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Incrível a última quinta-feira no Clash, hein, hablaçério. Só bordoada fina na orelha fazendo quadris elevarem-se no puro suco do delírio animalesco e o clima de paquera instaurar-se como fórmula mágica pra abençoar a pista de dança. E é só começo do desfile de hits da coleção Outono/Inverno 2007.
O baile continua com um desafio proposto pela Brasa, festa brassileña tocada pelo Dago e pelo Gui todas as sextas-feiras ali no Berlin, na Barra Funda - só música brasileira! Então tá proposto o tema da terceira edição da nova coleção. Motivo pra ficar parado é o que não vai ter! E além da gente começando a noite, tem o show dos Telepatas e a discotecagem do próprio Dago, madruga adentro. Pra pagar 10 pilas em vez dos 15 integrais, coloca o nominho aí no www.gentebonita.org - e depois é correr pra festa.
Gente Bonita @ Brasa
DJs: Dago (residente) e Gente Bonita Clima de Paquera (Luciano Kalatalo e Alexandre Matias)
Show: Telepatas
Sexta-feira, dia 29 de junho de 2007
23h
Local: Berlin. Rua Cônego Vicente Miguel Marino, 85. Barra Funda.
Telefone: (11) 3392-4594
Preço: R$15 ou R$ 10 com nome na lista.

E vamos entrando na temporada Outono/Inverno 2007 de hits Gente Bonita Clima de Paquera. Sinta-se à vontade...
(01) "Dance(MSTRKRFT remix)" - Justice
(02) "SimianTronicDisco" - Dunproofin
(03) "Fancy Footwork" - Chromeo
(04) "Turning In" - Hadouken
(05) "Brain Leech(Bugged Mind Remix)" - Alex Gopher
(06) "The Fallen(Justice Edit)" - Franz Ferdinand
(07) "Office Boy (Shir Khan Mix)" - Bonde do Rolê
(08) "scream (primal scream)" - mantronix
(09) "Moby vs The Prodigy - Natural Bitch" - Electrosound
(10) "Tu Es A L'ouest" - Pravda
(11) "DVNO" - Justice
(12) "Body Balan ço" - Gente Bonita
(13) "Pop The Glock Your Body" - Uffie Vs Les Rythmes Digitales
(14) "Planet Maravilha" - Mechupa
(15) "The Commissioner's Dashboard" - WFAH
Download:
Uma Noite Perfeita Com Gente Bonita - Gente Bonita Vol. 06
Naquela onda: falo um naco no começo e depois é só deixar o som rolar...
- "There Was a Time" - T-Rex
- "The Professional" - Pulp
- "Coluna do Meio" - Zeca do Trombone e Roberto Sax
- "Golden Rule" - Quantum
- "Charlotte Sometimes" - Cure
- "SexyBack" - Justin Timberlake featuring Timbaland
- "Toda Colorida" - Los Sebosos Postiços
- "You Can't Do That" - Supremes
- "Auf Asche" - Franz Ferdinand
- "Pumping in Your Stereo" - Supergrass
- "Kingdom of Doom" - The Good, the Bad and the Queen
- "Por Que Não Eu?" - Kid Abelha & os Abóboras Selvagens
- "Fireworks" - Whitest Boy Alive
- "Mother Sky" - Can
- "White Light/White Heat" - Velvet Underground
- "Steppin' Out" - Joe Jackson
- "Thank You" - Led Zeppelin
- "Please Mrs. Henry" - Bob Dylan & the Band
- "Taxman" - Junior Parker
- "O Meu Refrigerador Não Funciona" - Mutantes
- "Só (Solidão)" - Tom Zé
Uma é uma brincadeira de um estúdio feita, provavelmente, pra "gerar um viral".
A outra é a música nova do Kanye West, que antecipa o próximo disco dele, Graduation...
...e o Girl Talk (que mashupou o Daft com o Kanye em suas discotecagens) comenta sobre o ocorrido.

