
Do lado de cá do CD, para nós, reles mortais, vale à pena. É impressionante como depois de ouvir esse disco várias vezes, ainda que inicialmente tendo que ficar preso em frente ao computador, e depois do modo “normal”, ele soe tão inteiro, redondo, homogêneo ou qualquer outro adjetivo que signifique, no fim das contas, que ele tem unidade. E isso não é pouco. Aquele que não observar que música está tocando em determinado momento, poderá apontar o título de qualquer uma das dez como rica em todas as características de uma boa e típica música do Coldplay – ou, e alguns casos, de novo, do U2. Isso é o que nos dá a sensação da tal unidade buscada à exaustão.
A dobradinha “Lost!” e “42”, por exemplo, é de uma beleza singular, seja nos arranjos rebuscados ou na seqüência harmônica que em geral conduz a música a um ápice até óbvio, mas sempre recompensador quando se chega lá. O single “Violet Hill”, talvez seja a que mais remeta ao Coldplay “das antigas”, se possível fosse fazer esse tipo de separação. Por ser a oitava, atua como uma faixa bônus, o que, em tempos urgentes de audição on line, realmente já faz dela, em relação ao disco, algo precocemente retrô. E a exuberante “Viva La Vida”, com arranjo orquestrado e coro vocal, realça talvez o ponto alto do CD, de modo a ter sido escolhida para melhor o identificar, no próprio título, dividido com a quase épica “Death And All His Friends”, que cita “Life In Technicolor” e encerra o disco querendo recomeçá-lo – a cobra mordendo o próprio rabo.
As referências à música hispânica – ou algo que o valha – que o grupo andou alardeando a torto e a direito, e que os levou ao título e à capa (uma tela do pintor francês Eugène Delacroix), musicalmente aparecem tão sutilmente, que, não fossem citadas, passariam batidas pela maioria dos ouvintes. Em geral se aproveitando de ferramentas da informática e de recursos de estúdio, uma esmerada produção inseriu sons de tambores aqui, percussões discretas acolá, cordas explícitas (em “Yes”), uma seqüência de bateria menos indie/britânica e mais calorosamente latinizada, e assim por diante. Um bom exemplo de como, ao incorporar novas referências, não é preciso uma banda jogar fora sua identidade.
Ao mesmo tempo, o Coldplay deixa para trás outra grande característica: Chris Martin já não usa a voz do jeito soturno e doentio que pegou emprestado de Thom Yorke. Tampouco o grupo volta a soar como o Radiohead como no passado, muito embora ambos representem o bê-á-bá do indie britânico da última década. Daí a ratificação da estética cooptada, naturalmente, pelo U2, referendada por uma escalada de sucesso que tende a colocar ambos num mesmo patamar no mercado do rock e da música pop mundial. E isso sem deixar de fazer, nos dois casos, música boa e colante. Do jeito que o povo gosta.