
Acontece que o Brasil não quer o ouro olímpico. Disse o Brasil, mas me refiro à CBF, que organiza o futebol brasileiro. Se quisesse, teria planejado um calendário de modo a levar à Pequim uma seleção competitiva, com ou sem astros. Aliás, não é só a CBF que rejeita o ouro olímpico, a FIFA também boicota tacitamente o futebol nos jogos olímpicos. Como não fatura um tostão com isso, e não quer perder poder político, não está nem aí. Tanto é que já ouvi de alguns comentaristas respeitáveis a sugestão para o futebol deixar de ser, de uma vez por todas, um esporte olímpico.
Como ainda o é, e como enviamos aos jogos um cata-cata mal treinado, as chances de fracasso são latentes, como foi apontado por cem por cento da crônica esportiva após os tropeços da seleção principal diante de Paraguai e Argentina. Só que, com a proximidade dos jogos, e a busca por uma audiência que pague a conta da cobertura jornalística, tudo mudou. Agora, o Brasil é um dos favoritos para vencer o ouro, Ronaldinho não está mais fora de forma, a seleção olímpica é, até, melhor que a principal, e o fato de não ter se organizado – vejam vocês - faz do Brasil um possível vencedor. E não sou eu que está dizendo. Tenho ouvido e lido isso a torto e a direito.
Ninguém, no entanto, depende mais dessa seleção do que o aprendiz de técnico Dunga. Um fracasso nos jogos praticamente é o recibo de sua demissão, talvez antes mesmo dos jogos de setembro, pelas eliminatórias, ou talvez depois. Se vencer, no entanto, Dunga repete a seqüência fracasso-vitória nas Copas de 90/94, entra mais uma vez para a história, e recebe um crédito extra da CBF, da crônica esportiva e, enfim, do brasileiro comum. O que não o garante na Copa de 2010, que sabemos todos, terá o Brasil na disputa.
Não quero fazer coro com os otimistas de última hora, mas a seleção olímpica brasileira, no papel, é um timaço. Melhor que a principal, sim. Mas não basta ter um timaço para vencer, é preciso outras coisas inerentes ao futebol dos nossos dias, como se preconiza em qualquer resenha esportiva. É preciso um bom treinador, preparo físico, entrosar a equipe, conhecer bem os adversários, ter o tal “grupo fechado” e assim por diante. Lembro muito bem de ver a seleção sub 20 do Brasil, em 2003, apanhar de três a dois para a Austrália, depois de tomar três a zero só no primeiro tempo. Ok, depois o Brasil levantou o caneco, mas aí são outros quinhentos. Será que os otimistas de plantão conhecem os adversários do Brasil? Duvido muito.
Há os que justifiquem a desorganização do Brasil pelo viés da falta de comprometimento da FIFA e dos clubes, na questão da liberação dos jogadores. Mas isso é o fato, e contra os fatos não há argumentação. Se é assim, que o Brasil comece a se preparar, desde agora, para as olimpíadas de Londres, em 2012. Que leve para lá uma seleção sub alguma coisa, só com jogadores novos e desconhecidos, mas bem treinada, com esquema de jogo definido e condições de fazer uma boa disputa. Que reúna um grupo de uns 30 jogadores por dois meses e faça um time chegar lá arrumadinho. Se quer tanto o ouro, vale o investimento. Se não quer, melhor nem disputar, para não passar vergonha. Ou, com sorte, fazer de gente como Dunga um treinador de verdade.
Até a próxima que a bomba está literalmente estourando lá na Gávea!!!