Dario Argento é comumente associado à grande cinematografia e à cúpula do cinema de horror, ganhando adjetivos suntuosos como "o Hitchcock gore", "Walt Disney ao contrário" ou "o Visconti da violência". Mas seu perfeccionismo obsessivo e insistência na originalidade artística foram muito além do cinema. E fora da sétima arte, um de seus grandes feitos foi ter transformado uma banda italiana que imitava grupos de progressivo inglês numa versão jazz-funk de um grupo formado por integrantes do Pink Floyd (Gilmour e Wright) e do Black Sabbath (Butler e Ward) instrumental e proto-eletrônico que faria as trilhas sonoras de seus principais filmes.
O Goblin era uma espécie de supergrupo do prog italiano, uma cena que, como boa parte dos progressivos europeus continentais, se limitava a copiar o que o Genesis, o Yes e o Emerson, Lake and Palmer faziam. Formado por integrantes de bandas de nomes como Rivelazione, Ritratto di Dorian Gray, Etna e Era di Acquario, o quinteto seguia a formação clássica das bandas do gênero: Tony Tartarini nos vocais, Claudio Simonetti nos teclados, Massimo Morante nas guitarras, Fabio Pignatelli no baixo e Walter Martino na batera. Se apresentavam como Cherry Five e, depois de serem contratados pela gravadora Cinevox, foram apresentados a Argento, que procurava um artista para compor a trilha de seu novo filme.
Argento começou bem no cinema, graças à influência do pai, o produtor Salvatore Argento, que colocou o filho no ramo com o cargo de roteirista. Esperto e com cinema tatuado no DNA, Dario logo conseguia destacar-se no negócio, especialmente quando colocou o ponto final no roteiro de C'era Una Volta Il West (Era uma Vez no Oeste), de Sergio Leone, em 1968. O feito lhe deu a oportunidade de crescer na carreira e no ano seguinte, lançava-se na direção, filmando os três primeiros marcos do thriller italiano: L'Uccello dalle Piume di Cristallo (O Pássaro das Penas de Cristal, de 1969), em que a testemunha acidental de um homicídio ocorrido numa galeria de arte moderninha o transforma em alvo do assassino, e Il Gatto a Nove Code (O Gato de Nove Caudas, de 1970), onde um assassino com um cronossomo a mais é procurado em um hospital, e Quattro Mosche di Velluto Grigio (Quatro Moscas de Veludo Verde, de 1971), em que um baterista de uma banda de rock é perseguido por um psicopata de terno preto. Considerada sua "trilogia animal", estes três filmes estabelecem o nome de Dario Argento como um dos mais importantes do novo cinema italiano. Além de estabelecer um gênero novo (o suspense) e aclimatado para o público de seu país (embora suas histórias passem em outros países), Argento se mostra um diretor rebuscado, esteta, perfeccionista. Planos e cortes de cena sugerem que o diretor assistiu muito Hitchcock em seus anos de formação, e a tensão psicológica é seu principal vínculo com o espectador. A trilha sonora dos três filmes ficou a cargo do lendário Ennio Morricone, dando o ar clássico e formal que os filmes pediam.
Estabelecido, Argento queria mudar. Inspirado pelo tipo de gênero que desenvolvia no cinema, resolve ir além. Se dispõe a entrar num universo há muito infiltrado na cultura italiana, onde sexo, violência e o sobrenatural convivem naturalmente com o dia-a-dia das pessoas, mesmo que de forma velada e mascarada. Procurando o sentido da sanidade nos porões da psiquê humana, o gênero "giallo" (amarelo, em italiano) reunia elementos de horror, suspense, policial e conspiração política. Ele entra no imaginário do país graças à editora Mondadori, de Milão, inspirada pelos pulps norte-americanos, decide publicar uma série de livros baratos com histórias que misturavam acontecimentos extraordinários - quase sempre violentos e brutais - acontecidos com pessoas comuns. Não havia nome para a coleção - ela era reconhecida graças às capas amarelas dos livros.
Logo, "giallo" significava todo o gênero que prendesse a atenção popular graças a choques de possibilidades improváveis descritas com requintes de crueldade. A razão da popularidade do "giallo" era o aspecto rotineiro das histórias - não haviam monstros do horror (como vampiros ou lobisomens) nem detetives intrépidos (e sim policiais que tremiam frente ao perigo). Logo, ele se tornou uma referência popular italiana e foi tratado como um gênero em si mesmo, criando autores de renome internacional - como Leonardo Sciascia e Umberto Eco -, que partiam da rotina italiana para os extremos da imaginação.
Mas por mais que tente-se definir "giallo" como um gênero, ele não é descrito por parâmetros claros. É como "brega", "pop" ou "world music" - adjetivos flexíveis para determinar estados de espíritos que mudam com o tempo. Ele varia de acordo com a demanda popular, com o espírito coletivo da época, com as ansiedades e expectativas da população leitora, podendo tornar-se meramente policial ou político até chegar aos limites da violência
E era lá que Argento queria ir. Enquanto foi desenvolvendo sua cinematografia, percebeu o efeito que as cores fortes provocavam nos espectadores de filmes, e queria ir lá. Para isto, deixaria de lado a sugestão e o suspense de seus primeiros filmes e se entregaria ao horror explícito. Quanto mais gráficas as mortes, mais saturadas as cores. E aproveitando-se de ter ganho a consciência do espectador através de um tratamento de choque de cromoterapia aplicada diretamente aos olhos, forçava o vínculo inicial - o terror psicológico - ao abismo da sanidade. E em 1973, fez dois filmes-laboratório antes de aplicar suas novas teorias à película: La Cinque Giornate (Cinco Dias em Milão, uma sátira sobre a agitação política em 1848) e La Bambola (A Boneca, sobre a caçada a um serial killer). Ambos filmes tiveram sua trilha escrita pelo compositor Giogio Gaslini, que emulava em termos o trabalho que Morricone havia feito nos três primeiros filmes de Argento, com um pé no jazz.
Mas quando começou a filmer Profondo Rosso (Vermelho Profundo), em 1974, a trilha de Gaslini realmente comprometia o resultado final. Tentando acompanhar o raciocínio do diretor, ele radicalizou o aspecto de sua música que mais tinha de talentoso - a referência jazzística - para a trilha do novo filme. Mas enquanto as imagens evocavam força e intensidade, a trilha de Gaslini se limitava a propor harmônicas ou tônicas descendentes. Dario não queria jazz e explicou-se a seu compositor. Usaria a trilha escrita pelo autor, mas com outro tipo de interpretação.
O filme começa como um suspense tradicional de Argento, que aos poucos vai assumindo novas cores - especialmente o vermelho, claro. Saturando o Technicolor, ele consegue um efeito surreal sobre as cenas de violência, as mais gráficas da história do cinema, até então. Disposto a fazer o espectador sentir dor através da indução visual, ele entrega suas vítimas ao sofrimento corriqueiro, sempre levado ao extremo. Por isso, nada de armas de fogo, aparelhos de tortura ou líquidos corrosivos. Argento prefere incitar a dor através de situações comuns ao público médio. Por isso, uma faca é usada mais para dilacerar do que para esfaquear; por isso cabeças batem em quinas de mesa; vidros quebrados retalham pessoas; água fervente é usada como arma. Usando o mesmo David Hemmings que Michelangelo Antonioni usou em Blow Up (1966) como protagonista, Argento espera que o espectador esteja preparado para o mesmo tipo de imersão cinematográfica do clássico filme sobre a Swinging London. Só que em vez de entrarmos na mente egoísta de um fotógrafo sórdido, estamos entrando num universo de dor e horror.
Estes dois elementos ganham pequenas óperas visuais no decorrer do filme. Sempre que o roteiro original pede um determinado fôlego, o diretor obriga o público a ser apresentado a outra forma de narrativa. Menos polida e mais agressiva, ela é filmada com muita intensidade e distorção de imagem e cores, ganhando contornos de pesadelo psicodélico, a pior bad trip da história.
É aí que entra o Goblin. Ou melhor, o Cherry Five, como ainda era conhecido na época. Trabalhando sobre as melodias compostas por Gaslini, eles repetem a troca de ambiente proposta pelas cenas de horror. Começa uma das parcerias mais sólidas da história do cinema. Disposto a aterrorizar a audiência musicalmente, o Cherry Five se entrega a jam sessions de funk psicodélico pesado, com influências como Jimi Hendrix, Black Sabbath, Blue Cheer e o Bitches' Brew de Miles Davis escancaradas. Casando esporros elétricos com cenas cheias de sangue e sofrimento, Dario Argento e antiga banda progressiva conseguem efeitos audiovisuais que inspirariam várias gerações de cineastas e músicos.
O grupo assina a trilha de Profondo Rosso como Giorgio Gaslini & The Goblins e o disco segue o enorme sucesso de público que o filme, lançado em 1975, transformando o grupo em um nome popular no pop italiano - algo que os integrantes do Cherry Five sequer imaginavam. Aproveitando o que achavam ser seu único momento de fama, Martino e Tartarini deixam o grupo pouco antes do embarque para a primeira turnê italiana depois do disco. Os dois formariam o conjunto Libra e a banda, agora rebatizada apenas Goblin, recruta Agostino Marangolo para a bateria - que, experimentando e muito com ritmo e percussão, permite que o grupo atinja novas fronteiras musicais. É com esta formação que gravam o disco Goblin, em que estabelecem o método experimental usado nas gravações como novo som do grupo. Lançado em 1975, Goblin, o disco, não fez o mesmo sucesso de Profondo Rosso e a banda, frustrada, quase acabou. (Vale checar a atordoante viagem sci-fi funk "Snip Snap", conduzida com dois tecladões elétricos).
Argento de novo entra na história e força a banda a trabalhar juntos novamente, desta vez compondo a trilha para seu novo filme, Suspiria, antes mesmo de qualquer tomada ser realizada. Suspira começa como uma tentativa de adaptação de um ensaio de Thomas DeQuincey sobre "As Três Mães" - bruxaria pesada. Mas logo a adaptação se transforma num conto de fadas moderno, que assiste à dançarina Suzy Banyon descer às profundezas mais assustadoras de sua existência, quando deixa os Estados Unidos para estudar numa assustadora academia de dança na Alemanha. Para encurtar a história, a academia é um covil de bruxas e sua diretora - Elaina Marcos, a própria Mater Suspirion.
O segredo do filme é que a saturação do Technicolor - amarelo, azul e vermelho - é constantemente forçada, sem a separação de "vida real" que Profondo Rosso fazia, comparando as cenas mais leves com as mais violentas. Em todo o filme, o vermelho, em especial, é vermelho demais, artificial demais, e ele está em todo o lugar: tapetes, cortinas, paredes, vinhos, tijolos, esmaltes e, claro, sangue. Aliado à atmosfera germânica caricata da academica de dança, o vermelho nos joga no meio de um conto de fadas teutônico, cheio de personagens bizarros, mulheres sombrias e até um criado corcunda.
Com a trilha de Suspiria, o Goblin faz seu melhor disco. O jazz-funk psicodélico ganha mais nuances e sai do formato rítmico tradicional para explorar novos ares. Assim, a faixa título pode remeter a "One of These Days" do Pink Floyd, mas a melodia infantil que inicia a faixa e os murmúrios e gritos abafados ("Witch!", quase infantis), a levam para o sobrenatural. E assim segue o disco: um pé no experimentalismo assustador, outro no rock pesado e improvisado. "Witch", a segunda faixa, remete a uma "Carmina Burana" ainda mais mundana e hostil, com gritos de pavor em vez do coral lúgubre. "Sighs" mescla ecos desencarnados, gritos inumanos e um violão repetitivo, verdadeiro mantra do inferno.
O lado B do disco pega mais leve. A base eletrônica de "Markos" permite o grupo entrar em uma espécie de bebop eletrônico sem música, com uma percussão espacial que remete à Arkestra de Sun Ra. "Black Forest" e "Blind Concert" seguem prerrogativas tradicionais do jazz funk, a primeira mais contemplativa e a segunda mais ágil, criada em torno de uma base de piano fantasma, que surge ocasionalmente pelo andar da faixa. A inocente "Death Valzer", uma valsa tocada apenas ao piano, entre o boogie-woogie e a melancolia é o clássico banho de água fria que compositores de terror jogam no espectador ao final do filme.
A trilha, como o filme, foi outro grande sucesso e selou a carreira da banda ao lado do diretor, que ainda colocaria música em vários clássicos de Argento, como Inferno (1978), Zombi (1978), Tenebrae (1982) e Phenomena (1984). A banda acabou em 1985, e seus integrantes seguiram em erráticas carreiras solo (apenas Simonetti se estabeleceu como compositor de trilhas sonoras). Mas o status cult de Dario Argento e a febre de horror que tomou o mundo pop no final dos anos 80 e começo dos anos 90, reestabeleceram o Goblin como uma das bandas mais assustadoras a fazer música para cinema. Do lado de Suspiria, apenas os Tubular Bells de Mike Oldfield (a trilha sonora de O Exorcista), o Exorcista II (de Ennio Morricone) e os "ch-ch-ch... ah-ah-ah..." de Sexta-Feira 13, conseguem meter tanto medo.
E essa é com a Viviane Menezes, a primeira blogueira do Brasil. Cadê ela hein?
***
Entrevista publicada em 14 de agosto de 2002
Viviane Menezes, do White Noise, é - mesmo - a pioneira em weblog no país
“Até agora não achei um weblog brasileiro anterior a ele, mas não tenho como confirmar se foi mesmo o primeiro”, assim Renato Pedroso Jr., o Nemo Nox, explicava o título de blogueiro mais antigo do Brasil, em entrevista a este site, no começo do mês. Assim que a entrevista foi ao ar, mensagens via ICQ e alguns emails vieram perguntar sobre uma menina gaúcha. “E a Vi?”. Fui atrás dela.
E que surpresa descobrir que a Vi é Viviane Menezes, uma gaúcha de 23 anos que bloga desde fevereiro de 1998, exatamente um mês antes do Nemo Nox começar seu Diário da Megalópole. Vi, que posta diariamente em seu White Noise (versão Outono/Inverno) pode ser considerada ainda mais veterana que Renato, pois começou a escrever seus diários online em 96, mas sem o formato de blog. Em seus tenros 17 anos, ela escrevia o que, na época era conhecido por “journal” (diário, em inglês), com uma página em HTML para cada dia passado. Sem querer desmerecer o pioneirismo de Renato nem seu trabalho, é muito mais legal para o país ter uma blogueira típica - uma menina escrevendo sobre a sua própria vida - do que um jornalista sério falando dos problemas do mundo ocupando tal posto. Sabe como é: blog, acima de tudo, é comportamento...
Mas Vi (olha o cara, já tá íntimo...) está longe de ser uma blogueira típica. Ela não gosta do oba-oba que a comunidade online criou assim que o Blogger se tornou uma realidade. O formato para ela é mais terapêutico que social: “Pra maioria das pessoas, é um jeito de conhecer pessoas, fazer novas amizades. Ou um meio de falar dos assuntos que gosta e ser ouvido. Eu já passei dessa fase”.
Cursando letras na UFRGS e direito na PUC-RS, ela é apaixonada por idiomas (fala inglês, italiano e começou a fazer russo), mas o que a levou a estudar japonês foi a paixão pela cultura pop japonesa. Otaku assumida, ela tirou seu nick (LilKitsune) da personagem Kitsune, de seu mangá favorito, Love Hina. O “Lil” é uma abreviatura do “little”, em inglês, “porque sou pequena”. Além do blog, ela ajuda uma amiga a organizar a versão sulista do AnimeCon, encontro nacional de fãs de animes e mangás, que aconteceu em julho em São Paulo. Segue a entrevista, feita em duas etapas.
PLAY - Fale sobre os seus primeiros dias na internet...
Viviane Menezes - Meus primeiros dias foram em fins de 1994, com meu primeiro computador e BBS... Mal estavam começando a surgir provedores de internet, os sites ainda engatinhavam, não havia todas essas frescuras de CSS, scripts mil, etc...:) Eu navegava via Lynx, acessava BBS, olhava meus emails, falava com alguns amigos que foram pra longe. E em 96, quando tropecei nalguns diários na internet, descobri que tinha toda uma comunidade em volta disso lá fora. Foi como achei uma boa maneira de manter os amigos de longe atualizados.
PLAY - Como funcionava? Quais eram os provedores?
Vi - Eu usava a Renpac, da Embratel, e por ali acessava por via discada a conta de email e Telnet de um primo na UFRGS. Pagava uma fortuna por esse serviço. De provedores aqui no Sul tavam surgindo a Plugin, mas não lembro quais outros... Isso foi em 94. Em 96 já tinha o Zaz, a Mandic BBS já tava crescendo.
PLAY - Quantos anos você tinha quando começou os diários?
Vi - 17,18.
PLAY - E como eram estes primeiros diários? Haviam links?
Vi - Eles não existem mais online. Tenho cópias de alguns em disquetes e CDs. Era diários mesmo, tudo que se fala em um diário de papel. Links apareciam de vez em quando, para outros companheiros "journallers", como o pessoal se chamava lá fora. A diferença é que era tudo feito manualmente, geralmente um texto longo por dia, com links para o dia anterior, o seguinte, os arquivos e outros journals...
PLAY - Você escreve em diário desde pequena?
Vi - Dá pra dizer que sim. Desde os 12, 13 anos.
PLAY - E mudou muito o teor do que você escrevia, de lá pra cá?
Vi - É sim, bem diferente do que eu escrevia aos 13 anos porque naquela época eu não tinha grandes preocupações na vida, como a maioria das crianças normais (ri).
PLAY - Por que você escreve diário? É instintivo?
Vi - Sempre tem um propósito, eu sei os motivos. É raro ser instintivo porque eu rumino muito as idéias antes de pôr pra fora. Eu escrevo quando não aguento mais pensar no assunto. Só escrevo por impulso quando tou com TPM, mesmo. Como ontem.
PLAY - Como você vê seus textos atuais? Qual é a função do seu blog?
Vi - Eu não tenho um estilo, um tipo de texto definido. A função do meu site é, ainda, principalmente, falar com os amigos que estão espalhados por aê pelo mundo, e um lugar pra descarregar as coisas que incomodam, as pequenas futilidades que me alegram, que podem não valer nada pra ninguém, mas que pra mim tem muita importância na definição de que tipo de pessoa eu penso que sou.
PLAY - Blog é terapia?
Vi - Dizer que é terapia é uma generalização que não dá pra fazer. Cada um tem um blog por uma razão diferente e acho que pra muitos não são terapia. O meu weblog é uma terapia, sim. Escrever me ajuda a pensar com mais clareza nas coisas que eu sinto. Reler os arquivos meses depois me ajuda a ver muita coisa que mudou e que eu não tinha me dado conta. Consigo ver o que mudei pra melhor, no que eu piorei com o tempo. Pra maioria das pessoas, eu acho, é um jeito de conhecer pessoas, fazer novas amizades, não exatamente terapia. Ou um meio de falar dos assuntos que gosta e ser ouvido. Eu já passei dessa fase.
Pra mim, se alguém lê ou não, não importa. Tanto que fico tempos sem escrever e não me preocupo se tou perdendo audiência. Escrevo quando preciso ou quando quero dividir algo com meus amigos que não posso ter perto.
PLAY - E como você viu a febre dos blogs crescer?
Vi - Bom, eu comecei fazendo em inglês, como uma seção de menor importância dentro de um diário que eu tinha. Era onde eu escrevia quando queria ser breve, mas tinhas algo a dizer. De repente, no final de 1999, encontrei um, dois, três brasileiros. E resolvi fazer em português. Era início de 2000 e em poucos meses surgiram vários. No início era fácil acompanhar todos que tinha, em menos de seis meses, ficou impossível!! Virou moda, uma que todo mundo devia aderir, pra fazer amizades, expressar sua opinião, etc. Agora estamos no segundo estágio, weblogs como uma ferramenta poderosa de mídia, jornalismo, etc. Fico imaginando qual será a próxima fase de teorias... (rindo)
PLAY - Você lembra dos primeiros blogs? Vocês se conheciam (ao menos virtualmente)?
Vi - Eu lembro que o primeiro que descobri foi o Marcus Amorim (do Zamorin), e acho que foi ele que me achou por uma reportagem da revista Webguide e outra da revista Internet.br. Através dele que encontrei outros links, do site dele. Era o Boimamu, a Cortina, a Telescópica do Jean Boechat... Eu acompanhava, mas não interagia com eles não. Só bem depois vim a conhecer alguns virtualmente... (ri) Hoje em dia não tenho muito saco pra isso, não mantenho muito contato com outros webloggers.
PLAY - Os pioneiros se sentiam parte de um clube recém-fundado?
Vi - Eu nunca me senti parte de um clube, até porque já fazia isso há tanto tempo, escrever online, que pra mim não era novidade. Mas pra muitos acho que foi legal essa explosão, ter mais gente, mais diversidade. Pra outros não foi muito legal, pois também surgiu muita gente que só queria saber de linkar e ser linkado. Mas isso é uma sensação que eu tive, acompanhando listas de discussão. Não posso falar da reação de ninguém específico.
PLAY - Por que você não tem mais contato? Encheu o saco?
Vi - Enchi um pouco o saco sim. Quando o pessoal do Rio Grande do Sul se reúne, o que não é freqüente, eu vou na boa, acho divertido, mas não tenho mais saco nem tempo pra ficar fazendo política de boa vizinhança pra aumentar audiência ou o número de links que eu tenho por aí (ri)... Não tenho muito tempo ultimamente, então gosto de aproveitar o pouco que tenho pra cuidar do meu weblog, que já fica bem negligenciado com freqüência.
Sei que essa minha postura é totalmente antipática, muita gente fica chateado, zangado, me acham esnobe, mas é que realmente o meu interesse com meu weblog é outro... Cada um sabe de seu propósito (ri).
PLAY - Todo mundo deve ter seu próprio blog?
Vi - Eu acho que todo mundo tem direito de ter o seu, mas isso não significa que todos tenham a capacidade de ter. Como eu disse, cada um sabe seu propósito. Se o motivo é brincar de ser popular e fazer novas amizades, tudo bem, mas não fiquem censurando quem não tem este propósito. Tem gente que te xinga, te malha e diz "por que tu tem weblog então, se não quer fazer amizades?". Se dêem conta que um weblog não é só isso pra outras pessoas. Não é concurso de popularidade. Se é pra ficar concorrendo com os outros, então melhor não ter.
PLAY - Mas, por outro lado, existe um oba-oba forcado entre os bloggers brasileiros... Aquela história de "fala bem do meu blog que eu falo bem do teu"...
Vi - Não gosto desse oba-oba, desse falso "dever". Já fui muito antipática, às vezes grossa mesmo, com gente que ficava me cobrando isso. Como eu disse, pra mim não é concurso de popularidade. Eu estou há tempos fazendo isso. Um dia a moda acaba e talvez eu ainda esteja fazendo isso, é algo necessário pra mim. Então, eu não vou estar distribuindo links pra receber um de volta. Não preciso. Adoro quem me lê e tem gente que lê há muito tempo. Nem sempre consigo responder meus emails mas cada vez que recebo email deles, já sei quem é, tenho carinho. Prefiro dar links pra pessoas assim, que eu aprendi a gostar e tenho vontade de acompanhar, seja por serem também meus leitores, por serem meus amigos ou porque o weblog me cativou.
PLAY - Seu blog sempre teve o mesmo nome?
Vi - Meu weblog mudou muito de nome. O primeiro era Delights to Cheer, que era o nome do diário que eu tinha. Depois veio o Duhast.org, que foi um domínio que eu tive. Dele, passei pro Antropomorphica, onde tinha o Antropolog. Depois que deixei de ter estes domínios e passei a ter o Wiredkitsune, só os títulos tem mudado... Já tive o Jogo da Verdade, o Pequenas Vontades. Insanities, White Noise Verão, e agora o White Noise Outuno/Inverno. Tive mais títulos e visuais, mas nem lembro de todos. Os títulos geralmente tinham a ver com coisas q eu curtia no momento (rindo).
PLAY - Como ele mudou, com o passar do tempo?
Vi - Já escrevi mais sobre generalidades, comentários sobre sites legais, notícias importantes, livros... Atualmente é algo bem egocêntrico. Falo de mim e era isso (ri). Foi desenvolvendo-se naturalmente.
PLAY - Compare o seu amadurecimento pessoal com o amadurecimento do seu blog...
Vi - Eu não acho que meu weblog amadureceu. Talvez tenha regredido um pouco. Já foi mais informativo, já foi mais interessante, mais atualizado. Hoje em dia acho que o conteúdo interessa mais pra mim do que pros outros. Eu certamente amadureci bem mais que ele. Através dele dá pra notar o meu crescimento lendo os arquivos todos. Mas não dá pra olhar e dizer também que o weblog amadureceu.
PLAY - Você acha que o seu blog é uma extensao da sua personalidade?
Vi - Ele não é extensão da minha personalidade. Ele só reflete fragmentos da minha personalidade. Mostra pedacinhos de mim, como num quebra-cabeças mesmo. Mas eu não sou só aquilo que está ali. Eu sou muito mais. Há outras tantas coisas que eu sou/faço/penso que não estão ali. Não tem como... Ele dá uma idéia de como eu sou. É um rascunho meu.
PLAY - Você já se sentiu invadida?
Vi - Já, já me senti. Porque acontece de ler um weblog e se apegar à pessoa. Dá a falsa sensação de conhecê-la como se fosse uma velha amiga. Já teve gente com essa impressão e que falava comigo por email ou ICQ, e que se esquecia que eu, por outro lado, não tinha qualquer idéia sobre quem elas eram, do que gostavam, embora elas se sentissem minhas velhas amigas. E esperavam ser tratadas assim e isso praticamente não acontecia. Ficavam muito chateadas, algumas eram agressivas. Eu sou temperamental, respondia no mesmo tom, muitas dessas pessoas deixaram de gostar de mim.
PLAY - E como você se sente em relação a isso?
Vi - Eu me sentia mal no início. Depois aprendi a ignorar, deixou de me afetar. Hoje em dia só fico triste que não tenho conseguido tempo pra responder às pessoas que ainda têm coragem de me escrever (pouquissímas, infelizmente), e que nunca me cobraram este tipo de resposta.. Esse tipo de tratamento de "velhos amigos" sem me dizer nada sobre elas mesmas...
PLAY - E como é a sua rotina com o blog?
Vi - Escrevo só quando tenho vontade. ou seja, pode ser a qualquer momento desde que eu esteja no computaodr, que é quase sempre que estou em casa e não tem tempestade lá fora. Geralmente escrevo e posto só de casa, mas não tenho nenhuma rotina. Sou indisciplinada...
Essa foi com o Ira, que na época ainda morava na Alemanha, onde hospedava o Growroom.
***
Entrevista publicada em 8 de agosto de 2002
Da Alemanha, o designer brasileiro Ira ensina as manhas do cultivo da planta
O designer Ira tem 26 anos e fuma maconha todos os dias desde os 16. Nestes dez anos de fumaça, ele aprendeu não só a apreciar variedades diferentes de fumo, como a plantar a erva em casa. Mudou-se para a Alemanha há dois anos (para estudar) e aproveitou o clima de liberação da planta no Velho Continente para colocar seus estudos em prática. Mais do que isso - passar os ensinamentos adiante. Assim, ele criou o Growroom, site dedicado ao cultivo da planta a domicílio, tudo para desvencilhar os prazeres da planta dos nefastos interesses do crime organizado. Troquei uma bola com o sujeito hoje à tarde, via ICQ, e segue o papo aí embaixo.
PLAY - Como começou o Growroom?
Ira - O site surgiu em março. Tive uma idéia de desenvolver um site decente sobre cultivo de cannabis, já que na web brasileira não tinha nada que prestasse sobre o assunto. Comecei a pesquisar sobre o cultivo em inglês e acabei me deparando com o gigantesco site Overgrow que é tipo uma bíblia sobre o assunto. É um fórum em inglês sobre cultivo de cannabis, que na verdade eu somente traduzi e comecei a mandar por email para uma galera de usuários brasileiros que eu descobri por lá, além, de mandar para sites de pessoas que apreciam não só a erva, mas músicas e outras coisas de estilo de vida que se relacionem ao assunto.
O site foi criado em uma fase en que eu tava trabalhando num frila que o cliente era simplesmente um saco. Eu fazia uns layouts maneiros, levava no cliente e o cara mudava tudo, estragando todo o meu trabalho. Fiquei de saco cheio dessa situação e a fim de criar algo pra mim, um projeto pessoal que também servisse como válvula de escape. Onde eu pudesse experimentar layouts como eu quisesse, sem chefe nenhum ou cliente algum dizendo "muda isso", "faça aquilo".
Assim, meti a cabeça no projeto que inicialmente era só um fórum para os usuários discutirem. O fórum que eu usava na época era um board em PHP shareware/GNU em alemão! Então meu primeiro desafio foi traduzir um site todo do alemão pro português, me enbrenhando pelos códigos PHP que também não me eram nada familiares como um designer. Mas dei meu jeito, já que havia vontade, e tudo funcionou bem. Até hoje ainda aparecem algumas coisinhas no site em alemão e sempre que as descubro, vou corrigindo!
PLAY - E o site tem muitos acessos? Dá pra traçar um perfil do usuário?
Ira - Sim. Estamos formando uma comunidade bem informada e unida! Acho que estamos com umas 300 visitas por dia. Já temos quase 650 usuários cadastrados.
Teve um thread do fórum em que fizemos uma pesquisa sobre o que cada um faz da vida e foi constatado que na comunidade growroom existem muitos profissionais de internet na faixa dos 20 aos 30 anos. Confirmando então aquela pesquisa da BBC sobre os profissionais de TI que gostam da macaca!! Afinal, aguentar esse stress do mundo pontocom, só dando um pitozinho mesmo... O site cresce a cada dia que passa! Todo dia, se cadastram umas 10 pessoas! Estamos agora fazendo umas camisas do site, já que o pessoal estava pedindo muito. A comunidade se tornou muito fiel e quem começa com o cultivo, não pára. Com o tempo, o site foi crescendo e fomos formando um time com os users mais antigos. Aí começamos a aumentar as areas do site, que inicialmente era somente o forum. Depois surgiu uma área do site que é o FAQ, com as perguntas consolidadas que já foram discutidas no fórum. Em seguida, fizemos uma área de livros sobre cultivo, uma base que já conta com informação sobre mais de 50 tipos de cannabis existentes. Em breve estamos lancando uma galeria onde os usuários poderão compartilhar as fotos de suas plantinhas com toda a comunidade Growroom.
Desde que o site começou, muitas pessoas já começaram a cultivar cannabis em sua casa, convencidas de que assim irão fumar algo melhor que um fumo prensado cheio de amônia, que os traficantes colocam no fumo. Não vão precisar mais entar em contato com crimonosos perigosos ou ir para lugares perigosos, além de não incentivar ou patrocinar o crime organizado comprando fumo na mão dos traficantes.
PLAY - Você está a quanto tempo na Alemanha?
Ira - Há dois anos.
PLAY - As leis aí na Europa estão ficando mais brandas...
Ira - Com certeza o fato de eu estar na Europa me ajudou na criação deste site. Aqui o assunto não é mais tabu. Em qualquer lugar, as pessoas consomem cannabis: parques, festas, na rua... Ninguém esté nem aí! Às vezes, nem mesmo a polícia! Só estão interessados em saber do que se trata se o comércio estiver envolvido. Mas o uso está totalmente tolerado!
PLAY - Você acha que isso é possível no Brasil? Afinal de contas, seguimos o padrão americano, nao o europeu...
Ira - Há pouco tempo, na Inglaterra, que é um país conservador, um político - David Blunket - mandou uma lei em que o usuário não será mais punido com prisão ou algo do tipo. Eu vejo isso como uma tendência a ser seguida em países que estão mais avançados nesse lado da política das drogas.
No Brasil, eu realmente não sei! Vejo que toda essa nossa geração que tá vindo aí, já é muito mais esclarecida sobre o assunto. Quem tem de 20 a 30 anos sabe do que se trata quando se fala de maconha, ao contrário do meu pai e outras pessoas mais velhas que ainda acham que maconha se cheira. É muita falta de informação! E esse também é um papel do Growroom: informar realmente que maconha não é esse bicho de sete cabeças! É uma plantinha, somente. Acho que no Brasil, só vai mudar algo daqui a algumas gerações.
PLAY - Além do Growroom, existem outros sites sobre o tema na internet brasileira?
Ira - Que aborde bem o assunto, eu não conheço mesmo! O único site que tinha era O Bolha, que também é sobre cultivo. É de um designer que também mora no exterior.
PLAY - Você acha que a internet é a melhor maneira de fazer as pessoas se conscientizarem disso?
Ira - A melhor forma são todas as formas! Mas a Internet é um canal que possibilita isso sem necessitar de convite de rádio, jornal ou televisão. É uma mídia bem democrática, que nos possibilita isso, sem dúvida.
PLAY - Planos para o futuro?
Ira - Melhorar o acervo do FAQ, fazer um layout melhor para o site, já que o espaço pro conteúdo nas outras áreas diferentes do fórum é muito limitado, mas não tem data. Daremos início às vendas das camisas já!
PLAY - E do alto de sua experiência, qual é o melhor jeito de se fumar?
Ira - A melhor forma é quando se está na frente do computador, trabalhando, fazendo um layout ou falando com alguém é uma caprichada BONGADA!! Encha a cabeça do bong com um fuminho verdinho, gostosinho e dê aquele catrancão!! Faz a cabeça de uma vez por horas, sem perder muito tempo. Mas se estou com tempo, quero saborear um fumo gostoso, estou com os amigos, em casa, relax, escutando um som, nada melhor que o clássico cone. Um baseado normal. E de vez em quando, pra variar, rola um cachimbo, um balde, chillum... Tanto faz!! Não tem aquela "EU BEBO TODAS"? Então: EU FUMO TODAS!
Nessa, o Cris Dias fala sobre o então recém-criado Toplinks, que não existe mais.
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Entrevista publicada em 29 de julho de 2002
Com seu Toplinks, Cris Dias quer saber o que se passa na cabeças dos blogueiros brasileiros
O webdeveloper Cristiano Dias, 29 anos, tem histórias para contar: administrador de um dos fóruns de discussão de notícias sobre TI no Brasil (o Idearo), ele foi trabalhar com internet nos EUA no mês em que a bolha pontocom estourou e sai de lá no mês seguinte aos atentados ao World Trade Center. Teclando do Canadá, ele dá um passo ousado e importante. Com o Toplinks, ele quer rankear os assuntos mais comentados nos blogs brasileiros. É a versão nacional para o já obrigatório Blogdex, mas vai muito além de um Herbert Richers eletrônico - a idéia é mapear as áreas de interesse da comunidade blogueira do país, coletivo que tem no próprio Cris um de seus pioneiros. Conversei com o cara e segue o bate-papo que tivemos, via ICQ, hoje (29/07) à tarde - logo após ele ter oficializado o lançamento do Toplinks em seu blog.
PLAY - Quando começou a sua relação com a internet?
Dias - Xi :) Bom, eu uso internet desde... hmmm... Eu tenho e-mail desde 1995. Eu fazia FTP via e-mail e tudo. Uma coisa levou à outra e comcei a fazer sites profissionalmente por volta de 1997. Em 1998, lancei o MegaTV, site sobre TV por assinatura. E em 2000, fui contratado por uma empresa americana como webdeveloper, por isso tive que tirar o MegaTV do ar.
PLAY - Foi seu primeiro trabalho "autoral" na rede?
Dias - O primeiro, o único que foi ao ar, foi o site de uma loja de bolsas, carteiras e artigos de couro em geral, Zélio. A versão atual não é minha.
PLAY - Você parou com o MegaTV por que não tinha mais tempo para colocá-lo no ar?
Dias - Pois é, não tinha tempo de atualizar e os planos de ficar milonário falharam ;-) A "equipe" do MegaTV era a minha famÌlia. Minha mãe começou a usar computador naquela Época e hoje tem blog e tudo :) Eu trabalhava meio-expediente numa ONG, o Comitê pela Democratização da informática e no outro meio expediente cuidava do MegaTV. PLAY - O que você fazia no CDI?
Dias - Eu era "coordenador de informática". Fazia todo o trabalho de programação de sistemas internos, dava umas aulinhas. Cuidava de tudo, menos da parte de montar computadores para as comunidades.
PLAY - E aí você virou webdeveloper...
Dias - Em outubro de 1999, eu recebi a proposta para vir trabalhar nos EUA, para a RunTime Technlogies. Meu visto de trabalho demorou seis meses pra sair, só me mudei em abril de 2000. Fui de mala, cuia e gato siamês para NYC.
PLAY - Justo quando a bolha da internet estourou...
Dias - Mas como a empresa em que eu trabalhava não tinha ações na bolsa, ela não foi afetada de cara. Ela só sentiu o baque mais pro fim do ano, com os investidores segurando o dinheiro e os clientes parando de contratar serviços. Mas até o fim do ano era tudo maravilhoso, refrigerante grátis, partidas de DreamCast no fim da semana. Depois de dezembro, as coisas começaram a piorar.. Mandaram gente embora e o baixo astral tomou conta da empresa. Como eu tinha visto de trabalho, se fosse mandado embora tinha que voltar para o Brasil. Então comecei a procurar outro emprego por simples insegurança. Além disso a empresa fazia um software para gerenciar sites, não era um site de conteúdo que vivia de publicidade.
PLAY - E você chegou a mudar de emprego?
Dias - Então, rolava aquela esperança de que não seríamos atingidos. Mudei de emprego em abril de 2001. Fui para uma empresa que rodava um serviço de B2B. a empresa se chamava eMarketplaces e fazia ponte entre exportadores de Taiwan e empresários americanos. A Runtime continuou mandando gente embora, mas eu já estava na outra. Mas nenhum investidor ainda tinha coragem de botar dinheiro. E... Eis que os investidores chineses da emarketplaces resolveram tirar o corpo fora. E a empresa fechou total.
PLAY - E você foi para a rua.
Dias - Eu e todo mundo. Em 2001, ninguém contratava nada, mas rolava uma esperança de que o plano de choque do Bush ia trazer a economia de volta. Mas estava num ponto em que ninguém mais contratava. E eu, com visto temporário, sem chance. Para contratar gente com visto temporário, rola uma baita burocracia e algumas taxas - então, sem chance. Tentei uma última cartada: Canadá. Antes de ir para os EUA, meus planos eram ir para o Canadá, onde a imigração é incentivada. Mas com o boom pontocom era simplesmente mais fácil arrumar emprego nos EUA. Mandei currículo pra praticamente todas as empresas de webdevelopment no Canadá e recebi UMA resposta positiva, de uma empresa de Winnipeg. Que é onde vim parar: cheguei aqui em outubro de 2001 :) A empresa é a Mars Hill Group que "faz websites" :) Eu fechei com a empresa em agosto, mas demorou um pouco para processar papelada, etc.
PLAY - E aí vieram os atentados...
Dias - Foi quando me tornei "blogueiro celebridade" :) 2000 acessos em um dia. Eu tava desempregado e morava em Nova Jérsei. Tipo uma hora do ground zero. Já estava nos preparativos para me mudar pro Canadá. No dia, eu ia ver um carro pra comprar e meu pai ligou e disse: "Tudo bem aí? Viu que dois aviões se chocaram com as torres gêmeas?". E eu, com sono, só conseguia pensar: "Tem que ser muito mané pra bater no WTC". Liguei a TV, fui pro computador e começou a chover gente que eu nunca tinha visto no ICQ.
PLAY - Tinha teu uin no teu site?
Dias - No meu profile, do ICQ, tinha q eu trabalhava em Nova York.
PLAY - Jornalistas ou curiosos?
Dias - Curiosos, gente falando espanhol e o escambau: "Qué pasa?".
PLAY - E como você reagiu ao atentado?
Dias - A primeira reação foi de choque e revolta. Mas depois eu comecei a ver a reação dos americanos e comecei a ficar revoltado com aquilo. Tipo: "O que nós fizemos? Por que nos odeiam?". E comecei a entender o papo que americano é bitolado. Meu erro foi começar a ler blog direto sobre o assunto. Os meus amigos de NY sabiam exatamente o que estava acontecendo, mas o "americano padrão", não. Foi um erro, porque eu vi uma versão meio aumentada da estupidez americana. Nem todo mundo pensava daquele jeito, mas era o que eu lia. Comecei a me revoltar e partir pra ofensiva até nos textos do meu blog. De repente, eu havia esquecido que quatro mil "vizinhos" haviam morrido. Esquecido que eu ia no WTC quase todo dia. Mas eu saí dos EUA menos de um mês depois, já estava com tudo arrumado.
PLAY - Como começou seu blog?
Dias - Comecei a blogar nos EUA. Um cara do trabalho, Calvin (um coreano que se mudou para os EUA ainda moleque) me mostrou o dele e, na época, blog era sinônimo de link, não de "querido diário". Eu achei legal, porque eu sempre mandava e-mail para os amigos com links legais, opiniões etc. Então o blog seria a ferramenta ideal. Logo depois, achei um site que listava blogs de todo o mundo, achei o do Zamorim e, lá, achei vários outros. O blog acabou sendo a minha maneira de me manter em contato com o pessoal no Brasil, o "chopp com os amigos".
PLAY - Já no Crisdias.com?
Dias - O domínio mesmo, veio um pouco depois. Eu hospedava a conta no meu provedor, mas a URL era tão grande que resolvi registrar o domínio.
PLAY - Então você é dos tempos pré-blogger. Como viu o crescimento posterior da ferramenta?
Dias - Eu achei muito legal. O Blogger, acima de tudo, me mostrou que é possível ter uma ferramenta de publicação tão fácil que até a minha mãe pode usar. Como eu faço sistemas de "gerência de conteúdo", comecei a prestar atenção em certas coisas, ao desenvolver os sistemas.
PLAY - Mas em seguida vieram os blogs "querido diário"...
Dias - E as pessoas meio que se voltaram para dentro. Eu gostava de colocar links para notícias no meu blog e dizer "eu concordo, eu discordo". Tanto que a área de comentários do meu site é fundamental. Troca de idéias. De repente, todo mundo começa a achar que blog é lugar para falar sobre a vida... É engraçado, todo mundo vivia com medo de ter seus diários publicados na internet e de repente sai contando tudo da vida... Eu acho que se você escreve um "querido diário" contando suas experiências é válido. Tipo, "fiz isso e isso e quebrei a cara, não é uma boa". Uma troca de experiências. Ou então, como me disseram uma vez, para mostrar às outras pessoas que elas não são as únicas neurótico-deprimidas do mundo. Mas tem gente que simplesmente relata a própria vida. "Hoje fui no shopping e tava lotado". Caramba, e daí?
PLAY - E como foi ver crescer, de fora do Brasil, a rede das celebridades blogueiras?
Dias - Eu acho esse lance de celebridades até engraçado. Converso todo dia com boa parte dessas tais celebridades. É tudo gente normal que se tornou celebridade por link-a-link. E serve pra mostrar que tipo de blog o pessoal gosta de ler. Os blogs mais linkados acabam sendo os mais pessoais, como a Zel e ou a Lia Caldas.
PLAY - Olhando de fora, quem é o blogueiro típico brasileiro?
Dias - Antes do blog a gente dizia que as pessoas só usavam a internet para e-mail e chat, certo? Então: esse é o blogueiro-padrão... Ele praticamente não lê sites de notícias... O blog é um "ICQ público", se quiser chamar assim. Mais uma ferramenta para se "socializar". O blog é uma continuação do ICQ. Da mesma maneira que antes entrava no ICQ e dizia "oi, quer tc?", com blog é "ei, gostei do seu blog, passa lá no meu...".
PLAY - Isso é bom ou ruim?
Dias - Pra mim, isso não acrescenta nada. Não é ruim, mas não é pra isso que eu leio blog. Não me interessam as vidas dos blogueiros, me interessam as idéias. Não me interessa se o cara terminou com a namorada. Pode me interessar saber o que ele acha disso, o que ele acha de relacionamentos. Mas, na verdade, estou mais interessado em blogs que falem mais do mundo e menos dos autores. Minha mãe, por exemplo. O blog dela não é "pessoal", ela fala das coisas que vê por aí. Então isso fez com que ela usasse mais a internet para procurar mais coisas pra colocar no blog. Outro "perigo" dos blogs é a esculhambação da língua portuguesa. Neguinho escreve altas atrocidades (meu exemplo preferido é o "naum") e acaba virando certo falar assim. Uma coisa é linguagem informal, outra coisa é falar errado. Dizem que para escrever bem você tem que ler bastante. Mas e se eu ler um monte de coisa errada? Eu não sou professor de português; eu erro, falo palavrão, mas pelo menos eu tento falar direito.
PLAY - Mas ao mesmo tempo, as pessoas vão se acostumando às tags e à terminologia da rede...
Dias - Será que vão se acostumando? Pra escrever que foi ao shopping, o cara não precisa saber HTML. Ele não linka. O máximo que faz é colocar uma imagem bonitinha que viu...
PLAY - Mas isso não é um começo? Ou melhor: não é o começo da vida digital do sujeito?
Dias - Começo da vida digital, isso é. Eu acho que todo mundo deve ter um blog. Não acho que blog é só pra uma elite, não, e escreva o que quiser. Eu só estou dizendo o que me faz voltar e ler um blog de novo. Eu tenho 29 anos, não 19 :)
PLAY - E o que você acha da Globo usar o Blogger como tática para crescer no Brasil?
Dias - Eu acho uma jogada de mestre. Antes de mais nada mostra que a Globo é mais séria do que outras empresas que tentaram copiar o Blogger sem "dar nada" ao Ev (isso do cara que copiou o blogdex, ehehe). O Globo.com tá cheio de gente boa, que entende da coisa. Se a coisa funcionar direito, sem eles ficarem querendo se intrometer nos blogs dos outros, vai dar certo.
PLAY - Mas junto a que público? Isso não é uma tendência para que surjam mais "diários"?
Dias - Vào surgir mais diários, sim. Diário não é problema. O problema é dizer "se você não tem blog, tá out". Uma pessoa só deve ter um blog se acha que tem algo a dizer (não interessa se o que se tem a dizer é bom ou não, mas o fato de estar botando a boca no mundo). Mas ainda sobre o lance da jogada de gênio. Se o Globo.com pegasse e fizesse "um blogger", não ia adiantar. o Blig e o Weblogger tão aí pra provar. Mas eles pegam "o" Blogger. A marca mais famosa. E assimilam. Fora que devem estar pegando a base de usuários. No Blogger, você diz em que idioma o blog está, então deve estar vindo um email aí "ei, quer mudar para o Blogger.com.br?".
PLAY - Ou melhor: "a sua URL a partir de hoje é .com.br"... Mas o primeiro blogueiro do Blogger brasileiro é o Tarcísio Meira. Há sintonia nisso?
Dias - Talvez esse lance da novela seja para levar o blog para quem não conhece. Mais fácil do que ficar explicando o que é. "Sabe aquele site do vampiro? Então, aquilo é um blog". A força da Globo sempre foi o marketing cruzado. Coisa totalmente comum aqui na América do Norte mas que o pessoal torce o nariz porque é a Globo.
PLAY - E o Idearo, como comecou?
Dias - O Idearo era um fanzine que só teve uma edição :) Foi inventado pelo Alexandre Maron, em papel. Mas sempre rolou a idéia de fazer alguma coisa online. O mote do Idearo é "para quem sabe não sabe de tudo". Não somos os donos da verdade. Você não precisa concordar comigo para publicar lá e eu vou lá ver o que você acga e tentar assimilar a sua opinião.
Então quando eu vi coisas com o Slashdot e kuro5hin eu falei "é por aí". O Idearo ia ser "o blog do Cristiano mais o Maron", mas a gente tinha que abrir pra todo mundo. É só ir lá, criar um usuário e mandar um texto., Aliás, por isso que anda parado, o povo não tem mandado texto. E nós dois meio que desanimamos.
PLAY - E como é o feedback? Quem é o público? Qual o número de acessos/dia?
Dias - Bom, aé é que eu acho que está um dos problemas do Idearo. O público acabou sendo "a comunidade blogueira". Então pra que mandar texto pro Idearo se eu tenho meu blog? Meu sonho era o Idearo ser o No.com.br "do povo", artigos "opinativos" de qualquer um, não precisa ser "intelectual" pra escrever lá. Os acessos hoje são por volta de 100 pessoas/dia, praticamente todo mundo vindo de Google, etc.
PLAY - E quem bate no site, volta?
Dias - Voltar, volta. Mas o Idearo tem uma coisa engraçada... Praticamente ninguém bota comentário. Eu senti que o pessoal fica meio "intimidado" com o site. Já me contaram isso, blog È "informal". O Idearo ficou sisudo, ficou meio com cara do No.com.br, mesmo. Talvez a dificuldade seja que esse publico vá "direto na fonte" dos sites em inglês. Por isso, inclusive, a idéia de ter um "blogdex nacional" que fale do Paulo Coelho na ABL ao invés de falar do novo plano do Bush.
PLAY - O Toplinks é sobre "assuntos" nacionais ou com blogueiros brasileiros?
Dias - Blogueiros brasileiros, o que (eu espero) deve levar a assuntos nacionais. Teoricamente as pessoas vão linkar para assuntos que lhe interessam. E o novo plano do Bush não interessa TANTO assim a ponto de colocar o link no site.
PLAY - E quando você teve esta idéia.
Dias - Comecei algumas semanas depois deste post. Fiz o robozinho e deixei ele lá, catando os sites. Fazer massa crítica de links. Aí algumas semanas atrás fui ver no que tinha dado :)
PLAY - E começa oficialmente hoje?
Dias - Começa hoje. Algumas partes do processo ainda estão manuais pra que eu possa ver se estão funcionando direito.
PLAY - E quais os planos pro futuro? Alguma idéia mirabolante na manga?
Dias - Vem aí a lista "alltime" que vai dizer que o Catarro Verde é o blog mais linkado da internet.br :) E a versão RSS do Toplinks. O próximo projeto é um site meio Idearo, meio blog... Um Idearo informal... Meio metafilter, meio fark... Um metafilter que se leva menos a sério e um fark sem "boobies" :) No fundo é um blog, o projeto eu faço sozinho, mas todo mundo vai poder escrever.
Um breve momento de resgate de entrevistas que eu fiz pro site da Play. Esbarrei com estes "25 Momentos da Blogosfera Brasileira" feito pelo Inagaki e no meio tinham várias entrevistas com blogueiros da época que eu tocava a revista. Aqui vão algumas que eu fiz.
***
Entrevista publicada em 20 de agosto de 2002
O designer Nicholas Frota e a irreversibilidade da era eletrônica
A entrevista ia ser com Nicholas Frota, designer, integrante do Apavoramento, blogueiro e “personalidade digital” - como vocês já vêm acompanhando aqui diariamente nos Players. Mas, no meio da conversa (via ICQ, em duas partes), começamos a falar sobre outras coisas mais... teóricas. Ciente de seu papel de entrevistado, ele conduziu o papo para uma questão macro de um ponto de vista filosófico, quase espiritual (como, talvez - sugere um cético aposto -, as coisas realmente devam ser). Você sabe: McLuhan. Lévy e outros filósofos da eletrônica sempre associaram a própria linguagem como uma “volta às raízes” (e toda aquele papo que esta “volta” está associada aos DJs, ao movimento open source e outras coisas - falei disso no editorial da PLAY 4) por parte da civilização. Ele conecta esta revolução eletrônica aos Situacionistas, Hakim Bey, Grant Morrison, metáforas e desinformação. Afirma, claramente, que o sistema já faliu e não há reversão para isto. Você pode reclamar dos excessos de “né?”, “ae” e termos em inglês, mas Frota fala sobre um lado especialmente importante neste período de transição. No começo, ele fala de si mesmo. Depois...
PLAY - Como foi o seu primeiro contato com a eletrônica?
Nicholas Frota - Meu pai era técnico eletrônico. Dae ele sempre trazia novos gadgets, e liberava pra gente usar. Não teve cisão. Não lembro de momento que caiu a ficha... Se bem que na época do Telejogo, a maior empolgação da galera pra jogar e porque você MOVIA as paradas daa tela. Era VOCÊ no comando! OK, era UM pixel na tela que nos chamavamos de BOLA, mas era você no comando!
Eu não curtia computer, só meu irmão mais velho. Eu queria fazer revistas, e com fontes monoespacadas não rolava né? eu só entrei mesmo nessa quando comecei a entrar em BBS, daí a conta do telefone foi às alturas... Mas meu pai nunca reclamou! :) Eu queria computer pra desktop publishing (mas não sabia o nome na época, claro). Eu só perguntava pro meu irmão se a letra M era mais larga que a letra L... Enquanto não fosse, não valia pra mim...
PLAY - Você já queria trabalhar com design desde pequeno?
Frota - Sim, quadrinhos, desenhos, Eu era viciadinho em logotipos e embalagens... Minha mãe mandava eu pôr o lixo pra fora e eu voltava com um monte de caixas... :) É isso. queria fazer fanzines, imprimir as paradas... Meu irmão queria programação, sistemas. Ele sim era o viciadinho! :) Fiz muitos quadrinhos. fanzine, nunca dava certo (a turminha nunca colaborava). E depois que comecei a sair na noite, tinha os flyers... Mas nunca trabalhei com isso, não...
PLAY - Você começou, pra valer, fazendo flyers?
Frota - Acho que sim... Não lembro, tinha muito bico, mas nada oficial. Eu comecei pra valer mesmo em bureau de serviços... "Pra valer" significa ganhando dinheiro. Flyer é legal e tudo, dá visibilidade, cê pode pirar e cria a cena, mas nao dá dinheiro. Mas eu já fazia bicos. Vários. Pais separados, tu sempre arranja uma maneira de ganhar dinheiro. Mas eram bicos treeevas, senão me lembraria. Na real, na real começou mesmo quando eu fazia trabalhos pra designers mais velhos, que não sabiam mexer no computador. Hora-máquina.
PLAY - Voltando um pouco: fala da transição das BBSs até o programa de edição de imagem...
Frota - Não tem transição. Foi smooth. Tinha tecnologia desde que me conheço por gente...BBS era Hotbit, neh? Era pra papear... Só quando teve PC que deu pra entrar em edição mesmo... Corel Draw, PageMaker... Meu computer não tinha potência pra Photoshop, dae virei o rei do vetor... Até hoje prefiro vetor... Graças a deus o Flash deu uma reavivada. Eram evoluções. Continuam sendo. Não teve "ah, agora preciso cair nessa". Na real foi mais "ué, será que vocês não entendem?" Curtir parada eletrônica era sine qua non...
PLAY - E como você percebeu que a eletrônica permitia que você fizesse suas próprias coisas?
Frota - Bom, eu já fazia. Claro que eu fazia design há muuuito tempo, mas não ganhando com isso. Eu comecei artista, né? cliente é minha própria inspiração... Depois de aprender Corel Draw, fiquei forte pro mercado, daí eu valia alguma coisa... Obviamente que fazia trabalhos por fora, eu nunca estou parado, sou meio esquizofrênico, pulverizo minhas funcoes em váários projetos...
Autoral autoral, meu trabalho sempre foi, sou beeem tortured artist, às vezes me bato com o cliente. Mas foi quando eu limei do meu portfólio os trabalhos grandes - eu dava ênfase no cliente - e comecei a dar ênfase só naquilo que eu gostava. “esse trabalho é bonito? Me representa? Sim. ah, mas não foi aprovado. Foda-se, vou pôr mesmo assim”. Dae deu uma guinada, as pessoas me quiseram pelo que eu gostava de fazer.
Quando comprei meu computer, podia ganhar um scanner ou uma impressora. Fiquei com o scanner, dae eu só podia mostrar meu trabalho via web. Eu fazia sites em inglês, nem tinha comunidade nacional, só depois que galera foi entrando... Trabalho autoral significa aquilo que eu olho e digo "uau, é isso ae"... Primeiro foram os flyers. E depois, sites, quando parei de ser bonzinho... E comecei a desencanar... 94? Deve ter sido. 95, 96 foi o boom da web, então foi 94, 95... Eu sei que comecei antes de saberem o que era internet...
PLAY - Você lembra do seu primeiro site?
Frota - Era uma comunidade de audiófilos, que fiz com uma amiga minha, Stella, que me ensinou HTML. Depois claro, comecei a testar com meu site pessoal, que o era Nonlinear mas era ainda noutro server...
PLAY - O computador criou uma geração de designers...
Frota - Sim, sim. Mais solta, design era muito religioso... Muito mais sisudo... Galerinha de tipografia então, quase monges... A coisa ficou mais soltinha... Na real, eu achava que tava "fora"... Depois que a internet juntou as pocinhas num mar que percebi que tinha MÓ GALERA fazendo a mesma coisa... Tudo tateando no escuro, hehe! :)
Computer é foda, automatizam as coisas, então te deixam solto pra partir pro mais abstrato - se tu souber organizar as coisas, né?
O jogo do computador eh automação. Faz o trabalho uma, duas vezes. a partir daí, deixa o computer repetir, e vai se ocupar de outras coisas - conceito, laboratório, pesquisa...
Mó galera entrou nessa de corporações por causa do boom da Nasdaq. Dae veio a quebra, mas ae ninguém saiu porque padrão de vida é que nem gás: ocupa todo o espaço que colocar... Mas a galera tá mordida... Tipo, nossos chefes não sabem mesmo o que fazem... Se pegam com semântica, buzzwords...
Acho que galera se tocou que pelas corporações nada sai - é incrível, parece que toda ideia idiotiza a medida que anda, até ficar irreconhecível. É um ambiente tóxico, raro sair algo dali...
E se conectando bottom-up...
PLAY - E como você vê o lado faça-você-mesmo que a eletrônica permite?
Frota - É vero. a cena eletrônica só funciona quando não tem cisão entre público e produtor... É todo mundo metendo a mão na massa... senão não rola, estagna. Aqui em Flopz, por exemplo, é um horror. Há um público que espera que façam algo. E esperam. E esperam. Mas os computers acabaram com essa de patrão é quem tem os meios de produção. Agora os patrões só governam seu tempo. Com meaningless atribulations. :)
PLAY - Como foi descobrir que existiam pessoas que pensavam da mesma forma que você na rede?
Frota - Comunidade era de RPG, né? Muitos amigos, sysops, jogadores... Eu já entrei cedão e pouco a pouco as pessoas foram entrando. Lembro-me que eu que fiz o mail de muuuitos amigos meus da noite, tenho até hoje a senha deles! :)
Eu sou MUITO abusado com internet. Não basta ter a informação, tem que ter da maneira que eu quero. É mente mundial, né? Então posso abusar. Daí eu via coisas absuuurrrdas, que soh lia na net... Neoismo, Hakim Bey, caoticismo, essas coisas... Só agora que a coisa tá transbordando pra fora...
Quando a tendência de design era essa cosia Photoshop cheia de sombras, forget about it, eu tava fora. Depois que o design minimal imperou, aaaí sim... Os amigos começando a ter ICQ ajudaram...
PLAY - E quanto às festas? Como você começou a sair do online?
Frota - Ah, quanto às festas era diferente... É bizarro, meu background eh RPG - caoticismo, cenários- , techno - comunidade, futurismo -, e internet - sistemas, publicação, conexão. Vai entender, as coisas mesclaram... Absurdo... Eram três coisas completamente diferentes...
Gestão de comunidades é a mesma para net ou fora dela. Montar festas, falar com a galera, essa coisa rizomática, sem dono, crescendo como fungo, é o mesmo conceito que eu busco de sistemas bottom-up.
As coisas mesclaram, entende? Quando vi, estava usando conceitos de RPG para montagem de sistemas (criação de cenários, papéis), sistema para festas (divulgação)... Essa convergência é o que há. Logosfera, o Supercontext do Grant Morrison... É absurdo como as coisas mesclaram.
PLAY - Fale mais sobre bottom-up...
Frota - Bottom up é minha herança anarquista. Para os Situacionistas, a arte foi cooptada, separaram o público do autor. Isso é a morte, tiraram a arte da vida, a arte é a fuga da vida. Um dos objetivos Situs é mesclar novamente platéia e espetáculo. E pensando bem, é fato, as pessoas querem participar. Dae, partindo para sistemas, qualquer classificação up-down é falha... Como se classifica estilos musicais?
Bottom up é assim: construa vários prédios e ponha grama entre eles. Depois de três meses, pelos passos das pessoas, você terá caminhos feitos de baixo pra cima, sem planejamento central. fluidos, nada de 90 graus, entende? Isso passa por matemática do caos (sistemas auto-organizados), anarquia (não-líderes), sistemas de informação (clusters de usuários). Você não é um passivo consumidor. Você participa.
E não é só computador, computadores sao a parte visível desse espectro, okeis? NÃo seja tecnocêntrico. As coisas estão mesclando por outros meios... É meio fatalista, mas duh, isso já se provou tantas vezes pra mim que é idiotice não tomar esse fato em consideração...
McLuhan dizia que o livro foi o primeiro device que oficialmente separou público de palco... Até então as coisas eram fluxos... Não tinham papéis definidos...Aí, hm... Eu acho que como estressamos na VISÃO e no MATERIAL, essa é a dimensão que vemos do que acontece.
O alfabeto fonético foi o primeiro código que se propunha limitar a realidade em mínimos denominadores comuns - as 26 letras -, que foi aceito pelo povão - claro, isso os herméticos perseguiam há tempos, mas foi Gutemberg que popularizou...
É o fim da lógica linear, né? Dae o nonlinear. Lógica linear é aquilo... Tem que metrificar, traduzir a realidade para então mexer nela. Se você distorce os medidores, distorce a percepção da realidade. Isso o neoliberalismo faz toda hora...
PLAY - E entra a historia do Philip K. Dick: Quem controla a palavra impressa controla o mundo...
Frota - Quem controla a metáfora governa o mundo. Por isso essa corrida do ouro pelo controle digital/informático/cultural. Sociedade do espetáculo.
PLAY - E o não-linear implica no fim das classificações...
Frota - Na real, classificações existem, mas não são excludentes. E não são inerentes ao objeto... Se o João é bombeiro, ele é SEMPRE bombeiro? E SÓ bombeiro? Lembrando, claro, que essa parada toda é oque penso, mas tá remendado... Já estamos no poder, as coisas tão BEM esquisitas. Na real o que precisamos é de um novo paradigma... Entenda: Grant Morrison dizia que demora-se 20 anos para uma cultura passar de fringe a oficial. A cultura caótica passou do fringe ao central. Cabou. É central já, we need another directives, as nossas já não cabem mais... As coisas tao esquisitas...
PLAY - Mas as pessoas ainda estão pensando com padrões lineares...
Frota - As pessoas não pensam mais linearmente. elas falam linearmente. Eu acho. Mais a mais, "as pessoas", que pessoas? O jogo do mass media é justamente te isolar enquanto te oferece o que chama de realidade.. Aqui em Floripa, por exemplo, a noite techno é TOTAL noite de novela da Globo... O que obviamente não tem NADA de noite. Mas é a referência.
PLAY - Você falou que as coisas estão esquisitas. Pra quem? E como nós conseguimos se aproveitar desta "esquisitice"?
Frota - Olha, já aproveitamos. As coisas estão BASTANTE desestruturadas. Não se sabe a extensão dos danos (ou oportunidades). Desinformação é o negócio... Acho que vem uma quebra ae... Hm, bizarro dizer, mas vamos lá.
PLAY - Então o próximo passo é a desinformação total? Esvaziar o valor da informação?
Frota - 1 -Linguagem é TRADUÇÃO da realidade, nao é a realidade em si.
2 - Linguagem era, no tempo dos egípcios, algo restrito a galera da alta. True names, algo muito sério.
3 - A linguagem está cada vez mais popular (digo, a troca de símbolos)
4 - Entropia age. Exaustão dos símbolos.
Sei que é foda explicar exaustão dos símbolos simbolicamente, mas que tá próximo, está.
Pegue estudos sobre adaptação do ser humano na gravidade zero. Porque você sabe, a gente aprendeu a se mexer COM gravidade. Fora dela, somos um zero à esquerda. Sem parâmetros, sem referências. É mais ou menos isso. claro, expect the unexpected. Freefall. Algo assim. Mas Grant Morrison... Ele chamava de agregados emocionais... Falar por pulsos, explicar por vibrações, isso é foda de dizer. Mas acontece, é o tal vibe da noite. Todo mundo sabe quando a noite funciona. E não se explica. É um segredo que se guarda. We know that. É o tal TAZ, vem e vai. Ah, tem o (Frijof) Capra também... Um assimila o outro.
PLAY - Tamos falando de feeling, entao. A volta do instinto, depois da idade da razão...
Frota - Sei lá... A idade da razão valeu como "greve" para os deuses... Que nos tratavam como gado, saca? Uma revolucao francesa do espirito... Ai ,droga, parti pro abstrato. vamulá.
PLAY - Mas o povo não “perdeu” a revolução francesa?
Frota - Cara, isso é o que dizem... A revolução francesa serviu sim... Contrato social... Entre o povo e seus governantes... O foda é que as empresas cresceram e tomaram o poder do estado... As empresas não tem nem contratos com seus consumidores, e sim com seus acionistas. O Grant Morrison dizia - no final de Invisibles - que era Supercontext... A realidade TODA foi TÃO cooptada, tão idiotizada, todos os símbolos esvaziados, que só restava, slip out, era a única maneira de se manter true to your heart.
PLAY - E como é essa quebra que você está falando? É algo central ou metafórico, como o 11 de setembro?
Frota - O 11 de setembro foi foda. Sei lá, mais merdas. Como explicar por símbolos a morte do símbolo? É idiotice, é como caçar o próprio rabo... Nada nos prepara... A gente antecipa as coisas porque transforma em símbolos, cara. É idiotice pensar nisso. Vem mais boosters ae... As estruturas estao bem frágeis... O poder tá só na imagem... E cara, its real. it might hurt. nao é imagem, nao é espetáculo.
PLAY - Então o barato é cair fora. Hakim Bey como o novo Thoureau?
Frota - O Hakim Bey nao é bobo. Não quer ser mártir de ninguém. Em anarquismo tem o tal "pie in the sky", os "ismos " sempre te prometem o futuro... Ele cansou do futuro. Ele quer agora. Cadê?
Em Invisibles - de novo Invisibles- , os inimigos sao aqueles que nos mostram coisas que não conseguimos conceber com nosso paradigma atual. Criamos inimigos para inserir idéias alienígenas ao nosso paradigma - nossa estrutura de símbolos, pra dar sentido pressa porra toda. Obviamente, todos os inimigos serão assimilados. McLuhan dizia - e ele é FO-DA! mesmo quando não entendo, sei que tem sentido - que uma guerra é travada quando alguem rouba sua identidade e você precisa resgatá-la.
Se no fim do calendário maia, temos a morte do tempo, ou seja, podemos ir e voltar como quisermos, e isso mais cedo ou mais tarde será realidade, então podemos contar como se já estivessemos lá, não?
PLAY - E como ir? Como chegar lá? Tou perguntando do ponto de vista do leigo, do sujeito que está na frente de seu computador perguntando exatamente isso...
Frota - Você tá procurando um paradigma top-down, um call to arms para as pessoas se dirigirem em uníssono. Esqueça. Atualmente, o sistema só vê cabeças. Ele corta as cabeças, ele coopta as cabeças, ele metrifica pelas cabeças. Todo movimento será cooptado. Desista. A coisa é descentralizada, mesmo. É essa bagunca. Você é líder agora, amanhã nao mais. Better this way.
A esquerda tá dumbfounded porque perdeu o eixo, não tem slogan que centralize. E não terá. Todos os símbolos serão cooptados. Toda resistência será absorvida.
É que nem correr atrás do próprio rabo, I’m smarter than that. É isso. Sair da realidade. Para apreender por completo sua extensão, e poder traduzi-la em símbolos flawlessly. esse era o manisfesto racional, e acabou. Estamos envelopados na realidade, não podemos sair dela.
PLAY - A subversão da linguagem é um dos aspectos-chave da cultura pós-moderna. E aos poucos eles estão sendo usados pela massa com fins políticos...
Frota - Aaah sim, disinformation. Apropriação dos símbolos. Quem controla a metáfora governa a mente e EU quero o controle de minha própria vida, logo preciso cavalgar nas metáforas.
PLAY - A saida é criar realidades alternativas...
Frota - Sim, tá acontecendo. Clusters. As pessoas não vêem as realidades alternativas, obviamente, porque são alternativas. Querem poder olhar de longe, para daí então olharem uma E outra, do ladinho, sem se tocar, para daí se convencerem. E isso, como já disse, nao é possivel.
Não sei. Não entendo essa matemática. Ah, entendo sim. outro pensador: Manuel de Landa. Ele descrevia a geografia da matéria, dos genes, e dos memes. Em thousand years of nonlinear history. Dae, ele disse - e o cara é CÍNICO, SECO e ASSERTIVO, nada do blá-blá-blá espiritual-revolucionário dos outros - que até então o tráfego dos memes estava subordinado ao tráfego dos genes - culturas, yknow -, e o tráfego dos genes estavam subordinados ao da matéria - migrações, nações, yknow. Give or take, o tráfego dos memes estava subordinado a matéria. A internet "descolou" os memes da matéria. Do espaço. Ela segue, lenta e irreversivelmente, um caminho todo próprio. Suas próprias artérias. Seus próprios acúmulos. Seus próprios órgaos. got it?
PLAY - Mas as realidades alternativas não estão se convergindo?
Frota - Não é que tá convergindo ou divergindo... Tá se ordenando por uma nova lógica... Não subordinada ao espaço - talvez ainda subordinada ao tempo, mas com bons conjuracoes de zeitgeits, a gente chega lá.
PLAY - Mas a internet também liberou o ponto de emissão. Não seria o papel dos players confundir o status quo com suas realidades alternativas?
Frota - Você fala do tal one-to-many do broadcast para o few-to-few das comunidades, certo?
PLAY - Isso.
Frota - Hm, pode ser. Olha, não há centro. Há aqueles que se dizem detentores do centro e que por isso merecem nossa atenção (e que coincidência, eles são homens, brancos, heteros e cristãos, invariavelmente.
PLAY - Nao é o caso de dizer para estes q detém o poder que existem outras pessoas que detém ainda mais poder que eles?
Frota - Você só tem uma vida. E seu ponto de vista. EU quero navegar pelo sexto circuito de Leary, pq acho massa e sexy toda essa velocidade. Caguei pros outros. Você quer o quê? Confronto direto? Hyperlinks subverts hierarquies. Tu quer bater de frente com eles? As coisas tão se pulverizando, façamo-nos invisíveis. Você quer um clímax, neh? Revolution, bombas, explosões... :) O sistema vai ser assimilado. Nós seremos assimilados por ele. Do lado esquerdo do cérebro o que classifica, você vê dois lados, o de cá e o de lá. Do lado direito do cérebro, o que amálgama, você vê... Que lado direito?
Essa de sistema, não sistema, eles contra nós... Plz, eles VÃO cair. É questão de tempo. E QUANDO caírem, Vai doer na gente também! So, why bother? Mas que a exceção se tornou a regra, isso é.
Só pra terminar: tudo o que falei é o que pensava há uns seis meses atrás. As coisas mudaram. Não sei mais o que pensar. O que seus leitores pensam? Na real: quais são as dúvidas deles?
Dá pra baixar aqui. E quem não conseguiu baixar a "Body Balanço", tenta de novo.
B
Está tudo bem acho que sempre foi assim
A
Nada pra sentir espero outro dia vir
B
Eu quero te ligar eu quero algo pra beber
A
Algo pra encher algo que me faça acreditar
C#m F# D#m E
Sempre ausente me faz sorrir
C#m F# D#m E
Sempre distante dorme aqui
B
Enquanto você se produz
C#m
Eu vejo o que não vê
G#m
Crescer para que?
E
Ser e esquecer
B
Eu corro contra a luz
C#m
Eu fujo sem entender
G#m
Vencer para quem?
E
Ser e esquecer
B
O rock acabou melhor ligar sua TV
A
Ela nunca está ela nunca vai entender
B
Gosto da sua saia assim vem deitar perto de mim
A
Verdade eu não me importo quero um amor que não sei mais sentir
C#m F# D#m E
Sempre ausente me faz sorrir
C#m F# D#m E
Sempre distante espere por mim
B
Enquanto você se produz
C#m
Eu vejo o que não vê
G#m
Crescer para que?
E
Ser e esquecer
B
Eu corro contra a luz
C#m
Eu fujo sem entender
G#m
Vencer para quem?
E
Ser e esquecer
Cansei duplo no Coachella, Ledão, Gal rediviva, tudo-é-vai-e-volta-á, musica binária, deu branco, Velvet, dudududadada, pau no super-homem, a filha do Stevie Wonder, os macacos mandando Amy, groove nação dos beasties, suspiro do Air e Cure clássico.
- "Supermercado do Amor" - Orquestra Imperial
- "You Know I'm No Good" - Arctic Monkeys
- "Trampled Under Foot" - Led Zeppelin
- "Oh! Sweet Nuthin'" - Velvet Underground
- "Writer's Block" - Just Jack
- "Arrudeia" - Maquinado
- "Suco de Tangerina" - Beastie Boys
- "You Only Get What You Give" - New Radicals
- "Isn't She Lovely" - Stevie Wonder
- "Just Like Heaven" - Cure
- "De Do Do Do De Da Da Da" - Police
- "Sexy Boy" - Air
- "Kryptonite Pussy" - Yo Majesty
- "Music is My Hot Hot Sex (Coachella 2007)" - Cansei de Ser Sexy
- "Let's Make Love and Listen to Death from Above (Coachella 2007)" -Cansei de Ser Sexy

