O Homem Baile
14 de março de 2008
Simples e denso, Interpol volta no tempo e revive pós punk britânico
Grupo nova-iorquino tocou ontem, na Fundição Progresso. Chuva ajudou aos nostálgicos de plantão, que reviveram o rock inglês do início dos anos 80.

Paul Banks é um cara de pau. O vocalista do Interpol chegou ao Brasil o logo tratou de dizer que sua banda nada tem a ver com o Joy Division, reconhecidamente a maior referência do grupo nova-iorquino. Mais: disse que a crônica musical é que precisa prestar atenção e escutar mais coisas. Na noite de ontem, na Fundição Progresso, no Rio, Banks mostrou exatamente o contrário do que disse, fazendo um show exatamente como uma banda faria no pós punk londrino, no que foi ajudado por uma chuva torrencial que castigava a cidade. Como faria, talvez, Ian Curtis, com o Joy Division, há quase 30 anos.

Não foi, no entanto, o espetáculo triste/deprê como muitos esperavam, mesmo tendo a soturna “Pioneer to The Falls” como abertura, a exemplo do que acontece no último disco da banda, “Our Love To Admire”. Atmosférico e climático talvez sejam adjetivos que melhor se encaixam ao Interpol, num show que depende essencialmente da iluminação, muito bem planejada, e, claro das músicas do grupo. E aí prevalece uma simplicidade atroz, que, no caso desses nova-iorquinos, é muito mais vantagem que defeito.

Banks canta bem e toca guitarra em quase todas as músicas, e é muito bem acompanhado pela guitarra minimalista de Daniel Kessler, e pelo baixo – muitas vezes à frente - destacado, expondo uma outra marca do pós punk entre tantas que a banda carrega. Em “Narc”, a introdução jamais teria o apelo que teve, não fossem as quatro cordas de Carlos D, perceptíveis apesar da rotineira precariedade sonora da Fundição. Nessa música, a iluminação realçou o excelente comparecimento do público. “Leif Erikson”, mas adiante, foi outra harmonizada com as luzes, dessa vez à meia altura, lembrando até – visualmente – a estonteante passagem do Coldplay pelo Brasil em 2003. Mais do que espectadores do meio para trás, o público concentrou, à frente do palco, aqueles que têm freqüentado as pistas de dança ao som de Interpol, nos últimos tempos. Nesse rol, “Mammoth”, “Slow Hands” e até a nova “The Heinrich Maneuver”, foram as mais contagiantes.

O show caminhava rumo a um final feliz quando um dos produtores acenou para Banks para o grupo deixar o palco. Uma pane no sistema de som, provavelmente causada pela chuva torrencial, interrompeu o show por cerca vinte minutos, bem no meio de “Not Even Jail”, que seria a última antes do bis, e temia-se pelo fim prematuro daquela noite. Tudo resolvido e a banda volta exatamente de onde tinha parado, até encerrar o show, modificando ligeiramente a ordem das músicas programadas para o final, de modo que a ótima “Stella Was A Diver And She Was Always Down” e “PDA” fecharam o set. Elas seriam tocadas no bis, que acabou ficando com a solitária e “Untitled”, incluída no repertório na última hora. Boa, Banks.

Antes, ainda com pouco público, o Moptop abriu a noite. Como está gravando o segundo disco, apresentou três músicas novas, que, ao que parece, não fogem muito do repertório do grupo. Apesar do som muito ruim – pior do que o do Interpol – o quarteto conseguiu levantar a platéia do meio para o final do show, que terminou com o hit “O Rock Acabou”. Sábado o Interpol toca em Belo Horizonte, no Chevrolet Hall, com abertura do Pato Fu.

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