Bola e Bola Mesmo
16 de setembro de 2008
O Maracanã é o grande palco do futebol brasileiro
Tragam os jogos da seleção para o maior o mundo que a festa está garantida; nem os preços altos e a seleção de Dunga afugentam o torcedor carioca.

Quarta passada foi uma noite das mais inusitadas. Primeiro um jogo da seleção brasileira marcado para um estádio pequeno. Moderno, mas pequeno. Depois, um encalhe fenomenal de ingressos para essa mesma partida fez os organizadores apelarem, de última hora, para uma chamada em TV aberta em horário nobre, numa tentativa desesperada de encher as arquibancadas. E, depois, o mico-mor: o estádio - pequeno, repito – vazio. Os que não gostam de Dunga na seleção, ou, por outra, da seleção de Dunga, dão o veredito: que ninguém quer ver esse time ruim jogar. Outros, com certa razão, colocam a culpa no caríssimo preço dos ingressos. Mas o buraco é mais embaixo.

Dizia o Galvão Bueno – não consegui locução melhor – que os ingressos mas caros e os mais baratos se esgotaram, os demais é que não. O que, para mim, deixa claro o fenômeno. Dificilmente a classe-média carioca, alocada em sua grande parte na zona sul, vai se deslocar para um jogo no Engenho de Dentro – de onde advém o apelido de Engenhão dado ao Estádio Olímpico João Havelange. Localizado no subúrbio, adjacente a uma estação de trem, o Estádio só recebe quem mora por ali (ou vem da Baixada Fluminense) e os emergentes da Barra da Tijuca que aproveitam a ligação da expressa Linha Amarela. Da zona sul, os classemedianos vão, no máximo, até o Maracanã, e até por questões históricas e de glamour.

Sim, os ingressos estavam custando os olhos da cara, mas, em jogos da seleção brasileira e em finais de campeonato, sempre foi assim, e os estádios sempre lotam, no Rio ou em qualquer lugar do Brasil. Na final da Libertadores,por exemplo, cobraram o dobro do preço para todos os setores, e o Maracanã lotou, isso sem falar das manobras que levaram boa parte dos ingressos para as mãos dos cambistas. Ingresso caro ajuda, mas não afugenta os torcedores dos gramados. Vejam o caso o Botafogo, que administra o Engenhão. Não consegue lotar o estádio nem com a equipe fazendo uma sensacional arrancada no campeonato, com os ingressos a preços normais. Também sou daqueles que quer a saída de Dunga, mas não é da ruindade da seleção comanda por ele a culpa da fuga dos torcedores.

Eis onde eu queria chegar. Acontece que o grande palco do futebol brasileiro é o Maracanã. É no (para sempre) maior do mundo que a torcida se sente à vontade para acompanhar uma partida, sofrer, gritar, vibrar, se emocionar. Embora seja construído num formato circular (e não em “u”), o estádio exerce uma incrível atração entre os torcedores, vivos e mortos, que o dá a pecha, também, de mais querido do Brasil – quiçá do mundo. Digo isso não só convertido pela emoção, mas, também, baseado nos fatos, e encontro acolhida no deserto em que se transformou o Engenhão na última quarta.

Entre os fatos, está uma rápida pesquisa que fiz no RSSSF, o site mais completo em termos de estatística de futebol, indicado pelo grande PVC. Lá, entre outras muitas coisas, há um espaço destinado aos maiores públicos do futebol brasileiro. Vejam vocês que numa lista de 247 públicos, considerados apenas os superiores a 100 mil (eu disse 100 mil) pessoas, nada menos que 185 deles pertencem ao Maracanã. Ou seja, 75% dos maiores públicos da história o futebol brasileiro, pertencem ao maior do mundo. E – acreditem – os 26 maiores públicos pertencem ao estádio, sendo apenas seis em jogos do Brasil, os outros 20, em partidas disputadas entre clubes cariocas. Pena que os dados levantados vão apenas até o ano de 1999, mas não podemos desprezá-los.

Além de reafirmar a pujança do Maracanã quanto ao comparecimento do público, os dados apontam para a empolgação do torcedor carioca, sobretudo em jogos da seleção e em finais de campeonato. O mesmo levantamento mostra que quem detém os 251 melhores públicos da história são os clubes cariocas: Flamengo (99), Fluminense e Vasco (empatados com 56) e Botafogo (40). Só em quinto aparece o Corinthians, com 23, e a seleção brasileira, com 41, ficaria em terceiro. Não por acaso um clube carioca trouxe pela primeira vez na história uma final de Copa Libertadores para o Maracanã, e o evento se transformou no quarto maior em termos de movimentação de turismo, perdendo apenas para os gigantes Carnaval e reveillon, e para a Meia Maratona da cidade. Não sou eu quem está dizendo, mas a informação foi dada por uma repórter do Sportv. O canal, aliás, teve dificuldades para hospedar seus profissionais que vieram de São Paulo no dia da final, já que restavam poucas vagas na rede hoteleira, e isso em julho, período de média temporada.

Isso tudo quer dizer que há público aqui no Rio que encha estádio, simplesmente porque, antes de nacional, o futebol sempre foi uma paixão carioca. Daqui é que saíram os clubes, os craques, as transmissões e tudo o que faz parte da cultura nacional. Não por acaso, onde um clube carioca joga, muitas vezes a torcida local é menor que a dele. No domingo passado, a do Flamengo quase suplantou a do São Paulo em pleno Morumbi. Lá na terra dos Bandeirantes aliás, só o Flamengo detém, vejam vocês, a terceira maior torcida da cidade. Por isso, CBF, deixe de bobagem, traga os jogos da seleção para o maior o mundo que a festa está garantida.

Até a próxima, que no Vasco todo atacante tem que ser goleiro!!!

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