Fomos convidados pelo Barcinski a segurar uma das quintas-feiras da nova noite do Clash, a Perdida, e separamos a estréia da nova festa para fazer mais uma apresentação da temporada Outono/Inverno de hits Gente Bonita Clima de Paquera. Quem perdeu a estréia no domingo passado, pode matar a vontade agora nessa quinta - e sem desembolsar nada! Na estréia da festa, basta colocar seu nome aí na lista ao lado e simplesmente ir se esbaldar em mais uma noitada daquelas - além desta virada da quinta pra sexta ser a noite mais longa de 2007!
Além da sua dupla de discotecários favorita, a noite ainda conta com o grupo cearense Montage atacando na discotecagem, além do Thiago DJ e do compadre Guab. Na pista, todos os tipos de música - do rock ao discopunk, passando pelo indie e outras groovezeiras eletrônicas - vão tocar até new rave! De nossa parte, todos os gêneros, todas as épocas e todos os hits se colidem para a liberação dos hormônios a fim de aproximar sexos opostos para mais um treinamento para o exercício de reprodução. Depois da balada, claro. Enquanto ela não termina, só boas vibrações carregando o ar daquele cheiro de satisfação que só uma pista bem temperada - daquelas - é capaz de proporcionar.
Nada tema: diversão em estado bruto mashupada com bom gosto em pleno movimento, nossa velha equação pra esquentar qualquer inverno - especialmente este que começa nesta quinta (daí o porquê desta ser a noite mais longa do ano!). Queima!
Gente Bonita @ Perdida
Mais uma apresentação da coleção de hits da Temporada Outono/Inverno 2007
DJs residentes: Thiago DJ, Montage (DJ set), Guab e Luciano Kalatalo e Alexandre Matias (Gente Bonita Clima de Paquera)
Quinta-feira, dia 21 de junho de 2007
23h59
Local: Clash. R. Barra Funda, 969. Barra Funda.
Preço: R$ 00 com nome na lista. - pra colocar o nome na lista www.gentebonita.org

