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maio 31, 2007

Vida Fodona #085: 40 anos de Sgt. Pepper's

...they've been going in and out of style, but they guaranteed to raise a smile.

- "Sgt. Pepper's Paradise" - Jimmi James
- "With a Little Help from My Friends" - Joe Cocker
- "Você Ainda Pode Sonhar" - Raulzito & Os Panteras
- "Lucy in the Sky with Diamonds" - Elton John
- "Getting Better" - Gomez
- "Fixing a Hole" - Beatles
- "Fixing a Hole" - Big Daddy
- "She's Leaving Home" - Brian Ferry
- "Being For the Benefit of Mr. Kite/ I Want You (She's So Heavy)/ Helter Skelter" - Beatles
- "Within You Without You" - Patti Smith
- "Within You Without You" - Sonic Youth
- "When I'm Sixty Four" - Crazy Baldhead (feat. Vic Ruggiero)
- "Lovely NYC" - DJ BC
- "Lovely Rita" - Beatles
- "Good Morning Good Morning (Demo)" - John Lennon
- "Good Morning Good Morning" - Big Daddy
- "Concrete Pepper" - 2ManyDJs
- "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Take 5)" - Beatles
- "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" - Jimi Hendrix Experience
- "A Day in the Life" - The Fall
- "A Day in the Life" - Big Daddy
- "A Day in the Life" - Captain
- "A Day in the Life (Takes 1, 2 & 6)" - Beatles
- "A Day in the Life" - Beatles

I'd love to turn you on.

Nova Realidade

Entre o Edu K, os Klaxons e a função do hype

Foto: Debora Pill
eduk_newrave.jpg

Você conhece esse sujeito da foto acima. Por baixo desse capuz, dessas cores fluorescentes, dessa pose poseur está ninguém menos que Edu K. Sim, o maior picareta do entretenimento brasileiro para uns, o único rockstar brasileiro de verdade na opinião de outros, o (ex-?)líder do DeFalla é new rave.

Não que isso seja um choque. Todo mundo sabe da ágil velocidade do sujeito em adaptar-se em cenários estranhamente novos, seja o death metal, o funk carioca ou o grindcore, e fazer isso soar coerente com a “proposta” autoral do sujeito. Um mashup de Maria-vai-com-as-outras com o projeto-objeto de Frank Zappa com tendência a cutucar aquela maçaroca sonora que o lado B do rock gaúcho (os não-jovenguardistas) tanto pisoteia feliz. New rave, neste sentido, é total Edu K. Barulhento, rápido, grosseiro, espalhafatoso, baseado no ritmo, moleque e festeiro, falando palavrão, punk rock e nü-metal, a dois passos do trance (aliás, uma seara inexplorada pelo velho Edu, que provavelmente desconhece o tamanho da brincadeira - senão, já era, presumo). E isso porque há menos de seis meses ele posava de principal DJ de funk carioca de Nova York ou posava para fotos em camelôs japoneses vendendo seu CD na rua. É claro, há também o elemento Malcolm McLaren nessa fórmula, afinal, Edu K é o empresário de si mesmo. Isso certamente explica o fato do DeFalla nunca ter saído do nosso querido underground.

E lá estava o cara, no palquinho minúsculo do Cabaret do Beco em Porto Alegre tocando hits Jovem Pan do final dos anos 80 gravados em 33 1/3 rotações por minuto mas que soam como se tocados a 45 RPM. Ou 78, 144, 212 - e os números crescem junto com pitch. Recheie essa farofada insuportável com a maior quantidade de sirenes jamais ouvida na história daquela casa noturna e com samples vocais que remetem a alguma música de algum dos primeiros discos do Prodigy. O público, que dançava feliz uma discotecagem gentebonita a cargo de um DJ de óculos (não fui perguntar o nome, mas já já eu descubro), teve dificuldades em entrar no ritmo de um set que ficava entre a caricatura e uma homenagem que parecia feita em desenho animado. E Edu K nem aí, urrando e saudando todo mundo como se estivesse fechando uma noite no palco principal do Coachella - aquela saudável atitude foda-se que é rotina em sua carreira.

Tudo isso pra falar da tal new rave, mais especificamente dos Klaxons e ainda mais especificamente da função do hype hoje em dia. Primeiro a new rave, um gênero que musicalmente não existia até que alguém inventou o rótulo (um dos Klaxons) e outros começaram a conectar pontos e artistas diferentes tentando achar alguma semelhança ou coincidência entre eles. Aí entra aquele balaio todo que eu citei sobre a discotecagem do Edu K - sirenes, poperô, neon, molecagem - e, pouco a pouco o "gênero" foi tomando forma. É um processo semelhante ao que aconteceu com outros rótulos que, com o tempo, ganharam o status de gênero. Mod, new wave, acid house, grunge e britpop são apenas alguns exemplos de termos criados para definir alguma banda ou tribo que, num segundo momento, passou a designar um tipo de som. Hoje, bem ou mal, new rave já pode ser considerado um gênero musical. Isso não quer dizer que seja bom ou ruim - quem diz é o freguês -, mas que é possível ouvir algo e dizer se é ou não new rave. E o rótulo não tem nada a ver com o gênero - new rave tem tanto a ver com rave quanto nü-metal tem a ver com metal ou emocore tem a ver com hardcore.

Nessa seara, os Klaxons surgem como "a" banda new rave. Juro que eu tento gostar, mas não desce. Por enquanto, só o remix Soulwax pra "Gravity's Rainbow" me bateu, o resto continua como bela tentativa - mais tentativa do que bela. Mas juro que sigo tentando gostar, porque as referências que o grupo cita - "Gravity's Rainbow" é o título original do Arco-Íris da Gravidade, magnus opus do Thomas Pynchon, "From Atlantis to Interzone" se refere tanto a Robert Anton Wilson quanto ao Burroughs e o fato de eles se se autodenominarem "os quatro cavaleiros de 2012" (ou você não sabe o que vai acontecer no dia 21 de dezembro de 2012?) me causa uma estranha sensação de que eles podem virar uma espécie de Clash do século 21 (ou vocês acham que o Clash do primeiro disco dá alguma dica que um dia faria o London Calling?).

O que nos leva à função do hype. "Hype", terminho que aprendemos pouco depois do grunge, é a versão gringa pra termos em português como "buxixo" ou "zunzunzum". É aquilo que todo mundo tá falando, o assunto que virou moda, quando chega naquele limite em que uma onda local pode se tornar uma mania global - uma zona de transferência entre o cult e o pop, o underground e o mainstream.

Manipular o hype não é, nem de longe, uma novidade. Foi o que Brian Epstein fez tornar os Beatles conhecidos (naquela época, o fato de uma banda de Liverpool tocar em Londres, era mais ou menos equivalente a uma banda de Cuiabá ter alguma exposição do eixo Rio-SP nos anos 80, por exemplo), o que Malcolm McLaren fez para transformar os Sex Pistols na maior afronta da história da monarquia britânica (até o corno que o príncipe Charles tomou da Leididai) e o que o Alan McGee fez para que o Oasis fosse algo mais do que realmente é (uma banda de um hit e só - no caso, a única música realmente boa da banda, "Live Forever"). E isso não é mérito de empresários. Bandas e artistas vivem fazendo isso - de David Bowie aos White Stripes e a lista enfileira George Clinton, Strokes, Kiss, Racionais, Abba, RPM, Planet Hemp, NWA, Caetano Veloso, Marvin Gaye, Smashing Pumpkins, Raimundos, Who, Snoop Doggy Dogg, Velvet, Blitz e inúmeros de outros exemplos em que o tino comercial e artístico parece ser um só, quando aperta-se uma veia específica do inconsciente coletivo que faz as pessoas se sentirem bem ao ponto de terem o ímpeto de ir atrás daquela música.

A diferença daquele hype para o atual - independente de vir do artista, do empresário, da crítica ou da mídia - é que começava-se a se falar sobre uma banda ou um artista (ou um filme, uma exposição ou uma peça, mas o assunto aqui é música) quando ele estava pronto, depois de uma etapa de ensaio e rascunho que moldava o som e a imagem associados a um nome e que não era mais exposto à mídia.

Mas, sabemos, os tempos mudaram - e assim, algumas noções que antes tínhamos como básicas, como a de privacidade. Por isso, se antes uma banda ensaiava escondido seus planos de dominação mundial enquanto aprendia a tocar acordes com pestana, a se movimentar em palcos de casas de shows minúsculas e a compor músicas próprias, hoje basta saber grunhir qualquer coisa num MP3 que a banda não só passa a existir como já está apta a ser hypada. O Cansei de Ser Sexy é um ótimo exemplo disso: a banda tinha um MP3 tosco e cinco fotologs antes de existir de fato - e pouco tempo depois estava no palco do Tim Festival, naquele show que todo mundo se orgulha de dizer que estava lá pra dizer que a banda era um lixo. Sim, eu estava lá e o show foi realmente um lixo - mesmo com a banda se divertindo pacas no palco.

É o elemento reality-show que invadiu a música pop. Este elemento é também o responsável pelos primeiros fãs do CSS no Brasil, que viam a banda e pensavam o que qualquer fã de reality-show pensa: "E se fosse comigo?". "Quer dizer que eu não preciso ser um fodão pra tocar no palco do Timfa?" é equivalente a "quer dizer que eu não preciso ser ator/bonito/ter QI pra aparecer na TV?". Assim, surge toda uma nova safra de bandas disposta a colocar uma música qualquer online e começar a se hypar antes mesmo de merecer ser hypado por alguém.

O Cansei não é uma exceção e sim uma nova regra, que também valeu para a Lily Allen e os Arctic Monkeys, e agora vale tanto para os Klaxons quanto para o Bonde do Rolê e uma série de bandas que ainda está começando. E mesmo não assistindo a nenhum show decente do Cansei, tenho quase certeza que o primeiro show deles no Brasil depois deste tempo todo na gringa vai deixar o mesmo pessoal que achou o show do Timfa risível de boca aberta. É que a tal "cancha" (termo de velho, vai) de shows que a maioria das bandas boas pega antes de ficar conhecida só aconteceu com eles quando eles já eram conhecidos. É como se os Beatles tivessem lançado seu MySpace com um MP3 do primeiro show na quermesse de Woolton em Liverpool (ou, exagerando menos, na fase Silver Beatles), como se pudéssemos assistir quase em tempo real aos vídeos de sua temporada na Alemanha via YouTube e se todo fã da banda resenhasse os shows deles no Cavern Club em seu blog. O parâmetro (Beatles) é manjado só pra ficar mais claro - não vai sair nenhum novo Beatles daí (nem de lugar nenhum, se é que você ainda não percebeu). Mas a história da música pop mudou com a internet não só por conta do MP3, do P2P e da crise da indústria do disco. De novo, estou falando de música, mas poderia estar falando de qualquer cena, gênero ou nicho cultural.

O que nos leva de volta para Edu K, um cara que, como muitos de seus conterrâneos gaúchos, insiste em uma certa personalidade pop esteja aquilo certo ou errado. Podia começar a falar de long-tail aqui, mas deixa pra outro dia. Por hora, basta saber que estamos prestes a assistir uma nova explosão de bandas minúsculas todas com potencial de dominação global - mesmo que por 15 segundos. Isso não invalida sua qualidade ou méritos, mas também não os avalisa a nada. A qualidade destas bandas vai ser determinada no dia-a-dia, a cada MP3 ou contrato fechado com algum tipo de publicidade. Todo mundo vai ser testado o tempo todo - ou você se garante ou especial do E! Channel sobre sua decadência, se der sorte. E assim os artistas se tornam próximos dos ouvintes e uns dos outros, sem parecer que Celine Dion, Marcelo D2, Axé Blonde, Jesus & Mary Chain ou Los Hermanos não pertencem ao mesmo planeta. É essa ficha que ainda está caindo.

Tá na mesa

...E o Surface da Microsoft, vocês viram?

maio 30, 2007

Reloaded

carregados.jpg

Carregados era uma banda de eletrônico que o Mini, dos Walverdes, tinha no começo desta década ao lado de dois outros sujeitos, o Renan Schimidt e o Pedro Damasio. Ninguém se lembra (tenho o CD em casa, tá em algum lugar) mesmo porque quase ninguém ouviu, mas seguindo a tradição que o Brian Eno inventou sobre o primeiro disco do Velvet ("Quase ninguém ouviu, mas quem ouviu montou uma banda") e a adaptando para tempos pós-MP3, o quase-hit (que, segundo o Mini, "não tocou em rádios, foi ouvida em pouquíssimas festas por quase ninguém") "Telefone" foi ressuscitado graças a remixes de bambas dos pampas, como Flu, os Organizers dos irmãos Czarnobai, JZK e Philipe Braunstein na coletânea online Telefone - Remixes 2001-2005, que acabou de ser colocada no ar.

Mash & co.

Materinha sobre mashup que saiu na revista da MTV deste mês - só para assinantes.

MTV72.jpg

***

Geração Copia e Cola

Bootleg, Bastard Pop, Mashup é a junção de duas músicas ou mais numa só. Mas não importa o nome. Depois do seu nascimento em 2001, o filho bastardo do pop explodiu na rede em 2007 por conta de softwares que fazem de qualquer quarto um estúdio em potencial. Isso significa que você está a um click de uma música formada por uma base do Nirvana com os vocais do Johnny Cash ou então uma com Gwen Stefani com Queen

por Adriana Alves

Copiar e colar não é novidade na internet e muito menos na música. Mas desde que o duo belga 2ManyDjs gravou, em 2001, uma mistura bizarra e sem interrupção de pedaços de músicas tão variadas quanto “Push It”, do Salt-N-Pepa, com “No Fun”, dos Stooges, e “Dreadlock Holiday”, do 10cc, com “Independent Woman”, das Destiny’s Child, o copy e paste passou a ganhar ares de criação artística e a ser chamado de Bastard Pop. Um outro lançamento simultâneo ao do 2ManyDJs marca o início desta história. Trata-se da faixa “A Stroke of Genie-us”, uma mistura dos vocais de “Genie in a Bottle”, da Cristina Aguilera, com as guitarras de “Hard to Explain”, dos Strokes, feita pelo DJ The Freelance Hellraiser.

Tempos depois, este filho perdido ganhou outros nomes, entre eles o de mashup, mas trata-se da mesma coisa: junção de duas músicas ou mais numa só. Definitivamente, este conceito de mistura não é uma novidade. O rap, por exemplo, muitas vezes utiliza a base de uma música conhecida e coloca os vocais por cima. Só pra citar uma, “Homem na Estrada”, dos Racionais MCs, é cantada em cima da base de “Ela Partiu”, do Tim Maia.

Os samples são utilizados há bastante tempo e a mistura e sobreposição de ritmos fazem parte da música desde que nós humanos começamos a identificá-la como tal. “Se você for prestar atenção, o próprio rock'n'roll é um mashup. Afinal, ouvir um branco cantando soul com voz de negão ou um negro cantando country nos Estados Unidos do meio do século passado era tão bizarro e alienígena - e, igualmente, fazia tanto sentido, quanto ouvir o vocal de ‘Billie Jean’ sobre o instrumental de ‘Smells Like Teen Spirit’, no começo do século 21”, diz o jornalista e agora DJ Alexandre Matias, que comanda a festa de mashup Gente Bonita Clima de Paquera em São Paulo.

Desta vez, a diferença é que além de ser feita uma mistura completa entre as músicas, este é um fenômeno completamente virtual. Por conta dos direitos autorais não existem discos de mashup, só é possível baixá-los na internet. Graças a programas de conexão pier-to-pierpeer-to-peer (P2P), como o Kazaa, por exemplo, é possível fazer o download de qualquer música, filme ou software, mesmo que ilegalmente. Desta forma, dependendo da conexão, é possível ter em minutos um programa de edição de áudio e suas músicas prediletas. “Qualquer moleque pode fazer um ótimo mashup em seu quarto, fazer o upload e, se ele for bom e criativo, poderá eventualmente tocar em clubes e em rádios de Londres, Boston, São Francisco, Paris, Rio, ou qualquer outra cidade”, conta o DJ estadunidense BC, responsável por dois aclamados trabalhos, Let it Beast e DJ BC Presents The Beastles, que é a fusão dos Beatles com Beastie Boys. “Pra mim, a novidade com os mashups é que eles trazem o espírito do punk rock, o Do-It Yourself. Você não precisa saber tocar um instrumento e pode fazer um som tão simples ou tão complicado quanto desejar”.

Todo este sucesso se deve a explosão do número de mashups que começaram a pipocar na internet. Com o fácil e livre acesso às ferramentas na rede, qualquer um e a qualquer hora pode criar seu 2 em 1, ou 10 em 1, se preferir. “O mashup é parte integrante dessa ‘geração copia-e-cola’ e da cultura livre. Acho que ele representa bem essa leva de artistas jovens, como eu, que fazem seus trabalhos em casa, sem muita pretensão, com baixíssima tecnologia e ainda assim obtém resultados superbacanas”, conta o DJ Goos, que tem 19 anos, mora em São Paulo e no final do ano passado começou a fazer suas próprias misturas e a disponibilizá-las em seu Myspace.

Para Matias, o mashup é o primeiro gênero musical do século 21 por três motivos. “Primeiro, não é um gênero musical propriamente dito, mas um meta-gênero (assim como serão os novos gêneros do novo século), segundo, não nasceu em cidade nenhuma e é um fenômeno essencialmente da internet, e terceiro porque é o passo final do faça-você-mesmo, você não toca músicas, toca músicos!”.

É arte?

Caso você já tenha ouvido um mashup, sabe o quanto pode ser divertida a mistura da cantora de jazz Sarah Vaughan com as bases de “Promiscuous”, da Nelly Furtado, ou então Coolio com INXS ou Led Zeppelin com Beastie Boys. Obviamente, também existem os mashups tosquinhos e a pergunta que fica no ar é: será que este DJ, ou quase-DJ, ou não-DJ que faz um mashup misturando hits dos mais conhecidos pode ser considerado um artista? “Eu acho que é arte, porque é um meio para se expressar musicalmente. Mas me parece que a maioria das pessoas que faz mashups está fazendo pela diversão e o amor à música, e não tentando fazer uma escola artística”, diz DJ BC.

Para o DJ Goos, que já toca em algumas festas, algumas delas especialmente dedicadas ao estilo, o mashup é arte das mais detalhadas. “A arte do ‘mashupero’ está no processo da fragmentação e da recombinação estética de dois elementos que geralmente não estariam juntos. É difícil pensar em mashup como ‘projeto intelectual’ e não apenas como um amontoado de hits, mas a escolha das músicas, o processo da colagem e até o resultado final carregam conceitos de desconstrução, apropriação de pré-fabricados, entre outros, por mais sutil que seja”, conta o DJ, para em seguida assumir: “O fato de ser meio ilegal também conta, não?”.

Muita gente do nosso cenário musical tem observado estas mudanças. “Para criar, usa-se sempre, quer queira quer não, ferramentas, procedimentos que são, por assim dizer, ‘patrimônio cultural da humanidade’: progressões harmônicas, formas musicais”, diz Sérgio Britto, dos Titãs. “Acho que pode ser considerado como arte, mas o importante é que esse exercício não seja medíocre ou mera cópia. A meu ver, coisas assim não deveriam ser vistas com tanta ‘pompa’. Se é ‘arte’ ou não, não é tão importante. Tem sua graça? É divertido? Funciona? Então tá valendo!”

Daniel W, batera do NX Zero, acha que a modalidade pode até servir de solução em alguns casos. “Acho que quando um DJ seleciona músicas para fazer um mashup, dificilmente irá achar canções 100% originais. Seguindo aquele clichê de que nada se cria tudo se copia, a própria música original, ao ser feita, utilizou vários outros elementos já existentes. Às vezes o DJ pode até salvar uma música juntando com outras no timing certo”.

Japinha, do CPM 22, acha tudo isso superválido. “Porque não considerar uma espécie de arte? É resultado de criatividade! Se uma pessoa tem o dom de fazer algo que soe bem, independente da forma, já merece consideração. Neste caso, ainda resgata outros trabalhos, o que os valoriza, homenageia.”

Seria impossível um estilo musical (será que o mashup é um?) alcançar a unanimidade. Para o metaleiro Edu Falaschi, do Angra, é só o retrato dos tempos modernos. “Quando eu era adolescente achava que esses caras eram apenas pessoas que escolhiam a trilha sonora pra uma balada. Mas com o passar dos anos foram transformando os DJs em personalidades, chegando a considerá-los ‘músicos’ ou ‘artistas’, isso soa bem estranho pra mim”, conta Edu, desanimado com os novos rumos. “Quando os outros falam ‘nossa! Vamos ver tal DJ tocar’... Como assim tocar? O cara só aperta botões! É claro que tem especialistas em criar sons e esses caras que constroem a coisa do zero, pra mim são fantásticos, mas a maioria só clona. Essa idéia do ‘mashup’ é somente um reflexo dos dias modernos, ou seja, respeito zero.”

Festas
Esta história já ganhou as pistas de dança mundo afora. Uma destas festas, a Bootie, realizada em São Francisco, nos Estados Unidos, pela dupla de mashupeiros A Plus D, formada por Adrian Roberts e Misterious D, já têm dois discos incríveis gravados, The Best of Bootie 2005 e The Best of Bootie 2006. Ambos podem ser ouvidos e baixados em www.bootieusa.com . No álbum de 2006, é possível ouvir no que deu Bonde do Rolê com New Order, ou Destiny’s Child com Arctic Monkeys e ainda Nelly Furtado com Phil Collins. E a Bootie está em franca ascensão. Nos Estados Unidos, além de São Francisco, a festa passa por Los Angeles, Nova York e logo mais aterrisará em Denver. A França também já tem sua edição em Paris e o site anuncia para breve uma vinda pra São Paulo.

Em terras paulistanas, os mashups também estão ganhando espaço nas pistas e já existem festas exclusivamente dedicadas a estas misturas. Certamente a que mais fez barulho no primeiro semestre deste ano foi a comandada por Alexandre Matias e seu amigo, também jornalista e DJ, Luciano Kalatalo. O nome da balada é aquele mesmo, Gente Bonita Clima de Paquera. “É importado de uma gíria recifense que parodia um termo comum em todas colunas sociais do Brasil. O termo ‘Gente Bonita’, em inglês, é até mesmo sinônimo para ‘VIP’. Então foi uma forma de rir dessa cultura de celebridade”, diz Matias. No site, onde já tem podcast disponível tanto pra ouvir quanto para baixar, é defendida a bandeira de que Gente Bonita não é só uma festa, mas um novo conceito. “É o fim da segregação. Coisas como Artista/Platéia, Músico/Ouvinte, Celebridades/Anônimos, deixam de ter sentido, todos têm a possibilidade e o espaço para aparecer e serem vistos. E não falo de apenas 15 minutos de fama”, diz Luciano.

E parece que esta história já começa a apontar novos caminhos na música e na cultura em geral. “O mashup pressupõe a pluralidade e isso vale para tudo. É o contrário da cultura monotemática que estávamos nos habituando. Estamos nos libertando em diversos níveis, para que não corramos o risco de cair em uma ditadura de gosto”, diz Matias e revela que o termo vem sendo utilizado por diversas outras áreas. “O termo já se expande para solucionar fusões de corporações, sites que podem trabalhar em paralelo, recriações de cenas de filmes clássicos em videogames ou plataformas de comunidades.”

Os DJs estão pipocando pela rede e as ferramentas estão se tornando cada vez mais fáceis de se manipular, como o Splice Music (www.splicemusic.com), que é um site de relacionamento onde há um software de edição musical. Lá você pode editar músicas em tempo real, criar suas faixas, usar a dos outros e tudo isso sem encrenca judicial. Pelo menos este site, é todo licenciado pelo Creative Commons, que é uma flexibilização dos direitos autorais e portanto, liberado para sua diversão.

Falando sozinho

Mr. Bressane publicou um belo texto sobre o mestre PKD no caderno 2 do Estadão e como ele me citou de passagem, não ia deixar de clipar.

***

Biografismo fantástico

No estranho romance Valis, em que narra experiências místicas e passagens autobiográficas, o escritor Philip K. Dick, conhecido por suas obras de ficção-científica, mais uma vez investiga os limites do real

Por Ronaldo Bressane

Realidade é aquela coisa que não desaparece quando você deixa de acreditar nela. O paradoxo é um entre vários enigmáticos enunciados contidos em Valis, espécie de autobiografia de Philip Kindred Dick (Editora Aleph). O norte-americano de Chicago (1928-1982) é um dos mais influentes escritores do século 20 – afirmação que pode parecer controversa pelo fato de K. Dick estar ligado a um gênero literário considerado “menor”: a ficção científica. Porém, com ela concordam autores tão diversos quanto o filósofo francês Jean Baudrillard, os escritores Ricardo Piglia, argentino, e Roberto Bolaño, chileno, o cineasta canadense David Cronenberg e a banda novaiorquina Sonic Youth (cujo álbum Sister é inspirado na vida de K. Dick).

Mesmo que você não acredite no poder de PKD, a realidade é que sua vasta influência espraia-se da neurociência à filosofia, passando, evidentemente, pelo cyberpunk – gênero derivado da ficção científica que deu origem à trilogia Matrix e cujo expoente é William Gibson (Neuromancer). Este Valis ajuda a iluminar a obra de um criador tão estranho quanto popular.

E como é estranho este Valis. Para começar, K. Dick envenena a confiança do leitor no narrador, ao dividi-lo em três unidades partícipes: o autor (o próprio PKD), o narrador (anônimo, na terceira pessoa) e o protagonista (um certo Horselover Fat). Acontece que o tal Horselover Fat protagoniza histórias da vida do próprio K. Dick, além de ser um jogo de palavras com seu nome: Horselover (“amigo de cavalos”) é parente da expressão grega Philohippos, que teria originado o nome Philip; e Fat, em alemão, é o termo que corresponde a Dick.

Quando o livro inicia, Horselover está perto do fim da linha – mesma situação em que se encontrava seu autor, no início dos anos 70. Uma amiga havia se suicidado e sugerido a ele atentar contra a própria vida; sua mulher o tinha deixado, levando o filho; as anfetaminas que tomava regularmente há décadas o induziam lentamente a um colapso; todos os seus amigos ou eram junkies ou cancerosos terminais (vários deles são retratados no romance O Homem Duplo, recém-lançado pela Rocco)

É curioso pensar hoje, quando a soma das bilheterias de todos os filmes baseados na obra de PKD se aproxima de US$ 1 bilhão, que o autor haja passado por perrengues financeiros. Embora K. Dick tenha sido um escritor premiado e reverenciado em vida, sua influência não ultrapassava o círculo dos fanáticos por ficção-científica. Eram livros baratos, pulp fiction, que vendiam milhares de cópias, mas pagavam pouquíssimo a quem os escrevesse. Por causa disso, PKD produzia feito desvairado. No período inicial, chegou a escrever três contos de dezenas de páginas no mesmo dia; em apenas 30 anos de carreira, publicou 121 contos e 44 romances, além de um diário, chamado Exegese, que contém cerca de um milhão de palavras.

Durante a maior parte da vida, escreveu doidão de bolinhas, que o permitiam matraquear numa surrada Olympic por dias e noites seguidos, sempre escapando dos credores – não à toa é chamado de Dostoiévski yankee. Na fase que documenta em Valis, K. Dick já estava no quinto casamento, com três filhos para alimentar, a conta bancária detonada. É nessa época que o escritor é atingido por um misterioso raio cor-de-rosa.

O Império nunca acabou
Qualquer nerd viciado em ficção científica sabe o que significa a seqüência 2-3-74. Nesta data, PKD teve uma epifania que influenciou os oito anos seguintes, período em que progressivamente abandonou a ficção científica e mergulhou numa literatura metafísica, além de ficar levemente paranóico – achava, por exemplo, que o presidente Nixon era um imperador romano reencarnado, e sentia-se perseguido por CIA e KGB. No mês de março de 1974, K. Dick estava atormentado por uma dor derivada da extração de um dente do siso. Pediu um remédio à farmácia, e uma moça veio entregar em sua casa. Ao abrir a porta, ficou magnetizado pelo pingente que pendia do colar da garota: um peixe – símbolo da cristandade. Quando o sol refletiu-se no pingente, o escritor teve uma visão em que retornava aos primeiros anos de Império Romano, depois de Cristo, e foi atingido por um raio cor-de-rosa.

Nos dias seguintes, sentiu-se bem como nunca; recebia cheques de direitos autorais atrasados; deixou de lado as anfetaminas; estranhamente, conseguia ler e escrever em grego, latim e sânscrito, idiomas que até então não dominava. Certo, dia, quando ouvia “Strawberry Fields Forever”, dos Beatles, K. Dick intuiu que o filho Christopher, recém-nascido, corria risco de vida, e o levou ao hospital. Para espanto de sua mulher e do médico, o filho realmente tinha uma hérnia na virilha que o poderia matar a qualquer momento. Cada vez mais obcecado pela visão, PKD começou a ter problemas em sua vida cotidiana, até que foi abandonado pela mulher. Tempos depois, tentaria o suicídio – simultaneamente cortando os pulsos, tomando cápsulas de nembutal e se encerrando dentro de um carro ligado, com a garagem fechada. Algo não funcionou, porém, e o escritor salvou-se, indo posteriormente convalescer numa clínica.

Essa experiência está contada de modo fragmentário em Valis, tendo sido quadrinizada por Robert Crumb em 1985 (uma versão em português, traduzida por Alexandre Matias). K. Dick também expôs detalhes do 2-3-74 na sua Exegese, que pode ser lida em partes no site do autor. Objeto de culto, a Exegese não tem previsão para ser publicada; os herdeiros do escritor publicam trechos de tempos em tempos, e há sites e mais sites que se dedicam a interpretá-los. São divagações metafísicas que aproximam violentamente conceitos do cristianismo, gnosticismo, hinduísmo, budismo, filosofia pré-socrátrica, conceitos alquímicos e teorias neurocientíficas até hoje controversas – como por exemplo The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind (A Origem da Consciência na Quebra da Mente Bicameral, nunca traduzido para o português), do psicólogo norte-americano Julian Jaynes (1920-1997).

O livro de Jaynes, que também influenciou escritores do porte de William S. Burroughs e é obra de cabeceira de neurocientistas respeitados como o brasileiro Sidarta Ribeiro, diretor do NatalNeuro, propõe algo muito semelhante ao exposto por K. Dick em Valis: há três mil anos, o cérebro humano era dividido em dois – o hemisfério direito seria o homem, executante, e o esquerdo, o deus, executivo. Uma das idéias justamente expostas no romance de PKD, quando o narrador demonstra que Horselover Fat é um homem que vive em 1974 e outro que vive nos primeiros anos da cristandade – tudo ao mesmo tempo. Para K. Dick, afinal, o Império Romano continuava sob o nome de Estados Unidos: a frase “O Império nunca acabou”, um mote de sua obra, teria surgido em um sonho recorrente que tinha, durante a infância.

Entre o sonho e a ficção científica
Sim, mas o que seria Valis? A dada altura, o narrador leva Fat ao cinema para assistir a um filme de ficção científica com este nome – e então percebemos que se trata de uma sigla para “Vast Active Living Intelligence System”, Vasto Sistema de Inteligência Viva e Ativa. Fat tem contato com o casting do filme e afinal descobre que VALIS – essa inteligência extraterrestre, um outro nome para Deus – é que teria iluminado seu cérebro com o raio rosa. A partir daí, o livro colapsa entre teorias conspiratórias, esoterismo setentista e um humor vagamente psicodélico – como se K. Dick, ao mesmo tempo em que formulasse um novo conceito místico, o ironizasse com crueldade.

“Estrangeiro, os sonhos são verdadeiramente confusos, ambíguos e, para os homens, nem tudo se cumpre”, escreveu Homero na Odisséia. “Pois são dois os portões dos tênues sonhos: um é feito de chifre, e o outro de marfim. Os sonhos que passam através do cerrado portão de marfim enganam, trazendo promessas que não se cumprem; mas, os que saem pelo polido portão de chifre, esses se cumprem, para os mortais que os vêem.” Dissolvendo a identidade do narrador, brincando com os limites do falso e do verdadeiro, impondo uma realidade plástica, em Valis Philip K. Dick propõe que no mundo em que vivemos os portões de chifre e de marfim sempre irremediavelmente nos confundam. Que portão abrir, só o leitor saberá responder.

Uma mina de ouro para o cinema
William Gibson é o mais copiado e menos louvado (a trilogia Matrix é descaradamente chupada de seu Neuromancer); Arthur C. Clarke (2001, Uma Odisséia no Espaço), Ray Bradbury (Fahrenheit 451) e Isaac Asimov (Eu, Robô), os mais conhecidos; Stanislaw Lem (Solaris), o mais cultuado. Mas é K. Dick de longe o autor de ficção científica mais adaptado ao cinema. O primeiro livro que foi levado às telas – e até hoje o que teve resultados mais ambiciosos – é O Caçador de Andróides (Blade Runner), adaptação do romance Sonharão os Andróides com Ovelhas Elétricas? realizada por Ridley Scott. Misturando os gêneros noir policial com sci-fi, dirigindo Harrison Ford, Hutger Hauer e Sean Young em atuações clássicas, Scott revitalizou o gênero (o que o estraga um pouco é a trilha tecnobrega de Vangelis, que foi depois usada até em comerciais televisivos de motel).

Apesar de ter assistido – e apreciado – o director’s cut de Blade Runner (que chega este ano às lojas, marcando o 25º aniversário do filme), PKD não viu a cor do sucesso de público: morreu duas semanas antes da estréia do filme. Seguiram esse caminho Total Recall, de Paul Verhoeven, Confessions d’un Barjo, de Jerôme Boivin, Screamers, de Peter Dugway, Impostor, de Gary Fleder, Minority Report, de Steven Spielberg, e Paycheck, de John Woo. Somente este ano, dois filmes baseados em K. Dick chegaram aos cinemas: o perturbador A Scanner Darkly (O Homem Duplo), em que Richard Linklater usa a revolucionária técnica de rotoscopia, e Next, de Lee Tamahori. Este último, com Nicholas Cage, Julianne Moore e Jessica Biel, estréia no Brasil no segundo semestre.

O oscarizado Paul Giamatti personificará PKD em uma biografia ainda em produção, The Owl in the Daylight, a ser concluída em 2008. A obra de K. Dick é uma mina de ouro: calcula-se que as bilheterias das adaptações somem US$ 1 bilhão. Se lembrarmos que só uns 15% de sua obra foram levadas às telas, é provável que assistamos a muitos outros filmes kdickianos – pelo menos até que o futuro imaginado por ele rime com o presente.

Silêncio: Beatles gravando

beatlesrecording.jpg

Uou.

Os 100 melhores discos de 2007

Já? Culpe (ou agradeça, dependendo de que lado você está a)o Pedro, que fez a lista.

maio 28, 2007

Link - 28 de maio a 3 de junho de 2007

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"You Can Call Me Al" - Paul Simon

(F/ - C// - Bb/ |-| Bb/ - C// - F)

A man walks down the street
He says why am I soft in the middle now
Why am I soft in the middle
The rest of my life is so hard
I need a photo-opportunity
I want a shot at redemption
Don't want to end up a cartoon
In a cartoon graveyard
Bonedigger bonedigger
Dogs in the moonlight
Far away my well-lit door
Mr. beerbelly beerbelly
Get these mutts away from me
You know I don't find this stuff amusing anymore

If you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
And Betty when you call me
You can call me Al

A man walks down the street
He says why am I short of attention
Got a short little span of attention
And wo my nights are so long
Where's my wife and family
What if I die here
Who'll be my role-model
Now that my role-model is
Gone gone
He ducked back down the alley
With some roly-poly little bat-faced girl
All along along
There were incidents and accidents
There were hints and allegations

If you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
And Betty when you call me
You can call me Al
Call me Al

A man walks down the street
It's a street in a strange world
Maybe it's the third world
Maybe it's his first time around
He doesn't speak the language
He holds no currency
He is a foreign man
He is surrounded by the sound
The sound
Cattle in the marketplace
Scatterlings and orphanages
He looks around, around
He sees angels in the architecture
Spinning in infinity
He says amen! and hallelujah!

If you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
And Betty when you call me
You can call me Al
Call me Al

maio 27, 2007

Crepúsculo dos Deuses

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Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950. EUA). Diretor: Billy Wilder. Elenco: Gloria Swanson, William Holden. 110 min. Por que ver: Se Orson Welles filmasse Cantando na Chuva, o musical de Gene Kelly perderia as canções e a cor para ganhar as sombras e o pesar de Crepúsculo dos Deuses. Talvez o grande filme noir da história de Hollywood, ele confronta todos os elementos do gênero dark e urbano (inveja, cinismo, crimes, falsidade, interesse, negociações paralelas, falta de escrúpulos) com o glamour do star-system da indústria cinematográfica. Crespúsculo começa com um cadáver boiando na piscina de uma mansão em Los Angeles e conta a história de como aquele corpo apareceu ali – para isso, nos apresenta ao trambiqueiro Joe Gills (Holden) e à atriz decadente Norma Desmond (Swanson, a alma do filme, num papel que havia sido cogitado para Greta Garbo e Mae West), que desenvolvem uma relação de interesse mútuo que, à medida em que a conhecemos melhor, se revela falsa e doentia. Gills promete um roteiro para o filme que trará Desmond, estrela do cinema mudo, em decadência comercial, de volta para a frente das câmeras. No decorrer da história, Gills se envolve com a jovem escritora Betty e a partir daí as coisas fogem de controle. Mas nunca de Wilder, que conduz o filme com mão de ferro e cinismo azedo, amparado em atuações precisas e uma ambientação assustadora. Fique atento: Mesmo com pontas de nomes famosos de Hollywood, como o diretor Cecil B. DeMille, o comediante Buster Keaton e a colunista Hedda Hopper, a atuação principal é de Gloria Swanson, que usa das expressões exageradas do cinema mudo para compor uma Norma Desmond caricata, sinistra e perigosa, que revela-se, lentamente, uma psicopata ególatra disposta a fazer tudo pela fama.

A Conversação

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A Conversação (The Conversation, 1974, EUA). Diretor: Francis Ford Coppola. Elenco: Gene Hackman, John Cazale, Allen Garfield, Cindy Williams, Teri Garr. 113 min. Por que ver: Basta dizer que é o filme que Coppola fez entre os dois Poderoso Chefão e Apocalipse Now, mas A Conversação é muito mais do que o produto de uma boa fase de um gênio – na verdade, é uma obra-prima muito particular. Acompanhamos o trabalho do detetive Harry Caul (Hackman, em seu melhor papel e filme favorito), um especialista em grampos telefônicos e escutas clandestinas – o melhor, sublinham durante o filme, capaz de registrar uma conversa de duas pessoas em um barco no meio de um lago. Incumbido de gravar um aparente casual papo de um casal que passeia por uma praça movimentada, Caul mobiliza sua equipe, que capta trechos aleatórios da tal conversação do título, que requer diferentes técnicas e aparelhos para ser decifrada. O filme equilibra-se entre o charme vazio registrado por Antonioni em Blow Up e o sonho americano estilhaçado de vez com as fitas de Watergate, que obrigaram Nixon a renunciar. Enquanto Caul trabalha, conhecemos um agente fora-da-lei sem vida pessoal, um detetive noir às claras, sem penumbra para disfarçar o amargo de uma existência vazia e sem sentido. O filme mais europeu de Coppola. Fique atento: À forma com que a conversa entre Mark e Ann vai mudando à medida em que trechos vão se tornando claros, uma dupla homenagem de Coppola à importância da edição em um filme e ao seu editor de som e de imagem, Walter Murch, que foi indicado ao Oscar de melhor som. E à atuação de Hackman, que compõe magistralmente um personagem sem personalidade, escorado na Igreja Católica e no jazz (aprendeu a tocar sax apenas para o filme) como fundações de sua vida. A cena final é free jazz puro, traduzido em imagens.

Amused to Death - Roger Waters

E mais uma.

