
A virtuose e (ao mesmo tempo) o descompromisso fazem do repertório do disco algo talhado para a jam session, a improvisação. “Time To Go”, uma das que Mayall compôs, é blues típico, clássico e realçado pelo emprego de sopros que liberam Buddy Whittington para viajar à vontade, como se estivesse sobre o palco, levando a música a quase sete minutos de duração. E quando não é guitarra (quase sempre é) aparece a harmônica, teclado, ou mesmo a calejada e em forma voz de Mayall, que, honra seja feita, sempre casou certinho com o “jeito blues” de se cantar. Em “Big Legged Woman”, conhecida na interpretação de Jerry Lee Lewis, voz e guitarra se sobrepõem num interessante dueto.
Outra característica desse disco é a simplicidade com que John Mayall trabalhou os arranjos das músicas, optando por não lhes roubar a crueza dos registros originais. Assim acontece com “I Love You More Every Day”, que, mesmo atualizada, parece ter saído de uma daquelas gravações “roots” de CDs distribuído gratuitamente em revista de variedades. Já “Help Through The Day”, de Leon Russel, quem aparece é Robben Ford, tomando conta da guitarra-solo e anunciando a delícia que é a instrumental “Cannonball Shuffle”, outra que, ao vivo, deve desaguar num improviso dos bons.
“King Of The Kings” é a canção-tributo, escrita por John Mayall para Freddie King, em música e letra. “Ele foi o rei dos reis / Nasceu para ser um superstar / Quando o blues britânico explodiu / esse homem foi o herói do dia”, diz uma passagem, que ainda cita Eric Clapton, All Green e Mick Taylor. O detalhe é que a música é quase um rock’n’roll à anos 50, com sopros, tecladinho e baixo acústico da época, o que a faz soar bem diferenciada entre as 14 faixas, apesar do sotaque blues inalienável de John Mayall. Longe dos clichês dos discos-tributo, John Mayall conseguiu realizar um trabalho instigante que certamente deixaria Freddie King orgulhoso de seu pupilo.