
Era a turnê do disco “Electro-Cidade”, o segundo da banda, e que foi lançado exatamente na ocasião em que a mudança de Recife para São Paulo estava engatilhada. “Quando esse disco estava sendo montado, já pensávamos na mudança. Assim, ficaríamos mais perto da grande mídia, e geograficamente seria mais fácil para viajarmos”, conta André Frank, guitarrista, vocalista e espécie de faz-tudo no grupo. Mal o CD foi para as lojas, em agosto de 2004, e um caminhão recolheu roupas, utensílios domésticos, o estúdio já montado, computadores e tudo o mais que eles tinham. Era a chegada da nave dos Astronautas na maior metrópole do país.
Não por acaso, “Electro-Cidade” tem como tema central as agruras numa grande cidade. Excelente mote para uma banda que lança discos temáticos e tem o seu conceito predefinido. “Chegamos em São Paulo com um conceito de metrópole, estávamos longe do ambiente familiar, o que acarreta numa série de questionamentos que se apresentaram no disco”, explica André. “Electro-Cidade” é realmente um disco urbano e industrial na capa – na qual pessoas caminham ao lado de espigões de concreto – e nos títulos das 13 músicas: “Cidade cinza”, “Máquinas”, “Tecnologia”, “Fora de controle” e assim por diante. Musicalmente, os Astronautas aprimoraram aquilo que inventaram no disco de estréia e que virou marca registrada da banda: um rock pesado e moderno, cheio de guitarras e com inserções eletrônicas que são referências a bandas como Devo e Kraftwerk. Nada, no entanto, que retire do grupo o peso do rock. Clemente, líder do Inocentes e hoje integrante também da Plebe Rude, foi um dos primeiros a ter contato com os rapazes e define bem o tal conceito: “O Astronautas conseguiu criar uma identidade, juntando rock, ficção cientifica, Devo, psicodelia, realidade virtual e mais um montão de coisas. Mas sem navegar nas águas tranqüilas de quem reproduz o que outros já fizeram. Eles queimaram os neurônios e incluíram seus próprios temperos nessa receita e conseguiram um sabor próprio e único”, teoriza.
De “Electro-Cidade”, saíram nada menos que quatro videoclipes. “Sempre imaginamos o disco revertido em imagens, isso é muito forte. Numa época em que as rádios não trabalham com a eficiência necessária para acolher a demanda de produção artística do país, vemos na televisão e na imagem o nosso grande veículo de divulgação”, programa-se André. Um desses vídeos, o de “Cidade cinza”, foi selecionado para concorrer no VMB na categoria Videoclipe Independente. E quase saiu como vencedor. “Reza a lenda que ficamos em segundo. Eles não divulgam, é uma informação interna”, entrega André. “Nós concorremos num dos anos mais difíceis, com clipes de altíssima qualidade, como o do Wander Wildner, ‘Hippie-punk-rajneesh’; o do Rock Rocket, ‘Puro amor em alto mar’, e muitos outros”, lamenta, lembrando que o custo do clipe não ultrapassou R$ 150,00. Dinheiro bem investido: deu num grau de exposição absurdo. O VJ Rafa, da MTV, por exemplo, conheceu a banda graças a este vídeo. “O disco deles brotou pela redação, todo mundo aqui tinha o seu”, conta Rafa, “O Astronautas sempre foi uma aposta do jornalismo da MTV, que percebe talento e garra em todos os passos da banda.”
A turnê atingiu aqueles números expressivos citados lá em cima, mas quase ficou no meio do caminho. É que em pleno Goiânia Noise Festival, um dos primeiros shows, André Frank por pouco não se estatelou no chão por conta de uma contusão. “O ligamento do meu joelho rompeu na terceira música. Continuei tocando, até a décima, não sei como”, narra o artista, exemplificando o empenho usado no cumprimento de datas previamente agendadas. Sabem quando um jogador de futebol desaba em prantos? O guitarrista ainda ficou dois anos em campo antes de ir para a (inevitável) mesa de cirurgia. “O médico nem acreditou”, diverte-se hoje, recuperado do trauma.