***

Nem Jeff Beck apazigua o ego do ex-Floyd

Amused to Death é o quarto álbum conceitual da carreira solo de Roger Waters (o sexto, se incluirmos a trilha sonora do filme When the Wind Blows de 1986 e a versão ao vivo para o disco The Wall, do Pink Floyd, encenada sobre os escombros do muro de Berlim, em 1990), lançado originalmente em 1992 e reeditado por aqui graças à passagem do ex-Pink Floyd pelo Brasil. Como seus antecessores, o disco é mais uma obra cabeçuda em que o baixista da cara comprida exercita seus desígnios literários unindo canções intrasigentes entre si – sempre amparados por um bretão sensível nas seis cordas de lá, seja o erudito Ron Geesin (em Music from The Body), o deus Eric Clapton em seus dias de prata (em The Pros and Cons…) ou o discreto Andy Fairweather Low (em Radio K.A.O.S.), todos exercendo o papel que um dia pertenceu a David Gilmour. Amused…, em que Waters aponta sua mira para a televisão, tem o melhor parceiro de Roger até então – ninguém menos que Jeff Beck –, que é colocado quase em segundo plano porque afinal de contas o disco é de Roger Waters e não um dueto entre os dois… E é exatamente essa egolatria típica do homem que um dia foi o cérebro da maior banda de rock em seu tempo que torna o disco um pouco demais, seja nos arranjos, nas letras, no humor, na acidez da crítica. Podia ser menos… Fora que a reedição não acrescenta uma vírgula ao disco original – seja no encarte, faixas bônus, masterização… Nada. Um disco pra bater cartão.

Beatific Visions - The Brakes

Outra da Rolling Stone de abril.

***

Country punk para leigos

Mais uma banda com nome curto vindo da Inglaterra e... opa, o Brakes não é pós-clone de Strokes como seu título faz supor. Gravado em Nashville, o segundo disco da banda, no entanto, tenta fazer pelo country punk o que o novo rock dos anos 00 fizeram pelo pós-punk. Em vão. Seu segundo disco parece uma colcha de retalhos de referências cruas do gênero, com acenos para o alt.country, Supersuckers, Violent Femmes e Minutemen - coisa que qualquer banda brasileira com disposição para o punk caubói tira de letra. Seus melhores momentos talvez sejam os mais aliens (como o andamento ensolarado e o miolo Velvet Underground da faixa-título, enquanto "Mobile Communication" dá saudade do Grandaddy) e as baladas dão vontade que o engano inicial pudesse ser verdade. Qualquer pós-clone de Strokes é melhor do que isso.

Amanhã é Tarde - Fellini

Outra resenha das antigas, essa saiu na Play número 5.

***

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Doze anos se passaram e nada aconteceu ao Fellini. Pioneiro indie brasileiro, a indefectível cult band paulistana volta em versão slim (o núcleo Cadão e Thomas assina todos os créditos do disco) e nem parece que seu último disco saiu em 1990 (o pós-samba Amor Louco). Nesse meio-tempo, Thomas tornou-se correspondente da BBC em Londres e Cadão assumiu a edição de cultura da revista época - enquanto o Fellini descansava no fundo do baú. Ele volta sem perder um milímetro do fôlego tênue das dois vocalistas. Ousando cada vez mais, embora timidamente (a idade nos ensina coisas...), os dois voltam com o que pode ser considerado seu melhor disco, não estivesse o antológico 3 Lugares Diferentes envolto numa mística underground que hoje passa ao largo - certamente, por opção. Afinal, podiam faturar um retorno hermético e bissexto, como bastiões pós-punks do mesmo calibre do grupo (Wire, Pere Ubu, Echo & the Bunnymen) que usam "a volta" como estratégia de marketing. Injetando doses de repetição lírica e saudosismo brasilianista, o grupo faz em Amanhã é Tarde o equivalente dos discos londrinos de Caetano e Gil, no começo dos anos 70. Não seria mal cogitar alguns shows de volta. Nem que seja apenas para ouvir "Gravado no Rio" ao vivo.

Gold - Ryan Adams

Outra resenha da Play, essa saiu no número 3.

***

Um dos melhores discos do ano passado (saindo agora no Brasil), o segundo álbum de Ryan Adams (ex-Whiskeytown) não apenas nos dá um contrapontos stonesiano para o beatlesmo de Jeff Tweedy (do Wilco), como entalha um ídolo pop à moda antiga, pronto para fazer sucesso. Mas anos além da adolescência, Adams não está interessado em fazer menininhas gritarem. Disposto a conquistar seu lugar no mercado e na história, ele sintoniza o dial de seu disco na rádio alt.country dos anos 70 e revive parte do country rock estradeiro daquela década, que acabou descambado no dócil soft rock. Falo de um saloon imaginário onde Bob Dylan (de bigodinho Vincent Price) senta-se com sua arma no alpendre, The Band e o Crazy Horse se revezam no palco, Neil Young, Stephen Stills, Gram Parsons e Tom Petty jogam baralho, Roy Orbison atrás do balcão e uma jukebox com apenas dois discos: Exile on Main Street e as Basement Tapes. Como outros novatos antes dele (Springsteen, Cobain, Westerberg, Beck), Adams pede a bênção para cada um dos presentes em citações - timbres de voz, riffs, vocais de apoio, progressões guitarreiras e introspecção caubói. Mas como não está mais na flor da juventude (completa 28 no final do ano), prefere pegar a estrada antes de meter-se a balear alguém, sem correr o risco de sair ferido. O sucesso, para Adams, é poder cantar suas canções do jeito que ele quer. Por isso, estendeu a bandeira americana sobre seu caminhão e colocou um adesivo no pára-choque escrito "OURO". É uma nação imaginária, um universo particular - mas é o único que lhe interessa.

Elevator - Titan

Mais uma...

***

Máquina de groove

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Um pouco de história, pra começar? O rock mexicano começou, como o brasileiro, como um arremedo do rock americano, no fim dos anos 50 e assim permaneceu até 1968, quando, devido à ditadura capitaneada pelo partido PRI (Partido Revolucionário Institucional, o mesmo do antigo presidente Carlos Salinas, que conseguiu incluir o país no Nafta e foi acusado de estar envolvido com o tráfico de drogas). Após o assassinato de estudantes pela polícia, o rock começou a se politizar e se interessar por causas sociais, movimento que culminou com o festival de Avándaro, em 1971.

Deste festival surgiu um movimento batizado pela imprensa local de La Nueva Onda, que dividia-se em dois grupos: um composto por conjuntos engajados na política (cujos principais nomes eram os grupos La Malinche e os míticos Caifanes) e outro que só queria diversão (liderado pelos Dangerous Rhythms e pelo Three Souls in My Mind). Mesmo com uma certa popularidade, o rock foi perdendo espaço à medida que a década de setenta corria, muito por conta da repressão autoritária do governo. Parte deste rock sobreviveu na periferia, em festas conhecidas como "hoyos fonquis". O nome explica tudo: "hoyo" quer dizer, literalmente, "buraco"; e "fonquis" vem da castelhanização de "funky". Buracos funky, festas que aconteciam em casas abandonadas ou em becos sem saída, que só terminavam quando o dia acabasse. O som? Black music americana, em doses cavalares.

Deste gueto veio a geração do rock mexicano nos anos 80, que historicamente surge após o terremoto de 1985. A principal característica desta nova geração de bandas é o fato de assimilar cultura mexicana e não ter vergonha de cantar em espanhol, sendo o Maldita Vencidad seu principal nome. Esta nova safra rock transformou velhos grupos em novos (o Dangerous Rhythms tornou-se Ritmo Peligroso; Three Souls... virou El Tri) e deu a ignição em todo o rock mexicano atual, que nasce no terceiro disco do grupo Botellita. Este era uma espécie de Raimundos do México, misturando ritmos americanos à cultura nacional (flertando tanto com o folclore quanto com a subcultura televisiva e o comportamento brega do mexicano) com doses de humor grosseiro. Seu terceiro álbum foi um marco: batizado com o impressionante trocadilho Naco Es Chido (que pode ser traduzido por A Estética das Massas é Legal, Lixo é Combustível e Marrom é Lindo), o disco deu origem a uma geração de músicos que manda nas paradas mexicanas atualmente e entra pelas portas dos fundos nos Estados Unidos com o rótulo de "Rock En Español". Entre os principais grupos, estão Café Tacuba, La Lupita, Cuca, Mana, La Castañeda, Plastilina Mosh, Fobia, Santa Sabina, entre outros.

Chegamos então ao Titan (finalmente!). Surgido no começo da década, o grupo era a continuação do trio experimental Melamina Ponderosa, que fez fama e inimigos ao casar funk com instrumentos eletrônicos e música de vanguarda nos anos 80. Formado pelo guitarrista Julián Lede e pelo tecladista Emilio Acevedo, o Titan tornou-se um trio com a entrada de Jay de La Cuerva (ex-Fobia e ex-Microchips). Todos os três integrantes eram freqüentadores das "hoyos fonquis" e tornou-se inevitável que o grupo se tornasse uma máquina de groove.

Em seu segundo disco, Elevator, inexplicavelmente lançado no Brasil, o grupo prova a inevitabilidade. A fórmula parece simples: o casamento de um irresistível baixo com uma bateria precisa, acompanhado de solos de teclados e guitarras que parecem ter saído dos anos 70. Com vocais repetitivos e constantes, Elevator também pede licença à disco music pela apropriação indevida. Mas o resultado final passa longe do pastiche funk que a fórmula parece trazer.

Indo para o mesmo rumo que o Beck foi em Midnite Vultures, o Titan só assume compromisso com o groove e convida todo mundo pra festa - se o disco fosse um Elevator que se propõe no nome, não subiria com tanto peso ao mesmo tempo. A intenção deve ser esta ("get down", reza a cartilha funk) e todos cedem à gravidade dos graves: surf music com new wave (1,2,3,4), electro e disco music ("C'Mon Feel the Noise"), Parliament com Carole King ("Corazón"), música mexicana e bateria jazz ("Honey"), guitarras distorcidas num funk James Brown ("King Kong") e funk sci-fi ("Vaquero"). Mas alguns dos melhores momentos do disco estão nos que apenas nos fazem dançar, sem pensar em referências: "Battle Love" (em que o ritmo parece um pneu de caminhão rasgando o asfalto), "1000 Ninjas" (um monstro boogie), "P.E.C." (a única com letra, mesmo que apenas "Puta Madre guey iba en un Draxter Guey/ Punk-Exorcista-Caterpillar"), "The Future" (onde sapos cibernéticos conduzem o groove em forma de baixo), "Sawright" (algo como Master P remixado pelo Bomb Squad, do Public Enemy) e "La Frecuencia del Amor" (seu próprio big beat).

Como os nomes das músicas fazem crer ("A Freqüência do Amor", "Venha Sentir o Barulho", "Mel", "O Futuro"), o grupo não está muito interessado em contar histórias, apenas na experiência de dançar. Caprichando no groove do mesmo jeito que calibram as amizades (foram convidados a abrir shows pro Jon Spencer Blues Explosion e alguns dos integrantes do grupo Sukia - apadrinhados pelos Dust Brothers - dão as caras pelo disco), o Titan tem um universo inteiro para construir. Se você por acaso trombar com esse disquinho por aí, não pense duas vezes. Porque o elevador estiver descendo - e só deus sabe pra onde -, deixa descer. Curta o passeio.

Pills'N'Thrills'N'Bellyaches - Happy Mondays

Mais uma resenha ressuscitada.

***

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"Você fica esquisito numa banda". Desculpa esfarrapada, isso é só Shaun Ryder disfarçando no começo do terceiro disco dos Happy Mondays, Pills’n’Thrills and Bellyaches, lançado no final de março de 1990. É claro que a afirmação é verdadeira e basta pensar em qualquer conjunto de rock que fez sucesso para ver o que acontece com as pessoas que compõem o tal grupo - "esquisito (spooky)" - é pouco. Mas a corja de malandros arruaceiros que saiu do mesmo squat em Manchester já era mais do que estranha antes mesmo de pensar em formar um grupo.

Ryder, seu irmão Paul, Paul Davis, Mark Berry e Gary Whilam já eram um conjunto de rock antes mesmo de fazer música. Agiam em conjunto, atacavam festas e eventos estudantis como uma gangue - sempre todos ao mesmo tempo, como se fossem personalidades diferentes de uma mesma pessoa. Uma pessoa carismática e encrenqueira, daqueles tipos que fazem brigas surgir dos lugares menos esperados e as transformam numa grande piada, antes mesmo do primeiro soco. Shaun Ryder era a encarnação perfeita deste sujeito e quando viu que balbuciava letras legais sobre a música dos outros, convenceu os outros a tocarem numa banda. Seu irmão assumiu o baixo, PD já tocava teclados e Gaz ficou com a bateria. Faltava uma guitarra e Berry não tocava nenhum instrumento. Convocaram um amigo da noite, Mark "Moose" Day, e a formação estava completa. Mark continuaria no grupo, fazendo, ao lado dos amigos, o que sabia fazer melhor: ser ele mesmo - o Bez.

Eles representavam a linha de frente de uma nova geração que surgia em Manchester. Fomentada pela boate Haçienda, do gravadora Factory e do grupo New Order, a vida noturna da cidade aos poucos ia fugindo do padrão pub/casa de shows que a maioria das cidades inglesas estava acostumada. As boates eram mais ecléticas que as extintas discotecas e era possível ouvir não apenas dance music como rock’n’roll. Temperada com as mesmas doses de guitarras inglesas e groove americano, a cena noturna de Manchester começou a ser cada vez mais ampla e tipos de diferentes tribos se entendiam no compasso da dança. O Haçienda era o templo desta vida notívaga. Ponto de referência até mesmo fora da Inglaterra, a casa passou a ter uma aura mágica, que outras casas noturnas pelo planeta tentavam imitar. Mas o ponto crucial desta mística ao redor da boate era uma nova droga, o MDMA, uma pastilha de anfentamina anteriormente usada como afrodisíaco. Usando uma música do New Order para ser aceito pela massa sem o tabu da sigla médica, o ecstasy mais tarde ganharia sua própria sigla urbana - um simples E maiúsculo, código para as incursões anfentaminadélicas que a droga proporcionava.

Os Happy Mondays (nome tirado de outra música do New Order - "Blue Monday") eram uma espécie de elite bastarda desta cultura. Embora fizessem parte dos personagens mais típicos e conhecidos da noite, eles eram briguentos e gritalhões, se embebedavam à medida que se drogavam, transavam nos banheiros e dançavam até cair. Misto de hooligans com b-boys, eles tinham até uniforme: tênis vagabundo, camisetas listradas na horizontal, franjas compridas e calças largas, baggy. Quando Tony Wilson, dono da Factory, descobriu que aqueles lunáticos tinham uma banda, não titubeou em contratá-los e fazer de tudo para que se tornassem uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Ou que ao menos fizessem o mesmo estrago de uma dessas.

Era fácil. Com o Velvet Underground John Cale na produção, logo lançaram seu primeiro LP, Squirrel And G-Man Twenty Four Hour Party People Plastic Face Carnt Smile (White Out), em 1987. Embora bem recebidos pela crítica, o disco não emplacou. Mas não era motivo para parar. Wilson pôs Martin Harnett (o principal produtor da Factory) para dar um jeito no grupo e este acertou no ponto exato ao introduzir o elemento funk ao rock nortista com rap preguiçoso que caracterizava o som do grupo. Com seu segundo álbum, Bummed, o grupo conseguiu ser notado graças ao hit "Wrote for Luck". Outro nome ilustre ajudaria o grupo a encontrar seu caminho: Vince Clark, do Erasure, acrescentou a batida house à faixa, transformando num pequeno sucesso nas pistas. Tudo se encaixava na cabeça de Tony Wilson: rock britânico, funk, house music... Os Mondays seriam a banda símbolo da geração Haçienda.

Para o terceiro disco do grupo, os produtores exatos - revelações das incipientes raves urbanas, os DJs Paul Oakenfolds e Steve Osborne encararam os Mondays de igual pra igual. Encharcados de drogas e com sexo saindo pelo ladrão, produtores e banda se enfiaram num projeto pessoal que mudariam suas vidas - e a história do rock. Estúdio de dia, festas à noite - e logo esta equação perdia o sentido, à medida que eles iam dormindo menos e misturando dia e noite, festa e estúdio. Nascia o clássico Pills’n’Thrills and Bellyaches e o principal movimento inglês dos anos 80. Nasciam os anos 90.

O hedonismo setentista desbravado pelos Happy Mondays em seu principal álbum era o mesmo que originaria o Primal Scream, as raves campestres, Quentin Tarantino, Trainspotting, Boogie Nights e a redescoberta do funk e da discoteca. Ao mesmo tempo, ajudava a galvanizar o rock inglês que culminaria com o britpop e as cenas de big beat e trip hop. Sim, eles passeavam pela mesma Paul’s Boutique que os Beastie Boys inauguraram um ano antes, antevendo a década vindoura como um paraíso de sexo, ritmo e noites viradas ainda mais intensa que os anos 60 e 70.

Mas eles não eram os únicos na cena. Da mesma Manchester sairiam os Stone Roses, os Inspiral Carperts e os Charlatans. Os primeiros surgiam como os grandes nomes da cena porque agregavam elementos de rock clássico, reverenciando a psicodelia do verão do amor e dizendo-se "a maior banda de todos os tempos". Os Carpets tinham Noel Gallagher como roadie, onde ele aprendeu as artimanhas do showbusiness e inventou seu próprio marketing poucos anos depois, com o Oasis. E os Charlatans são os únicos que continuam na ativa, fazendo o elo perdido entre a geração baggy e o britpop.

Baggy? A culpa era das calças largas, mas este novo gênero nunca encontrou um rótulo específico. Uns chamam de indie dance (por unir rock independente e dance music), outros de baggy rock e um trocadilho mapeava geograficamente a cena. Madchester se tornou um termo comum na imprensa musical no final dos anos 80. Mas todas as outras bandas eram comportadas e inofensivas o suficiente para serem arquivadas juntos com o Deee-Lite (que pertencem à outra elite), os Soup Dragons e os EMF. Apenas os Mondays davam à Madchester a cota de loucura para poder ser chamada de "mad (louco)". Diz o DJ John Peel: "os Mondays são a única banda a qual eu aplicaria o termo Madchester".

Afinal, a noite não era só uma celebração. Era uma festa como outra qualquer, com velhos hits de discoteca, palavrões, brigas, bebedeiras, overdoses, gente transando, gente dançando, quase todo mundo com os olhos semicerrados à luz orbital do globo espelhado. A perda de sentidos nos faz fazer coisas boas e ruins - mas não tem problema, o que importa é estar lá. Em seu terceiro álbum, os Mondays eram este lá.

Pills... começa com a clássica "Kinky Afro", o primeiro single do álbum, algo como se o New Order regravasse alguma música do disco Sticky Fingers, dos Rolling Stones. "Eu não tenho nenhum osso decente em mim/ O que você tem é o que está vendo", sussurra Shaun, ainda magro e com franja, "eu não entendo o que você está dizendo/ Vai, diz aí/ Vem cá e me diz de novo". O grito que abre o refrão ("Yipe-yipe-ai-ai-ye-ye-yeah") vem emprestado do hino disco "Lady Marmalade", da cantora Labelle, e o clima mistura funk, rock e house com o mesmo frescor das noites da Haçienda. Como Tony Wilson havia imaginado.

"God’s Cop" continua o clima de autocelebração e funk rock eletrônico, com Shaun pedindo aos céus pra ajeitar as coisas pro seu lado: "Deus, facilita/ Deus, facilita pra mim/ Deus, que chovam Es/ Deus, que chovam Es em mim". Pedido aparentemente atendido, o vocalista começa a tirar onda de sua intimidade com o cara de cima. "Porque eu e o chefe somos quase irmãos/ Eu e o chefe ficamos chapados devagar". A repetição do ritmo e do groove é a arma secreta que faz Oakenfold até hoje ser considerado um dos melhores DJs do mundo e ele exercita-a por todo disco, começando pela seqüência final.

"Seis vagabundos num hotel vazio/ Cada um deles com uma história pra contar/ Dê-lhe pílulas para suas cabeças não pararem", "Donovan" - batizada em homenagem ao baladeiro folk dos anos 60, com quem excursionaram antes de Pills ser lançado - começa lenta e macia, um groove funk caribenho que serve de base para Ryder inventar a história de sua banda, "meu bando partiu e voltou pro inferno/ Então abri as janelas pra não começar a feder/ Continue fazendo o que estava, porque isso você não faz direito". Os Mondays fazem todos notívagos se sentirem um pouco marginais, por freqüentarem este ambiente de crimes, dinheiro e sexo gratuito, como uma forma de livrar um pouco sua própria cara.

Mas esta não é sua preocupação. Em "Grandbags Funeral", ele é forçado a viver seu momento careta no enterro de um avô e pergunta-se porque tanta comoção: "Foi só o avô que morreu/ Ele não sabia o que você fazia/ E todos seus amigos eram brancos". "Loose Fit" deixa a percussão latina assumir o controle e o ritmo diminui - como a tolerância de Ryder aos outros. "Faça o que estiver fazendo/ Diga o que estiver dizendo/ Vá onde estiver indo/ Pense o que estiver pensando/ Gaste o que tem/ Pague o que pode/ Olhe para onde estiver indo/ Diga o que estiver pensando/ Mate quem estiver matando/ Cante se estiver cantando/ Fale se estiver falando/ Pra mim, tudo bem". Estamos em plena pista de dança e a sensação é que isto nunca vai acabar. "Right on, right on", incita "Dennis and Lois", na mesma sintonia.

"O que você quer ouvir quando faz amor?", pergunta sussurrando o vocalista, enquanto a dupla de produtores embala um funk lento e sinuoso com acento latino na semipornográfica "Bobs Yer Uncle", escrita a pedido de Oakenfold ("faça uma sexy para as senhoritas..."). "Step On" ressuscita "He’s Gonna Step on You Again", de John Kongo, e transformou-se no segundo single do disco. "Holiday" dá uma batida no ouvinte numa praia deserta, enquanto Ryder preocupa-se porque "cheira à droga". "Harmony" termina o disco em grande estilo, psicodelia com noise do Velvet Underground repetida como um mantra, ela serve de base para Ryder dar a receita da felicidade: "Eu gostaria de ensinar o mundo a cantar em perfeita harmonia/ Corte em pedacinhos/ E dê-os de graça/ (...) O que precisamos é de um grande pote/ Grande o suficiente para cozinhar toda maravilhosa/ Bela, convincente, amável idéia que tivermos". O detalhe é que "pot", em inglês pode ser "pote" ou "maconha".

Musicalmente, o disco obedece à mesma infalível fórmula: guitarras psicodélicas como se fossem tocadas pelo Velvet Underground (ou pelo Jesus & Mary Chain), quilos de teclados legais usados com bom gosto (Hammond, piano, Fender Rhodes, tudo com um pé no soul), um tremendo groove de baixo (geralmente recauchutado pelo estúdio), uma bateria firme e fixa (que também recebia tratamento mecânico pelos dois produtores) e eventuais backing vocals e efeitos. As técnicas de produção seguiam tendências vindas de diferentes fontes: do dub jamaicano, dos DJs nova-iorquinos e de Detroit, das novas possibilidades do sampler (recém-lançado então) e da Stax. O caldeirão de suíngue dos Happy Mondays borbulha na temperatura certa em seu terceiro disco.

O excesso de Kentucky Fried Chicken (a gíria da banda para heroína) fez com que o sucesso dos Mondays fugisse do controle. No auge, o grupo chegou até a tocar no Brasil, com Ryder anunciando à imprensa que desceria para cá com "10 mil pílulas de ecstasy", para aflição da polícia brasileira. O quarto álbum do grupo, Yes Please, custaria 250 mil dólares para ser gravado em alguma ilha paradisíaca nas Bahamas, com o casal Tom Tom Club (Chris Franz e Tina Weymouth, a cozinha dos Talking Heads) na produção. O disco afundou em todos os sentidos e a banda cedeu à gravidade. Por volta de 1993 ela implodiu de vez. Ryder reapareceria em 1995 com um novo grupo, o Black Grape (também com Bez), uma espécie de reencarnação dos Mondays. Mas mesmo com um excelente disco de estréia, seria difícil barrar os dias de ouro de Madchester. As cores da psicodelia vinham em flyers e comerciais, como insinuava a colagem da capa. Era a cultura rave começando a nascer, em meio às drogas e o idealismo semelhante aos que alimentaram as gerações hippie e punk. Poucos poderiam prever que o futuro pertenceria ao universo traçado pelos Happy Mondays em Pills’n’Thrills and Bellyaches. Talvez apenas eles mesmos soubessem.

Olha quem tá falando...

Materinha com o Capital pra Rolling Stone de abril. A resenha do disco você lê aqui.

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Agora pra sempre

Tocando para uma nova geração de fãs, o Capital Inicial vive os paradoxos entre a mocidade e a velha guarda e compara sua trajetória com a de Aerosmith e Ramones. Musicalmente juvenil e profissionalmente veterana, eles são uma banda de rock popular brasileiro

Por algum motivo, o Capital Inicial me lembra John Travolta. Sim, é inevitável pensar nos embalos de sábado à noite ao som do primeiro disco do grupo, um dos raros momentos em que o pós-punk brasileiro flertou com a música pop. Enquanto na Inglaterra e nos EUA, quem conseguiu se levantar da briga do punk lentamente dominou as paradas de sucesso (U2, Echo & the Bunnymen, Cure, Talking Heads), no Brasil o gênero que se levantou das cinzas dos Sex Pistols sempre foi visto como um artefato apenas experimental, aparelho de tortura musical em que jornalistas aspirantes a roqueiros tentaram a fama cult. Menos nos dois discos que colocaram Brasília no mapa pop brasileiro: as estréias homônimas de Legião Urbana e do Capital Inicial.

O Capital de hoje, por outro lado, ainda não dança com Uma Thurman em um filme do Tarantino. Pelo contrário, sua segunda vinda ainda está estagnada em algum momento entre um recomeço moderado (Atrás dos Olhos, o disco do retorno em 1998, é musicalmente próximo de Eletricidade, de 1991, o último disco antes da saída do vocalista Dinho Ouro-Preto, e é o modelo ao redor do qual eles reinventaram a banda) e uma versão branda da máquina de nostalgia dos anos 80 (em dois projetos com a MTV, o Acústico, lançado no ano 2000, e o especial sobre o Aborto Elétrico, em 2005). Estamos assistindo às diferentes continuações de Olha Quem Está Falando.

Pra quem passa sem olhar, o renascimento do Capital é apenas John Travolta conversando com um bebê. Quem viu o filme, no entanto, sabe que o truque é justo o contrário: Travolta näo se esforça para ser entendido pelo bebê, e sim conversa com ele como se ele fosse qualquer outra pessoa. É o único jeito que ele sabe falar, é a única coisa que ele pode fazer.

"Agora/ Pra sempre/ Vou embora, mas eu nunca disse adeus", canta a faixa-título do novo disco da banda, Eu Nunca Disse Adeus, num dos inúmeros paradoxos entre mocidade e velha guarda que são transformados em frases de efeito pelas letras do décimo segundo disco da carreira da banda de Brasília. Musicalmente, a introdução da nova canção de trabalho acena para "American Pie", o hino de Don McLean sobre a primeira morte do rock, quando a notícia da queda do avião de Buddy Holly imortaliza o gênero na adolescência da cultura popular. Problema das bandas de rock que viveram para além de sua juventude. Uma equação particular, que cada grupo soluciona à sua maneira, mas que inevitavelmente leva para o mesmo resultado: profissão roqueiro, arte burocrática.

Encontro a banda numa ocasião formal, uma entrevista acertada para a divulgação do novo produto com a marca da banda. Emails trocados, fotos marcadas, datas ajustadas e minha vez de falar com os quatro integrantes acontece no final de uma rodada de três dias de entrevistas. Matérias lentamente começam a aparecer aqui e ali, primeiro em sites, depois em jornais e revistas, logo na TV. Há pouco menos de uma década, este encontro aconteceria em um espaçoso escritório com vista para a zona oeste paulistana, mas hoje o que sobrou da Sony e da BMG funciona no mesmo prédio da Sonopress, num quarteirão no meio do nada na Barra Funda, em São Paulo. O humor da mudança é a ironia: antes a banda era inexperiente e passeava inconseqüente pelos corredores das multinacionais que já a tiveram em seu elenco; hoje, veteranos, os integrantes do Capital reúnem-se sérios como um dos nomes que ainda ajuda esta instituição semimorta - a gravadora de discos - manter-se funcionando.

Eles terminam um papo com a equipe de um portal de internet e a assessora do grupo me chama para a sala de reuniões. Primeiro, rápidos cumprimentos e logo nos posicionamos numa longa mesa, O baterista Fê Lemos, o guitarrista Yves Passarelli e o baixista Flávio Lemos sentam-se lado a lado, e deixam a cabeceira da mesa para o vocalista Dinho Ouro-Preto. Deve ser força do hábito. Afinal, logo que o gravador é ligado, ele insiste em conduzir o papo. Ele gesticula, arregala os olhos, afeta as palavras em inglês para enfatizar sua pronúncia original - domina a conversa, e mesmo com os outros três quartos do Capital presentes em cada brecha prontos para "abrir um parêntese" ou "falar outra coisa", ele não deixa de querer ser o centro das atenções e a voz da história. Normal: coisa de vocalista.

Seu ego, no entanto, parece domado, passadas décadas dos dias de glória como garoto-propaganda de uma banda-símbolo da safra de novas bandas que invadiu o rádio e a TV na década de 80. E o que poderia ser uma extensa digressão sobre sua própria influência na história da humanidade torna-se uma espécie de terapia em voz alta, em que ele lista mea-culpas, busca referências do passado ao fazer ressalvas sobre a lembrança ser apenas sua versão - e não a definitiva - dos fatos e sublinha, seguidas vezes, que a primeira fase da banda foi marcada por uma seqüência de erros que afundou o grupo no começo dos anos 90 e também é responsável pela estabilidade do grupo após seu retorno, de 1998 até hoje.

Por outro lado, os irmãos Flavio e Fê Lemos e o mais novo integrante da banda, o ex-Viper Yves (que assumiu as guitarras quando um dos fundadores da banda, Loro Jones, deixou o barco em 2002, após a bem-sucedida turnê do Acústico MTV do grupo), o deixam falar à vontade. Uma entrevista com o grupo é um pocket-show do Capital Inicial sem música e os três sabem que o importante é deixar o vocalista fazer o que sabe melhor - e dar entrevista é uma tarefa tão natural para Dinho quanto fazer um show, é uma parte do showbusiness tão importante para o artista. Embora o soltem, puxam o assunto de volta sempre que esbarram em temas como a identidade musical da banda, as limitações técnicas como instrumentistas e a imaturidade durante os anos 80.

"Perdi as vezes que amigos chegam pra mim e falam baixinho", ele reclina-se como se fosse contar um segredo. "'Seja sincero, você gosta de Caetano Veloso?'". Pequena pausa para dramatizar o momento - tudo inconscientemente estudado, pronto para a frase de efeito: "Eu odeio Caetano Veloso!", diz e ri, enquanto conserta uma possível controvérsia de ocasião - afinal, mesmo do lado de lá da vitrine há um quarto de século, Dinho pertence a uma geração de artista que mede as palavras como se quisesse editar o jornalista - típico de outros comunicadores dos anos 80, como Humberto Gessinger, Lobão, Paulo Ricardo e Renato Russo, compositores que inverteram o adágio e, por pouco, não sacralizam que "todo roqueiro é um crítico frustrado". "Quer dizer, pessoalmente, ele é muito gentil, educado, de uma simpatia transbordante", remenda. "Mas eu não gosto de MPB!", retoma com o mesmo afinco, sem personalizar no velho baiano a sigla que é quase sinônimo de mainstream "sério" no Brasil.

"Tem gente que pergunta se fazemos um esforço pra nos comunicar com um público jovem. Não, a gente faz o que sempre fez. O Joey Ramone morreu com a minha idade - imagina se se os últimos discos dos Ramones tivessem ficado adultos, com temas adultos... O Sting fez isso e deu no que deu - não é à toa que ele voltou com o Police, porque é o único jeito que vão lembrar dele", segue o vocalista.

Mas o rock que hoje o Capital defende não é tão distante da MPB - em dois sentidos. Primeiro, por tratar a rebeldia ou a balada como produto vendável, com um certificado de qualidade dúbio, resumido no próprio nome do artista, cujo peso varia entre o impacto deste no imaginário coletivo e no mercado da música; ou seja, em nós. Depois, se lembrarmos do que era o negócio fonográfico ao começar seu diálogo com o público adolescente, encontramos os nomes que formam o Olimpo deste novo império (Phil Spector, Brian Wilson, os Beatles, a Motown, os Stones, Burt Bacharach, Roberto e Erasmo) ralando de sol a sol, lançando canções e discos num ritmo industrial, longe do inconformismo contra "o sistema" ou de ataques de estrelismo.

Esta solução transforma a atual música pop nesta instituição lenta e sorridente, uma corporação global do bom-mocismo. O que antes era uma manifestação subversiva de adolescentes querendo se divertir a qualquer custo, agora é uma máquina de franchising de longevidade profissa. Seja Aerosmith, Red Hot Chili Peppers, Coldplay ou Skank. Ao atingir essa maturidade inofensiva e abrir mão de seus elementos de maior risco (estes hoje estão dispersos em MP3s anônimos de pseudônimos de semicelebridades em blogs indies ou em servidores de multinacionais das telecomunicações), o pop dos anos 00 chega a uma morosidade semelhante à que a sigla MPB condiciona a música brasileira à realidade pós-bossa nova - onde tudo que não é MPB não é sério, nem merece entrar para a história.

Por outro lado, a banda não é mais uma caricatura distorcida do que era uma banda pop nos anos 80. Seu renascimento no final dos anos 90, aos poucos apaga a tragicômica carreira da banda em seus primeiros dias. A maturidade atual, por outro lado, é sempre festejada e compartilhada entre os três integrantes iniciais, que sempre que falam dos motivos do sucesso do final dos anos 90, convergem para a acertada decisão em construir uma carreira de novo a partir dos elementos iniciais, em vez de adaptar-se à cena sem imaginação de nostalgia da década de 80 ou tentar reinventar-se pela quinta ou sexta vez. Mas por outro lado, é difícil imaginar que isso seja uma tática - eles acreditam mesmo que não há problema em fazer rock depois dos 40 anos.

O título do novo disco - o 12º da carreira e o sexto desde a volta - é fruto desta convicção. Eu Nunca Disse Adeus diz respeito à disposição da banda em continuar firme no território da eterna fuga do rock'n'roll. Dinho começa a explicar-se: "No começo da carreira nós nos desentendíamos muito e éramos desleixados com as coisas que produzíamos, daí a irregularidade dos primeiros discos, que é fruto de uma certa omissão, coisas que eram feitas sem nossa supervisão, e da nossa auto-indulgência, quando achávamos que tudo que fizéssemos tava bom. Isso fez com que a carreira fosse errática nos anos 80".

Na nova fase, uma renovação considerável de público afasta o Capital do fantasma dos anos 80 e os posiciona como uma banda de rock popular - musicalmente juvenil e profissionalmente veterana. "Acho que parecemos o Aerosmith", explica Dinho, "muito por termos cagado tudo quando fizemos sucesso da primeira vez, mas também pela forma como retomamos nossa carreira. Quando eles voltaram, estavam idênticos ao que eram. O Pump e o Get a Grip, que são os discos de volta do Aerosmith, são muito parecidos com os clássicos deles, o Toys in the Attic, Rocks...".

O Capital Inicial é um dos pilares do rock de Brasília, quando a cidade ainda tinha vinte e poucos anos e começava a entrar no imaginário nacional como algo mais vivo que apenas a sede do poder federal. Os irmãos Fê e Flávio passaram 1977 em Londres, viram o punk nascer e mandavam fitas cassetes para os amigos da cidade que haviam descoberto o gênero pelas páginas de revistas importadas. Fê voltou com uma bateria e lançou a pedra fundamental do rock da cidade, o grupo Aborto Elétrico, que ainda contava com o baixista André Pretorius e o vocalista Renato Russo, o primeiro passo da carreira do sujeito. A banda implodiu ainda no começo dos anos 80, quando Russo saiu para fundar a Legião Urbana (depois de uma breve carreira solo) e Fê seguiu para criar o Capital Inicial. Era o início do punk de Brasília, que ainda teria bandas como Blitz 64, Metralhas, XXX e Plebe Rude entre seus primeiros protagonistas.

Dinho - que começou na minúscula cena da cidade como editor de um fanzine (chamado "Fan Zine") - era só um fã quando Heloísa Teixeira ainda cantava na banda, mas o vocalista curitibano foi convidado para entrar no grupo e se estabeleceu como frontman e Capital firmou-se como um dos principais nomes da cidade. Isso acontece ao mesmo tempo em que o rock brasileiro se torna a trilha sonora para o fim da ditadura militar e toda uma geração encontra espaço para se estabelecer com a nova música popular brasileira. O novo rock bate de frente com a MPB e apresenta um novo público para o mercado brasileiro de discos. Fenômeno de massas, a geração 80 floresce em diferentes cidades e ergue dezenas de grupos para o topo das paradas de sucesso, devolvendo-os logo em seguida para o anonimato.

O fato de ser citado em qualquer antologia de música brasileira dos anos 80 não faz com que o Capital Inicial seja uma de suas principais bandas. Ser um dos principais coadjuvantes (ao lado da Plebe Rude) da cena que revelou a banda de rock mais popular do Brasil fez com que o grupo de Dinho e dos irmãos Lemos se tornasse referência, mas seu impacto musical é reduzido e restrito a hits esparsos numa discografia irregular, que só se estabiliza após a volta, em 1998. "A entrada do Bozzo (Barretti, tecladista efetivado como integrante do grupo a partir do segundo disco, Independência, de 1987) desequilibra tudo", Dinho admite e abre o confessionário da entrevista. "Ele era músico de formação, trabalhou com o Arrigo Barnabé e ele pegava no pé de todo mundo. Isso intimidava a gente. Ele não tinha a nossa origem, não era de Brasília, nunca tinha ouvido punk, não conseguia ouvir Cure! Ele falava que o Robert Smith era desafinado! Ele entra em 87 e eu confesso, muito por decisão e influência minha. Eu não sabia escrever, não sabia cantar, não sabia tocar nenhum instrumento e achava que o Capital seria incapaz de dar uma seqüência à nossa carreira se não tivéssemos um músico que conhecesse música. Foi nosso maior erro… Não pelo Bozzo como pessoa, mas foi um grande erro conceitual, em relação à minha insegurança".

"E em 87,a gente assinou com o (empresário de shows Manoel) Poladian e fez a turnê do Sting no Brasil. E o grande lance era esse, 'o Capital ia abrir os shows do Sting!'", lembra o baterista. "E o Sting chegou com aquele show jazzístico, sem os sucessos do Police e não agradou à platéia. E por outro lado, tinha o Capital com 'Música Urbana', 'Fátima' e 'Independência' e mesmo tocando na beiradinha do palco, com 30% do som, sem passagem de som e ainda dia, a gente consegue agradar a galera. A gente se sai bem da turnê. Lançamos o 'Independência', abrimos bem a turnê do Sting, contratados pelo maior empresário do Brasil. E o Poladian deixou a gente três longos meses sem fazer nada. Passou outubro, novembro... 'Vamos começar a nossa?'. E eles adiavam. Virou o ano e fomos conversar sobre 'o primeiro show da grandiosa turnê do Capital', no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo". "Com a Fafá de Belém!", emenda Flávio, rindo.

"Aí a gente ficou com teorias de conspiração, que o cara tinha contratado a gente para nos tirar do cenário e não atrapalhar o sucesso do RPM, que também era contratado dele. Até hoje eu não consigo entender. E aí acontecem duas coisas: no momento em que o Capital tava mais bombado, a gente parou de fazer shows, e o disco seguinte que a gente faz é um desastre absoluto", admite o vocalista. Fê tenta botar panos quentes: "…que poderia ter sido salvo se tivéssemos trabalhado o single um pouco mais...". "Ou se a gente estivesse na gravação, se a gente tivesse tirado aqueles metais todos, diminuído os teclados... A culpa foi toda nossa", segue o vocalista. "O terceiro disco (Você Não Precisa Entender, de 1989) é um consenso entre nós, foi o nosso maior erro. Pra você ter idéia, enquanto o disco tava sendo feito, a gente tava cheirando cocaína em cima do piano. A gente tava pouco se fudendo, cara. Enquanto rolava a mixagem, a gente tava bêbado na piscina do hotel. Mas quando a gente foi ouvir o negócio… O Bozzo tinha enchido de metais do começo ao fim, teclados pra tudo que é lado. E já tinha sido! Já tinha ido pra loja!".

