Lost e os novos clássicos
Uma teoria sobre a ilha e outra sobre o futuro do entretenimento

Bom, vou falar de Lost agora. Falta menos de um mês pra quarta temporada continuar e pouco a pouco vamos tendo alguma idéia do que está acontecendo na ilha. Ou não? Vou aproveitar esse hiato pra fuçar algumas notícias e teorias sobre o que aconteceu depois que o vôo 815 da Oceanic caiu numa ilha que ninguém parece saber onde fica. Se tu não quer saber nada sobre o seriado, cogitar ler sobre possíveis spoilers, comentários feitos pela equipe, trechos da quarta temporada e hipóteses aleatórias, é hora de embaçar o olho e pular para o post seguinte. Vou enrolar mais um pouquinho aqui no texto pra não ter desculpa nem mimimi depois do tipo “putz, mas já tava falando na linha debaixo do aviso do spoiler”.
Lembra que há um tempo eu postei duas teorias bem parecidas sobre o que poderia estar acontecendo em Lost? As duas hipóteses, complementares, cogitavam a possibilidade dos sobreviventes do acidente de avião que inaugura a série não estarem apenas presos em uma ilha desconhecida como também em um tempo desconhecido. Um sujeito chamado Jason Hunter foi além a partir desse mesmo princípio (embora eu não sei quem teve a idéia primeiro) e organizou de forma bem mastigadinha e linear o que talvez seja o mistério central da série.
Dá pra ir direto no site dele ou ler um resumo que eu fiz aqui embaixo – afinal, nem todo mundo lê em inglês ou tem paciência pra desbravar páginas de uma teoria que pode ou não ser a explicação para tudo.
Não custa lembrar que, apesar dessas três idéias cogitarem a possibilidade de deslocamento temporal, isso foi sugerido pela primeira vez pelos próprios produtores do seriado, quando exibiram uma vídeo-aula da Dharma em que um coelho cobaia parecia ter vindo do futuro e desestabilizava o espaço-tempo uma vez que estava no mesmo cômodo em que seu “eu” do presente. Lançado durante a Comicon do ano passado, esse vídeo foi a primeira manifestação da quarta temporada e já acionava para uma série de acontecimentos que mostrariam que toda a quarta temporada voltaria ao tema. Em vários momentos da temporada atual ficou subtendido que a ilha pode ter alguma defasagem de tempo em relação ao resto do planeta. O senhor Hunter deschava essa possibilidade assim:
Ben, Jacob (é) e Richard (o carinha que não envelhece) são os heróis da história. Dois deles descobrem que o que a Dharma vem fazendo na ilha é moralmente inaceitável, mesmo que em nome da ciência, e descobrem um jeito de sabotar com a ajuda do terceiro. E seqüestram os planos da iniciativa misteriosa para testar suas descobertas sem prejudicar ninguém. O problema é que, sem querer, Desmond faz com que o equipamento entre em pane e isso faz com que o avião que dá origem ao seriado caia na ilha.
E o experimento da Dharma, segundo Hunter, são viagens no tempo. A iniciativa foi fundada depois que o capitão do navio Black Rock, Magnus Hanso, descobriu uma ilha com estranhas propriedades magnéticas no final do século 19 – ao ter seu barco arremessado do mar para o meio dela. Alvar Hanso, neto de Magnus, impressionado com o que seu avô havia descoberto, criou uma fundação para pesquisar o que havia de tão diferente naquela ilha.
Foi quando, a partir dos anos 70, a iniciativa Dharma, fundada por Hanso, descobriu que era possível viajar no tempo graças ao magnetismo da ilha. O problema é que era uma máquina do tempo diferente do conceito que conhecemos – ela, por exemplo, só pode voltar para o passado e apenas para quando a máquina foi inventada. Frustrada com as limitações de sua descoberta, a iniciativa Dharma passou a recrutar pessoas como cobaia sem que elas soubessem e sem dizer que tipo de experiências conduzia de fato. Assim, os experimentos da Dharma incluíam primeiro testar mandar animais para o passado (os ursos polares) e depois testar paradoxos temporais envolvendo mães e filhos, além de tentar curar as pessoas infectadas por uma doença fabricada por ela mesma.
