", explica o grupo. "A gente até fazia uma piada dizendo que, enquanto outros cinemas itinerantes queriam formar público, nós queriamos é formar exibidores".

"Claro que teve um momento que a coisa saiu do controle - e nem podemos nos orgulhar e dizer que foi fruto do nosso trabalho, porque não foi. Aconteceu espontaneamente. Quando menos esperamos, descobrimos sessões de 'Cine Falcatrua' na PUC-RS e do Cine FalcaTróia, em um espaço chamado Tróia, em Florianópolis. Falcatrua acabou virando uma modalidade de consumir cinema", comemoram.

dezembro 19, 2005

Cinema: "Sou Feia..." mostra funk além do fenômeno

Esse saiu na Folha de sexta, depois eu ponho a íntegra do papo com a Denise:

Quem foi na palestra que o DJ e produtor Steve Goodman ministrou na última edição do festival Hype, no Sesc Pompéia em São Paulo, assistiu a uma amostra em vídeo de MCs de garage duelando rimas entre si sem nenhum de base - no máximo, palmas. O palestrante, que também atua como discotecário grime sob o codinome de Kode9, disse que era impossível legendar o vídeo, devido ao excesso de gírias, referências e trocadilhos na batalha verbal. Mas percebia-se claramente uma matriz essencial, tanto na prosa quanto no ritmo, característico daquela cultura de rua, ainda que racionalmente intraduzível.

O mesmo acontece nos minutos iniciais de "Sou Feia Mas Tô na Moda", estréia na direção da gaúcha Denise Garcia, sócia do cartunista Allan Sieber na produtora Toscographics. "Quem nasceu, nasceu/ Quem não nasceu, não nascerá", canta, sem acompanhamento, o MC G, logo na primeira cena do filme. Logo a câmera corre para um churrasco na Cidade de Deus, em que MCs de funk carioca trocam rimas como numa roda de samba, só na palma da mão. Em português carioca, as gírias, referências e trocadilhos são igualmente intraduzíveis em legendas para outra língua, mas como na batalha grime, percebe-se claramente todas as nuances que caracterizam um gênero musical. Nuances que são escancaradas quando, minutos à frente, o produtor Grandmaster Raphael arenga um arremedo de vocal para encaixar-se nas bases pré-gravadas, igualmente inconfundíveis.

Esse é o grande trunfo de "Sou Feia...", que ameaça falar do papel da mulher no funk do Rio, para dar uma pequena aula sócio-cultural sobre o fenômeno pop. "Meu interesse no funk começou em 2000", lembra Denise, "quando os bondes de mulheres começaram a aparecer na imprensa. Porém, sempre que o assunto vinha à tona, era um tal de 'esta música denigre a imagem da mulher', 'a mulher está se deixando tratar como objeto...'. Eu, como mulher, não achava isso".

"Foi quando comecei a perceber essa barreira que separa a favela do asfalto. A coisa toda de mulher-objeto era uma desculpa para o preconceito que rola com o pessoal da favela, pois uma cidade que se orgulha do carnaval que faz, não podia estar falando sério. Era falso moralismo mesmo. Aí que comecei a pensar em fazer um documentário", explica a diretora, que começou o filme através da emblemática Tati Quebra-Barraco, que registrou se apresentando grávida de oito meses.

"Comecei pelas mulheres porque estava fascinada com a coragem, cara de pau, senso de humor das funkeiras. Porém, quando comecei a conhecer e entender o movimento melhor, vi que não fazia sentido deixar de lado a história que eles todos iam me contando, então resolvi abrir geral", continua a diretora. "Fiquei com vontade de me meter a tentar explicar o contexto. A única certeza que eu tinha desde o início é que, fosse o recorte que fosse, essa história seria contada por funkeiros, sem filtro acadêmico".

Mas a grande estrela do documentário, que ainda conta com uma estarrecedora versão à capella para "O Rap da Felicidade" com Cidinho e Doca (soul na veia), é Deise da Injeção, que conquista pela simplicidade. "A primeira entrevista que ela me deu foi emocionante porque ela estava numa fase que pensava que nunca mais iria poder viver de fazer música. Ela foi muito sincera e me cativou. Desde então, sempre que me entrevistavam, eu sugeria que entrevistassem a Deise, pois ela era a única do filme que não estava fazendo shows. E, hoje, nem precisa falar né: tá fazendo muitos shows, largou o emprego de doméstica, foi pra França, tocou com a M.I.A.".