"Não é que tudo foi ruim, mas nos anos 80 foi tudo muito irregular", continua. "e por ter essa insegurança generalizada que nos caracterizou nos anos 80, quando surgiu o grunge, a gente desabou de uma vez. E não sabíamos mais o que fazer. Porque o grunge era mais ou menos o que nós éramos no começo dos anos 80, mas dessa vez a gente era o inimigo! Nós éramos o alvo da chacota, nós que devíamos ser aliados dos caras. Foi quando a gente viu que desandou tudo, e que era melhor parar e procurar outros rumos".

"No começo dos anos 90, aconteceu o renascimento do metal e aparece a bateria de dois bumbos e toda banda de rock que se prezasse tinha que ter bateria com dois bumbos", lembra Fê. "Eu não sabia tocar direito com um, mas fui lá, comprei meu pedal duplo e passei um ano com aquela geringonça que não tinha nada a ver com o som do Capital! Mas todas as bandas tinham que ter dois bumbos… Quando a gente abriu pro A-ha no Rock in Rio II, eu não conseguia tocar as músicas tradicionais do Capital porque tinha que usar os dois bumbos e eu não sabia usar um só e ficou desastre completo!".

"Quando desanda esse negócio com o grunge, a gente passa a sentir vergonha do que tinha feito", continua Dinho, para começar a falar sobre o renascimento da banda, com sua formação original. Na primeira metade dos anos 90, o Capital sobrevive com o vocalista Murilo Lima no lugar de Dinho, que parte para a formação de uma nova banda (Vertigo), e em seguida lança seu único disco solo, enquanto a banda lança dois discos independentes sem nenhuma repercussão. Até que Loro passa a freqüentar o estúdio do produtor iugoslavo Mitar Subotic (o Suba, 1961-1999), em São Paulo, com quem Dinho já trabalhava. O guitarrista havia saído do grupo em 97 e ao voltar a conversar com Ouro-Preto, passa a cogitar a hipótese da formação original voltar. "Foi uma merda como acabou. Muita frustração, né? A gente tinha empenhado toda nossa juventude naquilo, olhava pra trás e via onde tinha errado e via nossos companheiros seguindo carreira… Era muito frustrante e essa frustração fez com que cada um de nós culpasse um ao outro", lembra o vocalista.

E em março de 98, depois de quatro anos e meio sem se falar, os irmãos Lemos e Dinho se reaproximam e a volta do Capital Inicial começa a ser pensada. "A gente voltou devagar e, aos trancos e barrancos, fez uns shows, totalmente pautados em nostalgia", continua Dinho, "mas logo surge a possibilidade de gravar e é ali que a gente percebe que o único modo de continuarmos era se compuséssemos um repertório novo - já tínhamos feito uma turnê com as canções velhas e aquilo não ia longe. Não tinha opção - não dava pra fazer disco ao vivo ou remix... A única solução para voltar era compor coisas novas. E o Atrás dos Olhos, que é esse disco de 1998, tem uma repercussão surpreendente. O disco saiu no final de 98 pela gravadora Abril Music, e o ano seguinte fizemos 70 shows, em todas capitais, fizemos o Palace lotado, duas vezes no ano... Começa a aparecer garotada, de 15, 16 anos... "

E assim renasce o Capital Inicial, que aproveita a boa repercussão do disco para emendar um Acústico MTV no ano 2000, disco que vende mais de 250 mil cópias e garante dois anos na estrada para a banda, com quase 200 shows para promovê-lo.o final desta etapa, o guitarrista Loro Jones sai de cena sem atrito, Yves assume sua vaga e a banda ainda gravaria Rosas e Vinho Tinto (2002) e Gigante (2004), além do projeto Aborto Elétrico, que resgatava o repertório da primeira banda punk de Brasília num show para a emissora do grupo Abril. "A gente tá confortável em ser o Capital. É isso o que a gente faz, é a nossa marca. A gente deu uns tropeços, mas vive essa segunda chance. Vamos mostrar que não vamos repetir os mesmos erros de novo. Hoje tem um rumo, não tem mais a confusão conceitual. A gente só toca o que a gente sabe tocar. É tudo simples: poucos acordes, letras direto ao ponto. É isso o que somos".

Olha quem tá falando...

Eu Nunca Disse Adeus - Capital Inicial

Essa resenha foi o abre da seção de discos da Rolling Stone de abril, que ainda tinha essa matéria aí de cima.

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O bom e velho mais do mesmo

Não é que o rock e o pop sejam opostos atraentes ou vertentes complementares de uma mesma história. Rock é teste de sobrevivência - ver quem escapa da máquina de moer carne e quem deixa o cadáver bonito;pop é carisma irremediável - convencer sempre que tudo está legal e que tudo pode mudar. Ambos podem coexistir pacificamente e é essa combinação que faz sucessos tornarem-se clássicos. O rock, no entanto, raramente se dispõe a testar seus próprios limites depois de velho. Isso vale tanto para a idade do gênero quanto para a maturidade de qualquer banda de rock.

Eis aí o Capital Inicial, com quase dez anos de carreira depois de um retorno que parecia mero caça-níqueis típico de sua geração, mas que persiste bravamente como se tivesse começado a existir no final dos anos 90. E mesmo com dois especiais pró-nostalgia veiculados na MTV, é injusto rotulá-los como "banda dos anos 80" - mesmo porque, nem soam mais como uma. Estão sim, exatamente entre o pop e o rock.

E qual é o problema disso? Aparentemente, nenhum. Como o disco de outras bandas que habitam esta zona do crepúsculo (dos Stones ao Police, do A Cor do Som ao Pato Fu), Eu Nunca Disse Adeus é limpo e imaculado - há um capricho na composição e produção que não deixa nenhuma faixa com cara de sobra, existe uma coesão temática e sonora que se desdobra por todo o disco. Se o critério fosse este, Eu Nunca Disse Adeus seria irrepreensível.

Embora o verniz plástico da produção tire qualquer fibra de credibilidade de rua (talvez essa seja justamente a intenção - mais soar rock do que ser rock), o disco começa rock sem pop e "A Vida é Minha (Eu Faço O Que Eu Quiser)" é essencialmente adolescente. Mas é o boi de piranha, aquele que lançam na linha de frente da comitiva pantaneira para saber se a água é própria para o resto da boiada ou não. E uma vez aberto o caminho, é a vez de uma série de baladas ("Aqui", "Dormir", "Altos e Baixos", "Um Homem Só") e rockinhos light à Maroon Five ou Matchbox 20 ("O Imperador", "Boa Companhia", a faixa-título, "Eu Adoro a Minha Televisão"), que são o corpo principal do disco. Não se duvida que eles toquem rock, mas é fácil perceber que eles não tem mais vinte (nem trinta) anos.

Composto quase inteiramente por Dinho e seu fiel escudeiro Alvin L (um Fausto Fawcett Peter Pan que, como você e eu, amava o Bowie e o T-Rex) e produzido pelo mesmo Marcelo Sussekind que acompanha a banda desde a volta, o Capital pós-98 soa tão jovem e agressivo quanto o Oasis (outra banda-fórmula) em seu auge - mas isso não é propriamente um elogio. E assim, o resto do disco (fora "18", "Má Companhia" e uns riffs aqui e ali) acaba colocando o Capital Inicial na mesma prateleira (embora com um pouco mais de personalidade, é preciso admitir) de artistas pop/rock genéricos como Jota Quest, Danni Carlos, Kid Abelha ou Charlie Brown Jr., gente que preenche a lacuna "rock" nestes festivais de rádio que juntam Chiclete com Banana, Marcelo D2 e Cidade Negra.

O Capital em 2007 é familiar e manjado como os últimos discos do U2 ou as últimas décadas dos Ramones ou dos Stones. Não há choque, não há atrito - como a proverbial banda da propaganda de refrigerante, a juventude do ano 2000 tornou-se ainda mais vazia e sentimental. Tempos neoconservadores: tome nü metal, emocore, axé music e psy trance pra ser jovem nos dias de hoje.

Ou esse rock condensado como Leite Moça. Como os dinossauros já citados ou os parques temáticos que tanto gostamos (Dark Side of the Moon, Tommy, Mutantes, Pixies, Brian Wilson), o Capital Inicial se fantasia de si mesmo e traz o bom e velho mais do mesmo - pra quem ainda precisa de mais do mesmo. As músicas grudam, os refrões funcionam, os riffs são de rock - mas a atmosfera formulaica está presente em todo o disco. Se você só quer o Capital Inicial, vá fundo. Mas se a procura é por algo mais, siga outras pistas.

maio 24, 2007

Duas vezes Gente Bonita

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Gente Bonita @ Audio Delicatessen
Mais um preview da temporada Outono/Inverno 2007
CDJs residentes: Luciano Kalatalo & Alexandre Matias
Discotecário convidado: Dodô Azevedo (lançando o livro DJ Pessoal)
Sábado, dia 26 de maio de 2007
23h (Sem hora para acabar)
Local: Audio Delicatessen - Rua Mourato Coelho, 651 – Vila Madalena
Telefone: (11) 3097 0880 e (11) 3816 1220.
Preço: R$ 20 na hora / ou R$ 10 para cadastrados no site www.gentebonita.org

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Gente Bonita @ Studio SP
E ainda outro preview da temporada Outono/Inverno 2007
DJ residente: Miss Ma
CDJs convidados: Luciano Kalatalo & Alexandre Matias
Show: Cidadão Instigado
Sexta, dia 26 de maio de 2007
23h
Local: Studio SP - Rua Inácio Pereira da Rocha, 170 - Vila Madalena, São Paulo
Telefone: (11) 3817-5425
Preço: R$ 15 com nome para studiosp@studiosp.org, ou R$ 25 na hora.

São duas as oportunidades de se esbaldar até as pernas cansarem neste fim de semana. A primeira, nessa sexta, quando a dona da festa Rockload, Miss Má, nos recebe para chacoalhar quadris e semear paixões em fúria em forma de bordoadas de groove e riffs de guitarra. A primeira noite é no Studio SP e ainda tem o show do Cidadão Instigado. Coisa fina.

Já o sabadão é nosso. Mais uma vez no Audio Delicatessen, recebemos um DJ convidado mais do que célebre, o vascaíno Dodô Azevedo, que celebrará o milésimo gol do Romário e o lançamento de seu segundo livro - o DJ Pessoal, leitura pros ouvidos, vai na fé - no aquecimento no comecinho da naite, para depois passar os toca-CDs pras nossas mãos - e aí você já sabe onde queremos chegar. Sem firulas, direto no ponto, que é fazer você curtir e curtir estar curtindo.

Em qual delas ir? O lance é o seguinte: se inscrevendo na lista aí do lado, você concorre a dois pares de ingressos de graça para a noite de sexta e está automaticamente inscrito em nossa lista de descontos do sábado. É isso aí - se der, você ainda vai nas duas (e olha que eu sei que você balançou aí...). Se não, uma delas já faz um senhor estrago feliz.

Repetindo o selviço:

SEXTA

Gente Bonita @ Studio SP
E ainda outro preview da temporada Outono/Inverno 2007
DJ residente: Miss Ma
CDJs convidados: Luciano Kalatalo & Alexandre Matias
Show: Cidadão Instigado
23h
Local: Studio SP - Rua Inácio Pereira da Rocha, 170 - Vila Madalena, São Paulo
Telefone: (11) 3817-5425
Preço: R$ 15 com nome para studiosp@studiosp.org, ou R$ 25 na hora.

SÁBADO

Gente Bonita @ Audio Delicatessen
Mais um preview da temporada Outono/Inverno 2007
CDJs residentes: Luciano Kalatalo & Alexandre Matias
Discotecário convidado: Dodô Azevedo (lançando o livro DJ Pessoal)
Sábado, dia 26 de maio de 2007
23h (Sem hora para acabar)
Local: Audio Delicatessen - Rua Mourato Coelho, 651 – Vila Madalena
Telefone: (11) 3097 0880 e (11) 3816 1220.
Preço: R$ 20 na hora / ou R$ 10 para cadastrados no site www.gentebonita.org

Heart and Soul...


...one will burn.

A Scanner Darkly

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Faixa de pedestre em Porto Alegre (foto do ZH), via Nasi.

maio 23, 2007

Cover do dia

Pato Fu tocando Sisters of Mercy Siouxsie & the Banshees (rata minha Pinduca, pensei numa coisa e escrevi outra :P). Dica do Luiz.

Eu te disse

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Pornografia na Internet

maio 22, 2007

Miguxeitor

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Agora, se aparecer um DESmiguxeitor, me avisa, que vai ser útil.

Jack Bauer x Bart Simpsons

Fúria de titãs!

CSSmania

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Cansei na capa do NME e no blog da Ivete (se você não quiser passar pelo constrangimento de entrar nisso, clica aqui), sendo remixado pelo Simian Mobile Disco e fazendo mashup ao vivo na BBC (esse último, cortesia do Lúcio) :P

O Rizoma voltou!

Valeu, Ricardo!

Shift Happens

E ainda sobre esse assunto, e sobre mashups...

O que é mashup?

Vida Fodona #084: Me diverti paca

Ponha os fones e get in da groove.

- "Tom Courtenay" - Yo La Tengo
- "Planet Earth" - Duran Duran
- "Pensei Se Há" - Bonsucesso Samba Clube
- "Powers of Kryptonite" - DJ BC
- "Disco do Roberto" - The Feitos
- "Sun King" - Beatles
- "Futurismo" - Kassin + 2
- "Supernova" - Liz Phair
- "Don't Talk (Put Your Head on My Shoulder)" - Beach Boys
- "See That Animal" - Elastica
- "Promiscuous Human" - RObbie Revenge
- "Champagne Girl" - The Zuckakis Mondeyano Project
- "U-Informe" - Black Alien
- "Amnésia" - Fontaka
- "Semáforo" - Vanguart
- "Cars" - Gary Numan
- "Ex-Lion Tamer" - Wire
- "Blue Tanger" - Gabriel Muzak
- "Pop Song '89" - R.E.M.
- "Toda Cor" - Titãs
- "Pumpin on the Stereo" - Supergrass
- "Baranga" - João Brasil
- "Me Against the Music (Justice Mix)" - Madonna & Britney Spears
- "If You Want Me to Stay" - Mercury Rev
- "Jesus" - Velvet Underground
- "Baby, I'm Gonna Leave You" - Led Zeppelin

Vem comigo.

maio 21, 2007

Rambo 4

E você achava que ele tinha ido longe demais com o último Rocky...

Na Palomino

Culpa da Flavia, que agora é colunista do tal site.

TOP LISTS
* Alexandre Matias _metade da produção da festa de mash-ups Gente Bonita (dia 26.05 a próxima, no Audio Delicatessen)_ lista seus blogs de música favoritos, onde costuma caçar pérolas pra sua noite.

Brasileiros:
URBe
PopUp
Popload
Conector
ElCabong

Estrangeiros:
Fluo Kids
Palms Out Sounds
Missing Toof
Gorilla vs. Bear
Leak of the Week

Imagine uma festa

Outro texto velho, que eu resgatei da edição 224 do Cardosonline. A data é 17 de dezembro do ano 2000.

***

Imagine uma festa. Uma casa espetacular, de frente para um lago imenso, umedecendo o calor de uma noite de verão. Iluminação discreta e eficiente - lá fora, tochas fazem o caminho ao redor do lago; dentro, pequenos spots colorem as esquinas dos seis ambientes da casa. Na entrada, uma banda instrumental recepciona os convivas com versões supimpas para sucessos da Jovem Guarda e do samba rock. O hall é grande, é o ambiente mais iluminado (com cores pastéis) e está lotado - o som da banda se confunde com o bater dos copos, a falação, as risadas. As pessoas se circulam passando umas pelas outras, enquanto alguns casais se encostam nos três sofás de costas para o bar. "Dá uma passeada antes de escolher um lugar pra ficar", recomenda um cara que você não lembra de onde conhece, mas sabe que é gente boa. Então tá. Da entrada, cinco opções: ou seguir um corredor à direita que dá nos fundos da casa, ou subir uma escada à esquerda que vai para o segundo andar, ou descer uma escada do lado da porta do corredor que vai para o porão, ou sair pela porta à direita da casa ou continuar indo reto, entrando pela porta principal entre o hall e o salão principal.

Vamos seguindo o fluxo - em frente. Estamos num enorme salão, teto alto - isso aqui devia ter dois andares e derrubaram o segundo para ficar dessa altura. É isso aí, olha ali a escada da esquerda, com um segundo lance para o terceiro andar. A iluminação é de rave, mas o som é bem diferente – cinco carinhas se acabando num palco baixo numa mistura pesada de funk e jazz que se perde num improviso tribal instrumental. Dois baixos - e olha só o que aquele sujeito tá fazendo com o instrumento! Todo mundo está completamente hipnotizado pelo som, a esfregação passou para um nível ainda mais baixo - mas todos se tratam com respeito e bom humor. Lá de cima, um sujeito de barba branca distribui baseados, pílulas, cartelas e tíquetes vale-bebida. No meio da festa, uma enorme piscina cercada por uma parede de vidro – quem quiser pular, que suba para o terraço. As pessoas ficam só assistindo os malucos se jogarem do alto. A cada dois passos, você vê um conhecido, um velho chapa, um daqueles caras que você sempre vê à noite, um caso antigo, a namorada do cara daquela banda. Um dos patrocinadores garantiu uma fonte de drink energético - é só chegar e beber. Outro colocou uma dúzia de loiraças distribuindo garrafinhas de uísque. Tá todo mundo louco - oba.

No fundo do salão principal, outra escada vai para o porão. Depois de uns três lances de pedra para baixo - cada degrau nos afastando mais do som do térreo -, chegamos num hall menor, com a entrada supervisionada por dois porteiros gigantescos. Educadamente, eles abrem as enormes portas de madeira maciça e nos deixam passar para o inferninho clubber, dividido em duas pistas - à direita é a pista de house, do outro lado a drum'n'bass. O primeiro lado, parece um clipe do Right Said Fred, com fortões de todos os tipos se bolinando no ritmo. Claro que não é só isso - há aquelas mulheres que adoram gays e até casais que se acham moderninhos (olha aqueles dois coroas ali, tão claramente se divertindo). A outra pista é menos homogênea e todo tipo de gente se espreme enquanto o DJ cutuca os graves do jungle com baterias de escolas de samba ou os tambores de blocos afro. De vez em quando, o cara quebra um pouco a porrada e coloca um lado mais jazzy, com ênfase na bossa nova, deixando escapar frases conhecidas do imaginário musical popular brasileiro entre os telecotecos dos breakbeats. No meio das duas pistas, a piscina do andar superior, ainda com as paredes de vidro e os malucos do terraço explodindo silenciosamente quando caem na água – muitos sem noção do que vão ver debaixo d'água.

Ao fundo da pista de drum'n'bass, quase do lado do DJ, uma placa aponta - "venha descansar aqui", mostrando a entrada para um corredor escuro. Ao seu lado, uma escada trazia gente de um andar acima que entrava direto na porta do descanso, como se quisesse repetir a dose. Não custa nada, vamos lá. Andando pelo corredor - uns vinte metros no escuro, com umas três curvas, dá pra ficar meio puto -, chegamos a uma parede final que, tateando-a, descobrimos ser mais larga que o próprio corredor - ou seja, as saídas ficam nas laterais do corredor, só que no sentido contrário. Saímos por uma cortina preta de veludo, daquelas de cinema, e vamos parar num outro corredor, este branco, curvo e bem mais claro, onde poltronas duplas passam desfilando por uma esteira daquelas de aeroporto. "Tão chamando a gente de mala", brinca um japonês no grupo logo atrás. Acima, um telão mostra pessoas desavisadas escorregando dentro de uma piscina cheia de bolinhas de isopor, saudada por gritos histéricos de drag queens e transformistas. Só pra meter medo. Mas vamos nos acomodando e entrando no tal "passeio de descanso".

Que parece um parque de diversões com um metrô musical e um home-theater. Vamos andando num corredor cheio de curvas, que nos leva por palcos pequenos, onde bandas de diferentes formatos e estilos tocam músicas "para descansar". Bandas de indie rock reverenciando Cure, Smiths e Teenage Fanclub, duplas de bossa nova, uma roda de samba, um quarteto de jazz – tem até uma sala com um pianista cheia de livros e jornais. Em cada pequeno palco, uma voz anunciava o conjunto, enquanto a esteira parava e uma placa convidava os passageiros a descer e apreciar a apresentação mais de perto. Em todo show, pelo menos umas dez pessoas se estiravam em sofás, cadeiras de bar e tapetes, descansando com um som mais sossegado. Uma vez fora da esteira, avisa a voz, o passageiro não pode retornar, tendo que sair por uma escada ao fundo de cada um dos pequenos pubs, subindo para um ambiente fechado do lado esquerdo da casa. Lá em cima, uma banda de trip hop à brasileira faz seu show para um monte de gente espalhada em sofás e pelo chão, no canto da festa dedicado realmente ao descanso. Pelo salão, uns três ou quatro equipamentos de áudio e vídeo passam clipes legais de bandas queridinhas, filmes do Kubrick, uns neo-realismo italiano, uns Buñuel...

Cada poltrona daquela esteira tem duas caixas de som de cada lado, fazendo com que o som ouvido vindo do palco seja opcional. Ao final do passeio, uma banda de dixieland irrompe as caixas de som e convida para um baile de swing, enquanto a porta por onde as poltronas continuam seguindo avisam para você entrar por sua conta e risco. Tá no inferno, abraça o capeta. Depois de mais de quinze minutos andando com paradas misteriosas por corredores curvos iluminados por diferentes cores - e sem som -, chegamos numa sala pequena decorada como uma fornalha siderúrgica, cheia de efeitos imitando metal derretido e uns caras desentortando barras vermelhas de ferro a marteladas. Quando as poltronas páram, os caras páram de trabalhar, vão em sua direção e pedem numa boa para que você os acompanhe - e não tem essa de não querer ir, não. É tudo encenação, é tudo seguro - mas que raios esses caras estão fazendo? Eles chegam no que deveria ser o forno principal, apertam um botão, uma luz vermelha se acende, uma porta se abre, um deles pede para que você entre, você entra, ele fecha a porta (e você fica sozinho), as luzes se apagam, o chão desaparece e você começa a escorregar, até cair numa piscina de bolinhas de isopor pequeninhas, daquelas que grudam na roupa, no meio da pista de house. "Uuuh!", grita um monte de homem com jeito de mulher. Se você correr, quem sabe vê o próprio vídeo filmado na entrada da esteira.

Se você tivesse descido na pista de swing - Glenn Miller, Tommy Dorsey e Squirrel Nut Zippers comendo solto no repertório do DJ que reveza a trilha sonora com a própria big band do baile - e subido para o andar de cima (o do trip hop), teria duas opções de lá: ou voltava para o salão principal, passando por uma sala intermediária onde uma dupla de DJs tocava hits disco, ou subia para o terraço da festa. Lá, uma banda de rock à moda antiga, revive hits desconhecidos com gás, energia e vontade de botar tudo pra fora. O clima é de festa de faculdade, cerveja passando de mão em mão, mesas de totó e pingue-pongue, todo mundo gritando, aquela fumaceira para uns doce para uns azeda, gente virando bebida na garrafa na própria boca ou na cabeça dos outros. O céu, intacto, está estrelado e a lua cresce à medida que a noite passa. No meio do terraço, uma estufa de vidro. Quer dizer, não é uma estufa - é a tal piscina, coberta e fechada com paredes de vidro - só dá pra pular do teto e em queda livre, sem correr o risco de se espatifar nas paredes laterais. O povo sobe numa espécie de trampolim que leva até o meio do teto da tal estufa e, por uma cabina cujo chão se abre quando menos se espera, as pessoas vão caindo dentro da piscina. Sobe e pula quem quer e chega uma hora na festa que tá todo mundo querendo.

São três horas da manhã e a festa está em polvorosa - lá de cima dá pra ver. Me dependuro na escada para ver: na frente da casa, muita gente querendo entrar e entrando, enquanto um tanto de gente prefere ficar na entrada, curtindo as apresentações de maracatu, capoeira e outros percussionistas. À direita, o tal lounge trip hop, todo mundo estirado no chão de tatame, enquanto pessoas saem de portas na parede, subindo dos pequenos palcos espalhados pelo curso do trem-das-poltronas. Atrás, uma enorme tenda iluminada apenas por dentro tem um aspecto de disco voador feito de pano, ainda mais quando ouvimos o som que sai de lá - indistingüível, daqui de cima. À esquerda, um imenso churrasco a céu aberto, com uma banda de samba esquentando a galera. Vamos lá.

Churrascão, coisa fina. Lotadaço, mas todo mundo com lugar pra sentar. Garçons passando com pedaços inteiros de carne e bandejas repletas de bebidas. Todo mundo sendo servido numa boa, pratos inteiro de carne e um gigantesco bifê circular cheio de saladas e outros petiscos (queijos, molhos, docinhos, sobremesas, frutinhas... e um monte de maconheiro ao redor, pegando as coisas com a mão) e no final do lugar, uma banda de samba tocando só clássico e a galera se aglomerando na frente feito um enorme carnaval. Parte do pessoal que está sambando já tirou peças de roupa e o clima vai se tornando cada vez mais hedonista. Coisa de louco.

Saindo para o quintal da casa, nos dirigimos à tal tenda gigantesca, que é dividida em dois ambientes. O primeiro é completamente iluminado e holofotes apontam para buracos na lona, que dão o aspecto intergalático à tenda. Lá, uma banda de technopop canta velhos sucessos new wave e pós-punk, enquanto dezenas de moleques se enfileiram atrás de máquinas de fliperama. No final da lona clara, duas enormes portas nos levam à lona escura, ainda maior que a primeira. No chão, uma espécie de teatro de arena grego, coberto por uma lona que dá ao lugar o aspecto de um circo. Sem iluminação, o lugar só conta com a luz da lua, que entra por um enorme buraco em cima do palco. Na platéia, as pessoas descobrem a utilidade das lanternas que lhes deram na entrada - todas de luz vermelha ou azul. No palco, só música hermética e indecifrável: free funk, krautrock, exercícios de microfonia, improvisos acústicos, eletrônica alien, idiomas recém-descobertos. A saída acontece pela mesma porta da entrada, fazendo nos voltar à tenda das diversões eletrônicas - o que nos dá uma sensação de fim da hipocrisia em torno da salvação chamada de tecnologia.

Voltando à festa, podemos voltar ao churrasco ou ao salão principal. De volta ao começo da festa, um grupo de rap revisita velhos grooves de funk clássico para justificar o calor interior. Pela festa, um monte de gente conhecida, todos se divertindo por todos os cantos. O velhinho aparece na sacada e começa a jogar drogas de novo e a galera se acotovela para pegar unzinho qualquer coisa. O relógio marca cinco e meia, o sol já está dando sinal de vida, mas a impressão é que estamos dias nesta festa. Todo mundo só quer se divertir. Eu também. Vou lá pra cima, mergulhar na piscina. Você não
vem?

***

O rock é um coma. Estamos saindo do coma. À medida que os anos 50 passavam, os Estados Unidos conseguiram crescer cada vez mais sua influência no mundo ocidental, com um truque simples: dê conforto às pessoas e elas te aplaudirão. Passamos por uma subseqüente automatização comportamental - eletrodomésticos substituindo atividades caseiras e diversões mundanas sendo vertidas em produto (discos, filmes, parques de diversão, celebridades) para serem consumidos em altares gigantescos ao deus grana (pense nos conceitos de supermercado, shopping center, megastore, loja de departamentos e loja de conveniência para ver como estamos presos à tal religião). O rock talvez seja - não sei se a melhor - a mais divertida metáfora para tal dominação de consciência. Vendendo rebeldia da rua como se fosse um produto (brancos cantando como negros, sexo transformado em dança, insatisfação como regra), o capitalismo conseguiu convencer todo um pedaço do planeta que o rumo certo a ser tomado era aquele: americano, capitalista, anglo-saxão, protestante, frio e calculista. Hoje estamos vendo o que é que aconteceu depois da nossa subserviência. O próprio rock vem nos mostrar isso, colocando cada vez mais em suas letras um nível de contestação não esperado pela indústria. Do Manu Chao ao Rage Against the Machine, de Jello Biafra aos Beastie Boys, do Mundo Livre S/A ao Rappa - parte representativa do atual rock mundial já percebeu que a América é um entrave no caminho de um progresso mundial e estão todos metendo a boca enquanto podem. Mas isso não acontece só na música – a produção de arte e o mercado de comunicação estão atualmente impregnados de uma pressão subversiva que pode ser comparada à que o mundo viveu em períodos como as brigas por direitos civis (e os assassinatos dos Kennedy e de Martin Luther King), a Guerra do Vietnã, crise do petróleo no começo dos anos 70, a Guerra Fria, o Guerra nas Estrelas (do Reagan, não o do Lucas) e a Guerra do Golfo. Todo mundo quer saber das verdades veladas, ditas nas entrelinhas em jargão jurídico ou economista para despistar suas verdadeiras intenções. Qualquer suspeita é considerada e paranóia é precaução. A diferença é que justamente agora vivemos num período em que as artes e a mídia conversam abertamente sobre este assunto. Não é mais tabu falar em segredos políticos, vamos dar nome aos bois. Sabemos que o coma mental que o planeta foi submetido no último meio século foi induzido, que as pessoas se tornaram improdutivas e letárgicas por acomodação, disfarçada como conforto. E veja como cada vez mais fazemos menos esforços físicos - até hoje. Isso nos torna fracos em todos os aspectos, cada vez mais nas mãos de poucos milionários que decidiram bancar estes confortos em larga escala justamente para manipular seus compradores. É a verdade que vai nos tirar do coma consumista representado pelo rock, vem aí uma década crua, sem respeito para aqueles que fingem. Vão falar grosso, vai ser dolorido - mas algumas boas verdades virão à tona. E, com isso, sairemos do coma.

***

E pra completar, imagine como é sair de um coma. Penso eu que deve algo parecido com morrer, um excesso de energia vital que completa um pequeno espaço de tempo, fazendo com que confundamos sensações com fatos históricos. E é isso que vai ser esse Rock in Rio de agora, a saída do coma. Sete dias, convenhamos, são segundos na contagem histórica e vamos assistir a um desfile de artistas decadentes tocando músicas novas ou de artistas novos tocando músicas decadentes. Os melhores shows do festival, pode ter certeza, vão cheirar a passado - seja nas referências musicais ou no próprio repertório. Mas o que vai acontecer é que vamos assistir a um mega espetáculo de rock - "o maior festival de todos os tempos", quer o inconsciente coletivo e o consciente marketeiro - e nada vai acontecer. Tudo vai continuar na mesma. Por um mundo melhor, o cacete. É tudo pose, é tudo mentira. O rock é uma mentira. Isso vai ser dito aos brasileiros de uma forma tão convincente, que é capaz que detone toda uma lógica de reaquecimento da auto-estima nacional. O problema é que sempre tem quem queira tomar vantagem do assunto e todo um processo de reavaliação da condição brasileira pelo próprio povo pode ser detonado com algumas telenovelas, outras campanhas de marketing e uns dois filmes indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro - fácil, fácil. Ainda mais que quem perde poder é justamente o subproduto da geração Cinema Novo/MPB (e não estamos falando só de cinema e música, os dois servem apenas como rótulo ideológico - os órfãos da ditadura, melhor ser mais direto), que manteve-se supremo e imponente todos estes anos, com um discurso mais afiado que a prática, sempre com uma frase feita para justificar um peleguismo, uma tendência reacionária fake que "endireita" pensamentos revolucionários com afagos ao ego e ao bolso simultâneos. É percebida no ar uma sensação de "já deu" - taxistas e cobradores de ônibus reclamam como a música brasileira ta sem graça, poderes oligárquicos em diferentes áreas (administração pública, arte, mídia, empresariado) estão sendo colocados em discussão, o povo envelhecendo rapidamente com pouca perspectiva de melhora de vida. Mas ao mesmo tempo, observa-se não só os brasileiros retomando ideais nacionais por conta própria (um movimento que começa na universidade, é empurrado pela mídia para a classe média e descamba, tardiamente e de forma quase imperceptível, no povo), como um interesse exterior pela cultura brasileira. Está mais do que na hora de começarmos a botar uma fé neste país e fazer algo por isso.

***

Aí me emputece quando pego o livro do Olavo de Carvalho, viro a contracapa e vejo um monte de luminares do pensamento brasileiro (de Carlos Heitor Cony a Roberto Campos) elogiando o pensamento do autor e tachando-o "o maior filósofo do Brasil". Filosofia no Brasil? Me desculpe, mas tá no país errado. É muito fácil ficar trovejando contra tudo e todos filtrando um reacionarismo com um embasamento primeiro-mundista que é imposto (como quase tudo que é europeu) como saber universal. Recolha-se à sua biblioteca, à internet e à TV a cabo para tentar descobrir intelectualmente o Brasil e ao mesmo tempo você está perdendo o Brasil. Não há mídia que retrate este país tão bem quanto ele mesmo, nossa sociedade não é de fácil digestão. Para entender o Brasil, é preciso estar na rua, sentir o povo, conversar com as pessoas e ver como elas são. Não há teórico que entenda o Brasil se não houver prática. Por isso a universidade parece um mundo avesso à realidade por aqui, afinal não há intercâmbio da vida universitária com a vida prática. Isso é claramente descendente do pensamento europeu, que trancafia cultura e conhecimento em museus e bibliotecas. Mas há um modo de furar o bloqueio.

***

"E aí Matias, e o rock independente brasileiro?". Passei pelo menos dois anos discursando sobre os altos e baixos da cena independente nacional no Trabalho Sujo (que completaria seis anos dia 22 passado) e falando sobre a possibilidade da cena acontecer. O problema é que "acontecer" é um verbo muito vago e propenso a múltiplas interpretações. No largo território entre o underground do mainstream e o mainstream do underground, há mais adversidades que qualquer vã filosofia possa supor. Quando falava da cena acontecer, significava que ela pudesse andar com as próprias pernas, ser um fim em si mesma, sem esperar redenções alheias. Não, ninguém vai descobrir a sua banda no exterior e você não vai vender nem dez mil discos - contente-se em fazer a música do jeito que você gosta, sem interferência. Esta é a lição do independente. Faça o que você estiver a fim de fazer. Na faixa de transição entre mercado e independência, porém, existe uma série de bandas disposta a assumir compromissos com vendas de disco e execução no rádio - prontas para a indústria. O que acontece é que normalmente os objetivos de umas bandas começam a se misturar com o das outras e o ego fala mais alto e a indústria fisga o fracasso do artista justamente por aí. Veja os principais nomes da atual cena independente brasileira e suas biografias têm um determinado flerte com a indústria, cujo desprazer é força-motriz para que estes continuem fazendo o que querem fora do mercadão. O que aconteceu neste ano 2000 foi uma espécie de replay de 1995, quando todas as bandas da geração Juntatribo acharam que bastava gravar o disco que o sucesso bateria à porta. A expectativa da "volta do rock" ao rádio fez com que as próprias gravadoras segurassem um pouco a onda para não serem pegas com as calças na mão como em 1993 (no susto "alternativo"). Resultado: engavetaram os nomes mais proeminentes e pop da cena (Autoramas, Relespública, Bidê ou Balde, Vídeo Hits - até o Los Hermanos, quando começaram a mostrar seu lado rock em “Quem Sabe”), em lançamentos sem entusiasmo para segurar o mercado e tentar um último tiro de misericórdia: as boy-bands. Twister e KLB são projetos fadados ao fracasso coletivo, sabemos, e lançamento de novas celebridades no mercado. Mas ao mesmo tempo, a aposta parece ser a última cartada da indústria antes de sua completa indefinição. Pagode, axé e sertanejo se tornaram um amálgama indissociável. A música romântica perdeu-se em sua própria sacarina, cantando idílios e acalentos difíceis de sustentar. Rock dá trabalho pra gravadora, artista é exigente, quer fazer tudo por conta própria, mete a boca pela imprensa, se precisa... Por isso, o rock não vingou no mercado como esperávamos no começo do ano. Este estanque atravancou o processo que faria com que o rock independente começasse a funcionar como estoque e ponto de referência para o mainstream vir colher novas bandas. Sem a debandada de uma safra de bandas para a primeira divisão, as categorias inferiores ficaram saturadas e estáticas, esperando algo acontecer. E o que aconteceu com a cena independente de rock brasileiro no ano 2000? Nada - não foi pra frente, nem pra trás.

***

Daí o termo "Ano Zero" - hehe.

***

Junta isso com o desespero da Paula Martini, o primeiro ser humano a manifestar publicamente que lê essa coluna, que me escreveu desesperada porque no último Tudo ou Nada eu apresentava a equação "1999 + 2000 + 2001 = 2000". Estava me referindo justamente à esta estagnação criativa no ano 2000. Um impasse. Mas aí você pára para pensar e vê que o triênio resumido na equação está tomando conta de todas as áreas. Da crise na Palestina à eleição norte-americana, das Olimpíadas ao Festival de MPB da Globo, do disco novo do Radiohead aos capítulos de Laços de Família - tudo está preso num impasse, sem se desenrolar, congelado na tensão de uma crise que não parece disposta a resolver-se sozinha. Mas ao mesmo tempo, não há atitude nem iniciativa, é preferível ficar na mesma do que tentar mudar alguma coisa. Graças a deus essa mentalidade parece estar se dissipando à medida que o ano 2000 acaba e o ano que vem pode ser marcado pela vontade de fazer, pela disposição para o trabalho e pelo rígido controle de qualidade. Talvez essa seja a grande lição de 2000: ficar esperando é o mesmo que não fazer nada.

***

A Paula continuou a carta dela falando que alguém tinha dito que "o ano 2000 iria passar em três meses". Exagero. Mas é certo que à medida em que você vive, os dias vão ficando mais curtos. É óbvio, basta seguir o raciocínio: quando você tem um dia de vida, a unidade "dia" (24 horas) é o equivalente à sua vida inteira; quando você completa dois dias, um "dia" equivale à metade da sua vida; no terceiro, um terço; e assim por diante... De modo que a única unidade de tempo imutável é a própria consciência temporal que vulgarmente chamamos de "vida", esta célula imprecisa de medição que acaba sempre quando não podemos mais contar. Quer dizer, dias são tijolos de tempo que você aumenta a fração do muro da sua vida a cada dia que passa. Mas não são os dias que diminuem... É a sua vida que aumenta... E você nem percebe.

***

Sim, é problema seu, se você não vir.

"Whispering, but whispering really loudly for dramatic effect"


Online Videos by Veoh.com

24 horas em South Park, dica do Hector.

Link - 21 a 27 de maio de 2007

- O melhor jeito de jogar videogame no Brasil
- Compras online com segurança
- A China avança na internet
- Japonês lidera na blogosfera
- O PC mais caro e o mais barato no Brasil
- Tecladista do Skank apresenta independentes
- Música no celular
- Sobre transparência e privacidade

maio 20, 2007

Parada de Sucessos

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E pra quem tá com saudade, que tal uma domingueira? Reveladas na noite Gente Bonita Clima de Paquera, as Moderadoras Rockduo arregaçaram as mangas e estréiam neste domingo festa própria. Hit Parade segue o ritmo que vocë conhece nas farras GB - boa música, todo tipo de som, astral pra cima - e nada melhor pra sintonizar no clima do que nos chamar pra invadir geral. A festa acontece em outra casa com número em vez de nome (pra dar sorte?), o 8 Bar, que fica ali nos Jardins, entre a Brigadeiro e a 23 de maio, não tem erro. Então é isso: começamos a discotecagem exatamente na mesma hora em que começava a passar os Trapalhões (às 19h do domingo) e a festa segue noite adentro, sem dó. E, sim, Gente Bonita tem desconto: manda o nominho pra nossa lista que você morre em dez pilas pra entrar. E aguardem que a partir dessa semana muitas novidades no gatilho. O que quer dizer diversão em estado líquido - é só pingar!