É quando Jacob e Richard descobrem o que a Dharma está fazendo. Ambos cogitam um plano – voltar no tempo para recrutar um jovem soldado que consiga dizimar toda iniciativa Dharma da face da ilha para, finalmente, roubar a máquina do tempo. Assim, Richard conhece Ben quando ele ainda é criança – e aos poucos o doutrina. Até que em 2007 (é) os três voltam para 1996, quando Ben põe em prática o plano de Jacob e Richard, que mata todos os expedicionários da Dharma que estavam na ilha – como foi visto na série.
Assim, os três seqüestram a máquina do tempo e, para fugir da Dharma fora da ilha, mantém-na em um eterno ciclo de tempo repetido, um loop de 108 minutos. É isso aí: segundo Hunter, o botão que precisava ser apertado a cada 108 era um comando que avisava para a máquina do tempo – o complexo de estações da Dharma na ilha – retornar para 108 minutos no passado. Assim, a iniciativa nunca conseguiria reaver sua invenção – e os três começam a estudar a máquina sem cobaias desavisadas.
O conceito de viagem no tempo desenvolvido por essa teoria, no entanto, é uma definição particular e não segue os padrões da viagem no tempo da ficção científica tradicional. Alguns aspectos podem ser sublinhados, como o fato de que, quando você volta no tempo, tem seu aspecto exterior idêntico à sua idade mais avançada, mas sua saúde volta ao ponto em que estava no tempo de destino. Isso explicaria, por exemplo, as experiências com “a doença” que teria matado a equipe de Rousseau e o fato de Locke voltar a andar.
Segundo essa teoria, Lost seguiria um pressuposto simples: o destino nunca pode ser mudado. Daí sempre que alguma alteração de curso acontece devido a viagens no tempo, o destino dá um jeito de colocar as coisas no rumo original. Achei uma explicação meio rasa (afinal, ele explica que o monstro de fumaça e a senhora Além da Imaginação que avisa Desmond sobre seu destino no primeiro episódio sobre o cara seriam encarnações da forma que o destino encontra para se manter no lugar) e morro de medo que o fim da série termine por aí. Mas o legal da teoria de Hunter é que ela realmente conecta as centenas de pontas soltas pelo seriado.
E é isso que faz a ilha sair do loop de tempo que a mantinha em 1996 e voltar ao seu curso temporário inicial, de repente, reaparecendo em 2004. Foram 8 anos em que Richard e Ben conseguiram mantê-la presa em 108 minutos de 1996. Jacob, em algum ponto do golpe (possivelmente posterior a 1996), morre – fato que ainda veríamos na série – o que faz com que sua presença “espiritual” possa ser percebida por uns (quem o conhecia) e não por outros (que não o conheciam).
Assim, por um mínimo instante, o Oceanic 815 esbarra na bolha eletromagnética que mantém a ilha em 1996 e, como Desmond reativa a máquina logo em seguida, volta no tempo – mas como os sobreviventes aparecem numa ilha tropical sem contato com o exterior, não puderam perceber que viajaram para o passado. Assim acontecem as duas primeiras temporadas da série: todos os sobreviventes voltando no tempo sem perceber que estão presos entre 108 minutos que se repetem (Hunter diz que o dia e a noite se sucedem porque a terra continua a girar, independente do tempo parado na bolha ao redor da ilha).
Até que Ben, durante a segunda temporada, surge e ocorre toda a confusão que termina com a segunda pane na máquina do tempo, quando Locke deixa os 108 minutos passarem sem digitar os números. A máquina do tempo quebra e a ilha volta a caminhar em 1996, criando uma linha do tempo paralela (Por que ela não voltou para 2004? Também me perguntei isso). E a terceira e quarta temporadas acontecem com a ilha liberta do contínuo temporal em que estava presa, criando uma realidade que vai de encontro àquela em que o vôo 815 simplesmente sumiu (daí todo o estratagema do pai da Penny para enfiar um avião cheio de cadáveres em 2004 para que não haja buscas à aeronave – pois Charles Widmore tem interesse na ilha, talvez seja da Dharma).
