Blecaute no Orkut
Bad server, no login for you

Começou a rolar da manhã para a tarde de ontem, quando algumas pessoas começaram a acessar seus perfis no Orkut e descobriram o de outras. A impressão era que alguém tinha descoberto as senhas de todo mundo e mudado, um por um, o perfil de cada um dos atingidos. Logo surgiram teorias pra explicar um possível vírus-robô que trocaria as personalidades de cada usuário, criando um imenso amigo oculto em que a única regra seria descobrir, entre milhares de pessoas, quem poderia estar com os seus dados. Ou que havia um problema de redirecionamento na hora em que você fazia o login. Alguns começaram a faniquitar: "meus scraps! Minhas comunidades! Meus testimonials!". Mas à medida em que algum tipo de explicação começava a aparecer - relacionando as mudanças recentes a acordos judiciais para descobrir perfis falsos de criminosos que usam a rede social -, choque: Orkut em manutenção.
Você lembra do "Bad server, no donut for you", aquele aviso nada simpático que avisava que a comunidade virtual, ainda em seus primeiros dias, não aguentava a imensa quantidade de usuários que a acessava diariamente. Logo que foi traduzido para o português a rede social do Google tomou outro tranco - afinal, ainda mais gente havia entrado na roda - e o aviso foi padronizado para o sorriso amarelado do "pedimos desculpas pelo transtorno" que nos acompanha principalmente no mundo offline. Mas o caso é que, passadas essas duas etapas, os servidores do Orkut pareciam funcionar numa boa.
Até que apareceu esse aviso ontem, logo depois dessas mudanças bizarras de perfil.
E logo surgiram notícias avisando que o site poderia ficar até setembro fora do ar (segundo o site Tudo Rondônia, não custa enfatizar [pra você ter uma idéia como essas coisas são...], mas olha a dimensão da história nos comentários desse link...).
Pra mim, sinceramente, tanto faz. O Orkut já não tem mais a importância que teve. Houve uma invasão de novas gerações que se encantaram - como tantos - com a possibilidade de ter todos os amigos a um clique do mouse que o site ganhou outro rumo. Quer dizer, os nichos continuam lá: há comunidades inteiras que existem indiferentes à audiência ou à popularidade da rede social, gente que usa o Orkut como basicamente um fórum e que encontrou caras-metades online graças ao site. Mas todo o processo de redescoberta dos amigos, conversação em tempo real e divulgação de eventos foi engolido por safras e mais safras de novos usuários, que aprenderam e inventaram formas de mandar scraps em massa, de adicionar pessoas que nunca viram na vida, que descobriram como formatar o texto, inserir links, adicionar imagens, embedar vídeos... Junta isso com os novos aplicativos que o Orkut adicionou recentemente ao seu sistema - em mais uma das trocentas mil cópias do Facebook - e pronto: a rede social do Google hoje me lembra qualquer avenida de médio porte aqui em São Paulo antes da lei Cidade Limpa. É uma quantidade absurda de ruído visual e poluição de dados que dá preguiça só de logar.
Ontem à noite, discutia com uns amigos meus sobre a possibilidade de algum dos concorrentes do Orkut (principalmente o MySpace, o Facebook ou o Twitter) de crescer e se estabelecer no país, uma vez que o site poderia ficar tanto tempo fora do ar. Mas falta algum tempero nessas redes que era o que havia no Orkut quando ele chegou ao Brasil - e que não tem mais. Creio que é uma mistura do entusiasmo dos early-adopters com uma pequena massa cinzenta de informação selecionada que surge logo após o aparecimento da rede. Todos estamos no Facebook, no MySpace e no Twitter, mas nenhum deles tem a importância que um dia o Orkut já teve. Mas é claro que isso pode mudar - o segredo é descobrir qual o ponto que faz uma comunidade virtual ser importante inclusive para as pessoas que estão fora delas.
No começo do dia, no entanto, o Orkut já tinha voltado ao normal. Era só um problema técnico.
Mas pra mim, há mais de ano, tanto faz.
Porque o Orkut pode ser importante pra muita gente hoje em dia, mas não mais para mim. Entro duas ou três vezes por semana, basicamente para apagar spams de festas, lojas de informática e pornografia. Virou um navio fantasma, uma avenida engarrafada, um infomercial de seis horas durante a madruga.
Rede social é uma metáfora que não necessariamente tem a ver com a internet. Graças à rede ela ganhou notoriedade como termo, mas, se você prestar atenção, rede social é a rede de relacionamentos que você cria durante a vida. A internet tem um papel crítico ao tornar estas redes mais intensas e firmes, principalmente quando falamos de relacionamentos - profissionais ou pessoais - que extrapolam barreiras geográficas. Mas estes clusters de gente não são necessariamente restritos a alguns sites que se vendem como isso. O MSN é uma rede social (independente da Live, a rede social de facto da Microsoft), a sua lista de contatos no celular é outra, a do Skype mais uma e o fumódromo, o cafezinho, a rádio corredor ou a lanchonete de qualquer empresa também são. Se vamos deixar automatizar estas redes, ossificando relações que funcionam muito mais ao vivo do que online, e se a onda de aceitação das comunidades virtuais - todas têm um auge seguido de uma lenta e vagarosa decadência - é só uma resposta que damos a isso, são questões ainda abertas. Estamos tateando em um novo território - mas pode ser que em menos de dez anos já saibamos essas respostas.
E as redes sociais ou se integram ao nosso dia-a-dia de uma forma racional e razoável (sem spam, sem vírus, sem poluição e entre si) ou viram apenas item de nostalgia da primeira década do século 21.
E eu ainda tenho que falar do Twitter.
Comments
Acho que o Orkut continua aí porque algumas relações funcionam melhor on-line que ao vivo.
Esse texto me fez pensar quais seriam os spams, vírus e poluição das lanchonetes, corredores e fumódromos. (No último caso, a fumaça, certamente)
Posted by: Ludimila | julho 22, 2008 11:34 AM
ah Matias, é bom ver vc destilando coisas num texto maior que um parágrafo.
Fala mesmo sobreo tuiter.
Posted by: carla | julho 23, 2008 12:49 AM
Po, Carla, mas eu tou numa fase textos curtos, mesmo.
Posted by: Alexandre Matias
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julho 23, 2008 10:54 AM