Rock é Rock Mesmo
17 de abril de 2008
No vai-e-vem de vocalistas e integrantes, permanece o rock
Nightwish, rapadura, Helloween, computadores idiotas, youtube, dance music e muito mais na mente atormentada de um rocker obsessivo.

Meus amigos, a rapadura é doce, mas não é mole, não. Depois de circular entre funks eletrônicos, disco music e pop dançante, e citar nomes do naipe de MC Hammer, Gloria Gaynor e Falco, é preciso voltar, como que necessitando de um antídoto, ao rock. Por isso cheguei em casa colocando logo uma seleção de classic rock na vitrola. E já enfileirei os DVDs de conteúdo semelhante, para a noite. Sem falar no feriado que se aproxima. Tudo passa, meus amigos, tudo passará. Ao menos era o que dizia Renato Russo.

Não faz muito tempo, por exemplo, que falar de bandas de heavy metal com mulheres nos vocais era uma novidade completa. Deu até na Veja. E foi preciso uma banda americana, pouco identificada com o underground metálico mundo afora abrir caminho para que tudo fosse acontecendo. O tudo, até pouco tempo, era o Nightwish, que galgava os postos mais altos da paradas em todo o mundo – não só dentro do metal – com a música e o clipe de “Nemo”. Camadas mais improváveis dos apreciadores de música prestaram atenção na banda, que passou a ser vista – via CD ou DVD – em almoços, jantares e churrascos outrora freqüentados por música de gosto duvidoso, e olha que estou sendo gentil.

Acontece que, sabemos todos, Tarja Turunen (a vocalista do Nightwish) e a banda se separaram, por questões que beiram o patético e já foram sobejamente discutidas, por mim, aqui mesmo, e por todo o mundo da música e do heavy metal. Um de cada lado, banda e cantora, tentam agora, continuar suas carreiras. Lembro-me certa vez, em que uma outra banda perdera seu vocalista – acontece sempre no mundo rock – e um comentário otimista me encantou. Dizia ele: agora ao menos teremos duas novas bandas para gostar, ao invés de uma. A doçura do fã de coração maltratado pelos ídolos se revelou num presságio altamente positivo. E há, realmente, exemplos categóricos. Se não saísse do Deep Purple, jamais David Coverdale montaria o Whitesnake. Fora do Barão Vermelho, Cazuza brilhou ainda mais, e o Barão continua muito bem, obrigado. Idem para Peter Gabriel e o Genesis.

Não parece ser o que está acontecendo – voltando ao assunto – com o Nightwish. O grupo e Tarja Turunen (agora em carreira solo) gravaram discos no ano passado, e seguramente, dado o lastro deixado nos anos anteriores, os dois passarão pelo Brasil em suas respectivas turnês. A julgar pelo disco que cada um gravou, um (o Nightwish) se reafirma como grande força do heavy metal contemporâneo, e outro (Tarja) inicia uma carreira sem saber ao certo o que vai acontecer. Mas o que interessa, nesse mundo do rock, são os shows. Ao receber os links de várias músicas da turnê de aquecimento de Tarja, eu, moderno que sou, galopei para o youtube para checar.

Fiz isso, evidentemente, utilizando o computador de outrem, com conexão, configuração e o escambau bem melhores do que aquilo que eu tenho aqui, incluindo um PC emprestado – é mole? Justifica-se: não consigo encontrar o técnico responsável por manter essas geringonças modernas-informáticas funcionando a ponto de assistir sequer a um clipe no youtube, coisa mais trivial nos nossos tempos do que tomar uma média com pão e manteiga no botequim da esquina.

Pois – voltando ao assunto – cheguei lá e vi vários trechos de shows de Tarja e outros tantos do Nightwish, com a nova vocalista, Anette Olzon. E não precisei mais do que alguns segundos para concluir que a teoria animadora do fã citada lá em cima não se aplicaria à situação em epígrafe. È óbvio e ululante que temos, de um lado, uma bela banda, com boas músicas e bem entrosada, sem uma vocalista; e, de outro, uma soprano excepcional, com uma banda que mais parece um cata-cata de pelada do bairro, e sem músicas no repertório. O leitor que ainda não tenha se aventurado a pensar sobre tal tipo de relação, usando as ferramentas que adotei, pode achar que há, na conclusão, um soberbo exagero. Pois, acreditem, jamais fiz afirmação tão precisa: trata-se de uma banda sem vocalista e de uma vocalista sem banda.

È possível, ainda, que se encontre, na afirmativa, um resquício de mágoa pela separação. Reconheço, então, que entendo as razões que levaram Tuomas Holopainen, o chefão do Nightwish, fazer ingressar em sua banda (no lugar de uma soprano idêntica à Tarja) uma vocalista de tons notadamente identificados com a música pop. O cara resolveu virar a página de verdade, e se assumiu como líder de banda grande, encarou os fatos. Mas o que vi no youtube não me agradou, não. Anette, mais parada do que estátua da Praça da República, não conseguia segurar a onda. Tarja, por sua vez – que, diga-se, nunca teve uma performance avassaladoramente carismática – viu sua banda estática, lhe negando estofo (de palco) para deslanchar seu fraco - diga-se de novo – primeiro disco solo.

Por sorte, e mudando ligeiramente de assunto, revi o Helloween tocando ao vivo mais uma vez, não necessariamente nessa ordem. Sem querer comparar, mas já comparando, como diria o gordinho mais chato da madrugada televisiva, como a coisa é diferente com esses alemães de osso (buco) duro de roer. Poucas bandas sofreram tantas mudanças, algumas até trágicas, e continuam bem. E inclua-se aí a saída do vocalista símbolo do heavy metal melódico. Podem falar o que quiser, que é tudo verdade e deve ser ponderado, mas a banda continua muito bem, obrigado. No que devemos todos agradecer a Michael Weikath, Markus Grosskopf e Andi Deris. Pela ordem, pela ordem.

Como dizia, meus amigos, a rapadura é doce, mas não é mole, não. Reclamei de quem cuida da minha geringonça, mas usando a de outrem, fui decepcionado pelos fatos. Como nutro por eles uma verdadeira e límpida obsessão, não pude deixar de buscar neles – os fatos – o conforto para a alma de um rocker atormentado. No que, apesar dos ossos de ofício, encontrei o Helloween – quem diria – como alívio a perdurar por um fim de semana inteiro, devidamente enferiadado.

Até a próxima e long live rock’n'roll!!!

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