Bola e Bola Mesmo
03 de abril de 2007
Agora todo mundo é campeão do mundo
O reconhecimento de um título mundial conquistado pelo Palmeiras em 1951 é resultado de uma verdadeira obsessão por títulos de hoje que não valem mais do que aqueles conquistados no passado por clubes centenários.

Estamos vivendo um mundo de conclusões precipitadas e imediatistas. Os 15 minutos de fama vislumbrados há tempos por Andy Warhol já são uma realidade, e não só nas artes, mas também no futebol. Ou, por outra, futebol também é arte, e a certeza absoluta dos últimos segundos é a lei no mundo das celebridades. E no mundo de todo mundo, onde se insere o bom e velho esporte bretão.

Digo isso não como lamentação, mas numa constatação da realidade; não adianta reclamar, é assim e pronto. Por exemplo. O garoto aficionado por futebol hoje muitas vezes está mais ligado nas partidas da liga européia, onde jogam as grandes esquadras e se exibem os craques inquestionáveis, do que nos campeonatos nacionais. Muitos até compram as camisas de um Barcelona ou Real Madrid da vida, e sonham em ver o seu time campeão do mundo. Para eles, ser campeão do mundo, como Inter ou São Paulo, é a prioridade. É o que realmente interessa. Não dá valor, o torcedor do São Paulo das novas gerações, aos títulos estaduais, por exemplo. Uma derrota ou duas, como aconteceu recentemente, aliás, joga por terra uma invencibilidade enaltecida de quase 30 jogos – me corrijam os PVCs da vida.

Nem sempre foi assim. No Campeonato Carioca de 1906 tenho certeza de que, mais que vencer, a intenção era consolidar o novo esporte no Brasil. Mas havia, sim, a disputa, e evidentemente houve um vencedor – o Fluminense. E este título não pode simplesmente ser desvalorizado. Citei o tricolor como mero exemplo (e até pela proximidade), mas é evidente que essa história a se multiplica pelos quatro cantos de um país praticamente movido a futebol. Antes, em 1902, o São Paulo derrotava um tal Paulistano e se transformava no primeiro campeão paulista da história. Na época, este era o grande título a ser conquistado, e não pode jamais ser diminuído. Que se nutram de conhecimento as novas gerações para poderem valorizar a história do próprio clube, ou cairemos na esparrela do dito futebol de resultados.

Falei isso tudo porque quero dizer mesmo é outra coisa. Não me agrada nem um pouco essa obsessão pelo título mundial. De que vale um Flamengo da vida ostentar um desses títulos (conquistado com uma equipe fabulosa, é verdade), se não consegue superar, no seu quintal, o Fluminense? Se, antes de ser um clube de futebol, o Flamengo vivia a remar, sem rumo, pela Lagoa Rodrigo de Freitas? De que vale um São Paulo vencer mil vezes um campeonato mundial, tendo como artilheiro um goleiro, e apanhando de um São Caetano da vida? Futebol é o todo, o conjunto da obra, e melhor é o time que ganha tudo: o mundial, pelo título, glamour e grana envolvida, mas também o Estadual, a Copa do Brasil, o Nacional e o torneio início. Pelos mesmos motivos, ora bolas. É pra ganhar tudo, se orgulhar de tudo, dar valor a tudo.

Por isso a notícia do reconhecimento pela FIFA do título mundial conquistado pelo Palmeiras em 1951 não deixa de soar como algo patético. Porque isso em nada deixa a história do clube maior do que ela já é. O título vencido pelo verdão há mais de 50 anos sempre teve o seu valor, sobretudo na época em que foi conquistado, mas para sempre. O orgulho dessa conquista deve existir por si só, e não por causa de um reconhecimento oficial da FIFA. Isso nada muda, repito, a história do futebol brasileiro. A pesquisa contratada e, pelo visto, muito bem abalizada, tem lá seu valor histórico, mas é só, não pode ser pretexto para se brincar de Deus. O que aconteceu já está acontecido e ponto final. O resto é história.

Tanto que, já posso prever, assim como pouquíssimos palmeirenses nunca se deram conta desse título, tão logo o calor da notícia do tal reconhecimento da FIFA se esvaia, cairá certamente no esquecimento, da mesma forma que as recentes conquistas são deixadas de lado em função de resultados ainda mais novos. É o nefasto do culto do novo pelo novo verificado no meio musical (de onde vim, aliás), aplicado desta feita ao futebol. Ou seja, se reescreve a história a troco de que? Pergunte se o botafoguense deixou de cantar o hino de seu clube a custa de uma decisão da justiça desportiva, tomada quase cem anos depois. Não mesmo. Aliás, alguém se lembra dessa outra tentativa de ser Deus? Talvez só o Bebeto de Freitas mesmo. E, lembre-se, em comum Botafogo e Palmeiras têm ainda um passado recente de rebaixamento. Não é à toa, não...

Até a próxima que a próxima vítima voltou a ser o Gama!!!

em abril 4, 2007 11:02 PM [Menezes]

Totalmente absurdo.

Agora são 2 paulistas com títulos que não servem pra nada.

Abaixo FIFA. Volta copa TOYOTA.



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