Bola e Bola Mesmo
23 de setembro de 2008
As incoerências do futebol
Cada vez fica mais difícil entender o bom e velho esporte bretão. E a crônica esportiva, engambelada em números, pouco ajuda nesse entendimento.

Não tem sido fácil entender o futebol nos últimos tempos. Não bastassem as improbabilidades inerentes ao jogo em si, agora até o jeito de torcer parece não estabelecer qualquer padrão ou semelhança. No último domingo, por exemplo. O um a zero sobre o fraco Ipatinga que gerou vaias da torcida do Flamengo foi o mesmo escore que deixou feliz a do Internacional, contra o destemido Vitória. E olha que o Flamengo passou a somar 43 pontos na tabela, no quarto lugar, e o Inter é o décimo primeiro, com 39. Não era para os rubro-negros comemorarem?

Digo a torcida, porque os jogadores e técnico – com razão – gostaram e, nadando contra a corrente da crônica esportiva, acreditam no título. Eu também acho que a equipe, com apenas sete pontos atrás do líder, e 12 rodadas pela frente, tem chances. Mas precisa que a torcida também acredite, e, sobretudo no Maracanã, comemore o placar de uma zero como goleada. O que vale, meus amigos, são os três pontos. Hoje li Muricy Ramalho dizer que, que já superou os 40 pontos na tabela, têm chances de chegar ao título. Analisando somente a tabela, vejo que ele tem razão, mas se o São Paulo continuar jogando essa bolinha quadrada, não vai chegar nem à Libertadores.

Mas falava das incoerências do futebol. Na partida de sábado, no Maracanã, dois dos que disputam a artilharia do campeonato marcaram duas vezes cada um. A rigor, os gols de Washington foram mais bonitos, ao passo que os de Keirrison nasceram de uma fala grosseira da zaga tricolor e de um passe açucarado de um dos meias do Fluminense. Como o Coritiba saiu vencedor, e Washington perdeu ainda outros dois gols, pronto: Keirrison foi o craque do jogo. Ao ler as notas dadas por um jornal carioca de grande circulação, vi que a equipe das Laranjeiras foi duramente arrasada. Mas e se tivesse ela vencido? Difícil de querer coerência, né?

Nesses e em outros momentos deveríamos todos ter o auxílio dos analistas profissionais, mas eles, como de hábito, se apegam ao sobe-e-desce da tabela para tirar suas conclusões e não ajudam muito. E ainda não admitem a presença do “improvável”. Nesse momento do campeonato, a cada rodada boa parte deles se limita a fazer contas, comparar os percentuais em relação aos que apareciam nas mesmas rodadas dos anos passados, e estabelecer projeções em cima desses números. Ora, meus amigos, isso é matemática, análise combinatória, estatística, sei lá... Futebol, repito, é dizer quem tem bola e que não tem bola para chegar a este ou aquele lugar.

Assim, baseados nos números de campeonatos passados, e não no futebol apresentado, apontam uma disputa polarizada entre Grêmio e Palmeiras, separados por um ponto no topo da tabela. Ora, isso é óbvio. Mas, vamos e venhamos, joga bem o Grêmio? É bem treinado? Tem bola pra vencer? Eu, meus amigos, pelo pouco que vi a equipe gremista jogar, não acredito, e ficaria decepcionado com um campeão tão perna de pau. Vejo mais time, por exemplo, no Cruzeiro, apesar e ser esta uma equipe irregular. Vejo possibilidades de uma boa engrenada do Flamengo, que finalmente contratou bons jogadores do meio para frente, e é, desde já, um dos favoritos ao título carioca de 2009. Já São Paulo desgastado de tão fraco, e Botafogo, com time ruim e elenco curto, não devem chegar a lugar nenhum. Ou, por outra, talvez cheguem, sim, a uma vaga na Libertadores. Vejo, de outro lado, o Inter com um belo time, com um treinador que não está conseguindo arrumar a coisa. Se conseguir, podem guardar uma das vagas pra Libertadores pra ele, que se torna, desde já, candidatíssimo ao título do torneio em 2009.

Mas esse campeonato já apresenta uma – ao menos – diferença entre os que passaram. Dessa vez, dá pra dividir a tabela entre os 11 primeiros, envolvidos com Libertadores, título e Sul Americana, e os nove últimos, ameaçados de rebaixamento. Desses nove, oito deles estão enroladaços para se livrar, não há um rebaixado de antemão, como era o América de Natal no ano passado. E é notória a fraqueza de alguns nivelada por baixo pelo destempero de outros. No papel, equipes como Fluminense e Santos, ícones da Libertadores desse ano, não deveriam estar emboladas com cabeças de bagre como Náutico, Ipatinga e adjacências. De qualquer modo, fica a tradicional torcida para que caia o maior número de pequenos possível.

Até a próxima, que é proibido marcar pênalti no Washington!!!

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