Bola e Bola Mesmo
27 de maio de 2008
O triunfo da técnica e a síndrome de Narciso
O jogo emocionante da última quarta levou o Fluminense ao êxtase da semifinal da Libertadores; para o arrogante São Paulo a partida ainda não acabou.

Parece que o jogo da última quarta ainda não acabou. Ao menos para o São Paulo, cuja torcida, técnico, dirigentes e afins, acreditam que o time do Morumbi perdeu para o Fluminense, naquele belíssimo espetáculo no Maracanã. Pois eu retruco: foi o Fluminense quem venceu. Poderia ter empatado, vencido sem se classificar, mas venceu por diferença de dois gols e se classificou para as semifinais. Poderia ter dado o São Paulo, mas deu o único legítimo tricolor de que se tem notícia. Os outros, prova-se, são clubes de três cores.

Disse que o Fluminense poderia, na pior das hipóteses, empatar, como de fato aconteceu durante um minuto, quando, por cerca de 10, 12, o São Paulo dominou, com sobras, a partida. Jogando como jogou na última quarta, com uma fome de bola e de vitória impressionante, o Fluminense jamais perderia aquele jogo. Tanto que ficou, justamente, a maior parte do tempo vencendo por um gol de diferença – doa 12 do primeiro tempo aos 25 do segundo, e daí até o fatídico gol de cabeça de Washington, aos 46, já nos acréscimos. A equipe de Renato Gaúcho, entretanto, não foi superior o tempo todo, e poderia, apesar de toda a vontade, e de ter jogado melhor, ter saído do Maraca eliminada, porque o São Paulo, apesar de um início atordoado, também foi bem. Sim, meus amigos, foi um jogaço.

Pelo menos metade da torcida tricolor já estava a se conformar com a vitória por dois a um, dado o desempenho do time, apesar da eliminação latente, até que Washington fizesse o gol derradeiro ao apagar das luzes. Mesmo porque, naquele momento, o Fluminense imprensava o São Paulo com chutes de fora da área, escanteios em seqüência e defesas salvadoras (por vezes atabalhoadas) do ídolo Rogério Ceni. Entre esses lances, uma escapada do São Paulo resultou num ataque certeiro de Aloísio (que entrara para bagunçar a defesa do Flu, a melhor da competição) que obrigou o irregular Fernando Henrique a fazer das suas – o que vem se tornando hábito nessa Libertadores.

Mas coube ao escanteio de Tiago Neves e à cabeçada de Washington o mérito de dar números finais ao jogo e colocar a equipe das Laranjeiras frente a frente com o Boca Juniores. Um golpe de sorte que seria impossível não fosse a qualidade técnica de Júnior César, Cícero e Washington (no primeiro tento), de Conca, Tiago Neves e Dodô (no segundo) e de – repito – Tiago Neves e Washington (no terceiro). Prova inequívoca e definitiva de que venceu o melhor.

Acontece que, com ares de arrogância, o São Paulo acha que sofreu uma derrota vexatória, que foi humilhado e que tem que carregar um trauma daqueles. Dirigentes e setores da crônica esportiva de além Dutra querem, numa bandeja, a cabeça do técnico Muricy Ramalho. Diagnostica-se, assim, uma espécie de síndrome de Narciso. Para o São Paulo, só ele é bom, só ele pode vencer. Ora, meus amigos, perder para um time grande e forte como o Fluminense está longe de ser uma vergonha. Num clássico desse nível, poderia dar um ou outro, como demonstrou a própria partida, talvez a melhor do ano até aqui - seguramente a mais bem disputada. É evidente que o São Paulo, por ter colecionado títulos de primeira linha nos últimos anos (dois Brasileiros, uma Libertadores e um Mundial) tira onda de bam bam bam. Nem parece aquele time que, ao ser eliminado no Campeonato Brasileiro de 2002, na fase de mata-mata, depois de ter sido o primeiro na primeira fase, ficou chorando pelos cantos e com fama de amarelão. Porque futebol, sabe-se, é feito de altos e baixos.

Não, São Paulo, perder para o Fluminense nas quartas de final de uma Libertadores não é o fim do mundo, não. Problema é, aí, sim, contratar mal e não conseguir ter um bom time há mais de dois anos. Como tenho dito aqui repetidas vezes, a equipe do Morumbi tem se garantido por ter uma boa estrutura extracampo e por ter seguramente o melhor treinador em atividade no Brasil. Time bom mesmo, neca de pitibiriba. Não à toa, o time do São Paulo só fez duas boas atuações esse ano, justamente as partidas contra o Flu. Pensem nisso, são-paulinos. E toquem o barco normalmente.

Se o Boca é o bicho papão, é melhor para o Fluminense que encará-lo logo. Se tem vencido todos os brasileiros nos últimos tempos, já está na hora de perder a primeira, porque não vai vencer sempre pra sempre. Deixando estatísticas, temores e tradições de lado, a equipe tricolor nada fica a dever à portenha. É, sem exagero, até melhor. Isso sem falar em Riquelme (o craque que não sorri), que esse é jogador fora de série e difícil de encontrar em qualquer lugar do mundo. Mas no geral o Flu é melhor, mesmo sem ter um timaço, coisa que o Boca também não é. A decisão de Renato de colocar Arouca na cola de Riquelme é das mais acertadas, poucos meias marcam tão bem como a revelação tricolor, e, dependendo de onde ele conseguir roubar a bola do craque argentino, pode até iniciar uma arrancada para o gol adversário.

A poderosa defesa tricolor deve se cuidar também. O botinudo Palermo gosta de fazer das suas, e Palacio é tão habilidoso quanto o Conca. As arrancadas dos laterais pode surpreender as subidas dos tricolores, sobretudo a de Júnior César, que tem sido fatal. Se Ygor não joga, a entrada de Roger pode revestir a disputa de raça, como é necessário – dizem – numa Libertadores. Jogo, enfim, aberto. Mas no muro eu não fico. O Flu arranca um empate amanhã (se o Atlas conseguiu...) e vence no Rio, nem que seja nos pênaltis.

Até a próxima que o ataque do Internacional é show de bola!!!

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