Bola e Bola Mesmo
08 de abril de 2008
Colorido sem brilho
Presidentes de clube e fornecedores de material esportivo estão acabando com um elemento indispensável ao futebol: a tradição.

Quem lê esta coluna já um certo tempo sabe que, para mim, futebol é, entre outras coisas, tradição. Ou, por outra, é, antes dessas outras coisas, tradição. É a tradição que faz um time ter mais torcida que outro, e, por vezes, ganhar mais títulos. Quem a tem seguramente leva vantagem sobre os demais. Por isso fico embasbacado quando vejo a direção de uma equipe como o Corinthians decidir por adotar não uma troca de camisa, mas uma mudança radical nas cores que formam o pavilhão do clube. Ora, não sou historiador para precisar – só conheço a história do meu clube – mas o Corinthians é preto e branco há trezentos anos, e agora aparece um fulano querendo incluir o roxo entre as cores do clube, só com o objetivo de satisfazer fabricante de material esportivo e vender camisa? Fala sério.

Vi, outro dia, que, em defesa do roxeamento do brasão corintiano foi citada a adoção da camisa laranja pelo Fluminense, dita pelo apresentador de um programa esportivo como um grande sucesso de marketing. Não sei se o tal fulano tinha números para chegar a essa conclusão – eu também não os tenho -, mas o caso do tricolor das Laranjeiras há uma diferença fundamental. O conselho do clube não permitiu o uso da camisa laranja em competições, apenas nos treinos. Se o torcedor gostou, e hoje é possível ver, no meio da torcida do Fluminense, pontos alaranjados, ótimo para o clube, que arrecada mais. Mas em campo, o time continua com as três cores que traduzem a tradição. E, olhando para as arquibancadas, estão, predominantemente, o verde, o branco e o grená.

No Flamengo, a coisa também está ruim. Lá na Gávea, por incrível que pareça, o fornecedor de material esportivo está dando trabalho ao pessoal. Li, estarrecido, que a equipe rubro-negra, simplesmente a de maior torcida de que se tem notícia, chegou a usar material reaproveitado, e até – pasmem – costurado, por causa da falta de envio de novas peças por parte do patrocinador. Por isso suspeita-se que o Flamengo aceitou sem problemas aquela camisa horrorosa, a tal “papagaio vintém”, usada no empate com o Madureira, em pleno Maracanã. Era ela ou nada, simplesmente não havia outras peças disponíveis. E olha que estamos falando da Nike, tida como a maior fornecedora de material esportivo do mundo.

Absurdo maior foi que o patrocinador – a Petrobras, maior empresa da América Latina – vu estampada na mesma camiseta um produto que não existe mais, o tal “Cartão Petrobras”. O patrocinador paga, vê sua marca anunciando algo que não existe, numa camisa que não é a do clube, e, enquanto isso, a Nike desanda a anunciar seu novo produto em tudo que é ponto de ônibus pela cidade, utilizando inclusive, além da imagem do clube dos jogadores. Pode? Evidentemente existe contrato entre as partes envolvidas, muito provavelmente com cláusulas que garantem os direitos de parte a parte, e com previsão de sanções, multas, etc. Resta saber por que não há o cumprimento delas. Aí tem, se a Folha de São Paulo procurar acha.

Voltando ao colorido desnecessário das camisas dos clubes, um argumento à favor de tal desvario e que “na Europa é assim”. Barcelona, Chelsea e até seleções nacionais usam o artifício. No que eu pergunto: e daí? Havia um tempo em que muitos achavam que o que era bom para os Estados Unidos era bom para o Brasil, isso numa época em que a ditadura militar incutia por aqui um pânico anti-comunista que deu no que deu. Hoje, no futebol brasileiro, a máxima voltou, em forma de o que é bom para a Europa é bom para o Brasil, como se as questões históricas e culturais não fizessem a menor diferença. Pois saibam que fazem, sim, e que é ridículo ver um Barcelona jogando todo de laranja, quando as cores, não só do clube, mas da Catalunha, são azul, branco e rubro.

Ok, se lá os clubes são melhor administrados (com torcedor endinheirado é bem mais fácil, né?), vamos aprender com eles. Mas o melhor futebol ainda é, de longe, o nosso. Tanto que são os nossos craques que fazem a alegria deles. E a tradição de nossos clubes, quem preserva é a gente. Sim, vivemos num mundo globalizado, é preciso pensar global, mas agir localmente ainda não é crime. E nós, que jogamos o melhor futebol do mundo, é que temos que dar exemplo, não o contrário. Não, meus amigos, nada de ufanismos nacionalistas ou xenofobia por aqui, mas é preciso colocar certos pingos nos is.

Até a próxima que o Flamengo vai jogar em Cuzco de escafandro!!!

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