Hit Parade
Domingo, dia 20 de maio de 2007
DJs Residentes: Moderadoras RockDuo
CDJs convidados: Alexandre Matias & Luciano Kalatalo
Local: 8Bar. R. Rua José Maria Lisboa, 82. Jardins.
Horário: A partir das 19h
Preço(s): R$ 20,00 e R$ 10,00 (com nome na lista - é só se cadastrar no site: www.gentebonita.org)

maio 19, 2007

Copy, right?

Pergunte ao Disney. Via Urbe.

Come with us

Retrospectiva Goulart de Andrade
goulart.jpg

O pioneirismo de Goulart de Andrade na produção independente para a TV no Brasil e no uso de ferramentas como a filmagem sem roteiro e os planos-sequência, tornam essa retrospectiva de seus trabalhos imperdível. Trechos dos melhores programas (que incluem o do ET de Varginha, dos Monstros do Silicone e do dia em que ele se vestiu de travesti) serão entrecortados por uma entrevista com Goulart em que ele comenta os programas.

O sábado também terá um Painel com Goulart em que ele será entrevistado pelos jornalistas Alexandre Matias, Bia Abramo e Marcelo Tas.

Retrospectiva Goulart de Andrade
15h10 - Sala Cinemateca BNDES
Vem Comigo!: Conversa com Goulart de Andrade
16h20 - Espaço de Palestras

Resfest|10
Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207
Vila Mariana - São Paulo

Ingressos:
Resfest 1 (todas as atrações): R$50 (antecipado), R$60 (inteira) e R$30 (meia)
Resfest 2 (todas as atrações exceto show): R$40 e R$20 (meia)
(preços por dia)
Vendas:
Lojas Chilli Beans Vilaboim, Center 3, shoppings Villa Lobos e Morumbi, Piolla Moema e Jardins e Ingresso Fácil (www.ingressofacil.com.br)

www.resfest.com.br

Cover pro sabadão

Nevermind o som horrível...

Niu Reive?

Ah, eram os anos 80...

Decade - Duran Duran

mais essa, vai...

***

durandurandecade.jpg

Engraçado como o Duran Duran significa um monte de coisas diferentes, dependendo do ponto de vista adotado. Dá pra lermos a obra do grupo como art rock (refletindo os dias em que a moda começou a ser tratada como arte pela intelligentsia pop), pioneiros do videoclipe, epítome technopop, new wave para as massas, visionários do estilo vazio que dominaria sua década de atuação (os anos 80) ou, como eles mesmos se denominavam, novos românticos. Mas além de todos estes rótulos, o grupo inglês pode ser considerado um dos principais fatores não apenas na morte prematura da disco music como na resistência conservadora do rock'n'roll durante os anos 80. Se ainda existem moleques andando por aí com camisetas do Ramones e da Harley Davidson ao mesmo tempo que posam de rebeldes, deveriam agradecer sua existência ao Duran Duran.

Afinal, eles retardaram o processo de transformação que a disco music submeteu a música pop. A disco estabeleceu o fim do formato canção no imaginário atual. Respeitado inclusive pelos "rebeldes" do rock, a camisa-de-força formada pela seqüência óbvia "introdução/estrofe/refrão/estrole/refrão/ solo/ estrofe" foi estabelecida no começo do século 20 à medida em que a música erudita foi sendo passada para trás por um capricho tecnológico. Graças a primeiro aos tubos do fonógrafo de Edison e depois aos discos de cera do gramofone, o som só conseguia ser gravado por poucos minutos, em unidades de registro de baixa tecnologia. Logo, óperas e sinfonias perdem espaço para sonatas, valsas, exercícios e árias, cuja duração reduzida cabia nos cinco minutos exigidos pelos instrumentos de reprodução sonora. Com isto, a música popular viu a possibilidade de sair dos saraus e ruas para entrar nas salas de estar. Para isto, recondicionou sua estrutura ao formato canção - graças a ourives musicais de diversas partes do globo -, que logo ultrapassaria a música clássica no gosto popular e se tornaria a principal moeda no mercado de discos.

Nem mesmo o rock, que rompeu com parâmetros rígidos e dogmas da indústria do disco, conseguiu derrubar a canção. Quando tentou, retrocedeu no tempo e costurou diversas canções em colchas de retalhos que tentavam, em vão, emular a respeitabilidade e maturidade das obras de música erudita - era o rock progressivo, um dos responsáveis por popularizar o formato LP que, mesmo ultrapassando o pioneiro single como item de consumo no mundo inteiro, não abriu mão da unidade canção como bem básico em sua escala de valores.

Mas ao mesmo tempo em que estudantes ingleses frustrados tentavam canalizar sua baixa-estima em solos gigantescos e letras pastoris, alguns de seus contemporâneos nova-iorquinos estavam se divertindo bem mais. Negros, latinos ou descendente de italianos, homens e gays, este grupo de adolescentes passeava pelas noites de Nova York em busca de diversão sem limites e, cada um em seu momento, descobriu que o melhor jeito de não deixar a noite parar era comandando o som da festa. Nomes como David Mancuso, Francis Grasso, Nicky Siano, Steve D'Acquisto e Michael Cappello, e mais tarde Larry Levan, Frankie Knuckles, Walter Gibbons, Tee Scott, François Kervokian e David Rodriguez, assumiam o controle dos fonógrafos para despejar sobre a pista de dança as sementes do fim da música pop como conhecíamos até então.

Cada um destes sujeitos (todos com seu lugar de honra na árvore genealógica do DJ) entendeu o ritmo como vínculo unificador do espírito da noite e dispôs-se a tentar a utopia de George Clinton, uma nação sob o mesmo ritmo. Mais do que isso, propunham um planeta ao som do mesmo ritmo, recorrendo a discos vindo de diversas partes do planeta. A ampla paleta de cores sonoras adquiridas por estes DJs era reflexo da própria noite, em que diferentes culturas, raças, religiões e classes sociais se reuniam sob o mesmo teto. Assim, enfileiravam clássicos do rock com lados B instrumentais de grupos de funk, seguidos de bandas africanas elétricas, combos acústicos de ritmos latinos, percussão brasileira, cantos árabes e outras possibilidades sonoras à disposição. Estes sujeitos se enfiavam em lojas de discos (novos ou usados) procurando músicas que ampliassem ainda mais o espectro de suas noites, e que fizessem todo mundo dançar.

Assim, aos poucos foram entendendo o mecanismo da pista de dança. Surgiram as evoluções técnicas: músicas que se encaixam nas outras, variações na rotação de algumas faixas para o ritmo da festa continuar o mesmo, alterações de volume, efeitos sonoros, bateria eletrônica, mestre de cerimônias, efeitos sonoros e luminosos, malabarismo de discos... Tudo que estes DJs queriam eram que seu público ficasse impressionado com seu talento para conduzir uma noite, uma qualidade egoísta e comunitária ao mesmo tempo, já que um bom DJ garantia uma ótima festa.

Nestas mutações musicais, a canção deixa de ser imprescindível. O ritmo vem por cima de tudo e o groove passa a ser o item mais associado à pista de dança. Os novos refrões passam a ser os riffs de guitarra, as linhas de baixo, acordes tocados em tecladões cavernosos, solos, ataques de sopro, vocais encantadores - trechos musicais que sempre acompanham o ritmo musical da noite. E todos estes elementos podem ser encontrados em canções, mas não precisam seguir a mesma fórmula de sempre para que sejam assimilados e desfrutados.

Até que, pela convergência de diversos fatores, esta cena que acontecia no underground nova-iorquino explodiu para o resto do mundo. Seus valores foram deturpados radicalmente (o protagonista de Os Embalos de Sábado à Noite, Tony Manero, era sim italiano, mas machista e estuprador) e assim foi assimilado pela massa que, até então, consumia passivamente os subprodutos dos anos 60, baladeiros enfadonhos, bandas de rock progressivo, heavy metal e pop baba. Quando o punk rock surgiu no horizonte com uma solução possível (ironicamente, "no future"), o mercado de discos abraçou a noite da Grande Maçã como sua nova galinha dos ovos de ouro.

Não é exagero dizer que a disco music mudou mais a cara da música pop do que o punk. Enquanto este último resgatava os valores originais do rock e os contrapunha às qualidades mercantilistas da indústria de entretenimento (cobrando valores subjetivos, como "autenticidade" e "fidelidade"), a disco mexeu nos pilares desta mesma indústria. Formalizou o remix, inventou o DJ, cunhou o disco de 12 polegadas, acabou com o formato top-hits das rádios, abriu o leque de influências musicais, estreitou a relação entre artistas, executivos e produtores, reeditou o conceito de casa noturna (antes clubes, depois discotecas), reinventou conceitos de publicidade e promoção, profissionalizou as relações entre música e o mundo dos negócios, entre outros pequenos mas importantes detalhes. Mas, o feito mais importante do gênero foi ter mandado o formato canção para os ares. Assim, revoluções musicais que eram fruto de mudanças no comportamento social (como o hip hop, a acid house, o trance, o techno e o noise) puderam acontecer.

(Pode-se dizer que a revolução causada pela disco é a responsável pela padronização e pasteurização do pop e pela decadente mentalidade da atual indústria fonográfica. Mas lembre-se que ainda estamos em pleno andamento do que parece ser o fim do mercado de discos como nós conhecemos - o que, olhando à distância, pode ter sido causado pela própria disco).

O fato é que logo que a disco music estourou, todo mundo estava fazendo disco, em todas as partes do mundo. Fenômeno planetário, ela varreu culturas inteiras, reunindo-as pelo mesmo ritmo, que foi cooptado por artistas de diferentes áreas musicais - dos Rolling Stones a Frank Sinatra, passando por Gilberto Gil e Rod Stewart, artistas estabelecidos de todos os lugares abraçavam a disco como novidade artística, mas sempre de olho no lucro. A mania foi além da música e virou grife de loja de discos, de casa noturna, de roupas e cosméticos, e invadiu os meios de comunicação como um todo.

Natural que surgisse uma banda que fizesse o caminho inverso dos Stones em "Miss You". Em vez de soar como uma banda de rock fazendo disco, o Duran Duran (que começou como uma imitação chinfrim do Roxy Music) era uma banda de disco fazendo rock. Mas não apenas isso.

Antenados com seus tempos, eles surgiram em 1979, com um golpe publicitário em forma de música - algo parecido com o que os Sex Pistols haviam feito três anos antes e que ainda era imitado por bandas inglesas sem criatividade, no começo dos anos 80. O grupo formado por John Taylor, Simon Le Bon, Roger Taylor, Nick Rhodes e Andy Taylor embarcou nesta onda, mas em vez de escrever manifestos e pregar rupturas, preferiram investir na própria imagem. Se ligaram que a década que começava dava muita atenção ao visual e capricharam na embalagem. Das roupas em tons pastéis aos penteados cheios de gel fixador, passando pela postura de palco e maquiagem. Lições aprendidas nos tempos em que emulavam o glam rock, se definiram em uma passagem clássica de seu primeiro hit, "Planet Earth": "A new-romantic looking for the TV sound". O trocadilho ("novo romântico" com "neurótico") seria adaptado por William Gibson para batizar o marco-zero cyberpunk, Neuromancer, de 1984. E o "TV sound" era o som que eles queriam fazer.

Daí o cuidado nos videoclipes, que tornaram a banda pioneira no gênero. Inspirando-se no visual que o cinema começava a ditar como moderno (ar blasé, mulheres maravilhosas, cores berrantes, brilho, neon), transformaram seus filmes promocionais em singles pós-modernos e tiveram na MTV seu principal veículo de comunicação. A recém-criada emissora norte-americana agradeceu os cuidados com a imagem do grupo o transformando em seu principal artista nos anos pré-Thriller. Mesmo depois do furacão Michael Jackson, o Duran continuou mandando ver no visual, se inspirando ainda mais no cinema da época ("Wild Boys" remete a Mad Max e "Hungry Like the Wolf" homenageia Indiana Jones).

Mas e o som? Seria muito fácil o grupo embarcar na onda pós-punk vigente na Inglaterra: um som hermético e dançante, seco e sombrio. Mas ele não condizia com a utopia pop que o grupo almejava. Por isso, abraçaram a disco music e o baixo que cavalga ("tum-turutum--turutum...") surrupiado do gênero se tornaria a marca regristrada do Duran Duran.

Por isso, nem new wave nem tecnhopop, o Duran Duran fazia disco-rock. Usando descaradamente artifícios em voga, eles apareciam como uma banda pop dos anos 70 submetida a um lavagem cerebral de timbres em um laboratório de disco music. Era a contramão do que fazia o Depeche Mode, que usava a canção para as pessoas se acostumarem com a nova era tecno (ouça "Just Can't Get Enough" e perceba que, enquanto a banda apenas repete o refrão da música, todos os clichês de timbre e ritmo usados até hoje por DJs de techno e trance vão sendo inventados, instantaneamente). O Duran fazia o caminho oposto - aproveitava-se do sucesso e da familiaridade do público com a disco para entrar no mercado.

Isso não tira nenhum mérito do grupo - e é provável que, se ele não tivesse existido, outro grupo surgiria para cumprir esta função. O fato é que o Duran usou a disco como os Raimundos usaram o forró - apenas uma forma de conseguir se encaixar no meio. Se o fizeram bem (como a primeira parte da coletânea Decade mostra claramente), é por serem bons. Mas o fato é que graças ao Duran Duran, boa parte dos valores revolucionários assimilados durante o período da disco music dissiparam-se, e deram, ao final dos anos 80 e começo dos 90, uma nova chance do rock tentar ser rebelde e revolucionário. Se aqueles valores permanecessem desde então, os moleques com camisas dos Ramones e da Harley Davidson seriam vistos como os góticos, os fãs de Harry Potter, os praticantes de RPG e os colecionadores de blues: uma tribo reclusa e irredutível, que se acha melhor que o resto da humanidade mas não tem ambições de mudá-la.

Complete Rooftop Concert - Beatles

E outro.

***

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No dia 30 de janeiro de 1969, os Beatles subiam no terraço do prédio de sua gravadora, a Apple, para apresentar aquele que seria o último show de sua carreira. Fazendo barulho sobre Londres, sem platéia definida nem contato visual com o público, os quatro tocaram como se tocar fosse a única coisa que importasse. Como se apenas a química entre os músicos fosse responsável por todo o fenômeno beatle. Sem tocar desde 1966, quando anunciaram o fim de suas excursões após um memorável concerto em San Francisco, os Beatles subiam mais uma vez no palco que para mostrarem que eram mais que instrumentos exóticos, letras psicodélicas e truques de estúdio.

Terminava ali também a última possibilidade de manter o grupo unido. Após as dramáticas gravações do Álbum Branco (que assistira Ringo deixar a banda, além de compilar a coleção mais plural e pessoal de canções de cada membro da banda), o grupo se sentia cada vez menos coletivo. A morte do empresário Brian Epstein, seguido do fracasso do filme Magical Mystery Tour na TV britânica, pesaram astante sobre a imagem de grupo perfeito que o quarteto se apoiava. A presença de Yoko Ono e diversos projetos paralelos individuais tornavam a convivência entre os integrantes do grupo insuportável, com trocas de acusações, brigas espinhosas e conspirações traidoras para isolar determinado membro.

A briga mais cruel era a inevitável entre John Lennon e Paul McCartney. A dupla de compositores e força-motriz do conjunto se tornava um campo de batalha sangrento, vil e selvagem. A meta dos dois era a mesma - tomar conta do grupo. Depois da morte de Epstein, em 67, o grupo criou o sonho impossível que era a Apple, uma gravadora, produtora e promotora simplesmente interessada em patrocinar qualquer projeto que fosse proposto. Resultado: os Beatles perderam mais dinheiro que na época da Beatlemania, quando a inexistência de leis sobre direitos autorais tornaria o faturamento da banda bilionário.

Quase falidos e com o imposto de renda em seus calcanhares, tanto Paul quanto John sugeriram novos empresários. McCartney chamou John Eastman, sócio da Kodak-Eastman e pai da esposa de Paul, Linda. Lennon convidou Allen Klein, então empresário dos Rolling Stones, um dos maiores vilões da história do rock. Convencido pela lábia de Klein (que gritou “peguei eles!” quando ouviu sobre a morte de Brian no rádio do carro), Lennon deixou-se levar e confiou parte de sua produção ao picareta. O sujeito pôs a mão em boa parte das gravações inéditas dos Beatles e faturou com pirataria. Sempre fingindo-se de vítima.

Fora isso, George Harrison já se mostrava tenso demais naquele meio, saindo em paus homéricos com John e, principalmente, Paul. Ringo Starr já demonstrara sua insatisfação ao abandonar as gravações do Álbum Branco por ser tratado como um mero músico contratado. Todos olhavam-se com raiva e ódio, numa das fases mais barra pesadas já presenciadas por uma banda de rock.

A última alternativa, proposta por Paul McCartney, era voltar-se para a música. Voltar-se para as raízes, para o som que uniu eles no início. Sem overdubs, sem colagens de som, nem efeitos especiais: os Beatles eram guitarras-teclados-baixo-e-bateria, um conjunto feito para tocar ao vivo. Assim começaram as gravações do vai-ou-racha dos Beatles, Get Back.

As gravações começaram no início de 69 e, para elas, o grupo convidou o tecladista Billy Preston, que já havia tocado com meia Motown. Depois dele, veio toda uma equipe de cinema, disposta a capturar os Beatles em ação, criando sua música. Para preencher o espaço vazio dos estúdios da Apple (pela primeira vez não gravavam um disco em Abbey Road), colocaram refletores e holofotes coloridos, criando uma paisagem psicodélica apenas com iluminação capaz de irritar o mais calmo dos mortais. Que dirá quatro músicos que se odiavam com câmeras por detrás de seus ombros.

Assim foi a gravação de Get Back, um caldeirão de vibrações ruins sendo cozido ao som de músicas antigas e novas composições criadas no espírito do novo álbum. Para Get Back, os quatro foram ao mesmo prédio em que tiraram a foto de seu primeiro disco e recriaram uma versão cabeluda e barbuda da capa de Please Please Me. As duas fotos estampariam, mais tarde, o par de coletâneas mais memorável dos Fab Four: 1962-1966 e 1967-1970.

Na frente das câmeras, os Beatles voltavam no tempo trazendo versões viscerais para clássicos de suas adolescências como "Be Bop A Lula", "You Really Got A Hold On Me", "Kansas City", "Going Up Country", "Save The Last Dance For Me", "Tracks Of My Tears", "Rocker", "Shake Rattle And Roll", "Lawdy Miss Clawdy" e "Blue Suede Shoes". John e Paul trariam músicas à moda antiga: "I’ve Got A Feeling" foi composta pelos dois, embora em separado; "Don’t Let Me Down" e "One After 909" (esta, pré-61) vinham de Lennon e McCartney daria "Get Back". Os dois ainda contribuiriam com faixas a seu próprio modo. John vinha com a insistente "Dig It", a country "Two Of Us", a bucólica e lírica "Across The Universe" e o folk uptempo de "Dig A Pony". Paul trouxe baladas, como "The Long And Winding Road", "Teddy Boy" e "Let It Be". George tinha em suas duas faixas duas brincadeiras com base no blues - a primeira misturando-a com uma valsa ("I Me Mine"), a segunda gravada de forma intimista ("For You Blue").

E no meio de rocks de primeira, bate-bocas que ficaram históricos graças ao filme Let It Be. Paul McCartney cobrando serviço de Lennon e Harrison, cada vez mais dispersos e instáveis. George e Paul se bicam a todo momento, como irmãos se provocando. Lennon fazia vista grossa para Paul, que cantava o refrão de "Get Back" (“Volte pro lugar de onde você veio”) olhando na cara de Yoko Ono. Pra acabar com esta nuvem negra, eles decidiram sair do estúdio e voltar ao palco. O palco só não poderia ser um palco tradicional, tinha que ser algo espontâneo. Novamente, a idéia foi de Paul, que propôs fazer um show no dia seguinte no alto do prédio da Apple.

Era uma quinta-feira fria de inverno e mesmo o sol claro no céu não incomodava o frio. No terraço do prédio da Saville Row, o grupo vestiu os casacos de cada uma de suas esposas e tocou os últimos quarenta e dois minutos para uma platéia desconhecida. O público só conseguia ouvir o som vindo do céu, sem saber de que direção. Aos poucos, alguns percebiam a movimentação e se agarravam em escadas de incêndio e nos prédios vizinhos para perceberem que “sim! São os Beatles!”.

O curto show contou com dez canções. Começaram com duas versões de Get Back para esquentar, emendaram "Don’t Let Me Down", "I’ve Got A Feeling", "The One After 909", "Dig A Pony", (que aparecem no filme Let It Be), mais duas versões de "I’ve Got A Feeling" e "Don’t Let Me Down", seguida da versão que aparece no filme de "Get Back" (que termina o show com Lennon agradecendo sarcasticamente: "Queria dizer “obrigado” para em nome do grupo e e esperamos ter passado no teste”).

Depois deste show, eles decidiram que a banda iria acabar e juntaram esforços para fazer de Abbey Road, que começaria a ser gravado em fevereiro (cinco anos depois de conquistarem os Estados Unidos no programa Ed Sullivan Show). Get Back, o disco, foi tocado até maio, quando ficou pronto, mas foi cancelado. O lado A do disco tinha "One After 909", "Rocker", "Save The Last Dance For Me", "Don’t Let Me Down", "Dig A Pony", "I’ve Got A Feeling" e "Get Back" (a versão do compacto). O lado B era formado por "For You Blue", "Teddy Boy" (que só veria a luz do dia no primeiro disco solo de Paul, McCartney, de 70), "Two Of Us", "Maggie Mae", "Dig It" (com seus quase dez minutos), "Let It Be", "The Long And Winding Road" e "Get Back" (a versão do topo da Apple).

Depois de arquivado, o disco começou a ser pirateado por ter vazado pelas mãos de Allen Klein. Depois de seu fim, em abril de 70, o grupo entregou o material das sessões de Get Back para o lendário produtor Phil Spector, que depois produziria discos solo de John e George. Phil não respeitou o material dos Beatles e picotou-o à sua maneira. Tirou o belo teclado de The Long And Winding Road e Let It Be, acrescendo a elas coral e orquestra. Dig It se tornaria uma vinheta de 14 segundos. Uma série de diálogos dos integrantes da banda foram usados fora de contexto, criando uma paisagem inexistente de som.

O material das sessões de Get Back logo caiu nas mãos dos pirateiros. Além do disco original, todas as versões alternativas e os rascunhos para Abbey Road se tornaram a segunda maior fonte de pirataria beatle, perdendo apenas para as sessões da BBC. O material da rádio inglesa já foi lançado de forma oficial, mas o de Get Back não. Muita gente especula a possibilidade de, daqui a alguns anos, os Beatles voltarem à mídia com mais um disco duplo, algo como The Get Back Sessions. Que seria, ao lado de Live At The BBC e dos três volumes de Anthology, um best of da pirataria do grupo. Que seria reeditada em toda extensão, num futuro não muito distante. Mas isso é outra história.

Isley Brothers

Outro texto ressuscitado.

***

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"'Shout' faz parte do primeiro cânone do rock’n’roll. Influenciamos os Beatles. Tivemos hits na Motown. Jimi Hendrix tocou em nossa banda antes do festival de Monterey. Tivemos hits nas eras do funk e da discoteca. Rappers sampleiam-nos. Você pode ouvir nossa música em estádios, em filmes, em comerciais. Ninguém tem esse tipo de currículo". Ernie Isley tem razão. Ninguém, na história do rock durou tanto tempo, passou por tantas mudanças e continuou importando em toda sua existência como os Isley Brothers. São quase 60 anos na ativa, ajustando-se à modernidade sempre com estilo e personalidade. Uma carreira finalmente festejada na belíssima caixa de três CDs It’s Your Thing: The Story of the Isley Brothers, lançada no final do ano passado.

A história dos Isley Brothers começa quando o chefe do clã Isley, um sujeito enorme e respeitável de fala mansa mas de objetivos bem definidos, chamado O’Kelly aproxima-se de Sallye Bernice em um encontro familiar, revela-lhe seu desejo de tornar-se seu marido e de dar-lhe uma tropa de filhos que se tornaria uma trupe de artistas. Vindo do emergente showbusiness, O’Kelly percebeu como poucos empresários o potencial da indústria de entretenimento no jovem século 20 e apostou a própria linhagem como estava certo. Precisava apenas encontrar a parceira correta. Naquele dia no meio dos assustadores anos 30 (que começara com uma falência financeira massiva e terminaria com uma guerra mundial), o patriarca Isley pousou o pesado olhar sobre a bela pequena e sabia que seu futuro estava começando. Mudaram-se para Lincoln Heights, um subúrbio de Cincinatti, Ohio.

E as crianças nasceriam. O’Kelly Jr., Rudolph, Ronald e Vernon entrariam no mundo da criação artística como muitos antes deles. Na igreja, foram apresentados não só ao gospel como à importância de se entregar à uma performance. Em casa, seu pai lhes alimentava com diferentes músicas, acostumando-os a todos os estilos para que retirassem o melhor de todos eles. Eram os Isley Brothers e logo estariam em programas de televisão ao lado de artistas como Dinah Washington, Erskine Hawkins e Nat King Cole. Inspirados no grupo Billy Ward and the Dominos, eram um quarteto vocal mirim que começava a fazer sucesso no circuito de doo-wop.

Mas algumas coisas fugiram dos planos do pai Isley. Primeiro foram os nascimentos dos caçulas Ernie e Marvin, uma década e meia após o nascimento da primeira safra. Depois veio a trágica morte de Vernon, atropelado por um caminhão quando andava de bicicleta. Finalmente, o velho O’Kelly previu que não estaria vivo para ver o sucesso dos filhos, para horror da família. Mesmo assim, fez com que seus filhos voltassem à vida artística mesmo após a morte do irmão, que havia suspendido suas apresentações.

Como havia previsto, O’Kelly morreu em 1956, o mesmo ano em que os irmãos decidiram embarcar para Nova York, tentar a sorte na cidade grande. Descobertos na rua por Richard Barrett (que havia descoberto artistas como Frankie Lymon and the Teenagers, Chantels, Crows, Little Anthony, entre outros sucessos da era pré-rock’n’roll), o trio foi contratado por George Goldner, que fez fama sobre os nomes encontrados por Barrett. Mas com os Isleys não seria tão fácil e o grupo gravou cinco singles que não deram em nada. Até que o próprio grupo sugeriu à sua nova gravadora (a RCA) que gravassem um número que fazia sucesso nos shows, chamado Shout. Não era nem uma música, era "uma coisa", como eles mesmos diziam. Atiçando a multidão a gritar "shout!" ("grite!"), a faixa se limitava a um jogo de pergunta e resposta feito entre artista e platéia, um número conhecido das missas gospel. Os Isleys apenas traduziram-no para o rock e tiveram um hit instantâneo.

Mas um só não era suficiente. Depois de alguns singles sem sucesso, o grupo voltou à estaca zero. Havia mudado-se em definitivo para Nova Jérsei, ao lado de Nova York, mas os discos não estavam vendendo. Até que caíram nas mãos do empresário Bert Berns, que mais tarde seria responsável pela autoria de hits como "Piece of My Heart" (gravada por Janis Joplin e Dusty Springfield) e "I Want Candy", além de descobrir talentos como o Them e os Drifters. Foi ele quem decidiu dar ao grupo um single que já havia gasto com o grupo Top Notes (numa versão produzida por um novato Phil Spector). Mas adaptá-los ao novo número era justo, afinal fora "Shout" uma das inspirações para "Twist and Shout" (a outra, claro, seria "The Twist", de Chubby Checker). Com os Isley Brothers, "Twist and Shout" ganhou sua primeira versão notável - mas não sua definitiva. Esta chegaria através de um novo grupo inglês que incorporaria hits dos jovens Isleys em seu repertório. Mas seria a versão dos Beatles para "Twist and Shout" um dos principais carros-chefe para a invasão da Beatlemania. O sucesso puxado pela explosão dos Beatles afetou quase todos os artistas que eles gravavam e logo os Isleys estariam na Inglaterra, excursionando com um jovem pianista que mais tarde passaria a atender por Elton John.

Mas enquanto estavam na Inglaterra, as coisas mudaram. Com a Beatlemania veio a invasão britânica e vários grupos como Rolling Stones, Animals e Yardbirds se debruçariam sobre a música negra americana ganhando o mercado branco e tomando lugar nas paradas de rhythm’n’blues. Como todos os artistas negros no começo dos anos 60 (à exceção louvável de James Brown), os Isley Brothers tiveram que se adaptar ao rock inglês e logo montariam uma banda. Mais do que isso: montariam seus próprios shows e gravariam seus próprios discos. Fundaram a gravadora T-Neck e logo um novo talento em Rudolph e Kelly afloraria. Juntos, os irmãos mais velhos seriam responsáveis por toda a estrutura por trás do conjunto, procurando músicos, conversando com empresários, fechando contratos e shows. Ronald foi liberado para mostrar seu verdadeiro talento vocal, com sua voz macia que se tornaria marca registrada do conjunto.

Foi Rudolph quem descobriu o jovem Jimmy Hendricks e o trouxe ao convívio dos Isleys. Além de talentoso, Jimmy provara ser praticamente um irmão do conjunto. Passou a morar com o grupo e se tornaria o vínculo entre os três mais velhos e os dois mais novos, provocando-os a pegar nos instrumentos dos irmãos quando estes não estavam vendo. Fazia tudo com a guitarra em punho e desde o início provava seu talento no instrumento. Singles como "More Over and Let Me Dance" e "Testify" (este último o primeiro lançamento da T-Neck) mostravam que o jovem guitarrista tinha um futuro e tanto pela frente. Largou o grupo e continuou sua carreira, voltando aos holofotes poucos anos depois, com seu novo grupo, Experience, e mudando a caligrafia de seu nome. Agora se chamava Jimi Hendrix e nem o rock nem a guitarra jamais seriam os mesmos.

Enquanto isso, os Isleys baixavam a guarda à toda poderosa Motown, a principal gravadora negra americana nos anos 60, que vinha há tempos paquerando o grupo. Foram recebidos como astros e tiveram tratamento de primeiro time ao serem entregues às mãos dos mesmos Holland-Dozier-Holland que haviam produzido hits para Marvin Gaye, os Four Tops e as Supremes. Havia se tornado questão de honra para a Motown produzir mais um hit para os Isleys e este foi "This Old Heart of Mine", uma baladaça no velho estilo da gravadora de Berry Gordy, em que Ronald deitou e rolou. Mas o grupo era a ovelha negra entre os ternos e vestidos claros da Motown, sequer moravam em Detroit e fugiam do padrão industrial que todo artista ali era submetido. O segundo single, "Take Me in Your Arms (Rock Me a Little While)", mantinha a qualidade mas não teve o mesmo sucesso comercial. Percebendo que seu destino fosse andar com as próprias pernas, nunca com a ajuda dos outros, mais uma vez os irmãos deixaram seu antigo patrão para tentar a sorte com as próprias asas.

Enquanto isso, Ernie e Marvin cresciam ouvindo não apenas a música que os irmãos faziam, como todo o resto. Quando o primeiro disco de Jimi Hendrix viu a luz do dia, ele deu um estalo em ambos caçulas que passariam a dedicar-se a ensaios secretos com Ernie à bateria, Marvin no baixo e o cunhado Chris Jasper ao teclado, que metiam as canelas adolescentes no pegajoso pântano do funk. Procurando opinião da família para uma música que havia acabado de compor, Ronald desceu ao porão e encontrou os três moleques numa tremenda jam session. A atmosfera o inspirou a cantar a nova música sobre a base pesada dos irmãos e o resultado foi a contagiante "It’s Your Thing", que batizaria o novo disco do grupo, o primeiro álbum pela ressuscitada T-Neck.

A música os colocou como pioneiros do funk, uma novidade que a música negra havia produzido nos anos 60 e que reinaria na década seguinte. O ano era 1969 e as duas principais gravadoras negras daquela década (a Motown e a Stax) mostravam que suas fórmulas estavam desgastadas. Era preciso reinventar-se e os Isley Brothers perceberam isso antes que todo mundo. Depois que os Isleys atravessaram a barreira entre a soul music e o funk, artistas como Isaac Hayes, Marvin Gaye, Temptations, Stevie Wonder, Booker T & the MGs, entre muitos outros atravessaram uma fronteira que poucos (James Brown, Sly Stone, George Clinton) haviam conseguido. O sucesso do agora sexteto (embora oficialmente ainda um trio) foi fundamental para que a música negra percebesse que era possível a transição para um novo gênero sem que o artista se descaracterizasse.

Mas era apenas o começo da era funk dos Isleys. Discos como The Brothers: Isley (com "I Turned You On" e "The Blacker The Berrie"), Brother Brother Brother (com a faixa-título, "Lay Away" e "Work to Do") e Get Into Something (com a faixa-título, "Keep On Doin’" e "Freedom") amadureceriam ainda mais o grupo, que aprofundava-se cada vez mais na alma humana, engajando-se numa política humanista que parecia ser uma conclusão de seu trabalho em família. Uma comunhão entre gêneros tão distintos quanto doo-wop, soul e gospel era encontrada por baixo do peso espetacular que a nova cozinha dava pro grupo. O grupo aceitou um desafio pessoal ao embarcar no disco Givin’ It Back, em que dava arranjos cobertos de melanina para hits de artistas brancos, como Neil Young ("Ohio"), Stephen Stills ("Love the One You’re With"), James Taylor ("Fire and Rain"), Carole King ("Nothing to Do But Today") e Bob Dylan ("Lay Lady Lay").

A participação dos novatos logo passou a ser importante o suficiente para comprometer o processo de criação e os irmãos mais velhos decidiram oficializar os outros três no grupo. Agora acompanhados pelo firme baterista George Moreland, os novos Isley Brothers agora eram seis elementos e a fusão das gerações foi orgulhosamente anunciada na capa e no título do álbum do grupo de 1973, 3 + 3. A nova formação trazia uma sutil mas importante mudança. Ernie havia deixado as baquetas para assumir a guitarra e o resultado deixou os irmãos mais velhos boquiabertos. Um improviso sobre a velha "Who’s that Lady?" (lançada pelo grupo em 1964) foi o suficiente para o grupo ter certeza de relançá-la, com o novo arranjo dado pela guitarra emborrachada de Ernie.

Os anos 70 continuaram com grandes discos, ajudando a criar a disco music competindo cabeça a cabeça com outros titãs da black music, o Earth Wind & Fire. "Competíamos pela atenção dos executivos de nossa gravadora. Competíamos contra o outro nas paradas. "That’s the Way of the World" contra "Fight the Power". "I Love Music" contra "For the Love of You". Era negócio sério", lembra Ronald no encarte da caixa. Os hits vinham em discos como Live it Up ("Midnight Sky", "Hello It’s Me" - de Todd Rundgren! - e a faixa-título), The Heat is On ("For the Love of You", "Make Me Say it Again Girl" e "Fight the Power"), Go For Your Guns (com "Voyage to Atlantis", "The Pride" e "Footsteps in the Dark"), Showdown (com "Groove With You"), Mission to Please, Harvest for the World e Between the Sheets (os três últimos sucessos com suas faixas-título). Até que o ano de 1985 assistiu o primeiro desfalque no grupo, quando os três caçulas saíram e lançaram o poderoso Caravan of Love como Isley Jasper Isley.

Novamente a morte uniu os irmãos, quando o primogênito Kelly morreu durante o sono em 1986. A morte de Kelly fez com que Rudolph passasse a se dedicar à igreja, deixando de lado o showbusiness. O som dos Isleys iria demorar para voltar a ter o brilho de outrora, mas este era polida por toda a nova geração do rap. Do Public Enemy ao Dr. Dre, os principais nomes do gênero da década de 80 deram ao grupo o respaldo artístico que a crítica dos anos 70 fingia não ver. O sucesso restaurado do grupo fez com que eles entrassem nos anos 90 como um dos primeiros nomes do Rock and Roll Hall of Fame, sendo indicados no mesmo ano que Hendrix, 1992.

Nada mal para uma família que passou por todas as etapas da história do rock quase incólume, tentando se adaptar e criando regras para cada novo gênero que o mercado parecia impor. Andando por conta própria, os Isleys cresceram ao apostar neles mesmos, num exemplo de autodeterminação e força de vontade contada por uma caixa com mais de três horas do melhor da música negra. "Até mesmo hoje, quando estou para cantar uma faixa, eu penso como será que Sam Cooke cantaria. Ou como Ray Charles deveria estar fazendo", explica Ronald, "Então eu percebo: ei, não preciso esperar por eles. Posso fazer eu mesmo". A síntese do pensamento de uma linhagem histórica, sangue bom que fez com que o mundo acompanhasse o ritmo que eles quisessem que o mundo dançasse. Afinal de contas, como eles mesmos disseram: "It’s your thing/ Do what you wanna do".

Usando o Google pra baixar música

Dica do compadre Fred, que emenda o link pra geral aprender.

maio 17, 2007

Supermercado 2.0

maio 16, 2007

Ah, a tecnologia...

...depois dessa, tcho zarpar pro Skatalites. Depois eu conto, sério.

American Water - Silver Jews

O último ressuscitado do dia, prometo.

***

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Apesar de dividir sua banda com Steve Malkmus, do Pavement, Dave Berman é categórico ao afirmar que, se podemos falar de projeto paralelo nessa história, é o Pavement que é o projeto paralelo do Silver Jews. Explica-se: uma vez que formou sua banda no fim dos anos 80, convocou os colegas de faculdade Steve Malkmus e Bob Nastanovich, antes mesmo deles montarem o Pavement, para ajudarem na parte instrumental de seu projeto musical, batizado de Silver Jews. Com o estouro do Pavement em 92 (graças ao magnum opus do lo-fi, Slanted and Enchanted), os olhares sobre a banda de Berman triplicaram e todos passaram a se referir ao grupo como um brincadeira alheia de Steve Malkmus.

Mas basta passear por American Water, o segundo disco da banda, pra saber quem manda. Berman gosta de escrever sobre coisas comuns, sobre a vida real, sobre situações reais e de balbuciar sua voz preguiçosa por cima de suas letras.

Seu novo disco é fruto de sua nova filosofia de vida, inventada por ele mesmo, que a chama de “Nova Abertura” (New Openness). Interessante e prática, ela prega que você deve fazer exatamente o que tem vontade de fazer o tempo todo, seja isso uma coisa ruim ou boa. Não conter-se, deixar-se soltar o tempo todo, não guardar segredos nem sentimentos.

Sem querer esconder, ele já abre American Water explicando seu novo estilo de vida em "Random Rules". Explica que “em 1984 fui hospitalizado por aproximar-me da perfeição” e passa a reconhecer a naturalidade do erro como parte da vida (e, mais, a perfeição é encarada como doença, anormalidade). “Não existe guia quando quem manda é o acaso”, esclarece no refrão, “ninguém deve ter duas vidas/ E agora que você já sabe que meu nome do meio é certo e errado/ Temos duas vidas pra nos darmos hoje à noite”.

Continua contando as vantagens de sua vida aberta em "People": “Momentos podem ser monumentos pra você/ Se sua vida é interessante e verdadeira”. E fala de aproveitar a beleza real de momentos simples: “Eu adoro ver arco-íris na mangueira de jardim/ Gosto da cidade e da chuva na cidade/ Garotos suburbanos com nomes bíblicos”. Conclui esticando as pernas que “faz sol e calor e é ótimo estar vivo”.

O que ele prega é que em vez querermos passarmos uns por cima dos outros, pra subir na vida, vamos continuar do jeito que estamos e aproveitar as coisas boas que a vida nos proporciona em cada momento. Esquecer-se da própria individualidade em prol de um futuro incerto é sinônimo de infelicidade e ele continua a falar sobre isso. “Fomos educados com réplicas de estradas tortuosas e falsas/ E dia após dia tocamos pandeiro em troca de salário mínimo neste belo cenário” (em "We Are Real"), “você acredita em finais MGM?” ("Like like the the the Death").

