
Aquele que conheceu o U2 somente nos últimos tempos, ou o fã das antigas certamente não reconhece os integrantes da banda entrando no local onde o show aconteceu, passando pelo meio do público como se fossem lutadores de vale-tudo. As roupas escandalosas (o que é o tímido Adam Clayton vestido todo de laranja, como se fosse um gari da Comlurb?), os gorros, máscaras e capuz usados revelam uma aparência caricata e inacreditável – como é possível o U2 ter caído nessa armadilha marqueteira? O fato é que caiu, e o exagero configurado nos shows da turnê anterior, que tinha como vedete a ZooTV, com fãs entrando ao vivo no meio do espetáculo em telões gigantescos, se estendeu a um insuportável limite kitsch evidenciado nesse vídeo.
Não por acaso o texto que apresenta o vídeo se prende em detalhes como o tamanho do telão (51 x 17 metros), do coquetel, com 30 de altura, e do afamado limão/disco voador de 15, que carrega o quarteto para o bis. Era realmente impossível perceber detalhes musicais num espetáculo essencialmente visual e – para usar um termo contemporâneo – midiático. Quase passa desapercebida a versão com voz e violão para “Sunday Bloody Sunday”, cuja marca registrada é justamente a marcação marcial da bateria. Ou então o corte em “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, a música feita para ser a da vida de todo mundo. Ou mesmo as infelizes citações à cultura texmex, feitas por Bono só porque o show foi no México. Na “Popmart” era assim. Via-se muito, pouco se escutava e nada se pensava.
O show não é, entretanto, de todo ruim. É o U2, ora bolas, e o que não passa batido é o carisma de Bono, que arrebata o público – mais que o de hábito – em “One”, na inacreditável “I Will Follow”, a terceira do repertório, em “Pride (In The Name Of Love)” e até na surpreendente “Please”. Adam, Larry tocam o de sempre, e reafirmam que a batida mágica do U2, assim como no álbum que desencadeou a turnê, está lá, atrás de toda aquela desnecessária parafernália. Sem extras de qualquer espécie, o DVD registra certinho um período destacado na história do U2. Só vendo mesmo para acreditar que aconteceu.