"Mas a maior emoção foi ter enfiado uma coisa na cabeça e ter ido até o fim mesmo sem ter tido um centavo para realizar", desabafa a diretora. "Eu não acho que a gente deva se orgulhar de trabalhar sem grana porque é um trabalho e é preciso poder sobreviver dele, mas deixar de fazer um projeto que se está a fim porque nenhuma empresa quis entrar, isso não! Nós aprovamos R$ 450 mil reais na Lei do ICMS, mas nos contatos que fizemos a resposta era sempre a mesma: 'achamos que o assunto do seu projeto não se enquadra no perfil de nossa empresa'. Vai entender isso: empresa operando em pleno Rio de Janeiro funkeiro, como é que não se enquadra?".

dezembro 9, 2005

Lisergia impressionista nerd branca

Essa é a versão integral, antes da edição final, que saiu aqui, na Folha:

Pop: Chambaril faz o elogio da colagem

"Ween", responde Cláudio N. "Pink Floyd", diz Pi-R. A pergunta queria saber que shows eles gostariam de abrir. Entre o quarto esfumaçado dos irmãos Dean e Gene ao topo do mainstream trip rock, a lacuna entre as duas opções parece apenas exibir enciclopedismo musical, mas cataloga a banda de ambos, o Chambaril, num gênero ainda não canonizado - a lisergia impressionista nerd branca, disposta a transpor barreiras entre rótulos musicais através de montagens e superposições sonoras.

Entre outros exemplares desta espécie estão as colagens subversivas da primeira era de ouro ao ataque ao copyright (final dos 80, de nomes como Negativland, Double Dee & Starsky e KLF), os Mutantes, o hip hop instrumental de DJ Shadow e RJD2, o Primal Scream, os Beastie Boys de "Paul's Boutique", Bomb the Bass, Solex, Avalanches, e, claro, Ween e Pink Floyd. É desse habitat sonoro que sai o recifense Chambaril.

Que, apesar do nome estranho, não é um remédio. "Só se for pra fome", ironiza Cláudio, o colador original, que largou a guitarra rock dos Astronautas para se dedicar à arte do cut and paste num gravador de quatro canais, "Chambaril na verdade é um prato regional, carregado de proteínas, que consiste em ossobuco, pirão, arroz e salada".

Descritos, parecem uma reedição do conceito de "mistureba" que assolava o pop brasileiro no começo dos 90. O primeiro disco, batizado com o nome da banda e distribuído pela Peligro, abre com beats de hip hop velha guarda, cordas chorosas que parecem terem sido abduzidas do "Álbum Branco" dos Beatles, levada sintética de flash-house, baixão à Prince, piano apocalíptico, gemido de gaita de blues. Mas a indigestão é meramente textual - em disco tudo flui macio e sutil.

Começando como projeto pessoal de Cláudio em 2001, logo teve agregado à formação os amigos Vinícius também nas colagens, Pi-R nos teclados e Carlos Cabeça, dividindo as guitarras com Cláudio - todos descritos por ele como "músicos de confiança e amigos das tardes enfumaçadas e bucólicas da UFPE". No ano passado, compuseram a trilha para o filme "Sertão de Acrílico Azul Piscina", de Marcelo Gomes ("Cinema, Aspirina e Urubus") e Karim Aïnouz ("Madame Satã"). "Após essa gravação, resolvi passar pro PC algumas partes interessantes de minha coleção de vinil, dando predileção aos discos de 1 real, e as utilizei em forma de loops na construção de uma porrada de músicas", explica Cláudio.

Entre grooves de disco music, álbuns falados, levadas Jovem Guarda e violões de fossa, não é possível reconhecer quase nada, fora um Costinha contando piadas aqui e a orquestração de Rogério Duprat para "Deus Lhe Pague" do Chico Buarque acolá. "Não temos preconceito", resume Cláudio, "não achamos que nossa música deva se prender a algum estilo".

Chambaril
Bazuka Discos
R$ 12,00
www.peligro.com.br

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