
Não que eu seja a favor do “pode baixar a porrada“ de Joel, do “estamos sendo roubados” de Renato Gaúcho, ou do suspeita da cínica absolvição de Dodô, por parte de Muricy Ramalho. Nem contra, diga-se de passagem, mas o fato é que o que eles disseram à beira do campo (ou fora dele) não representa a mínima novidade para este velho homem da imprensa. Dá mole aquele que, como Joel – notadamente um treinador à moda antiga – solta o verbo com um microfone nas suas barbas. Vacila aquele que, como Renato Gaúcho, diz que reúne provas o suficiente para concluir que garfam o Fluminense a cada jogo. E poderia ter ficado quieto aquele outro que, como Muricy, comenta o desnecessário.
Mandar bater e fazer uso de atitudes de machão no futebol – “jogo pra homem” – é lugar mais do que comum, ainda que vejamos a seleção feminina triunfando num raro Maracanã lotado, e saibamos que um jogador profissional está, enfim, se preparando para sair do armário. Isso acontece a toda hora, todo mundo sabe, todo mundo admite e deixa pra lá. O problema é que reina a hipocrisia quando um microfone capta tudo para a opinião pública, quando todo mundo da TV (e da imprensa em geral) é obrigado a repreender tal atitude. Digo isso porque todos fariam a mesma coisa se estivessem à beira do gramado, e, decerto, repreenderiam ao escutar os microfones. Não resta dúvidas: errado é o microfone que capta o que não deve. Desligue-os e deixem Joel mandar “baixar a porrada”, Geninho ordenar “dar no tornozelo dele” e Felipão determinar uma “escarrada no negrinho”. O importante é sabermos que todos eles, e ainda Mário Sérgio e Luxemburgo, só para ficarmos em parcos exemplos, mandam bater; Telê Santana, segundo Zico, jamais.
Em roubalheira já acredito. Para mim, até por obediência ao Mestre, todo juiz é ladrão. Não há exceção, todos roubam e ponto final, simplesmente porque têm a vocação para o erro, o roubo, a compensação. Só um juiz (que árbitro, qual nada) de futebol reúne todos os vícios tipicamente encontrados no ser humano ordinário. Por vezes, expõem essas vicissitudes a torto e a direito, e isso acontece seguidamente com uma equipe de futebol. Como está tudo muito nivelado com a bola rolando hoje em dia, essas seqüências podem levar um time à derrocada. Acredito que foi isso que Renato quis dizer após a derrota do Fluminense para o Palmeiras de um goleiro, e um jogador e meio, em pleno Maracanã. Ele até pode ter feito isso para justificar inacreditáveis derrotas, mas, a bem da verdade, citou outros jogos, incluindo vitórias de sua equipe. Pela crônica, foi intensamente repreendido. Ela acha, via de regra, que todos erram de forma aleatória, e bom time é aquele que, apesar de ser roubado (sim, eles admitem isso), ainda assim é o grande campeão. Para eles, não basta o time super dificuldades de origens as mais diversas. Devem, também, superar o juiz ladrão.
Estranho Dodô ter sido condenado por unanimidade e depois, súbito, absolvido no caso de doping. Acho que Dodô, com aquela cara de bocó, só pode ser mesmo inocente, e que a lei do doping é um equívoco colossal. No meu tempo, doping não era cocaína, maconha, ou esse ou aquele creme ou remédio pra gripe. Era, sim, algo que o atleta tomava para levar vantagem, no âmbito esportivo, sobre o adversário. Dodô não fez isso. Mas a sua absolvição, depois da condenação, e de grande pressão, vinda até do próprio passado do jogador e do histórico do presidente do Botafogo, é algo muito estranho, e, até, reprovável. Foi mais ou menos isso que Muricy falou e teve gente reclamando. Pode até sobrar punição para ele, justamente um dos mais espontâneos treinadores do futebol brasileiro. Que grande bobagem.
Muricy nem precisava falar isso, mas o fato apimentou o jogo de amanhã, o clássico Botafogo e São Paulo, com as duas melhores campanhas do brasileirão desse ano. Isso na tabela, porque pra mim o Botafogo é de longe, mas muito longe mesmo, melhor que o São Paulo. Já não achava o time do Morumbi, que vivia às custas de um goleiro-artilheiro na campanha vitoriosa do ano passado, grande coisa. Achava, sim, bem ruim, e só venceu, como disse, por valores extracampo. Os mesmos que ainda mantém a equipe em razoável alta, com destaque absoluto para o ranzinza Muricy. E só ele pode vencer um Botafogo tão preocupado em atacar, tão solto pra fazer lindas jogadas e belos gols, que se esquece de evitá-los contra si próprio. Tem sido assim o time vizinho do Rio Sul, que, a bem da verdade, foi derrotado no Carioca e na Copa do Brasil por falhas individuais que o sistema de disputa por pontos corridos costuma perdoar. Mesmo que perca amanhã, o Botafogo, jogando bonito e pra frente, continua favoritíssimo ao título. Já o São Paulo, ainda que vença, será sempre um time medíocre carregado nas costas (largas) de Muricy – considerando que o tal goleiro parou, enfim, de fazer gols.
Até a próxima, que tem zagueiro dando cabeçada por aí!!!