Mais uma atração internacional vem prestigiar nossa coleção arrasa-pista. Thiago Baraldi manda esse set direto da Itália e resgata clássicos dos 90, descobre bandas no MySpace e ao mesmo tempo solta o pancadão. Beatstreet na veia!
(01) Cosmic Car (House Drum Mix) - Cybotron
(02) "Pump It Up" - DJ Sandrinho
(03) "Drop It Like It`s Hot (Copyfokking Ungdomsnizzle Remix)" - Snoop Dogg
(04) "One and One" - 2 Live Crew
(05) "Ying Yang (Curtis Vodka Ga Ga Remix)" - Kid Sister
(06) "Geremia" - Bonde do Rolê
(07) "Short Dick Man" - 20 Fingers
(08) "Irreplaceable (Dances WIth White Girls Remix)" - Beyoncé
(09) "Damn Girl (Curtis Vodka Remix)" - Kid Sister
(10) "When I Hear Music" - Debbie Deb
(11) "Vai Serginho" - MC Serginho
(12) "Fuck Them Bitches" - Krames
(13) "Where Are You Baby" - Betty Boo
(14) "Electronic Pussy Sucker" - Clarence Bowfly Reid
(15) "Caprice Musik" - Tum Tum feat. E-40 and Rick Ross
(16) "Uma da Tati Quebra Barraco"
Entrevistinha que dei pro Julio na semana passada.
***
Alexandre Linhares Matias é, hoje, editor-assistente do “Link”, o caderno de tecnologia e internet do Estadão (também site, rede social e diretório de podcasts). Mas Matias, em matéria de jornalismo, já fez de tudo na vida. Natural de Brasília, debutou no caderno “Diário Pirata” em 1999, “uma espécie de ‘Folhateen’ do Diário do Povo, de Campinas”. E já em 1995, nascia o célebre Trabalho Sujo, como parte do caderno de cultura do mesmo jornal – que, pelos próximos quatro anos, seria redigido, editado e diagramado pelo próprio. Em 2000, o "Sujo" viraria site e, atualmente, é talvez a maior referência jornalística para o circuito musical independente do Brasil.
A partir de abril de 2001, Matias teria uma passagem marcante pela editora Conrad, como editor-executivo, onde, entre outras coisas, seria responsável pela saudosa revista Play, até agosto de 2002, data do fim da publicação (que concide com a sua saída). Em 2002, iniciaria sua colaboração com a gravadora Trama, produzindo originalmente press-releases e, em 2004, exercendo a função de editor-chefe da agência de notícias do ambicioso projeto Trama Universitário. A partir de 2005, Matias participaria, ainda, da ressurreição da antológica revista Bizz, emplacando três capas. Para completar, Matias é, desde fevereiro de 2006, a voz por trás de um dos podcasts mais celebrados da internet brasileira, o Vida Fodona, enquanto organiza o circuito de festas “Gente Bonita” (onde, inclusive, lançou a moda do mashup no Brasil).
Nesta Entrevista, Alexandre Linhares Matias renega rótulo de “multimídia” (“muito anos 80”, justifica) e afirma: “Encaro tudo isso como jornalismo”. Para a sua alta produtividade, tem uma resposta boa: “Lido com o que gosto, por isso faço muito, o tempo todo”. Aqui, Matias ainda conta um pouco dos bastidores da revista Play, que teve um fim precoce (“eu puxava a revista prum lado e o André Forastieri puxava pro outro”), e arremata, referendando a importância daquela publicação: “O ‘Link’ é herdeiro direto da Play”. Sobre a encruzilhada “jornalismo-música”, que se confunde com a sua própria história, tem uma constatação interessante: “Steve Jobs e Bill Gates são, há pelo menos 20 anos, os novos Beatles e Rolling Stones”.
Quanto a suas atividades 100% internet, Matias caracteriza o Trabalho Sujo como “uma coleção de links pra coisas que eu faço”, e o podcast Vida Fodona avalia da seguinte forma: “As melhores partes do programa, pra mim, são quando eu não sei o que fazer ou falar”. E não tem dúvida sobre o papel da “geração internet” no panorama da mídia atual: “É o novo mainstream”. Afinal, “foi a primeira geração a perceber o potencial de mudança da Rede”. Lamenta, ainda, a indefinição a que chegou o projeto Trama Universitário, fala do prazer que é discotecar nas festas do Gente Bonita e trata, com autoridade, das incertezas que rondam a nova Bizz: “Será que a música ainda é relevante para nós, como foi um dia, a ponto de justificar uma revista?”. Por fim, Matias reconhece que tem, sim, idéias para livros de sua autoria, mas confirma que o grande desafio hoje não é publicar, é vender. – JDB
1. Matias, você sempre me confundiu um pouco – e eu acho isso admirável: você parece que não estava nem aqui nem lá, nem “on” nem off-line, mas, ao mesmo tempo, em todo lugar. Sei que isso é clichê até do Tim Maia (“tudo é tudo e nada é nada”, ele repetia isso no único show a que eu fui), mas me impressiona a sua capacidade de estar, alternadamente, na Folha e no blog, no Estadão e no podcast, na Trama e “na noite” como DJ, na renascida Bizz e na extinta revista Play (que marcou época)... Como é que é isso? Como é se dividir entre tantas coisas? Eu, por exemplo, não consigo... Porque você parece dar o sangue em todos esses projetos, “principais” ou não – o Matias está sempre lá, nas entrelinhas. Vou repetir uma pergunta que já fiz aqui em outra Entrevista: você acha que estamos todos condenados a ser multimídia?
Eu sempre me vi como uma pessoa de comunicação, que leva uma informação de um lado para o outro, une pólos diferentes, faz comparações entre ambientes que, como nossas personalidades, fingem não conhecer uns aos outros. Desde antes de saber escrever eu já fazia isso. Então tudo que eu faço está associado a esse jornalismo na prática, que é mostrar pras pessoas pontos de vistas diferentes e possibilidades que não estão sendo cogitadas. Não importa o que esteja fazendo: escrevendo, falando ou colocando músicas pros outros dançar. Encaro tudo isso como jornalismo – e me sinto numa posição confortável em que eu posso escolher o que fazer, onde e sobre o que escrever. Escolhi isso e lido com o que gosto, por isso faço muito, o tempo todo. Enquanto tem gente que trabalha e pesca pra desanuviar ou vai pro cinema duas vezes por semana, eu desanuvio fazendo isso. O que muita gente encara como "trabalho", pra mim é um prazer. Toco a vida do jeito que eu quero e sou respeitado pelas pessoas que prezo. E olha que se eu me empenhasse mais, seria pior – quem me conhece, sabe que eu sou "mor preguiçoso" e fico horas sem fazer porra nenhuma. E eu ainda desenho... Vivi três anos da minha vida como ilustrador...
2. Eu ficava olhando você e nunca entendia direito de onde você vinha, só sabia que você estava ali. Mas, agora, fuçando no seu currículo, encontrei várias referências ao Diário do Povo, de Campinas... Você veio de lá? Foi o seu début em jornalismo? (Achava que você era daqui...) Enfim, queria saber um pouco como foi o passo-a-passo desde o Diário do Povo, ou outro jornal local (eu imagino), até a internet, até o mainstream, as principais publicações, afinal, pelo que vi, você publicou em praticamente todas... Qual foi sua escola de jornalismo, Matias? Acha que, de dez anos pra cá (o tempo da sua carreira), outros jornais continuam formando outros “Alexandres Matias”?
Eu sou de Brasília. Fui fazer Ciências Sociais na Unicamp e depois de fazer um jornalzinho no IFCH (chamado O Leopoldo) fui parar no Diário do Povo. Comecei a escrever no "Diário Pirata", quem me "descobriu" foi a Adriana Villar, que ainda continua lá em Campinas. O "Pirata" era uma espécie de “Folhateen” tablóide, bem massa, mas depois de um ano e meio trabalhando lá, o caderno foi fechado. E foi aí que o Trabalho Sujo começou, em 1995, quando o jornal cortou o caderno mas quis manter algo praquele mesmo público.
3. Vi que você fez carreira também, ou escola (melhor dito), como editor-executivo da Conrad, logo no início dos anos 2000, pós-bolha da internet etc. Dessa época, eu lembro um pouco. Lembro bastante da Play, mas não lembro direito das outras publicações (embora eu tenha resenhado algumas)... Eu lembro que a Play foi importante: em papel, foi talvez a melhor tentativa de transpor a Web brasileira, mensalmente, para o tradicional formato revista; e, na internet, aquelas entrevistas que vocês faziam semanalmente no site (até comigo!) eram referência, mostravam já uma “cena”, dos incipientes blogs e blogueiros, por exemplo... Como foi essa experiência? Eu senti muito o fim da Play, porque, se ela tivesse continuado, a blogosfera brasileira talvez não demorasse cinco anos para ser reconhecida... Você concorda comigo? Outro dia, eu cruzei com uma entrevista daquelas, acho que era a do Inagaki, no Internet Archive... Você nunca mais teve vontade de mapear a internet brasileira daquela forma? Acha que foi um momento – que passou – e agora a Web 2.0 é outro mundo (mais de comunidades do que de pessoas)?
A Play partiu de uma idéia que o André [Forastieri, ex-sócio da Conrad] teve e que eu transformei em outra coisa. Ele queria uma revista que falasse sobre Entretenimento e Tecnologia ("ET" era o nome de trabalho) e eu coloquei o elemento comportamento na equação. Não era só um guia de consumo de produtos mas o que as pessoas podiam fazer com esses produtos. Acontece que, na hora da execução, eu puxava a revista prum lado e o André puxava pro outro. Eu queria um tipo de revista, o Forastieri queria outro e esse embate editorial batia no orçamento e num vício que a equipe de arte da Conrad tinha na época, do excesso de cores, decorrente da revista Herói. Não deu certo porque não tinha como dar certo naquelas condições, mas foi um trabalho que eu curti fazer e cuja essência continuo carregando desde então – não é à toa que fiz a Trama lançar o Cultura Livre do Lawrence Lessig no Brasil e que estou hoje na edição do “Link” do Estadão. Guardo boas lembranças da época da Conrad, conheci pessoas que se tornaram grandes compadres e aprendi um monte sobre assuntos a que nunca tinha dado a atenção devida – desde os temas que orbitavam ao redor da Play à cultura pop japonesa, passando por processos editoriais de revista (bem diferentes dos de jornal) e como tocar uma redação inteira, uma vez que além de editor da Play eu também era editor-executivo de toda produção da casa – e agüentava rojões que vinham de cima (chefes cobrando deadlines, mudando de idéia em cima da hora e reclamando de posturas de alguns repórteres, editores ou diagramadores) e de baixo (reclamações sobre borderôs baixos de revistas, impressora sem toner ou papel, motoboy da gráfica que não chegava na hora). Mas era divertido paca, o clima da redação era quase sempre o de uma sala de aula – no melhor sentido do termo – e foi legal trabalhar com gente que eu cresci lendo, como o André, o Rogério de Campos e alguns que transitavam pela editora, como o Barcinski, o Alex Antunes e o José Júlio do Espírito Santo. E fora que, graças à Conrad, eu moro na Aclimação, que eu adoro.
4. Então eu emendo com o “Link”. Na minha cabeça, às vezes parece que você fez uma volta a 2001-2002, como atual editor-assistente do caderno de tecnologia do Estadão. Eu, uma vez, no meio de uma bravata, sugeri ao Daniel Piza (editor-executivo do jornal) que eles abandonassem aquele velho caderno de “Informática” de antes e que criassem um caderno de internet – e que eu (a bravata era essa) me dispunha a editar. Nem lembro quando foi isso; teria de pesquisar nos e-mails... Enfim, eu pensei muito na Play quando abri o primeiro “Link” pra ler. Qual é a sua expectativa para esse trabalho? E como já está sendo – porque parece que você pegou o bonde andando, com a saída do Guilherme “Discofonia” Werneck... Conta aí. Eu acho, por exemplo, engraçado você no podcast do “Link”, como “Barba”, sendo que o Vida Fodona, na minha visão, sempre foi o extremo oposto...
Conceitualmente, os podcasts são opostos, no do “Link” eu até escrevo o texto antes de gravar, enquanto o Vida Fodona é total ad lib... Mas você tem razão, o “Link” é herdeiro direto da Play, no sentido em que ambas publicações não são técnicas e voltadas para pessoas que já são do meio e sim voltadas para o que as pessoas fazem com tecnologia e eletrônica. Um caderno de informática tradicional é mais ou menos como uma revista de música voltada para instrumentistas – tem o seu lugar, é preciso que exista e sempre vai ter público, mas tende ao técnico e à linguagem empresarial. O “Link” mira no que as pessoas estão fazendo uma vez que a transição do industrial pro digital é irreversível. Pessoalmente acho o tema mais interessante e que interessa a mais pessoas – fora que tem aquela corrente que acredita que a tecnologia é o novo rock'n'roll, no sentido de ser o que as pessoas hoje em dia querem saber e gostam de fazer. Steve Jobs e Bill Gates são os novos Beatles e Rolling Stones há pelo menos vinte anos – e a massa de fãs dos Beatles e dos Stones não queria saber sobre instrumentos, arranjos e técnicas de produção, e sim de discos, músicas e da vida dos caras. É esse corte editorial que o “Link” já adota e esse foi um dos motivos pra eu ter voltado à rotina de redação, que é estressante e tal, mas é aquele papo "jornalismo-cachaça". É ruim, mas é bom. Fora que o caderno é semanal, então é muito sussa no dia-a-dia. Teremos novidades em breve, mas "vamo pianinho", pra não criar expectativa – porque expectativa quase sempre gera frustração. E esse papo de "Barba" é coisa do Fabião [Lima], eu não uso barba sempre, faço sempre uma vez por mês.
5. Queria que você falasse um pouco dos seus projetos 100% internet, o blog Trabalho Sujo e o jovial podcast Vida Fodona... É a minha impressão ou eles começaram se fortalecer nessa sua fase mais de freelancer, a partir de 2002, com a saída da Conrad? A mim me pareceu que você quis marcar mais presença na internet, depois de se desligar dos empregos formais na imprensa e em editoras de papel, e conseguiu. Pouca coisa passou despercebida, em música, pelo Trabalho Sujo. Eu confesso que não era um leitor assíduo, de entrar direto no blog, mas volta e meia um link da blogosfera me levava até você. E o Vida Fodona é, para mim, um dos nossos “Melhores Podcasts”! Tem bem aquela sua característica, de que eu falei antes, de dar o sangue, de mergulhar de cabeça etc. São quase uma centena de programas, não? Fale dessas duas experiências e conte, para os seus fãs, se você, agora, vai se ausentar muito dessas duas ocupações...
O Trabalho Sujo era uma coluna semanal sobre música que eu mantinha no Diário do Povo em Campinas desde 1995. Começou como a contracapa do caderno de cultura de segunda-feira, pulou para o de sábado e foi para o meio do caderno de domingo. Eu fiz a página sozinho por quatro anos – pautava, redigia, diagramava. Tive algumas participações especiais e alguns colaboradores mais fixos que, na verdade, eram dois dos meus melhores amigos no jornal – o ilustrador Roni (que me ajudava a redesenhar o logo do Sujo toda edição) e o fotógrafo Serjão (Sérgio Carvalho, com quem fui dupla na cobertura de mais de uma centena de shows, de muquifos a estádios). Em 1999, fui chamado pelo concorrente do Diário, o Correio Popular, para editar seu caderno de cultura [“Caderno C”] – e em vez de levar o Sujo para o novo caderno, levei a vibe dele pra nova linha editorial. E fazia com os outros assuntos além da música pop o que eu já fazia no Sujo: tinha o olhar local e global ao mesmo tempo, sempre colidindo esses extremos e relativizando hierarquias pré-estabelecidas e muito espaço pra escrever, porque jornal é pra ser lido. A equipe era ótima e o meu espaço dominical, que antes era o Sujo, passou a ser chamado de "Termômetro", em que eu resenhava um disco por semana. O nome era outro, mas era ainda o Trabalho Sujo. Quando fui para a Conrad no começo de 2001, levei o Sujo para o Geocities e então ele se tornou um saite. Mas até aí eu já tava contaminado pelo espírito do “Caderno C” e da Play. Então ambos os assuntos inevitavelmente foram parar neste Sujo on-line. Hoje, apesar de ainda ter música como principal foco, o Sujo é muito mais uma coleção de links pra coisas que eu faço – desde frilas, festas, participações em debates, traduções ou entrevistas – até coisas que eu gosto de compartilhar com os outros. Quem é mais próximo de mim sabe que o Sujo é um mais do que o reflexo do que eu faço, e sim a central das minhas atividades e um dos veículos de que eu tomo conta. Na ponta do lápis, o que eu faço da vida é editar o Trabalho Sujo. Todo o resto tá dentro desse enorme guarda-chuva.
Já o Vida Fodona mistura alguns elementos: a vontade de apresentar um programa de rádio, treino pra improvisar texto quando não tenho assunto (as melhores partes do programa, pra mim, são quando eu não sei o que fazer ou falar) e uma celebração em áudio sobre fazer o que se gosta. O slogan "Jornalismo Oral" é irônico, porque não tem nada de jornalístico em termos de conteúdo, embora o corte musical tenha um elemento crucial no jornalismo cultural: a crítica. E a crítica é o meu gosto e as pessoas têm de se acostumar com isso – o zé-mané que escuta discos todo dia e é pago pra escrever sobre eles é tão zé-mané quanto você. A opinião dele vale tanto quanto a sua – e quanto a minha. Então deixa essa reclamação, esse chororô, pra lá. Tem um monte de gente que vive reclamando e falando mal do que os outros fazem – e, nesse meio-tempo, não faz nada que preste. Tem gente que é assim por falha de caráter, mas a maioria é porque vive soterrado por retalhos de uma realidade que não tem nada a ver com a sua e não consegue ver como é fácil fugir de uma rotina cujos assuntos são aqueles de elevador – governo, clima, trabalho. Eu tento abrir uma janela pra esses caras com o VF. Quero que eles pensem que eu estou largado em casa sem fazer porra nenhuma e ouvindo uma sonzeira – que é o que normalmente faço; só não gravo na beira da piscina porque o wi-fi não chega lá – e pensem: "Se esse cara tá fazendo isso, eu também posso fazer". E é tão legal fazer... Já o "jovial" é cortesia tua.
6. Queria que você falasse, também, mais diretamente sobre a blogosfera e a “podosfera” brasileiras. Você tem tempo de acompanhar essa turma? Como viu, por exemplo, a chegada dos jornalistas profissionais, como “blogueiros profissionais” (ou quase), na blogosfera brasileira? (Considerando que você antecipou essa tendência em alguns anos...) A imprensa-impressa está certa em flertar com os blogs ou os jornalistas ainda olham, em geral, com desdém para a atividade e blogam de má-vontade (mais por obrigação)? E a “podcastosfera”? O Ecad já veio te encher a paciência por causa das músicas que você toca no Vida Fodona? É chute meu ou uma das suas inspirações foi o É batata do Fred Leal? Como você vê esses “conglomerados” (ou portais) de podcasts – alguns com objetivos bem comerciais? É por aí? E a mídia, de novo? Não acha que são muito tímidas, ainda, as aproximações entre rádio e podcast no Brasil?
Essa turma é a nossa turma, né? Tamos nessa há uns cinco, dez anos. E não blogueiros ou podcasters, mas gente que faz saite, bandas, DJs e produtores de eventos que usam a internet pra divulgar seus trabalhos, gente que faz vídeo, livros e programas de rádio. Uma galera que em sua maioria nasceu nos anos 70 e que está conseguindo realizar alguns de seus sonhos graças à internet. Eu brinco com isso, meio sério também, é o Novo Mainstream. Presta atenção: as pessoas que lidam com cultura no Brasil são as mesmas há trinta, quarenta anos. Estamos, nesse momento, assistindo à geração de filhos destes caras a meter os pés pelas mãos e a fazer cagada atrás de cagada. Uma galera que, em sua maioria, faz a cultura e o entretenimento brasileiro ser chato e repetitivo. Ao mesmo tempo, o povo que está chegando nos 40, 50 anos hoje – quem apareceu nos anos 80 – está passando por um processo de transformação num certo tipo de establishment semelhante ao que aconteceu com a geração Chico & Caetano, do final dos anos 60. E na paralela dessas duas safras, está o nosso povo – que é a primeira geração a fazer algo na internet e perceber o potencial de mudança da Rede. Mas ainda pensamos pequeno, né? Ainda estamos confortáveis com um blog aqui, um festival acolá, um frilinha pra alguma multinacional. Só que a cada ano que passa, essa geração sobe um degrau na importância em seus nichos e isso vai inevitavelmente virar o balde. O que vai acontecer, sabe lá Deus, mas a verdadeira mudança começa por aí. Portais de podcasts e coletivos de blogs ainda são a fase 2 dessa história. Do mesmo jeito que esse senso gregário atraiu pessoas pra um mesmo meio, isso fará com que diferentes manifestações comecem a convergir. E é aí que as coisas realmente vão fazer sentido. Tem a ver com aquilo que eu falei no começo sobre mim, de fundir diferentes personalidades. Essa mudança é perceptível a ponto dos blogs tornarem-se referência obrigatória pros principais veículos de comunicação do Brasil. O fenômeno blog já era forte no Brasil na virada do milênio (a capa da Play número 6 seria um ranking de personalidades da blogosfera brasileira – nem tinha esse nome horrível ainda –, mas eu fui mandado embora antes de começar a mexer nessa edição) e o fato de boa parte das pessoas que antes navegavam na internet terem lido algum blog foi algo que facilitou a entrada desse tipo de blog corporativo no mercado. No entanto, há uma separação entre jornalismo independente e jornalismo-blog, assuntos que se misturam sempre que essa discussão vem à tona, e essa pauta ainda não começou a ser discutida. Mas do mesmo jeito que as bandas independentes crescem aos poucos, este tipo de jornalismo (que tem outros rótulos, como jornalismo colaborativo ou jornalismo cidadão) também começa a aparecer. Mas é algo diferente de blog, é bom frisar. E, sim, o Fred foi uma inspiração pro Vida Fodona (exatamente do mesmo jeito que eu disse que gostaria de servir de exemplo pros outros). Na hora em que eu ouvi o Fred se divertindo fazendo um podcast, nem pensei duas vezes.
7. Quando te conheci pessoalmente, tinha acabado de conversar com a Juliana Nolasco e fiquei bastante impressionado com o projeto Trama Universitário (TU), em que você estava diretamente envolvido, comandando a agência de notícias... Lembro que a gente discutiu muito uma vez, por e-mail, sobre a Trama e seu papel, no tempo em que as gravadoras estavam desaparecendo... Me conta como foi sua experiência lá dentro. Como é que você avalia as atividades da Trama (se é que você se sente à vontade para fazer isso)? Eu penso que a gravadora impressionou muito, no começo, pelo seu poder de fogo, mas não acho que seu cast fosse muito forte e, como todo mundo, acabou batendo de frente com a crise do CD... Depois, achei o Trama Virtual brilhante – mas, passado o boom inicial, não sei mais a quantas anda... E o “TU”, a idéia do circuito college me parecia ótima... Continua viva? Como você vê tudo isso?
A experiência de trabalhar na Trama foi ótima, estar dentro de uma gravadora – mesmo uma tão incomum como essa – no momento em que essas transformações de formato estão chacoalhando o mercado da música foi muito educativo e revelador. Mas a experiência no Trama Universitário foi meio frustrante, porque a idéia que tínhamos era de criar – ou pelo menos dar um empurrão – num circuito universitário que já existiu no Brasil, na época da Ditadura, mas que agora é simplesmente ignorado. Começamos fazendo shows com artistas da Trama dentro de universidades mas logo estávamos fazendo shows com artistas que não eram só da gravadora em lugares que juntavam estudantes de diferentes universidades. Sempre de graça, com um mesmo artista passando por pelo menos seis cidades diferentes. Fizemos isso com Mundo Livre S/A, Los Hermanos, Nação Zumbi, Mombojó, Cansei de Ser Sexy, Cordel do Fogo Encantado, Tom Zé, Otto e Rappin' Hood como artistas principais, mas, no meio disso, colocamos artistas de menor proporção – shows com Frank Jorge, Jumbo Elektro, Curumin, Walverdes, Grenade, Pipodélica, Wonkavision, Bad Folks e outros nomes da cena indie brasileira. A idéia era, no segundo ano do projeto, tirar os artistas maiores e fazer shows com artistas de médio porte, uma vez que o público estava indo pelo Trama Universitário, independente da atração. Queríamos fazer turnês com Cidadão Instigado, Hurtmold, Domenico, Kassin & Moreno, Instituto, Z'África Brasil, etc. e daí, efetivamente, estaríamos instigando um circuito (afinal, é mais próximo da realidade de um centro acadêmico, que traz uma banda desse porte e, não, um artista maior). Mas os patrocinadores do projeto achavam as bandas desconhecidas, reclamavam que o público não era o que eles queriam e exigiram que déssemos vôos mais "ousados" – daí fizemos Seu Jorge, Marcelo D2, Maria Rita e Paralamas. Artistas mais caros, que exigem casas maiores, fizeram com que saíssemos de algumas cidades e diminuíssemos a quantidade de shows. Foi o começo do fim. Daí o projeto perdeu o pique, ficou esparsado, não rendeu os resultados que eles queriam (que, no formato original, cresciam naturalmente a cada mês). Frustrante. Eu tinha – e tenho – uma relação ótima com a Juliana, o projeto original do TU era meio menina dos olhos de toda a equipe e quando tivemos que deformá-lo, ele naturalmente se perdeu. Não conseguiu renovar os patrocínios nem atrair novos, nem sei se existe ainda. O site tava parado há mais de mês... O Trama Virtual segue firme lá, a equipe é ótima e acabaram de implementar melhorias pra deixar o site com cara de rede social – é possível criar um perfil de usuário e linká-lo com outras bandas, por exemplo –, que era algo que desde quando eu entrei na Trama se prometia para o site. Mas eles também dependem de patrocínio. A gravadora diminuiu muito o volume de lançamentos nestes anos e não sei até quando eles ainda vão vender disco, algo que até perguntei pro André [Szajman, dono da Trama] em tom de provocação quando tava lá. Quanto ao futuro da Trama, ano que vem ela completa dez anos, acho que vai ser possível ver os novos rumos a partir do que pode ser comemorado nessa data.
8. Por falar em jovens, como está indo o projeto Gente Bonita? Qualquer dia eu vou a uma festa ver você discotecando... Através do seu podcast, você foi um dos caras que me apresentou, por exemplo, o mashup. Como andam suas experiências nessa área? Continua fazendo? Eu imaginei que o mashup fosse “pegar” com esse disco Love dos Beatles – mas não pegou, nem sei se foi compreendido ou sequer ouvido... Particularmente, não gostei muito dos mashups do filho do George Martin, mas enfim... Esse é um dos caminhos para a música? Sendo DJ ou quase – ou praticamente – músico, como você enxerga o atual momento? A gente vai lembrar, com nostalgia, do tempo em que a música dava lucro? E a briga direitos autorais & DRM versus compartilhamento de arquivos & iTunes, algum palpite sobre o desfecho? A gente, aqui nesta seção, vive dando “conselhos” para jovens jornalistas/escritores, o que você diria para jovens músicos que estão lendo esta Entrevista? Há esperança?
Discoteco desde moleque, eu era o cara que levava fitas pras festinhas e tal. Tinha um programa de rádio na Rádio Muda da Unicamp só de música negra – Aribazão, Só Som de Negão – que eu fazia com o Cris Albuquerque, um dos meus melhores amigos, e que naturalmente gerava discotecagens. O Cris depois montou a infame Festa Black em Barão Geraldo e eu discotecava com o Roni, o Serjão e o William Break (outro compadre da época do Diário) em festas memoráveis no Delta, em Campinas. Festas que deram origem ao programa Beatbox, que apresentei com o Serjão e o Fred Jorge, na Rádio Cultura da cidade por um ano. O que eu quero dizer com isso é que discotecar e fazer um programa de rádio têm a mesma origem e natureza, são coisas que se misturam e se conversam. Depois que mudei para São Paulo – em 2001 – comecei a pedir (e depois a ser chamado) pra tocar em festas de amigos e noites em que eu gostava de sair, até que, em 2006, eu fiz uma festa de aniversário com o Ramiro, editor do Radiola Urbana, que nasceu exatamente no mesmo dia em que eu e deu origem à primeira festa que eu fiz de verdade, o Baile R.U.T.S. (Radiola Urbana/Trabalho Sujo). Já conhecia mashup desde o tempo em que ele se chamava bastard pop, mas tanto eu quanto o Luciano – que também tem essa qualidade de ser de Brasília e conheço há pelo menos uns oito anos, mas nunca tinha feito nada junto com ele – começamos a descobrir que existe uma verdadeira fonte de mashup se desenvolvendo longe dos olhos da mídia. E era um fio da meada, quanto mais a gente puxava, mais mashups vinham. E essa cultura tem um elemento legal que é, mais do que juntar duas músicas diferentes, juntar duas realidades diferentes numa mesma música, o que tem a ver com o que eu falei sobre a minha personalidade no começo da entrevista e sobre a minha geração quando você perguntou sobre a blogosfera. E mais do que isso: quanto mais você conhece músicas, mais você se diverte com os mashups. Fora que são fáceis de fazer, então ainda tem o elemento “faça-você-mesmo” do punk em maior escala, porque não exige que você saiba tocar nada. A partir disso, bolamos o conceito da festa que, apesar de se vender como uma festa de mashup, é uma festa sobre se divertir e gostar de se divertir. Não tocamos só mashup – usamos o gênero como desculpa pra tocar rock alternativo, soul music, funk carioca, hip-hop, electro, rock clássico, pop atual, indie rock, samba, tecno e hits de rádio numa mesma festa. E as pessoas estão entendendo esse espírito da festa e se divertindo cada vez mais, a festa é uma grande celebração do fato de você poder se divertir à noite, sem ficar fazendo cara de "eu conheço essa música que ninguém mais conhece" ou ouvindo o mesmo tipo de som a noite inteira. Pra São Paulo, terra do carão, isso é um feito e tanto. Fora o elemento "revival do heterossexualismo", que pega forte nas festas. Mas o mashup, costumo dizer pra provocar os puristas, nem começou. E espera os mashups de sites começarem a se tornar populares e as pessoas perceberem que elas mesmas podem fazer os mashups que quiserem, seja fundindo temas de seriados, recriando cenas de filmes em jogos eletrônicos ou casando o Flickr com o Google Earth.
9. Você, ainda no Vida Fodona, volta e meia fala do final dos anos 70, época em que você nasceu, e dos anos 80 em geral, inclusive com algumas teses sobre... Nesse sentido, como foi participar da nova encarnação da Bizz? Quando a revista estava no auge, você era bem jovem, mas e agora – ficou emocionado em emplacar capas nessa publicação que já foi antológica? Na época da Zero, que em poucos números se extinguiu, o André Forastieri me falou que todo mundo que leu a Bizz, quando pôde, fez sua própria versão – e que a Zero era só mais uma... Na realidade, muita gente apostava – imagino que a própria Abril – que a verdadeira Bizz, quando voltasse, iria tomar de assalto, de novo, o jornalismo musical. Mas isso não aconteceu... O que houve? A meu ver, sempre considerei impossível – mas queria ouvir de você... A internet acabou, de vez, com as perspectivas para o mercado de revistas – pelo menos, em matéria de jornalismo musical? Os jovens não são mais “como os nossos pais”? “O futuro não é mais como era antigamente”?
Claro que sim. Ter o meu nome assinando a capa de três edições com temas que me são caros (Stones, Lennon e música digital) foi de enorme satisfação pessoal – acho que poucas pessoas que cresceram lendo a revista não queriam ter o prazer e a responsabilidade de assinar matérias na nova fase da revista. Mas o mercado de revistas está passando por uma transformação fudida e é questão de tempo para que editoras comecem a sentir o mesmo que as gravadoras já sentiram e o que estúdios de Hollywood e emissoras de TV estão sentindo agora: o impacto da internet. Por isso, a revista não tem mais tanto apelo como já teve um dia. Concordo com a declaração do André e num certo sentido, a Play foi a "minha Bizz". Até a própria nova encarnação da Bizz teve esse gostinho anteriormente, quando o Ricardo Alexandre, o Emerson Gasperin e o Marcelo Ferla – grandes amigos – fizeram a Frente, que durou menos números do que a Zero. Foi a experiência na Frente que fez o Ricardo se aproximar da Abril e lentamente ressuscitar a Bizz – primeiro em séries especiais, depois em revistas com DVD e finalmente com a revista na banca, todo mês. Ele tirou a revista do nada, quando ninguém mais acreditava que ela fosse voltar. Mas o desempenho em bancas não convenceu a Abril, que tem uma estrutura muito grande pra uma revista de baixo impacto, e nesse exato momento a revista anda meio sem futuro definido. O próprio Ricardo foi mandado embora – aliás, valeria uma entrevista com ele sobre essa história, hein? – e ninguém sabe se o título continua, se muda o formato, se vira só site. A questão é: será que música ainda é relevante como foi um dia para nós? Será que a relação das pessoas com a música mudou a ponto de uma revista sobre o assunto continuar a fazer sentido?
10. Lembrando do Renato Russo, e misturando com sua veia ensaística, quando vamos ver um livro do Alexandre Matias? Imagino que você já tenha alguns temas na cabeça... Podemos imaginar vários mergulhos na música pop ou simplesmente popular? Ou será que você prefere um tema único, para se aprofundar – de repente, uma biografia? Dos jornalistas musicais que eu acompanho, você é um dos poucos que ainda não publicou... Por quê? Falta de tempo? Outro foco (que não o livro)? Falta de convites? Agora, de certa forma, você volta para a internet (no fundo, de onde nunca saiu...), mas sinto que o pesquisador musical está impresso no seu DNA... É só sentar e escrever? Como é que é? Tirar férias e escrever? Você tem vontade? No seu ponto de vista, ainda é tempo de publicar em livro (e em papel)?
Livro na cabeça é o que não falta, mas tou esperando a hora certa. A resposta é a falta de tempo e a indefinição por onde começar. Um livro sobre música? Um livro de contos? Crítica ou pesquisa musical? Transformações da era digital? Um romance? Um livro de auto-ajuda? Uma coletânea de resenhas? De entrevistas? Uma biografia? Todas essas idéias estão fermentando na cabeça há mais de dez anos, cada uma delas com cinco ou seis desdobramentos possíveis. Mas ainda estão na pasta de rascunhos, não quero colocar o carro na frente dos bois e nem lançar um livro só pra dizer que eu lancei. Mesmo porque um dos desafios seria fazer um livro pra vender – muito. Publicar é muito fácil, queria ver se conseguia publicar e vender. Essa é a meta. Mas espera. Cada coisa em seu tempo.

