
Se em geral é difícil para uma banda mostrar vitalidade com as músicas do disco mais recente, em detrimento dos clássicos, imagine para o Dream Theater, cujas faixas podem chegar aos 15, 20 minutos de duração? É o que justifica a ausência de tantas músicas que hoje fazem parte do imaginário coletivo dos fãs. Com um set relativamente curto, o grupo optou acertadamente por enfatizar as mais recentes, tocando mesmo a gigante (e belíssima) “In The Presence Of Enemies” – as duas partes, juntas, somaram cerca de 25 minutos e encerraram o show de modo espetacular, com o público cantarolando muitas das passagens instrumentais.
Tocar músicas novas para um público como esse, aliás, não é problema nenhum: todos já conhecem a íntegra do disco novo. “Forsaken”, por exemplo, outra do novo repertório, fez todo mundo cantar junto. Colada com a desencravada “Take The Time”, já no final do show, ela proporcionou um dos momentos mais legais da noite. Outro, mas não só pela participação do público, foi na vez de “The Dark Eternal Night”. Não só por causa da força da música em si, pesada e cativante. Mas porque o telão exibia uma animação com os integrantes do grupo detonando uma espécie de hiena gigante e manipuladora de seres humanos. No final dessa música o momento lindo: o público bradando com os braços erguidos em coreografia ensaiada. Impressionou, também, a perfeita sincronia entre o vídeo e os músicos tocando no palco. A música, ao vivo, é outra coisa, totalmente mais pesada e envolvente.
Essa observação, diga-se, pode se estender a todas as canções. Os integrantes do Dream Theater são virtuosos, sim, mas sobre o palco se superam pela forma entusiasmada como tocam. Mike Portnoy, com bom humor e certa elegância, destrói seu farto kit como se fosse a coisa mais fácil do mundo tocar o intrincado repertório do grupo. John Petrucci não teve um momento solo no show, mas debulhou a guitarra em quase todas as músicas. Em “Blind Faith” teve seu melhor momento, enquanto o telão exibia lembranças de Pink Floyd e Genesis, entre outras referências. No início do bis, citou, na guitarra, “Xanadu”, do Rush. E Jordan Rudess - quem diria - descolou um daqueles teclados avulsos que parece uma guitarra (lembram do RPM?) e desandou a solar na frente do palco, na mesma “Blind Faith”. Lembrando que “Systematic Chaos” foi o disco do DT em que ele mais participou. John Myung foi discreto o bastante, e o gordinho Labrie não falhou um minuto sequer, ajudado por um creme vindo se um spray que ele não deixava de sorver durante as partes instrumentais. Luz de alerta pra ele.
A abertura foi com “Constant Motion”, outra música muito boa do último disco, que pôs todo mundo a vibrar, numa cena que se repetiria outras tantas vezes. No bis, que completou exatas duas horas de espetáculo, um medley que envolveu citações à outras bandas (como a já falada, do Rush), e cinco petardos históricos: “Trial Of Tears”, “Finally Free”, “Learning To Live”, “In The Name Of God”, e um trecho da espetacular “Octavarium”, dando tons épicos ao encerramento. Nem deu pra lamentar a ausência de “Pull Me Under”, “Metropolis” e “Panic Attack”.
O Dream Theater toca hoje em São Paulo, no estacionamento do Credicard Hall, e amanhã no Chevrolet Hall, em Belo Horizonte.
Apesar do ingresso ser tão caro vale a pena....