E sem papas na vida, ele cria belíssimas imagens de situações rotineiras, pelo simples ato infantil de observar e deixar-se comparar sem pensar se vai soar ridículo ou não. “Minha roupa de esquiar tem botões que parecem espelhos de loja de conveniência/ E eles me ajudam a ver, que todo o quarto agora é parte de mim”, “os becos são as notas de rodapé das avenidas”, “Quando algo quebra faz um som bonito”, “Deixe o espelho expressar o quarto”. Uma bela surpresa é o country de coração partido de "Honk If You’re Lonely Tonight", em que o autor diz que seu sorriso parece esconder sua dor, mas que o adesivo no pára-choque do seu carro (o título da música - “buzine se estiver solitária hoje à noite”) entrega tudo.

Musicalmente o grupo soa tímido, bêbado e aliviado ao mesmo tempo, como se Nick Cave nascesse na Califórnia. A base musical tem elementos de rock, folk e country, mas tudo tocado de forma despretensiosa e sem firulas, em especial a bela guitarra de Malkmus, em algum lugar entre Tom Verlaine e Robbie Robbertson. Para os fãs do Pavement, American Water soa como um apêndice a Brighten the Corners, com Malkmus mais do que à vontade com o pop formal. Mas é impossível pensar em Pavement depois de três ou quatro audições - Berman convence-lhe fácil que ele é o assunto aqui.

Dave Berman (Silver Jews)

Entrevista revisitada, atachada com a resenha acima...

***

Com quem Dave Berman resolver fazer música, ele é o Silver Jews. O rock desleixado e descompromissado coberto de letras francas e simples - a tal filosofia Nova Abertura - é tudo culpa de Dave, cujo vocal grave lidera os livros de contos que são seus discos. O problema é que entre os colaboradores de Dave estão Stephen Malkmus e Bob Nastanovitch, ambos do Pavement, o que faz muita gente pensar que o grupo é um projeto paralelo dos autores de Crooked Rain Crooked Rain. Segue um papo sobre isso e outras coisas com o cético Berman.

O que é a Nova Abertura?
É um nome de mentira para uma iniciativa real: a rejeição da ironia como uma estratégia artística. No Estados Unidos, a ironia se tornou um gás sufocante que sai da boca de qualquer figura público. A idéia é simples: diga o que você quer, queira o que você diz.

E isso não te torna bastante público? Não é como se despir em público?
É justamente o contrário. Expressar seus sentimentos é uma necessidade que todos têm. Nossa cultura definharia e morreria sem isso. Todos viveriam melhor se pudessem andar sem as roupas na rua.

Você tem algo contra a ficção ou a fantasia?
Precisamos de música e de arte que cubra toda uma área. Fantasia é tão valiosa quanto a dura realidade. O conflito entre as duas é o impulso que nos faz progredir.

E como esta idéia lírica se encaixa com a música? Como você encara a música dos Silver Jews?
Eu gosto de acordes leves e machucados. Sons orgânicos feridos. Resoluções pacíficas. Paz que parece morte, mas que não é morte.

E sua relação com o Pavement? Você sente-se mal ao ficar na sombra do grupo?
Eu gosto, porque as pessoas descobrem a música. Não importa como eles cheguem, pra mim está bom. Se a associação com o Pavement persiste depois que as pessoas me conhecem é um tanto desolador, mas é minha culpa se a música não se destingue como própria o suficiente para ser percebida como própria.

O nome Silver Jews vem de onde?
É inventado. Ninguém se lembra direito. Apareceu num dia e parecia ser o ideal. São apenas duas palavras legais de serem ditas em voz alta.

E o nome do disco, American Water, como surgiu?
Tem uma raça de cachorros que se chama American Water Spaniel. Eu estava levando meu cachorro ao veterinário quando eu vi este nome num pôster sobre raças de cães. Aquela noite eu sonhei com este nome e ele ficou.

E qual sua relação com a crítica? Você lê suas resenhas?
Eu leio as resenhas. Eu não acho que a imprensa musical aqui consegue fazer seu trabalho. Aqui nos Estados unidos não existem críticos com suas próprias vozes. Eles são apenas cafetões do status quo. A escrita é muito semelhante à da publicidade. Eles são uma droga e é uma situação chata.

Por que você não faz shows?
São muitos motivos para serem listados. Não é digno, pra mim. Eu acho que os discos bastam. Turnês interromperiam o ritmo da minha vida. É como uma infância suspensa. Estou tentando viver como um adulto. Não nasci para estar sob os holofotes, num palco. Eu sou o observador, não o observado. É que parece errado para a minha natureza.

O que você está ouvindo hoje em dia?
Blue Öyster Cult, Jerry Jeff Walker, Jackson C. Frank, U.S. Maple e O Clube da Esquina, do Milton Nascimento.

Entrevista feita em abril de 1999

And Then Nothing Turned Itself Inside-Out - Yo La Tengo

Mais um...

***

Amor comum
O Yo La Tengo canta a paixão sem adjetivos em seu belo novo álbum, ‘And Then Nothing Turned Itself Inside-Out’

yolatengo.jpg

É difícil estar apaixonado quando não se tem nada a oferecer. Ou pelo menos aquilo que os outros querem. Veja a TV, as revistas, os outdoors: eles vendem uma beleza magra e saudável, um humor inteligente e direto, uma cultura vasta e plural, uma eloqüência carismática espontânea. Você sabe que a vida real não é assim, todo mundo sabe, mas ninguém se importa. Todos compram o que se vende nestas malditas imagens que o capitalismo usou para funcionar como vitrine do senso comum, manipulando-o. Tenha uma destas características a menos e mais difícil será ser aceito no convívio social.

Por isso apaixonar-se é um problema. Com beleza, humor, cultura e papo, tudo fica mais fácil ou menos difícil. Mas quando não se tem nada a oferecer, a timidez torna-se uma parede que esconde o lado realmente bom das pessoas, desprezado pelo marketing. Sua cara-metade pode ser uma pessoa sem qualidades sociais, mero espectador dos "artistas" que a vida - em todas as esferas - destaca. Uma pessoa que nunca vai chamar sua atenção e que se fizer algo neste sentido vai com a certeza que estragará tudo quando abrir a boca ou pousar o olhar. O cortejo social que conhecemos por paquera torna-se um momento de suplício, um fim inatingível.

Ira Kaplan e Georgia Hubley eram assim. São pessoas comuns até demais, não se destacam em qualquer multidão, seja numa sala de aula ou num ônibus lotado. Figurantes no mundo das estrelas, os dois se encontraram sem querer e depois de conversar um pouco sobre música, estavam apaixonados. Músicos na intimidade, começaram a tocar juntos ao mesmo tempo que se descobriam, ele guitarra, ela bateria, revezando-se nos vocais como todo casal apaixonado. Os dois em Hoboken, o mesmo subúrbio de Nova York que viu nascer Frank Sinatra e os Feelies, ele ainda trabalhava mixando bandas num estúdio de fundo de quintal, enquanto ela fazia curtas de animação com a irmã. À procura de um baixista, atravessaram a segunda metade dos anos 80 moldando apaixonadamente seu som.

Graças a um amor quase inconfesso no início, a banda atravessou toda a década de plástico e entrou nos anos 90 com uma moral de respeito, ainda que pequena. Fiéis à reputação, foram aprimorando sua sonoridade tímida e ruidosa à medida que gravavam discos, encontrando finalmente no gordo James McNew o ponto de equilíbrio entre o casal.

Que voltou a se apaixonar. Desde que descobriu sua fórmula no álbum Painful, o Yo La Tengo vem lançando um disco melhor que o outro e é difícil separar esta fluência musical da ótima relação entre os três integrantes. Mas a força magnética que mantém o grupo unido é claramente o amor entre Ira e Georgia, joão e maria ninguém do universo pop, que despreza qualquer tipo de padrão exterior de beleza e aceitação, numa busca quase zen da bondade interior.

Este personagem é recorrente. O nerd que recolhe-se do mundo social em seu quarto, com livros, discos e filmes e canta sua dor e beleza é um dos principais arquétipos na história do rock. De Buddy Holly a Kurt Cobain, passando pelo Pavement, Joy Division, Chemical Brothers, Weezer, Radiohead, Cure, Devo, Smiths, Belle & Sebastian e milhares de outros nomes. Uns se consideram loucos, outros são a escória assumida do mundo, outros ainda uma elite sofisticada e todos se unem pelo simples fato de usarem este exílio do mundo real um meio para expor sua própria individualidade.

O que o Yo La Tengo propõe é o amor e a paixão dentro deste personagem. Mas não de um ponto de vista platônico, inatingível. Ao formar um casal, a dupla central do grupo expõe-se como a concretização deste amor, uma prova que isto é possível. Poucos casais na história do rock agem desta forma, quietos e cabisbaixos, trocando confidências entre acordes e ritmo. A grande maioria dos casais são rockers até o último fio de cabelo - Thurston e Kim, Patti e Fred Sonic, Mick e Marianne, Exene e John, Sid e Nancy. Poucos casos colocam casais tímidos dentro de projetos musicais, entre eles o Talking Heads e o New Order. Fora dos Heads (e da sombra de David Byrne), Chris e Tina exploraram toda a sensualidade rítmica de sua química com o nome de Tom Tom Club (autores da jóia "Genius of Love"). Fora do NO (e da sombra de Sumner e Hook), Stephen e Gillian deslizavam carícias sintéticas como The Other Two.

Como os dois casais, Ira e Kaplan também namoram na música. Enquanto Tina Weymouth e Chris Franz embarcam com o ritmo e Gillian Gilbert e Stephen Morris se atém às texturas eletrônicas, o casal do Yo La Tengo fica com a guitarra e os outros instrumentos (teclados, caixas de som, baixo, pedais de distorção) que possam soar tão valvulados e intensos como a sonoridade de quem são herdeiros, do Velvet Underground. Mas se tanto o Tom Tom Club quanto o Other Two apenas insinua o amor entre os músicos através do som, o Yo La Tengo sempre cantou o amor. E, apaixonados como estão, fizeram um disco inteiro sobre o assunto. And Then Nothing Turned Itself Inside-Out canta a paixão de gente comum, sem o glamour do cinema ou os maneirismos da TV.

"Eu me lembro um dia de verão/ Eu me lembro ir em sua direção/ Eu me lembro ter corado/ E eu me lembro olhando meus pés/ Eu me lembro antes de nos encontrarmos/ Eu me lembro sentar ao lado de você/ E eu me lembro fingir não estar olhando", Ira confessa à medida que encolhe sua voz para dentro na bela "Our Way to Fall". É um amor palpável, de olhares cruzados em filas de espera e calçadas, longe do romantismo ideal idealizados pela mídia. "Se você quer meu amor/ Pegue baby", entrega-se Georgia no hit potencial "You Can Have it All", "Se você quer meu coração/ Pegue baby/ Pode pegar tudo". De repente o casal está em plena crise existencial e Ira se vê confessando-se às paredes: "O que eu perdi aqui? O que você não consegue mais agüentar? Espero um suspiro, ouço a porta bater/ Você diz que tudo que fazemos é brigar/ Ih, eu não sei se isso é verdade/ E penso se estou certo ou se isso é parte do problema/ Talvez esteja fora de mim, bloqueando a realidade/ Mas parece apenas uma coisa: você não quer ouvir, eu não consigo me calar". Em "Last Days of Disco", o clima é de filme dos anos 50 (só que nos anos 70): "Te vi numa festa/ Você me tirou pra dançar/ Eu disse que a música não era boa pra dançar/ Eu não danço muito/ Mas dancei/ E fiquei feliz por dançar/ E a canção disse "Vamos ser felizes"/ Eu fiquei feliz/ Nunca havia ficado feliz antes/ E a canção disse "Não fique só"/ Me senti só/ Ouvi e fiquei cada vez mais assim".

A sonoridade tem aquele astral de paisagem que só a paixão consegue trazer e qualquer silêncio é música, olhos fechados soam como a melhor canção. Depois de exorcizar o instinto primitivo no disco com Jad Fair, o grupo voltou ao lirismo e à doçura com delicadeza e sentimento. Colocando à frente o casamento entre o som da guitarra base distorcida e de velhos teclados elétricos, o ritmo do grupo é quase metronômico e a voz de Georgia consegue ter mais doçura (e ser menos infantil) que a de Moe Tucker, do Velvet. Compenetrado entre os teclados, a guitarra e a coleção de discos, Ira é um Johnattan Richman (dos Modern Lovers) em câmera lenta. McNew, fiel escudeiro do casal, assume a função necessária sempre que preciso, seja no baixo, na percussão, na guitarra ou nos teclados. O disco passa como nuvens no céu, sem se preocupar com quaisquer outros ritmos. À exceção de "You Can Have it All", da bossa lounge "Tired Hippo" e "Cherry Chapstick" (uma versão para uma velha canção de KC & the Sunshine Band em que o grupo encarna o Sonic Youth), todo o disco lembra aquelas conversas a dois no escuro do quarto, que o resto do mundo sai com a luz e ninguém mais existe.

"Apesar de você não acreditar em mim, você é forte/ Escuridão sempre transforma-se em aurora/ E você não vai lembrar disso/ Quando acabar", consola Georgia em "Tears Are in Your Eyes". "Algumas vezes em alguns dias/ Eu não estava cego, mas agi desta forma/ Te causando dor, agora tenho de explicar/ Quando o sentimento de vazio passa do escuro à tristeza/ Eu não acredito que isso nunca aconteceu contigo/ Eu vi na TV e ri muito/ Mas é como me sinto agora", Ira confessa baixinho. "Vamos dormir uma noite pacificamente", convida Georgia, passando a mão entre os cabelos do marido, em "Night Falls on Hoboken". Boa noite.

The Hour of Bewilderbeast - Badly Drawn Boy

Outro texto velho.

***

Perfeição palpável
A estréia de Badly Drawn Boy - ‘The Hour of Bewilderbeast’ - é um disco que reúne duas qualidades difíceis de se encontrar no pop atual - verdade e beleza

badlydrawnboy.jpg

Utopia é um lugar longe. É feito pra ser longe, pra nunca se chegar lá. Lá tudo é perfeito, as coisas organizam-se da forma mais simples e funcional possível, ninguém faz mal a ninguém, todo mundo é feliz. Mas não existe por concepção, é utópico, inatingível. A arte faz nossa conexão com a utopia, criando universos paralelos em que a perfeição é palpável, verdadeira.

Mas até na arte a utopia pode se tornar distante. Ao propor um mundo diferente do nosso, o artista se distancia da realidade o suficiente para entrar na ficção e sabermos que é tudo um sonho. Para a perfeição artística chegar próxima, o artista precisa se despir da individualidade e fazer-se entender numa linguagem universal. Por isso a música é o meio mais popular e o amor é um tema tão cantado - de todos, são os mais fáceis de entender. Essa combinação é praticamente o oxigênio da música pop.

Mas não é fácil tirar sua personalidade de cena e deixar a obra ganhar vida própria. É um processo de generosidade muito intenso, o artista precisa ter um desprendimento quase beatífico em relação a seu trabalho para considerá-lo maior que ele mesmo. Mas quando os ponteiros se acertam e o fruto do trabalho passa a ser o alicerce deste, surgem jóias. Estamos falando de preciosidades do quilate de Revolver (dos Beatles) e Pet Sounds (dos Beach Boys). Nestes dois discos (e em outros e de outros artistas, mas estes exemplificam melhor a situação), os grupos sabiam que o mais importante era ter uma resposta imediata do ouvinte, que ele se identificasse imediatamente com aquela música. E todos sabiam que o ouvinte é qualquer um - por isso, quanto mais abrangente for o tema (e por isso, o amor), mais fácil as pessoas irão se identificar com a música.

Mais do que isso: por mais ousado que se tentasse ser musicalmente, é preciso deixar que o ouvinte descubra a ousadia vindo do pop. Aqueles que percebem a audácia musical não são o público-alvo porque estes se importam com a assinatura do artista. O ouvido público quer descobrir um segredo dentro de uma música pop, por conta própria. Esta mágica proporcionada pela música popular faz com que qualquer um possa vir com um refrão irresistível e se tornar uma mania, só pela qualidade da canção composta. Coisa que é mais comum que podemos imaginar, devido à quantidade de artistas que desaparecem após um único sucesso.

Damon Gough sabe disso e preferiu se preservar. Ou melhor: preservar sua música. Adotou um nome sem o menor apelo comercial (Badly Drawn Boy - Garoto Mal Desenhado) e passou a costurar sua reputação com zelo e paciência. Trabalhando belas canções com produção de baixa qualidade (filiando-se a este gênero sem forma chamado lo-fi), ele passou o ano passado inteiro lançando EPs que não davam pistas sobre o caminho que parecia seguir. Em sessões particulares, aos poucos ia convencendo artistas e jornalistas ingleses (e depois um pequeno culto sempre crescente de fãs) de seu potencial - usando apenas suas canções.

Mas em disco, nada era esclarecido pelo cantor inglês. Pra piorar a situação, ele ainda foi convidado a participar com uma música ao megaprojeto U.N.K.L.E., do dono da gravadora Mo’Wax James Lavelle e do mestre DJ Shadow. Juntos, os dois cozinharam um álbum por três anos e convidaram algumas figurinhas mais importantes do pop alternativo (Mike D, dos Beastie Boys; Thom Yorke, do Radiohead; Ian Brown, ex-Stone Roses; Richard Ashcroft; ainda no Verve) para dar sua palhinha. No meio dos figurões que estrelaram Psyence Fiction, lá estava Badly Drawn Boy com sua "Nursery Rhyme". Guitarras pesadas e vocal reto, confundia ainda mais aqueles que tentavam o decifrar. Seria ele o Beck inglês? O Elliot Smith inglês? Um John Lennon campestre? Um novo Nick Drake? As dúvidas eram tão pertinentes quanto o consenso de que aquele novo músico ainda iria dar o que falar.

Com seu primeiro álbum, The Hour of Bewilderbeast, ele não apenas confirma as expectativas como torna-se ainda mais promissor. Como? É o segredo lá do começo do texto: as músicas falam de amor, mas de uma forma táctil, reconhecível. Sem nenhum requinte técnico na produção (o que dá um charme rústico ao disco), as canções surgem docemente sólidas, jóias de música pop que tornam a perfeição palpável. Invertendo a lógica pop imortalizada pelos Rolling Stones, é a canção, não o cantor, que importa.

O violoncelo abre o disco seguido pela trompa dão um ar de melancolia renascentista que abrem o disco exigindo um mínimo de solenidade. O baixo aos poucos vai desenhando a cadência da melodia central de "The Shining", que o violão inicia assim que os três instrumentos se silenciam. Num típico folk inglês, Damon Gough pede para pormos "um pouco de sol em nossa vida", como se quisesse só arrancar um sorriso num momento de tristeza.

Esse é o tom do disco. Entre a melancolia e o alívio, as canções alternam felicidade e tristeza quase sempre, criando uma atmosfera casual e idílica ao mesmo tempo. A perfeição não é pra sempre: "Sua beleza durará por um instante", canta em "Once Around the Block". "O amor é contagiante", canta mais à frente, em "Magic in the Air", "quando tudo está bem". De um lado, a beleza. Do outro, a realidade. É essa dualidade entre sonho e realidade que faz a utopia descrita por Gough tão próxima e natural.

Ele desfila referências à medida que transcorre o álbum. Passa pelo folk urbano de Harry Nilsson ("Everybody’s Stalking"), por momentos que são puro John Lennon solo ("Fall in the River", "Camping Next to Water" e "Pissing in the Wind" - todas com temática aquática), Dylan ("Magic in the Air"), folk britânico anos 70 ("Stone on the Water"), powerpop ("Another Pearl"), pop sofisticado com toques de jazz e alguma influência latina ("Once Around the Block" e "Disillusion"), Simon & Garfunkel ("This Song"), rap ("Body Rap"), Prince e Guided By Voices (na mesma "Cause a Rockslide"), psicodelia britpop ("Say it Again", juntando Blur e Oasis na mesma faixa) e terminando com a caseira "Epitaph".

Esta última, fecha o álbum com clima de varanda ensolarada (assobios, passarinhos, violões), enquanto Gough divaga sobre a perfeição passageira que as pessoas não percebem: "Por favor não me deixe aqui/ Querendo mais/ Espero que você nunca morra/ Não preciso dizer porquê/ Apenas prometa que vai tentar/ Me dar tudo que você pode/ Eu nunca mais te pedirei/ Há vida nova além da porta/ Um berço balança e cai/ Enquanto novas frutas enchem a árvore/ Cimentam a melodia/ Nossos problemas". Pissing in the Wind resume a generosidade artística do autor, ao abrir mão do que ele poderia querer. "Me dê algo/ Eu fico com nada". Como se tudo isso fosse nada.

justice.gif


Vazou o disco do Justice - -, dando início propriamente dito a 2007. Pra uns, o ano começou com o Arctic Monkeys, outros foram de Arcade Fire, alguns só agora estão digerindo o Kassin ou o Supercordas e ainda há os entusiastas da new rave (já já falo mais disso) ou da rixa entre Amy Winehouse e Lily Allen (ou era Paris Hilton e Lindsay Lohan?). Já eu aproveito a deixa pra lançar seção nova - Vida Fodona Soundsystem, baixe enquanto é tempo. E eu começo ela com um petisco tirado desse disco, mas refeito pelos bambas do MSTRKRFT, os mesmos que foram deixados de fora na última hora do mico que foi o Skol Beats desse ano.

Vida Fodona Soundsystem 001 - "D.A.N.C.E. (MSTRKRFT Remix)" - Justice

maio 15, 2007

Vida Fodona #083: Sem muita intromissão verbal

…e como eu disse:

- “We Dance” - Cat Power
- “Sujeito de Sorte” - Belchior
- “Twisterella” - Ride
- “See No Evil” - Television
- “Eat at Home” - Paul & Linda McCartney
- “I’m a Wheel” - Wilco
- “Everybody Wants the Same Thing” - Scissor Sisters
- “Harlem Shuffle” - Rolling Stones
- “He’s the Greatest Dancer” - Sister Sledge
- “Em Qual Mentira Vou Acreditar” - Racionais MCs
- “Common People” - Pulp
- “Hideaway” - Playgroup
- “Brain Leech (Bugged Mind Mix)” - Alex Gopher
- “Popcorn! Bitch!” - Alex C
- “Doze com Dezoito” - Planet Hemp
- “Hello I Love You” - Cure
- “Ruradélica” - Supercordas
- “Venha Dormir em Casa” - Tim Maia
- “Movie Theme” - Beck
- “All My Friends” - Franz Ferdinand

Venga!

maio 14, 2007

Yes, nós temos banana de pijama

Luana, Luana...

Link - 14 a 20 de maio de 2007

Nesta segunda, no Link:
- Tecnologia x Meio ambiente
- Trabalho 2.0
- Impressora 3D
- Aranha 3: caído
- Arquitetura Second Life
- Bill Gates quer os outros cinco bilhões
- Sites de relacionamento no celular
- 'Legítima defesa digital'
- Laptop 2007
- E MySpace, Last.fm, Guitar Hero, Habbo Hotel, pedofilia no Second Life, celular no Everest...

maio 12, 2007

"Foggy Notion" - Velvet Underground

B / E / B
He's over by the corner
B / E / B
got her hands by her side, ah
B / E / B
Then hit her harder-harder-harder, ooohhh
B / E / B
till they thought she might die

B / E / B
Well I got a foggy notion, do it again
B / E / B
oh, over by the corner, do it again
B / E / B
I got my calamine lotion, baby, do it again
B / E / B
well I got a foggy notion, do it again

B / E / B
I'll do something that I never did before
B / E / B
I'll first track down to a flower store
E / E
I bought her a bundle, a beautiful batch
B / B / A / E / B
don't you know something, she sent it right back, alright

B / B
Sally Mae, Sally Mae
B / B
Sally Mae, Sally Mae, ooohhh
E / E
Sally Mae, Sally Mae
B / B / A / E / B
Sally Mae, Sally Mae, alright

B / E / B
He's over by the corner
B / E / B
got her hands by her sides
B / E / B
Then hit her harder-harder-harder
B / E / B
till they thought she might die

B / E / B
Well I got a foggy notion, do it again
B / E / B
over in the corner, do it again
B / E / B
I got my calamine lotion, do it again
B / E / B
baby, I got a foggy notion, do it again, ooohhh

B / E / B
Make me do something that I never did before
B / E / B
I rushed right down to a flower store
E / E
I bought her a bundle, a beautiful batch
B / B / A / E / B
now baby, don't you know something she sent it right back, ooohhh

B / B
Sally Mae, Sally Mae
B / B
Sally Mae, Sally Mae, ooohhh
E / E
Sally Mae, Sally Mae
B / B / A / E / B
Sally Mae, Sally Mae, alright

B / E / B
He's over by the corner
B / E / B
hey, got her hands by her sides
E / E
Then hit her harder-harder-harder, ooohhh baby
B / B / A / E / B
till they thought she might die

B / E / B
Oh, I got a foggy notion, do it again
B / E / B
over in the corner, do it again
B / E / B
I got my calamine lotion, baby, do it again
B / E / B
well I got a foggy notion, do it again, alright

"Who Loves the Sun" - Velvet Underground

{D}
{A}{G#}
Who loves the sun
{A}{F#}
who cares that it makes plants grow
{D}{Dm}
Who cares what it does
{A}{A}
since you broke my heart

{A}{G#}
Who loves the wind
{A}{F#}
who cares that it makes breezes
{D}{Dm}
Who cares what it does
{A}{A}
since you broke my heart

{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the sun
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the sun
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Not everyone
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the sun

{A}{G#}
Who loves the rain
{A}{F#}
who cares that it makes flowers
{D}{Dm}
Who cares that it makes showers
{A}{A}
since you broke my heart

{A}{G#}
Who loves the sun
{A}{F#}
who cares that it is shining
{D}{Dm}
Who cares what it does
{A}{A}
since you broke my heart

{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the sun
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the sun
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Not everyone
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the -

{D/G}{C/F}
Ah-ah-ah-ah, ah-ah-un
{D/G}{G.F/E.
Sun-ah-ah-un

{A}

{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the sun
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the sun
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Not just anyone
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the sun
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the sun
{B}{E}{A}{A}
(Pa-pa-pa-pa) Who loves the sun

"I'm Set Free" - Velvet Underground

C
I've been set free and
F Dm
I've been bound
C
To the memories of
F Dm
Yesterday's clouds
C
I've been set free and
F Dm
I've been bound

And now
C F
I'm set free
C F
I'm set free
C F Dm G
I'm set free to find a new illusion

C
I've been blinded but
F Dm
Now I can see
C
What in the world has
F Dm
Happend to me
C
The prince of stories who
F Dm
Walks right by me

And now
C F
I'm set free
C F
I'm set free
C F Dm G
I'm set free to find a new illusion

C
I've been set free and
F Dm
I've been bound
C
Let me tell you people
F Dm
What I found
C
I saw my head laughing
F Dm
Rolling on the ground

And now
C F
I'm set free
C F
I'm set free
C F Dm G
I'm set free to find a new illusion

"Cool it Down" - Velvet Underground

D
Somebody took the papers
D
And somebody's got the key
D
And somebody's nailed the door shut
D
Says hey whatch'you think that you see?

G
But me, I'm down around the corner
G
you know I'm looking for Miss Linda Lee
D
Because she's got the power, to love me by the hour
D
Gives me W-L-O-V-E

Bm
Hey Baby, you want it so fast
G
Don't you know that it ain't gonna last?
Bm G
Of course, you know it makes no difference to me

D
Somebody's got the time-time
D
Somebody's got the right
D
All of you other people,
D
Trying to use up the night

G
But me, I'm down around the corner
G
you know I'm looking for Miss Linda Lee
D
Because she's got the power, to love me by the hour
D
Gives me W-L-O-V-E

Bm
Hey, if you want it so fast,
G
don't you know honey you can't get it so fast
Bm G
Of course, you know it makes no difference to me

D A
Woh-oh you better--cool it down
Bb D
You know you better--cool it down
D A
You know you better--cool it down
Bb D
You know you better c-o-o-o-ol it down, you'd better cool it down

Bm
Hey, if you want it so fast
G
Better lookey-look baby don't you--want it to last?
Bm G
But of course you know that, hey it makes no difference to me

D A
Woh-oh you better--cool it down
Bb D
You know you better--cool it down
D A
You know you better--cool it down
Bb D E
You know you better c-o-o-o-ol it down, you'd better cool it down

Derek Holzer do Next Five Minutes

Outro papo, com o Derek.

***

Derek Holzer é o cara que deu origem ao Next Five Minutes, o encontro de novas mídias e resistência eletrônica que proporcionou a criação do Mídia Tática Brasil, que aconteceu entre os dias 13 e 16, nas mediações da Paulista, aqui em São Paulo. Derek foi o principal destaque do primeiro dia e fala, às 20 horas, na palestra "Desvendando a Mídia Tática". Conversei com ele pouco antes de pisar em solo brasileiro.

O que você espera em relação ao Mídia Tática Brasil e à cena brasileira?
Honestamente, espero mais aprender do que ensinar. Você deve achar que esta cultura de "resisitência eletrônica" que falamos seja global - talvez universal - mas é fato neste assunto que qualquer tipo de movimento político cultural está profundamente enraizado com a cultura local de onde ele nasce. Muito da net.art inicial saiu do desejo de europeus ocidentais e orientais em encontrar uma rede eficaz e sem mediação para comunicar as descobertas de ambos mundos. Mais recentemente, contudo, ela se tornou um meio de exploração muito formal na Europa e um fetiche sobre o design criado por uma cultura corporativa na América do Norte. Em cada caso, com notáveis exceções, eu diria que os agentes foram de alguma forma seduzidos rumo a uma estetização das ferramentas de seu próprio negócio, e para longe do uso destas ferramentas no compromisso com preocupações sociais mais profundas. Além disso, meu interesse em visitar o Brasil é muito próximo àquele que me levou à Europa Oriental há alguns anos: ver uma comunidade eletrônica que ainda está se desenvolvendo e aprender quais, se algum, outros modelos estão sendo importados e nível de pensamento crítico que acompanha a adaptação destes modelos.

Como você vê o evento dentro desta nova resistência eletrônica mundial?
Estou muito impressionado com a coerência da programação e certamente mal posso esperar para ouvir o que os palestrantes locais têm a oferecer. Mesmo nesta cultura de ciberativismo e ciberteoria, o culto ao "rockstar" existe. Numa tentativa de se legitimizar melhor, muitos eventos em países com cenas de novas mídia chamadas de "em desenvolvimento" se entopem com os mesmos nomes que estão apresentando os mesmos trabalhos há oito anos. As vozes locais são simplesmente sufocadas. É bom ver, neste evento, as vozes locais estão realmente no primeiro plano. Acho que os brasileiros têm muito a ensinar uns aos outros, como têm a aprender com artistas da Europa e dos Estados Unidos.

Quais são as relações entre esta cultura eletrônica, o movimento antiglobalização e as recentes passeatas antiguerra?
Uma coisa que eu acho que separa os novos desenvolvimentos na resistência eletrônica, seja em relação à globalização das corporações ou mobilizações massivas antiguerra, é que há uma vontade de encontrar os oponentes de frente, usando suas mesmas ferramentas e táticas contra eles. Um excelente exemplo disso é o site do Gatt - um site falso para a Organização Mundial do Trabalho que recentemente anunciou o fim da OMC e sua reformulação como uma organização dedicada à Declaração Universal dos Direitos Humanos. Este anúncio foi levado a sério em muitos lugares, incluindo no Parlamento Canadense, onde gerou uma discussão sobre como isto afetaria as leis de comércio de madeira. Este tipo de tática não era apenas impossível para uma geração ou duas antes da nossa, mas também sequer seria considerada, uma vez que o foco naquela época era muito maior na criação de comunidades utópicas contraculturais que foram rapidamente assimiladas, cooptadas, desarmadas ou tornaram-se guetos graças à influência da mídia mundial homogeinizadora. David Garcia e outros criaram um marco para a cultura de resistência e suas relações com a mídia nos grupos ativistas de conscientização contra a Aids, como o ACT-UP no meio dos anos 80. Com seu apelo militante "fora do gueto e dentro da mídia de todo o jeito possível", eles definiram uma estratégia que ainda é a base da maior parte do ativismo de mídia atual.

Fale de sua experiência com rádio online.
Como meu primeiro envolvimento com esta nova cultura de mídia aconteceu através da net.radio, eu me sinto muito próximo a este movimento. Um dos primeiros players-chave em net.radio foi o Re-Lab em Riga, na Latvia. Para eles, net.radio era uma forma de estabelecer conexões com outros artistas através do mundo à medida que se tornava caro realizar estes encontros pessoalmente: requerimentos de visto, passagens de avião e por aí vai (muitos brasileiros são familiarizados a esta situação, tenho certeza). Para os pioneiros da net.radio na Latvia, a comunicação não era necessariamente um modelo de transmissão de rádio um-para-muitos. Em vez disso, era uma rede ponto-a-ponto que compartilhava experimentos de áudio entre um grupo fechado entre a Europa oriental e ocidental. O foco estava na participação, mais do que na audição e o resultado final quase nunca era tão importante quanto o processo de comunicação pelo caminho.
Isto, claro, pavimentou o caminho para o que aconteceu depois, especialmente a explosão do Centro de Mídia Independente depois das passeatas de Seattle em 1999. Net.radio então passou para o modelo um-para-muitos (ou talvez muitos-para-muitos) de novo, quase sempre usando combinações híbridas de internet, rádios piratas, livres, comunitárias e universitárias para espalhar a mensagem o mais distante possível.
Em minha própria experiência, vi meu projeto na República Tcheca, Radio Jeleni, ir de uma média de três a 3 mil ouvintes por dia durantes os protestos contra o Banco Mundial e o FMI durante o outono do ano 2000. No fim das passeatas, quando a atenção global voltou-se para o "next big thing", a audiência voltou aos três, refletindo o momentário, mas impermanente, mudança do modelo P2P ao modelo de radiodifusão tradicional. Para mais informações sobre este modelo ponto-a-ponto de comunicação, sugiro o ensaio de Eric Kluitenberg, Mídia Sem Público (Media Without an Audience), que é altamente baseado nas experiências dos primeiros inovadores de net.radio, há seis ou sete anos.

Como eventos deste tipo podem atingir um público maior?
Eu tenho alguns comentários sobre isso, talvez não um plano, mas alguns conselhos.
Primeiro: considere seu público. Muita discussão acontece - e ainda assim é muito necessária - no tópico de tática mídia em um nível "expert". Isto é, num nível em que os envolvidos são praticantes de mídia. Estas discussões devem ser as mais transparente possíveis para atrair o público, refletindo a idéia de uma mídia transparente sobre a mídia fechada do sistema, mas nunca devemos confundi-las com eventos para o público em geral. Discutir táticas de comunicação com o grande público não é o mesmo que comunicar idéias com este mesmo público. O "produto final" de um evento como o Mídia Tática, na minha opinião, deveria ser tão eficaz em dar informação como qualquer outra mídia, mas deve convidar dez vezes mais à participação. Nada é menos convidativo à participação do que a metadiscussão de insiders, o que faz com que a maioria das pessoas tenha este sentimento que esta coisa de cultura eletrônica é só para experts, geeks e freaks.
Segundo: mantenha a nível local. E isso em várias maneiras. Convidados estrangeiros podem trazer novas idéias, mas olhe o que eles fizeram com a política na América Central, os sistemas de saúde de vários países africanos ou as transições econômicas na Europa Oriental ou na região do Báltico! Use-os com muito cuidado e alto teor crítico. Há uma impressão em vários lugares que visitei e apresentei projetos que as pessoas irão escutar idéias estrangeiras de forma mais receptiva do que as locais. Enquanto isso é parcialmente verdade, idéias que vêm da Holanda pro Brasil, por exemplo, podem ser facilmente menosprezadas como pertencendo "à outra cultura" ou sendo "imperialista" ou coisas do tipo. Por isso, tenho um conhecimento muito limitado do Brasil e de sua cultura. Como posso fazer algo em termos de mídia para seu povo? Muito melhor seria prover a melhor informação e inspiração que eu posso e deixar os brasileiros fazendo eles mesmos suas mídias. Desta forma, a infraestrutura da Holanda e do Brasil podem ser tão diferentes como a temperatura. O que funciona em Amsterdã - rádio pirata, internet de banda larga e TV a cabo não-comercial e independente - pode não ser a solução ideal num país com restrições fortes sobre o rádio, uma infraestutura de internet mais fraca e bem menos dinheiro para emissoras alternativas. Encontrar suas forças na distribuição pública, mais do que se basear inteiramente em modelos integralmente importados, te deixa muitos passos à frente do gueto de mídia que prega apenas para os convertidos.
Terceiro: fique tranqüilo. Permitir-se ser estereotipado é o equivalente a ser cooptado ou marginalizado pela mídia mainstream, que come aquilo que pode usar e caga aquilo que não pode. O arquétipo de mídia do "hacker", por exemplo, é útil pois cria paranóia. A paranóia é útil porque vende coisas - tudo, de programas antivírus a programas de defesa nacional. Da mesma forma, tempo gasto desconstruindo mitos sobre o trabalho de alguém é tempo desperdiçado. Entrar em uma discussões como se ele é mais um phreak de computador em busca da glória do que um ativista de verdade, ou pior ainda, tentar separar em público um do outro, é usar a terminologia alheia e reforçar os arquétipos da mídia. Fique mais calmo, mude suas táticas antes que elas tornem-se estagnadas, negue ou subverta rótulos criados para você e você descobrirá que a reação do público ao inesperado é muito maior do que ao esperado. Recentes ações do Critical Art Ensemble e outros no campo da biotecnologia merecem ser citadas. Quem poderia prever, ainda mais encontrar um arquétipo de mídia que possa ser usado para, um grupo de ativistas que reverteriam a engenharia de plantas modificadas geneticamente, tornando-as vulneráveis aos herbicidas que supostamente elas seriam imunes? "Genoterroristas"? "Agrohackers"? Quando algum rótulo grudar, os efeitos da ação já terão sido sentidos.

Como o Brasil é visto pela comunidade eletrônica global?
Eu não tive tempo de perguntar ainda. Volto em algumas semanas com a resposta! Falando sério, eu acho que há muita atenção se voltando para a América do Sul à medida em que os experimentos laboratoriais econômicos feitos pelo Fundo Monetário Internacional e outras entidades financeiras que governam o mundo começam a falhar, um após o outro. O Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, também mostrou apoio popular numa escalada pela resistência determinante às regras econômicas globais em detrimento aos direitos humanos sobre privilégios de negócios. Minha esperança pessoal é que os brasileiros provem estar prontos para criar suas próprias idéias no front eletrônico, mais do que se tornar um grupo de markting para esquemas de design coloridos vindos do exterior, pois estão no front social. Saberia exatamente sobre isso a partir desta semana.

Al Giordano, do Narco News

Esse papo de Mídia Tática me lembrou de desenterrar uns textos da época...

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Jornalismo autêntico
Ação e reação, prega Al Giordano, do Narco News

Al Giordano é editor do Narco News, site de notícias que cobre a guerra contra as drogas promovida pelos EUA de um ponto de vista heterodoxo, e ele encerrou ontem, domingo 16, o evento Mídia Tática Brasil, discutindo mídia, resistência e o que ele chama de "jornalismo autêntico", uma versão moderna do intelectual orgânico proposto por Antonio Gramsci. Abaixo, um apanhado em texto corrido de diversas respostas que ele me deu num pingue-pongue antes de sua palestra.

"Não planejo trabalhar por aqui, não da maneira convencional. Vim como turista, para ouvir, aprender, conhecer a linguagem que me permita conversar, não apenas trabalhar. Estou de folga. Seis anos atrás saí das telas de computador, das redações, dos deadlines, TVs, telefones, tudo isso e fui para o Chiapas no México e passei uma parte considerável de um ano inteiro entre comunidades zapatistas, apenas ouvindo e aprendendo.

Foi a melhor coisa que eu já fiz. Três anos depois, o Narco News nasceu, baseado em boa parte nas táticas e estratégias que estudei nas montanhas e selvas de Chiapas. Acho que, para nós que trabalhamos com tecnologia de mídia ou jornalismo, é importante sair da tela de vez em quando, e é aí que você tromba com notícias de verdade, notícias sobre pessoas. O Narco News, apesar de ser uma operação que trabalha com um orçamento muito baixo sem publicidade ou venda de produtos, hoje é gigantesco em termos de leitores e de impacto internacional, especialmente neste hemisfério. Ele quebra os bloqueios de informação além das fronteiras e idiomas. E há um time talentoso que entende o jornalismo autêntico como eu, por isso estou dando um tempo.