É, em pleno domingo.
Exatamente às 18 horas deste dia 17 estaremos lançando a coleção de hits da temporada Outono/Inverno 2007. Depois devários previews, testes em laboratório e in loco e de uma passagem por duas semanas por Paris, finalmente a coleção estreará em grande estilo - e você que já conhece a melhor festa do Brasil vai se esbaldar maisuma vez. Pura diversão em estado bruto.
A Mojodose é uma fusão (um mashup?) de duas boas iniciativas daqui de São Paulo - a coleção de livros Mojo Books e a festa Rebor12. Na escalação, tem pra todos os gostos - do Snoopy ao Barcinski, passando pelo Alex S, o Spiceee, o Julião e projeções do Embolex. No meio disso tudo, Gente Bonita Clima de Paquera começa a esquentar o inverno com doses cavalares de rock das antigas, electro pesado, pop radiofônico, hits do passado, funk carioca, remixes improváveis, música brasileira, disco music, soul e, claro, mashups novinhos em folha. Começamos a tocar na hora em que o sol começar a se por - e ao ar livre, vai ser finíssimo.
Bom, nos vemos lá no domingo.
Gente Bonita @ Mojodose
Estréia da coleção de hits da Temporada Outono/Inverno 2007
Festa com mais de 15 atrações, entre DJs, VJs e estúdio de grafitti e duas pistas
Luciano Kalatalo e Alexandre Matias (Gente Bonita Clima de Paquera) a partir das 18h, na pista Out.Sessions
Domingo, dia 17 de junho de 2007
A partir das 15h
Local: Tribe House. Rua Henrique Schaumann, 517. Pinheiros.
Preço: R$ 15 na hora ou R$ 10 com nome na lista (quer colocar nome na lista? Mande um email pra gente até às 16h deste domingo!)
Clique aqui para ver o flyer original.
Gente Bonita
Temporada Outono/Inverno 2007
Aguardem:
Gente Bonita @ Milo
Gente Bonita @ Vegas
Gente Bonita @ Audio Delicatessen
Gente Bonita @ Treze
Gente Bonita @ Clash
Gente Bonita @ Brasa
Vamos avisando.
Depois que o Strange Maps comparou o PIB dos EUA com o do resto do mundo...
...o Salt Peanuts comparou o do Brasil com o outro resto do mundo.
Rever Rede de Intrigas em pleno amanhecer... Inspirador.
"I don't have to tell you things are bad. Everybody knows things are bad. It's a depression. Everybody's out of work or scared of losing their job. The dollar buys a nickel's worth; banks are going bust; shopkeepers keep a gun under the counter; punks are running wild in the street, and there's nobody anywhere who seems to know what to do, and there's no end to it.
We know the air is unfit to breathe and our food is unfit to eat. And we sit watching our TVs while some local newscaster tells us that today we had fifteen homicides and sixty-three violent crimes, as if that's the way it's supposed to be!
We all know things are bad -- worse than bad -- they're crazy.
It's like everything everywhere is going crazy, so we don't go out any more. We sit in the house, and slowly the world we're living in is getting smaller, and all we say is, "Please, at least leave us alone in our living rooms. Let me have my toaster and my TV and my steel-belted radials, and I won't say anything. Just leave us alone."
Well, I'm not going to leave you alone.
I want you to get mad!
I don't want you to protest. I don't want you to riot. I don't want you to write to your Congressman, because I wouldn't know what to tell you to write. I don't know what to do about the depression and the inflation and the Russians and the crime in the street.
All I know is that first, you've got to get mad.
You've gotta say, "I'm a human being, goddammit! My life has value!"
So, I want you to get up now. I want all of you to get up out of your chairs. I want you to get up right now and go to the window, open it, and stick your head out and yell:
“I’M AS MAD AS HELL, AND I’M NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE!”
But first get up out of your chairs, open the window, stick your head out, and yell, and say it:
“I’M AS MAD AS HELL, AND I’M NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE!”
"So, a rich little man with white hair died. What does that got to do with the price of rice, right? And why is that woe to us?
Because you people and 62 million other Americans are listening to me right now. Because less than 3 percent of you people read books. Because less than 15 percent of you read newspapers. Because the only truth you know is what you get over this tube.
Right now, there is a whole, an entire generation that never knew anything that didn’t come out of this tube. This tube is the gospel, the ultimate revelation. This tube can make or break presidents, popes, prime ministers. This tube is the most awesome goddamn force in the whole godless world.
And woe is us if it ever falls into the hands of the wrong people. And that’s why woe is us that Edward George Ruddy died. Because this company is now in the hands of CCA — the Communication Corporation of America. There’s a new Chairman of the Board, a man called Frank Hackett, sitting in Mr. Ruddy’s office on the 20th floor.
And when the 12th largest company in the world controls the most awesome goddamn propaganda force in the whole godless world, who knows what shit will be peddled for truth on this network.
So, you listen to me. Listen to me! Television is not the truth. Television’s a goddamn amusement park. Television is a circus, a carnival, a traveling troupe of acrobats, storytellers, dancers, singers, jugglers, sideshow freaks, lion tamers, and football players. We’re in the boredom-killing business.
So if you want the truth, go to God. Go to your gurus. Go to yourselves, because that’s the only place you’re going to find any real truth. But, man, you’re never gonna get any truth from us.
We’ll tell you anything you wanna hear. We lie like hell. We’ll tell you that Kojak always gets the killer and that nobody ever gets cancer at Archie Bunker’s house. And no matter how much trouble the hero is in, don’t worry. Just look at your watch. At the end of the hour, he’s gonna win.
We’ll tell you any shit you want to hear. We deal in illusions, man. None of it is true!
But you people sit there day after day, night after night, all ages, colors, creeds. We’re all you know. You’re beginning to believe the illusions we’re spinning here. You’re beginning to think that the tube is reality and that your own lives are unreal.
You do whatever the tube tells you. You dress like the tube. You eat like the tube. You raise your children like the tube. You even think like the tube. This is mass madness you maniacs! In God’s name you people are the real thing, WE are the illusion!
So turn off your television sets. Turn them off now. Turn them off right now. Turn them off and leave them off. Turn them off right in the middle of the sentence I am speaking to you now! Turn them off!"
"You have meddled with the primal forces of nature, Mr. Beale, and I won't have it. You are an old man who thinks in terms of nations and peoples. There are no nations; there are no peoples. There are no Russians. There are no Arabs. There is no third world. There is no west. There is only one holistic system of systems; one vast interwoven, interacting, multivariate multinational dominion of dollars. Petrodollars, electrodollars, reichmarks, rubles, rin, pounds and shekels. It is the international system of currency that determines the totality of life on this planet. That is the natural order of things today. That is the atomic, subatomic and galactic structure of things today. It is the international system of currency that determines the totality of life on this planet. That is the natural order of things. You have meddled with the primal forces of nature, and you will atone! Am I getting through to you, Mr. Beale? You get up on your little twenty-one inch screen and howl about America and Democracy. There is no America. There is no democracy. There is only IBM and ITT and AT &T and Dupont, Dow, Union Carbide and Exxon. Those are the nations of the world today. What do you think the Russians talk about in their councils of state? Karl Marx? They pull out their linear programming charts, statistical decision theories, and minimax solutions and compute the price-cost probabilities of their transactions and investments just like we do. We no longer live in a world of nations and ideologies, Mr. Beale. The world is a college of corporations inexorably determined by the immutable by-laws of business. The world is a business, Mr. Beale! It has been since man crawled out of the slime. And our children will live to see that perfect world in which there is no war or famine, oppression or brutality. One vast and ecumenical holding company for whom all men will work to serve a common profit and in which all men will own a share of stock, all necessities provided, all anxieties tranquilized, all boredom amused. And I have chosen you to preach this evangel"
O filme é do ano passado, mas eu fiquei sabendo via Mini.
O vídeo é velho, mas o populista mais legal dos EUA depois do Michael Moore resume um monte de coisas em que eu acredito nesse discurso.
Se tu não visitou o rincão do Pedro Alexandre nesses últimos dias, dicas:
- Gigantesca entrevista com o Lobão (em que ele fala numa boa sobre a MTV, ao contrário do que rolou no G1)
- A matéria sobre o sucesso internacional do Cansei e outros brasileiros se agilizando na gringa que ele fez pra Rolling Stone
- E uma história bem interessante sobre Roberto Carlos censurando uma biografia sua... nos anos 70.
E juntando A com B... O que é mais estranho: apreenderem uma biografia não-oficial às vésperas do lançamento da oficial ou lançarem uma biografia não-oficial às vésperas do lançamento da oficial?

