Bola e Bola Mesmo
15 de abril de 2008
Pior que o comentarista de resultado é a apologia do fracasso
Crônica esportiva prefere exaltar espírito de luta de equipe derrotada a aplaudir o desempenho do meritório vencedor.

Os que volta e meia perdem o precioso tempo lendo essas linhas virtuais já devem ter percebido que dificilmente passo uma semana sem anotar, ao menos, um único senão quanto a atuação da crônica esportiva. Incomoda-me – e muito – ver opiniões, procedimentos e encaminhamentos, dentro das resenhas esportivas de rádio, TV e até on line, que desobedeçam aos fatos. E, por um motivo ou por outro, este fim de semana que viu Botafogo e Fluminense se encaminharem para o título da Taça Rio, foi isso o que mais aconteceu: o desrespeito aos fatos.

Vejam vocês que, após o jogo de sábado, no qual o Fluminense derrotou o Vasco da Gama na disputa de pênaltis, era o time da colina, isso mesmo, o Vasco, o assunto principal da abertura das tais resenhas. Venceu o Fluminense, e, se me permitam, jogou melhor o Fluminense, mas os louros foram todos dados ao Vasco da Gama, que, mesmo inferior tecnicamente, jogou de igual para igual. Era essa a máxima do programa, e isso depois de, ainda dentro do gramado, todos os repórteres que a tal emissora tinha à disposição terem entrevistado o maior número possível de tricolores, os vencedores.

Pois contrariando os fatos, decidiram, numa cruel unanimidade, dar todos os méritos ao derrotado. Ontem eu ainda veria uma matéria transformar o vilão da partida, o jogador do Vasco que solitariamente errou a cobrança do penúltimo pênalti, em herói. Sim, herói da equipe derrotada. Ora, meus amigos, pertence o ser humano, sabemos todos, o gosto pelo triunfo dos mais fracos. Procuramos intensamente reproduções de histórias em que Davi vence Golias para nos apegarmos. Gostamos da vitória do inferior, e talvez venha daí o apreço pelo Vasco, num dia em que a equipe, reconhecidamente a pior entre os quatro grandes do Rio, quase fez frente à equipe tricolor. Digo quase porque os cruz-maltinos saíram derrotados, e, ademais, jogar de igual para igual com outro time grande é obrigação do Vasco.

Os pares preferiram o elogio do fracasso, e eu, confesso, gosto quando um comentarista não faz a apologia do resultado, e vê méritos, também, em quem perdeu. Mas passar pó cima dos fatos, não. Aí já é demais. Não tive a oportunidade de assistir à partida, nem na TV, nem em VT. Mas, escutando pelo rádio, e com a experiência que tenho na modalidade, dá pra resumir o jogo. Grosso modo, o Fluminense começou sufocando. O Vasco agüentou a pressão, e, à medida em que o Flu não marcava, foi equilibrando o jogo. Equilibrado ele voltou para a etapa final. Tanto que o Vasco abriu o marcador e cinco minutos depois o Fluminense empatou. E o jogo foi igual até o final, considerando que, com melhores jogadores e mais alternativas de jogo, o Flu esteve sempre mais perto da vitória. O editor de imagens do SporTV concordou comigo, ao selecionar oito lances do Flu nos melhores momentos, contra apenas quatro do Vasco.

Disse que o time do Fluminense é melhor que o do Vasco, e explico. Aproveito para assinar embaixo do que pensa o técnico Renato Gaúcho, ao afirmar que a equipe está pronta. E está mesmo, porque, no Flu, a quantidade de alternativas que levam ao gol supera o da grande maioria dos times brasileiros. Vejam o que tem o Fluminense: a) Atacantes habilidosos e goleadores; b) Dois meias capazes de realizar jogadas para esses atacantes; c) Avanço dos laterais, sempre com perigo de gol; d) Saída de bola com um volante de bom passe; e) Jogada de bola parada, com batedores que tanto fazem gol direto como preparam para outros; f) Bons cabeceadores que finalizam bem; g) Chute de média/longa distância com ao menos seis jogadores. Total de oito características que podem levar ao gol, quando, em geral, no atual futebol brasileiro, poucos têm, ao menos, metade delas. Cabe ao técnico fazer esse time entrar em campo concentrado e partindo para cima, que isso o tornará praticamente imbatível.

Não queria falar de São Paulo – não dessa vez -, mas fiquei impressionado com o gol de manchete que Adriano marcou contra o Palmeiras. Ou, por outra, com a declaração do árbitro da partida, considerado como o melhor de além Dutra. Questionado sobre o lance – dificílimo – teve a cara de pau de dizer que viu que foi com a mão, mas que, como não considerou intencional, validou o gol, cumprindo, assim, a regra do jogo. Veja a que ponto nós chegamos. Um árbitro, a autoridade máxima de uma partida, admite que vê um gol de mão e o valida. E, ainda por cima, alegando cumprimento da regra. Se sou eu o cabra responsável pela comissão de arbitragem, afastava o tal juiz do futebol o quanto antes.

Houve quem, ao ver as semifinais do paulistão lamentasse a presença de somente dois clubes grandes. No que eu, do lado de cá, acho perfeitamente normal. Primeiro porque São Paulo, sabe-se, é um grande interiorzão. E, depois, sabemos todos, na cidade de São Paulo só existem três times grandes, e um deles, o de maior torcida, acaba de ser remetido, em âmbito nacional, para a segunda divisão. Natural que a favorita Ponte Preta, de Campinas, tenha enfrentado o Guaratinguetá, espécie de São Caetano da vez. E mais normal ainda que o vencedor do duelo entre Palmeiras e o time de vôlei do São Paulo seja, de antemão, declarado campeão paulista de 2008.

Até a próxima que tem relógio voando por aí!!!

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