Nosso editor convidado, Gary Webb e o chefe do escritório andino Luis Gómez, são os porta-vozes do Narco News quando estou fora. Este jornal internacional online começou em inglês em abril de 2000 e depois de um tempo tinha cerca de 100 mil hits por mês. Agora chegamos aos dois milhões mensais. Passamos a nos comunicar em espanhol em janeiro de 2002 e agora começamos a publicar em português... O processo está apenas começando. Somos uma pequena redação nômade, viajando pela América Latina e publicando online nossas matérias sobre a guerra contra as drogas, a mídia e a democracia.

No mês passado, organizei a Escola de Jornalismo Autêntico Narco News na Isla Mujeres e na Península Yucatan, ambas no México. Tínhamos 26 alunos matriculados, seis do Brasil, e Renato Rovai, editor da revista Fórum, foi um professor brilhante e editor do Narco News em português durante os dez dias do curso.

Vi entre os participantes brasileiros um brilho, uma esperança, um sentimento do que pode ser feito, que me intriga muito. Nos EUA, como todo o mundo sabe, o pensamento livre e revolucionário é desanimado e sublimado. Não vivo mais lá há seis anos. Tenho falado espanhol em minha vida cotidiana, em algum lugar do país chamado América (se refere à América Latina). Acho que é hora de aprender português e estudar o que acontece em seu país. Se o Narco News é trilíngüe, por que seu editor não deveria ser também? Talvez o "vírus da mídia" que nivela o campo de ação esteja fervendo no Brasil.

Você deve entender que o mundo anglófono tem um problema de linguagem: esqueceu de falar vários idiomas. Se eles ensinam uma língua estrangeira na escola ou é espanhol ou francês. Talvez alemão ou italiano ou latim. Português, muito menos o brasileiro, está muito atrás e os EUA em particular são uma cultura muito etnocêntrica. Muitas pessoas nos EUA sequer falam uma segunda língua. E isto trava seu crescimento.

Há um entendimento que o Brasil é país muito rico em termos tecnológicos, um dos principais produtores de software do mundo, conhecido por sua aviação e computação e que é um gigante econômico, mas não é isso que me interessa em relação ao seu país. O que me interessa é a sociedade, as pessoas. Um de nossos correspondentes, a jornalista autêntica carioca Karine Muller, acabou de postar uma reportagem muito interessante sobre o que acontece no Rio, no Narconews. Prefiro ouvir dela, porque ela é quem mora lá. É a cidade dela, a voz dela, e não a de um gringo, que deve ser lida e ouvida sobre os acontecimentos no Rio.

Nosso time de colaboradores tem crescido exponencialmente com a Escola de Jornalismo Autêntico: correspondentes na Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equadro, México, Peru, Venezuela, Europa, EUA... Os leitores foram recentemente apresentados a eles e verão ainda mais gente aparecer em breve. É um processo excitante. Mas enquanto isso, as condições objetivas para a revolta de massa contra a Tirania da Mídia estão se ajustando e o assunto está se agitando em grandes pontos da América do Sul. Sou um jornalista e sei quando sinto o cheiro de uma boa história. Também sou um revolucionário que faz com que esta história continue indo. E eu acho que o jornalismo autêntico de hoje não pode apenas ser ambos, como DEVE ser.

As pessoas estão chegando à conclusão que a mídia se tornou, em nosso tempo, uma espécie de Estado, mais poderoso que governos. No caso da mídia de emissão - TV e rádio -, poderosos interesses econômicos tomaram conta das ondas públicas, espaço que deveria ser patrimônio de toda humanidade, e colocou-o a serviço apenas daqueles que podem pagar anúncios.

Por que isto é ruim para eu e você? Anunciantes querem espectadores e ouvintes com dinheiro para gastar, emissoras dependem de anunciantes e assim os grandes pólos de mídia pararam de servir à maioria. Que maioria? Aqueles de nós que não têm dinheiro para gastar. A mídia sintoniza seus produtos com os ricos e o resto fica à míngua. A maioria das pessoas, sem riquezas, não têm nenhum acesso, muito menos acesso proporcional, ao nosso espaço de transmissão de ondas. E isso é igual em todo o planeta.

E não estamos falando de tecnologia! Muito pelo contrário: o ser humano de hoje trava uma guerra de 24 horas por dia entre o indivíduo e a tecnologia. Para cada vantagem que a tecnologia trouxe aos esforços de resistência, eles trouxeram dois problemas adicionais: a total vigilância oferecida pelas tecnologias de comunicação - internet, telefones celulares, rádio pirata e TV - em relação àqueles que as usam, e o fato que, em muitos casos, os donos ainda podem desplugar tudo quando o momento revolucionário começar.

Atos heróicos de resistência, sim, são possíveis neste mar caótico de mídia e, na melhor da hipóteses, pode preservar e expandir liberdades. Mas estes atos são feitos por humanos, não por telefones celulares ou sites na web. Se uma brecha no sistema nos permite usar telefones celulares, nós usaremos. Esta brecha pode fechar amanhã e aí estaremos usando outra coisa. Eu acho o uso tático de celulares fascinante. Mas só humanos comprometidos com suas missões, num sentido de guerrilha, e o compromisso de revolucionários autênticos poderá derrubar o Rei Mídia. As grandes revoluções através da história podem ter acontecido com armas, mas elas não eram sobre armas. Em muitos casos, trouxeram mais paz e justiça e menos uso de armas. A revolta das massas que acontecerá contra o Tirano Mídia acontecerá com tecnologia, mas não é sobre tecnologia. Ao contrário, pode resultar num uso menor de tecnologias de dominação e certamente no menor abuso destas.

Eu não sei qual é a solução contra esta ditadura. Eu já me fiz muitas perguntas, tanto no Narco News, como em outros lugares. Eu estou muito empolgado com o fato que pessoas criativas e talentosas estejam pensando e trabalhando neste problema de mídia no Brasil. Sei de um lugar que está passando por uma batalha tensa sobre o papel da mídia na sociedade, que é a Venezuela. Muitas dessas idéias discutidas no Mídia Tática atingiram um nível de participação popular junto às massas venezuelanas a ponto que o que tem acontecido lá merece estar nos holofotes dos pensadores e agentes desta Renascença da Mídia Autêntica. A Venezuela em 2002 deve ser visto como um farol que nos ajuda a saber o rumo nas batalhas que virão.

Quem se importa com o que a mídia corporativa diz? Temos que substituí-la, tirá-la de lá e deixar o caminho livre. São mercenários. É nosso trabalho deixar a audiência baixa. Os agentes da mudança sempre são retratados como maus e é trabalho deles agir assim. Ignore o que a mídia comercial diz. Melhor ainda - amarre-os em suas próprias regras, porque eles estão rompendo todas as regras que eles mesmos estabeleceram a respeito de bem estar, verdade, democracia e outros de seus slogans.

No Narco News, nós seguramos eles em sua própria retórica. Muitas de nossas histórias mais populares estão no campo da crítica de mídia, mas não é uma crítica singela. Nós vamos atrás de repórteres e empresas de mídia corruptas e antiéticas pelo nome. Torna-se muito pessoal para muitos deles. Alguns perdem seus empregos depois que os denunciamos. Achamos que os repórteres da mídia comercial deveriam prestar atenção e perceber que estamos seguindo-os em sua própria retórica. E digo isto como alguém que foi um jornalista comercial - para jornais, revistas, TVs, rádios, internet e na maior parte matérias investigativas sobre crimes e política - em meu país por quase uma década. Jornalistas perderam seu rumo. Não é suficiente ser uma "alternativa" e pedir permissão para reformular as coisas. A Renascença do Jornalismo Autêntico está viva e bem em nosso hemisfério. Estou indo ver como as coisas andam no Brasil.

Claro que, enquanto estiver em São Paulo e no Brasil, estarei ouvindo meus colegas e todas as pessoas que eu encontrar, sobre suas soluções para o problema da mídia. Eu iria a São Paulo de qualquer jeito e fui convidado ao encontro do Mídia Tática. Acho que eu estou no lugar certo, na hora certa, vê? Bastou planejar uma folga da maldita tela que fui ao econtro de notícias de valor. É aí que as notícias são encontradas: longe da Tela".

Ricardo Rosas partiu!

ricardorosas.jpg

Dia desses fiquei sabendo por umas duas listas de discussão que assino que o Ricardo Rosas partiu pro outro lado. Uma bomba! Não só pela morte de um camarada, mas pelo fato do Rosas nem ter começado a trilhar o rumo dele por aqui. Não que não tivesse feito nada - mas quem conhecia o sujeito, sabia que aquilo era só o começo de uma biografia brilhante. Rosas era o editor do www.rizoma.net, um dos melhores repositórios em português de idéias, teses e artigos sobre tudo que quebra o padrão monotônico da cultura atual. O falava de software livre e afrofuturismo, incluía drogas, copyleft, xamanismo e manifestos século 21 num balaio que ainda contava com doses cavalares de hackerismo e libertinagens mil, entre outros assuntos que fogem do trivial/convencional que (ainda) nos assola diariamente.

Conheci o Ricardo através da comadre Giseli, que, ao mesmo tempo que carregava o piano da internet da Conrad nas costas com o Mateus, ainda tinha tempo pra organizar eventos e pensar em matar a sede de conhecimento deste nosso Brasil varonil. Gi, Rosas e a Tati (Tatiana Wells, que vez por outra encontro pelos corredores copyleft da vida) ainda estavam esquemando o que seria um acontecimento-chave pra cultura brasileira no novo século - o festival Mídia Tática Brasil. Inspirado no holandês Next5Minutes . o evento reuniu boa parte da produção artística que sabia, há cinco anos, que internet não era apenas email, bookmarks e jpgs engraçadinhos (puxando pela memória, parece a pré-história: não existia Orkut nem MySpace, blog era uma história ainda começando, um MP3 levava mais tempo para ser baixado do que para ser ouvido, YouTube era uma utopia distante, o Creative Commons não tinha sido inventado). Política, cultura, protesto, coletivismo, inclusão digital, manifestações espontâneas, performances, artivismo eram apenas alguns temas que circularam nos quatro (cinco? Não lembro) dias do festival, que aconteceu em março de 2003 e reuniu nomes como Geert Lovink, Al Giordano, Richard Barbrook e John Perry Barlow, além de diferentes manifestações nacionais como o Bicicletada, o Centro de Mídia Independente, a revista Ocas, a rádio Muda da Unicamp (que instalou uma rádio pirata na Casa das Rosas), o Projeto:Metáfora, os Telecentros da prefeitura de São Paulo, os coletivos Sid Moreira, Bijari, LSDiscos e A Revolução Não Será Televisionada, a festa TEMP, o cartunista Latuff, o Metareciclagem, entre outros, nos arredores da Paulista - e nos quatro dias os quarteirões entre o Sesc, o Itaú Cultural e a Casa das Rosas foram povoados por soundsystems, música ao vivo, panfletagens, nuvens de bicicletas, ativistas anônimos, exposições não convencionais, desfiles irônicos e protestos mascarados. Quem passava ou se assustava e saía correndo pro Shopping Paulista pra se refugiar ou entrava no clima e se divertia junto com quem tava fazendo o povo se divertir. Eu mesmo participei de três destas ocasiões: discotecando na oficina de fanzines que o Dr. Ailton instalou no porão da Casa das Rosas (quando uma ativista mais empolgada veio me chamar de sexista porque eu tava tocando "Baba Baby" da Kelly Key - detalhe, a versão instrumental), quando toquei na segunda TEMP (que aconteceu num prédio perto do Largo do Anhangabaú) e participando de uma palestra - e depois de uma mesa - sobre o que aconteceu com a música com a chegada da internet. É, desde aquela época, heheheeh...

E desde que o conheci já dava pra sacar que Ricardo não era um paraquedista ou um entusiasta de primeira hora. Além dos temas sérios e cabeça (e do lado palhaço destes mesmos temas), ele era fissurado por ficção científica, literatura beat, quadrinhos europeus e teorias de conspiração em geral. Não era só um intelectual ou um teórico que botava a mão na massa - era um broder gente finíssima, que falava o mesmo tanto que escutava, sempre tinha uma visão diferente de um assunto batido ou uma questão inesperada sobre a notícia do dia. Bom papo, boa cabeça, boas idéias - o mínimo que você espera de uma pessoa legal.

A gente só se liga dessas coisas quando é tarde demais. Enfim, Ricardo foi chamado antes da hora no dia 11 de abril passado, depois de passar um tempo meio mal, em Fortaleza, onde nasceu. Fica aqui a frustração de não ter conversado mais com o sujeito, de não saber que ele estava mal há pouco tempo, de não ter me despedido. Mas ao mesmo tempo, mais do que chorar mortes, vamos celebrar o legado do Ricardo, que pode não estar mais entre nós, mas começou uma brincadeira que nem tão cedo vai terminar. Pensando nisso, o Marcelo compilou alguns textos do cara que estão espalhados aí pela rede. E apesar do Rizoma está fora do ar, a Grazi disse que irá recuperá-lo em breve.

Taí a compilação:

» Táticas de Aglomeração - Publicação do Reverberações 2006
» Gambiarra: alguns pontos para se pensar uma tecnologia recombinante (PDF) - Caderno VideoBrasil
» Nome: coletivos | Senha: colaboração - FILE / Sabotagem
» Notas sobre o coletivismo artístico no Brasi - Trópico/UOL
» Hibridismo Coletivo no Brasil: Transversalidade ou Cooptação? - Fórum Permanente/Fapesp
» Alguns comentários sobre Arte e Política - Canal Contemporâneo
» Hacklabs, do digital ao analógico (tradução) - Suburbia
» The Revenge of Lowtech : Autolabs, Telecentros and Tactical Media in Sao Paulo (PDF) - Sarai.net

É isso aí, compadre: valeu pelo tempo gasto e pela paciência didática com todo mundo. Qualquer dia neguinho se esbarra de novo.

Kid A - Radiohead

Senão me engano, essa resenha saiu no Correio Popular em pleno ano 2000, mas a Ana do Whiplash pediu pra republicar e graças a isso, consegui resgatá-la...

***

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Como as décadas finais de pelo menos dois séculos anteriores, os anos 1990 foram marcados por uma retrospectiva dos 90 anos anteriores, aglutinando em células compactas de conhecimento tudo aquilo que a centena de anos completa ao final da década quis dizer pausadamente. Mas a década que encerrou-se no final do ano passado foi caracterizada por outros sabores: a ironia e o excesso de informação. Associadas, estas duas qualidades despem a grande verdade sobre a sociedade capitalista às vésperas do novo milênio, um paradoxo em escala planetária que nos emburrece à medida que mais aprendemos. O saber está no ar, mas ninguém está interessado em mostrar como usá-lo.

Na música pop, estas características foram detectadas pela primeira vez pelo U2. Embora ecos destas qualidades já viessem cantando os 1990 por caminhos alternativos na década anterior (como os discos Paul's Boutique, dos Beastie Boys; Pills'n'Thrills and Bellyaches, dos Happy Mondays; e Into the Dragon, do Bomb the Bass), foi apenas com Achtung Baby que elas se encontraram com o teor que filtrou a década. Ali estão a paixão pelo virtual frente à realidade ("Even Better than the Real Thing"), referências à história do rock ("Who's Gonna Ride Your Wild Horses?", "One"), paranóia ("The Fly") e um misto de expectativa com esperança ("Zoo Station"). "Você? Você estava falando do fim do mundo", debochava Bono enquanto mudava radicalmente o visual de sua banda, abandonando a pose de sacerdotes do rock e entrando num terreno estranho à sua antiga religião: a música eletrônica, um carnaval de ritmos e cores fundido com o preto e branco ríspido do fotógrafo Anton Corbijn. O disco de 1991, no entanto, não funcionava sozinho. Vinha acompanhado de uma extensa turnê dividida em três fases (Zoo TV, Zooropa - que acabou virando disco - e Zoomerang), que assistia a banda entre dezenas de monitores de TV e automóveis pendurados no palco, numa clara alusão à deselegância burra pré-colapso do capitalismo. Numa fantasia de caubói prateada, Bono rasgava notas de dólar enquanto, como pastor evangélico, anunciava que teve "uma visão": "TELEVISÃO!", berrava frente ao câmera que, do palco, registrava tudo pelas telas espalhadas no show. Juntos, a Zoo Tour e Achtung Baby deram o tom "rir pra não chorar" que acentuou-se nos anos 90.

A ironia virava fórmula e todas as mídias passaram a usá-la, primeiro o cinema, depois a TV, caindo no gosto popular e reverberando, assim, por todas as formas de comunicação. Falar a verdade era constrangedor demais - ou melhor, falso demais -, por isso era melhor fingir querer dizer justamente o oposto, finalmente, desta forma, atingindo seu objetivo. Passamos a ler textos que nos fingiam contar o contrário do que realmente queriam dizer, ouvir músicas que ridicularizavam o hábito de ser humano, ver filmes cujo verdadeiro tema só é desvendado da metade para o fim, contradizendo tudo que havia sido visto desde o começo. A propaganda passa a se ridicularizar na tentativa de ganhar crédito com o consumidor. Tudo é muito falso, todo mundo sabe; então porque não assumimos falsamente esta falsidade? Era isso que a ironia nos anos 90 significou: uma espécie de afirmação de identidade cultural às avessas, corrompendo nosso entendimento da realidade numa mão dupla, que ao mesmo tempo que acende uma vela pro sim (afirmando algo), acende outra pro não (ridicularizando aquilo que está sendo afirmado, simultaneamente). Sem um, nem outro, caímos na década do "tanto faz", em que as pessoas passaram a fazer exatamente o que o capitalismo queria, plugando-se às necessidades consumistas como se estas fossem responsáveis pelo bem estar espiritual - não material. Até Alanis Morrissette, em seu maior hit, perguntou: "Não é irônico?".

É neste cenário que o Radiohead surge como força disposta ao desequilíbrio. O grupo surgiu na Inglaterra no começo dos anos 90, mas só conseguiu fazer sucesso nos Estados Unidos, graças ao hit "Creep" (do LP Pablo Honey, de 93), ganhando primeiro o público, depois a crítica americana. "Você é tão fucking especial", sussurrava o vocalista Thom Yorke, "mas eu sou uma coisa, sou um esquisito". Só ganhou algum reconhecimento em seu país ao se levar mais a sério em The Bends, de 94, onde deixavam de falar de relações cotidianas para contemplar a sociedade moderna como um todo, num dos primeiros discos conceituais da década (tantos viriam depois). O grau de importância do grupo foi crescendo tão logo eles ganhavam intimidade como músicos, contemplando possibilidades diversas a partir do formato três guitarras (Yorke, Jonny Greenwood e Ed O'Brien), baixo (Colin Greenwood) e bateria (Phil Selway). Reinventando o rock clássico como fazia o indie rock americano na metade da década passada (com uma certa dose de ironia, claro), o Radiohead chamava cada vez mais atenção.

Até que atingiu seu auge com o clássico inato OK Computer, ácida descrição da sociedade capitalista sem ironia nenhuma. Ao reproduzir as normas do novo dia-a-dia sem se preocupar com sentido lírico (quase todas as composições do disco de 97 empilhavam referências e situações sem o comprometimento com o sentido), ia nos vestindo com a roupa do andróide paranóico que a vida consumista de hoje nos transformou. O disco também antecipava a invasão techno ao mercado que aconteceria naquele mesmo ano (com os discos Dig Your Own Hole, dos Chemical Brothers; e The Fat of the Land, do Prodigy), mas apenas nas entrelinhas - a produção sci-fi de Nigel Godrich deixava apenas um ar eletrônico no álbum. Sem contar a música em si, as progressões guitarreiras que mudavam a atmosfera das canções, dando uma dinâmica inédita ao som do grupo. Incensado pela crítica, OK Computer tornou-se padrão de excelência do rock dos anos 90.

E o que fazer depois disto? Depois que toca-se o céu, resta outro rumo senão a queda? O grupo passou a dedicar-se a uma turnê em que viu-se condicionado ao máximo do capitalismo que criticavam. Laureados como a mais importante banda de rock do mundo, o Radiohead tentou lançou um EP (Airbag / How Am I Driving?) e dois vídeos (a coletânea de clipes 7 Television Commercials e o homevídeo Meeting People is Easy) na tentativa de esgotar a responsabilidade em torno do próximo álbum. Em vão: cada produto lançado era recebido como prova que o sucessor de OK Computer vinha aí.

A solução seria eliminar os parâmetros conhecidos e assim o grupo começou a trabalhar: Thom Yorke desencantou-se com a melodia e passou a procurar alternativas rítmicas. Ed O'Brien queria um disco curto, enxuto, com canções simples e diretas. Colin preferia um álbum mais aprofundado na eletrônica, mas sem soar "techno". Kid A (EMI) é o produto das cinco (seis, contando o produtor Nigel) perspectivas de como o grupo fugiria do formato OK Computer.

O resultado é um disco árido, tenso, pós-rock, ermo - adequado para o ano 2000. Enquanto a quantidade de informações contida no álbum anterior dava um aspecto de poluição visual ao disco, o novo álbum elimina recursos visuais em favor de uma música sem rosto, sintética, ciborgue, futurista. Mas enquanto o futuro de OK Computer era hi-tech e bucólico, o de Kid A é vago e ameaçador, como se o espírito de máquinas mortas sobrevoasse por cima de desértica paisagem pós-apocalíptica.

O disco abre com teclados lunares que reverberam ondas eletromagnéticas que funcionam como uma canção de ninar por onde Thom Yorke pode improvisar apaixonadamente a letra. "Tudo está no lugar certo", ele canta ao começo do disco, repetindo os versos à medida que a canção se robotiza, cada vez mais. Entra a faixa-título, novos teclados (e caixa de música marcando o andamento, ao lado de uma bateria de bebop) descortinam o caminho para a entrada do vocal, um zumbido metálico que com certeza canta algo, mas em idioma indistinguível. A voz de Yorke é distorcida por um aparelho pré-histórico chamado Ondes Martenot (usado na trilha de Star Trek) e remete ao Menino A, o primeiro clone humano, como reza a mitologia radioheadiana.

Esta forma carinhosa que o grupo se refere à pioneira cópia de DNA humano posta em prática num laboratório (que poderia se chamar qualquer coisa mas é reconhecido com uma intimidade familiar) torna possível outro paralelo com Stanley Kubrick, o maestro cineasta cuja pompa e pulso firme à direção, já que OK Computer remetia instintivamente a 2001 (quando a máquina contra-ataca). No novo disco, o Radiohead contempla A.I., a ode não-filmada do cineasta à robótica, em que ele assume que as máquinas são herdeiras do legado humano, nossos descendentes. O grupo vai além e pensa no clone como descendente, a máquina perfeita projetada pela natureza e reprogramada de acordo com nossa vontade. Mas que vontade? Racional ou instintiva? O grupo deixa a resposta em aberto, por enquanto.

"The Nation Anthem" nos apresenta ao baixista da banda, Colin Greenwood, que puxa um groove funk pesado que escurece mais ainda à entrada de um time de metais reverenciando os graves pesos-pesados de John Coltrane. Em falsete, Yorke canta a vontade e a disposição de mudar, que aos poucos impregna o inconsciente coletivo: "Todo mundo por aqui / Todo mundo vai parar aqui / O que está acontecendo? / (...) / Todo mundo vai parar aqui / Todo mundo vai parar o medo / O que está acontecendo?". Ao citar literalmente o nome do mítico disco político de Marvin Gaye (What's Going On? - O que está acontecendo?), o grupo nos lembra que os tempos atuais são tão (ou mais) interessante que os anos 60 que inspiraram Gaye a se perguntar sobre a ordem mundial. O grupo prega decisões coletivas como a melhor forma de ir contra o individualismo robótico e passivo de OK Computer. Não é nenhum pouco diferente do que a simbólica luta anti-FMI / OMC / Banco Mundial que já nos deu notórias batalhas como em Seattle (no ano passado) e Praga (semana passada).

"How to Disappear Completely and Not Be Found" finalmente apresenta os violões, enquanto o vocalista nos lembra que o filme Matrix é na verdade uma metáfora da nossa situação atual: "Eu não estou aqui / Isso não está acontecendo", balbucia Yorke, enquanto o disco vai ficando cada vez mais lento, atingindo seu ponto máximo de estática na instrumental "Treefingers", entrando vagarosamente no terreno gelado das brancas vibrações eletrônicas de Brian Eno. "Optimistic" poderia ser irônica caso se referisse à sociedade (ainda mais com este título - "otimista"). Mas a paisagem que o grupo vê é pós-civilização e o otimismo a que se referem é um abandono das tecnologias, uma volta à natureza, onde a lei da selva - perfeita - reina soberana: "Os peixes grandes comem os pequenos", canta a letra sobre guitarras psico-metálicas que poderiam ter saído de LED ZEPPELIN III, "tente o melhor que você pode / O melhor que você pode é o suficiente". "In Limbo" parece apenas descritiva, ecos e guitarras dissipando conforme a paisagem é mostrada: "Estou do seu lado / Não há onde me esconder / Estou perdido no mar / Você está vivendo uma fantasia / Não se importe comigo", num novo ataque ao individualismo.

O ritmo marcial technopop que soa através de "Idioteque", marcando um compasso eletrônico por onde a sociedade do desperdício é cruelmente descrita, em vocais familiares (mas entrelaçados de uma nova forma) de Thom Yorke: "Deixa eu te dizer que você é o primeiro / Eu vou rir até minha cabeça sair / Eu vou engolir até explodir / Já vi muito / Já vi tudo / A era glacial está vindo". Descreve os seres humanos como dinossauros às vésperas da extinção, porque já ultrapassaram o limite de consumo de recursos naturais. O sotaque techno (proveniente da atual obsessão do grupo: a gravadora Warp) só ajuda a entender a crítica do grupo, que vai de encontro à letargia e o subsequente estado de automação que o ser humano aos poucos vai se submetendo - o ponto central de OK Computer. Em "Morning Bell", o grupo volta ao campo da melodia do último álbum (até certo ponto ignorado no novo disco) e como um aparelho de TV ligado durante um bocejo matinal despeja informações de forma vaga e desencontrada - "Eu não conheço o assassino", "Onde você estacionou o carro?", "E todo mundo mente para mim", "Todo mundo mente nas pesquisas" e o golpe final "Todo mundo quer estar lá / Todo mundo quer ser o mesmo / Andando, andando, andando, andando". A vida moderna é um tédio.

Kid A termina com a melancólica "Motion Picture Soundtrack": "Pare de mandar cartas / Cartas sempre queimam / Não são como os filmes / Que nos enchem de mentiras brandas", divaga o vocal triste e tímido do final, que enuncia um clima de felicidade mágica à Walt Disney (orquestras cheias de harpas dedilhadas) por baixo do tremor original do álbum. Estamos no meio de uma cratera, depois da bomba explodir. Esta bomba é o século 20, que se engole cada vez mais à medida que chega ao fim. Quando 2000 passar, zera tudo. É contemplando este futuro que Kid A sorri. É um sorriso estranho, não-humano, pensativo. Mas feliz e esperançoso, como há muito não víamos.

O Papa do Pancadão

Duas com o Marlboro.

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22 de janeiro de 2003

Electro é funk de butique, diz DJ Marlboro

"É muita hipocrisia", desabafa o lendário DJ Marlboro. Pai do funk carioca, Fernando Luís Mattos da Matta, 39, se refere ao sucesso da passagem da DJ e cantora francesa Miss Kittin pelo Brasil. "Aconteceu o mesmo com a lambada, que teve de ser sucesso lá fora para ser reconhecida por aqui. Quem sabe o funk não tem a mesma trajetória?"
Passado, o gênero já tem. Criado em 1989, começou como os muitos filhotes da disco (hip hop, dancehall, house, tecno), em torno do quatro por quatro eletrônico e gritalhão executado pela dupla MC e DJ, que, no Rio de Janeiro, ganharam ares manhosos e gaiatos, típicos do comportamento da metrópole praiana.

Desde então o funk carioca não pára de se espalhar e ganhar território. Dos populares bailões ao "Planeta Xuxa", passando pelos gráficos e viscerais Proibidões até o estouro de Kelly Key, suas dimensões apenas aumentam. Miss Kittin, sob esta lógica, é apenas mais um passo do gênero: "Esse funk disfarçado, de butique -com as mesmas batidas quebradas e os mesmos BPM do funk- é apenas uma maneira que alguns DJs encontram para dizer que não tocam funk".

Aproveitando vácuos artísticos para mostrar sua cara, o funk carioca nasceu do fascínio de Marlboro por um brinquedo novo: a bateria eletrônica. E a história desta descoberta entra para os autos da psicologia popular ao lado de "Yesterday", dos Beatles, e "Satisfaction", dos Rolling Stones, como músicas compostas durante o sono. O DJ conta que a primeira vez que viu o instrumento foi nas mãos do antropólogo Hermano Vianna. "Mas ninguém sabia mexer", conta, lembrando do entusiasmo que mal o deixou dormir naquele dia.

"No sonho, aprendi a mexer e programei", diz. "No dia seguinte, liguei para ele logo de manhã e pedi para apertar os botões do jeito que eu havia sonhado e deu certo. Aí ele me deu a bateria. Foi um dos melhores presentes que eu ganhei na minha vida, pois como disseram, "é como se fosse dado um rifle a um chefe indígena"."

Lançando a coletânea "As Melhores do DJ Marlboro", o DJ se coloca como papa da eletrônica: "O funk é eletrônico antes de existir essa denominação. Quem define o que é eletrônico e o que não é?", briga, enfatizando o papel do DJ no mercado. "É ele quem descobre, produz e executa, todo o esquema da indústria fonográfica completo numa só pessoa."

Montado em seu próprio império (a produtora Big Mix), Marlboro é orgulhoso de seus números: "Entre CDs próprios, artistas que lancei, coletâneas internacionais e remixes produzidos, pode colocar que eu lancei mais de 200 CDs. Isso em vendas ultrapassa a marca de 4 milhões de discos, certamente". Toca em três festas, além de passar por outras 12 ("dou uma passadinha e sorteio uns brindes"), agitando o que estima ser uma pequena multidão de 12 mil pessoas por fim de semana. Fora uma coluna semanal no jornal "O Dia", um portal na internet (www.bigmix.com.br), os 350 mil ouvintes por minuto em seu programa de rádio e a segunda audiência da TV Bandeirantes carioca.

Mesmo assim, Marlboro acha que o funk carioca ainda não se estabeleceu.
"Acho que só seremos realmente reconhecidos quando resolverem fazer um funkódromo, quando as escolas fizerem concursos de funk para incentivar a garotada a escrever e expor suas idéias. Quando o funk for visto como instrumento de pesquisa para a sociedade descobrir o que essa galera pensa e a partir daí criar oportunidade e perspectiva de vida aos jovens, que sempre manifestaram essas reivindicações por meio da música -como um dia foi a MPB, a bossa nova, a jovem guarda e a tropicália. Hoje é o funk."

AS MELHORES DO DJ MARLBORO
Artista: DJ Marlboro
Gravadora: BMG
Quanto: R$ 18, em média

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5 de junho de 2004

DJ Marlboro conduz o funk carioca à Europa

DJ Marlboro entra em seu escritório no bairro Lins de Vasconcelos, nas redondezas do Méier, zona norte do Rio, e a primeira coisa que faz é correr em direção à sala onde está seu computador para baixar mais de 800 e-mails --em 15 contas de correio eletrônico diferentes. "É que ontem não deu tempo para baixar", desculpa-se, sem tirar os olhos do monitor, alternando do programa de e-mail para o de navegação da internet, no qual responde mensagens em um de seus quatro fotologs que atualiza pessoalmente.

Patrono do gênero popularmente conhecido como funk carioca, Marlboro é um dos principais DJs do Brasil e seu talento finalmente ganha reconhecimento internacional, mesmo ainda sendo tratado com o desprezo típico que o brasileiro médio dedica a artistas que se comunicam com classes sociais mais baixas. O DJ carioca é uma das atrações do festival SónarClub, que aconteceria ontem no clube Ocean, em Londres. O evento é uma versão de bolso do festival espanhol Sónar, cuja edição 2004 começa no próximo dia 17, em Barcelona, onde DJ carioca também bate cartão.

Ele ainda volta ao Brasil antes de retornar à Europa para a apresentação no Sónar, quando, ao lado do coletivo Instituto e do DJ Nego Moçambique, compõe o painel Eletronika Brazil, no espaço SónarPub. Após os brasileiros, o mesmo palco recebe nomes como a dupla belga 2 Many DJ's e o coletivo garage So Solid Crew.

E Barcelona é só o ponto de partida de sua primeira turnê européia, que ainda conta com datas em Paris (dias 22 e 23), Londres (dia 24), Liubliana (capital da Eslovênia, dia 25) e Zagreb (capital da Croácia, dia 26). A moral de Marlboro, principal porta-voz do funk carioca, ainda cresce com o lançamento de quatro coletâneas de suas produções na Europa.

Mas ele ainda é o mesmo sujeito que, há 24 anos, atravessava todo o Rio de Janeiro a pé ou de bicicleta, carregando os vinis na mochila, para discotecar. A humildade do DJ é estranhamente proporcional ao nível de controle que ele exerce em todo o império de entretenimento que criou, o Big Mix, cujo slogan ("É Big Mix, ô mané!") é reverberado por milhares de cariocas diariamente, seja em intervenções de ouvintes em seu programa de rádio diário ou em adesivos espalhados por todos os lados da cidade maravilhosa.

É ele mesmo quem tira as fotos em todos os bailes que toca (mais de 20 por fim de semana) e descarrega em seus fotologs (como o www.fotolog.net/bailefunk). Ele ainda supervisiona todos os mixes feitos por sua equipe, responde pessoalmente aos e-mails e às mensagens que são enviadas via ICQ, discute com detratores do funk e dirige o próprio carro todo o dia rumo à rádio, no centro.

Viciado em trabalho, ele não pára um minuto e está constantemente ao celular, alternando papos com velhos amigos e conversas sobre promoção de eventos. Vê-lo revezar entre a locução ao vivo do programa "Big Mix" e o papo com o MC Serginho (o da "Égüinha Pocotó") ao telefone é desesperador e inspirador --ao mesmo tempo em que parece que vai se atrapalhar e pôr tudo a perder, pode-se perceber o senso de ritmo e a presença de espírito que o tornam um grande DJ.

"O negócio é fazer o povo dançar. Não tem dessas de Billboard, de ver na revista de moda a música que tá tocando lá fora...", explica. "Se o pessoal dançou, deixa; se não, joga fora. Não importa se é sucesso no exterior."

Sentado em seu estúdio, teoriza sobre a fagocitagem do funk carioca em relação aos outros gêneros de música, comparando com a mestiçagem e mistura de culturas característica do Brasil: "O funk absorve tudo, seja folclore brasileiro ou música gringa. É o gênero com menos preconceito em relação aos outros gêneros e, talvez por isso mesmo, seja o que mais preconceito sofre", explica. "E, se você for ver bem, é a mesma coisa do Brasil, que também absorve tudo e sofre preconceitos por não ter preconceito."

"Mas eu queria mesmo era ouvir o funk com os ouvidos do gringo", lamenta, lembrando das excursões recentes que fez aos EUA --desde que se apresentou pela primeira vez em Nova York, em junho do ano passado, ele já voltou outras duas vezes ao país.

"Não sei inglês até hoje e gosto de música em inglês independentemente do que ela diz, sem saber do que ela está falando. Não sei se o estrangeiro também ouve assim, então vou tentando, devagar, colocando alguma coisa instrumental, outras músicas mais silábicas, umas com uns baixões..."

Assistindo lentamente ao crescimento do gênero no exterior (ele interrompe a entrevista várias vezes para falar de reportagem do "Fantástico" sobre o estouro do funk na Grécia ou de um amigo que avisou que ouviu funks em um clube em Portugal), Marlboro orgulha-se de colher em vida os frutos que semeou: "Eu achava que só iam me reconhecer quando eu estivesse velhinho, quando você não pode fazer mais nada, e aí vem o pessoal e homenageia, como aconteceu com o Cartola".

8 Bit

Vou despejar uma seqüência de matérias velhas que publiquei na Folha, quando colaborava lá.

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10 de março de 2004

Documentário lançado nos EUA relata ascensão e declínio da Atari

"TUM! TUM! TUM!" Vez ou outra, um ruído bate-estaca tomava conta do escritório da Atari, no vale do Silício, na Califórnia. Os visitantes estranhavam o barulho, mas os funcionários da empresa não ligavam: era apenas o programador Tod Frye, um dos pais de "PacMan", andando pelas paredes (!!). Essa é apenas uma das histórias bizarras que um dos protagonistas da era de ouro da companhia, o programador Howard Scott Warshaw, reuniu no DVD "Once Upon Atari", que acaba de ser lançado nos EUA e pode ser comprado através do site www.onceuponatari.com.

"Depois de ter passado por aquilo, eu sabia que algum dia essa história tinha de ser contada", lembra o designer de jogos vertido em documentarista. Warshaw reuniu amigos programadores numa sessão de memória para resgatar os dias de glória da empresa, que fez os jogos eletrônicos se tornarem populares e viáveis no mercado --além de entrar para a história como fenômeno cultural. "Eu esperei até quando pensei ser tarde demais para ser processado", brinca o diretor, que deu início às gravações em 1999.

Até hoje um número considerável de pessoas ainda são fascinadas por jogos antigos. Para o diretor, "o foco [das pessoas] está apenas no jogo! Hoje passam tanto tempo fazendo clipes cinematográficos e desenvolvendo técnicas de gráfico que o jogo em si se torna uma segunda preocupação".

Nas entrevistas, mais do que histórias engraçadas e inacreditáveis, todos os ex-funcionários da empresa se referem com nostalgia ao período em que trabalharam lá. "Eu tinha 23 anos e tinha completa autonomia criativa para o que eu fazia", recorda Simon Fulop, o criador de "Missile Command". "Era minha versão da América corporativa", lembra Carla Meninsky. "Todos os outros empregos que eu tive depois foram incrivelmente chatos."

Também pudera: a divisão de games tinha pouco do que nos referimos como "local de trabalho". A rotina da Atari era o que menos lembrava uma rotina.
Em um dia, todos estavam debruçados em números e códigos tentando fazer vários personagens de um jogo se moverem de forma independente, no outro, Steven Spielberg visitava os escritórios. O cheiro de maconha começava às 9h, atrapalhando as reuniões de negócios.

"Eu sou realmente um dos pais dos jogos eletrônicos e o único programador da Atari cujos jogos venderam mais de milhões de cópias --até o 'E.T.'!", orgulha-se o diretor, brincando, em referência ao jogo que é considerado o pior da história. "O sentimento de ser um fundador e agente fundamental em algo que se tornou um fenômeno cultural é simplesmente incrível."

Mas o DVD explica que não foi a desorganização e a arruaça de seus programadores que levaram a Atari à falência. "As pessoas ficam muito esquisitas quando muito dinheiro começa a aparecer", lembra um dos entrevistados. Gerentes comerciais davam sermões nos programadores que agiam como estrelas, por saber que era por causa deles que a empresa era lucrativa. Boa parte da zorra incitada pelos funcionários era uma reação à visão estreita dos departamentos de marketing.

Outra parte era pura loucura mesmo. Como quando Frye descobriu que podia andar nas paredes. Colocou um pé em uma parede de um corredor e o outro na outra. Quando percebeu, estava se equilibrando com mãos e pés, sem tocá-los no chão. O bate-estaca citado no início do texto não é nada senão o barulho que o programador fazia ao "caminhar" pelas paredes dos corredores da empresa --a quase dois metros do chão. Não foi por menos que, quando enfiou a testa no dispositivo antiincêndio instalado no teto e a equipe do pronto-socorro perguntou o que havia ocorrido, ninguém acreditou na história.

Decisões erradas e brigas selaram queda da Atari

Um dos extras do DVD "Once Upon Atari" traz Nolan Bushnell, fundador da Atari, em uma entrevista sobre o mercado de games. "Eu não sou o pai do videogame, [Steve] Russell e os caras que fizeram o 'SpaceWar' em 1962 é que são. O meu feito foi conseguir vendê-los. Eu os transformei em uma indústria", diz, sem modéstia.

