Bola e Bola Mesmo
04 de março de 2008
Festa do interior
Se os três times grandes de São Paulo são ruins, o que têm os clubes do interior com isso? A resposta está no Vale do Paraíba, em Campinas e ali, pertinho do Alphaville: nadica de nada.

Em tempos de internet o pensamento dá espaço a rapidez de reação. Tudo ficou rápido, é dedo no gatilho a todo o momento. Leu o que não gostou? Vai lá e dispara comentário/e-mail. Depois, se for o caso, pensa. Quem já não respondeu um e-mail sem pensar direito e depois se arrependeu que atire o primeiro post. Digo isso, porque eu, ao contrário, pensei à beça. Porque toda vez que vou escrever sobre o futebol paulista, não tenho como não tocar nas farpas recíprocas entre as duas praças – a outra é o Rio, claro. E de tanto falarem do lado de lá da Dutra, nos últimos anos, que os times grandes do Rio vinham sucumbindo aos pequenos, atribuindo isso ao que chamavam de “crise do futebol carioca”, não é que o feitiço virou contra o feiticeiro?

Digo isso porque o que está acontecendo lá é uma verdadeira festa do interior, e num local dos mais apropriados, afinal São Paulo é a grande capital do interior nacional. É verdade que nesse ano os dirigentes do futebol carioca fizeram de tudo para que os pequenos não tivessem vez. Incharam o campeonato com clubes em formação e sem tradição (e, portanto, com equipes fracas) e tiraram deles a única arma que ainda teriam: a oportunidade de jogarem em seus próprios gramados, os populares alçapões. Dizem, no entanto, que um “acordão” feito entre os dirigentes e os presidentes dessas equipes é que garantiu o feito. Mas isso eu deixo para o Juca Kfouri, que jornalismo denuncista é a seara dele.

Falava da festa do interior, e não daquela a qual se referia Moraes Moreira na canção popular. Falo de Guaratinguetá, Ponte Preta, Barueri e assim por diante. É só ligar a TV que esses nomes encabeçam a tabela de classificação do ex-paulistão e nenhum comentarista consegue explicar o porquê. Uns dizem que é o tempo de preparação, e que logo os grandes entram em forma – tese desmoronada quando se descobriu que o Guará, por exemplo, por força do calendário, teve quase o mesmo tempo de preparação dos grandes. Outros apostam em zebra – mas tantas, e ao mesmo tempo? A verdade é que, meus amigos, ninguém se preocupa em cobrir as pré-temporadas dos pequenos. Ninguém disse pra ninguém que essas equipes viriam fortes, e agora é queixo caído a torto e a direito.

Teimo em justificar a ascensão dos pequenos citando a fraqueza dos grandes. No Rio, ao menos, era assim. As regras mudaram, sobretudo com a adoção do sistema de pontos corridos, em 2003, o que achatou os estaduais, e os clubes do Rio custaram a se adaptar. Em São Paulo a coisa foi mais, digamos, natural, mas nesse 2008 parece que os caras desaprenderam. O Palmeiras, por exemplo. Demorou tanto para contratar um treinador, e depois, os jogadores, que não teve como montar um time – que talvez até venha a ser bom, convenhamos. O Santos, que nos últimos anos ganhou campeonatos com equipes ruins, sofre da orfandade de seus ex-treinador. Por onde passa, Luxemburgo ganha títulos e depois sai, deixando a equipe com uma mão na frente e outra atrás. Peçam ao PVC que ele faz esse levantamento de cabeça. O Corinthians em crise pós-rebaixamento e moral, com ex-dirigentes indo em cana, não pode reclamar de nada, até que está bem com um time de goleiro + 10 volantes – é Mário Sérgio fazendo escola. E o São Paulo, que era ruim, piorou

Passei o ano passado inteiro dizendo que o time do São Paulo era ruim, para, no fim das contas, vê-lo campeão brasileiro. Só que o time piorou. Não porque tenha perdido craques (mesmo porque o único craque que o time tem joga no gol), mas porque, nesse ano, não soube fazer o certo. A contratação de bad boys e vampiros do naipe de Adriano e Carlos Alberto nada têm a ver com a equipe de Muricy, que, aposto, tentou vetá-los. Joílson? Fala sério. Jogadores incensados como o inseguro Richarlyson e Hernanes (cada nome...) logo vão mostrar que foram super valorizados. Sobrou para Borges e Chulapa salvarem a pátria são-paulina. Por isso Guará e Ponte deitam e rolam. Digo isso ao mesmo tempo em que ainda aposto que os três grandes do lado de lá da Dutra ainda conseguem chegar às semifinais. Simplesmente porque confio na camisa. Agora, para as competições nacionais, só boto fé numa boa campanha mesmo do Palmeiras.

Enquanto isso, do lado de cá da Dutra, a crônica esportiva deu um nó. Enfastiados com a falta de ter o que comentar em vitórias de goleada dos grandes sobre os pequenos (porque só é notícia jogos entre grandes), eles apostam as fichas no extra campo, mais precisamente nas comemorações. E aí, outro impasse: criticam os politicamente corretos que detonam a comemoração genial de Souza, mas também não estão do lado dos politicamente incorretos que defendem a baixaria do creu. Ora meus amigos, estamos num país livre em que cada um faz o que quer, e aí há de prevalecer o bom senso e, sobretudo, o bom gosto. Se o creu é de mau gosto, deixe-o de lado, deixe-o para a torcida; se a cantoria que vem das arquibancadas é boa, vamos nessa. Só que esse diálogo deve se estabelecido entre gramado e tribunas, sem interferência da TV. Digo isso porque é ridículo a Globo “infiltrar” cantos politicamente corretos, que abolem os palavrões, nas torcidas organizadas, só para faturar com o espetáculo. Brincar de Deus, não, né?

Até a próxima que só dá Gal Costa no futebol paulista!!!

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