
Para entender o The Feitos é preciso voltar um pouco no tempo e lançar um olhar no Little Quail, banda do início os anos 1990 liderada por Gabriel Thomaz (hoje no Autoramas) que misturava rock dos anos 50 e 60, bom humor e jovem guarda – de onde vem a referência à Roberto Carlos, presente já no título da principal música do The Feitos. Sem Little Quail não seria possível o The Feitos, que re-atualiza o rock pra cima e divertido neste disco de estréia, adicionando uma generosa dose de esporro suja e deliberada. Mais do que nos shows, as músicas têm uma distorção quase descabida, fortalecida pelos vocais toscamente desafinados de Ramon Ribeiro e por uma equalização feita quase nas coxas, se não fosse proposital. Tudo contribui, no entanto, para a estética divertida – sem ser engraçadinho – sobre aquele mesmo rock’n’roll à jovem guarda do pioneiro Little Quail. Achados como “Eu Perdi o Amor Pelos Meus Dentes” e “Gente Feiosa”, com um reforço de teremin do baterista Andrei Duarte, realçam o que o trio tem de melhor.
Casos de amor adolescentes são o principal assunto das letras, todas de autoria do vocalista/guitarrista Ramon. Por mais sofridos, os temas têm sempre certa dose de cinismo que desafiam o ouvinte a ficar incólume a tal ponto de vista. Ë o caso, por exemplo, do drama vivido pelo protagonista paranóico com a fidelidade da parceira em “Mulher Infiel”, ou de “Eu Perdi o amor Pelos Meus Dentes”, onde, ao contrário, o jovem apanha feliz do namorado de uma pretendente. Há espaço para deboches com o hard rock, na impagável “Eu Quero Ser Poser”, e autozombaria, caso de “Gente Feiosa” e “Feios Mas Felizes”, que até pode sintetizar “Na Cabeça da Chorona”: feio, sim, mas feliz e muito legal.