Mais do que fabricar jogos clássicos ou ser o ícone central da primeira era de ouro dos videogames, a Atari pode se vangloriar por ter colocado a lógica eletrônica dentro da vida das pessoas. Foi a primeira vez que um equipamento eletrônico se tornou um ícone cultural em larga escala.

"A Atari fez história na eletrônica ao colocar computadores nas casas das pessoas", emenda o diretor Scott Warshaw. "Os computadores pessoais até estavam vendendo, mas não muito rapidamente, e ninguém sabia o que fazer com um deles. A Atari mostrou ao mundo como você pode se divertir com um computador em casa. Ela curou os medos com relação a isso e elevou o número de vendas de milhares para milhões! Eles mudaram o mundo como o conhecemos."

Após tatear o mercado com o jogo de tiro "Computer Space", que fracassou, Bushnell e seu sócio Ted Dabney deixaram uma versão rudimentar do tênis bidimensional "Pong", que funcionava à base de moedas, em um bar de San Francisco. No dia seguinte, quando checaram a máquina e viram que ela estava lotada de moedas, concluíram que "Pong" havia sido jogado durante toda a noite. Foi quando os dois perceberam que, melhor do que vender a idéia para alguém, o ideal era abrir seu próprio negócio.

No início de 1973, "Pong" era uma febre em todos os EUA e inaugurava o conceito de arcade eletrônico, aos poucos invadindo as casas de fliperama.

Quase 10 mil máquinas foram fabricadas e vendidas. Mas o grande salto da empresa aconteceu com o "Pong" doméstico, que foi lançado em 1975 e rendeu números gigantes: 150 mil consoles vendidos, US$ 40 milhões em vendas, US$ 3 milhões de lucro no primeiro ano. No ano seguinte, Bushnell vendeu a empresa para o conglomerado Warner, que impôs um novo presidente, o executivo mão-de-ferro Ray Kassar.

A era eletrônica começa para valer nos anos 80, quando a IBM lança o computador pessoal, e os videogames se tornam massivos.

A Atari lança vários hits, como "PacMan", "Defender" e "Asteroids", ao mesmo tempo em que a rixa entre o setor de programação e o departamento comercial explode. A queda acontece em 83, quando a empresa faz diversas opções erradas de mercado, a mais célebre sendo o jogo "E.T.", um dos maiores fracassos da história do videogame, que foi eleito pela imprensa especializada como o pior jogo da história.

O fiasco foi tamanho que a empresa enterrou mais de 5 milhões de cartuchos em um deserto no Novo México, pois as crianças não o queriam nem de graça.
A partir daí, a Atari desanda. Passa das mãos da Warner para vários empresários e, aos poucos, definha com diferentes tentativas de volta ao mercado (o portátil Lynx, o console Jaguar), sem nunca conseguir repetir o sucesso original.

Brazil – O Filme

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Brazil – O Filme (Brazil, 1985. Inglaterra). Dir: Terry Gilliam. Elenco: Jonathan Pryce, Kim Greist, Michael Palin, Robert De Niro, Bob Hoskins, Ian Holm. 142 min. Por que ver: Também conhecido como 1984 1/2, numa referência tanto ao livro profético de George Orwell quanto ao work-in-progress 8 e 1/2 de Fellini, Brazil é uma fábula distópica sobre o espírito humano aprisionado em um sistema opressor. Gilliam, que desde o tempo em que fazia seus desenhos animados no Monty Python, já mostrava sua tendência para a alegoria, chocando uma caricatura da fleuma inglesa com cenas e situações nada sutis – mas incrivelmente belas. Aqui a burocracia é um organismo mecânico e vivo, que se comunica por telas e aparelhos dos anos 50. A direção de arte cria um futuro com cara de passado e é fácil se identificar com os delírios do personagem principal, à procura de uma musa que, mal sabe, é uma agente terrorista. Fique atento: Ao uso de “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, como a alma do filme. A canção é o motivo do filme levar este nome e foi a inspiração original para esta utopia às avessas de Gilliam.

"A mulherada foge do controle no mashup"

Lucio e Massari começam a entender (clique com o botão direito, salve no seu HD e ouça a partir do sétimo minuto, depois dos primeiros vinte segundos, especificamente...).

Mupp Fiction

Meu Chappa

Os caras do Chappa Quentefizeram videozinhos compilando o que rolou nos debates do evento. O meu tá aí em cima, mas têm outros aqui. Abaixo, a resenhinha que saiu no site sobre a mesa que eu fiz parte.

NOVAS PLATAFORMAS, NOVAS OPORTUNIDADES, NOVOS COMPORTAMENTOS
22 DE MARÇO DE 2007

MÚSICA CHAPPA QUENTE - YOUTUBE, MYSPACE, NAPSTER, iTUNES, etc: as novas plataformas on-line

A quarta discussão do MCQ veio selar uma impressão latente desde o primeiro debate: os temas discutidos sempre espalham seus tentáculos pelas mesas futuras, não se acomodando à compartimentação imposta pelo formato. Isso significa que muito se falou sobre as novas plataformas, mas que essas plataformas constantemente puxavam outras inquietações, deixando claro que a nova música pede, também nos debates, uma nova abordagem. Passava longe, porém, a idéia de crise: a professora Gisela Castro (ESPM) e os tecnólogos Jarbas Jácome (do grupo pernambucano de incentivo à tecnologia C.E.S.A.R.) e André Valle (FGV) compartilhavam otimismo com os jornalistas Alexandre Matias (do blog Trabalho Sujo) e Marcelo Ferla (Rádio Ipanema). Tudo por conta de uma revolução de costumes iniciada no quarto de um universitário norte-americano, que respondia por um hoje famoso apelido: Napster.

“Quando o Napster saiu, eu estava dando um curso para executivos da indústria fonográfica”, contou André Valle. “Tragam ele para o seu lado, eu disse, porque as pessoas vão se acostumar a não comprar mais música”. A indústria, porém, perdeu tempo tentando frear o avanço tecnológico. Resultado: provocou queda de credibilidade junto ao público jovem, e com isso, segundo André Valle, comprou a sua lápide. “Só falta colocar a data”, completou. A professora Gisela Castro conversou com jovens consumidores de música para sua pesquisa acadêmica sobre esses novos costumes. “Muitos disseram se sentir contentes por lesar a indústria, pois ela merece ser lesada mesmo”, afirmou. “Para eles, pirata é quem cobra por aquilo que não é dele. Trocar música na internet faz parte do espírito fundador da rede”. Jarbas Jácome estava em pleno acordo:

“A cultura é o que determina o que é certo e o que é errado. A troca de arquivos já se tornou cultura. É um processo sem volta”.

Esse tipo de relação, porém, é só a ponta de um gigantesco iceberg. As gravadoras processaram o Napster e conseguiram proibir suas atividades (ao menos da maneira que elas se davam). Mas não eliminou, com isso, a nova filosofia de interatividade e compartilhamento iniciada pelo programa, e que daria rosto àquilo que hoje conhecemos como internet 2.0. Google, YouTube, MySpace, iTunes, Last.fm, Pandora e até mesmo o sistema de dicas da Amazon tiraram, todos, proveito das principais características de compartilhamento pioneiras da criação de Shawn Fanning. Aquele ato de quase-vandalismo inicial tornou-se um mercado multimilionário. “O mundo todo busca informações no Google. Então o Google tem o registro das intenções do mundo. E informação é poder”, raciocinou André Valle. “A internet é um mostro da democracia da informação”, completou o representante do grupo recifense de incentivo a novas tecnologias C.E.S.A.R. “O Google é um fenômeno de pré-burguesia”, interpretou o jornalista Marcelo Ferla. “Aparentemente não tem dinheiro envolvido, mas há a troca de serviços. E todo mundo sai ganhando”.

Curioso, portanto, que as novas tendências tecnológicas tragam de volta, ao menos na aparência, práticas tão arcaicas como a troca, o compartilhamento, o escambo, e problematiza a noção de propriedade. O que não significa, porém, que o capitalismo está ameaçado. “Cada vez mais pessoas estão descobrindo como ganhar dinheiro em cima da rede”, disse Alexandre Matias. “A internet tem um cara subversiva muito grande”, completou Ferla. “É o momento de deixar de percebe-la como subversão, e aprender a trabalhar com ela”. E se a indústria fonográfica como hoje conhecemos estiver com os dias contados, o mesmo pode ser dito sobre a tecnologia vigente. Embora hoje o mp3 substitua os discos físicos, a prática de baixar arquivos está muito associada às condições de conexão atuais. Com os avanços das redes de internet wi-fi, e o surgimento de novidades como o Slacker, a tendência é que a rede se torne um disco rígido comunitário infinito, e as pessoas não precisem mais sequer armazenar dados e músicas em suas máquinas particulares. Uma vez que o mundo decida não mais pagar por música, os artistas precisarão aprender a ganhar dinheiro de outras formas.

“Se por um lado as vendas de cd diminuíram, por outro as pessoas pagam mais caro pelos shows, por exemplo”, explicou André Valle. “Tudo indica que novos hábitos de consumo estão se consolidando”, concordou Gisela Castro. “Parte desta prática que a indústria chama de pirataria, nós podemos chamar de novas práticas de consumo”, completou. “O importante é descobrir novas maneiras de se ganhar dinheiro em uma atividade que estava acostumada com um modelo consolidado há muito tempo”, disse Marcelo Ferla. “O que eu acho que é a grande diferença, é que agora existem várias possibilidades de trabalho”, completou. “Acho que com a internet, não vai haver mais uma tendência predominante”, disse Matias. “É o fim do mainstream. É a pulverização do underground”.

E se nessa nova configuração musical não houver espaço para a indústria fonográfica, ela também terá que migrar para outras atividades. “A Sony tem um dilema interessante”, diz Alexandre Matias, “porque ela é uma empresa que distribui conteúdo, mas que também produz tecnologia”. Para André Valle, o amante de música tem crédito suficiente com a indústria para não deixar os downloads ilegais pesarem em sua consciência:

“Quando compramos o vinil, por exemplo, pagamos não só pelo suporte físico, mas pelo direito de ouvir aquelas músicas. Quando saiu o CD, compramos o mesmo direito novamente. Já pagamos várias vezes por um mesmo produto”.

O que realmente está mudando é a maneira das pessoas se relacionarem. A democratização exaltada por Jarbas Jácome acontece não só com a informação, mas também dentro do próprio sujeito. Se por um lado criações como o Second Life oferecem, em tese, a oportunidade de se ter uma vida diferente, Alexandre Matias acredita que a rede também permite que essa segunda vida não seja mais necessária:

“A separação das vidas real e virtual vai acabar. O grande barato da internet é a possibilidade se expressar, e quanto mais transparente você for, maiores as chances de você ser bem sucedido na rede. Em vez de o cara ser advogado durante o dia, e gótico à noite, a internet nos ensina que você pode ser advogado e gótico ao mesmo tempo. Ela nos ensina sobre tolerância”.

(por Fábio Andrade)

Apocalypse Now

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Apocalypse Now (Apocalypse Now, 1979, EUA). Diretor: Francis Ford Coppola. Elenco: Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall, Dennis Hopper. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e dos Globos de Ouro de melhor diretor, melhor ator coadjuvante (Duvall) e trilha sonora. 153 min. (versão original)/ 202 min (Redux). Por que ver: Antes de ouvirmos as primeiras palavras ditas em voz alta pelo protagonista, assistimos à mistura de imagens, sons e idéias que, em pouco mais de um minuto, sintoniza nossa consciência ao trauma da guerra dos Estados Unidos no Vietnã: uma floresta de palmeiras, rasantes de helicópteros, uma névoa amarela que cresce junto com o instrumental dos Doors – Jim Morrison saúda as bombas sobre as árvores com seu “This is the end” clássico, enquanto vemos o enorme rosto de Martin Sheen de cabeça para baixo. “Saigon. Merda…”, diz o Capitão Willard, ao olhar a cidade pela veneziana, “ainda estou em Saigon”. Coppola adapta o Coração das Trevas de Joseph Conrad para o cinema transpondo a África e seus entrepostos comerciais do século dezenove para um contemporâneo Sudeste Asiático em guerra, mas preserva sua essência: a viagem a um inferno verde que também é uma viagem ao centro da sanidade mental. A missão de Willard é encontrar um certo Coronel Kurtz, um dos melhores militares do exército americano, que, após ser transferido para o meio da selva do Vietnã, aparentemente pirou e criou sua própria base militar autônoma. Na jornada, Willard é acompanhado de um time de jovens soldados que são uma boa amostra do tipo de jovens americanos que morreram nesta guerra (um moleque do Bronx nova-iorquino – Laurence Fishburne, então com 17 anos – , um ex-campeão de surfe, um chef de cozinha…) e passam por situações tão surreais quanto tétricas. O horror da guerra é transformado em uma ópera de cenas inacreditáveis, com toda a teatralidade do sangue italiano do diretor surgindo em imagens grotescas e hilárias, às vezes, ao mesmo tempo. E com um elenco impecável – a melhor atuação de Sheen, Hopper interpretando a si mesmo, Brando improvisando, Duvall épico –, Coppola supera a saga da família Corleone em um único filme, fazendo sua obra-prima. Mas Apocalypse Now é um filme maior do que sua duração: foi bancado todo com a grana que Coppola faturou com os dois primeiros filmes da série O Poderoso Chefão, levou três anos para ser concluído, teve o set destruído por um furacão, mudou de protagonista duas vezes (Roy Scheider e Harvey Keitel abandonaram o papel), teve problemas com Brando (que se negava a seguir o roteiro), enfartou o ator principal (durante as filmagens da primeira cena) e levou sexo, drogas e rock’n’roll para as Filipinas, onde foi filmado, em escala hollywoodiana. Tanto foi filmado que o diretor lançou sua versão autoral, chamada “Redux”, em 2001, acrescentando 49 minutos de cenas inéditas. Fique atento: Outro show de cenas fantásticas e texto preciso, é difícil sublinhar um só momento ou aspecto: da respiração tensa de Willard ao batalhão de caubóis em helicópteros liderados pelo personagem de Duvall, passando pelo tribalismo psicótico das cenas finais e a atuação plena de Brando – que só aparece no finzinho, mas com menos de vinte minutos de filme já toma o inconsciente de assalto, apenas com a voz, tudo é uma aula de cinema.

2001 - Uma Odisséia no Espaço

Vou começar a desovar alguns textinhos meus presentes no livrinho 300 Filmes para Ver Antes de Morrer (que eu editei junto com o Maron, via Globo) aqui no Sujo, mas o volume impresso tem um monte de minibios, listinhas e outras curiosidades, além de outras tantas resenhas, com o crivo moral de Fred Leal (forçaê, compadre!), Arnaldo Branco, Vladimir Cunha, Dafne Sampaio e outros bambas. Dá uma sacada nele depois, quando tiver na banca, e veja se não vale a leitura. Aqui, um primeiro aperitivo.

E, claro, 2001.

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2001 – Uma Odisséia no Espaço (2001 – A Space Odissey, 1968. EUA). Diretor: Stanley Kubrick. Elenco: Keir Dullea, Gary Lockwood, Douglas Rain. 141 min. Por que ver: Se você ainda está procurando um sentido para entender 2001, você não entendeu a principal lição do cinema. Deixe-se levar, conduzir pela harmonia proposta pelo diretor à visão e audição do espectador, entregar-se à imaginação alheia, conduzida a uma outra dimensão, um mundo literalmente feito de luz e som – como o nosso. 2001 é a Mona Lisa em movimento, seu sorriso cético e cínico e olhar onipresente transformados em uma parábola sobre a existência humana, que, em uma fração de segundo, reduz a História com agá maiúsculo a uma simples troca de ferramentas, o osso pela espaçonave. 2001 é uma sucessão interminável de cenas perfeitas – com o círculo usado como régua de precisão (o olho-rosto de HAL 9000, o formato da nave, o alinhamento dos planetas) e toda a paleta da música erudita (o clichê instantâneo de Zarathustra, o manjado Danúbio Azul e o fantasmagórico Réquiem do húngaro Ligeti assumem novas formas quando projetados ao espaço) à disposição da megalomania de Kubrick. Baseado no conto O Sentinela, do escritor de ficção científica (e roteirista do filme) Arthur C. Clarke, o filme lida com níveis de inteligência sobre-humanos que incitam o macaco à evolução até o ser humano, para, daí, partir para uma nova etapa de consciência. O ritmo lento e a placidez estéril do computador HAL – ironicamente, o personagem mais carismatico do filme – contribuem para o crescendo de ópera do filme, que pode parecer sonolento para olhos mais distraídos, mas são cinema lapidado em plena perfeição. Fique atento: Não pisque. Mais de duas horas de puro espetáculo cinematográfico: a dança dos planetas, as aparições do monolito, a hipnose e o despertar da consciência de HAL (pense bem, um robô que diz “Espere um minuto…”?), o espetáculo de cores do final, a conclusão inconclusiva. Como o maior road movie de todos os tempos (e talvez o maior filme de todos os tempos), ele atesta que o que importa é a viagem, não o destino.

maio 11, 2007

Trout Mask Replica - Captain Beefheart & His Magic Band

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Depois do fracasso no festival em Mount Tamalpais, em Los Angeles, tudo ia mal para Captain Beefheart & His Magic Band. Tocando pela última vez com Ry Cooder, o grupo enfrentava seu primeiro grande público, uma preparação para o festival de Monterey, que aconteceria em pouco tempo. Estamos em junho de 1967 e quando a banda entra no meio de "Electricity" e o vocalista Don Van Vliet é acometido de pânico de palco devido a uma viagem de ácido errada: o rosto de uma garota da platéia transformara-se num peixe e começava a soltar bolhas. Por algum motivo estranho, Don teve medo daquela visão bizarra e travou. Não conseguia mais cantar. Olhava pra cima, tentando desviar o olhar da menina, mas só conseguia inclinar-se para trás, andando vagarosamente de costas à medida que se afastava do microfone. Os outros músicos nada entenderam, mas continuaram tocando. Até que notaram pela ausência completa do vocalista. Deitado com as costas no chão atrás do palco, Vliet tremia com os olhos arregalados, sentindo um medo mortal. Depois deste incidente, o imaginário marítimo passa a fazer parte do universo das letras do Captain Beefheart. Depois deste incidente, Trout Mask Replica começou.

Todas as tentativas em transformar a Magic Band numa banda psicodélica que ao menos fosse sucesso de crítica sucumbiam na personalidade forte e controversa de Vliet, que gostava de fazer as coisas ao seu modo, fosse ele qual fosse. Depois do relativo sucesso do disco de estréia, Safe as Milk, a gravadora Buddah resolveu apostar no grupo e lhe deu orçamento para um disco duplo. It Comes to You in a Plain Brown Wrapper começou a ser ensaiado em 1967, mas logo os caras da gravadora perceberam que Don havia ido longe demais. Sua nova mania insistia que os músicos procurassem os limites da música e os ultrapassassem, uma diretriz provavelmente saída de suas viagens de ácido ouvindo discos de free jazz. A forma com que o vocalista conduzia os ensaios passou a irritar os músicos e o guitarrista Doug Moon foi o primeiro a sair, antes mesmo do disco ser lançado. Passaram a tesoura e transformaram-no no amorfo Strictly Personal, um disco abortado às pressas, sem os devidos cuidados finais. Chutados da Buddah, a banda viu-se sem dinheiro e sem perspectiva de carreira. Foi a vez do ex-baterista (e agora na guitarra) Alex Snouffer e do baixista Jerry Handley deixarem a Magic Band.

Os músicos que os substituíram eram devotos do trabalho de Don e seriam a base para o seu novo projeto musical. O baterista John French e o baixista Mark Boston tinham em Don uma espécie de modelo de artista, enquanto o guitarrista Bill Harkleroad havia acabado de sair de um culto de LSD (o único remanescente da antiga Magic Band era o guitarrista Jeff Cotton). Todos tinham a mesma idade, eram um pouco mais novos que Don, e se entendiam musicalmente muito bem. Uma química que iniciou-se entre French e Cotton (meros caçulas para Snouffer, Moon, Handley e Vliet) e se estendeu a Harkleroad e Boston à medida que eles entraram. Assim, Captain Beefheart passava a ter uma aura de líder, uma espécie de chefe comunitário que guiava, sem ter sua autoridade questionada, todo o grupo para um novo horizonte artístico.

Sem empresário nem gravadora, os cinco passavam por maus bocados. Mudaram-se todos para a mesma casa, em Woodland Hills, um subúrbio pacato e classe média de Los Angeles, que tornou-se o caldeirão de onde todas as idéias de Trout Mask Replica ebuliram. A única coisa que tinham a fazer da vida era tocar continuamente, para esquecer que estavam desempregados e sem dinheiro. De vez em quando alguém conseguia comida, que era distribuída de forma racionada e depois dos longos ensaios, para não acabar logo. O consumo de ácido, fácil de conseguir naqueles tempos pré-Woodstock, e a situação precária da banda fizeram com que eles se dedicassem praticamente de forma integral à música. Durante as noites, não era raro sumir um pedaço de pão ou uma parte da manteiga. "Eu cheguei a beber xarope de panqueca", confessou French.

Diariamente, dedicavam-se a horas a fio tocando as músicas que Don cantava, assobiava ou tocava ao piano. Sem nenhum conhecimento técnico musical, ele imaginava as frases e pedia para que a banda tocasse, gravando os ensaios e empilhando as fitas num canto da casa, ouvindo-as procurando determinados trechos enquanto a banda se matava para encaixar diferentes frases em tempos e tons diferentes que cada instrumento tocava. "Não toco músicas, toco músicos", gabaria-se mais tarde. Até que um dia o gravador quebrou. O baterista John French sugeriu que, em vez de gravar, eles deveriam escrever as partes musicais em partituras. Se oferecendo para transcrever todas as partes, o jovem e inocente baterista mal sabia a enrascada que estava se metendo.

Pois passaria a transcrever tudo que Beefheart tocava ao piano, além de escrever as partes de cada um dos instrumentos e ensiná-las a cada um dos músicos. Todo este trabalho transformava French no sujeito que mais trabalhava na banda, transcrevendo partituras por pelo menos quatro horas depois dos ensaios acabarem, quando todos já haviam ido dormir. Mas o colocou como peça-chave no processo de composição do álbum: era ele quem arranjava os delírios musicais de Van Vliet para o resto do conjunto.

Os ensaios que ajudaram a compor o disco eram tensos e caóticos. Cada um dos músicos tinha seus dias de sofrimento, quando Don o escolhia para ser crucificado em público, massacrando-o mentalmente até conseguir, graças à raiva injetada, performances terrivelmente apaixonadas. As brigas eram constantes e os ensaios normalmente tinham um intervalo de três horas em que a banda se engalfinhava entre si, todos paranóicos por culpa do excesso de ácido e pela falta de recursos. Usavam a música como terapia, mas eram constantes as crises de choro e as tempestades de emoção pelos corredores da casa na Estrada Drive. Cotton, French e Boston tentaram fugir várias vezes, descobertos em cima da hora por um intimidante Don. Boston escondeu suas roupas num buraco na calçada no fim da rua, para fugir enquanto dava uma escapada, mas foi impedido. French saiu da banda no meio de um ensaio, mas Don o obrigou a escrever todas as suas partes de bateria e percussão antes de deixar o grupo, durante quatro horas seguidas.

Foi quase um ano sob a pressão maníaca exercida pela personalidade de Don Van Vliet e pela obsessão em entrar naquele novo mundo musical. Pouquíssimas pessoas tinham contato com os músicos da banda e a convivência diária os tornou inimigos mortais porém inseparáveis, como piratas num mesmo navio. Entre os poucos que visitaram aquela casa, estava um primo de Vliet, Victor Hayden, que passou a fazer duetos de sax e clarineta com Don, sendo que nenhum dos dois tocava os instrumentos. Hayden foi incluído no grupo e se tornou o favorito de Beefheart, numa clara intenção de deixar os outros músicos enciumados. Outro visitante foi Doug Moon, que tocou uma guitarra base de blues sobre a qual Don improvisou China Pig (na versão que ouvimos no próprio disco). Ao serem perguntados por Don sobre o porquê eles não conseguiam tocar da mesma forma que Moon, um ácido Harkleroad respondeu pelo grupo: "Talvez porque estejamos há nove meses tocando por 12 horas por dia justamente o contrário disso".

Mas nenhuma presença naquela casa foi tão decisiva quanto a de Frank Zappa. Foi ele quem viu e ouviu o que acontecia naquela casa e decidiu lançar um disco. Contratou a Magic Band em seu novo selo, Straight ("careta"), e deu-lhes carta branca para gravar um disco duplo, registrando todas as músicas que pudessem. Zappa se dispôs a gravar o grupo em casa, registrando, em vários cômodos, a banda tocando como se estivesse filmando um documentário e não produzindo um disco. Estas gravações podem ser ouvidas no terceiro disco da caixa Grow Fins. Mas Beefheart não achou que Frank estivesse produzindo um disco e queria ir para o estúdio. Em quatro horas, tinham todo material gravado. Tudo que se ouve em Trout Mask Replica foi gravado de uma só vez; a banda só fazia um segundo take se por acaso se perdia no meio do caminho. Mas estavam há tanto tempo ensaiando que não precisaram de muito tempo para gravar tudo. O mesmo aconteceu com Beefheart, que dispensou os fones de ouvido para cantar suas letras absurdas, que misturavam clichês de blues com alegorias nonsense inspiradas na poesia beat e em viagens de LSD, todas tirada de seu "saco de letras", um saco de pano onde guardava guardanapos, pedaços de papel e papelões onde anotava trechos de letras e imagens surrealistas a todo momento. Seu vocal estava mais afiado que nunca, atingindo diferentes oitavas, com um timbre seco e rasgado.

Irritado por ser o único do grupo com um apelido esquisito (que fez o engenheiro de estúdio Dick Kunc o batizar de Beerfart - peido de cerveja), Don colocou um nome em cada um de seus músicos. Assim, Mark Boston tornou-se Rockette Morton; Harkleroad, Zoot Horn Rollo; French, Drumbo; Hayden, The Mascara Snake; e Cotton, Antennae Jimmy Semens, criando uma tradição que reservaria para cada um dos futuros membros da Magic Band. Tiraram as fotos do encarte no enorme quintal da casa em Woodland Hills. Vestidos de forma esdrúxula, pareciam ter assaltado um armário de uma produção de cinema: Don com uma cartola e um sobretudo de pelúcia, Bill usando um poncho e uma calça três números menor que o seu; Cotton de boné e vestido; Drumbo com um enorme boné e um óculos robótico; Boston era o mais comportado, com seu cabelo black power. Para a capa do disco, o fotógrafo Ed Caraeff sugeriu que Don usasse uma cabeça de peixe como a réplica de máscara de truta que sugeria o título. O que vemos na capa é Vliet segurando uma cabeça de carpa (e não de truta) na frente de seu rosto, numa sessão de fotos que durou duas horas e o deixou enjoado com o cheiro do peixe. A audição do disco aconteceu na casa de Zappa, que, em sua autobiografia, lembrou que a banda compareceu à sessão bem vestida, "como se fossem à missa".

Desde a desconexa "Frownland", que abre o disco, todas as faixas de Trout Mask Replica são o produto de horas infindáveis de ensaio em condições psicologicamente instáveis e um desejo único de transpor os limites conhecidos da música através do rock. O álbum atravessa por delírios a capella de Van Vliet ("The Dust Blows Forward 'N The Dust Blows Back", "Well", "Orange Claw Hammer"), ataques iconoclastas ("Hobo Chang Ba", "Neon Meate Dream of a Octafish", "The Blimp", "Old Fart at Play", "Bills Corpse", "Fallin' Ditch", "Steal Softly Thru Snow"), blues surrealistas ("Sugar 'N Spikes", "She's Too Much for My Mirror", "Moonlight on Vermont", "Ant Man Bee", "Dachau Blues", "China Pig"), boogies tribais ("When Big Joan Sets Up", "Pachuco Cadaver", "My Human Gets Me Blues", "Ella Guru", "Sweet Sweet Bulbs", "Hair Pie: Bake 2"), um dueto entre Beefheart e Mascara Snake ("Hair Pie: Bake 1"), desconstruções detalhadas ("Dali's Car", "Pena", "Wild Life", "Veteran's Day Poppy") e outras idiossincrasias. Jeff Cotton assumiu os vocais em duas faixas ("Pena" e "The Blimp"), sendo que esta última foi gravada por Zappa pelo telefone, quando Don ligou desesperado procurando Frank para capturar o momento exato. Zappa topou e gravou, enquanto Art Tripp e Roy Estrada (coincidentemente, dois futuros membros da Magic Band) ensaiavam o groove tenso da faixa Charles Ives, de Zappa. A versão que ouvimos no disco é exatamente o que foi gravado pelo telefone.

Observadas como um todo, as faixas do disco formam um conjunto da música mais desafiadora feita por uma banda de rock. Como o free jazz fez com o jazz e a música de vanguarda erudita fez com a música clássica, Trout Mask Replica mostrou ao rock que não existem limites quando o que está em jogo é a arte, a manifestação individual do espírito através da música. Propositadamente desconfortável, o disco atinge uma atmosfera mágica depois que entramos em sintonia com seu universo, provando que a beleza está no olho de quem vê - e no ouvido de quem ouve.

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Captain Beefheart
MUITO ALÉM DA MÚSICA

A fronteira final da música talvez seja a base de sua atual sustentação. Uma série de códigos e regras que, seguidos à risca com a porção certa de criatividade e talento, podem nos proporcionar momentos de prazer e diversão inigualáveis. Mas poucos percebem que a técnica, ao contrário de uma ferramenta, é uma barreira que limita a criatividade. Noções de ritmo, afinação, arranjo, harmonia e melodia restringem as possibilidades humanas de exercer sua própria individualidade através da música. É aí que entram Captain Beefheart & His Magic Band.

O mutante grupo californiano era chefiado pelo excêntrico Don Van Vliet, "o único que merece o título de gênio nesta história de rock'n'roll", segundo o respeitável radialista inglês John Peel. Don nasceu no dia 15 de janeiro de 1941, num subúrbio de Los Angeles. Desde pequeno já mostrava talento para a arte, quando impressionava parentes e professores (e, mais tarde, outros artistas) com suas pinturas e esculturas. Temerosos que o mundo da arte pudesse engolir seu filho (principalmente seu pai, Glenn, que pensava em "gay" sempre que ouvia falar em "arte"), o casal Vliet mudou-se com seu filho único - então com treze anos - para o interior da Califórnia, em uma cidade chamada Lancaster, no meio do deserto Mojave.

Em Lancaster, as coisas começariam a mudar. Primeiro foram os discos de blues descobertos pelo jovem Don (que começaria a assinar com o "Van" do meio - que não é de batismo - a partir dessa época). Como para parte de seus contemporâneos, o rock'n'roll foi só a porta de entrada para o mundo mágico do blues, com suas lendas urbanas e mitos modernos. Nomes como Muddy Waters, Sonny Boy Williamson, John Lee Hooker, Howlin' Wolf, entre outros, passaram a fazer parte de uma galeria de super-heróis inatingíveis, e, como a maioria de seus pares, Vliet passou a tocar um instrumento, no caso a gaita.

Nesta mesma época conheceu Frank Zappa, que mais tarde abriria seu primeiro estúdio (o Estúdio Z) na minúscula cidade de Cucamonga, perto de Lancaster. No estúdio de Zappa, sessões de rock'n'roll, country, doo-wop e surf music se arrastavam enquanto o jovem proprietário e aprendiz de empresário tentava apurar sua veia pop produzindo singles. Nas horas vagas, o estúdio funcionava como laboratório para as idéias bizarras de Zappa, entre elas a trilha sonora para um filme imaginário chamado Captain Beefheart versus The Grunt People. O nome Captain Beefheart fora inventado por Zappa a partir de uma história contada por Don, de um tio seu, um velho major do exército, que gabava-se do tamanho de sua masculinidade, comparando-a a um pedaço de carne do tamanho de um coração humano. Em pouco tempo, Zappa passaria a chamar Vliet de Captain Beefheart e o apelido pegou.

O estúdio Z também servia de sala de ensaio para algumas bandas amigas de Zappa e alguns músicos ficavam lá direto, tocando com todos que aparecessem. A partir daí começava a surgir a Magic Band. A base desta estava no grupo The Omens, um supergrupo de rhythm'n'blues com 11 integrantes. Beefheart juntava-se ao grupo de vez em quando, tocando gaita e cantando. Sua voz era seca e rasgada, lembrando os velhos discos de Howlin' Wolf e ele não apenas tocava gaita bem como sabia várias músicas de cor, a ponto de inventar seus próprios blues na hora em que cantava. Ele ganhou o respeito do baixista Jerry Handley e do guitarrista Alex Snouffer. Em pouco tempo, Snouffer e Handley se juntariam ao guitarrista Doug Moon e ao baterista Paul Blakely (ou mesmo Frank Zappa e mais tarde Vic Mortensen) em jams que mostravam que algo novo poderia sair dali.

Mortensen sairia e Snouffer assumiria a bateria, deixando a segunda guitarra nas mãos de Richard Hepner. Com esta formação, conseguiram um contrato com a gravadora A&M, com quem gravaram o single "Diddy Wah Diddy", em 1965, uma velha canção de John Lee Hooker. Uma jovem banda de rhythm'n'blues, a já batizada Magic Band destoava das outras de sua época pelo vocal envelhecido de Don e pelo peso ao vivo, responsável por bem sucedidos shows. Mas mesmo tendo caído no gosto de um dos DJs mais cultuados dos anos 60, Wolfman Jack, o primeiro single do grupo encontrou um pequeno obstáculo pela frente: uma banda chamada Remains havia gravado a mesma música do outro lado dos Estados Unidos e o sucesso das duas versões fez com que ambos grupos falhassem em alcançar o sucesso em todo país.

Ao mesmo tempo, o grupo começava a experimentar. Trocando a cerveja por maconha e LSD, o grupo mergulhou na psicodelia como a maioria das bandas de então. Mas foi motivo suficiente para que Beefheart aos poucos assumisse o controle do grupo, escolhendo as músicas e compondo novas letras. Cada vez mais influenciado pela poesia beatnik e pela conexão da psicodelia com o surrealismo, Don queria soltar as suas idéias musicais, cada vez mais influenciadas por jazzistas como Ornette Coleman, John Coltrane e Albert Ayler. Mesmo sem saber tocar nenhum instrumento, começava a ensinar (cantando e assobiando as partes) para seus músicos o que queria. Esta nova opção musical os tirou da A&M, que os achou muito "negativos". Mas eles encontraram novo lar na gravadora Buddah, de Los Angeles.

Sem Hepner, a segunda guitarra foi assumida por Ry Cooder (que tocava num grupo de Lancaster chamado Rising Sons). Nesta época, um velho fã do grupo entrou na banda tocando bateria e a entrada de John French liberou Alex Snouffer de volta à guitarra. Mas o novo som que Beefheart vinha conduzindo na banda, assustou o guitarrista Doug Moon, que deixou a banda antes que ela gravasse Safe as Milk em 1967. Bem recebido pela crítica, o disco logo se tornaria comercial demais para o amálgama de free jazz e blues tradicional que a banda vinha conduzindo. Ry Cooder deixou o grupo e Jeff Cotton entrou em seu lugar e a banda cada vez mais se afundava na versão particular e libertária que Beefheart tinha para a música. Sua música interior não tinha barreiras e provava isso ao começar a trazer instrumentos de sopro para o ensaio, tocando-os sem nunca ter aprendido uma nota na vida. O caos desordenado propulsionado pela música de Don começava a infectar os antigos músicos, que deixaram a banda pelo mesmo motivo de Moon (não sem antes lançar o desconexo Striclty Personal). Assim, Handley saiu para a entrada de Mark Boston e Snouffer deu seu lugar para Bill Harkleroad.

Começa a grande metamorfose da banda. Todos se mudam para a mesma casa em Entrada Drive, no subúrbio de Woodland Hills, em Los Angeles, e passam a ensaiar continuamente, seguindo as instruções de Don. Sem conhecimento musical nenhum, Beefheart ensinava seus músicos as partes que queria ouvir e para isso faz com que cada músico aprenda após repetir por horas a mesma frase, sem com ele ao seu lado, assobiando o jeito certo. Isto gerava um nível de tensão que grudava na música, do mesmo jeito que a tristeza parecia sair do blues. A raiva com que os músicos tinham para contra a música tradicional era apimentada pela insistência insuportável de Vliet, que era visto pelos outros como um misto de maestro, guru e irmão mais velho. Respeitado e odiado, Beefheart ia aos ensaios só para dar palpites nas partes dos outros, passava a maior parte do tempo dormindo e ainda rebatizou os músicos com apelidos bizarros: Boston tornou-se Rockette Morton, Cotton era Antennae Jimmy Semens, French seria o Drumbo, Harkleroad tornaria-se Zoot Horn Rollo e o bicão Victor Hayden, The Mascara Snake. Era motivo de sobra para irritar a todos. Mas sempre que ele sugeria algo novo, os músicos - tomados por aquela tensão - respondiam com virulentas convulsões de ritmo, harmonia e melodia que se tornariam um dos mais importantes e subestimados álbuns de todos os tempos, Trout Mask Replica.

Lançado pelo selo de Frank Zappa na Reprise, Straight, o disco subvertia todas as noções de música tradicional conhecidas usando o rock'n'roll como base. Baixo e bateria travavam duelos constantes, preenchendo as lacunas deixadas pelos outros instrumentos com agressividade e ritmos atravessados. As guitarras zuniam frases que poderiam ser trechos de solo de blues, exercícios de atonalismo ou a simples repetição de notas desordenadas - muitas vezes as três coisas ao mesmo tempo. Por cima, Beefheart entoava seu canto primal, agressivo e multioitavado, em letras cujo nonsense parecia ter algum sentido, embora, como a música, indecifrável, amaldiçoado. Às primeiras audições, o disco afronta o bom gosto. Mas a intenção é justamente esta e logo ele está desafiando a sua lógica e lhe ensinando níveis de compreensão musical nunca alcançados antes na história da música popular moderna.

French (responsável com Harkleroad pela maioria das soluções para os problemas musicais sugeridos por Don) saiu da banda pouco antes do lançamento do disco e teve seu nome limado na capa. Em seu lugar, o músico erudito Art Tripp candidatou-se para a vaga. A aquisição de Tripp tinha como trunfo o fato do músico saber tocar teclados e instrumentos de percussão em geral e Don sugeriu que ele colocasse uma marimba (aquele parente caribenho do xilofone) na formação, tornando-se ele próprio Ed Marimba. Mas Drumbo voltou à banda no meio de 1970 e Ed ficou apenas no instrumento de seu sobrenome, que ganhou pontos com a saída de Jeff Cotton. Com a marimba fazendo as partes da segunda guitarra, gravaram Lick My Decals Off, Baby, o disco favorito do grupo e tão importante quanto Trout Mask Replica, cujo tema era basicamente sexo ("o sentido da vida", segundo o dono da banda).

Contratados pela gravadora-mãe da Straight, a Reprise, o grupo grava dois discos quase seguidos e semelhantes, The Spotlight Kid e Clear Spot. Ambos discos são rejeitados pelo conjunto por soarem muito blues, direção que a gravadora preferia que o grupo seguisse. Esta fase assiste a entrada de dois músicos da banda de Frank Zappa; o guitarrista Elliot Ingber, que torna-se Winged Eel Fingerling, e o baixista Roy Estrada, renomeado Orejón, além da volta de Alex Snouffer à terceira guitarra. A banda muda novamente de gravadora (indo para a inglesa Mercury) e lança outros discos sob a influência do empresário Andy DiMartino, que queria transformá-la numa banda comercial, Unconditially Guaranteed e Bluejeans & Moonbeans.

Insatisfeitos com a forma que Vliet vinha tocando a banda, a Magic Band deixou Beefheart sozinho às vésperas da turnê de lançamento de Unconditionally.... DiMartino juntou uma banda às pressas para acompanhá-lo, recrutando músicos de rock da noite de Los Angeles, sujeitos com calças jeans e jaquetas de couro, que não tinham a menor noção do que se passava na cabeça de Don. Esta versão da Magic Band entrou para a história corretamente como a Tragic Band. A antiga Magic Band lança alguns discos com o nome de Mallard (Harkleroad, Boston e Tripp, ao lado do vocalista Sam Galpin, um projeto paralelo que não deve nada aos bons momentos com o velho capitão.

