Bola e Bola Mesmo
24 de abril de 2007
O beijo no gramado
Enquanto o Grêmio ressurgia das cinzas e o São Paulo amargava uma humilhação daquelas, no Maracanã uma simples botinada era resolvida com afagos e beijos entre os zagueiros e o juiz

Com essa ninguém contava. Um zagueiro dá uma pernada num atacante e o juiz caminha em sua direção com o intuito de aplicar-lhe um cartão amarelo. No caminho, entretanto, do nada, o homem de preto abre os braços e um sorriso conciliador. Já bem próximo de dois jogadores – viris crioulos molhados de suor – usa as mãos não para punir, mas faz com elas, em cada um, um afago com o carinho dos apaixonados. Súbito, um dos crioulos não resiste e dispara um beijo no rosto do juiz, na frente de mais de 50 mil pessoas que lotavam o Maracanã, o maior estádio do mundo. Por um segundo o juiz se comove, mas logo em seguida, arauto da disciplina, arrasta o beijoqueiro para o lado e imputa-lhe um cartão amarelo, sob a seguinte justificativa, bradada com rigor: “não pode me beijar! Não pode me beijar!”.

O texto acima poderia até ser uma fábula inventada por um escritor qualquer ou mesmo pelo Mestre, mas é o retrato fiel do fato que marcou o futebol no último final de semana. A cena protagonizada por Ubiracy Damásio (no papel de juiz apaixonado) e Cléberson (no de zagueiro beijoqueiro) e coadjuvada por Marcão (como o terceiro lado do triângulo amoroso) foi vista, revista e ironizada no meio esportivo em todo o mundo. O que teria passado pela cabeça do juiz naquele momento de ternura? Por que cargas d’água o zagueiro tascou-lhe um beijo, ao invés dos tradicionais xingamentos? Perguntas como essa ficarão eternamente sem respostas, simplesmente porque essas respostas não existem. Os três agiram de acordo com impulsos inexplicáveis, inerentes à alma do ser humano. Num lapso de razão, juiz e zagueiros, num mundo onde impera a violência gratuita, viveram alguns segundos de plena ternura. Para o mundo inteiro ver. Lindo.

Pane mesmo viveu o São Paulo, no sábado. Sem esperar, tomou uma sapecada de 4 a 1 do São Caetano, em pleno Morumbi. É verdade que, na semana passada, cravei que todos os grandes se recuperariam dos revezes das primeiras partidas decisivas dos campeonatos regionais. Faço isso, aliás, sempre farei, porque, tenho dito, para mim o grande sempre é o grande favorito diante do pequeno. Porque tem que ser assim e ponto final. Mas é fácil explicar a derrocada são-paulina fazendo uma simples análise técnica do time do São Paulo, como o mais ordinários dos comentaristas esportivos está acostumado a fazer. Pensem bem. Que time é esse do São Paulo que depende dos gols do seu goleiro para vencer os jogos? Qual o grande craque dessa equipe? O grande articulador de jogadas? Simplesmente não existe. Aquele que procurar destaques desse time vai achar um goleiro e um cabeça de área (Josué) e nada mais. Disse e repito, que o trunfo do São Paulo, infelizmente, está fora dos gramados: no departamento técnico, na organização e planejamento, e na figura emblemática de seu treinador, Muricy Ramalho. Só que nem sempre somente isso faz um time ser campeão. Por isso o (também fraco) São Caetano deitou e rolou.

Análise semelhante pode ser feita ao Santos de Luxemburgo. Como um time que se diz bom pode empatar duas vezes em zero a zero com o Bragantino, e passando, como aconteceu domingo, um sufoco dos diabos? Não pode, por isso o Santos é ruim, e depende justamente de seu treinador, ou alguém acha que um cabeça de área como Zé Roberto vai resolver a parada? Pode até resolver, mas isso é muito pouco para uma equipe das tradições do Santos. Resumo da ópera: a final do campeonato paulista (seria uma crise dessas que apontam sempre no futebol carioca?), que prometia o choque de titãs, deve ser mesmo é um jogo ruim de se ver, onde o tal duelo tático deve encher o saco do espectador. Favorito? O Santos, claro.

No Rio, diferentemente, a final promete. Primeiro porque se trata de um clássico. Depois, porque Flamengo e Botafogo, se não têm grandes equipes, possuem times arrumadinhos, cada qual à sua maneira. Embalado pela conquista da Taça Rio (a vitória do óbvio) o time de General Severiano entra com mais chances de vencer, além de jogar um futebol mais bonito. Essa virtude, no entanto, pode levar o time à derrocada, se taticamente o Flamengo for melhor. E essa é uma das especialidades de Ney Franco, armar times apenas razoáveis como o do Flamengo, com um equilíbrio tal entre os setores que acaba acarretando em vitórias magras e títulos satisfatórios. O problema é que não há, na equipe rubro-negra, um legítimo fazedor de gols. Coisa que pode mudar numa final, com o Maracanã certamente jogando gente pelo ladrão.

Chegado a uma jornada épica, o Grêmio sapecou quatro a zero no Caxias e vai disputar a final do Campeonato Gaúcho. Disse aqui, na semana passada, que até o Grêmio poderia reverter o revés da partida inicial. Porque trata-se de um time grande, e, honra seja feita, não existe nada de anormal numa vitória esmagadora como essa, sobre um time pequeno. Ok, é difícil isso acontecer quando se entra em campo precisando do resultado, mas isso é só um detalhe que passa batido nessa relação grande tem que vencer e pequeno deve perder, que não me canso de pregar. Baseado nela, torna-se óbvio o triunfo gremista sobre o Juventude.

Até a próxima que é proibido beijar!!!

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