
Começo com este texto descritivo para, como de hábito, desdizer aquilo que eu disse antes. Se na semana passada enalteci a emoção das disputas do Tricolor na Taça Libertadores e da engrenada que o Brasileirão começou a dar, em detrimento dos jogos da Eurocopa, volto atrás hoje para mostrar encantamento com o futebol que a Holanda tem jogado. E não me refiro apenas ao jogo de hoje, onde a equipe de Marco Van Basten jogou repleta de reservas, e mesmo assim teve o controle do jogo o tempo todo. Falo das excepcionais goleadas impostas à França e à Itália, respectivamente por 4 a 1 e 3 a zero. Hoje, o controle do jogo era tanto por parte da Holanda, que em um determinado momento da partida a (boa) equipe romena precisava, perdendo por um a zero, virar o jogo para se classificar e sequer conseguia chutar ao gol adversário.
Na última sexta, a França também não jogou mal. Famosos pela técnica e pelo toque de bola, os jogadores franceses sucumbiram aos holandeses através de jogadas espetaculares, como a do segundo gol, por exemplo, quando o atacante Van Nistelrooy iniciou um contra-ataque na extrema esquerda com um lance de craque, aquele mesmo usado por Dodô contra o Boca Juniores, no Maracanã. No último, já nos acréscimos, Sneijder meteu um balaço na gaveta do arqueiro francês, que nada pode fazer. Num outro tento, feito por Robben, que acabara de entrar no jogo (um legítimo ponta no banco!), fez o impossível ao descolar um disparo com um ângulo exíguo. Até agora o videotape não conseguiu mostrar por onde a bola passou – só que foi um golaço.
O futebol praticado pela Holanda nesta Eurocopa é contagiante, assim como são os jogadores e torcedores, com suas camisas laranjas. Garantida a classificação, e em primeiro lugar, eis que os atletas holandeses partiram para a beira do gramado, onde, na primeira fila, tomaram seus filhos das esposas, e os levaram para cumprimentar a torcida. Uma cena linda que poderia passar desapercebida, mas que assim que eu soube de boatos de que a equipe holandesa ira jogar com reservas e entregar o jogo para a Romênia, a fim de eliminar simultaneamente França e Itália, foi dela que eu me lembrei. Homens assim não entregam jogo. Se vai vencer a Eurocopa, isso, sinceramente, não tem a menor importância. Já me satisfiz com o que vi.
Mas não é só de Holanda que vive a Eurocopa. Excetuando-se os anfitriões descadeirados e outros pernas de pau, há que se dar valor ao futebol jogado pela Espanha, que vem ganhando irresistivelmente os adversários. Contra a (boa) seleção russa, deu show, e teve que usar da sorte para passar apertado sobre a (melhor ainda) Suécia. Não me encantam as seleções de Alemanha e Portugal, e acho interessante que elas se encontrem nas quartas de final, assim uma pula logo fora. Para mim, dança Portugal, de menos tradição. Me atrai menos ainda o futebol croata, que deu sorte e deve passar (duramente) pela Turquia que surpreendeu numa virada sensacional sobre os tchecos – melhores, mas que têm o vocação para a derrota. Vocação, aliás, compartilhada por Espanha e Holanda, que nessa Euro jogam o futebol mais encantador. No que eu aponto, considerando as chaves que se formam até aqui, a pragmática Alemanha a sobrevivente Itália na final.
Se a Eurocopa mostrou boas partidas, o Brasileirão não fica atrás. O São Paulo golear o fraco Atlético Mineiro no Morumbi é até normal, mas repetir a dose em cima do líder Flamengo, em pleno Maracanã, num clássico 4 a 2, foi demais. Na quinta, o Palmeiras despachou outro líder, o Cruzeiro, com um inapelável 5 a 2, e o mesmo Atlético, que apanhara feio do São Paulo, aproveitou a partida doméstica para desancar o fraco Ipatinga. Sem falar no Grêmio, de goleou o Goiás como um visitante mal-educado. Engrenou ou não engrenou?
Só a nossa seleção não empolga, e, óbvio, o problema se resume num só nome: Dunga. Porque, explica-se, só pode ter partido dele a determinação de o Brasil iniciar uma partida recuada contra um Paraguai super ofensivo; o Brasil com três volantes e o Paraguai com três atacantes. Aquele que, afastado do planeta por um certo tempo (pequeno, uns dois anos, digamos) acreditaria que as equipes estavam com os uniformes trocados: o Brasil era o Paraguai e o Paraguai é que era o Brasil.
Dunga é o culpado porque convoca mal, escala mal e orienta errado. Mais: não é técnico e não sabe aproveitar talentos como o de Kaká e dos coadjuvantes Robinho e Ronaldinho Gaúcho. Futebol brasileiro, para o Dunga, não é o futebol brasileiro que nós, brasileiros, gostamos de ver. O de Dunga, é o de 1994. Ou, por outra, nem isso. O que gostamos de ver é o que ganha sem deixar dúvidas. Ou até o que eventualmente perde (é um jogo, ora bolas), mas joga sem medo de perder. Eis o pior dos defeitos do futebol de Dunga no último domingo: o medo de perder.
Dizem as línguas ocultas que Dunga só fica no comando da seleção até as Olimpíadas, e que um técnico de verdade já estaria apalavradamente contratado para o lugar dele. Assim, resolveria-se dois problemas de uma vez: nos livraríamos do Dunga e o novo treinador não se preocuparia com os Jogos Olímpicos, coisa para a qual a CBF (infelizmente) não está nem aí. Por via das dúvidas, melhor o Brasil perder logo para a Argentina amanhã, que aí Dunga fica por um fio. Um fiapo, por melhor dizer.
Até a próxima que time medroso não ganha a Copa do Brasil!!!