O ano de 1975 assiste a reconciliação de Vliet com Frank Zappa, com quem havia brigado após sua saída da Straight. Conhecido pelos fãs de Zappa por seus vocais em uma de suas faixas mais conhecidas (Hot Rats, de 1971), Vliet torna-se membro honorário da banda do velho amigo, os Mothers of Invention, no disco One Size Fits All, e entra em turnê com o grupo em shows que mais tarde viriam ao público com o nome de Bongo Fury, creditado aos dois artistas. No mesmo ano, Don volta a reativar a Magic Band recrutando velhos comparsas (French e Ingber) e novos cúmplices, antigos fãs do trabalho do grupo: o percussionista Jimmy Carl Black (Indian Ink), o trombonista (que tocava as partes do baixo) Bruce "Fossil" Fowler e o guitarrista Greg Davidson (Ella Guru). Com esta formação, a Magic Band toca um lendário show no festival de Knebworth, na Inglaterra, sendo aclamada por mais de 25 mil pessoas, antes dos shows do Pink Floyd e da Steve Miller Band. O show tornou-se um dos mais conhecidos discos pirata da banda.

Em 1976, reúne uma nova banda, formada por jovens entusiasmados pela então explosão de possibilidades do punk rock. Além de Don e French, a nova Magic Band é formada pelos guitarristas Jeff Morris Tepper (White Jew) e Denny Walley (Walla Walla) e pelo tecladista John Thomas. Novamente, Frank Zappa surge na história de Beefheart, desta vez como produtor do disco Bat Chain Puller, um álbum abortado em cima da hora pelo próprio Zappa, que queria ter controle sobre as fitas master do disco (embora o próprio Frank afirmasse que não havia produzido o disco, que teria sido bancado - através de seu recém-demitido advogado, Herb Cohen - com os royalties dos discos de Zappa). Arquivado, o material do disco só veria a luz do dia oficialmente nos próximos três discos do grupo, embora a versão original seja outro conhecido pirata de Beefheart.

Bat Chain Puller se tornou o subtítulo do novo disco de Beefheart, Shiny Beast, que contou com uma nova Magic Band. Tanto a versão pirata como a oficial mostravam a banda expurgando os dias de Andy DiMartino com gosto, voltando às experimentações dos primeiros discos e indo além. Com o sangue novo de músicos como o baixista e tecladista Eric Drew Feldman (Black Jew Kitaboo), o baterista Robert Williams (Wait for Me), o guitarrista Richard Redus (Mercury Josef), Shiny Beast marca a volta de Beefheart aos bons tempos e a boa forma ainda lhe daria paciência e disposição para outros dois ótimos discos, Doc at the Radar Station (de 1980) e Ice Cream for the Crow (de 1982), ambos lançados pela Virgin. Passou a se dedicar à pintura e, devido a conselhos de gente do meio, largou a música para se dedicar exclusivamente às telas, terreno em que foi recebido com os mesmos elogios que tinha na música, tendo exposições freqüentes com seu nome. Nunca mais gravou nada e se recusa a dar entrevistas - principalmente se o assunto for música.

A sua vida, saca?

ou Como o desemprego é uma ilusão

Prepare-se para ser demitido. Nah, não tô te rogando praga nem exercendo futurologia trabalhista rastaqüera a esta hora da madrugada. Tudo bem que o tom é imperativo e soa dramático, mas meu ponto de vista é mais zen que apocalíptco.

Aceite isto como uma realidade: você vai ser demitido. Quando você menos esperar, por um motivo indefensável, alguém vai lhe dizer que não precisa mais dos seus préstimos e que você pode trazer a carteira de trabalho e passar amanhã no RH. Não, não adianta falar "mas eu...". É fato, você está no olho da rua.

E agora?

Eis você, sem emprego. Cheio de contas para pagar. Durango. Puto. Nervoso. Impaciente. Tenso. E, pior, sem perspectiva do que fazer daqui pra frente.

Esse é o grande segredo das corporações: te pegar de surpresa, te tirar o emprego como se tirasse o chão, o rumo, o sentido da vida. De certa forma, elas têm razão, afinal de contas, o jeito com que conduzimos nossas próprias vidas em relação ao assunto "trabalho" faz com que pareçamos apenas escravos, que trocam chibatadas pela satisfação insatisfeita de fingir que tudo vai bem no teatro que é a sociedade.

E isso porque simplesmente deixamos de viver sem perspectivas, como se o emprego fosse duradouro, eterno. É este o sentido por trás de tudo: você continuar, para sempre, fazendo exatamente a mesma coisa que sempre fez desde o começo, peça mecânica sem ambição profissional ou vontade de viver, pronta para ser substituída.

E tudo isso em troca de um abono mensal que, por pior que seja, sustenta uma vida mediana e paga aquilo que precisamos comprar para que nos sintamos vivos - discos, cinema, drogas, TV a cabo, praia, viagem pra gringa, noitadas, acesso à internet, telefone, roupa, leituras, carros e sexo, basicamente. Chamamos isto de "entretenimento".

E vivemos nos "entretendo", achando que esta forma rasteira de diversão (afinal, entretenimento sequer é diversão, e sim apenas uma forma de distrair, passar o tempo) é onde devemos gastar nossa energia orgônica. E passamos 12, 14, 16 horas enfiados em salas com pessoas que aprendemos a aturar na marra, almoçando com alguns com "quem tenhamos afinidade" (eufemismo para aqueles que temos menos atrito), destilando veneno no café e criando, sem saber, pedras nos rins, feridas no fígado e no estômago, tumores.

Comece calcular quantas horas semanais você dedica ao tema "trabalho", incluindo aquelas quatro horas diárias morgadas em frente à TV que você finge que são dedicadas a "esvaziar o cérebro". Não, ele não está esvaziando, está apenas fazendo com que você quique conceitos na cabeça sem se dar conta disto.

Ao mesmo tempo, a TV te bombardeia com símbolos de sucesso, sinônimos de felicidade e notícias de pessoas que desistiram da regra. Os telejornais vão em uníssono com os comerciais: empregado, bom; desempregado, ruim. E lá está você, derretendo nos raios catódicos, assimilando informações que, sem que você perceba, digam claramente o quão vegetal você é e merece ser. Entra o comercial com a gostosa magrinha e o galã de queixo e peitoral largo. Você não é um, nem outro. Sinal vermelho, volte pro fim da fila.

E sequer pense que você pode ficar desempregado. Afinal, isto nunca vai acontecer. Ao menos que, hm, aconteça.

A imprevisibilidade do desemprego é algo encarado nas repartições de trabalho como uma catástrofe natural, um raio, uma chuva de granizo. Mas qualquer um que decida olhar a situação com um pouco de distância sabe que os movimentos são estratégicos como o xadrez e, para usar um termo em voga (e à mercê), vão direto na auto-estima do cidadão.

Por isso, prepare-se para ser demitido. Assim, quando a verdade chegar para você em forma de um bilhete azul, você não vai se sentir um marido traído. Aceite os fatos, você está fora. E agora?

E agora a sua vida, seu merda. Afinal de contas, o que é isso que você chama de vida? Você só consome, consome, consome e daí? O que você ganha com isso? Qual é o sentido disso tudo? Pilhas de livros, pilhas de discos, pilhas de bookmarks, pilhas de MP3. O que você vai fazer com tudo isso? Além de rótulos íntimos de sua personalidade, que mais eles são?

Pense no que você faz hoje. É o que você quer da vida? Você vai morrer e como vai entrar pra história? Funcionário do mês? Operário padrão? Profissional do ano? É este tipo de herança que você quer? Que seus filhos olhem na parede da Fiesp e descubram que você foi o chapeiro do mês em agosto de 2016? Para entrar na posteridade, basta virar nome de rua?

É para aí que você caminha, empregado. E digo com repulsa, com PENA, de você, que tem um patrão fungando em seu cangote prazos e rejeições às suas idéias despencando em seu dia-a-dia como colheres de açúcar no balde de café que você toma de hora em hora.

Por isso, insisto: o que você quer realmente da vida? O que você gosta de fazer? Você ao menos consegue responder a estas perguntas?

Caso positivo, é bem provável que você trabalhe com o que gosta, e esteja começando a duvidar que realmente goste daquilo. Normal, esta é a tática do patrão. Ou pode ser que você esteja desempregado e, mesmo discordando do conceito que ficar desempregado é legal, tendo concordado com boa parte do que eu já disse. Falamos sobre isso mais adiante.

Mas caso você não consiga responder a estas perguntas, não se desespere.Há milhões de pessoas vivendo uma situação idêntica à sua e sequer cogitaram, como você, sobre a possibilidade de estar fazendo algo que preste.

Se você não sabe o que quer, a culpa não é sua. A culpa é de um sistema autoritário que embute na sua cabeça que você tem que, na flor da adolescência (o fim dos vinte), definir o que você quer da vida. Só gênios ou robôs sabem o que realmente querem aos dezoito anos, por isso considere que a sua opção de terceiro grau foi errada. Que você fez um curso que não tinha tanta certeza e que provavelmente trabalha com uma área que não diz muito respeito às suas qualidades. É bem provável que você tenha uma gravadora, uma banda, um site ou ao menos um blog, que é onde você deixa suas verdadeiras intenções virem à tona.

Normal. Seria mais normal se você conseguisse se expor assim com todo mundo. Mas, não, o único lugar que você consegue se abrir é no seu blog. No seu fundo de caderno. Nos resmungos durante uma partida de videogame. Sua vida tornou-se uma eterna reclamação. Você reclama, logo existe.

Você está infectado pelo vírus "trabalho", que tenta tirar qualquer propósito de suas ações. Você se sente, no fundo, um inútil, mesmo que tenha dobrado o faturamento da empresa em que trabalha ou ganho uma viagem para a Europa depois de um tapinha nas costas e uma piscada de olho do patrão. "Yes!", você pensou sozinho, mesmo sentindo vergonha de estar se nivelando ao parâmetro de um americano mongol (pobres mongóis, nada contra).

Você vai ser demitido, cara. Comece a pensar nisso e nas possibilidades que vêm a seguir. Se você não tiver planos, metas ou pelo menos uma direção no seu rumo, pode crer que você não é nada além de graxa nas engrenagens da História, uma novelinha besta escrita por esnobes que não vão citar seu nome, nem no rodapé.

Por isso, comece a pensar no que você quer fazer quando você for demitido. Altas festas. Uma viagem. Deixar de lero-lero e botar a mão na massa. Descansar de verdade. Pense nisso e vá economizando um troco, fazendo contatos, pensando em alternativas, cogitando possibilidades. Assim, quando a inevitável demissão acontecer, você sabe o que fazer. Esta é a grande vingança. Nada de tremer: fora do trabalho, bola pra frente.

Pare de pensar no trabalho como um fim. Patrões trabalham com conceitos de terror e medo, e o desemprego crescente é bom para que eles mantenham a paranóia sobre seus empregados.

Mande-os à merda. Olhe ao redor: o patrão é o cara que paga tudo que você vê no escritório, inclusive o salário de todos os seus colegas. Ou seja, você não vale nem o aluguel que ele gasta no local de trabalho - isto quando o mesmo não for próprio. Por isso, chute o balde. Use o xerox e a impressora no limite da cara-de-pau. Mande cartas pessoais usando o correio da empresa, faça interurbanos, dependure-se em sua internet e mande recadinhos para seu patrão via email alheio (ou você acha que ele não lê sua e-correspondência?). Fique doente quantas vezes puder, faça corpo mole e finja desinteresse. Responda "sim senhor" para todas as inquisições, peça desculpas quando tomar um esporro e faça cara de dodói, para tocar no resto de humanidade que seus patrões possam ter. Você estará apenas cumprindo seus direitos de empregado.

Mas isto não importa. O importante é você saber o que fazer quando for alforriado.

Por experiência própria, lhe digo: tire férias. Descanse por uns três, quatro meses ou mais. Zere a sua cabeça, limpe o fígado e durma tranqüilo. Depois, mire sua cabeça onde você quer trabalhar. Não importa o que você quiser fazer, haverá alguém disposto a pagar por isto.

Por isso, o mais importante é sair à procura, mexer-se. Comece a trabalhar para você mesmo, antes que a frustração seja maior que a sua vontade de continuar. Afinal, como disse o Daniel de Pádua sobre o Manifesto Nômade do Tom-B: "somos nós quem definimos o que deve ser e o que é. Acorde para as outras possibilidades. Perceba que existem mil sentidos para uma coisa. Deixe-se evoluir à medida que os mil sentidos fluem pelo seu cérebro. Não os retenha voluntariamente. Apenas aprenda como senti-los. Veja o ser humano como uma coisa só".

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Esse é texto meu velho, pós-Play, do começo de 2003, acho, que foi reativado pela minha memória (um lixo) por um post de hoje do Marcel. Mas que continua atual. E isso me lembrou de resgatar os textos do Geocities, que tão lá parados, até hoje... Não só os Fora de Controle, mas também as resenhas, etc. Ou seja, it's revival time!

maio 10, 2007

Quem aqui gosta de jazz?

Então aproveita o link...

Uma Noite Perfeita Com DjMulher - Gente Bonita Vol. 04

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DjMulher nossa convidada direto do Canadá, rompe a noite perfeita Gente Bonita com os melhores hits da "night québécoise".

(01)"The Bomb" - New Young Pony Club
(02)"Miss Alissa" - Eagles of Death Metal
(03)"New York Girls" - Morningwood
(04)"Tribulations" - LCD Soundystem
(05)"Discotech" - Young Love
(06)"Fancy Footwork" - Chromeo
(07)"D.A.N.C.E." - Justice
(08)"Rehab(DED remix)" - Amy Winehouse
(09)"Nausea(Pirate's Bumblebeez remix)" - Beck
(10)"Say It Right" - Nelly Furtado
(11)"What Goes Around Comes Around(Junk XL Small Room Remix)" - Justin Timberlake
(12)"Love Me or Hate Me" - Lady Sovereign
(13)"Buchecha Ardendo" - Vanessinha Picachu & Os K-rrascos
(14)"Coozi Mambo" - Buraka Som Sistema
(15)"Tony The Beat(Rex The Dog Mix)" - The Sounds
(16)"Je Suis French Dont Touch" - Pravda
(17)"It's Alright Baby" - Komeda
(18)"For Once In My Life" - Stevie Wonder

Download: Uma Noite Perfeita Com DjMulher - Gente Bonita Vol. 04

Emo...

Cara, até agora eu não consigo botar fé nisso... A realidade é bem mais estranha que a ficção.

maio 9, 2007

Vida Fodona #082: Uma coisa meio freak, não só sinistra

Hypes se materializando, banda brasileira chupa gringos, groove is glam, Simonal standard, hard rock psicodélico, gata soul, bossa nova snupe, o novo George Michael, soul punk, dança do robô, hit farofa 70 e instrumental paulistano. De novo.

- “Fluorescent Adolescent” - Arctic Monkeys
- “Wake Me Up Before You Go Go” - Wham!
- “I’ll Never Fall in Love Again” - Wilson Simonal
- “Go” - Common
- “Meu Primo Zé” - Camisa de Vênus
- “Monolith” - T-Rex
- “Witchcraft” - Wolfmother
- “Blue Charlie Brown” - Vince Guaraldi Trio
- “Could We” - Cat Power
- “Love Will Keep Us Together” - Captain & Tenille
- “Jantar com Kubrick” - Mamma Cadela
- “Blues for Godzilla” - Bellrays
- “Dude, You Feel Electrical” - Shout Out Out Out Out
- “Geremia” - Bonde do Rolê

Remo?

maio 8, 2007

Universo em desencanto

É esse.

maio 7, 2007

Depois da internet

Materinha no Link de hoje.

***

Novas formas de se ouvir música

Com o MP3, os hábitos dos ouvintes mudaram radicalmente e, aos poucos, as pessoas descobrem como isso é ótimo

O MP3 matou o CD, as gravadoras estão em crise, quem baixa música da internet é pirata e vai demorar um tempo até nós, brasileiros, termos lojas de música digital à altura das que já existem nos países desenvolvidos.

Parece que o caos se instalou no mundo da música, não é? Desde que o Napster, o primeiro programa de compartilhamento de arquivos pela internet, foi criado em 1999, as coisas mudaram tanto nesse mercado que a quantidade de desinformação que circula por aí não é pequena.

Vamos reescrever então o início deste texto.

Não, o MP3 não matou o CD, as gravadoras começam a se adaptar, existe uma infinidade de música grátis e legal circulando na rede e já é possível comprar arquivos digitais sem ter de adquirir o disco inteiro, inclusive no Brasil.

O fato é que a internet mudou completamente nossa relação com a música. Se antes era só ouvir na rádio, ir até a loja ou ler na revista para ficar sabendo quais os principais lançamentos do mês, hoje a quantidade de fontes de informação cresce em velocidade exponencial.

O mesmo acontece com as formas que bandas novas e artistas à margem do sistema das gravadoras multinacionais encontram para divulgar seu trabalho, por meio da rede mundial de computadores.

E – agora vem a boa notícia para você, leitor – multiplicam-se as opções para qualquer um ouvir música, seja pagando ou de graça, por meio da internet. O Link desta semana tem uma proposta simples e, ao mesmo tempo, ousada: ajudar você, leitor, a mergulhar nesse incrível mundo da música digital.

Ouvir sem comprar
Quem é novato encontrará dicas para ir se acostumando aos poucos com a novidade. Já os mais escolados poderão ir mais fundo nesse oceano musical que é a web.

E, veja bem, todas as dicas incluídas nesta edição são 100% legais. Então, mãos à obra.

A primeira sugestão vai para quem ainda não se sente à vontade para abrir mão do CD, mas fica com uma cara assim meio sem graça quando, em uma roda de amigos, alguém afirma, com toda a convicção, que CD é coisa do passado.

De fato, a música não precisa mais de um suporte para ser vendida e transportada. Mas isso não quer dizer que o Compact Disc morreu. Ele continua a ser uma forma de se ouvir música. Só que, pouco a pouco, deixa de ser a principal.

Mas não é motivo para comprar gigabytes e gigabytes de música em MP3. Que tal começar ouvindo música no seu PC, em “streaming” (sem baixar o arquivo), organizar playlists e ver o que acha da idéia?

É o que faz o biólogo Luciano Steves, de 48 anos. “Para que possuir música se posso ouvir um monte de coisas online?”, diz. Ele trabalha boa parte do dia no computador e, para se distrair, utiliza os serviços do Sonora e do Yahoo Music.

O Sonora também vende música, mas Luciano não sucumbe à tentação. “Não faço questão de ter uma coleção grande de músicas. Prefiro criar uma playlist que possa escutar de qualquer computador.”

É claro que ele precisará “possuir” música quando decidir comprar um toca-MP3. Só que Luciano ainda não chegou lá. Nem está com pressa.

Garimpo musical
O universitário Ronald Rios, de 18 anos, está na outra ponta da nossa aventura musical. Ele vive para cima e para baixo no Rio, onde mora, com seu aparelho portátil de MP3.

Seu toca-MP3 é dos mais baratinhos, com pouco capacidade, mas Ronald conhece bem o caminho das pedras para achar música nova na web. Suas principais fontes de pesquisa são blogs de MP3 e o site musical Pandora (que não funciona mais no Brasil), onde descobre novos artistas que usam a internet para mostrar seus trabalhos.

Quando encontra algo diferente, Rios recomenda em seu blog, o www.rockdeindio.com. Um exemplo recente foi o Coconut Records, projeto-solo do ex-baterista do Phantom Planet, Jason Schwartzman.

O blogueiro descobriu o som por indicação do baixista do Weezer, gostou e incluiu em seu blog o link para o Coconut na comunidade virtual MySpace (especializada em música).

Os blogs de MP3 podem ser divididos em dois grupos. O primeiro reúne links para CDs inteiros transferidos para MP3 e disponibilizados online. Em geral, violam direitos autorais.

O segundo grupo é recente. Descobre artistas que disponibilizam MP3 de graça na internet, mas que estão soltos à procura de ouvintes. São fios da meada na rede global.

“Ninguém conhecia no Brasil e um monte de leitores curtiu a minha sugestão. Alguém até criou uma comunidade no Orkut para o Coconut graças à indicação”, diz.

Já a universitária Juliana Leuenroth, de 22 anos, busca na rede material raro de artistas que ela já curte, de performances ao vivo a covers bizarras. “Travis cantando Britney Spears é impagável”, ri.

Também existem na web diversos sites que identificam o gosto musical do internauta, a partir daquilo que ele já conhece, e o apresentam a bandas e artistas que tenham a ver com seu gosto musical.

Fica fácil ampliar seus conhecimentos musicais assim, não?

* com Gustavo Miller

Um mergulho na música digital

Seja o ouvinte novato nos downloads ou veterano do MP3, não faltam dicas para aproveitar a experiência ao máximo

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Clique aqui para ver o infográfico em PDF.

Para quem já está habituado a baixar MP3 e a descobrir novos artistas sem precisar da ajuda do rádio ou de revistas, um guia para se aprofundar na música digital parece básico e didático demais, feito apenas para novatos que começam a usar a inevitável rede.

Será? Com tantas mudanças e novidades acontecendo sem parar, é possível que haja um site, um serviço, um programa que tenha passado despercebido até para os que já habitam as profundezas do enorme oceano que é a música digital.

Mas como ainda tem gente molhando os pés na praia, não vamos nivelar ninguém por baixo. As dicas abaixo servem para os diferentes níveis de imersão em que diferentes usuários se encontram. E, à moda não-linear da época em que vivemos, este guia não é um passo-a-passo. É possível praticar diferentes etapas sugeridas abaixo sem ter passado por outras. O único pré-requisito é conectar o computador à internet. A partir daí, é ao gosto do freguês.

Afinal, baixar MP3 em programas de compartilhamento de arquivo do tipo P2P (peer-to-peer) como Kazaa, Emule e Soulseek é só uma das possibilidades. Mas como a troca de músicas entre fãs ainda é vista como pirataria pela lei, procuramos opções que se mantenham dentro da legislação e não infrinjam direitos autorais dos intérpretes e compositores.

Para os iniciantes, mais do que sair baixando músicas aleatoriamente, é preciso, primeiro, se habituar com esse novo jeito de ouvir música.

Baixar MP3 para ouvir em aparelhos portáteis é uma variante moderna de compilar uma fita cassete para ouvir no carro ou Walkman, com a diferença de que a “fita”, no caso, pode ter uma capacidade enorme e não há o desgaste de som que acontecia com os antigos cassetes toda vez que eram regravados. Além disso, você não precisa ouvir as músicas enquanto passa para o aparelho – é só arrastar os arquivos e pronto.

Lojas online e sites oficiais de artistas também são boas pedidas para quem está começando. Procure no Google por seu artista favorito – se ele estiver sintonizado com a nossa época, terá um site em que é possível, ao menos, ouvir trechos de suas músicas. Muitos artistas estão pouco a pouco percebendo que a influência da rede não prejudica seu trabalho e disponibilizam até mesmo MP3 gratuitos em suas páginas pessoais.

Mas é sempre bom lembrar que a grande qualidade desse novo tempo é a possibilidade de descobrir artistas que, não fosse a internet, sequer seriam conhecidos em suas cidades. Por isso, ouça seus favoritos, mas abra seus ouvidos para o novo.

Para quem está começando, outra dica é organizar os MP3. A maior parte dos programas que ripam CDs está conectada ao banco de dados CDDB, que cadastra todos os lançamentos em nível global. Mas quando o programa não reconhece o disco, ele copia as músicas com títulos como “Faixa 1” e “Artista Desconhecido”. Isso pode parecer irrelevante no começo da experiência, mas é imprescindível na segunda fase, quando programas online podem indicar artistas novos e desconhecidos a partir do seu gosto musical.

Se você já passou dessa fase, resta ir ainda mais fundo. Além de podcasts e blogs de MP3, que ajudam a identificar quem é quem nesse aparente caos da música digital, outros dois tipos de ferramenta facilitam ainda mais a vida do ouvinte.

Sites como o Last.fm e o Musicovery indicam artistas a partir de um primeiro nome escolhido por você. A inteligência dos programas online compara gostos de outros usuários e, a partir do cruzamento de dados, sugere nomes que você nunca tinha ouvido falar, mas que certamente batem com suas preferências. Como diria a Feiticeira, naquele comercial de TV, “não é magia, é tecnologia”.

Para procurar blogs de MP3 que disponibilizam músicas gratuitamente, dois sites são fundamentais. O Hype Machine não apenas cataloga todos os blogs dessa natureza, como, a partir de seu banco de dados, indica bandas e músicas que estão fazendo mais sucesso nesses tipos de site, criando paradas de sucesso completamente alternativas. O Critical Metrics vai além e inclui publicações tradicionais (jornais, revistas e canais de TV) em seu ranking.

Mas o mais importante é que tudo está à sua disposição na web. Nada mais é imposto, tudo depende da sua escolha. E, se ouvir música já era um prazer, escolher a melhor forma de ouvir é um privilégio.

MP3 e indústria fazem as pazes

Gravadoras e lojas aos poucos cedem ao formato digital; serviços online oferecem música nova sem cobrar nada

Aonde você vai quando quer comprar música? Antigamente, quando os endereços eram apenas físicos, a resposta vinha na ponta da língua, quase sempre acompanhada do nome de um vendedor gente boa que dava dicas preciosas sobre artistas que ninguém conhecia.

Esse tempo já era. Hoje, comprar música não diz respeito especificamente a discos (que continuam sendo vendidos, online e offline), mas também a MP3 isolados e discos inteiros digitalizados. E isso não é exclusividade de Primeiro Mundo.

Duas das maiores lojas online do país (a Americanas.com e o Submarino) já oferecem músicas digitais, graças a uma parceria com o site iMusica.
Outras lojas online vendem exclusivamente música digital. A Megastore, do portal UOL, a Yahoo! Música, do portal Yahoo!, e o serviço Sonora, do portal Terra. Nas três, o usuário pode ouvir e comprar tanto discos inteiros quanto canções separadas.

O Sonora sai na frente por oferecer um serviço cobrado mensalmente que permite ao assinante ouvir músicas sem precisar baixá-las, à vontade, além de poder escolher as músicas que quer ouvir, criar sua própria playlist (seleção de músicas) e compartilhá-la com outros usuários do site.

O único problema das lojas brasileiras é a incompatibilidade com o iPod. Como o formato oferecido pela Apple é exclusivo dela (a empresa usa o MP4 em vez do MP3), não é possível comprar arquivos que possam ser deslocados diretamente do computador para o portátil de Steve Jobs.

A iTunes Music Store, loja de música digital mais popular do mundo, por sua vez, não permite que usuários brasileiros façam compras em seu sistema. A Apple não se pronuncia oficialmente sobre uma versão nacional da iTunes Music Store, embora volta e meia surjam boatos de que ela chegará.

Todas as lojas no Brasil explicam que, para encher o iPod com suas músicas, o ouvinte deve comprar a música, gravar um CD com elas, convertê-las por meio do programa da Apple (o iTunes) para, só então, transferi-las para o aparelho – nada prático, nada rápido. Mas isso só acontece no caso do iPod. Outros MP3-players não sofrem deste mal.

Por outro lado, é possível comprar MP3 em outras lojas internacionais, como a Rhapsody (www.rhapsody.com), da Real Networks, e no eMusic (www.emusic.com), usando um cartão de crédito internacional.

Os sites das tradicionais megastores do País, como Fnac, Saraiva e Siciliano, só vendem música em CD. Nada de MP3.

Além dos discos
As gravadoras, por sua vez, começam a se mexer e, pela primeira vez, em 2007, as multinacionais começaram a lançar discos primeiro no formato digital para, depois, se for o caso, vender o CD.

Outras empresas do ramo, brasileiras e independentes, já estão cientes da mudança dos tempos. Grandes como a Biscoito Fino e a DeckDisc já vendem MP3 em seus próprios sites.

A Trama criou a TramaVirtual (www.tramavirtual.com.br), já em seu quarto ano de funcionamento, site no qual artistas sem gravadora podem subir suas músicas em MP3 sem precisar pagar nada. E o ouvinte pode baixar sem colocar a mão no bolso. Basta preencher um cadastro simples.

Sites recomendam músicas a partir do seu gosto musical
Enquanto uns preferem comprar, outros se viram para ter de graça. Mas ouvir música online sem pagar não quer dizer, necessariamente, burlar direitos autorais ou lesar o artista.

Há na web uma série de novos recursos que tornam isso possível – além de uma novíssima geração de artistas disposta a não cobrar por sua música, pois sabe que só assim se tornará conhecida do público.

Na primeira categoria estão sites que reconhecem o gosto do ouvinte para, em seguida, oferecer outros artistas afins. Pandora, Last.fm e Musicovery são as ferramentas mais populares, mas não são as únicas.

O Last.fm (www.last.fm) é um site de relacionamentos como o Orkut, só que dedicado à música. O usuário cria um perfil pessoal e baixa um plugin para instalar em seu player de MP3. Em seguida, o site compara a relação de músicas do novo membro com listas de outras pessoas de gostos parecidos. Então sugere novos artistas. Boa idéia, não?

O Pandora (www.pandora.com) e o Musicovery (www.musicovery.com) funcionam de forma parecida, só que o player é o próprio site. Você define um ponto de partida (uma música, um artista) e os sites sugerem músicas que tenham a ver com a escolha inicial. O interessante é que os sites vão ficando mais afiados à medida que você vai dizendo se gosta das sugestões.

A má notícia é que, na semana passada, o Pandora saiu do ar para internautas brasileiros e de outros países, com exceção de EUA e Reino Unido. Uma mudança na cobrança de direitos autorais na internet quase fechou o site de vez, mas usuários nos EUA protestaram e conseguiram que o site continuasse acessível a internautas norte-americanos e britânicos.

Essa decisão pode afetar outros serviços do gênero, o que seria uma pena.

O MySpace (www.myspace.com), maior comunidade virtual dos EUA, é uma ótima fonte para ouvir e, em alguns casos, baixar músicas de artistas, famosos ou não. Mas, sem um sistema de recomendação inteligente, ele é um enorme diretório de música online, sem ponto de partida.

Aí entram os blogs de MP3 e os podcasts. Veículos novíssimos, eles saíram da fase de resgatar música fora de catálogo e começam a apontar para o futuro. Por meio de catálogos online como o Hype Machine (www.hypem.com) ou o Critical Metrics (www.criticalmetrics.com) é possível achar blogs que filtram novos artistas no MySpace e facilitam a vida do ouvinte.

Os podcasts (tipo de programa de rádio que pode ser baixado via internet como um MP3) têm a mesma função. O site do Link (http://link.estadao.com.br) traz um diretório. Outros podcasts são encontrados em endereços como www.odeo.com e www.podomatic.com.

Para o Sonora, música é serviço e não um produto
Um pequeno – mas significativo – detalhe faz da seção de música online do portal Terra, o Sonora, algo diferente das demais. É o fato de tratar música como serviço, e não como produto.

“Sem o suporte, a música pode ser ouvida em qualquer lugar e não apenas quando se tem um MP3”, explica Beni Goldenberg, gerente de produto do Sonora. “Assim, além de vendermos faixas isoladas e discos inteiros, também temos a opção de assinatura, em que o usuário paga uma taxa mensal e pode ouvir quantas músicas quiser, quantas vezes quiser”, diz.

O catálogo do Sonora inclui 500 mil músicas, e a meta para 2007 é dobrar o acervo. Por outro lado, o serviço não revela números de assinantes e de downloads. É esperar para ver se a assinatura digital pega aqui no Brasil.

maio 5, 2007

Vida Fodona #081: Hoje é só música brasileira

Hoje só meu Brasil brasileiro mulato inzoneiro vou cantar-te em meus versos. Segura!

- "Also Spracht Zarathustra" - Eumir Deodato
- "Dance Enquanto é Tempo" - Tim Maia
- "Low" - Otto
- "Maria Fumaça" - Banda Black Rio
- "Pilotando o Bonde da Excursão" - Marcelo D2
- "Nothing" - Walter Franco
- "Falador Passa Mal" - Originais do Samba
- "Tema de Baby" - Marcio Lott
- "Sapo na Banca" - Z'África Brasil
- "Hino do Duran" - Chico Buarque & A Cor do Som
- "Jogo de Calçada" - Mutantes
- "O Homem da Gravata Florida" - Los Sebozos Postiços
- "Samba Dia" - Gabriel Muzak
- "Corrida de Jangada" - Nara Leão
- "Mensagem" - Kassin + 2
- "Muita Estrela, Pouca Constelação" - Camisa de Vênus & Raul Seixas
- "Vitrine Viva" - Ira!
- "Epilético" - Doiseu Mimdoisema
- "Sandina" - Replicantes
- "Baader-Meinhoff Blues" - Legião Urbana
- "Pára-Quedas" - Mombojó
- "A Menina Dança" - Novos Baianos
- "Vou Procurar o Meu Lugar" - Tony & Frankie
- "Highagain" - Stereo Maracanã
- "Mangueira Verde e Rosa" - Proibidão
- "Jardim Camburi" - Zémaria
- "Tere Sahn" - Chico Correa & the Electronic Band
- "Eu Vou Torcer" - Jorge Ben
- "Gago Apaixonado" - Moreira da Silva

Simba?

Faltam 973

Tou na contagem regressiva de convites do Joost pra geral. Quem quiser um, deixa um comment ae.

maio 4, 2007

Mequetrefe

Tudo pronto pro Skolba? Se eu fosse você, saía de casa tipo umas cinco da madruga pra pegar o sol nascendo e a apresentação de uma das melhores coisas que acontecem na música hoje, a dupla MSTRKRFT ("mequetrefe", para os iniciados). Eu vou cobrir, então não tenho desses luxos. Mas garanto que é um programão - mesmo porque na hora em que você chegar, os cambistas devem estar rasgando os ingressos que sobraram de raiva e você acha baratinho, baratinho... Abaixo, um textinho que eu escrevi no ano passado pra Void, que o Cardoso edita lá no Rio Grande, sobre os caras e tinha esquecido de por aqui. Faça esse favor a você mesmo.

***

A dupla canadense das consoantes ("Materkraft" pra quem ainda tá colocando as vogais na cabeça) é uma das melhores coisas do ano – senão "a" melhor – e isso num ano com ótimas notícias. Vai aí uma listinha com cinco MP3s que os sujeitos botaram a mão no meio – e deixaram com a cara de 2006.

"Woman (MSTRKRFT Remix)" – Wolfmother

Pegaram a equação Led Zeppelin + Ozzy do grupo australiano, limparam a gordura, meteram umas palminhas, deixaram o baixo segurando tudo e a guitarra, em loop, virou quase discoteca de branco. O vocal deixa como no original (fora uma digitalizadazinha Cher de leve, no refrão), afinal, é pro povo rock reconhecer quando tiver dançando.

"Monster Hospital (MSTRKRFT Remix)" – Metric

Mantrinha no vocal do começo dá cara de black music, mas quando o resto do instrumental entra estamos no mesmo território do New Order – aquele electro limpo e asséptico, de um azedume branco que permite-se à vã melancolia. E o vocal original deixa de ser soul para ser só indie dance. É como se Aretha Franklin se metamorfoseasse em Shirley Manson (ela mesma, um mashup de personalidades) na frente dos seus ouvidos.

"Got Love to Kill (MSTRKRFT Remix)" – Juliette Lewis & the Licks

Lembra de como era Juliette Lewis quando você se apaixonou por ela (vocês também, meninas, nem venham com essa agora)? Sim, ali entre "Cabo do Medo" e "Assassinos por Natureza" ela ainda era uma Jodie Foster versão fêmea, aquele ninfetismo desenfreado misturado com a pura psicose rock'n'roll. Já perdemos as vezes em que ela revisitou essa persona (Strange Days, com essa banda nova), mas o fato de ela não orbitar ao redor dos vinte anos estilhaça um pouco a candura original. Mas nesse remix… Ela parece que acabou de completar 18. Como dizem os Trouques – "Barely Legal". (O vídeo é da versão pura, antes do remix)

"Rock Steady (MSTRKRFT Remix)" – All Saints

Sim, All Saints, aquelas Spice Girls para as meninas que acham que ler TPM ou Marie Claire é um saco e que a Capricho, mesmo menina, ainda fala mais a língua delas. Aí os caras pegam o beat, três frases descoladas de uma música pop apenas normal e o negócio vira ISSO. Marteladas sintéticas de um rolo compressor de magnética pura atordoando as têmporas até o beat anos 80 encaixar com o loop de "look in my eyes-eyes-eyes…" e você ficar pensando nesses olhos que dá pra ficar olhando até o infinito… (Outro vídeo com a música original, o remix tá no linque).

"Sexy Results (MSTRKRFT Edition)" - Death from Above 1979

Hino Gente Bonita, essa é uma música que resume o gênero musical dos mequetrefes - meio techno, meio big beat, meio house, meio electro, mas com uma pegada pop imprescindível por cima de tudo. E o refrão resume o espírito da dupla. Com eles, não tem erro.

"Community Revolution in Progress" – MSTRKRFT
Pesadelo. Uma muralha de som desaba em câmera lenta e, de alguma forma, com ritmo. O vocoder é o feitor nesta senzala de ritmo que se transforma a pista, todos escravos ao groove militarista e incansável dos quase seis minutos que a banda não colocou em seu disco de estréia – The Looks – e só em seu MySpace (não mais, eles tiraram, e essa foi a única que eu não encontrei o vídeo, mas de brinde vai essa aí embaixo).


"Street Justice" - MSTRKRFT
'Another killing on the dance floor!"


"Easy Love" - MSTRKRFT
"Whenever you want me,
Whenever you need me,
If you wanna love me,
Baby I'm easy"

***

E aí, vai ou não vai?

Cadê o PDF?

Essa briga do Roberto Carlos com o biógrafo dele ainda nem começou. Ontem mesmo tava falando com uns camaradas que é questão de tempo pro PDF do livro aparecer por aí. Qual a minha surpresa que hoje, esse site colocou um PDF com o livro pra download. Mas nem precisa tanta gana no clique - o PDF é fake e não é o livro em si, e sim uma tese sobre Roberto Carlos seguida d'O Cortiço. Mas a idéia tá lançada, resta alguma boa alma na Planeta fazer o arquivo aparecer ou um nerd madrugueiro escanear todo o livro e transformar em e-book. Enfim, foi dada a largada.

Aí a briga vai pro digital. E, pelo jeito, o Rei vai ser o nosso Metallica. :P

Gravataí

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maio 3, 2007

Neguinho reclama....

...mas se esquece que isso já foi assim. Pessimismo é só vaidade, meu povo!

maio 2, 2007

Me aqueça neste inverno

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Não é porque o frio chegou pra ficar (o sol ainda tá aí, mas perceba, aos poucos, os ecos do inverno) que vamos ceder e ficar em casa. E antes de um fim de semana que tem Virada Cultural e Skol Beats, Gente Bonita invade mais uma vez a festa do broder Lucio Ribeiro que, recém-chegado do Coachella, nos chamou pra fazer a casa cair bonito. Como a festa não é nossa, não tem como dar desconto - se bem que se cadastrando no site do Vegas ( www.vegasclub.com.br ), dá pra entrar na lista. Mas sempre dá pra fazer um agrado, por isso os nomes que se cadastrarem no nosso site estarão concorrendo automaticamente a cinco pares de entradas para a festa de quinta, a primeira de maio! Por isso, prepare pernas e quadris para a groovezeira pop que invade a pista do andar de baixo do clube da Augusta - a noite vai ser quente.

Gente Bonita @ Rockfellas
DJ residente: Lucio Ribeiro
CDJs convidados: Luciano Kalatalo & Alexandre Matias
Quinta-feira, dia 3 de maio
23h59
Local: Vegas Club. Rua: Augusta, 765 Cerqueira César Telefone: (11) 3231-3705
Preço: R$ 15 na hora / ou R$ 10 com nome na lista do Vegas -
www.vegasclub.com.br
Se cadastrando no www.gentebonita.org você concorre a um dos cinco pares de entradas free para o clube nesta data