
Aqueles que, como eu, dão ouvidos aos comentaristas mais experientes, já ouviram falar de partidas excepcionais dessa ou daquela equipe. O Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Flamengo de Zico, o Palmeiras de Ademir da Guia, e assim por diante. Ou, por outra, cronistas do passado como Nelson Rodrigues e Armando Nogueira já descreveram, com raro acabamento, o desempenho desse ou daquele jogador, usando e abusando de adjetivos os mais perspicazes. Fico imaginando, pois, como seriam a leitura desses – sobretudo do tricolor Nelson – diante daquele Maracanã exuberante que se apresentou ao mundo em plena Copa Libertadores da América.
Seria simples eleger um personagem do jogo, da semana, do mês, de todos os tempos. Numa implacável goleada de seis a zero, aquele que é o autor de dois e participa dos outros quatros gols é inquestionavelmente o nome do jogo. Na quarta, Dodô só não fez chover. Pouco importa se o jogador é craque ou não (discussão cada vez mais démodé), se vai voltar a ter uma atuação brilhante, se vai dar seqüência, se vai ser o campeão do mundo. Diante da exibição de gala, nada disso tem a menor importância. O que vale é o que foi feito, é o fato. Ta lá, gravado, todo mundo viu.
Acontece que o Fluminense e Arsenal de quarta passada não foi jogo de um personagem só. Foi uma exibição de uma equipe de futebol jogando em toda a sua plenitude, o futebol total que não dá chance alguma ao adversário. Tanto que este não teve cabeça sequer para ser desleal, fazer catimba ou outra artimanha sempre atribuída ao futebol argentino, sobretudo em partidas pela Libertadores. O tricolor, por sua vez, jogava tanta bola que só foi fazer uma falta aos 42 minutos de jogo, numa partida, repito, perfeita.
Mas dizia que a exibição de gala não foi jogo de um homem só. Se Dodô fez chover, Tiago Neves foi coadjuvante de luxo, acertando milimetricamente uma indefensável cobrança de falta – como já fizera, noutro dia, contra o Flamengo, quando viveu ele próprio o dia de craque. Conca, por sua vez, coadjuvou Tiago num domínio completo do meio campo, reduzido a intermediária da equipe do Arsenal. Os dois armaram jogadas de levar os argentinos a loucura. E ainda havia Arouca, misto de volante e meia-armador, a coadjuvar a todos, em todos os espaços do campo. Para o artilheiro Washington, sobrou a nobre tarefa de segurar um punhado de zagueiros do Arsenal que batiam cabeça no meio da área, deixando dois corredores para que, de um lado, Júnior César fizesse progressões para jogar as bolas na área, e, de outro, Gabriel voltasse a ser o lateral artilheiro que encantou a todos em 2005. Dizer que a zaga ficou sem trabalho seria um exagero, mesmo porque, com a marcação adiantada, o xerife Tiago Silva – o melhor zagueiro em atividade no Brasil – dominou quase o meio de campo, e o experiente Luis Alberto ficou só de butuca. Fernando Henrique, o herói das alturas, este sim, foi um espectador de luxo.
E se Dodô é chamado – com justiça, diga-se – de o artilheiro dos gols bonitos, na última quarta o Fluminense é que foi o time dos belos gols. Os de Dodô já estão automaticamente inscritos nas listas de melhores de qualquer coisa no futebol, de hoje em diante. Uma colocada para o gol – o segundo – que fez lembrar o genial gol bailarino de Romário contra a Holanda na Copa de 94. Um chute de primeira da entrada da grande área, no ângulo, digno de Zidane numa final da Copa dos Campeões da Europa, é a mais perfeita descrição do segundo gol de Dodô – o quarto da partida. Mas o que dizer do toque de classe de Gabriel no terceiro? E da tabelinha que deixou Washington na cara do gol, no quinto? Até Cícero, que em geral entra e deixa sua marca salvadora, fez um de falta, assim, assim, mas que, perto dos outros cinco tentos, têm permissão divina para ser chamado de golaço.
O fato de ser uma partida pela Libertadores só enobrece a exibição de gala. Fosse um massacre contra um pequeno do Rio, não dariam ao Fluminense seu devido valor. Fosse contra um rival regional ou um clássico no Brasileirão, a torcida derrotada demoraria a admitir o óbvio. Na Libertadores, não. Todos foram unânimes em reconhecer a excelência apresentada pelo Tricolor. Só os basbaques é que argumentaram que o Arsenal, um dos líderes do Campeonato Argentino e atual campeão da Copa Sul-americana, é um time fraco. Que fraco que nada. Pode não ser um Boca Juniores, mas o Bambala é que não é. Imagino até a equipe de Sarandi limpando a viscosa baba da vingança, esperando pelo duríssimo jogo de volta.
O que completou a exibição de gala veio das arquibancadas. A liberação do uso do tradicional pó de arroz deu um “up grade” espetacular à festa que já se supunha sensacional. Os Tricolores estavam em estado de graça, em plena quarta-feira à noite. Uma noite que já entra para a história e deve ser gravada em DVD para a posteridade. Quem viu, é certo, repetirá a emoção doravante por todos os séculos, amém. Quem não viu, nem pela TV, vai ecoar a mesma história como se lá estivesse, presenciando, em pleno século 21, uma verdadeira exibição de gala.
Até a próxima que o Flamengo perdeu a cabeça e o Santos tá ganhando no grito!!!