
Existem vários motivos para o fenômeno, e que não passam necessariamente pelo desinteresse pelo Campeonato Brasileiro, muito menos, repito, por esse início assim, assim. Acontece que passamos todos – a mídia principalmente – o ano inteiro falando em ser campeão, por uma “luta por pela Libertadores”, por uma “vaga na Sul-americana” e por uma “fuga do rebaixamento”. Como ser campeão é objetivo alcançado apenas por uma equipe, rebaixamento é coisa de derrotado e Copa Sul-americana, ao menos por enquanto, soa mais como prêmio de consolação, é a Libertadores a grande vedete. Quem passa o ano todo falando em conseguir ir para a Libertadores, quando está nela não pode ter outra prioridade mesmo.
Por isso o técnico Renato Gaúcho não tem outra saída que não seja jogar todas as fichas na semifinal de amanhã e colocar os reservas para disputar, por hora, o Brasileirão – o Boca fez o mesmo no Campeonato Argentino. É bem verdade que o Fluminense poderia ter um time de reservas melhor do que este que conquistou apenas um ponto em 12 disputados, mas isso, agora, não vem ao caso, é conversa para o planejamento da próxima Libertadores que o clube disputar – e pejo jeito outras virão. O próprio Renato, domingo, após a derrota para o Flamengo, resumiu o Campeonato Brasileiro à tal vaga na Libertadores, praticamente ignorando o título. Ele, a equipe, o clube, a torcida, todo mundo só quer saber da Libertadores. Ao menos por enquanto.
Outro fator que reforça a Libertadores mania é a inevitável comparação, ainda que desigual, com a Copa dos Campeões da Europa. O aumento das transmissões via internet e TV de jogos internacionais, e não só em canais à cabo, trouxe para dentro da casa do torcedor equipes que ele só conhecia de nome e jogadores só vistos a cada quatro anos, em Copas do Mundo. Se antes só se ouvia falar de Milan, Manchester, Barcelona, PSV, Bayer e afins, na hora em que nossos craques eram transferidos para o exterior, agora torcedores – sobretudo os mais jovens – sabem de cor e salteado a escalação desses times e chegam a, literalmente, torcer por eles.
Pois a Copa Libertadores (com esse belo nome) passou de algo sujo e truculento a versão das Américas para a Copa dos Campeões da Europa. É, já, na prática, espécie de Copa dos Campeões da América. Disse ali em cima que a comparação é desigual porque ainda somos muito pouco organizados e nossas equipes, por causa disso mesmo, em geral não têm tantas estrelas como as de lá do outro lado Atlântico. Muito embora volta e meia saia daqui o campeão mundial. Assim como lá, o formato Copa traz de volta a emoção perdida na reverenciada justiça e correção dos pontos corridos, além de carregar uma bandeira de dominação extramuros das mais instigantes para o torcedor, que vê sua equipe como a desbravadora e conquistadora do continente, e, depois, do mundo. Tudo fantasioso, mas que motiva, e muito, o torcedor de um clube de futebol.
Por último a motivação que deveria ser enumerada um primeiro lugar, que é a remuneração recebida pelos clubes que disputam a Libertadores a cada fase ultrapassada. Não tenho aqui os valores exatos, mas, segundo consta, são bastante fartos. E isso sem falar da arrecadação dos jogos, que deve estar ajudando a um clube como o Fluminense, que seguramente não jogava com o Maracanã lotado, numa quarta à noite, há muitos anos; até aqui já está fazendo isso, ao menos, em duas oportunidades, contra São Paulo e amanhã, contra o Boca. Espaço generoso na mídia, marketing, venda de camisas e afins, e tudo o mais que decorre disso completam as causas da Libertadores mania.
Usei a palavra truculência ali atrás para falar de como era a Libertadores em outros tempos, mas devia tê-la guardado para adjetivar o que fez a polícia do Recife no jogo Botafogo e Náutico, no domingo. Apesar de a imprensa ter se cercado de cuidados para não transformar tudo em uma questão bairrista/xenófoba, o fato é que é a polícia de Recife que atua assim, e deve ser punida, assim como o árbitro, por omissão, e o Náutico, que tem o mando de campo e recebe seus visitantes dessa maneira. Nota-se que não é a primeira vez que isso acontece. O técnico Lori Sandri já saiu e campo algemado e o Palmeiras, recentemente, pela Copa do Brasil, foi vítima dos mesmos tratos. E não adianta dizer que o Náutico é inocente, porque o estádio de porta de vestiário fechada é dele, e a polícia foi chamada por ele. Se o Campeonato Brasileiro é organizado pela CBF (uma entidade privada); se a Confederação Pernambucana é uma entidade privada; se o Náutico é um clube privado, ele que, ao invés da polícia, contrate segurança privada para trabalhar nos jogos em que tem o mando de campo. Não o faz porque concorda com as práticas da polícia de Pernambuco.
O Náutico é culpado, sim, e deve perder mando de capo, ser multado e, até, ser punido com rebaixamento, por não se comportar como clube de Primeira Divisão – o que, de fato, não é. E a prova da culpa é que, diante das imagens vistas por todo o Brasil, da condenação dos profissionais da mídia e do público em geral, todos lá acham que estão certos. Da tenente que tratou um atleta como bandido, passando pelo gênio que decidiu tirar o mesmo atleta do estádio pelo meio da torcida adversária e pelo clube que tranca portas, até chegar às autoridades da polícia pernambucana, eles acham, acreditem, que estão certos – e eis o grande problema. Hora de punição exemplar, sim senhor.
Até a próxima que o Edmundo é um animal!!!