
Ao sintonizar a Band, contudo, veio a surpresa. Um gramado esburacado, enlameado, cheio de poças d’água. Ao redor, arquibancadas – lotadas, é verdade – acanhadas, que pareciam pintadas à cal virgem. Logo descubro que um dos maiores clássicos da capital paulista e, portanto, um dois maiores do Brasil, está sendo disputado em Ribeirão Preto, a chamada “Califórnia Brasileira”. O que estaria acontecendo no Morumbi, reconhecidamente o maior estádio de um clube em todo o Brasil? Ou no charmoso Parque Antarctica? O Pacaembu, sabe-se, está em obras. Nada contra Ribeirão Preto, mas aquela várzea, que parecia ter recebido o deságüe de um ribeirão, jamais poderia ter sido palco de um clássico desse porte.
Ainda assim, fiquei com esse jogo. Logo descubro, entretanto, que, assim, como o jogo é disputado no interior, o comentarista também veio de lá. Neto, como jogador foi brilhante, como comentarista até pode ser útil, mas jamais poderia trabalhar numa transmissão para todo o Brasil, envergando um sotaque de fazer Chico Bento o mais cosmopolita dos cidadãos. A Band precisa providenciar um tratamento para ele com algum fonoaudiólogo, senão o alcance da emissora jamais ultrapassará os limites da capitár.
Eu, entretanto, fiquei com o Palmeiras e São Paulo, apesar da várzea. E explico. Fiz isso porque, depois de tanto falarem que o Campeonato Carioca tem a melhor fórmula de disputa, a verdade é que o paulista está, ao menos nesse ano, mais emocionante. Com a derrota, o São Paulo, por exemplo, caiu da terceira para sétima colocação, mas está, apenas, a um ponto da zona de classificação. A quatro rodadas do fim da fase inicial, com chances, há um bololô no qual podemos incluir oito equipes, e até, com boa vontade, o improvável Santos, que se não é da capitár, é considerado um dos grandes do lado de lá da Dutra.
Também vejo com certo orgulho que a crônica esportiva, sobretudo a paulista, está descobrindo a pólvora. Dizem, agora, que o São Paulo não é essa coca-cola toda. E não é mesmo. Digo, eu, desde o ano retrasado, que a equipe do Morumbi ganha títulos mais pela competência de um excelente treinador e pela estrutura de clube, do que por ter um time bom. Já reparam já há muito tempo o São Paulo não tem um meia sequer? Que esse ano Rogério Ceni, o goleiro artilheiro anda com cara de cansado, parece estar bem desmotivado? Que no time atual simplesmente não há armação de jogadas no meio campo e que os laterais (outrora eficientes) pouco colaboram? Haja Adriano no ataque para salvar a pátria. E se der mole, a Libertadores vai para o saco também. Chocolate de um alegre Palmeiras com muito mérito e sorte, a principal característica de seu vaidoso treinador.
Falei da crônica esportiva paulistana e já vou falar da carioca também. Ou, por outra, da crônica esportiva de um modo geral. Já há um certo tempo nossos comentaristas morrem de medo de apontar esse ou aquele jogador revelado por um clube, como craque. Temem que, em seguida, tal jogador os desapontem, e, com isso, eles, os analistas, caiam em descrédito. Agora isso está acontecendo com as equipes. Ficam morrendo de medo de apontar esse ou aquele time como bom, com medo de sofrer decepção. Decerto, esperam o início do Campeonato Brasileiro para, de posse da tabela de classificação, a cada rodada enaltecer os que habitam a parte de cima e detonar os que ficarem na de baixo.
Aqui no Rio, por exemplo. Quando um grande vence um pequeno, a partida não serve como teste. Mas, se o grande perde ponto para um desses pequenos, é porque a equipe ainda não está “pronta para uma competição mais qualificada”. Analisam, como de hábito, apenas o escore. Custa, meus amigos, assistir a um jogo e fazer uma análise da equipe, apenas naquela partida? Talvez fiquem todos tentando ver todos os jogos, acabam não vendo nada e vêm, depois, com essas evasivas.
O Fluminense, por exemplo. Todos foram unânimes em ver o jogo contra o Arsenal como uma partidaça, mas a maioria diz que a equipe das Laranjeiras “só jogou dessa vez”. Ora, meus amigos, se formos exigir outra exibição dessas pra dizer que um determinado time é bom, vamos ter que esperar – e sentados – mais de uma década. E, ademais, é quase certo que esses cronistas não assistiram a outros jogos do Flu. Olhando para os tropeços contra os pequenos, afirmam que o time não está pronto; observando as goleadas contra outros pequenos, dizem que, aí, não vale a conclusão, pois os pequenos são muito fracos. Pode?
Até a próxima que o Flamengo é o time da porrada!!!