
Fico pensando se aquela gigantesca quantidade de informação sobre futebol despejada sobre nós o tempo todo, e agora omitida em prol das Olimpíadas, é realmente necessária. Estamos na terça à tarde, e ainda não consegui sequer ver o gol da vitória do meu time, que jogou no domingo. Os caras que cuidavam de cobrir o dia-a-dia dele se mandaram para Pequim ou para salas fechadas onde transmitem de tudo, menos o VT do brasileirão que mais me interessa. Questão de prioridade. E o azar é meu.
Azar de Dunga também, que provavelmente já deve estar fora da seleção, decisão a ser anunciada, por questões políticas, só depois dos próximos jogos pelas eliminatórias da Copa do Mundo, nos dias 7 e 10 de setembro. Não, Dunga não é o culpado pela eliminação frente a Argentina, hoje cedo, mas a medalha de ouro, como já disse, seria o único motivo para mantê-lo num cargo para o qual ele nunca foi qualificado. Já ouço na TV falarem em “sonho olímpico”, mas de verdade isso nunca existiu. Como a CBF não está nem aí para os Jogos Olímpicos (e vice-versa) não foi bolado um projeto olímpico, e os jogadores que estiveram lá até fizeram bonito, caindo somente diante de quem, além de ter uma equipe excelente, planejou uma forma de disputar o torneio para vencer. Coisa que não pode virar cobrança para cima dos jogadores. Mas que deve custar caro para Dunga, que só não dança se o Brasil fizer duas partidas excepcionais pelas Eliminatórias. Ou seja, já dançou.
A campanha do Brasil nas Olimpíadas é ruim. Os narradores tendem a valorizar só a participação e o mínimo que se conquista, sobretudo nas TVs de sinal aberto, para ter uma audiência que aumente a remuneração por parte dos patrocinadores, mas é impossível negar os fatos. Ainda mais quando temos, sim, favoritos em alguns esportes, como no judô e na ginástica, onde os campeões mundiais fracassaram fragorosamente. E é preciso ficar claro que, numa competição, existe o vencedor, que é o que vence, e o perdedor, que, por sua vez, é quem perde. Envergonha-me aqui proclamar o óbvio, mas aquele que perde jamais será um vencedor, como querem alguns, a custa de migalhas de anunciantes. Quem perde é, para sempre, um derrotado.
Assim, a postura da Rede Globo, que adotou o patético slogan “torcer pelo Brasil é o nosso esporte” é lamentável. Como numa onda ruim hierarquicamente desencadeada, gente de respeito como Marcos Uchoa, acabou por rasgar diplomas e jogar fora trocentos anos de jornalismo, ao querer abraçar, ao vivo, o nadador e candidato a herói César Cielo. Ele próprio estranhou a atitude do repórter. O animador de auditório Pedro Bial (praticamente um caso perdido do jornalismo), além de encher o saco com crônicas de um moribundo de voz cavernosa, ainda apareceu dando um beijo em Daniele Hipólito, tudo por causa de um reles oitavo (eu disse oitavo) lugar. Como assim um repórter beijando uma entrevistada para uma matéria? Mas o grande mico foi terem colocado o esperto Tadeu Schmidt, um dos melhores textos da TV brasileira, para ficar falando bem do próprio irmão, Oscar, numa matéria que envolveu o arroz de festa Coby Brian. Podiam ter tirado o rapaz dessa roubada, né?
Fazer de qualquer competição um drama é outra tentativa constante das TV. Na maioria das vezes, o tiro sai pela culatra, como no caso do pai da atleta brasileira do salto com vara, aquela mesmo que teve o instrumento de trabalho subtraído. Ao ver a filha tropeçar pela terceira vez no sarrafo que limita a altura a ser atingida, o velho não titubeou e soltou um sonoro “puta que o pariu” ao vivo, em rede nacional. Até a ESPN – quem diria – entrou na onda e mandou o repórter cri-cri Cícero Melo até Niterói, para completar uma ligação via celular da atleta que levou o bronze no iatismo com sua mãe.
As modalidades olímpicas, por sua vez, também não ajudam. Convenhamos, quem é que tem saco para passar a vida tentando pular mais alto sob a impulsão de uma vara, ou nadar rápido pra cacete, ou ainda ficar se equilibrando em traves ou barras? Isso deve ser chato pacas. E, ademais, qual é vantagem de ser o cara que corre mais rápido no mundo, ou o que pula mais alto, ou ainda aquele que agüenta correr mais? Os valores são outros, e os esportes necessitam de um up grade com urgência, para recuperarem o ritmo da história. Senão, só com uma boa quantidade de dinheiro pra convencer malucos desse calibre.
Até a próxima que a China está dando uma lavada nos Estados Unidos!!!