Levada de conga e violão nordestino começam, sedutores, a tentar uma certa aproximação. "O que é que tu quer de mim? Que voz é esta?", pergunta, carregada de seu característico sotaque cearense, a voz do guitarrista e vocalista Fernando Catatau, líder do grupo Cidadão Instigado, acompanhado do assobio sinistro de um teclado retrô. "Que silêncio é este? Por que tu não fala o que estais pensando? Não quero estar recuando o meu sentimento, a minha alegria. Eu sinto que você está chegando mas se recusa a aceitar". O som desenha um boteco mal freqüentado, à meia luz, TV ambiente ligada ao fundo só para dar uma mínima sensação de vida, ainda que apenas úmida e viscosa. O pano sujo sobre o balcão, o copo solitário de cerveja, o display para maços de cigarro vazio, a mesa de lata riscada com nomes, palavrões e datas, os azulejos que um dia foram brancos. Tudo inspira o desespero de uma latinidade decadente, caixas de cerveja amarela usadas para esconder o mofo da parede dos fundos. Não dá pra saber quem é o predicado da canção: uma pessoa, um vício, a própria identidade.
Uma guitarra elétrica crua, sem efeitos especiais (a imagem que me vem à cabeça são aqueles velhos amplificadores Giannini, com botões do tipo "tremolo" e "vibrato"), corta o ar ativando baixo e bateria em um melancólico e quase almodovariano bolero, fazendo a consciência do protagonista - provavelmente em algum ponto entre a ressaca e o arrependimento, mesmo ainda sendo noite - tornar-se a banda mais triste do mundo, nos colocando em algum ponto entre "Amarelo Manga" e "Um Drink no Inferno". "Acho que estou te esperando", entoa quase inocente, num refrão que sorri, serviçal, por mais uma chance, "o que você talvez já saiba. É, você pode estar certa, talvez não valha apenas dizer mais nada. Mas eu te espero mais perto, estou morrendo e tenho medo de só pensar em você. Te encontra logo com a distância antes que ela te dizer que já é tarde demais".
E sem sermos perguntados estamos no meio de Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências, tributo a todos os tipos de conflitos pessoais pelo qual Catatau e companhia nos conduzem em seu segundo disco. Terceiro, se contarmos a primeira e pouco ouvida demo, CDzinho de cinco faixas que poucos privilegiados tiveram o prazer de desfrutá-lo ainda em 1999. Ainda no Ceará, a banda dava a ignição em uma inesperada cruza de jazz rock com trovadorismo nordestino e tempero de rádio AM. Longe de apocalipses mais ao leste, de artistas como Cordel do Fogo Encantado, Zé Ramalho e Cabruêra, a intensidade épica do Cidadão vem do apreço dos músicos por seus instrumentos (parente, enviesado, do Cordel de Lirinha, que, optam pela estrada acústica e percussiva, enquanto os cearenses seguem a trilha elétrica e harmônica) que culmina no amor de Catatau por seu instrumento. Imerso entre Johns McLaughlins, Daves Gilmours e Lannys Gordins, a guitarra de Fernando é setentista por definição, virtuosa por natureza e tortuosa, primeiro sentimentalmente, depois como manifesto.
A guitarra torta e passional do Cidadão Instigado por excelência acaba funcionando como metáfora para o disco, tanto em termos temáticos quanto instrumentais. O Método Tufo é um disco sobre o estranhamento, partindo do ponto de vista mais evidente quando se trata do líder do grupo: o fato de ser, na prática, mais um nordestino em São Paulo. Usa diferentes ângulos para mostrar como é se sentir alheio à normalidade em uma cidade cuja normalidade parece imitar a morte, insistindo na fórmula, na aparência, na passividade, na submissão.
Musicalmente, aponta para o quarto de empregada e para a coleção de discos do tio hippie. O tom ao mesmo tempo sóbrio e sombrio que aquela guitarra impõe à qualquer intervenção que se proponha. Tanto que já tocou ao lado da Nação Zumbi, do Hurtmold e do Los Hermanos, sempre impondo seu estilo pessoal, seu timbre agudo e dedilhado torto, nunca alheio a cena alguma. E é justamente sobre o fato de os outros lhe considerarem alheio que começa o discurso que prevalece em todo o álbum.
"Quem pode explicar a razão de pinto de peitos ter nascido com o bico preto? Talvez Deus tivesse um motivo ao perpetuar este ato por mais que pensem ser um defeito", pergunta em "O Pinto de Peitos", "um defeito de Deus é sempre perfeito". "Eu não sei o que falar sobre as estrelas que povoam o meu céu, que brilham e brilham, mas não me dizem nada", canta na bêbada "Noite Daquelas".
"Fale para mim, por que eu lhe incomodo tanto? Será que são as minhas sobrancelhas grossas ou serão as minhas tortas? Será que a minha voz fanha polui a tua sonoridade sobre-humana?", ironiza feliz por saber como a música termina, em " Apenas um Incômodo", "ou será simplesmente por que eu me aceito assim e até gosto de mim? Eu sei que eu sou meio empenado e até um pouco desafinado. Mas eu não escondo e não me engano e se você me chamar de paraíba ou baiano não vai me soar estranho!".
A música continua mas logo perde seu tom dócil e volta à tensão inicial do disco encarando o ouvinte. "Pois eu sei que aos teus olhos/ Eu sou apenas um incômodo/ Que veio do nada para empestar o mundo", a voz denuncia que o clima da canção mudou, descambando para um instrumental cáustico que aponta para trios tão diferentes quanto Jimi Hendrix Experience, Built to Spill e a banda que acompanhava Arnaldo Baptista no disco Singin' Alone. "Mas escute/ Eu que vim do nada/ Não tenho encantos, nem correntes/ Só tenho um sonho que é só meu/ E duas palavras para dizer neste instante: ME AGÜENTE!".
O progressivo é outra assinatura musical do grupo e não é só a marcha "Os Urubus Só Pensam em Te Comer" que remete ao Pink Floyd (especificamente, o biênio 78/79). Ela é apenas uma das músicas que citam bichos ("Todas as vacas estão velhas/ Todas as vacas estão quase lá/ Todas as vacas estão loucas/ E abatidas em seu leito de morte" - as vacas, como os Animals de Roger Waters, chegam até a mugir) e cujo clima tenso e desconfiado é repetido, à prog-blues como o velho Floyd, dentro de qualquer gênero musical que aparecer: rock pesado (em "Calma!"), música latina ou gangsta rap (na mesma "O Pobre dos Dentes de Ouro", ótica), reggae ("Apenas um Incômodo"), cantiga de lavadeira ("Chora, Malê", que começa elétrica, cai para o folclore e termina ambient, vazia, ecoando batida policial - perfeita) e shuffle de beira de estrada ("Noite Daquelas", cômica e crônica)
O holofote central no entanto, divide-se entre a faixa de abertura ("Te Encontra Logo...", comentada no início), a balada ("O Tempo") e a belíssima "Silêncio na Multidão". "O Tempo" é, de longe, a melhor música do disco - uma letra amarga e madura, conformada com a idade, que não funcionaria lindamente tanto no repertório de Roberto Carlos, Odair José, Caetano Veloso, Nervoso ou Mombojó. "Mas o tempo é um amigo preciso que fica sempre observando aquele instante em que alguém tentou se aproximar", canta, em falsete, acompanhados por vocais de apoio de sonho. O desabafo falado de Catatau é daqueles momentos que nem é bom tentar passar pro texto para não perder toda sua magia atemporal. "Às vezes choro pois sei que não posso deixar que o passado invada meu mundo", isso tocado ao vivo deve ser fodaço, mesmo sendo intensamente e desavergonhadamente brega.
Já o épico "Silêncio na Multidão" é um exercício de hipnotismo jazz-funk que, disfarçada de crônica social. "Aqui estou eu, há meia hora parado no cruzamento da Brigadeiro Luís Antônio com a Avenida Paulista", narra falando, fingindo-se bardo, sobre uma monótona cadência reminescente instrumental Doors. "Interessante, né? Todos os dias em milhares de lugares milhares de pessoas se cruzam, mas não se falam, pois não se conhecem e nem ao menos se importam com isso. Mas é apenas um jogo de espelhos e, mais adiante, ele finge ver "um mendigo barbado" que "simplesmente pára e grita um grito de liberdade para a multidão, pois ele não agüenta viver sozinho na escuridão". O grito do mendigo (a imagem que o próprio Catatau, ele mesmo barbado, imagina que os outros façam dele) é não só todo o Método Tufo como um refrão emblemático e cético, que vem logo a seguir.
"Eu vejo as pessoas que passam por mim, que falam, que ralam, que gritam em agonia e solidão", canta emocionado, "dói no coração ver meu povo silencioso". O solo bluesy ressurrecta o mesmo timbre de uma das peças centrais do primeiríssimo disco, a demo de 99, a instrumental "Poeira". A crítica é simples: a lógica da cidade grande está matando o melhor do brasileiro. E o disco acaba funcionando como o grito do mendigo. Ele não pede para pararem o mundo - ele já desceu e chora por nós.
O que mais impressiona no disco, além de seu fio condutor progressivo, é a sua sintonia com o momento robertocarlista que vivemos. Mais do que qualquer outro contemporâneo seu, Fernando Catatau insiste em uma linha evolutiva que vai para longe da fila bossa nova, Tropicália, canção de protesto, MPB ou o vasto cânone do samba desintelectual. Tateia por um universo passional e adulto, longe da rebeldia ou do prazer, da saudade e do êxtase, da miséria física, social ou espiritual. Trilhando os passos do Rei, ele faz o ponto de intersecção entre o "Prato de Flores" da Nação Zumbi e a indiesmo MPB do Los Hermanos, passando por aquele velho rádio de estante que o dono do bar deixou ligado depois que o jogo acabou e que, de repente, começou a tocar aquela música...
Mais um.

Fela Anikulapo Kuti é o equivalente africano de Che Guevara e Bob Marley ao mesmo tempo, gênio da raça, líder pacifista e voz do povo. Papa do afrobeat, trouxe os milenares ritmos africanos para a era elétrica, fundindo-os com a força bruta do jazz, funk e rhythm'n'blues. Com seu front musical, entrava em transes percussivos acompanhados de cavalgadas de baixos elétricos, guitarras em profusão, um coro feminino em primeiro plano e uma enxurrada de instrumentos de sopro, com o sax de Kuti em primeiríssimo plano. Com mais de uma centena de discos com sua participação (álbuns costumeiramente divididos em quatro blocos de quinze minutos, que tornavam-se horas ao vivo), Fela criou uma obra tão vasta quanto densa, de valor inestimável e de fácil aceitação. Mas como a África, Fela Kuti é deixado de lado da história mundial, como um gigante incompreensível, uma floresta fechada onde nenhum homem jamais esteve.
Puro preconceito. A obra do filho mais controverso da nação nigeriana não é apenas de fácil aceitação como perfila-se muito bem ao lado de senhores do ritmo como James Brown, George Clinton, Miles Davis, Afrika Bambaataa e o supracitado Marley - todos conduzindo seu público a um êxtase coletivo baseado na fusão de ritmo e eletricidade, sempre num redemoinho de instrumentos tocados de forma radical, ao extremo. Teclados, bateria, percussão, trombones, guitarras, backing vocals, bailarinas, trumpetistas, baixista, saxofonistas - todos seguinto o fluxo ininterrupto de som, uma avalanche sônica que corre com a força da correnteza de um rio. Como seus pares de pulso, Fela aproveitava a deixa do balanço para falar de política, sempre de forma abstrata e direta, como os discursos monossilábicos de Marley e de Brown.
Nascido em 15 de outubro de 1938 (na cidade de Abeokuta, no sul da Nigéria, conhecida como a capital do Estado de Ogum), Fela Ransome Kuti aprendeu noções de política no berço, graças à mãe (que freqüentava o círculo de amizades da feminista Nnamdi Azikiwe, nos anos 40), o avô (pastor anglicano, era conhecido como "o padre cantor" devido à forma que catequizava seus fiéis) e o pai (autoritário e repressor, se tornou uma metáfora usada por Fela para descrever a situação do seu povo e de seu país). Mas Kuti não se limitava a falar e conduzia a revolução em seu país na prática, pegando em armas e desafiando autoridades sempre que preciso. Seu nome estava nas páginas dos jornais tanto na sessão de artes e espetáculos como nas de política - e muitas vezes nas de polícia. Notório canábico (fazia questão de ostentar baseados gigantescos, que esfumaçavam a cara de suas visitas), também era conhecido por sua disposição sexual, que o fez desposar 27 mulheres num mesmo casamento, remetendo às tradições iorubás. Um artista completo, morreu em conseqüência da Aids, em 1997, deixando uma obra irrepreensível.
Mas por onde começar? Kuti é desses artistas como John Zorn, Sun Ra, Neil Young ou Frank Zappa, cuja extensão e importância da obra só é compatível à de cada um dos discos. Difícil eleger "o melhor" disco de Fela, pois sua música é sua própria vida, e cada momento específico traz revelações próprias dele mesmo. E se é possível demarcar um período importante em sua carreira, este acontece de 1968 a 1997, nos seus últimos trinta anos de vida. É neste intervalo de tempo que ele cria, amadurece e consagra sua convulsão de ritmos e instrumentos batizada de afrobeat.
O conceito de afrobeat surgiu quando Kuti fez sua primeira excursão para os EUA. Sua vida se tornou oficialmente dedicada à música quando sua família o mandou estudar Medicina em Londres, mas ele transferiu o curso para Música. Dentro da cena universitária conheceu o jazz e o rhythm'n'blues norte-americano e em 1961 fundou seu primeiro grupo, o Cool Cats. Pouco depois, o grupo se transformava no Koola Lobitos e era formado apenas por nigerianos que faziam intercâmbio na Inglaterra. O grupo volta à Nigéria e é um pequeno sucesso nacional, passando a se tornar o nome mais popular e jovem do gênero highlife, a fusão de ritmos africanos e jazz tradicional. A próxima escala seria nos Estados Unidos, onde Fela tanto sonhara em encontrar seus ídolos musicais.
Mas mais do que música, Fela foi exposto a idéias. Em contato com os movimentos de intelectuais e líderes negros como Eldrigde Cleaver, Malcolm X e os Panteras Negras, ele resolve radicalizar suas posições políticas e se engajar na luta pelo seu povo. Ao mesmo tempo, mira-se na evolução da black music nos EUA, que deixava aos poucos o lado suave e sentimental do soul para abraçar a tensão e força do funk e do jazz rock. Coletivos elétricos expeliam milhares de decibéis elétricos na orelha de seu público e o doutrinava de forma direta e indolor. A adição do baterista Tony Allen na formação do grupo deu ao som a força rítmica e precisa que as bandas de James Brown e Curtis Mayfield tinham e Fela entrou numa catarse espiritual que resultou na atordoante colisão sonora do afrobeat.
Neste The 69 Los Angeles Sessions, a gravadora inglesa Stern reuniu o antes e o depois do choque cultural norte-americano ter sido assimilado por Kuti e é uma versão simplificada da transformação musical e ideológica proposta pelo cantor. Por isso mesmo, o primeiro disco que você deve ouvir do autor. Aqui as músicas ainda não são quilométricas, embora sua força esteja condensada e à mostra. As seis primeiras faixas trazem a versão original do grupo, os Koola Lobitos; as restantes sua nova versão, Fela Kuti & Africa 70, como rebatizou seu coletivo. Na primeira parte, ouvimos mais o trumpete de Kuti do que seu famoso sax, que toma conta da segunda parte. E logo no começo desta, somos apresentados ao hino-manifesto do afrobeat, lançado em meio às revoltas sociais de 1969 que resultariam na Guerra de Biafra. O tom de "Viva Nigeria" pode ser sentido em várias outras manifestações "glôbal" pelo mundo, da Nação Zumbi ao Bob Marley. Mas Fela foi o primeiro. Sente só:
This is brother Fela Ransome Kuti, This is one time I would like to say a few things, Men are born, kings are made, tributes are sang, wars are fought, Every country has its own problems, So has Nigeria. So has Africa, Let us bind our wounds and live together in peace, Nigeria. One nation. Indivisible. Long live Nigeria. Viva Africa.The history of mankind is full of obvious turning points,
And significant events,
Though tongue and tribe may differ,
We are all Nigerians, we are all Africans,
War is not the answer, it has never been the answer,
And it will never be the answer,
Fight amongst each other. Lets live together in peace!
Nigeria. One nation. Indivisible.
Long live Nigeria, Viva AfricaLets eat together like we used to eat,
Lets plan together like we used to plan,
Sing together like we used to sing,
Dance together like we used to dance,
United we stand. Divided we fall,
You know what I mean,
Let us bind our wounds,
And live together in peace,
Nigeria. One nation. Indivisible.
Long live Nigeria, Viva Africa.Brothers and sisters in Africa,
Never should we learn to wage war against each other,
Let Nigeria be a lesson to all,
We have more to learn building than destroying,
Our people cant afford anymore suffering,
Lets join hands, Africa,
We have nothing to lose, but a lot to gain,
War is not the answer, War has never been the answer
And it will never be the answer,
Fighting amongst each other,
One nation. Indivisible.Long live Nigeria, Viva Africa.
Outro texto renascido.