A partir daí ele discorre que, ao retornar para o mundo real, os Oceanic Six (os seis sobreviventes que topam participar de uma farsa para convencer o mundo que o vôo não terminou em uma ilha – Kate, Jack, Aaron, Sayid, Sun e Hurley) não conseguem retornar para o passado para resgatar os sobreviventes, presos anos em algum lugar de 1996. Talvez eles sequer saibam que fizeram uma viagem no tempo – apenas têm certeza que a ilha é inacessível. E a máquina do tempo, que poderia fazer eles voltarem à ilha, não existe mais.
Mas Ben também saiu da ilha. E contratou Sayid para eliminar uma lista de suspeitos, todos cidadãos acima de qualquer suspeita. Hunter cogita que Ben está eliminando as cabeças da Dharma para ter acesso à máquina do tempo e conserta-la para continuar seus experimentos – recrutando gente como Juliet para trabalhar num dos limites da ciência atual. Acontece que, durante esse processo, Ben morre – e é ele no caixão que Jack visita no final da terceira temporada. O autor dessa teoria cogita que esse episódio acontece um pouco antes da última temporada, o que faria os sobreviventes acharem o que precisam para reativar a máquina do tempo e reencontrar – e talvez buscar – o grupo de pessoas que ficou na ilha (arrisco um palpite e digo que Desmond, como Ben, voltou com os Oceanic Six e, como tal, também não foi contado entre os sobreviventes, afinal, sequer estava no vôo inicial).
Aqui tem um JPG com o desenho dessa linha do tempo.
Como as boas teorias sobre Lost, essa tenta observar o quadro macro e deixa umas pequenas pontas soltas. Os números digitados por toda segunda temporada, motivo de uma série de subtextos (a riqueza de Hurley, a repetição constante dos mesmos pela série, seja aleatoriamente ou em situações “científicas”), são resumidos em números escolhidos a esmo, sem sentido algum, feitos para distrair o telespectador. O fato de alguns protagonistas não morrerem (as tentativas de suicídio de Jack e Michael, a resistência de Ben à tortura) pois, na verdade, viverão até pelo menos 2004 (e estão em 1996), contradiz a imensa quantidade de personagens importantes mortos que a série contabiliza. Mas o escopo geral cria uma teoria embasada e com alguma possibilidade de estar correta – outras vieram antes desta e cederam à novidade.
A impressão é que, ao cogitarem a viagem no tempo, os produtores passaram a induzir as apostas para essa hipótese, deixando pistas que jogam verde para ver se pessoas como Jason Hunter queimam neurônios para explica-las. Mas ao mesmo tempo misturam terminologias, História e mitologias de uma forma que é difícil ter certeza se existe apenas uma resposta – ou se são duas ou três situações excepcionais acontecendo ao mesmo tempo.
Há quem diga que a teoria é muito complexa para o espectador comum. Acho que Lost pode estar pagando pra ver se esse espectador comum é tão Homer assim. Não é uma explicação que será dada em um único episódio e até então as referências são todas estão longe de explicações meia-boca ou mastigadas para um público "despreparado". O seriado realmente me incomoda no quesito estético - o melhor exemplo é o universo rock'n'roll criado ao redor de Charlie, que é caricato por definição, a começar pelo hit, "You All Everybody". Essa ausência de rigor estético faz com que a produção abuse de cordas dramáticas para enfatizar momentos críticos (que talvez funcionassem bem melhor só com som ambiente), diálogos triviais e situações brega. É só ver uma lista das músicas que já tocaram em Lost para ouvir o lado mais farofa da música pop - de pérolas de primeiro calibre como "Wonderwall", "Downtown", "Moonlight Serenade", "Papa Loves Mambo", até bregões americanos do quilate de Damien Rice, Willie Nelson, Dave Matthews Band, Staind e Sarah McLachlan. Os poucos momentos de apuro têm endereço: o tema de "Good Vibrations" faz parte de uma cena na trama, "Xanadu" (genial) usado nessa temporada atual e "Scentless Apprentice" que nos apresenta o Jack pós-ilha.