Sorte do fã de rock de um modo geral, porque isso aumenta suas chances de ver a banda na estrada. Um show do Astronautas é uma experiência especial. Além de toda a eletrônica reproduzida dos discos, o palco recebe uma série de aparatos visuais que vão desde projeções ao fundo até a indumentária dos integrantes, incluindo macacões, máscaras contra gás e afins. “Não queríamos colocar tênis, camiseta e bermuda. A idéia é realmente fazer um show em que o cara saia impressionado”, explica André. “As roupas e os apetrechos vieram de uma vez só, já nos primeiros shows, porque quando pensamos em Astronautas queríamos fazer uma coisa diferente.” Ele se refere ao início do conjunto, quando toda essa história de trabalho conceitual surgiu quase por acaso. “Queríamos ter uma banda com conceito, um nome forte, uma imagem, mas não sabíamos o quê. Logo na letra da primeira música, apareceu a frase do livro ‘Eram os deuses astronautas?’ (Erich Von Däniken, 1968), naturalmente. Achamos esse nome legal, e partir daí desenvolvemos a história toda”, conta André. Festivais independentes como o Mada (Natal), Jambolada (Uberlândia), Calango (Cuiabá), Bananada (Goiânia), Rec Beat (Recife) e Porão do Rock (Brasília) receberam os rapazes e certamente não se arrependeram. Quem viu a banda no Porão 2005 e gostou foi Rodrigo, vocalista do Dead Fish: “Eu tinha acabado de chegar no pico e foi a primeira banda que vi na minha primeira vez no festival. O som estava muito pesado, os caras com o clássico uniforme vermelho e muito público. O auge foi ‘Cidade cinza’, de que eu gosto muito.” Clemente, que também estava lá, completa: “Os caras estavam ‘mordendo a beirada do palco’, tamanha era a garra com que eles se apresentaram.”
No disco, você vê a tecnologia afastando uns dos outros, as relações familiares diferentes, a política de uma outra forma, o romantismo sem a coisa poética... A vida é muito mais dura, crua, preto no branco
Mas tudo começou quando André cooptou mais três malucos que compraram a idéia. Antes, o inquieto guitarrista já tinha criado outros projetos, sendo o mais conhecido o Frank Jr., que na década de 90 fez história como uma das bandas que mais vendiam fitas demo (lembram disso?) em todo o Brasil. “Distribuímos mais de 3.500 cópias”, garante o guitarrista, considerando três títulos: “Franklândia” (1994); “Macaxeira mecânica” (1995) e “Pra cantar no chuveiro” (1996). O Frank Jr., que carregava a marca da mistureba punk/metal da época, chegou a vencer a etapa Norte/Nordeste do finado Festival Skol Rock, em 1997. Só que estávamos em 2003, o marco zero para o Astronautas, ano em que a banda emplacou “...De algum lugar do sistema solar”. Um disco de estréia que nunca chegou a ir para a fábrica. “Nem masterizado foi, e por isso tem uma sonoridade própria, com som de guitarra de bateria muito bons”, orgulha-se André. Também, o engenheiro de som foi Alex Zhort, aquele mesmo que aparece nos créditos de discos do Helmet e do Motörhead. De mão em mão, a bolachinha atingiu as 7.000 cópias. Músicas como “Ultravioleta”, “Orbital” e “Nós robôs” hoje são hits que não podem mais ficar de fora dos shows. “Com esse disco, fizemos um monte de coisas na televisão, arranjamos a primeira turnê. Aí, a gente se ligou: nosso lugar não era em Recife, precisávamos nos integrar no cenário nacional”, diz, trazendo o papo de volta à São Paulo. E, claro, ao “profético” novo disco, “O amor acabou!”.
Um dos desafios permanentes para o Astronautas é manter a temática da banda e, ao mesmo tempo, se renovar num conceito para um novo disco. Sem que o resultado soe como requentado, claro. Uma banda de rock com elementos eletrônicos e visuais, com melodia, refrão, guitarra e programação, tem muito o que variar de uma fase a outra. André usa a lógica dos outros discos para chegar ao terceiro: “O primeiro falava do espaço, metaforizando as pessoas, as cidades. O segundo já chegou na cidade mesmo: Tecnologia, modernidade... é um disco urbano, não espacial. No terceiro, fechamos um outro ciclo, passamos para o indivíduo.” Faz sentido. Mas que não se espere de “O amor acabou!” aquelas crises de relacionamento ou decepções amorosas em profusão. Com o Astronautas, o buraco é mais embaixo – ou noutra galáxia. “O disco não fala de sentimentos entre duas pessoas, é mais abrangente. Os tempos românticos acabaram, o mundo é muito mais duro e realista. É um disco de convicções pelo que acontece ao nosso redor, e dentro desse conceito cada música tem a sua característica”, teoriza com certa desilusão. A explicação, diga-se de passagem, já vem na primeira faixa, “É amigos,”, verdadeira carta de intenções que vai direto ao ponto, fazendo uma conexão do conceito do disco com a temática da banda como um todo. Na narrativa, a voz humana vai se transformando em voz de robô, esperando traduzir a mudança comportamental das pessoas: cada vez mais impessoais e práticas. Assim, delineia-se o disco. É a deixa para que a faixa-título, um hardcore mezzo eletrônico acelerado e impactante, com pouco mais de um minuto, faça o batismo do trabalho. Será dela o primeiro videoclipe do álbum.
