
Sumir por um tempo e ainda voltar para fazer uma retrospectiva daquilo que todo mundo viu e já sabe pode soar como apelação, mas como deixar de falar da belíssima seleção Argentina que acabou derrotada pelo Brasil menos criativo de que se tem notícia? Dunga convocou mal, escalou pior ainda e no fim das contas saiu campeão e cheio de moral, numa versão moderna e piorada do “você vai ter que me engolir”. Comparações inúteis chegaram a ser feitas com a triunfante seleção de 94, na qual o próprio Dunga era destaque, mas elas ficaram só no meio campo cheio de volantes (quase todos ruins, diga-se de passagem), jamais cegaram em Bebeto e Romário, ou nos laterais, justamente o que tínhamos de melhor naquela oportunidade. Sem falar que Dunga, como técnico, ainda tem que comer muito angu pra chegar a ser um Parreira ou Zagalo. E bota angu nisso.
É chato dar uma de pessimista no futebol, sobretudo em termos de seleção brasileira, mas explicar o triunfo do Brasil passa pelo imponderável no futebol, que faz o pior vencer o melhor (ainda mais em Copas) e pela derrota da Argentina. Sim, meus amigos, foi a – repito – belíssima seleção da Argentina que perdeu, e não Brasil que venceu. E digo isso apesar do placar de três azero, que, sabemos todos, fala por si e não requer maiores explicações. Mesmo assim, eu as dou. Ou, por outra, não explico, mas pondero.
Juan Roman Riquelme, o craque de olho murcho que não sorri, deu um show de bola e liderou a equipe Argentina em jornadas sensacionais. Antes, ele próprio havia guiado o Boca Juniores na massacrante surra imposta ao nosso Grêmio (esqueci de citar lá em cima) nas duas finais da Libertadores. Jogaram muito Messi, Cambiasso, Tevez, Ayala e todos os outros, mas Riquelme foi o batuta da turma. Até o banco da Argentina dava show: Pablo Aimar, Fernando Gago, o próprio Tevez, que custou a convencer Alfio Basile. Os reservas da Argentina dariam um baile no Brasil. Só que a tristeza flagrante de Riquelme, súbito, contaminou sua equipe. O craque que jamais sorri comandou shows contra México, Colômbia e outros cabeças de bagre, mas fracassou contra o Brasil. Mas por que? Pergunta ele, tal qual um Zico em 1982, no (hoje demolido) Estádio de Sarriá.
A Argentina (e seu belo futebol) perdeu por causado imponderável. Só isso explica o gol que eles levaram logo no início da partida. Um lançamento perfeito de Elano (tal qual Gérson, acreditem) para Júlio Baptista, um drible em Ayala e um tirambaço no ângulo, sem a mínima chance de defesa para Abbondanzieri. Jamais Elano repetirá tal jogada. Jamais Julio driblará Ayala (um dos melhores zagueiros do mundo) com tanta facilidade e acertará um chute daqueles na mesma seqüência. Podem anotar. No segundo tento, também podem escrever para todo o sempre que aquele gol contra do mesmo Ayala talvez até volte a acontecer, mas não num outro jogo como esse. E no terceiro gol brasileiro, a vaca já tinha ido para o brejo mesmo. Tanto que era Riquelme, o craque de olho de peixe morto, quem corria atrás do bom Daniel Alves. Esse é o resumo do jogo, porque o time do Brasil nada fez na partida, assim como em toda a Copa América. Robinho só apareceu pontualmente, com uma ou outra jogada, mostrando vocação, isto sim, para a coadjuvação. Um olhar mais certeiro anotará que alguém andou marcando bem os craques argentinos. Mas prefiro dizer que estes é que nada fizeram, comandados pela tristeza do craque de olhar triste.
Corta para o Campeonato Brasileiro (jornalistas adoram isso) que, como sempre dizem, está muito nivelado, no que concordo. E acrescento: por baixo. Digo isso, entretanto, sem a euforia da novidade. Há anos que é assim, ou, por outra, desde que aprendemos a disputar o certame no sistema de pontos corridos, em 2003. É que só assim é possível fazer uma certa comparação entre as equipes durante o campeonato, apesar de às vezes algumas trapalhadas desigualarem o número de jogos de cada equipe, como acontece agora por causa do fabuloso Pan. Mas aí entram os percentuais e tá tudo certo, dá pra entender.
A novidade está, comparando-se com a edição de 2006, na crise vivida pelos clubes de São Paulo, fato, aliás, já percebido nas finais da Copa do Brasil, competição na qual nenhum clube bandeirante chegou sequer (e de novo) às quartas de final. Com isso, coube aos cariocas (à exceção do Flamengo, ao menos por hora), tomarem a dianteira, junto com o São Paulo, exceção positiva além Dutra, e os periféricos de sempre – Inter, Cruzeiro, Grêmio, Goiás e adjacências. Quem vai chegar na frente? Impossível prever, ao menos antes de terminar o período de transferência para o exterior. Até agora, tá tudo nivelado. E por baixo.
Até a próxima que o goleiro artilheiro não marca mais gol!!!