Rock é Rock Mesmo
10 de julho de 2008
Pior que antes
Se o novo rock feito no Rio de Janeiro é aquilo que se viu ontem, no Teatro Odisséia, a coisa está muito ruim. Muito pior que antes.

Meus amigos, o que é a natureza. Quando soube, certa vez, lá pelos idos de 1988, que o segundo disco do Garotos Podres se chamava “Pior Que Antes”, conclui que a própria banda fazia um severo e bem humorado reconhecimento da sua condição de “não saber tocar direito”. O que nem chegava a ser uma coisa ruim para quatro punks que tinham muito mais mensagem e atitude do que habilidade musical para formar uma banda disposta a contar, via punk rock, a dura realidade do trabalhador brasileiro. Falo do assalariado de verdade, não o classemediano, se é que vocês me entendem. Falo de macacão, não de terno e gravata.

Acontece que, tempos depois, num show de lançamento do tal disco no Circo Voador, o inquieto Mau, vocalista do grupo, vestindo um sujo macacão e com o rosto suado, anunciou aos brados o título do vinil com o argumento de que “ele se chama pior que antes porque tudo está pior que antes”. Achei interessante a abrangência da explicação, ainda mais se comparada àquela que eu, de início, havia capturado. Tanto que guardei a passagem na memória, até que a história aflora, vejam vocês, cerca de 20 anos depois, para me fazer desenrolar outros quinhentos.

Estive ontem à noite no Teatro Odisséia, e fui, aos 45 do segundo tempo, escalado para ser um dos 19 jurados na final de uma seletiva de bandas que definiria um abastado para se apresentar no Festival Mada, em Natal, em setembro. Sempre achei esse tipo de evento algo meio bobo, já que o vencedor, se ganha o direito de tocar no Festival, tem que arcar com os custos de passagens e outras logísticas, sem falar que não recebe cachê. Mas as bandas adoram, montam torcidas, carregam amigos e se consideram honradas em participar. As que vencem, parecem que conquistaram o Festival da Canção de1968 ou um dos festivais da Globo nos anos 80.

Sempre encarei minha participação nesse tipo de função – a de jurado – com a responsabilidade de enviar, para Natal, uma banda que representasse bem o que acontece aqui no Rio, de modo que o natalense comum visse o show dessa banda sem causar vergonha a quem mora aqui embaixo. Aconteceu assim em outras edições do Mada em que essas seletivas existiram aqui no Rio. Me lembro com orgulho, por exemplo, de ver sair vencedor grupos como o Cabaret e o Manacá, para ficar com dois exemplos clássicos de joio separado do trigo, que me vêm à cabeça agora. Mais orgulho ainda por saber que, em geral, salvo raras exceções, as bandas que participam dessas seletivas são muito ruins, daí ser uma grande sorte quando aquelas boas acabam classificadas, em meio a jurados de origens distintas.

Pois o que já era ruim nesse ano ficou ainda pior. Pior que antes. Admito que sempre tive um certo rigor ao dar lá minhas notas, mas dessa vez o bicho pegou mesmo. Não sei se estamos, no Rio, vivendo uma entressafra de bandas legais, como acreditam alguns, ou se o evento em si, afeito a mazelas, é que só está atraindo a “reculhamba” mesmo, como diz o anedotário popular. As bandas que ontem estiveram no Odisséia começam a ser ruins já pelo nome. Não, não gosto de fazer esse tipo de comentário, porque, sabemos todos, nome é algo relativo e com o qual, dependendo da exposição, a gente acaba se acostumando e – até – achando lindo. E é só por isso que hoje temos aí Paralamas do Sucesso e Kid Abelha, só para ficarmos com dois. Ainda assim, insisto. Como pode uma banda se chamar Eiza? E Tapete Red? NV, se bobear, é a abreviação de “nada a ver”, e Contra-capa é mais óbvio que João da Silva. Crombie e Tuttu Madre podem até ser interessantes, mas, caro leitor, sejamos francos, você colocaria um desses nomes numa banda que você gostaria de gostar? Pois foram estes os que apareceram para mim anotados numa caligrafia ginasiana na cédula de votação.

A coisa estava tão ruim, tão equilibrada, tão nivelada por baixo, que, devo dizer, as duas melhores só eram melhores porque tinham mais intimidade com o palco. A NV, que saiu vencedora, é acintosamente uma banda cover que, de vez em quando, faz uma música própria só para o público dar uma descansada e beber um chope. Mas, como cover, tem uma notória rodagem que, de cara, desbancou as demais, todas mais cruas que refeição de japonês. O Eiza também mostra ter boa rodagem, mas carece de (ainda) mais entrosamento e de um vocalista que cante na hora certa, se é que vocês me entendem. O Contra-capa joga pedra na Geni há uns três anos, mas não consegue adquirir a tal rodagem. Dá a impressão que só tocam, ano após ano, nesses eventos siameses que só mudam o nome – Seletivas para o Mada, Festival Laboratório Pop, B de Banda e afins. E o tal Tuttu Madre não passa de uma clássica “banda cover com músicas próprias”. Nem o Coldplay se parece tanto com o Coldplay. Dureza, meus amigos, dureza.