André desenrola o conceito sob diversificadas óticas. Para ele, “O amor acabou!” encontra significado em outras searas. “No disco, você vê a tecnologia afastando uns dos outros, as relações familiares diferentes, a política de uma outra forma, o romantismo sem a coisa poética... A vida é muito mais dura, crua, preto no branco”, crava. Falando assim, até parece que se trata de um álbum pra baixo, deprê mesmo. Mas uma simples audição revela que, musicalmente, o caso é exatamente o contrário. “O conto”, por exemplo, é um rockão dos bons, bem no estilo Astronautas. Um riff pesado marca toda a música e faz o mais desanimado dos ouvintes querer dançar. A historinha é a de uma mulher que, ao morrer, cede o coração à pessoa amada. “Computadores idiotas”, com efeitos eletrônicos, mostra a fragilidade do homem ante as máquinas, mas tem melodia bastante agradável. “...De zero a 100”, outro exemplo, é bem a cara do pós-punk tipicamente oitentista. E isso sem falar na música-tema “Os Astronautas”, de refrão fácil e grudento, composta já há certo tempo e que se encaixou bem neste contexto. “Não é um disco pessimista porque nós não somos pessoas pessimistas”, explica André. “Temos uma corrente positivista total, achamos que tudo vai dar certo. Quando não dá, a gente contorna. O disco tem música para todos os gostos: mais eletrônica, mais acústica, mais pesada, tem sintetizadores”, completa. Mesmo “Até amanhã...”, que fecha o CD em tom de despedida e tem a morte como tema central, é melódica e deixa o ouvinte com vontade de apertar o play de novo. Fica um irresistível gostinho-de-quero-mais.
Você deve ter notado que até agora só André Frank falou, e que o texto não cita nada sobre os outros integrantes. É que o Astronautas tem formação mutante que gira em torno do guitarrista. Atualmente, além dele estão na banda Guga C. (baixo), produtor executivo e braço direito de André, e S.R. (bateria). Às vezes, podem tocar quatro ou cinco no grupo... Ou somente o próprio André, como aconteceu, por sinal, no processo de feitura do disco. “’O amor acabou!’ é um disco atípico porque, como estamos em processo de mudança da formação, pela primeira vez eu fui compositor, arranjador, letrista e gravei todos os instrumentos”, conta o chefe da tripulação da nave, no melhor estilo banda-de-um-homem-só. O cabra gravou as baterias, baixos, guitarras, vozes, teclados, seqüências e samples – ou seja, tudo mesmo. “Foi muito mais interessante porque destilou a essência da banda, e afinal ter a formação híbrida é uma grande virtude, agregamos pessoas que vão deixando informações”, conclui.
Com um histórico desses, a expectativa em torno de “O amor acabou!” é grande. Clemente pede mais guitarras: “Espero que eles não façam como o Devo, que trocou as guitarras por tecladinhos.” Rafa viaja mais: “Fico imaginando qual caminho a banda tomou, se mais metal, ou mais eletrônica...” Rodrigo já ouviu algumas músicas e aposta no peso: “Espero nada menos do que antes: som pesado, letras que surpreendem e criatividade.” Numa época em que o emocore se espalhou de tal forma pelo mundo, com músicas que insistem em falar de amores impossíveis e crises emocionais desmedidas, um disco que já no título sentencia o fim do amor só pode ganhar ainda mais força. “A gente chega com um título muito contundente nesse sentido, que ao mesmo tempo não tem nada a ver com aquilo e tem tudo completamente a ver, porque esse sentimento, se existe, é de uma outra forma”, acredita André, que, para o futuro, prevê um crescimento ainda maior para o Astronautas: “Vamos ter uma evolução tecnológica, vamos evoluir sempre. Nada cai do céu, é tudo na base de muita ralação, dando os passos certinhos, um de cada vez. E os próximos vão ser cada vez maiores.” O céu é o limite. Ninguém duvida.
Ter a formação híbrida é uma grande virtude, agregamos pessoas que vão deixando informações