Bola e Bola Mesmo
26 de fevereiro de 2008
Lugar de chorar é na cama ou somos todos torcedores
Cena patética no vestiário após a decisão da Taça Guanabara mostra como o Botafogo é dirigido por amadores, e, assim, reforça sua vocação para a pequenez.

Bons tempos aqueles em que jogávamos bola no campo de terra batida em algum terreno vazio no subúrbio. Ali toda hora se ganhava e se perdia, era possível ser campeão ou derrotado duas vezes ao dia. E depois da vitória era obrigatório tripudiar do adversário, que, volta e meia, saía chorando do campinho, para no dia seguinte tudo recomeçar. Essa é a essência daquelas peladas de criança, e é mais ou menos o que acontece com o torcedor. Se vence, tira onda com o adversário; se perde, arranja desculpas para reafirmar que, ainda assim, seu time é o melhor. Romantismos que fazem parte do entorno do futebol.

No futebol profissional é diferente. É preciso saber ganhar e saber perder. Aprender com derrotas e seguir em frente, porque só assim um clube se torna vencedor. Por isso o que aconteceu no domingo no vestiário do Maracanã não pode ter vez. Uma equipe derrotada, aos prantos diz à frente das câmeras que não aceita a derrota, que foi roubada e que não quer mais jogar. Que a torcida deve deixar de ir aos estádios. Mais. Esses barbados chorões, numa cena patética, tiveram o apoio de seus comandados, o treinador e o Presidente do Clube. Veja bem, eu disse o Presidente, que, diga-se de passagem, renunciou ao cargo ali, em rede nacional. Dá pra acreditar?

Ora meus amigos. O Presidente de um clube só deve ir a campo nas Tribunas de Honra, para assistir ao espetáculo que é o futebol. Deve ter o mínimo de compostura para acompanhar uma partida, e jamais descer ao vestiário, exceto em casos de grandes comemorações, ou mesmo para assumir responsabilidades em situações difíceis. No momento em que a equipe sofre nova derrota, deveria ser ele o primeiro a apaziguar os ânimos, resgatar o espírito esportivo e o profissionalismo de seus atletas (e empregados), para evitar aquela cena patética que acabou ajudando a reforçar.

Mas Carlos Augusto Montenegro e Bebeto de Freitas são assim mesmo, emotivos, torcedores, e se orgulham disso. No ano passado, diante de uma sucessão de vexames, perderam o controle e levaram sua equipe a uma série de derrotas que deram a ela a pecha do “time do quase”. Ora, meus amigos, lugar de torcedor é na arquibancada. Lá é que ficam aqueles que sofrem e que não aceitam derrotas, porque acreditam que sempre o seu time é o melhor de todos. A renúncia de Bebeto (caso aconteça, o que eu duvido) é na verdade uma medida providencial para que o Botafogo vire time grande, profissional, de verdade. Ele e Montenegro vêm estragando tudo desde o ano passado.

Não vou entrar no mérito do roubo do juiz. Ou, por outra, vou sim. Aquele pênalti que o árbitro (que apareceu numa foto com a camiseta do Flamengo no orkut) marcou, ele o fez porque quis. Está cansado de ver jogadas assim em tudo o que é área, e nunca marca. Marcou porque, na arbitragem, repito, todo juiz é ladrão e tende a, na dúvida, favorecer o mais forte e desdenhar do pequeno. Isso, no entanto, não dá o direito de o Botafogo se comportar de uma maneira destemperada, como Túlio, que, qual uma avestruz, quis enfiar a cabeça num buraco e abandonar o gramado. Ou Lúcio Flávio, capitão do time, que pediu ao árbitro para que lhe desse o cartão vermelho. Ou ainda o (até então) lúcido Cuca, que, junto com Diguinho e o goleiro reserva da seleção uruguaia, quis agredir o juiz ladrão – e devem ser punidos por isso.

Domingo, o Botafogo só reforçou sua vocação para a pequenez. Sim, porque é um equívoco chamar de grande um clube que, em mais de cem anos, poucos títulos coleciona, e que se vangloria de raros momentos pontuais em que teve craques como Garrincha, Nilton Santos e Didi. E que, numa época em que no mundo todo o profissionalismo é latente para o sucesso no futebol (assim como em qualquer outra atividade) admite ter dirigentes destemperados que só contribuem para esse estado de absoluto amadorismo.

Mas é preciso, sim, manter aceso o sentimento de indignação, sobretudo na crônica esportiva. Esta tem a obrigação de condenar, rodada após rodada, a atuação desses árbitros que, sem nenhum preparo, erram muito mais do eu acertam. Essa postura em cima do muro de que o juiz erra pra todos e no fim tudo se compensa é o que há de mais repugnante na mídia. Só a crítica sistemática e bem fundamentada pode melhorar o nível das arbitragens no Brasil, que hoje é muito raso.

Acontece que a crônica esportiva, diante dessa patacoada protagonizada pelos barbados chorões do Botafogo, entrou na brincadeira. No Sportv vi comentaristas torcedores de cada um dos clubes puxando sardinha para seus respectivos lados, sem chegar a lugar nenhum. Na ESPN – cúmulo - vi, incrédulo, a emissora passar lances do passado nos quais o Botafogo teria sido beneficiado por erros de arbitragem. Parecia um grupo de torcedores discutindo o resultado de uma partida, e não aquela que se acha a melhor e mais isenta bancada de opinião esportiva do País. No choro e no viés da discussão, a ESPN se assemelhou ao Botafogo. Tal qual o derrotado de Gal. Severiano, acha que é melhor que tudo e todos e não aceita a derrota. Enfim, são todos torcedores, e deveriam estar é nas arquibancadas.

Até a próxima que o Flamengo não tem nada com isso e precisa ser detido!!!

ESCREVA UM COMENTÁRIO

Nome
Email
Site
Salvar informações pessoais?
Sim       Não
Comentário (you may use HTML tags for style)















desenvolvido por
Gabriel Lupi / zupa.net

ilustrações por
Flávio Flock


© 2005 - 2006 - Rock em Geral: gardenal.org/rockemgeral
Os textos publicados em Rock é Rock Mesmo podem ser reproduzidos total ou parcialmente, desde que sejam citados fonte, autoria e endreço do site. O sistema de comentários disponibilizado aos leitores do Rock em Geral é exclusivamente para a publicação de opiniões e comentários relacionados ao conteúdo deste site. Todo e qualquer texto publicado na internet através deste sistema, assim como os links oferecidos, não refletem, necessariamente, a opinião de seu autor. Os comentários publicados através deste sistema são de exclusiva e integral responsabilidade e autoria dos leitores que dele fizerem uso, e podem ser excluídos, a critério do autor do site.