A importância de Curtis Mayfield ainda será reconhecida e ele saudado como um dos maiores gênios da história da música popular. Cantor, compositor, multiinstrumentista, arranjador, produtor, empresário, produtor executivo - ele não apenas sabia fazer de tudo como fazia tudo bem. Seu controle de qualidade fez com que Chicago entrasse na disputa com Detroit e Memphis pelo troféu de capital do soul americano nos anos 60. A disputa mostra o peso de Mayfield nesta disputa. Do lado da Motown tínhamos o pulso firme do dono da gravadora, Berry Gordy, trabalhando com compositores do nível do trio Lamont-Dozier-Lamont, Smokey Robinson e Norman Whitfield para artistas de peso como Stevie Wonder, Temptations, Four Tops, Marvin Gaye, Supremes e Gladys Knight & the Pips (sempre acompanhados da banda mais injustiçada da história, os Funk Brothers). Na Stax, o cacife não era menor: Otis Redding, Mar-Keys, Rufus Thomas, Sam & Dave, Staple Singers, Carla Thomas e o resto do elenco gravavam composições de Isaac Hayes com ninguém menos que Booker T & the MGs como banda de apoio.
Em Chicago, Curtis compunha canções para ele mesmo arranjar, tocar e cantar ao lado de sua primeira banda, os Impressions. Com o quinteto (Jerry Butler - que saiu no primeiro ano, sendo substituído por Fred Cash -, Sam Gooden e os irmãos Arthur e Richard Brooks), Mayfield foi um dos primeiros compositores a falar de direitos civis e do orgulho negro, sendo rapidamente assimilado por quase todos que ouviram suas canções. Os temas de suas canções eram sempre sérios, mas cantados de forma pacífica e apaixonada. Com arranjos doces e marcantes (como seu próprio falsete, um primor de voz), ele convidava o ouvinte a refletir sobre a realidade, ao mesmo tempo em que condensava sentimentos em frases simples. A banda encarnava a atmosfera irresistível ao exercitar dotes vocais vindos do doo-wop e do gospel, levando o soul à mesma direção que os Beach Boys guiavam o rock. Esta combinação levou os Impressions a uma série de hits: "For Your Precious Love" (de 1957), "He Will Break Your Heart" (de 58), "Gipsy Woman" (61), "It’s Alright" (63), "I’m So Proud", "Keep on Pushing" e "Amen" (64), "People Get Ready" (65), "This is My Country" (66), "We’re a Winner" (68) e "Mighty Mighty Spade & Whitey" (69), entre outros menores.
Ao mesmo tempo que colecionava sucessos com os Impressions, Curtis ainda encontrava tempo para revelar talentos e escrever para eles na Okeh Records, gravadora que a Columbia deixou sob sua responsabilidade tamanho seu talento e moral nos anos 60. Lá, lançou Major Lance e Gene Chandler. Mas logo saiu para sua própria gravadora - Windy C -, onde revelou Five Stairsteppers, Cubie e Fascinations.
Mas como Marvin Gaye, Isaac Hayes e Stevie Wonder, seu trabalho com o soul nos anos 60 foi apenas um ensaio para o ápice artístico que viria no começo dos anos 70. E se Isaac Hayes hoje é saudado como um Phil Spector negro, com seu talento de total manipulação e envolvimento de todo o processo de composição de uma música reconhecido como próximo da perfeição, mesmo que isso chegue perto da insanidade; Curtis Mayfield é o Brian Wilson com groove. Sua habilidade de transformar uma simples canção num tratado sobre determinados sentimentos é tão envolvente quanto a forma que usa a própria voz, aproveitando-se de uma pureza e doçura que soam naturais quando entoada em falsete. Trabalhando com a mesma quantidade de músicos de uma orquestra, Curtis e Brian regiam, pessoalmente, cada instrumento - transformando a aventura de passear por seu ouvido interior num árduo trabalho de repetição no estúdio.
Como Brian em 1965, Curtis saiu dos Impressions em 1970, para desenvolver suas próprias idéias em carreira solo (o primeiro fruto das sessões de Pet Sounds, o obra-prima de Wilson, foi o compacto "Caroline No", que saiu creditado apenas a Brian - a gravadora Capitol não achou uma boa idéia). Curtis não deixaria gravadora nenhuma intrometer-se em seu trabalho e resolveu lançar os seus próprios através da Curtom, sua nova empresa. Seus primeiros discos davam-lhe razão pela carreira seguida: Curtis, Curtis Live (gravado com os Impressions) e Roots mostravam todo potencial que ele escondia por trás de simples canções pop. Suas novas canções davam margem a improvisos jazz-funk de apelo impossível de resistir. Faixas como "Move on Up", "People Who Are Darker Than Blue", "The Makings of You", "(Don’t Worry) If There’s a Hell Below We’re All Going To Go" e "Get Down" mostravam que Curtis Mayfield estava chegando próximo à perfeição. Mas diferente do líder dos Beach Boys, ele não enlouqueceu antes que seu disco máximo fosse revelado.
Ironicamente, o disco em cujo empenho artístico Mayfield foi mais precioso não era sequer um álbum seu. Convidado para fazer a trilha sonora do filme Superfly, ele viu no projeto a chance de cantar a vida no gueto sem forçar a barra. Até então, suas canções falavam de temas sociais, mas nunca sem entrar em detalhes mais fortes, sempre traçando um panorama e descrevendo uma paisagem sentimental com palavras e canções. Ao colocar a lente de aumento sobre a vida de um traficante disposto a fazer seu último negócio e se aposentar, Curtis fotografa uma parte da vida americana praticamente ignorada pela mídia.
Era o início do que mais tarde seria conhecido como o gênero blaxploitation. Filmes feitos por negros sobre o glamour da bandidagem e da vida na sarjeta, eles contavam com trilhas sonoras matadoras, compostas basicamente de grooves cavalares e funks frenéticos, usados em cenas de sexo, tiroteios ou perseguição. Precursores do gangsta rap, essa geração era igualmente conhecida por sua apologia ao excesso. O estereótipo gigolô de fala mansa, terno cor-de-rosa, chapelão amarelo, charuto e sapato de couro de crocodilo nasceu deste universo blaxploitation. O da negrona alta e forte, usando cabelo black power e roupas com boca-de-sino e franjas, sempre agarradas ao corpo (que no Brasil foi encarnada por Lady Zu) também. Todos os traficantes que vimos mais tarde em Miami Vice ou Anjos da Lei são atualizações anos 80 para clichês inventados naquela época. Muitas vezes bancados por traficantes e chefões do crime organizado, filmes como Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (o primeiríssimo), Shaft, Coffy, Cleopatra Jones, Truck Turner, Together Brother, Black Caesar, Foxy Brown, Short Eyes, Blacula, Trouble Man, Cornbread, Slaughter, Hell Up in Harlem, Across 110th Street, Shaft’s Big Score, The Hitter, Cotton Comes to Harlem, The Mack, Shaft in Africa e Earl and Me lucravam como droga: custavam pouco para ser feitos e faziam muita grana, sempre falando de crimes, bandidos, drogas, detetives, prostituição, prisões, sexo e toda sorte de vícios.
Quando Curtis foi convidado pelo escritor Phillip Fenty e pelo produtor Sig Shore para compor a trilha sonora, ele encarou um desafio que já havia aparecido em forma de pergunta. Filmes como Shaft, Across 110th Street e Trouble Man tiveram suas trilhas sonoras assinadas por pesos pesados como Isaac Hayes (que faturou até uma indicação para o Oscar de melhor canção), Bobby Womack e Marvin Gaye, respectivamente. Mas todos os discos eram compostos por duas ou três canções seguidas de vários trechos instrumentais. Mayfield propôs uma trilha composta inteiramente por músicas e que todas elas fossem compostas especialmente para o filme. E assim foi feito: com exceção da excelente "Little Child Runnin’ Wild" (composta um pouco antes do convite, já dando uma idéia do tipo de sonoridade que Curtis procurava), todas as músicas foram escritas depois do filme ter sido concluído, com sons inspirados nele mesmo.
Mesmo dentro de seu gênero, Superfly não é um grande filme. Sua história pode até ter um aspecto de seriedade que os outros filmes não tinham, mas este não foi bem executado. Dirigido por Gordon Parks Jr. (cujo pai havia filmado Shaft um ano antes, com Richard Roundtree como o clássico detetive particular John Shaft), o filme conta a história de um traficante que, disposto a abandonar a vida de crimes, resolve fazer uma transação de um milhão de dólares e tirar seu time de campo. Na faixa-título, Curtis canta o verso que melhor resume o filme e a vida desta gente que não quer ser bandido para sempre - "Trying to get over". "Tentando superar" - movido por essa vontade, o personagem principal no entanto não pára para a reflexão, limitando-se a tirar onda por todo filme. É Curtis quem dá a introspecção, questionando com suas canções o significado de tudo aquilo. Como se a trilha sonora de Trainspotting fosse a consciência do personagem Renton - e este fosse apenas mais um delinqüente sem futuro. "Eu podia me relacionar bastante com ele (o script) porque eu vivi o suficiente na cidade para sentir... o que era o Superfly. Ele me permitiu me livrar do brilho da cena de drogas e ir para o lado fundo do assunto", explicou para o escritor Bob Prutter, autor do livro Chicago Soul. A trilha sonora é a alma de Superfly e sua importância extrapola a do filme e abre um espectro de influência sobre a música pop que vai de Ice-T a R. Kelly, de Jeff Beck ao Arrested Development, passando por Eric Clapton, Bruce Springsteen, Aretha Franklin, Gladys Knight, Lenny Kravitz, além de todo o gangsta rap e o R&B dos anos 90.
Enquanto cinema, o que Superfly tem a seu favor é o fato de ser um fiel retrato do que acontecia nas ruas, bancado e glamourizado pelos donos da grana que o pagou. Como os filmes gangsta dos anos 90 (Murder Was the Case e Above the Rim), Superfly cria uma mitologia fundamental em torno dos personagens. E a trilha sonora acaba dando-lhes sentimentos, descrevendo, com curtas palavras e expressões simples, emoções e reflexões sobre a vida no gueto. Uma estranha combinação de ritmos latinos, cordas, funk, soul, jazz e sons da rua, Superfly - a trilha - expande os horizontes da música negra, podendo ser sentido em grupos tão diversos como Massive Attack, Wu-Tang Clan e Beastie Boys.
O disco abre com o casamento da percussão latina com um pesado e quase onipresente órgão Hammond, que transforma-se no tecido da introdução de "Little Child Runnin’ Wild". A marcação do tempo entra com a bateria, cujas batidas no bumbo determinam o ritmo, acompanhado por um discreto e gordo baixo e por um estridente solo de guitarra. O primeiro ataque dos instrumentos de sopro é imediatamente respondido pelas cordas e Curtis começa a cantar a dor da infância na rua: "Pequena criança/ Corre solta/ Preste atenção/ Ele não sorri", a guitarra base surge tocada pelo próprio Curtis, marcando tempo ao lado da bateria, "Lar rompido/ Pai ido/ Mãe cansada/ Ele está só". Ponteado por cordas em pizzicato (aqueles beliscões nas cordas do violino) e por um solo de sax, ele lamenta a inocência perdida como justificativa da raiva: "(No fundo da sua mente ele diz)/ Não precisava ser aqui/ Não precisava do seu amor pra mim/ Enquanto fui uma criança-nada/ Porque só não me deixaram ser/ Me deixaram ser".
Originalmente batizada de "Ghetto Child", a canção foi a única música que já havia sido escrito antes de Curtis ser convidado para escrever a trilha. "Mas ela encaixou-se com tanta perfeição à cena de abertura com os dois meninos junkies", lembra o autor. A canção pinta o cenário que vamos assistir nossa história: com cordas e sopros, o arranjo final dá ao funk central que comanda a canção a mesma espécie de glamour marginal dos filmes noir, cheio de estilo e exalando uma certa tensão capaz de tornar plausível qualquer reação. No filme, o personagem principal Priest (Ron O’Neal), cheira uma carreira de cocaína sobre o crucifixo que carrega pendurado ao pescoço. Bem-vindo ao mundo real, ele nos recepciona. Por cima, no foco de nossa atenção, o delicioso veludo das cordas vocais de Mayfield, que canta a dureza do dia-a-dia e as más notícias que não páram de chegar. Mas o vigor do volume de todos instrumentos de sua banda tocando ao mesmo tempo parece permitir que a voz faça o que quiser, definindo os climas das canções. Enquanto os instrumentos vão se combinando (um baixo se engancha com a guitarra e a bateria por todo o decorrer da canção, marcando os compassos), assistimos a banda ir para onde Curtis quer, terminando com um clima pesado e grave, sustentado por uma teia de cordas melancólicas e um baixo pensativo.
O baixo de Joseph "Lucky" Scotts caminha por uma rua má iluminada, rebolando quando anda. A percussão de "Master" Henry Gibson marca o ritmo à medida que descreve a rua, cheia de lixo, barulhos da vizinhança, seguida de uma firme marcação de bateria. A faixa é apresentada no filme pelo próprio autor, liderando uma banda chamada The Curtis Mayfield Experience que toca na casa noturna do mafioso Scatter (Julius Harris). O andamento da canção indica a chegada de alguém importante e logo Curtis encarna o personagem do título: "Sou sua mãe/ Sou seu pai/ Sou aquele negro/ No beco/ Sou seu médico/ Quando precisa/ Quer coca?/ Tenho fumo/ Você me conhece/ Sou seu amigo/ Seu chapa/ Firme e forte/ Seu traficante". Não há outra tradução no contexto para "Pusherman", embora a palavra em inglês tenha mais intimidade com o junkie do que sua parente lusa. Curtis canta em falsete, frase por frase, repetindo-as como se quisesse que a melodia grude na memória do ouvinte. Logo, a guitarra repete o mesmo trecho que a voz percorreu (sobre uma calçada de guitarras wah-wah) e, novamente, o personagem dá suas razões para ser bem vindo
Mas em meio às cantadas que dá ao viciado, o pusherman, reflete sobre sua própria condição. Pode ser o "príncipe do gueto", "bad machine", "super cool", "super mal", "as melhores vadias na cama", "El D", o próprio "superfly", mas... a que preço? "Por quanto tempo algo bom pode durar?", se pergunta. E chega à conclusão que é o princípio ativo do filme: Me disseram que eu não podia ser mais nada/ Só um prostituto de mim mesmo/ Eu sei que posso sair/ Essa vida não dá certo". E quando o mesmo clima de apresentação da introdução surge de novo, ele se decide: "Tenho que maneirar, agora/ Tenho de pegar leve, povo" ("Gotta get mellow, now/ Gotta be mellow, y’all"). É hora de pendurar as chuteiras.
Outro aviso vem em "Freddie’s Dead", em que o traficante do título surge morto, que é construída sobre uma inesquecível base criada pelo conjunto do baixo, teclado e flauta, contrapondo-se às cordas e à harpa que passam uma espécie de aura mística à canção. Curtis canta sua compaixão pelo personagem: "É difícil entender que houvesse amor neste homem", lamenta o vocalista, "todos o usaram/ O exploraram e o abusaram/ Outro plano viciado/ Vender droga para o Homem (a forma que os negros se referiam aos homens brancos na época da escravidão tornou-se sinônimo para o executivo pai de família e homem de bem que finge não ter a ver com a criminalidade que patrocina)". Com o subtítulo de "(Theme from Superfly)", "Freddie’s Dead" foi o primeiro single do disco e foi lançado antes mesmo do filme. O efeito da canção foi o desejado e arrastou milhares de fãs do single para os cinemas, fazendo com que "Freddie’s Dead" atingisse a marca de um milhão de cópias vendidas.
As duas instrumentais do disco seguem o padrão tradicional das trilhas sonoras de filmes negros dos anos 70. A primeira delas, "Junkie Chase", pode ser considerada uma espécie de "Shaft nº 2", devido a seu grau de parentesco com a trilha de Isaac Hayes. Como em "Shaft", "Junkie Chase" é construída sobre a levada do chimbau, o lento caminhar do baixo elétrico, a guitarra-base tocando com o pedal wah-wah abafado. O piano faz as vezes que as cordas faziam em "Shaft", só que com mais movimento, conversando com os metais e dando a dinâmica que as cenas de perseguição - sejam a pé ou de carro - precisam ter. Um clássico jazz-funk.
"Give Me Your Love (Love Song)" é a mais bela balada de Curtis Mayfield (desculpem-me os fãs de "The Makings of You"). Ela começa com uma percussão macia, marcada pela bateria, que abre a conversa entre a guitarra e as cordas, ambientada por um piano e, logo depois, a guitarra wah-wah de Curtis. O groove sinuoso e sensual vai sendo construído lentamente, depois que o baixo assume o controle. Mas todos instrumentos trabalham em conjunto, até o ataque que corta a introdução em duas. Os instrumentos começam a traçar seus próprios caminhos - eis que entra o dono do disco, com seu mais apaixonado vocal - "Te quero tanto, baby/ Nem consigo ficar bravo com você". O clima da balada vai passando de sensual a sexy, enquanto o ritmo é perfeito para a dança do acasalamento - até os ataques de sopro e cordas que entrecortam a canção têm sensualidade e calor. A música é usada no filme em uma cena de amor entre Priest e sua mulher, Georgia (Sheila Frazier), em que, enquanto cede aos instintos dentro de uma banheira, ela é única pessoa em que pode confiar. Um homenagem ao amor feito através do sexo, um groove musical irresistível, revisitado mais tarde Barbara Manson & the Sisters Love, Mary J. Blige (em "I’m the Only Woman") e Lambchop.
A pensativa "Eddie You Should Know Better", que reflete sobre a condição do parceiro de Priest, interpretado por Carl Lee. Eddie está a par da decisão de Priest em sair da vida bandida, mas não concorda com isto: "Você tem gravadores de oito canais! Você tem TV colorida em todo cômodo da casa! Pó pra cheirar todos os dias! Você está vivendo o sonho americano!", entusiasma-se, querendo demovê-lo da idéia. O mesmo entusiasmo faz com que outras pessoas fiquem sabendo do risco que Priest corre ao tentar fazer o impossível - deixar o mercado -, colocando o próprio parceiro em risco.
Curtis Mayfield aproveita a deixa para observar o pobre marginal do ponto de vista de seus familiares. Canta com dor e sentimento: "Eddie, você deveria saber melhor/ Irmão, você sabe que está errado/ Pense nos medos e lágrimas/ Que trouxesse aos teus em casa/ Que dizem: ‘Onde erramos, meu Deus?/ Planejamos e trabalhamos duro/ Desde o começo/ Tentamos fazê-lo o melhor/ Que todo o resto/ Mas ele mostrou-se tão menos...". O timbre da voz sobre o lacrimoso instrumental ao fundo (um blues 5 x 8 com cordas, trombones, intervenções guitarra solo e agudos címbalos) simula a dor com perfeição e é possível sentir o arrependimento e o perdão que Curtis coloca sobre os ombros de quem possa vestir a carapuça.
"Eu conheci muitas pessoas estes anos/ E na minha opinião, vi que as pessoas são as mesmas em todo lugar/ Têm os mesmos medos/ Derramam as mesmas lágrimas/ Morrem depois de alguns anos/ O oprimido sofre mais em todo continente - de costa a costa/ Agora nossas vidas estão nas mãos do traficante/ Vamos romper este ciclo na esperança que você possa entender como se proteger/ Não faça lucro para The Man (novamente o gângster branco)". Conversando com o ouvinte enquanto a introdução de "No Thing On Me" desliza após um piano vertiginoso, Curtis chama a atenção para a sua versão da história. Um balanço suave liderado pela guitarra base e pela bateria e com sutis trompetes e flautas respondendo aos restos dos instrumentos, "No Thing..." é a moral da história proposta pelo autor - a única vez em que ele interfere na história, em vez de apenas editar diferentes trechos da realidade e expor ao ouvinte para que este tire suas conclusões.
"No Thing On Me" celebra as "alturas naturais" (natural high, que poderia ser traduzido como "viagem natural"), um estado de êxtase completo, que não precisa de drogas para completar sua felicidade. "Sou grato por estar na minha/ Feliz por poder ver/ Minha vida está numa altura natural/ Pois The Man não pode pôr nada em mim". Regado por um piano discreto mas onipresente, Curtis lamenta a triste realidade: "É algo tão triste por dentro/ Quando sua altura natural morre/ Os mais fracos viram-se para as drogas/ E deixam suas esperanças de lado", canta com inigualável sentimento, "Grãos que reluzem e brilham/ Podem fazer de tudo/ Enquanto sua mente interior é satisfeita/ Sua consciência é simplesmente dilacerada/ Quanto mais você alimenta/ Mais você precisa/ Brincando de fantasia/ Você não tem realidade". Os sopros e depois um solitário e melancólico saxofone intercalam as frases e o cantor continua, seduzindo pelo ritmo (que agora conta com cordas suspensas), o sermão: "Sente-se e escute/ Deve ser isso que você sente falta/ Eu conheço sua mente, você quer que seja funky/ Mas você não tem que ser junkie". Termina a canção esfregando na cara do ouvinte suas virtudes. Enquanto conduz a banda, ele prova que é o autor de todo o suíngue: "Claro que é funky/ E eu não sou junkie".
"Think", a segunda instrumental, é estrategicamente colocada após a moral da história no disco. Uma canção bucólica e tristonha, ela lembra o astral pensativo das faixas usadas para encerrar filmes e seriados de ação (do Incrível Hulk aos filmes de Charles Bronson). Cantada por um oboé, um sax tenor e uma celeste (uma caixinha de música "tocável"), "Think" nos coloca para pensar em dois momentos distintos: quando encontramos o corpo de Scatter no banco de trás de um carro, morto após uma overdose; e logo após Curtis ter cantado (no disco) que não precisa ter drogas para curtir a vida. A posição da faixa também é acertada por anteceder o principal tema do disco, sua faixa título.
Depois da confusão no final do filme, com alguns tiros, morte e pouco sangue (Superfly se destaca entre os filmes de blaxploitation por fazer pouco uso da violência gráfica, preferindo insinuar ou falar a violência), os créditos finais sobem ao som da explosiva "Superfly". Abrindo com um personalíssimo baixo (usado espertamente pelos Beastie Boys para construir "Eggman", em Paul’s Boutique) e uma bateria firme e segura, ela é uma continuação de "Pusherman". A introdução ainda conta com um time de metais que parece entortar as pernas com a parte de dentro do pé para frente, andando como o estereótipo de cafetão americano anda, de calças boca-de-sino e pernas arqueadas. Curtis aprofunda-se na mente do traficante, tentando entender a natureza deste personagem, na melhor letra do disco:
"No escuro da noite Com a lua clara no céu Uma situação intensa Várias coisas acontecendo O homem desta hora Tem um ar de poder Os outros o invejam há temposOh
Superfly
Você vai fazer sua fortuna (sorte) aos poucos
Mas se perder, sequer pergunte o porquê
O único jogo que você conhece é fazer ou morrer
Ah-ha-haDifícil entender
Que diabos de homem
Esse malandro da favela
Pensa, não é burro
Mas uma fraqueza apareceu
Porque sua movimentação estava errada
Dono de si mesmo
Mas vivia sóO jogo que ele joga é para sempre
Tempos duros e ruas do gueto
Tentando superar
(É só isso que ele quer, pessoal)
Pegando o que pode pegar
Apostando com as dificuldades do destino
Tentando superar
Oh, SuperflyO alvo de sua missão
Era causar confusão
Mas em seus sonhos
O que quer dizer?
Ele não saberia dizer
"Não poderia ser como todo resto?"
o máximo que ele irá confessar
Mas o tempo está acabando
E não existe felicidadeSuperfly
Tentando superar"
Depois de passar por todos os maus pedaços do disco, Curtis finalmente compreende o porquê da maldade de um personagem que parece, no fundo, ser bom. Ele está apenas descontando na vida o que a vida lhe deu, fazendo-se de durão para mostrar-se maior que ela, mas no fundo ele sabe que não é verdade. A vida inteira na bandidagem de baixo calibre não paga aposentadoria de ninguém e ele tenta uma hora ou outra escapar do que lhe persegue: patrões, polícia, sociedade, drogas, crimes, prostituição, violência, crianças e jovens morrendo, pobreza, miséria - a felicidade nestas condições não existe e ser "bad machine", "super cool", "super mal" é o único escudo que estas pessoas encontram; uma fantasia de felicidade alimentada pelo desespero. Então vive motivado a ultrapassar aquela fase, tentando superar a própria realidade de um jeito ou de outro.
Lançado como um single após o lançamento do disco (chegando ao mesmo milhão de cópias que "Freddie’s Dead"), "Superfly" sintetizava as melhores características do disco: de um lado era pregação antidrogas, do outro a tiração de onda do gueto - sobre um sinuoso e gordo funk. Equilibrando-se entre um e outro, Curtis mostra mais uma vez os fatos, deixando o espectador e o ouvinte entender sozinho. Quando a tela do filme escurece, a canção faz com que todos saiam do cinema com a mesma sensação, que o bandido não é o vilão da história (este é o Homem, quem faz as grandes transações e vê a cor do dinheiro em sua mansão em Beverly Hills) e que é preciso comprar a trilha sonora deste filme com urgência. Curtis Mayfield dá ao filme de Gordon Parks Jr. a alma que sua direção (por vezes grotesca) não consegue dar.
Superfly foi lançado em CD em duas versões: a primeira, da gravadora Rhino é melhor e traz um segundo disco com versões alternativas para cada uma das canções, além de propagandas para rádio da trilha e do filme e uma entrevista com o autor. A outra versão, da gravadora Sequel, conta com outra trilha sonora (também boa), do filme de prisão Short Eyes. Depois de Superfly, Curtis Mayfield dominou o funk como um de seus principais líderes (em clássicos como Back to the World, Let’s Do It Again, Give Get Take and Have), mas perdeu espaço à medida que a disco music suplantou seu gênero. Seu último flerte com as paradas aconteceu no começo dos anos 80, com os discos Love is The Place e Honesty, voltados mais para baladas - já que o rap tomava o lugar do funk. O gênero mais tarde iria reverenciá-lo, com as trilhas sonoras dos filmes I’m Gonna Git You Sucka - quando gravou com o Fishbone - e The Return of the Superfly - onde trabalhou com Ice T.
Mas o que poderia ser o reencontro de Curtis com o sucesso, trombou com o destino quando um poste de iluminação o acertou na cabeça em um show no Brooklin, no dia 13 de agosto (data maldita!) de 1990. O acidente o deixou tetraplégico, o que fez com que a indústria do disco voltasse-se para ele e reverenciasse sua obra. Mesmo sem mexer o corpo do pescoço para baixo, Curtis ainda gravou New World Order, em 1996, com as participações de Aretha Franklin e Gladys Knight. No disco, Curtis fazia o elo de ligação do R&B e do gangsta rap (os gêneros negros predominantes nos anos 90) com sua própria música, atualizando-se para criar mais. Mas a tristeza por sua invalidez o fez entrar em depressão várias vezes, causando internações urgentes em prontos-socorros de hospitais. Sua família recusava-se a dizer o que acontecia, mas o que todos comentavam é que a depressão fez com que Curtis desenvolvesse câncer de próstata e o tratamento lhe abatia ainda mais. Cedeu à doença no final de 1999, no dia 26 de dezembro.
Em agosto sai um CD triplo em homenagem aos 40 anos do primeiro disco do Pink Floyd. Quem me disse foi o Guilherme.
Mais um colapso nervoso, trancado dentro do carro, propenso a errar, cover de Beach Boys, dureza, a bagunça de alguém, a nostalgia, estraçalhado pelo engarrafamento, cenário morto, o patrão, clima inglês, era disso que ele tava falando, se liga, me perdoa, eu sou o sol, em frente.
- “Darling” - The Paper Dolls
- “Canoa” - Mini
- “Temptation” - Cure
- “O Dia em que o Sol Declarou seu Amor pela Terra” - Jorge Ben
- “Stuck Inside of Mobile with Memphis Blues Again” - Bob Dylan
- “Moscow 1980″ - Javelin vs. Polytron vs. Kompleksi
- “What Deaner was Talkin’ About” - Ween
- “19th Nervous Breakdown” - Rolling Stones
- “Night Vision” - Super Furry Animals
- “Dead Scene” - Sunshine Underground
- “Pogo (Radio Edit)” - Digitalism
- “Some Fool’s Mess” - Gallon Drunk
- “Backsliders” - Jon Spencer Blues Explosion
- “Freak Rock” - 2Many DJs
- “Rattled by the Rush” - Pavement
- “O Patrão Nosso de Cada Dia” - Secos e Molhados
- “Vegetable Man” - Pink Floyd
- “It’s So Hard” - John Lennon
(Fotos tagueadas + ambiente social) x interface inteligente = Photosynth
Nessa de mashup, achei um que misturava "I Just Called to Say I Love You" com Alec Baldwin (?). Também estranhei e fui ouvir era o cara dando um esporro bizarro na própria filha (!), há mais de um mês, que a Kim Bassinger (também não vale nada...) desovou pra geral conhecer o outro lado do sujeito. Hilário e grotesco ao mesmo tempo...
...tá folgando ou vai trabalhar? Abre essa janela...
Dá pra baixar aqui.
Vi nos Fatos Fidedignos, renascido.

