
Digo isso num tom de indignação no que diz respeito à nossa crônica esportiva. O leitor de Bola é Bola Mesmo não deve se agüentar dentro das calças de me ver sempre atirando contra meus quetais, mas eu próprio fico fulo da vida ao ver mesas redondas com nossos amigos falando de tudo quanto é jeito, menos do jeito que eu falaria. Se não fosse assim, aliás, possivelmente eu não me aventuraria em ter essa coluna dedicada ao esporte bretão. Ora, pois.
Pois vejam vocês que, na última rodada, no sábado passado, o Fluminense derrotou o Palmeiras por gritantes três a zero e a nossa crônica desandou a verificar os deméritos do Verdão na partida, avaliando a performance ruim do time, à falta de disposição, apontada até pelo goleiro Marcos, o calor, o azar e o escambau. No que eu pergunto: não teve mérito o Fluminense, que em 45 minutos sapecou inapeláveis três a zero? Entendo que, por estar na disputa do título do campeonato brasileiro e não tentando escapar do rebaixamento como o Tricolor, o Palmeiras mereça mais destaque, mas ainda assim mantenho: não teve méritos o time das Laranjeiras?
Segundo a crônica, não. Para eles, o primeiro gol foi casual, o segundo um azar e só o terceiro (ao menos um) foi bonito. Como se só este valesse, decretaram que o jogo foi, tão somente, um a zero – o que para o Flu já seria uma goleada, diga-se. Preferem, como disse, a apologia do derrotado. No que eu esclareço. Se o primeiro gol do Fluminense nasceu de uma bola cruzada que entrou direto, a culpa é da defesa do Palmeiras, que não marcou Washington e não cortou a bola como deveria. Mérito do lateral Carlinhos, que chutou, e de Washington que “cortou a luz”. Demérito de uma defesa mal posicionada. E vou mais longe. A bola que Martinez despachou contra a canela de Maurício foi chutada (e muito bem chutada) para dentro da pequena área por Everton Santos, e a zaga não cortou por ruindade dela própria. Venceu o melhor, meus amigos. Que acaso que nada.
O terceiro gol, que até os apologistas da derrota aplaudiram, então, foi uma pintura. Um contra-ataque matador puxado por Everton Santos (ele de novo) que passou delirantemente pelos pés sábios de Conca antes de ir parar milimetricamente no ponto futuro onde encontrou a bomba de Junior César para o fundo do barbante. Observem que em toda a troca de passes o espaço era exíguo, e a bola passou onde só ela poderia passar; e que dois jogadores se atiraram à frente do chute do lateral tricolor, e não cortaram a jogada por um triz. Um golaço.
Mas o mais importante da partida não foi isso. Foi que, para parar o Palmeiras de Luxemburgo, o treinador tricolor estudou cada passo do Verdão e montou um esquema para bloqueá-lo, para, só depois, partir para o ataque. René Simões conseguiu fazer com que todos os jogadores do Fluminense cumprissem tarefas para não deixar o time do Palmeiras se mexer dentro de campo. Os jogadores conseguiram e tudo deu certo, porque, assim, o gol acaba saindo de uma forma ou de outra. Reclamam que Alex Mineiro não jogou; foi parado pelo Monstro Thiago Silva. Que Kleber não atacou; quando teve chance (duas) parou em Fernando Henrique. Quem nem Denílson nem os laterais conseguiram avançar; foram bloqueados por cabeças de área, laterais e até pelo polivalente Everton Santos. Como jogaram Fabinho, Arouca e Wellington Monteiro, meus amigos.
Mas nossos cronistas não viram isso. Não viram que René Simões venceu um duelo com Luxemburgo. Este não conseguiu, no intervalo, sequer dar um novo posicionamento para a sua equipe, de modo a reagir dentro da partida. Logo ele que tem a fama de “mudar o jogo no vestiário”. Não que não tenha tentado. Simplesmente não conseguiu. Malandro, disse ao final do jogo que, no intervalo, já se considerava derrotado e pensava no próximo adversário. Duvido.
Não meus amigos, eu não quero dizer que, a partir de agora, o Fluminense passa a ser invencível. Disse apenas que o técnico tricolor trabalhou e venceu uma batalha tática contra o seu adversário. Se ele vencerá a próxima, contra o Figueirense, depois de amanhã, aí já são outros quinhentos. É outra equipe e um Mário Sérgio que adora jogar com um goleiro e dez cabeças de área. É outro desafio, e que vença o melhor. Porque, sinceramente, estou fora dessa da apologia dos derrotados.
Até a próxima, e que Barack Obina vai ser presidente... do Flamengo!!!