Ian Anderson na coreografia que o
consagrou
O título da música que abriu o show de ontem no Citibank Hall, no Rio (executando-se uma introdução blues de flauta e violão), bem que poderia ter resumido a noite. O Jethro Tull não laça um álbum de músicas inéditas há uma pá de tempo, muito embora jamais tenha parado de fazer turnês, sempre com uma coletânea ou disco ao vivo gravado nos primórdios para oferecer. “Living In The Past” só não virou a alcunha do show porque depois dela Ian Anderson e sua turma, incluindo o guitarrista Martin Barre, companheiro de longa data, recebeu a violinista Ann Marie Calhoun, o que deu uma cara bem diferente ao bom e velho Jethro Tull.
Anderson e Martin Barre: o encontro
de dois veteranos do Jethro Tull
A violinista de raízes no country americano acabou contribuindo na banda para torná-la mais, digamos, orquestral. A primeira música em que ela tocou foi “Mo’z Art or Birnam Wood”, uma peça instrumental das mais cativantes, com um certo minimalismo e duelos variados entre ela, Ian Anderson e Martin Barre, dois a dois. Em outra nova, “The Donkey And The Drum”, também instrumental, que Anderson anunciou como “muito difícil de se tocar”, novos duetos mostraram uma banda revigorada por Ann Marie. Mais tarde, ela contribuiria decisivamente numa versão menos pesada de “Aqualung”, o grande clássico do Jethro em todos os tempos – o riff que entrou para a história saiu perdendo, mas a música renasceu neste novo arranjo.
Ian Anderson anunciou praticamente
todas as músicas...
Ian Anderson é evidentemente o dono da festa. Já em “Living In The Past” ele faz a coreografia que o consagrou, colocando um dos pés sobre o joelho. Em quase todas as músicas um comentário inicial sugere qual é a canção, além de fazer piadas nem sempre compreendidas pelo público, seja pelo rigor do humor britânico ou pelo sotaque carregado de Ian. O que importa é que a voz anasalada resiste ao passar do tempo – ele completa 60 anos em agosto. “Thick as a Brick”, uma das mais esperadas, parece idêntica à versão original, no que tange ao desempenho vocal, e é, como era de se esperar, uma das mais aplaudidas da noite. E de pé, já que a casa teve uma configuração esquisita, com cadeiras para alguns e uma grade para que os descadeirados vissem o show lá de trás.
... E ainda tocou harmônica em
muitas delas
Mas Ian, entretanto, não canta o tempo todo, e chega a sair do palco para que o instrumental evolua. É o que acontece em “Steel”, ao que parece outra das novas, em que Barre sola muito, indo de encontro Ann Marie, a essa altura já passeando pelo palco, e ainda num pout pouri de músicas do cancioneiro americano que homenageia/critica os Estados Unidos, já com Ian de volta. O encerramento ficou por conta da excepcional “Budapest”, tocada praticamente em seu formato original. E o bis teve uma versão arrasa-quarteirão para “Locomotive Breath”, com o peso que a música pede e sem deixar de lado o violino da moça, que não perdeu o rebolado. A essa altura, todos de pé na beira do palco vibravam com a performance da banda. No fim, depois de duas horas de show, além de uma lição de bom gosto, ficou a certeza de que o que é bom nunca perde atualidade, e de que um senhor sexagenário tem muito mais disposição do que muita banda de última hora por aí.