Não quero aqui fazer a apologia do Garotos Podres, nem fazer dessa amostra do rock feito no Rio uma terra arrasada. Tanto que, no esforço de tentar achar uma relação de uma coisa com a outra, até que há uma simbólica esperança. Sim, porque o Garotos Podres acabou entrando nessa graças ao fato de eu ter baixado o tal disco, “Pior Que Antes”, até agora inédito em CD oficial, há poucos dias. E, se você olhar bem - forçando a barra, tá legal – as carecas do NV até que se parecem com as do GP. Nada a Ver? Vai saber...

Até a próxima e long live rock’n’roll!!!

em julho 21, 2008 06:16 PM [Jan Otero]

Olá,
Sou vocalista da banda Tuttu Madre, e achei que as suas críticas foram péssimas... Dizer que nós somos uma clássica banda de cover é realmente desconhecer por completo a nossa trajetória, talvez fosse mais interessante que você, como jurado, tivesse o minimo de interesse pela historia da banda.

Fiquei buscando no seu texto alguma critica que fosse consistente musicalmente, mas infelizmente nao encontrei. Denegrir a imagem de uma banda como você fez é muito fácil. Quero ver você elaborar uma crítica construtiva, o que aliás, seria o seu dever.

Passar bem,
Jan Otero



em julho 22, 2008 12:38 AM [Carol lancelloti]

Olá! Sou Carol e estava na noite do Teatro Odisséia. Meu comentário, seguindo o do Jan, pode parecer uma combinação de "revolta coletiva", mas simplesmente peguei o texto aberto no PC do meu namorado (guitarrista do Tuttu Madre) e li. E decidi comentar. Concordo com algumas coisas que você observou. Eu entendo essa vontade louca de expressar o que mais incomoda a gente, muito mais do que nos agradou. Mas também concordo com o Jan que a crítica construtiva não pode ser esquecida. Discordo que o Tuttu Madre seja uma banda clássica de covers e ainda tento entender o que há de errado o "Coldplay se parecer tanto com o Coldplay". Acho que, se for bom, música boa, tá valendo se parecer tanto consigo mesmo ao ponto de formar um estilo próprio que transcende "estilos músicais". Não digo que o Tuttu Madre já chegou a esse ponto, mas acho que falta pouco e acho que a banda era a única realmente boa da noite. Digo isso não como amiga/namorada, mas sim como amante da música e através de algum conhecimento que tenho pela educação que meu pai - que trabalhou anos na indústria - me deu. Eu aprendi a analisar tudo, mesmo com vínculos sentimentais e, lendo sua crítica, só posso dizer que gosto não se discute.



em julho 24, 2008 06:52 PM [Lilian Spektor]

Eles queriam batizar a banda de Na Veia. Como esse domínio já existia, e sendo mais direto, ficou NV.
E você tem razão, em 2003 o quarteto se uniu e começou a fazer apresentações cover por todo o estado do RJ. Aos poucos, a banda foi inserindo no repertório músicas autorais. Com a boa receptividade do público, em 2007 lançaram um CD independente com dez composições próprias - o CD que você recebeu.
Beijo!



em julho 29, 2008 08:15 PM [Pedrinho]

Se já não for muito tarde, sou o baixista do Tuttu Madre e gostaria de agradecer os elogios.
Ficamos muito felizes quando as pessoas reconhecem o nosso trabalho!
Comparar a gente com Coldplay, pau a pau, é pra gente algo de muito valor!
Você tem banda? Ela se parece com qual?
Nosso CD está a venda! Se gostar de Coldplay, é só pedir!

Abraços!



ESCREVA UM COMENTÁRIO

Nome
Email
Site
Salvar informações pessoais?
Sim       Não
Comentário (you may use HTML tags for style)















desenvolvido por
Gabriel Lupi / zupa.net

ilustrações por
Flávio Flock


© 2005 - 2006 - Rock em Geral: gardenal.org/rockemgeral
Os textos publicados em Rock é Rock Mesmo podem ser reproduzidos total ou parcialmente, desde que sejam citados fonte, autoria e endreço do site. O sistema de comentários disponibilizado aos leitores do Rock em Geral é exclusivamente para a publicação de opiniões e comentários relacionados ao conteúdo deste site. Todo e qualquer texto publicado na internet através deste sistema, assim como os links oferecidos, não refletem, necessariamente, a opinião de seu autor. Os comentários publicados através deste sistema são de exclusiva e integral responsabilidade e autoria dos leitores que dele fizerem uso, e podem ser excluídos, a critério do autor do site.