Monsieur Kalatalô manda notícias de Paris: foi no show de lançamento do disco do Justice na Collete, deu umas bandas com o Busy P, tomou um café com o Nicolas Godin e sua senhôura, deu um rolê de Monza com os Teenagers e saiu com o casal Johnny Depp e Vanessa Paradis pra uma festinha na casa da Charlotte Gainsbourg. Nos intervalos, white-labels passados por baixo da mesa, CD-Rs com remixes feitos na noite anterior, login e senha de FTPs cheios de MP3s de discos que ainda nem saíram - alguns sequer vão sair. O segredo é a palavra-chave "Gente Bonita", que tem aberto cada vez mais portas à medida em que a sensação se espalha pelo Brasil e pelo mundo.
Enquanto isso, a festa segue em São Paulo com a presença inescapável do Dorival Caymmi de Paracamby no lugar de um dos DJs candangos. Fred Leal divide os CDJs com Alexandre Matias e os dois invadem o aniversário de três celebridades noturnas - Michele, Flávia e Tiago dispensam apresentações - pra espalhar aquele groove e manha perfeitos pra quem quer se dar bem em grande estilo numa véspera de feriado. A pista chacoalhada é a do Berlin, que pela primeira vez recebe uma invasão Gente Bonita e como o aniversário é alheio, não tem desconto pra ninguém: é dez reais de entrada, mas o que são dez reais perto de uma manhã de bons sonhos após uma inesquecível acabação-feliz?
A gente se vê lá.
Gente Bonita @ Berlin
E por incrível que pareça ainda um novo preview da temporada Outono/Inverno 2007 de hits
Nos CDJs: Gente Bonita Clima de Paquera Redux (Luciano Kalatalo Fred Leal e Alexandre Matias)
Quarta-feira, dia 6 de junho de 2007
22h
Local: Berlin. Rua Cônego Vicente Miguel Marino, 85. Barra Funda.
Telefone: (11) 3392-4594
Preço: R$ 10 (e infelizmente dessa vez não tem desconto! :S)
Chacoalhaê!
- "Eggy Thump" - Arty Fufkin
- "Hustler" - Simian Mobile Disco
- "Young Thongs" - The Prairie Cartel
- "Robot Disco" - Capsule
- "Ladies Room (Woodhead and Hebegebe Edit)" - Klymaxx
- "DVNO" - Justice
- "Ice Cream" - New York Pony Club
- "Brain Leech (Bugged Mind Remix)" - Alex Gopher
- "The Gossip Around the World Again" - Gossip vs. Dangerous Dan and Nicky Van She
- "Sexy Daft" - JT vs. Daft Punk
- "Office Boy (Shir Khan Remix)" - Bonde do Rolê
- "Lanchinho da Madrugad" - Bonde dos Magrinhos
- "Gravity's Beat" - Dunproofin'
- "Pretend We're Alala" - CSS vs. L7
- "Dude You Feel Electrical" - Shout Out Out Out Out
Dá uma sacada nesse do 10000 Spoons.
Eles vem aí, eles estão chegando, eles chegaram. Quem deu a dica foi o Ramiro, que prepara um programa do Radiola especial sobre o disco novo de um de nossos grupos favoritos - mas enquanto o novo não vem, ele aponta pra um outro, também classe A.
"Estes senhores são responsáveis por algumas das maiores bombas que têm arrebentado numa pista de dança perto de si, num “cocktail” explosivo que mistura House, Techno, Electro, Hip-Hop, Rock e outras coisas. Se quisermos entrar numa linguagem mais leiga, poder-se-á dizer que estes senhores produzem uma espécie de Electro-House mais musculado, mais corrosivo, mais “rockeiro”, com alguma distorção á mistura, mas, mesmo assim, acaba por ser redutor descrever o trabalho deles assim desta forma"
Palavras do Altar Boy, forwardeado pela Flávia, que aproveita pra definir esse novo electro-house-techno-rock como "maximalismo", que é uma vibe completamente Gente Bonita, você sabe. Se não acha, se liga nesse set dos 2Many DJs ao lado dos DJs da Ed Banger... e chora.
Dodô esteve na Gente Bonita, viu com seus próprios olhos e conta como foi...
A gente faz festa pra gente dançar, né? Para gente se divertir, né?E a gente dança e se diverte quando a música é dançante e divertida, né? Timbaland é dançante e divertido, né? Jorge Ben é dançante e divertido, né? Polytechnic é dançante e divertido, né? Bullet Proof é dançante e divertido, né? Led Zeppelin é dançante e divertido, né? Né? Né? Né?
É Óbvio, né?
Então porque as pessoas têm que, para dançar e se divertir ao som de Timbaland, Jorge Ben, Polytechnic , Bullet Proof e Led Zeppelin em lugares como São Paulo, Londres, Paris, Tokyo e Nova Iorque tem que ir ao clube de hip-hop pra ouvir o Timbaland, ao clube de música brazuca pra ouvir Jorge Ben, ao clubinho indie pra ouvir ao Polytechnic, a uma balada Psy-Trance pra sacudir ao som do Bullet Proof ou para um clube de mecânicos de Harley-Davisons para curtir o Led Zeppelin?
E se dá vontade de um Stevie Wonder? Uma pilha de Nação Zumbi? Uma saudade de The Cure? O que a gente faz? Passa 15 minutos em cada clube numa noite? Gasta essa grana toda?
Porque quanto mais cosmopolita a cidade, mais provincianos são seus hábitos de diversão? Porque isso de não poder Psy-trance com indie, Jorge Ben com Led Zeppelin? Se é óbvio que isso tudo é dançante, divertido e você sai a noite pra... dançar e se divertir?
Porque o cosmopolitismo é uma guerra. De um lado, estímulos midiáticos pra se comportar assim. Do outro, semioticidades dizendo que o bacana é se comportar assado. Perdido, feito cego no tiroteio, está o nosso pobre Private Óbvio.
Sábado desses fui do RJ que, por causa do mar, é provinciano e por isso com hábitos de diversão cosmopolitas, onde o mais fácil é você encontrar festas que tocam de PJ Harvey a Nina Simone, até São Paulo, zona de guerra, ver como o Matias, Alexandre Matias, que dispensaria ser linkado aqui se apenas paulistanos estivessem lendo este post, estava se saindo com essa missão: O Resgate do Soldado Óbvio.
A São Paulo para o 1o evento de Lançamento de livro - o DJ Pessoal - e tocar em...
Sua festa, Gente Bonita em Clima de Paquera, atraíu, de ínicio, patricinhas de verdade. Elas estavam atrás de Gente Bonita e do Clima de Paquera. Algumas, assustadas com o despojamento do clube e dos frequentadores da festa como ela de fato é, nunca mais voltaram. Outras, seduzidas pelo canto da sereia, tornaram-se habitués.
O Canto da Sereia, o grito de "James Ryan! James Ryan!" do Matias são os mashups. Cristina Aguilera cantando sobre base de Sonic Youth. Britney Spears sobre a base dos Beastie Boys. Remix do Maximo Park. Tudo misturado.
Tudo misturado.
Toquei a primeira hora: Jackson 5, Pixies, Justin Timberlake e Artic Monkeys. E pela primeira vez vi em São Paulo, na pista, pessoas peladas. Nada de roupa de indie, nada de roupa de mano, nada de roupa de patricinha. Todo mundo nu. Procurando diversão e dança. O óbvio estava lá, seguro. E a fila dobrava o quarteirão.
Duas da manhã pedi um drink que era um mashup de Screwdriver com Frozen Margarita. Nessa hora, na pista, estava todo mundo, misturado, dançando um drink, uma batida de Nelly Furtado com Michael Jackson e, se não me engano, uma dose de Amarulla.
No banheiro unissex, um mashup de homens e mulheres.
Um grupo de pernambucanos massa comemorava o aniversário de uma amiga querida. Diversão: o óbvio. O técnico de som paulistano se oferecia pra ajudar com a desinstalação do meu computador. Profissionalismo: o óbvio. Matias, natural de Brasilia, perguntava se eu estou bem, à vontade, coisa e tal. Educação: o óbvio. Eu respondia em carioquês. Mashup de sotaques. Em São Paulo, o óbvio do óbvio.
O Mashup é uma arma para a guerra paulistana. E hoje, finalmente influenciadas pela linha editorial do Gente Bonita, são vários os DJs e clubes pela cidade que se juntaram à causa. Morte aos cães infiés que esqueceram o soldado Óbvio no meio do fogo cercado do faça isso e nunca fique pelado, mantenha a distância daquilo e vista um cachecol. Ao tentar acabar com uma atitude de comportamento paulistano, Matias e compania criaram algo ainda mais paulistano. Talvez a coisa mais paulistana que eu tenha visto desde os anos 00.
Este texto é um mashup. Vocês, claro, notaram. Óbvio. Por causa do mar. À vontade, coisa e tal. Imaginem quando os DJs começarem a fazer mashup de Caetano com M - Kraft, de Clementina com Bjork? No banheiro unissex, sotaques, clima de paquera, uma pilha de Nação Zumbi, uma saudade de The Cure, e hoje, finalmente, dançando Marguerita. Nu, carioquês e de cachecol. "Nina!", "Nina!", seduzida pelo canto
Se você pede um drink novo e nota que ela
Fogo
Música
Noite
pra... dançar e se divertir? Ao tentar acabar
Notaram.

Luciano Kalatalo partiu em árdua missão rumo ao verão parisiense capturar boas vibrações e trazer novidades para a próxima coleção Outono/Inverno Gente Bonita de hits, que estréia ainda este mês. Mesmo desfalcado de um de seus integrantes, a festa Gente Bonita Clima de Paquera não pode parar - e para suprir a lacuna (no bom sentido) deixada momentaneamente, acionamos a querida pernambucana Dani Arrais, aquela mesma que fez neo-alternativos, gostosas da FAAP e gente normal berrar "Like a Prayer" naquela noite histórica no Bar Treze (quando tinha gente até dependurada no lustre!). O ataque desta vez acontece em sacrossanto templo rocker: a festa do Garagem, da dupla Paulão e André Barcinski, que além de nos convidar pra instaurar o inevitável ferormônio sonoro na naite ainda chamou o vigilante Tiago Carandina e o Hateen Fabrício Martinelli pra abarrotar a cabine do DJ. E como sempre temos esquema, o lance é você escrever seu nominho no www.gentebonita.org que concorre a vááááários (sério, vários) pares de ingressos na faixa prum sabadão de uma semana de tirar o fôlego (afinal, teve Four Tet na terça, Bellrays na quinta e Mudhoney na sexta - nada mal). Colocando o nome, é quase certeza que cê tá dentro - mas eu aviso antes das 20h do próprio sábado. E chega cedo que é a gente que abre a noite!
Gente Bonita Clima de Paquera @ Festa do Garagem
E - acreditem - é mais um preview da temporada Outono/Inverno de Hits!
DJ residentes: André Barcinski e Paulão
CDJs convidados: Gente Bonita Clima de Paquera Redux (Luciano Kalatalo Dani Arrais & Alexandre Matias), Fabrício Martinelli e Tiago Carandina
Sábado, dia 2 de junho de 2007
23h
Local: Clash Club - Rua Barra Funda, 969.
Telefone: (11) 3661-1550
Preço: R$ 15 (sem nome na lista) e R$ (com nome na lista - via www.clashclub.com.br). Mas se você se cadastrar no www.gentebonita.org corre SÉRIO risco de entrar sem ter que botar a mão no bolso...

Waking Life – O Despertar da Vida (Waking Life, 2001, EUA). Dir: Richard Linklater. Elenco: Wiley Wiggins. 99 min. Por que ver: Linklater resume sua filmografia em um filme cabeça sobre o sentido da vida e a relação entre sonhos e a vida desperta – tradução apropriada para seu título. O jovem diretor trabalha entre filmes sérios sobre a sensação de estar vivo (a dobradinha Antes do Amanhecer/Antes do Por-do-Sol, sua obra-prima até então) e comédias adolescentes sobre a mesma sensação (Escola do Rock, Jovens Loucos e Rebeldes) e já havia encontrado um equilíbrio entre as duas metades em seu primeiro filme, o cult Slacker (1991). Mas em Waking Life ele vai além e encontra um jovem preso em um sonho em que todas as pessoas conversam entre si ou com ele sobre o sentido da vida, as relações entre as pessoas e a natureza da realidade. Cada diálogo ou monólogo tem o traço de animadores diferentes, uma vez em que foi usada a técnica da rotoscopia – desenhar sobre imagens pré-existentes – como estética do filme. Os atores estiveram lá e foram filmados em mini-DV por Linklater, mas ganham cores, traços e deformações típicas de desenhos animados feitos em um software caseiro, o propositalmente tosco Rotoshop. Fique atento: Além da sensação alucinógena causada pelo movimento e pelas cores do desenho, todo o texto do filme contribui para sua conclusão final – não é o que está acontecendo que importa, mas como. Não é o destino, mas a viagem.

Videodrome – A Síndrome do Vídeo (Videodrome, 1983, EUA). Dir: David Cronenberg. Elenco: James Woods, Deborah Harry. 89 min. Por que ver: Cronenberg não está para brincadeiras – e seu Mágico de Oz (adulto, gore e pessoal) inverte os papéis entre o Mágico e Dorothy. Max Renn (Woods, eficaz como qualquer alter-ego do diretor), player no novo nicho de mídia americano, a TV a cabo, teoricamente está no controle da situação, até que ele começa a captar intervenções de um programa pirata que aos poucos vão mexendo com sua mente. Videodrome é um programa de TV idealizado por um personagem chamado professor Brian O’Blivion, que só comparece a eventos através de sua imagem filmada. Envolvendo sexo, morte e violência, o programa começa a absorver Max de uma forma que ele perde a noção entre realidade e transmissão numa metáfora perfeita para a mídia de massa – e ainda mais eficaz nesta época de comunicação em tempo-real e vida virtual. Assim, Renn passa de manipulador de marionetes a manipulado – e é difícil saber quem está no comando. Fique atento: “Longa Vida à Nova Carne” é o slogan de um movimento de resistência midiático que surge à medida em que os grandes espetáculos visuais do filme começa – sexo oral via TV, o homem-videocassete… Surrealismo e tripas, sexo e máquinas – Cronenberg sempre pega na veia.

Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960. EUA). Diretor: Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, F red MacMurray. 125 min. Oscar de melhor filme, diretor, direção de arte, roteiro original e edição. Globo de Ouro de melhor ator e atriz e melhor filme de comédia. Por que ver: Um dos principais observadores do way-of-life americano durante o século vinte, o polonês Billy Wilder também foi um de seus comentaristas mais ácidos. Aqui, ele invade a rotina de uma aparentemente pacata e eficiente companhia de seguros para desvendar uma trama de mentiras, favores e silêncios. C.C. Baxter (Lemmon, genial) é um funcionário sem brilho numa empresa mediana, que passa a crescer na hierarquia dos negócios à medida em que cede seu apartamento para seus superiores encontrarem-se com seus affairs extraconjugais, quase todas suas subordinadas no trabalho. Quando se vê com a possibilidade de levar sua própria vida amorosa com uma de suas colegas de firma (Fran Kubellik, Shirley MacLaine em um de seus melhores papéis), tem de equilibrar a rotina de entra-e-sai com as mentiras do escritório. Disfarçado de comédia de situação, Se Me Apartamento Falasse é uma crítica dura à fachada limpa e aos bastidores sujos da sociedade americana, algo como se Michael Moore e Seinfeld pudessem existir nos anos 50, com a sutileza e elegância de um James Stewart. Fique atento: A química entre Wilder, Lemmon e MacLaine é nitroglicerina pura e alterna momentos hilários e emotivos em um piscar de olhos – tanto que o trio repetiria a dose com sucesso três anos mais tarde, com o hilário e cínico Irma La Douce. E a direção de arte – cenários, figurino, decoração – transforma o escritório em um palco industrial.

Robocop – O Policial do Futuro (Robocop, 1987, EUA). Dir: Paul Verhoeven. Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Kurkwood Smith. 102 min. Por que ver: Parece um típico filme de ação dos anos 80, mas é muito mais do que apenas isso – apesar de não desapontar (longe disso) quem gosta de filme de ação. É o segundo filme feito nos EUA pelo diretor holandês Verhoeven, que entendeu a fórmula blockbuster e passou a usá-la como contra-ironia para cima dos americanos a partir deste Robocop. A premissa é simples e eficaz: um policial pai de família é assassinado por traficantes de drogas e seus restos mortais são usados como base para um novo projeto de sua corporação, o meganha ciborgue que batiza o filme. Por trás de uma equação óbvia (inserir o elemento robô no tema guerra de gangues, recorrente nos anos 80), há um subtexto bem menos simplista que é a crítica à política neoliberal de Ronald Reagan – o projeto Robocop é apresentado pela multinacional OCP, que comprou a polícia privatizada de Detroit e pretende transformar o centro da cidade em uma terra de ninguém, para depois reconstruí-lo como uma nova metrópole, o condomínio fechado em escala macro. O diretor iria além em sua crítica ao capitalismo americano em filmes como O Vingador do Futuro, Tropas Estelares, Instinto Selvagem e, em última instância, a bomba Showgirls. Fique atento: O humor cínico de Verhoeven rouba dos quadrinhos de Frank Miller a idéia do narrador da história ser um telejornal, que intercala notícias de um futuro bizarro com (ótimos) comerciais de produtos do futuro ainda mais improváveis. É ele quem dá o tom do filme – observando-o como linha-mestra faz com que sua ironia se sobressaia e toda a história ganhe um aspecto de caricatura. Tudo é motivo de riso involuntário, sublinha o diretor.

O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch, 1955, EUA). Dir: Billy Wilder. Marilyn Monroe, Tom Ewell. 105 min. Por que ver: Marilyn Monroe. É pouco? Marilyn Monroe, Marilyn Monroe, Marilyn Monroe. Quer mais? Pode-se listar o nome da atriz por toda a extensão deste guia que não se quer se chega perto da presença perfeita que é a aparição loira de Ms. Monroe neste épico dedicado à sua beleza. O título original (a coceira dos sete anos) faz referência ao tempo em que o homem consegue ser fiel no casamento e Wilder coloca qualquer espectador deste filme – criança, idoso, homem, mulher – no papel de Richard Sherman (Ewell, o ator mais sortudo do mundo), um respeitado marido que vê a mulher sair em férias ao mesmo tempo em que uma estonteante modelo muda-se para o apartamento em cima ao seu. Ao sermos apresentado à personagem – cujo nome resume-se à “The Girl” (“A Garota” – ênfase no artigo definido e no substantivo feminino) – entendemos perfeitamente suas dúvida, seu desalento, seu desespero e sua disposição. E assim o diretor destrói a instituição chamada casamento ao fazer qualquer ser que move-se na superfície do planeta estancar-se de emoção à imagem simples e icônica de Marilyn, de branco, tendo o vestido suspenso pelo ar quente do metrô. Não são apenas suas pernas e risinhos – é a mulher, a garota, plena em nossa frente. Fique atento: Nem preciso dizer para não tirar os olhos de Marilyn (psiu, presta atenção!), mas vale registrar a presença de outro personagem crucial para o filme: o calor do verão, cujo peso no ar faz a consciência de Sherman derreter e a libido da garota estourar o termômetro.

Mistérios e Paixões (Naked Lunch, 1991, EUA). Dir: David Cronenberg. Elenco: Peter Weller, Judy Davis, Ian Holm. 115 min. Por que ver: Da literatura beat, William Burroughs é certamente o nome mais difícil para se trazer à tela, mas ironicamente Mistérios e Paixões (título em português idiota para uma obra que já existe no Brasil há décadas, O Almoço Nu) é a melhor representação da alma beat no cinema, entre cinebiografias, documentários e adaptações livres. Não é o caso desta, que embora pouco fiel à obra em si, é obcecada não só pela natureza doentia do livro como de toda obra e do personagem – um mundo aparte em que heroína, insetos, homossexualismo e espingardas. Reconta a história de Burroughs – do assassinato de sua mulher ao exílio no Norte da África – e a mistura com elementos de sua literatura. Genial. Fique atento: Não bastassem as alucinações grotescas que habitam a ficção de Burroughs ganharem forma, sentido e textura (um ânus falante, uma máquina de escrever insectóide), é a atuação quase asséptica de Weller (o Robocop), que transforma o escritor beat de um personagem asqueroso e bizarro a um espelho para cada espectador.

Lolita (Lolita, 1962, Inglaterra/EUA). Dir: Stanley Kubrick. Elenco: James Mason, Shelley Winters, Sue Lyon, Peter Sellers. 152 min. P&B. Por que ver: Nenhuma adaptação de livro feita por Kubrick é fiel ao original e esta é a graça – embora Lolita seja a peça que mais se aproxime da obra original. Mas com Kubrick, Humbert Humbert (Mason) é uma alma penada num corpo de um adulto, assombrada pelo fantasma do próprio desejo, o pequeno demônio de 14 anos que batiza o filme e o livro de Nabokov. É ela quem o faz decidir alugar um quarto em uma casa de família, ao assistir à pequena filha da proprietária chupar um pirulito enquanto toma banho de sol no quintal – numa cena atordoante de tão bela. A partir daí, o protagonista embala numa espiral de instinto puro, que torna-se desespero crescente fundado sobre a culpa. Tempere isso com uma Shelley Winters fenomenal e um Peter Sellers arrogante e preciso, em um de seus grandes – e subestimados – papéis. Fique atento: A fotografia em preto e branco torna o tema mais denso e sério a cada passagem – e o elenco, afiadíssimo, gira em torno de Sue Lyon, a alma, o coração e a força sexual do filme. Não é pouco, para uma atriz de apenas treze anos.

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971, EUA). Dir: Stanley Kubrick. Elenco: Malcolm McDowell. 136 min. Por que ver: O grande filme de um ator feito por Kubrick, embora O Iluminado e Dr. Fantástico corram logo atrás, Laranja Mecânica é o espetáculo de um homem só – e este homem é a metamorfose da cabeça do diretor com a imagem de Malcolm McDowell. O ator ficou eternizado pelo personagem, mas a culpa é toda sua – as caretas, os trejeitos, a fala e o olhar são uma aula de atuação no cinema e estão para Hollywood como toda a carreira de Mick Jagger para a história da música gravada. Laranja Mecânica é puro Rolling Stones – tanto que o empresário da banda nos anos 60 comprou os direitos de filmagem do livro original de Anthony Burguess, revendido para Kubrick e que McDowell não se esforça um milímetro ao ridicularizar Jagger anos mais tarde na comédia Get Crazy. Em Laranja, Kubrick reforça mais do que nunca o papel da violência na sociedade atual e na evolução do ser humano, dividindo a obra em duas óperas – a violência do indivíduo, quando Alex (McDowell) e sua gangue apavoram o cotidiano de uma Inglaterra uma década e tantos anos no futuro e a violência do estado, quando Alex é aprisionado e submetido ao tratamento Ludovico para cura-lo de seus desvios delinqüentes. E é palco solto para McDowell visitar todo o espectro de emoções humanas, amparado pelos delírios visuais de Kubrick, compenetrado e irônico como um Dali. Fique atento: Ao casamento Kubrick-McDowell, combustão de emoções e imagens: ele estupra como se valsasse, aleija citando Gene Kelly, chicoteia Jesus Cristo, pede perdão para a mídia, vomita em frente a uma mulher nua, é torturado por policiais. Mas nenhuma dessas imagens evoca o clichê das palavras e se você viu o filme, elas nunca mais são as mesmas.

O Iluminado (The Shining, 1980, EUA/Inglaterra). Dir: Stanley Kubrick. Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers. 146 min. Por que ver: Terror, suspense, horror, thriller… Kubrick nunca quis se ater a rótulos cinematográficos, mas entrou neste jogo chamado O Iluminado para não precisar emitir mais uma palavra ou captar nenhuma imagem a respeito do tema medo. Ele embarca numa viagem aparentemente familiar que leva um escritor (Jack Nicholson em seu melhor momento) a se isolar do mundo exterior ao servir de caseiro de um hotel luxuoso nas montanhas, fechado durante o inverno. Com sua mulher (Duvall, irrepreensível e a melhor scream queen de todas!) e filho (Lloyd, a criança mais assustadora do cinema – sem precisar revirar os olhos, vomitar ou esbanjar candura), passa a se envolver com a solidão de um pequeno castelo abandonado, que esconde histórias terríveis, capaz de trazer à tona fantasmas do passado e demônios interiores. Aí está o horror kubrickeano – são espíritos, mortos-vivos, serial killers, possessões, psicopatas, banho de sangue. Todos os clichês da história do medo no cinema embalados em uma bad trip criativa, que inverte todos os sentimentos naturais do homem: o filho é um mau presságio, a esposa é uma vítima e você mesmo é o assassino. Fique atento: Já falei mais de uma vez do show de imagens icônicas que é qualquer filme de Kubrick (“Redrum” lido pelo menino Danny no espelho, um rio de sangue, os travellings num triciclo, “Heeeere’s Johnny!”, o texto na máquina de escrever, espasmos de sensitividade, um labirinto na neve), mas vale ficar de olho na série de elementos indígenas durante O Iluminado. Descoberto pelo crítico Bill Blakemore, do San Francisco Chronicle, há um subtexto do filme que transforma a saga de Jack Torrance em uma parábola sobre o massacre da população nativa dos EUA, os povos indígenas. Além de detalhes que se tornam explícitos, como o fato de o hotel ter sido construído sobre um cemitério indígena (“Eles tiveram que lutar contra tribos enquanto o construíam”, explica o gerente que contrata Jack), a decoração do hotel e as duas cenas na despensa exporem latas de fumo indígena (com a cabeça de um cacique em evidência), o baile-fantasma acontece num quatro de julho e o pôster do filme, lançado antes na Inglaterra e depois nos EUA, trazia a frase “A onda de terror que arrasou a América” – sendo que o filme ainda não havia sido lançado lá! Mais que coincidência, esta nova leitura de O Iluminado dá novo sentido a diversas passagens, boa parte delas inexistentes no livro original de Stephen King.

É isso aí: olha os caras no meio do pai e filho que tomam conta da nova casa. A info é do Thiago mas quem se aprofunda mais no assunto é o Bruno.
Daquele mesmo grupo que não se separou. E daquela mesma dupla que vai se separar, você sabe.

A revista Rolling Stone diz: escreva sua própria resenha de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Falando nisso, os Beatles estrearam um novo site oficial sobre o disco, mas tomara que ele cresça aos poucos, porque tem muito pouca coisa... Até a página da Wikipedia ou uns sites de fã têm mais info...