
Lembrava eu, lá pelas tantas, que este mesmo Cólera, lá nos anos 80, lotava o Circo Voador, em geral junto com a parceira Plebe Rude, em noites memoráveis. Digo isso em tom de lamentação porque essa dobradinha Cólera + Plebe Rude e Circo Voador já não existe mais. Primeiro porque o Circo já há temos deixa de abrir espaço para bandas novas e para o próprio público de rock, ao cobrar preços incompatíveis com esse mercado. Depois, porque – e até por conseqüência disso, não existem bandas legais que encham minimamente a cara (caríssima) estrutura do Circo Voador versão anos 00. Então ver aquela euforia numa madrugada de quarta para quinta, no Circo, parecia mesmo um sonho.
Mas não era, não. Tratava-se do aniversário de dez anos de uma gravadora que açambarcou muito do que aparece de bom no rock nacional nos últimos tempos. É verdade que isso só aconteceu porque o filho do dono gosta de rock e fez disso o mote para se transformar num dos melhores produtores do segmento no Brasil. Não que ele rasgue dinheiro e leve a firma do pai à falência, mas o convence de investir nessa ou naquela banda, e a coisa pode até dar certo. Caso, por exemplo, do Matanza e seu inacreditável sucesso. Como pode uma banda tão pesada, com letras tão duras (para dizer o mínimo) e um som tão indigesto fazer sucesso? Não tenho os números, mas o Matanza já deu certo, e ainda deve render bem aos cofres da empresa. Foi a banda quem abriu a noite, botando um Circo lotado para pogar em contagiantes rodas.
O grande feito do convencimento rock do filho do dono, no entanto, só tocou no dia seguinte. Pitty é hoje uma artista nacional, consagrada, e não só dentro do segmento rock. Uma garota que tinha uma banda de hardcore tosca (isso é um elogio) e uma fitinha com algumas músicas com voz e violão e que este filho do dono, com o capital e os conhecimentos do pai, transformou em estrela nacional. Quinta o Circo não estava tão cheio assim, mas havia gente à rodo. Como o Circo Voador, até pela sua tradição e vocação para a vanguarda sempre deveria ser. Nem precisou da prometida participação de Marcelo D2 para a noite encerrar, também na alta madrugada, com a Nação Zumbi mostrando s músicas de seu álbum mais recente.
Na quarta, antes, um bebaço João Gordo pagou um mico, aparentemente, involuntário. Segundo consta, o chamaram (junto com o batera Boka) para cantar umas músicas do Ratos de Porão com o Mukeka di Rato tocando. Como Celebridade, Gordo chegou ao Circo e foi direto aos camarins tomar todas. Só que a tal gravadora havia anunciado, em todo o material de divulgação, um show do Ratos de Porão. Pois lá estavam os fãs a gritar “Ratos! Ratos! Ratos!”, pedindo esta ou aquela música, e o Gordo, trôpego, arrastando a fala no canto da boca, pensando que era a vez de “Crucificados pelo Sistema” a cada intervalo, até perceber a furada em que tinha se metido e pedir o boné – que, aliás, um fã lhe roubou e quase foi linchado no meio do público. Quem pagou para ver o Ratos deveria é exigir o dinheiro de volta, isso sim.
A dobradinha capixaba Mukeka e Dead Fish (não é que os nomes das bandas se completam?) de seu lado, não fez feio. O segundo, principalmente, tem muito público e manteve o pique do Matanza sem muita dificuldade. Quanto ao Matanza, soube de fonte segura, no próprio vai-e-vem do show, que Donida, guitarrista, letrista, principal compositor e desenhista, deixou o grupo. No que eu retruquei: então a banda acabou. Não que tenha algo contra Alex Kaffer, que tocou nesse show. Mas, vejam bem, eu disse que Donida é guitarrista, letrista, principal compositor e desenhista. Se um cara desses sai de uma banda, a banda já era. Apurando os fatos, a gravadora negou sua saída, e um post no site oficial, assinado pelo próprio Donida, diz que Alex é um substituto eventual, e que ele continua. Que assim seja.
Faltou falar que o Cachorro Grande também tocou, e ratificou a pecha de ser uma das melhores bandas sobre um palco de que se tem notícia. O show curto não impediu o grupo gaúcho de fazer uma performance alucinada, com encerramentos (sim, mais de um) dignos de grandes arenas, e que continuam a eternizar o Circo Voador. Uma outra bola dentro do filho do dono, que, somadas às atrações desses dois dias, resultou numa das melhores lembranças de como era bom o Circo Voador e as bandas de rock que tocavam nele, e como isso pode continuar acontecendo. Não é tão difícil, não, podem crer. Nem a presença do Strike no elenco me rouba essa certeza.
Até a próxima e long live rock’n’roll!!!