Bola e Bola Mesmo
10 de abril de 2007
O enigma tricolor
Nas Laranjeiras, faz-se tudo o que dizem que é certo fazer, mas equipe do Fluminense não consegue triunfar.

A medida em que os campeonatos regionais vão chegando à fase decisiva, despontam aqui e acolá as decepções e os inconsoláveis torcedores que não conseguem entender o porquê de suas equipes terem dado com os burros n’água. E tão cedo. E num campeonato que tem, no máximo, quatro clubes grandes como o carioca, por exemplo. Internacional, Palmeiras (ok, há ainda ralas esperanças) e Fluminense não conseguem entender o que está acontecendo.

Pois eu também não sei. Digo isso e já retifico. Porque não tenho visto os casos de Inter e Palmeiras tão de perto. Mas só de longe dá para se ter uma idéia, ainda que seja ouvindo o galo cantar sem saber onde, como, aliás, faz boa parte da crônica esportiva. O Inter. Conseguiu o que era considerado impossível, fazer de Abel Braga um campeão, e logo duas vezes, da Libertadores e do mundial. Um feito absolutamente espetacular. Há os que acreditam no contrário, que Abelão é que levou o Inter ao título, e em respeito a estes vou ficar coma hipótese da reciprocidade: um ao outro ajudou. Mas não era isso que eu queria dizer. A intenção era explicitar o desencanto com o desmoronamento do elenco que, aliado à priorização da Libertadores (onde a equipe se rasteja), são os responsáveis pelo jejum de vitórias do Colorado. Todo mundo foi embora e Abel ficou numa roubada.

Sem ganhar título há trezentos anos, o Palmeiras, que ensaiou uma arrancada mal sucedida, deixou lhe escapar a classificação para as oitavas de final da Copa do Brasil num empate com um time de várzea cujo nome (com licença jornalística e tudo) sequer me recordo. É evidente que a equipe palmeirense é limitada, mas as de Santos e São Paulo também são e estão aí badaladas pela crônica esportiva. Para provar a fragilidade dessas equipes e respectivos elencos, eu apostava na classificação do Verdão, para num momento em que a camisa vale mais do que a bola, jogar por terra teorias que tentam explicar o triunfo de equipes assim, assim, como as de, repito, Santos e São Paulo. Parece que não vai ser dessa vez. Resta dar moral ao técnico Caio Jr., segurar Edmundo no time, e, de quebra, contratar um ou outro reforço só pra garantir uma posição intermediária no brasileirão que se inicia em maio.

Falei disso tudo, porque isso tudo é passível de entendimento. Existe uma lógica razoavelmente concatenada que nos leva a esta ou aquela conclusão. O que não dá para entender é o que acontece com o Fluminense. Não é verdade que o clube das Laranjeiras troca muito de jogadores, como tenho ouvido dizer, nem que é uma grande decepção ano após ano. Além de ter vencido o carioca de 2005, chegou às semifinais da Copa do Brasil no ano passado e na final no mesmo 2005, quando caiu ante ao inexpressivo Paulista. No brasileirão, vinha sendo o melhor colocado entre os cariocas. Foi o quinto em 2005, nono em 2004, semifinalista em 2001 e 2002, e terceiro colocado geral em 2000. O tricolor está longe de ser este amarelão que estão pintando a custa desse precoce fracasso nesse ano.

Não era isso, entretanto, que eu queria dizer. Mas, sim, que talvez a única coisa que falte ao Fluminense, para ser arrolado no grupo dos modernos clubes brasileiros, é um Centro de Treinamento – coisa que cedo ou tarde, deve sair do papel. Senão vejamos. Patrocinador forte? Tem, a Unimed. Boas contratações? Segundo consta, nesse ano foram 17, nomes pouco questionados antes de a bola rola, como Cícero e Soares (revelações do ano passado), Carlos Alberto, Luiz Alberto, Fabinho, Alex Dias e por aí vai. Categorias de base? Simplesmente a melhor do Rio já há alguns anos, e fornecedora de craques para as seleções brasileiras sub-alguma coisa como Marcelo, o próprio Carlos Alberto, Arouca, Fernando Henrique. Sem falar em “não craques” que hoje triunfam em outros clubes, como Rodrigo Tiuí (Santos), Diego (Grêmio), Juliano (Juventude) e Jancarlos (Atlético Paranaense), entre outros. Salários em dia? Não há quem reclame. Diretoria competente? Bem, esta que está aí é a mesma que fez a campanha de sucesso em 2005, não deve ser dela a culpa pelos fiascos desses últimos dois cariocas. Falta de tempo/planejamento? Necas, o elenco tricolor foi um dos primeiros a ser formado, e fez uma longa pré-temporada na Granja Comari, em Teresópolis, simplesmente a concentração oficial da seleção brasileira. Sem falar numa “segunda pré-temporada”, já que a equipe ficou de fora das semifinas da Taça Guanabara. Por que cargas d’água, então, essa equipe não deslancha?

Deve ser essa pergunta que tira o sono de Branco e Joel Santana. Vi os dois (numa foto) saindo de uma reunião a portas fechadas com a diretoria tricolor, com caras de quem comeu e não gostou. Por que a grande questão é: o que fazer agora? O desempenho pífio – não chegar nem em segundo em nenhum dos dois turnos, com dois times grandes na disputa, e amargar uma oitava colocação geral – sugere uma debandada geral, a chama barca. Mas a vigilância da crônica esportiva cairia de pau, não é não? Eu, cá entre meus botões, sou a favor da barca, sim. Mas com critério. Contratou, não rendeu o esperado? Vaza! E quem vem para ocupar esse lugar? Num mercado escasso de bons jogadores, é bom pensar nisso antes. Ainda pode render? Vamos dar uma outra chance. É impossível que a comissão técnica não saiba exatamente quem deve ficar e quem precisa sair. Acredito que essa lista inclusive já esteja nas mãos de Branco, que vai ter que recuar em alguns nomes, e ainda encontrar outros, antes da decisão de dispensar este ou aquele perna de pau.

Sim, meu amigos, futebol nunca foi ciência exata (é, ao contrário, uma caixinha de surpresas), mas há que se ter, sempre, uma explicação. Estapafúrdia, neurótica, apaixonada, sem fundamento. Mas uma única explicação. Alguém se habilita a desatar esse nó e decifrar a esfinge tricolor? A fidalguia, aturdida, agradece.

Até a próxima, que o Fluminense não está nas semifinais, mas o Marcão está!!!

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