Lost reescreve a história do entretenimento atual. É uma espécie de pedra-fundamental de um jogo que tem tanto a ver com a possibilidade (ainda ilegal) de se baixar qualquer música gratuitamente via internet quanto com videogames que encapsulam universos inteiros (do GTA ao WoW, passando, claro, pelo Second Life e, por que não, a tal blogosfera) e a não-linearidade e quantidade ilimitada de personagens de grande parte dos filmes de Hollywood. Isso sem contar todo o papo de não limitar a série à TV (Lost Experience, livros, jogos, merchandising online) e do fato dos produtores não terem dado uma de Metallica e saírem processando todo mundo que baixa o seriado. Não é à toa que os caras estão passando a série com pouquíssimo tempo de diferença em relação à TV americana na TV por assinatura, transmitindo todos os episódios em um provedor de internet brasileira e já falaram que vão lançar os DVDs com os episódios da temporada atual nas bancas, aos poucos.
Mas fora isso, se pensarmos apenas nos episódios que são exibidos na TV e encaixotados em box-sets ao fim de cada temporada, vemos que estamos assistindo uma obra aparentemente aberta – pois lida com a sensibilidade da audiência, que simpatiza com um personagem mais do que com outro – que, na verdade, é uma história fechada contada em pedaços. Já vimos esse filme: Pulp Fiction legalizou um jogo de cenas inaugurado por Kubrick lá no Grande Golpe (e gestado por produções tão diferentes entre si quanto Faça a Coisa Certa, Twin Peaks, Sexo Mentiras e Videotape) e o transformou em regra. Filmes como Matrix, Clube da Luta, Os 12 Macacos, Os Suspeitos, Magnólia, Traffic, Corra Lola Corra, Crash e inúmeros tantos exemplos (pense nos Coen, Gondry, Jonze) picotam roteiros em partes distintas para que as organizemos por conta própria. Lost eleva isso a um grau mais série – sim, TV ainda é menos importante do que cinema, mas estamos falando de uma obra que se propôs a ficar SETE ANOS em atividade. Assistimos outros casos desses na televisão – Seinfeld, Sopranos e os Simpsons não duraram tanto tempo por outro motivo, mas, diferentemente, duraram tanto sem ter planejado, foram conseguindo audiência com o passar do tempo e moldaram obras como o passar dos anos, como se molda uma novela.
Segundo seus produtores, Lost é uma história amarradinha, sem pontas soltas, sem forçações de barra. Tomara. Se eles lançarem uma teoria furada ou uma desculpa tipo “tudo foi um sonho”, jogam fora a credibilidade que conseguiram com o público e que, se perderem, perdem muito, mas MUITO dinheiro. J.J. Abrams está aplicando a teoria da cauda longa à produção de conteúdo – não é apenas a quantidade de títulos disponíveis que vai aumentar as vendas, mas a quantidade de tempo dispensado que vai aumentar a fidelidade. Foi o mesmo que Peter Jackson fez com sua versão pro Senhor dos Anéis e que J.K. Rowling com a saga do Harry Potter, levando às últimas conseqüências uma lição que George Lucas aprendeu na marra com seu Guerra nas Estrelas. O futuro de parte considerável do mainstream do futuro é uma saga que se espalhe não apenas por todas as mídias e possíveis ações de marketing, mas também por anos. Marcas feitas para durar - o oposto da estética descartável que sempre associamos ao pop, seja perfeito ou rasteiro.
E não duvide se Jason Hunter for pseudônimo de alguém da equipe do seriado.
Comments
A única coisa que eu achei equívocada, quando li a teoria hunter, foi a questão dos números...
afinal e aquela história de equação de valenzetti, fim do mundo e etc...? A mim aparenta ter uma importância muito maior do que o simples "nada-aleatório", acho sim que eles podem ser o ponto chave para explicar algo em relação a própria viagem no tempo, etc... o que exatamente, nem sei, mas enfim... é sentar e ver :D
aliás cara, lembra a teoria de Felicity no Cloverfield? é, foi a imagem ruim que eu tinha visto mesmo, acabou confundindo, mas que parecia parecia! :D E como escrevi, foi legal pensar que era isso, não?! rs.
abraço!
Posted by: Felipe Gomez | abril 10, 2008 10:36 PM
Putz, as coisas parecem fazer sentido, mas será isso mesmo? Os últimos episódios tem dado nós na minha cabeça. Ahhhhhhhhhhh
Posted by: Hugo Morais | abril 15, 2008 12:02 PM